Jogos Vorazes
Capítulo 26
– Um. – Talvez esteja errada. – Dois. – Talvez eles não liguem se nós dois morrermos. –
Três! – Tarde demais para mudar de ideia. Ergo minha mão até a boca, dando uma última olhada para o mundo. As amoras estão quase dentro de minha boca quando os trompetes começam a soar.
A voz frenética de Claudius Templesmith berra por cima deles.
– Parem! Parem! Senhoras e senhores, tenho o prazer de anunciar os vitoriosos da septuagésima quarta edição dos Jogos Vorazes, Katniss Everdeen e Peeta Mellark! Eu apresento... os tributos do Distrito 12!
Cuspo as amoras, esfregando a língua com a ponta da camisa para ter certeza de que nenhum resquício da fruta permanece em meu corpo. Peeta me puxa para o lago onde nós dois lavamos nossas bocas e em seguida caímos nos braços um do outro.
– Você não engoliu nada? – pergunto a ele.
Ele balança a cabeça.
– E você?
– Imagino que já estaria morto a uma hora dessas se tivesse – digo. Posso ver seus lábios se movendo em resposta, mas não consigo ouvi-lo devido ao barulho da multidão na Capital, que estão transmitindo ao vivo pelos alto-falantes.
O aerodeslizador se materializa acima de nossas cabeças e duas escadas são jogadas, só que não solto Peeta de maneira nenhuma. Mantenho um braço em volta dele enquanto o ajudo a subir, e cada um de nós coloca um pé no primeiro degrau da escada. A corrente elétrica nos paralisa no local, e, dessa vez, estou contente porque não tenho lá muita certeza se Peeta consegue realmente se sustentar a viagem toda. E, como meus olhos estavam olhando para baixo, vejo que, apesar de nossos músculos estarem imóveis, nada está impedindo o sangue de sair da perna de Peeta. Com toda certeza, assim que a porta se fechar atrás de nós e a corrente parar, ele vai desabar inconsciente no chão.
Meus dedos ainda estão agarrando a parte de trás da jaqueta com tanta força que no momento em que ele é levado, ela se rasga, deixando-me com uma ponta de tecido preto na mão. Médicos em roupas brancas esterilizadas, com máscaras e luvas, já prontos para a cirurgia, entram em ação. Peeta está pálido demais e ainda sobre a mesa prateada. Tubos e fios estão saindo de todos os lados e, por um momento, me esqueço de que estamos fora dos Jogos e vejo os médicos simplesmente como mais uma ameaça, mais um bando de bestas com o intuito de matá-lo. Petrificada, corro até ele, mas sou agarrada e conduzida a outra sala, e uma porta de vidro nos divide. Bato no vidro, gritando a plenos pulmões. Todos me ignoram, exceto um assessor da Capital que surge atrás de mim e me oferece algo para beber.
Desabo no chão, meu rosto grudado à porta, mirando o copo de cristal em minha mão sem conseguir compreender nada. Gelado, cheio de suco de laranja, um canudo branco com umas ondulações. Como o objeto soa estranho em minhas mãos imundas e ensanguentadas, com minhas unhas negras e as várias cicatrizes. Minha boca se enche de água ao sentir o aroma, mas eu coloco o copo cuidadosamente no chão, sem conseguir confiar em nada tão limpo e bonitinho.
Através do vidro, vejo os médicos trabalhando incessantemente em Peeta, suas testas enrugadas de concentração. Vejo o fluxo de líquidos bombeado nos tubos, observo um paredão de números e luzes que não significam coisa alguma para mim. Não tenho certeza, mas tenho a impressão de que o coração dele parou duas vezes.
É como estar novamente em casa, naquelas ocasiões em que uma pessoa
irremediavelmente destroçada por alguma explosão nas minas, ou alguma mulher em seu terceiro dia de trabalho de parto, ou uma criança esfomeada lutando contra a pneumonia são recebidas por minha mãe e Prim com essas mesmas rugas de preocupação nos rostos. É a hora de correr para a floresta, para me esconder nas árvores até que o paciente há muito já tenha ido embora, e em outra parte da Costura os martelos já estejam preparando o caixão.
Mas estou presa aqui não só pelas paredes do aerodeslizador como pela mesma força que segura aqueles que amam aos que estão para morrer. Quantas vezes não os vi, ao redor da mesa de nossa cozinha, e ficava imaginando: Por que não vão embora? Por que ficam para ver?
E agora sei a resposta. É porque não há alternativa.
Tomo um susto quando pego alguém olhando diretamente para mim a alguns centímetros de distância e então me dou conta de que é meu próprio rosto refletido no vidro. Olhos selvagens, bochechas descarnadas, meus cabelos um emaranhado só. Virulenta. Feroz. Furiosa. Não é à toa que todos estão mantendo uma distância segura de mim.
Percebo em seguida que nós aterrissamos de volta sobre o telhado do Centro de Treinamento e eles estão levando Peeta, mas me deixando atrás da porta. Começo a me jogar contra o vidro, berrando, e acho que acabei de vislumbrar uma cabeleira cor-de-rosa – deve ser Effie, tem de ser Effie vindo em meu socorro – quando a agulha me penetra por trás.
Quando acordo, a princípio estou com medo de me mexer. Todo o teto brilha com uma luz amarela suave, permitindo-me ver que estou em uma sala onde só existe minha cama.
Nenhuma porta, nenhuma janela está visível. O ar cheira a algo forte e antisséptico. Meu braço direito está com vários tubos atados à parede atrás de mim. Estou nua, mas a roupa de cama massageia minha pele. Tento em vão erguer minha mão esquerda acima da coberta. Não só a mão foi limpa como também as unhas estão perfeitamente cortadas e as cicatrizes das queimaduras estão menos proeminentes. Toco minha bochecha, meus lábios, a cicatriz franzida acima de minha sobrancelha, e estou começando a percorrer os dedos pelos cabelos sedosos quando fico paralisada. Apreensivamente, balanço os cabelos acima de meu ouvido esquerdo. Não, não foi uma ilusão. Estou ouvindo novamente.
Tento me sentar, mas uma espécie de tala restritiva em volta da minha cintura me impede de erguer-me mais do que alguns centímetros. O confinamento físico me faz entrar em pânico e estou tentando me erguer para passar os quadris por dentro da tala, quando uma parte da parede se abre e a garota ruiva Avox entra no recinto carregando uma bandeja. Acalmo-me ao vê-la e paro de tentar escapar. Quero lhe fazer um milhão de perguntas, mas tenho medo de que uma demonstração de familiaridade possa causar-lhe algum problema. Obviamente, estou sendo monitorada de perto. Ela coloca a bandeja em cima de minhas coxas e aperta algum botão que me coloca na posição sentada. Enquanto ela ajusta meus travesseiros, arrisco uma pergunta. Pronuncio em voz alta, com tanta clareza quanto permite minha voz rouca, de modo que nada possa parecer secreto.
– Peeta sobreviveu?
Ela faz que sim com a cabeça e, enquanto desliza a colher para minha mão, sinto a pressão da amizade.
Imagino que ela não tenha desejado minha morte, afinal. E Peeta sobreviveu. É claro que sobreviveu. Com todo aquele equipamento caro que eles possuem aqui... Mas ainda assim, eu não estava certa até agora.
Quando a Avox sai, a porta se fecha atrás dela sem fazer nenhum ruído e me volto
vorazmente para a bandeja. Uma tigela com um caldo claro, uma pequena porção de molho de maçã e um copo de água. Isso é tudo?, penso, mal-humorada. Meu jantar de retorno não deveria ser um pouco mais espetacular? Mas descubro que é uma dificuldade terminar a parca refeição que está diante de mim. Meu estômago parece haver encolhido até ficar do tamanho de uma castanha, e preciso imaginar quanto tempo estive inconsciente porque na última manhã que passei na arena não tive nenhuma dificuldade para ingerir uma quantidade bem razoável de comida no café da manhã. Normalmente, há um intervalo de alguns dias entre o fim da competição e a apresentação do vitorioso para que eles possam recuperar a integridade física do esfomeado e massacrado restolho humano. Em algum lugar, Cinna e Portia devem estar criando nossos modelitos para as aparições públicas. Haymitch e Effie estarão preparando o banquete para nossos patrocinadores, revisando as perguntas para nossas entrevistas finais.
Lá em casa, o Distrito 12 estará provavelmente um caos, com todos tentando organizar as comemorações de retorno ao lar para mim e para Peeta, já que a última vez que isso aconteceu foi há quase trinta anos.
Casa! Prim e minha mãe! Gale! Até a imagem do gato velho e horroroso de Prim me faz sorrir. Logo estarei em casa!
Quero sair dessa cama. Ver Peeta e Cinna, descobrir mais a respeito do que está acontecendo. E por que eu não deveria sair daqui? Estou me sentindo bem. Mas assim que começo a tentar escapar da tala, sinto um líquido frio entrando em minha veia por um dos tubos e perco a consciência quase imediatamente.
Isso acontece de modo intermitente por uma quantidade de tempo indeterminada. Acordo, como e, mesmo resistindo ao impulso de tentar escapar da cama, sou nocauteada novamente.
Pareço estar imersa em um estranho e contínuo crepúsculo. Apenas algumas coisas são registradas por minha mente. A garota ruiva Avox não voltou desde que me trouxe a comida, minhas cicatrizes estão desaparecendo e... será que estou imaginando coisas ou estou mesmo ouvindo um homem berrando? Não no sotaque da Capital, mas nas cadências mais rudes de meu distrito. E não consigo evitar uma sensação vaga e reconfortante pelo fato de que alguém está cuidando de mim.
Então, finalmente, chega a hora em que acordo e não há mais nada plugado em meu braço direito. A restrição em volta de minha cintura foi removida e estou livre para me mover.
Começo a me sentar, mas sou tomada de surpresa pela visão de minhas mãos. A perfeição da pele, macia e brilhante. Não apenas as cicatrizes da arena, mas também todas aquelas acumuladas ao longo de tantos anos caçando, desapareceram sem deixar vestígios. Minha testa parece uma seda, e quando tento encontrar a queimadura em minha panturrilha, não há mais nada.
Deslizo minhas pernas para fora da cama, ansiosa para saber como vão sustentar meu peso e as encontro fortes e firmes. Aos pés da cama encontra-se um traje que me deixa perplexa.
Foi usado por um dos tributos na arena. Encaro-o como se o objeto possuísse dentes até me lembrar que, é claro, isso é o que vestirei para saudar minha equipe.
Visto-me em menos de um minuto e estou irrequieta na frente da parede, onde sei que há uma porta mesmo que não consiga enxergá-la, quando, subitamente, ela se abre. Piso num corredor amplo e deserto que parece não possuir mais nenhuma porta. Mas deve possuir. E
atrás de uma delas deve estar Peeta. Agora que estou consciente e podendo me mover, estou cada vez mais ansiosa em relação a ele. Ele deve estar bem, senão a Avox não teria dito. Mas preciso vê-lo com meus próprios olhos.
– Peeta! – grito, já que não há mais ninguém a quem perguntar. Escuto meu nome em resposta, mas não é a voz dele. É uma voz que, primeiro provoca irritação e depois impaciência. Effie.
Eu me volto e vejo todos esperando em uma grande câmara ao fim do corredor – Effie, Haymitch e Cinna. Meus pés partem sem hesitação. Talvez um vitorioso devesse demonstrar mais comedimento, mais superioridade, principalmente quando sabe que aparecerá na televisão, mas não dou a mínima. Corro até eles e surpreendo até a mim mesma ao me lançar nos braços de Haymitch em primeiro lugar. Quando ele sussurra em meu ouvido “Bom trabalho, docinho”, seu tom não soa sarcástico. Effie está um pouco lacrimosa e não para de acariciar meus cabelos e de falar como contou para todo mundo que nós éramos verdadeiras pérolas. Cinna apenas me abraça com força e não diz nada. Então, noto que Portia está ausente e tenho um mau pressentimento.
– Onde está Portia? Ela está com Peeta? Ele está bem, não está? Enfim, ele está vivo, não está? – deixo escapar.
– Ele está ótimo. Só que eles querem que vocês se reencontrem ao vivo na cerimônia – diz Haymitch.
– Ah, é isso? – O momento de horror em que novamente imaginei que Peeta houvesse morrido se esvai. – Imagino que eu mesma gostaria de ver tudo isso.
– Vá com Cinna. Ele precisa te aprontar – diz Haymitch.
É um alívio ficar a sós com Cinna, sentir seu braço protetor em volta de meus ombros enquanto me leva para longe das câmeras por algumas passagens até um elevador que nos conduz ao saguão do Centro de Treinamento. Então, o hospital fica bem no subterrâneo, mais abaixo até do que o ginásio onde os tributos treinaram a preparação de nós e o arremesso de lanças. As janelas do saguão estão escuras, e um punhado de guardas está a postos.
Ninguém mais está lá para nos ver entrar no elevador dos tributos. Nossos passos ecoam no vazio. E enquanto subimos até o décimo segundo andar, os rostos de todos os tributos que jamais voltarão surgem em minha cabeça e sinto meu peito se contraindo.
Quando a porta do elevador se abre, Venia, Flavius e Octavia me abraçam, falando com tanta rapidez e com tanto arrebatamento que mal consigo entender as palavras. Mas o sentimento é claro. Eles estão verdadeiramente emocionados por me ver e estou feliz por vê-los também, embora não da mesma maneira que estava ao ver Cinna. Esse encontro seria mais como rever um trio de animais de estimação ao fim de uma jornada particularmente árdua.
Eles me empurram para dentro da sala de jantar e sou agraciada com uma refeição de verdade – rosbife, ervilhas e pãezinhos macios –, embora minhas porções ainda estejam estritamente controladas. Porque quando peço para repetir, não sou atendida.
– Não, não e não. Eles não querem que toda essa comida seja regurgitada em pleno palco –
diz Octavia, mas sem que ninguém veja, ela me passa um pãozinho extra por baixo da mesa para que eu saiba que ela está do meu lado.
Voltamos para meu quarto e Cinna desaparece por um tempo enquanto a equipe de preparação me apronta.
– Oh, eles fizeram um polimento realmente fantástico em seu corpo – diz Flavius, com inveja.
– Não ficou nenhuma falha na sua pele.
Mas quando olho para meu corpo nu no espelho, tudo o que consigo ver é como estou
magra. Enfim, tenho certeza de que estava bem pior quando voltei da arena, mas posso contar minhas costelas com facilidade.
Eles cuidam dos controles do chuveiro para mim, e começam a trabalhar em meus cabelos, unhas e maquiagem depois que termino o banho. Eles falam tanto, e sem parar, que quase não consigo responder a todos, o que é bom, já que não estou muito disposta a conversar. É
engraçado, porque apesar de eles estarem tagarelando sobre os Jogos, só falam sobre onde estavam ou o que estavam fazendo ou o que sentiram quando determinado evento ocorreu.
“Eu ainda estava na cama!” “Eu tinha acabado de tingir as sobrancelhas!” “Eu juro que quase desmaiei!” Tudo se refere a eles, não aos jovens que estavam morrendo na arena.
Não nos comportamos assim a respeito dos Jogos no Distrito 12. Nós cerramos os dentes e assistimos porque devemos tentar voltar ao trabalho o mais rápido possível quando a transmissão acaba. Para não odiar a equipe de preparação, simplesmente me desligo de quase tudo o que eles estão dizendo.
Cinna volta com o que parece ser um despretensioso vestido amarelo nos braços.
– Você desistiu de todo aquele aparato da “garota quente”? – pergunto.
– Você que está dizendo isso – diz ele, e desliza o vestido por cima de minha cabeça.
Imediatamente, noto o revestimento sobre meus seios, adicionando curvas que a fome roubou de meu corpo. Minhas mãos vão até o peito e franzo as sobrancelhas.
– Eu sei – diz Cinna, antes que eu possa reclamar. – Mas os Idealizadores dos Jogos queriam te alterar cirurgicamente. Haymitch teve uma discussão pesada com eles sobre isso.
Esse foi o acordo. – Ele me interrompe antes que eu possa olhar meu reflexo. – Espera aí, não esqueça dos sapatos. – Venia me ajuda a calçar um par de sandálias de couro baixas e me viro para o espelho.
Ainda sou a “garota quente”. O tecido diáfano brilha suavemente. Até o mais leve movimento no ar faz meu corpo ondular. Comparando, o traje da carruagem parece vulgar e o vestido da entrevista parece artificial demais. Nesse vestido, dou a impressão ilusória de estar vestindo uma vela acesa.
– O que você acha? – pergunta Cinna.
– Acho que esse é o melhor de todos – respondo. Quando consigo desviar meus olhos do tecido bruxuleante, estou mais ou menos num estado de choque. Meus cabelos estão soltos, mantidos presos por uma simples fitinha. A maquiagem suaviza e preenche os ângulos duros de meu rosto. Um esmalte claro cobre minhas unhas. O vestido sem mangas está justo nas costelas, não na cintura, eliminando quase que por completo toda a ajuda que o revestimento pudesse porventura dar à minha aparência. A bainha está bem na altura dos joelhos. Sem salto alto, dá para ver minha estatura real. Em poucas palavras, estou parecendo uma garota.
Uma garota jovem. Catorze anos no máximo. Inocente. Inofensiva. Sim, é chocante Cinna ter bolado esse vestido se considerarmos que eu acabei de vencer os Jogos.
Esse é um visual bem calculado. Nenhuma das produções de Cinna é arbitrária. Mordo meu lábio tentando destrinchar sua motivação.
– Imaginei que Peeta fosse gostar mais desse aí – responde ele, com cuidado.
Peeta? Não, isso não tem nada a ver com Peeta. Tem a ver com a Capital e com os Idealizadores dos Jogos. E com o público. Embora eu ainda não entenda o propósito de Cinna, o vestido é uma lembrança de que os Jogos ainda não estão totalmente encerrados. E, por trás de sua réplica benigna, sinto um alerta. Ou algo que ele não pode nem mesmo mencionar
na frente de sua própria equipe.
Entramos no elevador e subimos até o nível em que realizamos nosso treinamento. É de praxe que o vitorioso e sua equipe de apoio surjam da parte de baixo do palco. Primeiro a equipe de preparação, seguida do acompanhante, do estilista, do mentor e, finalmente, do vitorioso. Só que nesse ano, com dois vitoriosos que compartilham um acompanhante e um mentor, a coisa toda teve de ser repensada. Estou em uma área parcamente iluminada abaixo do palco. Uma placa de metal novinha em folha foi instalada para me transportar até o palco.
Ainda é possível ver pequenas pilhas de serragem e sentir o cheiro de tinta fresca. Cinna e a equipe de preparação se despem para vestir seus próprios trajes e tomar suas posições, deixando-me sozinha. Na penumbra, vejo uma parede improvisada a mais ou menos dez metros de distância e imagino que Peeta está atrás dela.
O ribombar da multidão é ensurdecedor, de modo que não reparo a presença de Haymitch até ele me tocar o ombro. Dou um salto, surpresa, metade de meu ser ainda vivendo as agruras da arena, presumo.
– Calma, sou eu. Vamos dar uma olhada nisso – diz Haymitch. Estendo meus braços e dou uma voltinha. – Dá pro gasto.
Não é exatamente um elogio.
– Mas? – pergunto.
Os olhos de Haymitch percorrem o espaço úmido e desconfortável em que estou, e ele parece tomar uma decisão.
– Mas nada. Que tal um abraço pra dar sorte?
Tudo bem, esse é um pedido um tanto ou quanto esquisito da parte de Haymitch mas, afinal, somos vitoriosos. Talvez um abraço para dar sorte caia bem. Só que, quando eu coloco meus braços em volta de seu pescoço, fico presa em seu abraço. Ele começa a falar, muito rapidamente, muito tranquilamente em meu ouvido, meus cabelos escondendo seus lábios.
– Escuta. Vocês estão encrencados. Estão falando por aí que a Capital está furiosa com vocês por terem armado pra cima deles na arena. A única coisa que eles não conseguem suportar é ser motivo de riso e eles são a piada de Panem no momento.
Sinto o pavor tomando conta de mim, mas rio como se Haymitch estivesse dizendo algo totalmente agradável porque não há nada cobrindo minha boca.
– E daí?
– A única chance de vocês escaparem dessa é provar que vocês estavam tão loucamente apaixonados um pelo outro que não podem ser responsabilizados por suas ações – diz Haymitch, puxando-me de volta e ajustando a fitinha em meu cabelo. – Sacou, docinho? – Ele poderia estar falando sobre qualquer outra coisa agora.
– Saquei – respondo. – Você contou isso pra Peeta?
– Não preciso – diz Haymitch. – Ele já sacou.
– E você acha que eu não? – pergunto, aproveitando a oportunidade para endireitar uma chamativa gravata-borboleta vermelha que Cinna deve ter empurrado para cima dele.
– Desde quando o que eu acho tem alguma importância? – responde Haymitch. – Melhor a gente ir logo pros nossos lugares. – Ele me conduz ao círculo de metal. – Essa é a sua noite, docinho. Aproveite. – Ele me beija a testa e desaparece na penumbra.
Puxo a saia, desejando que fosse mais longa, que cobrisse os machucados em meus joelhos. Então, percebo que não há sentido nisso. Todo o meu corpo está tremendo como vara
verde. Por sorte ele está fadado ao entusiasmo. Afinal, é minha noite.
O cheiro úmido e rançoso do espaço abaixo do palco ameaça me dar ânsias de vômito. Um suor pegajoso surge em minha pele e não consigo me livrar da sensação de que os estrados acima de minha cabeça estão a ponto de cair e me enterrar viva embaixo dos destroços.
Assim que saí da arena, assim que os trompetes soaram, deveria estar a salvo. Daquele momento em diante. Pelo resto da vida. Mas se o que Haymitch disse é verdade, e ele não tem nenhum motivo para mentir, jamais estive em um local tão perigoso em toda a minha vida.
É muito pior do que ser caçada na arena. Lá, o máximo que poderia acontecer era eu morrer. Fim de papo. Mas aqui, Prim e minha mãe, Gale, o povo do Distrito 12, todas as pessoas de quem gosto podem ser punidas se eu não conseguir representar o papel da garota-louca-de-amor que Haymitch sugeriu.
Mas ainda tenho uma chance. Engraçado, na arena, quando coloquei aquelas amoras na boca, só estava pensando em enganar os Idealizadores dos Jogos, não estava pensando em como minhas ações iriam refletir na Capital. Mas os Jogos Vorazes são sua arma e ninguém pode se sentir capaz de derrotá-los. Então, agora a Capital agirá como se eles tivessem estado no controle o tempo todo. Como se tivessem orquestrado todo o evento, até o duplo suicídio. Mas isso só funcionará se eu desempenhar meu papel junto com eles.