Jogos Vorazes
Capítulo 7
– Ah, desculpa – começo a dizer. – Eu deveria ter devolvido isso a Cinna. Sinto muito. Você pode levar pra mim?
Ela evita meus olhos, balança levemente a cabeça e se encaminha para a porta.
Eu havia planejado dizer a ela que sentia muito pelo jantar. Mas sei que minhas desculpas vão muito mais além; que estou envergonhada por não ter tentado ajudá-la na floresta; que deixei a Capital matar o garoto e mutilá-la sem erguer um dedo contra isso.
Como se eu estivesse assistindo aos Jogos.
Chuto sapatos e pulo debaixo das cobertas com a roupa do corpo. O tremor não parou.
Talvez a garota não tenha se lembrado de mim. Mas sei que ela se lembrou. Você não esquece o rosto da pessoa que representou sua última esperança. Cubro a cabeça com as cobertas, como se a ação pudesse me proteger da garota ruiva que não pode falar. Mas consigo sentir os olhos dela me encarando, atravessando as paredes e as portas, e as roupas de cama.
Imagino se ela vai se divertir assistindo à minha morte.
Meu cochilo está recheado de sonhos perturbadores. O rosto da garota ruiva se mistura com imagens sangrentas de edições anteriores dos Jogos Vorazes, com minha mãe afastada e inalcançável, com Prim esquelética e aterrorizada. Acordo berrando para que meu pai corra porque a mina está explodindo em um milhão de pedacinhos mortíferos de luz.
A manhã está surgindo na janela. A Capital está com um ar enevoado e fantasmagórico.
Minha cabeça dói e devo ter mordido a parte interna de minha bochecha durante a noite.
Passo a língua na carne áspera e sinto gosto de sangue na boca.
Lentamente, arrasto-me da cama até o chuveiro. Aperto arbitrariamente alguns botões no painel de controle e acabo saltando no boxe quando jatos de água gelada e quente alternam seus ataques sobre meu corpo. Então, sou inundada de espuma com aroma de limão que sou obrigada a esfregar no corpo com uma pesada e áspera escova. Bom, pelo menos meu sangue está fluindo.
Depois de me secar e aplicar uma loção hidratante, encontro um traje que foi deixado para mim em frente ao closet. Calças pretas justas, uma túnica lilás de mangas compridas e sapatos de couro. Penteio os cabelos com uma única trança caindo pelas costas. Essa é a primeira vez em que estou parecendo comigo mesma desde a manhã da colheita. Nada de penteado ou roupas extravagantes, nada de pelerines. Somente eu. Como se estivesse indo para a floresta. Isso me acalma.
Haymitch não nos deu uma hora exata para o encontro no café da manhã e ninguém me contatou hoje de manhã, mas estou faminta, de modo que me encaminho para a sala de jantar na esperança de encontrar comida. Não fico decepcionada. Apesar da mesa vazia, um longo aparador que fica ao lado foi abastecido com pelo menos vinte tipos de iguarias. Um jovem, um Avox, está atento nas proximidades da mesa. Quando pergunto se posso me servir, ele balança a cabeça em aquiescência. Encho um prato com ovos, salsichas, bolos cobertos com uma densa camada de geleia de laranja e fatias de melão. À medida que ponho tudo para dentro, observo o sol se erguendo sobre a Capital. Faço um segundo prato com grãos quentes envoltos no vapor de bife cozido. Por fim, encho um prato com pãezinhos e sento-me à mesa, cortando-os em pequenos pedaços e mergulhando-os no chocolate quente, da mesma maneira que Peeta havia feito no trem.
Minha mente vagueia até minha mãe e Prim. Elas já devem estar de pé. Minha mãe preparando o angu que elas comem de manhã. Prim tirando o leite da cabra antes de ir para a escola. Há apenas duas manhãs, eu estava em casa. Será isso mesmo? Sim, apenas duas manhãs. E agora, como a casa parece vazia, mesmo a distância. O que eles disseram ontem à noite sobre minha estreia feérica nos Jogos? Será que isso os deixou esperançosos ou simplesmente aumentou sua sensação de terror quando viram a realidade de vinte e quatro tributos enfileirados, cientes de que somente um poderá escapar com vida?
Haymitch e Peeta aparecem, me dão bom-dia e enchem seus pratos. Fico irritada ao ver que Peeta está vestindo exatamente o mesmo traje que eu. Preciso falar uma coisa com Cinna:
essa ideia de nos transformar em gêmeos vai acabar explodindo em nossas cabeças assim que os Jogos começarem. Eles devem saber disso, com toda certeza. Então, lembro-me de Haymitch me aconselhando a fazer exatamente o que os estilistas me dissessem para fazer.
Se fosse qualquer um, exceto Cinna, talvez ficasse tentada a ignorar o conselho. Porém, depois do triunfo da noite de ontem, não tenho muito espaço para criticar suas escolhas.
Estou nervosa em relação ao treinamento. Haverá três dias nos quais todos os tributos treinarão juntos. Na última tarde, nós teremos uma chance de nos apresentar sozinhos diante dos Idealizadores do Jogos. A simples ideia de ficar cara a cara com os outros tributos já me deixa enjoada. Viro e reviro em minhas mãos o pãozinho que acabei de tirar da cesta, mas meu apetite sumiu.
Após terminar de comer várias porções de cozido, Haymitch empurra o prato com um suspiro. Pega um frasco no bolso, dá um longo gole e apoia os cotovelos sobre a mesa.
– Vamos começar a trabalhar. Treinamento. Primeira coisa, se vocês concordarem, vou treinar os dois separadamente. Decidam agora.
– Por que nos treinar separadamente? – pergunto.
– Digamos que você tenha uma habilidade secreta que não queira que o outro conheça –
sugere Haymitch.
Troco olhares com Peeta.
– Não tenho nenhuma habilidade secreta – diz ele. – E já sei quais são as suas, certo?
Quero dizer, já comi muitos dos seus esquilos.
Jamais imaginei Peeta comendo os esquilos que caço. De alguma maneira, sempre visualizei o padeiro se afastando rapidamente e fritando-os para consumo próprio. Não por ganância, mas porque as famílias da cidade normalmente comem as carnes caras vendidas nos açougues. Bife de boi, frango e cavalo.
– Você pode nos treinar juntos – digo a Haymitch. Peeta balança a cabeça, concordando.
– Tudo bem, então por que vocês não me dão alguma ideia do que são capazes de fazer?
– Não sou capaz de fazer nada – informa Peeta. – A não ser que fazer pães adiante alguma coisa.
– Sinto muito, mas acho que não serve pra muita coisa. Katniss. Já sei que você tem habilidade com facas – diz Haymitch.
– Não muita. Mas sei caçar – completo. – Com arco e flecha.
– E você é boa nisso? – pergunta Haymitch.
Preciso pensar a respeito. Tenho colocado comida na mesa de casa há quatro anos, o que não é pouca coisa. Não sou tão boa quanto meu pai era, mas ele tinha muito mais experiência do que eu. Minha mira é melhor que a de Gale, mas tenho mais experiência do que ele. Ele é um gênio com armadilhas e arapucas.
– Dá pro gasto – respondo.
– Ela é excelente – diz Peeta. – Meu pai compra os esquilos dela. Ele sempre comenta sobre como as flechas nunca penetram o corpo. Ela atinge todos os bichos nos olhos. É a mesma coisa com os coelhos que ela vende no açougue. Ela consegue abater até gamos.
Essa avaliação que Peeta faz das minhas habilidades me pega totalmente de surpresa.
Primeiro por ele ter notado e segundo por ele estar me incentivando.
– O que você está fazendo? – pergunto a ele, com ares de suspeita.
– O que você está fazendo? Se ele vai te ajudar, ele precisa saber do que você é capaz.
Não se subestime – devolve Peeta.
Não sei por quê, mas isso tudo está me irritando um pouco.
– E você? Já te vi no mercado. Você consegue levantar sacos de farinha de 45 quilos –
rebato. – Diga isso a ele. Isso não é pouca coisa.
– Eu sei, e tenho certeza de que na arena vai ter um monte de sacos de farinha pra eu jogar nas pessoas. Isso não é a mesma coisa que usar uma arma. Você sabe que não – retruca ele.
– Ele é bom em luta livre – informo a Haymitch. – Ele ficou em segundo lugar no campeonato da escola ano passado. Só perdeu pro irmão.
– E pra que serve isso? Quantas vezes você viu alguém matar alguém lutando? – pergunta Peeta, chateado.
– Sempre tem algum combate corpo a corpo. Basta você aparecer com uma faca que já vai ter alguma chance. Se eu for pega assim estou morta! – Consigo ouvir minha própria voz se elevando com a raiva que estou sentindo.
– Mas isso não vai acontecer! Você vai estar empoleirada em alguma árvore comendo esquilo cru e acertando as pessoas com suas flechas. Você sabe o que minha mãe disse pra mim quando veio se despedir? Só pra me dar ânimo? Ela disse que podia ser que o Distrito 12
tivesse finalmente um vencedor dessa vez. Depois, percebi que ela não estava se referindo a mim, mas a você! – explode Peeta.
– Ah, ela estava se referindo a você mesmo. – Balanço a mão, como se estivesse desconsiderando a afirmação.
– Ela disse: “Ela é uma sobrevivente, aquela lá.” Ela disse ela – repete Peeta.
Isso me faz dar um freio na discussão. Será que a mãe dele realmente disse isso a meu respeito? Será que ela preteriu o próprio filho em relação a mim? Vejo a dor nos olhos de Peeta e me dou conta de que ele não está mentindo.
De repente, transporto-me para os fundos da padaria e consigo sentir o frio da chuva escorrendo pelas minhas costas, o vazio em minha barriga. Pareço ter treze anos de idade quando falo:
– Mas só porque alguém me ajudou.
Os olhos de Peeta oscilam na direção de minhas mãos, e me dou conta de que ele também se lembra daquele dia. Mas ele apenas dá de ombros.
– As pessoas vão te ajudar na arena. Eles vão se digladiar pra te patrocinar.
– Não mais do que a você – discordo. Peeta dirige o olhar para Haymitch.
– Ela não faz ideia do efeito que causa. – Ele passa a unha na madeira da mesa, recusando-se a me encarar.
O que será que ele está querendo dizer, afinal? Como assim, as pessoas vão me ajudar?
Quando estávamos morrendo de inanição ninguém me ajudou! Ninguém a não ser Peeta.
Assim que comecei a ter mercadorias para trocar as coisas mudaram. Sou uma comerciante dura na queda. Sou ou não sou? Que efeito isso causa? Que sou fraca e necessitada? Será que ele está sugerindo que sou privilegiada porque as pessoas sentem pena de mim? Tento imaginar se ele tem razão. Talvez alguns dos comerciantes fossem um pouco generosos em suas transações, mas sempre atribuí esse fato ao longo relacionamento que eles mantiveram com meu pai. Além disso, a caça que vendo é de primeira classe! Ninguém nunca sentiu pena de mim!
Miro intensamente o pãozinho, tendo a certeza de que ele quis me insultar.
Depois de mais ou menos um minuto nisso, Haymitch diz:
– Ok, então. Ok, ok, ok. Katniss, não há nenhuma garantia de que haverá arco e flecha na arena, mas durante sua sessão particular com os Idealizadores dos Jogos, mostre a eles o que você é capaz de fazer. Até lá, fique longe dos arcos. Você é boa em armadilhas?
– Sei montar algumas arapucas básicas – murmuro.
– Isso pode ser importante em termos de comida – diz Haymitch. – E Peeta, ela tem razão, nunca subestime a força de alguém na arena. Com muita frequência, a força física faz a vantagem pender para o lado de determinado competidor. No Centro de Treinamento há halteres, mas não revele o quanto você consegue levantar na frente dos outros tributos. O
plano é o mesmo para vocês dois. Vocês vão para o treinamento de grupo. Passam o tempo tentando aprender alguma coisa que desconhecem. Arremessar uma lança. Manusear uma clava. Aprender a dar um nó decente. Tudo menos mostrar no que vocês são bons. Até chegarem às sessões particulares. Estamos entendidos? – pergunta Haymitch.
Peeta e eu assentimos com a cabeça.
– Uma última coisa. Em público, quero vocês um do lado do outro o tempo todo – pede Haymitch. Nós começamos a discordar, mas Haymitch bate a mão com força sobre a mesa.
– O tempo todo! Isso não está aberto à discussão! Vocês dois concordaram em fazer o que eu dissesse! Vocês vão ficar juntos, vão parecer amáveis um com o outro. Agora saiam. Effie estará esperando vocês no elevador às dez horas pra começar o treinamento.
Mordo meu lábio e saio da sala, fazendo tudo para que Peeta ouça a porta batendo com força. Sento-me na cama, odiando Haymitch, odiando Peeta, odiando a mim mesma por falar sobre aquele dia na chuva, muito tempo atrás.
Que piada! Peeta e eu andando por aí fingindo que somos amigos! Elogiando a força um do outro, insistindo para que o outro tenha crédito por suas respectivas habilidades. Porque, na verdade, em algum ponto, teremos de acabar com isso e aceitar que somos adversários um do outro. O que eu estava preparada para fazer agorinha mesmo, se não fosse pela estúpida instrução de Haymitch para que permanecêssemos juntos durante o treinamento. Mas acho que foi culpa minha. Pelo fato de eu ter dito que ele não precisava nos treinar separadamente.
Mas aquilo não significava que eu estivesse disposta a fazer tudo ao lado de Peeta que, por sua vez, tampouco demonstra vontade de ser meu parceiro.
Ouço a voz de Peeta em minha cabeça. Ela não faz ideia do efeito que causa. Obviamente, aquilo tinha a intenção de me humilhar. Certo? Mas uma pequenina parcela de mim mesma imagina se não foi, na verdade, um elogio. Se ele não quis dizer que, de alguma maneira, eu era atraente. É esquisito o quanto ele reparou em mim. Tipo, o quanto ele prestou atenção às minhas caçadas. E, aparentemente, também não fui assim tão desatenta com ele quanto imaginava. A farinha. A luta livre. Sempre mantive o garoto do pão em rédeas curtas.
Quase dez horas. Escovo os dentes e penteio novamente o cabelo. A raiva bloqueou temporariamente meu nervosismo em relação ao encontro com os outros tributos, mas, agora, estou sentindo minha ansiedade surgindo novamente. Quando encontro Effie e Peeta no elevador, já estou roendo as unhas. Paro imediatamente.
As verdadeiras salas de treinamento ficam no subsolo de nosso edifício. Com esses elevadores, a viagem não dura mais do que um minuto. As portas se abrem para um enorme ginásio repleto de diversas armas e sequências de obstáculos. Embora ainda não sejam dez horas, somos os últimos a chegar. Os outros tributos estão reunidos em um círculo retesado.
Cada um deles possui um quadrado de pano com o número de seu distrito preso às camisas.
Enquanto alguém prende o número 12 em minhas costas, dou uma olhada geral. Eu e Peeta somos os únicos que estão vestidos da mesma maneira.
Assim que nos juntamos ao círculo, a treinadora principal, uma mulher alta e de porte atlético chamada Atala, dá um passo à frente e começa a explicar como será a rotina de treinamento.
Os peritos de cada habilidade permanecerão em suas estações. Nós ficaremos livres para transitar de uma área para outra de acordo com a escolha que fizermos, seguindo as instruções de nosso mentor. Algumas estações ensinam técnicas de sobrevivência, outras técnicas de combate. Nós somos proibidos de nos engajar em qualquer exercício de combate com outro tributo. Há assistentes à disposição se quisermos praticar com algum parceiro.
Quando Atala começa a ler a lista das estações de habilidades, não consigo evitar algumas olhadelas nos outros tributos. É a primeira vez que estamos todos reunidos, no mesmo nível e com roupas comuns. Meu ânimo desaba. Quase todos os garotos e, pelo menos, metade das garotas são maiores do que eu, embora muitos deles nem tenham sido adequadamente alimentados. Dá para ver pelos ossos, pela pele e pelo olhar vazio de alguns deles. Posso ser menor por natureza, mas pelo menos os recursos que minha família me disponibilizou me garantiram uma vantagem nesse quesito. Tenho uma boa postura e, apesar de magra, sou bem forte. A carne e os vegetais da floresta combinados aos exercícios necessários para obtê-los me proporcionaram um corpo mais saudável do que a maioria dos que estou vendo ao meu redor agora.
As exceções são os garotos dos distritos mais ricos, os voluntários, aqueles que foram alimentados e treinados durante toda a vida para esse momento. Os tributos dos Distritos 1, 2
e 4 são tradicionalmente assim. É tecnicamente contra as regras treinar tributos antes que eles cheguem à Capital, mas todo ano isso acontece. No Distrito 12, nós os chamamos Tributos Carreiristas ou, simplesmente, Carreiristas. E quase sempre o vencedor é um deles. A leve vantagem que possuo ao chegar ao Centro de Treinamento – minha entrada feérica na noite anterior – parece sumir na presença de meus competidores. Os outros tributos ficaram com ciúmes de nós, não porque fomos fantásticos, mas porque nossos estilistas foram. Agora não vejo nada além de desprezo nos olhares dos Tributos Carreiristas. Cada um deles deve ter entre vinte e quarenta quilos a mais do que eu. Eles exalam arrogância e brutalidade. Quando Atala nos libera, eles se encaminham diretamente para as armas com as aparências mais mortíferas do ginásio e as manuseiam com facilidade.
Estou pensando que tenho sorte de ser uma corredora veloz quando Peeta cutuca meu braço, me fazendo pular. Ele ainda está ao meu lado, de acordo com as instruções de Haymitch. Sua expressão é de sensatez.
– Por onde você quer começar?
Olho para os Tributos Carreiristas, que estão se exibindo, claramente tentando intimidar a todos. Então, olho para os outros, os subalimentados, os incompetentes, recebendo com os corpos trêmulos as primeiras lições com uma faca ou com um machado.
– Que tal fazermos alguns nós? – sugiro.
– Ótima ideia – diz Peeta. Atravessamos o ginásio em direção à estação vazia, onde o treinador parece grato por receber alunos. Você tem a nítida sensação de que a aula de como fazer nós não é uma das grandes atrações dos Jogos Vorazes. Quando percebe que tenho alguma noção de arapucas, o treinador nos mostra uma armadilha simples, porém excelente para deixar um competidor pendurado numa árvore por uma perna. Nós nos concentramos
nessa habilidade específica por uma hora até os dois adquirirem pleno domínio sobre o processo. Então, passamos para a camuflagem. Peeta parece genuinamente adorar essa estação, esfregando na pele clara uma combinação de lama, argila e extratos de frutas silvestres, tecendo disfarces a partir de galhos de vinhas e folhas. O treinador que coordena a estação de camuflagem está bastante entusiasmado com o trabalho dele.
– Sou eu que faço os bolos – admite ele para mim.
– Bolos? – pergunto. Eu estava preocupada em observar o garoto do Distrito 2 arremessar uma lança no coração de um boneco a uma distância de catorze metros. – Que bolos?
– Em casa. Os gelados, para a padaria – responde ele.
Ele está falando dos bolos que ficam na vitrine. Bolos bem decorados, com flores e coisinhas bonitinhas pintadas no glacê. São bolos de aniversário e de ano-novo. Quando estávamos na praça, Prim sempre me arrastava para admirá-los, embora jamais pudéssemos imaginar que algum dia teríamos condições de adquirir algum deles. Mas há tão pouca beleza no Distrito 12
que dificilmente nego a ela esse prazer.
Olho mais criticamente para o desenho no braço de Peeta. Os padrões alternantes de luz e sombra sugerem a luz do sol penetrando nas árvores da floresta. Imagino como ele conhece esse efeito, pois duvido que já tenha ultrapassado a cerca alguma vez. Será que foi capaz de sacar a coisa só olhando para aquela velha e descarnada macieira que ele tem no quintal de casa? De alguma maneira, a coisa toda – a habilidade dele, os tais inacessíveis bolos, o elogio do perito em camuflagem – me irrita.
– É lindo. Se ao menos você pudesse congelar alguém até a morte – comento.
– Não seja tão superior. É impossível saber o que você vai encontrar na arena. E se o bolo for de fato gigantesco? – começa Peeta.
– E se a gente fosse pra outra estação? – interrompo o devaneio. Então, os três dias seguintes transcorrem com Peeta e eu indo silenciosamente de estação em estação. Adquirimos realmente algumas habilidades valiosas: acender fogueiras, arremessar facas, fazer abrigos. Apesar da ordem de Haymitch para que parecêssemos medíocres, Peeta é excelente no combate corpo a corpo, e eu passo no teste das plantas comestíveis sem piscar um olho sequer. Contudo, mantemo-nos distantes do arco e flecha e do levantamento de peso, reservando para nossas sessões particulares.
Os Idealizadores dos Jogos apareceram cedo no primeiro dia. Vinte e tantos homens e mulheres vestidos com túnicas lilases. Eles se sentam nas arquibancadas elevadas que circundam o ginásio, às vezes andando para nos ver, tomando notas, outras vezes comendo no interminável banquete que foi instalado para eles, ignorando-nos a todos. Mas parecem mesmo prestar atenção aos tributos do Distrito 12. Diversas vezes os observei e vi um deles com os olhos fixos sobre nós. Também fazem consultas aos treinadores durante nossas refeições. Encontramos todos reunidos quando voltamos ao treinamento.
Café da manhã e jantar são servidos em nosso andar, mas, na hora do almoço, os vinte e quatro tributos comem na sala de jantar que fica fora do ginásio. A comida é arrumada em carrinhos que ficam espalhados pela sala e todos se servem. Os Tributos Carreiristas tendem a se reunir de modo desordeiro em torno da mesa, como se estivessem demonstrando superioridade, passando a mensagem de que não têm medo uns dos outros e que consideram os restantes de nós abaixo da crítica. A maioria dos outros tributos se senta sozinha, como ovelhas desgarradas. Ninguém dirige uma palavra a nós. Peeta e eu comemos juntos e – como
Haymitch não para de nos orientar – tentamos manter uma conversa animada durante as refeições.
Não é fácil encontrar um assunto. Falar de casa é doloroso. Falar do presente é insuportável. Um dia, Peeta esvazia nossa cesta de pão e aponta como eles foram cuidadosos em incluir pães típicos dos diversos distritos junto com os pães mais refinados da Capital. O
de formato de peixe com uma tonalidade esverdeada e com algas do Distrito 4. O pãozinho meia-lua salpicado de sementes do Distrito 11. De alguma maneira, embora seja feito do mesmo material, ele parece muito mais apetitoso do que os biscoitos horrorosos que são o padrão lá em casa.
– E aí está – diz Peeta, jogando os pães de volta à cesta.
– Com certeza você tem muitos conhecimentos – comento.
– Só sobre pães – define ele. – Tudo bem, agora pode rir para dar a impressão de que o que acabei de dizer era engraçado.
Nós dois damos uma risada até certo ponto convincente e ignoramos os olhares na sala.
– Certo, vou continuar sorrindo prazerosamente e você fala – sugere Peeta. A orientação de Haymitch para que demonstremos amizade está nos desgastando, porque desde que bati a porta na cara dele, a atmosfera entre nós tem estado um pouco fria. Mas temos ordens a seguir.
– Já te contei do dia em que fui perseguida por um urso? – pergunto.
– Não, mas parece fascinante – responde Peeta.
Eu tento animar minha cara enquanto relembro o evento, uma história verdadeira, em que disputei estupidamente uma colmeia com um urso preto. Peeta ri e faz perguntas como se fosse um ator. Ele é muito melhor nisso do que eu.
No segundo dia, enquanto estamos treinando arremesso de lança, ele sussurra para mim:
– Acho que tem alguém nos vigiando.
Arremesso a lança – atividade em que na realidade não sou ruim se não sou obrigada a acertar muito longe – e vejo a garotinha do Distrito 11 nos observando de uma certa distância.
É a tal garota de doze anos, a que me lembrou Prim em estatura. De perto, parece ter dez anos. Ela tem olhos escuros e brilhantes e uma pele morena acetinada, e está se equilibrando sobre as pontas dos dedos do pé com os braços levemente estendidos para os lados, como se estivesse pronta para alçar voo ao menor barulho. É impossível não imaginar um pássaro.
Pego outra lança enquanto Peeta arremessa a sua.
– Acho que o nome dela é Rue – diz ele suavemente.
Mordo o lábio. Rue é uma pequena flor amarela que se encontra na Campina. Rue.
Primrose. Nenhuma das duas atingiria trinta quilos em uma balança. Nem que estivessem encharcadas.
– O que podemos fazer a respeito? – pergunto a ele, com mais dureza do que pretendia.
– Nada a fazer – retruca ele. – É só pra manter a conversação.
Agora que sei que ela está lá, é difícil ignorar a criança. Ela desliza e se junta a nós em estações diferentes. Como eu, é esperta com plantas, escala com elegância e possui uma boa mira. Sempre consegue acertar o alvo com uma atiradeira. Mas o que significa uma atiradeira contra um homem de noventa quilos portando uma espada?
De volta ao andar do Distrito 12, Haymitch e Effie nos enchem a paciência durante o café da manhã e o jantar, obrigando-nos a contar todos os detalhes do dia. O que fizemos, quem nos observou, como avaliamos os outros tributos. Cinna e Portia não estão por perto, de modo que não há ninguém que possa acrescentar um pouco de sanidade às refeições. Não que Haymitch e Effie estejam novamente discutindo. Ao contrário, parecem estar agindo em sintonia um com o outro, determinados a nos torturar até que estejamos em forma. Cheios de intermináveis orientações a respeito do que devemos ou não fazer nos treinamentos. Peeta tem mais paciência, mas fico de saco cheio e mal-humorada.
Quando finalmente escapamos para a cama na segunda noite, Peeta resmunga:
– Alguém deveria arrumar uma bebida pro Haymitch.
Faço um som que está entre um ronco e um riso. Então me controlo. Ficar tentando manter a aparência de amizade quando na verdade não somos amigos está confundindo a minha cabeça. Pelo menos, quando entrarmos na arena, saberei como será nossa relação.
– Não vamos fingir quando não há ninguém por perto, certo?
– Certo, Katniss – diz ele, com o ar cansado. Depois disso, passamos a conversar somente na presença de outras pessoas.
No terceiro dia de treinamento, começam a nos chamar na hora do almoço para nossas sessões particulares com os Idealizadores dos Jogos. Distrito após Distrito, primeiro o tributo masculino, depois o tributo feminino. Como de costume, o Distrito 12 está destinado a ser o último. Esperamos na sala de jantar, sem ter certeza sobre para onde iríamos. Ninguém volta depois que sai. À medida que a sala fica vazia, a pressão para parecer amigável se acentua.
Quando chamam Rue, nós ficamos sozinhos. Ficamos sentados em silêncio até que convocam Peeta. Ele se levanta.
– Lembre-se do que Haymitch disse: para não esquecermos de arremessar os pesos. – As palavras saem de minha boca sem permissão.
– Obrigado. Vou lembrar disso – diz ele. – Você... vê se acerta bem na mira.
Balanço a cabeça, concordando. Não sei nem por que eu disse alguma coisa. Embora prefira que Peeta vença, se for para eu perder, e não os outros. Melhor para nosso distrito, para minha mãe e para Prim.
Depois de mais ou menos quinze minutos, eles chamam meu nome. Aliso os cabelos, ajeito os ombros e caminho em direção ao ginásio. Imediatamente, percebo que estou encrencada.
Estão aqui faz muito tempo, os Idealizadores dos Jogos. Sentados assistindo a outras vinte e três apresentações. Tomaram muito vinho, todos eles. Querem mais do que qualquer outra coisa voltar para suas casas.
Não há nada que eu possa fazer a não ser prosseguir com o plano. Caminho até a estação de arco e flecha. Oh, as armas! Há dias estou ansiosa para botar as mãos nelas! Arcos feitos de madeira, de plástico, de metal e de materiais que nem conheço. Flechas com penas cortadas em linhas uniformes e perfeitas. Escolho um arco, testo a corda e ponho a aljava correspondente no ombro. Tem uma série de alvos a distância, mas é limitada demais. Olhos de touro tradicionais e silhuetas humanas. Caminho em direção ao centro do ginásio e escolho meu primeiro alvo. O boneco usado antes para o treinamento com faca. No momento exato em que puxo a flecha percebo que há algo errado. A corda é mais apertada do que a que eu costumava utilizar em casa. O arco é mais rígido. Acerto alguns centímetros longe do boneco e perco a pouca concentração que tinha. Por um instante, sinto-me humilhada. Então, volto ao olho de touro. Atiro novamente e mais uma vez até dominar as novas armas.
De volta ao centro do ginásio, tomo minha posição inicial e espeto o boneco bem no coração. Depois, rasgo a corda que segura o saco de areia do treinamento de boxe e ele se abre caindo no chão. Sem parar, posiciono-me de joelhos e mando uma flecha na direção de uma das luzes que ficam penduradas no teto do ginásio. Uma chuva de fagulhas explode no artefato.