Lendas e Narrativas
O Pároco de Aldeia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
(LENDA DE 1825)
PRÓLOGO
Como a filosofia é triste e árida!
Às vezes, na Primavera, o vento norte atira-se pelas encostas, tombando dos visos da serra, como se uma inteligência vivesse nele, inteligência de maldade e destruição. De noite e de dia, os troncos das árvores torcem-se e gemem, as ramas despedaçam-se a açoutá-los, envoltas nos braços longos e flexíveis da ventania: o demónio do setentrião sibila no meio delas um zumbido entre de lamento e de escárnio. Debalde o bosque estende, saudoso, por um momento o seus mais altos raminhos para o Sol, que se vai alevantando no Oriente: a rajada despega de novo da cumeada da montanha: o bosque curva-se para o meio-dia; e, galgando por cima daquelas mil caras inclinadas das plantas gigantes, das rainhas majestosas da vegetação, os turbilhões da atmosfera agitada rolam pela planície, coberta já de relva entressachada das primeiras florinhas. Então, relvas e florinhas murcham, esmagadas pelas mãos da procela, que tudo alcançam, fustigam e desbaratam. Os carvalhos frondosos e as boninas rasteiras, com a cara pendida para a terra, como outros tantos símbolos do desalento, não ousam erguê-la para o céu. É que, rugindo, a ventania cai da montanha em perene catadupa. As vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um instante e depois remoinha e apruma os topos das árvores e as corolas das flores, mas é para logo as vergar com mais força e apupar com o silvo insolente aquela rápida esperança, que se desvaneceu tão breve.
E, quando o vento acalma, é para saltar ao poente ou ao sul. A rajada já não silva na montanha: uma bafagem tépida vem da banda do mar; mas o céu está toldado e o ar húmido: o dia passa melancólico e pesado sobre a bobina que a nortada açoutou: ela não pôde saudar o Sol no Oriente: está pendida e murcha como a ventania a deixara. A noite vem encontrá-la numa espécie de torpor, que é existir, mas que não é vegetar, e ainda menos viver.
Como a florinha do campo, a alma por onde passou a procela da filosofia, esse turbilhão transitório de doutrinas, de sistemas, de opiniões, de argumentos, pende desanimada e tristonha; e na claridade baça do ceticismo, que torna pesada e fria a atmosfera da inteligência, não pode aquecer-se aos raios esplêndidos do sol de uma crença viva.
Com Kant, o universo é uma dúvida: com Locke, é dúvida o nosso espírito: e num destes abismos vêm precipitar-se todas as antologias.
Como a filosofia é triste e árida!
A árvore da ciência, transplantada do Éden, trouxe consigo a dor, a condenação e a morte; mas a sua pior peçonha guardou-se para o presente: foi o ceticismo.
Feliz a inteligência vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacile, sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ela não há abraçar-se com a Cruz em ímpeto de agonia e clamar a Jesus: «Creio, creio, ó Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque, filho da raça sofredora e austera chamado o povo, eras meu irmão e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro, enganar teu pobre irmão. Creio, creio, ó Nazareno!, porque até a hora do expirar na ignomínia, até a hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, ó Nazareno!, porque tu só nos explicaste o mistério desta associação monstruosa da saúde e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; da enfermidade e da pobreza, da servidão e da inocência a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além do sepulcro. Creio, creio, ó Nazareno!, porque só tu soubeste revelar a consolação à extrema miséria sem horizonte, e os terrores à completa felicidade sem termo na vida, colocando no lugar do destino a Providência, e a imortalidade! Creio, creio ó Nazareno!, porque a intensidade do teu viver é um impossível humano; a vitória da tua doutrina severa, contra a filosofia e o paganismo, um milagre; a glória do teu nome de supliciado maior que todas as glórias das mais altas e virtuosas existências do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?»
Não, o ânimo vulgar que nunca vacilou na fé, que nunca discutiu o verbo, que nunca julgou o Cristo, possuído do insensato orgulho da ciência, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus o crer; ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada frase, de cada palavra daquele tormentoso orar; ignora o que é atirar-se aos pés da Cruz por um impulso quase frenético do coração, sentir a voz gélida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe tranquilamente: «Quem sabe!», e cair desanimado no letargo da dúvida, donde muitas vezes bem tarde se alevanta o espírito, oprimido e quebrado, porque nele pelejaram horas largas o instinto religioso e o demónio implacável a que chamam ciência.
A sociedade é bem injusta, quanto às faces do desgraçado, que assim luta consigo mesmo, sacode o lodo da injúria, dizendo-lhe: «Hipócrita!», porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas, que não as tem, mas as dúvidas terríveis da inteligência, e lhes revelou só as aspirações, os desejos, as saudades do coração! — Hipócrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada e caído em fogo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas, e ensanguentando as mãos e o rosto nos silvados do despenhadeiro, lidasse por sair dele e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse aos que visse ao longe: «Não vos afasteis para aqui!» Hipócritas são aqueles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do descrer tranquilo, quando vai lá dentro o tumultuar das incertezas. Como Satanás, eles dizem que o Inferno é o Céu; dizem que a irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que ela dá é inquietação e desesperança.
Feliz a alma vulgar e rude que crê e nem sequer sabe que a dúvida existe no mundo! Está certa de que, além a morte, há vida, conhece as suas condições; conhece-as como lhas ensinaram, como conhece as condições dos corpos. Para ela, as noites não têm os pesadelos monstruosos, nem os dias a meditações febris em que o cético involuntário se debate na orla do possível, que toca por um lado nas solidões do nada, por outro na imensidade de Deus.
Mas ainda mais feliz a inteligência superior às do vulgo, aquela que a Providência destinou à missão do poeta, nos anos da infância e da juventude, antes que o bafo árido da ciência a queimasse, passando por cima dela! Nesse espírito e nessa idade, a religião não está só nos preceitos e nos dogmas; está na natureza inteira. A alegria de Deus, o aspirar das fragrâncias celestes, a toada suavíssima dos hinos dos anjos descem a ela nos raios do Sol, quando nasce e quando desaparece; tremulam no espelhar-se da Lua nas águas; misturam-se no cicio das árvores; entretecem-se com os mil gemidos da noite; vivem nas afeições domésticas e santificam o primeiro bater do coração pelo amor. Tudo então é viçoso e puro; porque a alma poética lhe empresta viço e pureza. As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das línguas e das escolas são apenas um eco frouxo desses cânticos da meninice e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que são um oceano de delícias inefáveis, em que se embalam molemente a imaginação e o sentir do homem a quem o mundo há de chamar poeta. Nessa época da vida, ele não abstrai do real para salvar verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta, que é a seiva íntima do seu viver, pelo universo, e converte-o numa coisa formosa, santa, ideal, que o mundo está bem longe de ser.
Depois vem outra época da vida, em que a felicidade é mentida, mas ainda é felicidade, posto que já eivada de vaga inquietação, de ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contraditórias. São os anos que precedem e seguem imediatamente os vinte. Abrem-se ante nós os caminhos do mundo, como uma conquista. Glória de artistas, poderio, opulência, ações generosas e grandes, amor sem termo, amizade sem perfídias, vida multiplicada indefinidamente pela infinidade de factos; que há, enfim, que não sonhemos nessa época de fervente loucura? A inocência morreu, a poesia íntima e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os aplausos das multidões aos nossos hinos descorados, que elas ainda julgam sublimes e esplêndidos; aplausos que nos desvairam: fica-nos uma filosofia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma ciência superficial, que se crê completa, pela qual dormimos tranquilos sobre a negação de todas as ideias místicas e de todas as lembranças de Deus.
Desta idade em diante é que chega o desfazer das ilusões, até das ilusões do orgulho. A poesia suave e pura da infância e da puberdade passou: passa também o íris das paixões férvidas, das ambições insaciáveis, da crença na própria energia. Começa então o pardo crepúsculo deste ceticismo, que, semelhante a herpes lentos, vai lavrando por todas as nossas opiniões e afetos e os prostra e subjuga. Desde essa época, a vida tem largas horas de tédio, em que o existir é uma carga pesada; porque nos falta alicerce em que possamos firmar-nos; porque flutuamos sobre as névoas densas do duvidar de tudo. O materialismo incrédulo já tirou das fases espirituais dos altos engenhos argumento contra a imortalidade. Com a sua lógica míope, persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadência da alma acompanharem as enfermidades e a decadência do corpo; que via o entendimento caquético esmorecer com a decrepidez; quis que ele, na morte, ficasse perdido e anulado entre as cinzas da sepultura, Se o materialismo soubesse que a vida das sumas inteligências é a poesia e que essa vida segue a ordem inversa do desenvolvimento físico; se conhecesse que a energia íntima tem o seu apogeu nos anos débeis a infância e começa a desvanecer-se quando os órgãos se fortalecem, ele não teria achado a explicação do fenómeno nas suas tristes doutrinas. Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razão desse facto, que então veria à sua luz verdadeira. Os olhos da alma vão-se pouco a pouco enevoando no meio das trevas do mundo: nesta atmosfera grosseira e corrupta, ela resfolga a custo, e, com o diminuir dos alentos, diminuem-se-lhe sucessivamente os brios. Cada dia lhe desfolha um afeto, lhe discute uma crença, lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano cruel. Entre o espírito e o mundo quebraram-se, um a um, todos os laços.
Vós credes que a mente se definha e ela apenas dormita para despertar vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do sepulcro.
Tomai-me esse octogenário tonto que foi um alto engenho: cavai no deserto do seu coração gasto e frio e arrancai-me de lá uma daquelas paixões que ardem até o último instante da existência: vibrai uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente: dizei-lhe: «Teu filho querido foi arrastado ao tribunal como criminoso; espera-o o suplício, se não houver uma voz eloquente que o defenda. Se ela se erguer, será salvo; e tu foste na mocidade o mais eloquente dos homens!» Dizei-lhe isto, e vereis esse engenho que credes moribundo atirar-se, como um tigre, ao meio dos juízes e achar toda a energia dos vinte e cinco anos para defender aquela vida que a natureza ligou à sua pelas harmonias misteriosas da paternidade. Se as palavras, se o órgão extenuado da linguagem não puder exprimir o pensamento daquela alma remoçada subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituirão a língua, e se, cansados e débeis, não bastaram à violência da ideia, o espírito despedaçará o quase cadáver e, despedindo-se da terra, provará que, se dormitava, não se extinguia e que, despertando, partia o vaso frágil que já não o podia conter.
Tal é o destino da inteligência neste breve desterro: dois dias conserva as recordações verdadeiras e puras da sua origem imortal: outros dois ilumina-se com o fogo-fátuo das paixões e esperanças: o resto deles revolve-se na luta tormentosa das ideias, dos afetos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice e a regeneração da morte.
Eu, que já vou aquém do marco onde começa o terceiro período da vida humana, a sós, às vezes, com as minhas recordações infantis, ponho-me a comparar o aspeto prosaico e triste que tem atualmente para mim o universo com as formas suaves e poéticas em que ele me aparecia envolto desses tempos dourados. É uma comparação amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.
Hoje, a Lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno de Estio e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente crespa das águas. Os seus raios, transparecendo por entre o verde-negro das copas do arvoredo, que se balouçam sonolentas, descem trémulos sobre o chão pardo e mosqueiam-lhe a superfície, semelhante, depois disso, a dorso de pantera. A viração tenuíssima da tarde passa e murmura um cicio quase impercetível na folhagem. Em volta. do círculo alvacento que o luar esparge no céu cintilam raras estrelas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de safiras em que se reclina a rainha da noite.
Há quinze ou vinte anos, noite tal como esta tinha para mim um seminúmero de misteriosas harmonias, que eu não sabia explicar, mas que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a Lua, a sua luz refrata, a noite, a viração, o vulto das águas encrespadas, as estrelas e as solidões do espaço; mas o que já não sei é verter as lágrimas de inefável contentamento que, outrora, se me escoavam tépidas pelas faces, contemplando as harmonias imateriais e íntimas que vagavam pela atmosfera tranquila, como ecos longínquos de harpa angélica, rolando de astro em lastro, até se derramarem na Terra!
Dai-me uma nota só dos cânticos que eu então escutava; dar-vos-ei em troca toda a minha estúpida e inútil ciência!
Mas essa época da vida não voltará mais porque não pode retroceder uma única onda do rio impetuoso do tempo! Depois da taça do mel esgotada, resta a do absinto. Que se resigne e espere aquele que vai devorando os dias da dúvida e do desalento. Chegará a hora de renascer para a poesia e para a certeza: será a da morte. A Providência foi ainda generosa connosco, consentindo-nos que, a espaços, afastemos dos lábios o cálix do fel e deixando que nesses momentos rasguem o nosso longo e tedioso crepúsculo alguns raios transitórios de luz. A memória é o instante de repouso e a saudade o clarão enorme que nos ilumina.
Recordar-se — consolar-se.
I
A ALDEIA E O PRESBITÉRIO
Uma das coisas que, nas recordações da juventude, ainda espiram para mim poesia e saudade é a imagem de um velho prior de aldeia que conheci na minha meninice. Hoje, tão bondosos, tão alegres, tão veneráveis, há-os por certo aí, e muitos: eu é que não sei conhecê-los. A auréola que então rodeava as cãs do sacerdote ancião desvaneceu-se pouco a pouco; desvaneceu-a a experiência do mundo, como tantas mil crenças e imaginações de outrora! Ele morreu já, por certo; mas, vivo que fosse, eu não sentiria ao vê-lo, ao falar-lhe, aquela espécie de alegria tímida, de confiança receosa que nesse tempo o bom do velho me inspirava. Parecia-me que, estando ao pé dele, estava mais perto de Deus, cujo valido, por assim dizer, era o padre-prior. Não sabia o sacerdote essa língua que eu cria falar-se no Céu, o latim, coisa então para mim misteriosa e santa? Não trajava, às vezes, os trajos da corte celeste, o amicto, a casula, o pluvial, com que estavam vestidos alguns vultos de anjos pintados em três ou quatro antiquíssimos quadros do presbitério? Quando, nas suas práticas, depois da missa do dia, narrava os gozos da bem-aventurança, os tormentos do Purgatório e os tratos intoleráveis do Interno, não juraria qualquer que ele já peregrinara largos anos além do sepulcro, ou que voz de cima lhe revelava tantas maravilhas e tão solenes terrores? Evidentemente, o velho clérigo estava mais perto dos degraus do trono divino que toda a outra gente e, por me servir da linguagem política, exercia em nome do Céu uma delegação na Terra; era uma espécie de missus dominicus da Providência. E, quando ele, apesar dos meus tenros anos, me escolhia para acólito, para estafar a porção de latim do missal que as rubricas inexoráveis subtraíam ao seu império, sorriam-me as esperanças, algum tanto vaidosas, de obter de Deus deferimento às minhas pretensões infantis, como costumam sorrir ao requerente à quem deputado de grande conta mostra familiaridade na presença de omnipotente ministro.
Hoje, o latim do padre-prior parecer-me-ia um tanto bárbaro e, talvez, barbaríssima a sua prosódia: nas vestes sacerdotais acharia os trajos romanos do Império, atravessando, imutáveis como a Igreja, por entre as transformações da moda e do luxo; nos quadros do presbitério riria da ignorância e do mau gosto do pobre pintor; e nas descrições das venturas e dos tormentos da outra vida descobriria unicamente uma encarnação grosseira em imagens materiais das revelações profundas do espiritualismo cristão. É que nesse tempo tudo me chegava aos olhos da alma iluminado, risonho, variegado, porque tudo transparecia através de um prisma de sete cores, da inocência singela e crédula da infância, e que hoje tudo me parece, como a folha que caiu da árvore no Outono, murcho e desbotado, passando através da atmosfera nevoenta e triste da ciência e do orgulho. Então, o velho pároco afigurava-se-me mais que um homem; hoje, na escala das desigualdades humanas, provavelmente só acharia para ele um bem modesto lugar.
A aldeia em que o bom do clérigo pastoreava o seu rebanho espiritual estava assentada na falda de um monte, e pouco inferior a ela dilatava-se uma veiga, que, ao longe, lá bastante ao longe, ia bater no mar. No alto da povoação ficava o presbitério. Era a igreja, segundo hoje se me afigura (e tenho-a bem presente), daquele gosto duvidoso entre a arquitetura cristã, que expirava, e a da restauração romana, que ainda se não compreendia: era um desses templozinhos construídos no fim do reinado de D. Manuel e durante o de D. João III, de que tão grande número resta ainda pelas paróquias de Portugal e que são mais um argumento de que os nobres conquistadores da índia, donatários das terras e padroeiros das igrejas, não voltam do oriente com as mãos vazias. A devoção nesses tempos era objeto de luxo: edificar uma igreja ou uma capela equivalia a ter hoje camarote em S. Carlos ou cocheiro com estrigas de linho na cabeça e chapéu triangular.
A portada da igreja, de arco tricêntrico firmado em pilares polistilos de meio relevo, era o mais claro testemunho da idade provecta do presbitério. A residência paroquial, originariamente no mesmo estilo, estava já civilizada. Uma porta retangular substituíra a antiga. Esquadriadas estavam, também, as duas janelas do sobrado, de diferentes dimensões e afastadas uma da outra, e nos seus postigos da esquerda via-se o moderno conforto das vidraças. Não quero dizer com este elogio à morada do padre-prior que a igreja tinha resistido, teimosa como velho caturra, aos progressos da civilização. Pelo contrário. Estava mais alindada ainda. Uma irmandade, ou não sei quem, que entendia na fábrica, havia pintado de ocre tudo o que era pedra, de vermelhão tudo o que era azulejo. As câmaras municipais das grandes cidades, os cónegos das colegiadas e sés ainda não passaram do ocre e uma pobre irmandade da aldeia já tinha, há vinte anos, vencido a meta a que apenas hoje chegam o município e a catedral.
O que, porém, escapou ao ocre e ao vermelhão dos mesários do burgo foram dois seculares e formosos plátanos que sombreavam o portal do presbitério. Na febre-amarela, que grassa tão furiosa pelo senso estético dos nossos magistrados populares e das nossas dignidades eclesiásticas, admira que tenha esquecido estender o benefício da caiadura gemada aos troncos rugosos e carrancudos das velhas árvores que rodeiam os edifícios ou as praças. Verdade é que todos os dias alguma desaba sob os golpes do machado. Isto é melhor. Mas porque não haveis de remoçar as que vão escapando com as lindezas e alegrias canónico-municipais?
Belos e Veneráveis eram os dois plátanos. O adro, cobriam-no todo com as suas sombras fechadas, e só pela volta da tarde, principalmente no Outono, é que algumas réstias açafroadas do Sol no Poente se estiravam por debaixo deles e lá iam bater frouxas no limiar da igreja, polido do contínuo perpassa r, e na porta de um vermelho-desbotado, onde nesse tempo começavam a alvejar os remendos brancos com que as revoluções converteram os áditos dos templos em pelourinhos eleitorais.
À entrada do adro alevantava-se uma grande cruz de madeira pintada de preto, em cuja haste mãos devotas tinham atado um ramo de flores, e este ramo, no meio do qual h avia um pé de perpétuas, era a imagem das vaidades do mundo ao redor da religião do Calvário, imutável no meio delas. As outras flores tinham-nas mirrado os ardores do Estio: só restavam do morto ramilhete as imarcessíveis perpétuas.
Era num poial que servia de base à cruz, onde, àquela hora do pôr do Sol, o padre-prior vinha muitas vezes assentar-se; e ali estava tempo esquecido, ora alongando os olhos pelas solidões do mar, que lá em baixo, no fundo do extenso vale, quebrava nas rochas, ora traçando atentamente na terra, com a sua grande bengala e castão de marfim, diversas figuras, se geométricas, não o sei dizer, porque hoje não creio tanto na geometria do padre-prior como então cria nas suas terríveis revelações do outro mundo tiradas, do Speculum Vitae. O que, porém, eu sentia melhor do que hoje, sem então o saber explicar, era a suave e profunda poesia que respirava esse quadro do velho sacerdote junto do símbolo religioso, àquela luz moribunda da última hora do dia, em que uma certa saudade melancólica vem, como percursora da noite, pousar-nos sobre o coração. Não o imaginava nesse tempo, mas imagino agora por onde vaguearia a mente do velho clérigo, enquanto a bengala ia de um para outro lado, cruzando linhas tortuosas e incertas. Os últimos instantes de moribundo, os quais ele tinha adoçado com as consolações da fé; a esmola tirada da escassa côngrua para enxugar lágrimas de viúvas e de órfãos; os conselhos paternais dados à mocidade, salva assim por ele de largos dias de remorsos e amargura; os ódios convertidos em perdão entre inimigos; as dissensões
domésticas pacificadas pela conciliação do pastor; todo o bem, enfim, que, por trinta ou quarenta anos, ele havia semeado na aldeia, desde as últimas casinhas de colmo que alvejavam caiadas na orla pálida dos campos até o altar do presbitério, frutificava, talvez, ante os lhos da sua alma, nesses momentos de êxtase, em rica seara de esperanças, cujos frutos entesourava no céu. Depois, a cruz hasteada junto dele lhe viria lembrar o nada das diligências que empregara, dos sacrifícios que fizera para verter algum bálsamo de ventura nas chagas dolorosas da vida; para remir da perdição as ovelhas transviadas do pobre rebanho que lhe fora confiado. A cruz negra, no seu eloquente silêncio, contava-lhe sacrifícios infinitamente mais árduos que os dele, feitos, não em proveito de uma aldeia ou de um povo, mas para remir o género humano. Por isso eu lhe via, às vezes, deixar pender a cara calva sobre o peito, ou tomar-lhe o rosto uma expressão singular, inexplicável nessa época para mim, mas que era o desalento que lhe gerava no espírito a desanimadora comparação das suas ações com as do Supliciado do Calvário, ao qual tomara por modelo e que jurara imitar. Muitas vezes espantava-me de, que se conservasse assim engolfado nos seus pensamentos até que o sino das ave-marias o vinha despertar; e, na minha alegria pueril, vendo-o tão triste e carrancudo, pensava comigo que o padre-prior se ia tornando com a idade, tonto e aborrido. Todavia, era que o bom do velho, nesses momentos de meditação, volvia atrás os olhos para os caminhos da sua vida, onde esperava achar alguns vestígios brilhantes de obras virtuosas; mas esses caminhos, sumidos na penumbra da Cruz, não os percebia, senão como uma nuvenzinha escura e duvidosa através da luz imortal das virtudes e dos benefícios de Cristo.
Ao tocar, porém, das ave-marias, todas aquelas imaginações desconsoladas, se ele as tinha, como hoje creio, desapareciam por um movimento habitual do espírito e do corpo; este para se erguer, aquele para orar. Sobraçada a bengala, em pé, com as mãos postas, segurando ao mesmo tempo entre elas o seu chapéu de três ventos, com a cabeça um pouco inclinada para o chão, o padre-prior murmurava em voz baixa aquela tão poética oração do despedir do dia. Os trabalhadores que, voltando das fadigas do campo, acontecia passarem por aí nessa ocasião descobriam-se também e, encostando-se ao ancinho ou à enxada, punham as mãos e rezavam, até que o reverendo, acabando os latinórios, que eles iam repetindo em vulgar, lhes dizia: «Boas noites, rapazes, vá a cobrir.» E os ganha-pães cobriam-se, respondendo: «Guarde-o Deus, padre-prior.» E partiam: e ele assentava-se outra vez a olhar para o Poente, onde o Sol, que se afundira no mar, deixava entre si e a noite, que se precipitava após ele das alturas do céu, uma barra de vermelhidão e ouro, estirando-se para um e outro lado do horizonte, como se tentasse embargar o caminho às trevas. E ali estava pensando, até que a Tia Jerónima alçava meia adufa de uma janela baixa, que dava claridade à cozinha, e o chamava para a ceia, ao que prontamente obedecia; porque cumpre advertir que o padre-prior não só respeitava à carga cerrada todas as tradições do catolicismo romano, mas também a sabedoria tradicional do povo, que, neste capítulo da ceia, reza que deve ser comida sem sol, sem luz e sem moscas, momento fugitivo do expirar do dia, que não consta deixasse jamais passar por alto a boa Tia Jerónima. Nunca me há de esquecer aquela hora na aldeia, nem a luz crepuscular da atmosfera, nem as gelosias dos aposentos inferiores da residência paroquial, nem a santa velha da Tia Jerónima, que teria proporcionado mais um capítulo a Chateaubriand sobre a poesia das usanças cristãs, se esse ilustre escritor houvesse uma vez saboreado as filhós que ela compunha, para celebrar o Carnaval — e os seus bolos da Natividade — e a sua olha e o seu anho assado da Páscoa. Não! — Saudades de tudo isso, durante a minha vida inteira, em qualquer fortuna, no meio das mais graves preocupações, nunca hei de afastar-vos impaciente, quando vierdes, como criança travessa, baralhar-me um período de trabalhada prosa ou aleijar-me com um verso parvo uma estrofe sofrível. Vinde, meus amores antigos, que para vós esta cara não saberá arrogar-se; esta boca não terá esses monossílabos duros e gelados com que se repelem importunações de indiferentes. Vinde, e demorai-vos comigo, e palrai por uma hora, por um dia, por uma semana; que vos escutarei sempre sorrindo. E, quando for ao sol-posto, que os ouvidos da minha alma vos ouçam reproduzir vivas, harmoniosas, melancólicas as lentas badaladas das ave-marias, não, como agora as ouço as vezes, no meio do ruído confuso, áspero, estridente do povoado, mas partindo da aldeia ainda deserta dos seus moradores, rolando pela veiga, espreguiçando-se pelo prado, rumorejando pelas quebradas da encosta ou pelo pinhal do cabeço e indo morrer lá muito ao longe, nas toadas duvidosas de uma cantiga de lavadeiras, ou no tinir das esquilhas de um rebanho de ovelhas que se encaminham para o curral ao sibilar do pastor. Repeti-mas assim, puras, campestres, vibradas num ar puro e sonoro, livres por um horizonte imenso, e ter-me-eis despertado um afeto consolador, o qual valerá mais que todas as ambições, que todos os contentamentos, que todas as esperanças do mundo.
Têm-se discutido os sinos, como se discute quanto há no universo. Desde a existência objetiva ou material deste mundo até à legitimidade do chocalho pendurado ao pescoço da cabra, retouçando pelas ruas de qualquer capital, que resta ainda aí para se lhe trazerem à praça os prós e os contras? Das definições possíveis do homem uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa. Os sinos têm tido amigos e inimigos: e porquê? Pela mesma razão porque sobre tudo há duas opiniões contraditórias. E que tudo tem duas faces diversas. O vento sul é meigo para a árvore que viceja no recosto setentrional da montanha e açoite da que vegeta no pendor oposto o norte é o suplício da primeira e grato para a segunda. Nisto está cifrada a história das contradições humanas.
Os sinos, colocados em campanários de paróquia aldeã ou de mosteiro solitário, são uma coisa poética e santa: os sinos, pendurados nas torres garridas das garridíssimas igrejas das cidades de hoje, são uma coisa estúpida e mesquinha. O sino é um instrumento acorde com as vastas harmonias das serras e dos descampados. Assim como o órgão foi feito para reboar pelas arcarias profundas de uma catedral gótica, para vibrar na atmosfera mal iluminada pelas frestas estreitas e ogivas, do mesmo modo o sino foi perfilhado pelo cristianismo para convocar os seus humildes sectários ocupados nos trabalhos campestres. Quando se associou o sino do culto?
Ignoramo-lo: ignoramo-lo porque foi a religião serva e perseguida que o santificou; e, quando os poderosos da Terra a aceitaram para si, então entrou nele nas cidades soberbas. Lá, converteu-se numa coisa insignificante e impertinente. É mais um ruído intolerável para juntar aos outros ruídos discordes que troam por essas ruas e praças. O sino, tornado cortesão e fidalgo, é semelhante ao órgão trazido para o aposento do baile, ou, o que vale quase o mesmo, para essas salas ao divino, essas igrejas sem cãs, bonitas, vaidosas, douradinhas, que insensatos edificam para as admirações de parvos.
E com estas digressões esquecemo-nos do padre-prior. Não importa. Deixá-lo cear em paz e rezar o breviário. Eram estas, entre outras, duas fases graves e sérias de todos os seus dias. Depois, enquanto a velha Jerónima punha em ordem a casa, ele pegava num livro da pequena estante que lhe ficava à cabeceira e lia ou uma lenda pia do Flos Sanctorum de Rosário ou um trato daquelas grandes histórias de Fr. Bernardo de Brito, até que o sono tranquilo de boa e sã consciência, apertando-lhe com os dedos rosados as pálpebras, o entregava aos sonhos plácidos que só a alvorada vinha interromper, quando perigo iminente de alguma das suas ovelhas o não obrigava a erguer-se alta noite, ao som do resmungar malsofrido e, até certo ponto, ímpio da Tia Jerónima. No horizonte limpo e sereno destas duas vidas inocentes, destes Filémon e Báucis celibatários, que, amparados um ao outro, iam peregrinando contentes para o sepulcro, havia um ponto negro e triste. O rendimento da paróquia não consentia que o padre-prior possuísse essa espécie de ilota in sacris, de servo de gleba sacerdotal, chamado o padre-cura. As ventanias, as chuvas, as noitadas através das serras revertiam inteiramente, como a côngrua e os benesses, em benefício, se não do corpo, ao menos da alma do reverendo prior.
A sua côngrua era maravilhosamente estica: o grosso dos dízimos da paróquia jogava-os à risca todas as noites em tertúlias um digno comendador não sei de que ordem. Ai, que a extinção dos dízimos foi a morte da religião!
II
NOITADAS PAROQUIAIS
A vida do velho prior passava, na verdade, dura e trabalhosa! Como todas as coisas deste mundo, o egoísmo da Tia Jerónima não era acabado e completo ou, para falarmos em estilo de filosofia fidalga, não era absoluto. O limitado e o imperfeito são o sinal que o Criador estampou na cara do homem e na face da Terra para nos recordar a todo o instante a nossa origem; é a barreira que ele alevantou diante deste grande mistério de energia e de audácia chamado a inteligência. Sabedoria, força, paixões, afetos, tudo tem um horizonte comensurável; horizonte para as virtudes, como para a dor. O espírito mede e abrange o que há mais vasto e profundo, os ermos, os mares, o coração humano; porque ao cabo disso tudo está o finito. Imensa, eterna, absoluta só há uma ideia, que está fora do universo. Esta é a ideia de Deus.
Por isso, grande é tão-somente Deus!
Mas dizia eu que o egoísmo da Tia Jerónima era incompleto: digo mais; era incompletíssimo. Quando o sacristão vinha, alta noite, quebrar o dormir risonho e variamente ressonado do padre-prior; quando à voz roufenha do ostiário aldeão, despertando o pastor para ir levar as consolações extremas à ovelha moribunda e tirá-la já, porventura, dos dentes e garras do cão tinhoso, se juntava o trovejar ao longe da tempestade, o fustigar da chuva nas vidraças progressivas das meias janelas e o ramalhar da ventania nos dois plátanos do adro, era sem dúvida que o resmungar da Tia Jerónima, aparecendo da banda da sua pocilga, com a candeia mortiça na mão e as roupinhas vermelhas do envés, tinha o que quer que fosse repugnante e vil. Pensava, acaso, a boa da velha que a morte não seria tão descortês que negasse ao espírito do pobre moribundo o tempo necessário para poder, ao abandonar o corpo, subir, como chamazinha ténue, e galgar para o céu sobre um raio do sol-nascente? Pode ser que sim. Não seria, porém, antes, que ela preferisse o deixar frigir por alguns séculos nas caldeiras do Purgatório aquela pobre alma cristã, largando a sua veste mortal sem os últimos sacramentos, à necessidade de erguer-se por noite fria e tempestuosa, para tomar nos ombros uma parte da cruz do ministério paroquial? Também isto pode ser. O que se passava no abismo da sua consciência coisa era que ela não revelava a ninguém; mas, em todo o caso, era um pensamento egoísta.
Todavia, é preciso confessar que com ele se misturava um sentimento puro e nobre: dizia-o esse cuidado pressuroso com que a Tia Jerónima trazia as botas de cor térrea, o bérnio de saragoça, o capote de barregana, o chapeirão oleado e a aguardente de ginjas, sem um copo da qual o prior não ousaria transpor o limiar da porta e investir com as fúrias de noite procelosa: diziam-no a atenção com que mirava se ele ia agasalhado e as mil vezes repetidas ponderações higiénicas que lhe fazia com admirável volubilidade de língua. A afeição da santa velha mostrava-se em tudo isso viva e sincera; e o seu resmonear, que no meio das idas e das voltas e do perguntar e do responder, ia rareando e abatendo, como o assobio do furacão pelo vale, perdia gradualmente a expressão de egoísmo e convertia-se pouco a pouco na de um pensamento moral.
E o padre-prior calado! — Calado enfiava as botas; envergava o gabinardo; cobria-se com o capote; punha o amplo sombreiro; enchia um copinho do excelente cordial que a boa da ama lhe havia posto diante; virava-o de um golpe; fazia uma visagem, fechando os olhos com força e estendendo os beiços; dava um estalido com a língua no céu da boca; exprimia o íntimo conforto que nele gerara o etéreo licor com um brrahhh prolongado; estendia a pequena taça, cheia de novo, ao sacristão, que, mestre nos estilos da cortesia, se curvava, formando com o corpo um ângulo obtuso de noventa e cinco graus, desprezadas as frações, e arqueando o braço, para levar o copo à boca sequiosa, como se curva e arqueia um peralvilho de guedelhas saint-simonianas e miolos de água chilra, ao conduzir, em sala de baile, a deusa dos seus afetos de vinte e quatro horas ao meio do turbilhão doido e (perdoe-se-nos a blasfémia) um tanto parvo das valsas e contradanças.
Depois, duas palavras mágicas saíam da boca do reverendo pastor: «Até logo!» O seu efeito era instantâneo: o sacristão, pegando numa lanterna, com as chaves da igreja na mão, encaminhava-se para o adro, seguido do padre-prior; a Tia Jerónima fechava a porta após eles; e o tentador, como se estivesse esperando por esse momento, travava-lhe novamente do espírito, e o resmoninhar da impaciência recomeçava em breve, acompanhado do ranger do linho na roca, e do. espirrar da candeia a espaços, e do respiro asmático do nédio gato do presbitério, que, enroscado na lareira, abria de vez em quando os olhos amortecidos e cerrava-os logo com filosófica indiferença, enquanto a Tia Jerónima esperava pelo seu velho amo e se lhe apertava o coração, sentindo o temporal que passava lá fora, e lembrando-se de que o enfermo poderia ter guardado para hora mais decente e cómoda a agonia do passamento.
E pela serra fora, caminho de aldeia remoto, vai o velho prior: adiante o sacristão com a lanterna e a âmbula da extrema-unção e ele atrás com o cibório. As poças de água refletem essa débil claridade que as ilumina e fazem um contínuo plach, plach, debaixo dos pés dos dois caminhantes, cujo passo apressam as cordas de chuva batida pelos furacões do sudoeste. Os pinheiros, balouçando-se, gemem tristemente e os enxurros, estrepitando pelos córregos, tiram com o pinhal uma toada soturna. No céu profundamente negro não aparece uma estrela: na terra, ao longe, bem ao longe, não se descortina uma luz. A natureza debate-se consigo mesma: tudo dorme, entretanto, nos casais e na aldeia, salvo o velho pároco e a família daquele que em trances mortais espera o representante de Cristo, que lhe traz as derradeiras consolações e esperanças. Entre a filantropia humana e as agonias extremas dos pequenos e humildes a noite e a tempestade ergueram barreira quase insuperável: esta barreira desaparece, porém, diante da caridade que a todos nos ensina o Evangelho e que ao pároco impõem, como dever imprescritível, a sua missão sacerdotal e o seu carácter de pai dos pobres e afligidos.
A esta mesma hora, em que o velho prior assim vagueava por sendas alpestres exposto às inclemências de noite invernosa, talvez em aposento bem resguardado, no fim de ceia opípara, entre as taças cheias de vinhos generosos, no meio de mulheres formosas e voluptuárias, embriagado em todos os deleites dos sentidos, algum famoso espírito forte cerzia remendos das páginas soporíferas de Holbach ou de Diderot e dissertava profundamente sobre a mandriice, egoísmo e cobiça do clero, ou carpia a superstição do povo, que, para ser completamente feliz, de nada mais precisa do que abandonar as crenças do cristianismo e de amaldiçoar as esperanças de Deus, o conforto único da sua vida de miséria, de trabalho e de amargura. E, naturalmente, os neófitos daquela triste filosofia extasiavam-se em redor do sábio filantropo, que, impando de iguarias delicadas, de vinhos custosos e de grossa ciência, só lamentava a ignorância daqueles a quem muitas vezes faltava então, falta hoje e faltará no futuro um bocado de pão negro para matar a fome; extasiavam-se ali diante da sensualidade e bruteza de um insensato vanglorioso, enquanto a virtude do velho clérigo, exercitada nos desvios dos montes e no silêncio da noite, não tinha por testemunhas senão um céu húmido e cerrado e o vulto impetuoso e bramidor da ventania, mas que, em vez das lisonjarias de parvos, tinha para o aplaudir a voz sincera, consoladora e santa da própria consciência.
Havia, porém, no fim de tudo, uma diferença entre o homem do Evangelho e o da falsa ciência. Era o sistema das compensações. O padre-prior, depois de cumprir com o seu dever, voltava ao presbitério tranquilamente: tirava o capote alagado, despia o gabinardo felpudo sacudia a uma distância razoável as ponderosas botas e: enfiando-se entre os grosseiros lençóis, atava o fio do sono no ponto em que o deixara e, embalado brandamente por sonhos aprazíveis, só acordava Sol nado e alto, ao bradar da Tia Jerónima e ao cheiro da açorda fumegante almoço que, como tudo o que era consagrado pelos séculos e pela tradição, ele profundamente respeitava.
E o nosso filósofo? O nosso filósofo, recolhendo-se alta noite, ia todo o caminho provando a si mesmo que não há Diabos no mundo, nem almas, nem, talvez, Deus; mas sentindo arrepiarem-se-lhe os cabelos ao ver dançar a fosforescência de algum marnel, rezando o credo em cruz ao passar por algum cemitério, benzendo-se ao ouvir piar algum mocho. E depois de se deitar e adormecer sonhava... Em quê? Nas combinações infinitas da matéria eterna de que deve, segundo as boas doutrinas, ter rebentado o universo? Não! Sonhava com as pernas do Inferno e, ao acordar pela manhã com defluxo, pedia confissão e sacramentos.
Já lá vão vinte anos! Bom tempo era esse, ao menos para mim, que ainda não sabia da existência do animal chamado filósofo, classificado entre os rodentia, pelo medroso e daninho. Em vinte anos, que voltas tem dado o mundo! Aquela espécie vai-se acabando de todo. Autores de comédias, apressai-vos! Antes que se perca o tipo, levai o incrédulo ostentoso à cena. Dai-nos algumas noites de rir doido e inextinguível.
Os dias do padre-prior corriam assim placidamente para o seu viver íntimo, posto que o duro mister de pároco lhe entenebrecesse muitas vezes os horizontes da vida material. E que importava, se todos na aldeia lhe queriam bem; se todos o acatavam, como a suma bondade e, o que não era menos, como a suma inteligência da paróquia? Até o barbeiro, o próprio barbeiro, homem grave e entendido em materiais de eloquência sagrada, não constava houvesse jamais torcido o nariz às práticas e aos sermões do padre-prior, que ele, com a mão sobre a consciência, punha acima dos melhores de Fr. Timóteo, um fradalhão arrábido, coisa brava em gritarias ao divino, que, por via de regra, se incumbia das domingas de quaresma naquela freguesia e nas circunvizinhas, com aceitação e aplauso universal do auditório, mas cuja fama era ofuscada pelos períodos singelos do velho sacerdote, repassados de unção e daquela eloquência de missionário, que, apesar de rude, lá vai fazer vibrar o coração do povo, afinado pela crença viva, como a harmonia que se tira das cordas de dois instrumentos acordes.
Agora por isso, o que será feito de, Fr. Timóteo?! Era naquele tempo um frade guapo e alentado! O que será feito dele? Se ainda vive, tiraram-lhe o burel e a corda de esparto, o seu capital; venderam-lhe o convento, o seu tonel de Diógenes; proibiram-lhe o capuz e as sandálias, o seu direito inauferível de andar trajado como lhe aprouvesse; e mandaram-no, desarmado de tudo isso, pedir para o mendigo a esmola que se dava ao burel, ao esparto, ao convento, ao capuz e às sandálias. Bom passaporte para Fr. Timóteo transitar pela vala plebeia do cemitério nos braços mórbidos e suavíssimos da fome! Foi um progresso de civilização, que se completou, pelo lado moral, com o aumento das lotarias, das casas de câmbio e das traduções de novelas e dramas franceses. Bem-aventurada a tão esperta nação que assim compreende o progresso!
Duas coisas, porém, mais que as práticas e os sermões, serviam para engrandecer e glorificar o padre-prior, não só diante dos homens, mas também diante de Deus. Era a primeira o incansável zelo com que se aplicava a apaziguar as rixas, a estabelecer a concórdia doméstica, a pregar o trabalho, a guerrear a embriaguez e, sobretudo, a santificar pelo casamento as afeições ilícitas: era a segunda o fervor modesto e o inocente luxo com que procurava celebrar as festas religiosas, principalmente a de S. Pantaleão, orago da freguesia e de quem, tanto os aldeões, como o velho presbítero, criam afincadamente possuir o metacarpo da mão direita, o qual devia ser de outro santo ou não santo, se acreditarmos (eu cá, pela minha parte, acredito) nos paroquianos da Sé do Porto, que se gabam de ter debaixo de chave S. Pantaleão in totum, sem lhe faltar dedo de pé, nem de mão, quanto mais um metacarpo inteiro.
III
UMA ESCORREGADELA
A propósito do que o padre-prior era de casamenteiro, ainda me lembra uma velha viúva, a Sr. Perpétua Rosa (Deus lhe fale na alma!), que morava ao cabo do lugar, numa barraquinha à beira do rio, muito caiada, com o seu rodapé de vermelhão, e sombreada por cinco ou seis choupos que nasciam da borda da água. Tinha ela (a velha, não a barraquinha) uma filha, formosa rapariga, chamada Bernardina. Era uma das leiteiras mais desenxovalhadas de que se gabavam os arredores de Lisboa: bonita, que não havia mais dizer: alva como toalha de freira: airosa como pinheirinho de quatro anos. Uns poucos de rapazes da aldeia andavam doidos por ela. Nas noites dos domingos, em que havia dança e viola na, casa da brincadeira , a Tia Jerónima, que era capaz de espreitar este mundo e o outro, mirando da sua rótula o que se passava à entrada da rústica sala do baile, pouco distante do presbitério, notava que, apenas a Bernardina aparecia, os rapazes entravam após ela, com muito mais fúria e pressa do que pela manhã tinham corrido para a igreja, ao último toque da missa do dia. Antes disso, já a boa da velha tinha reparado no modo como eles se encostavam aos cajados para lados opostos, em frente uns dos outros, nos motejos do cantar ao desafio, no por dos barretes à banda, nos olhares que mutuamente se lançavam, no pegarem em seixos e atirarem-nos a grande distância, a modo de competência, sem dizerem palavra, como se cada um quisesse mostrar aos seus rivais a robustez do próprio braço. Disto tudo tirava a Tia Jerónima agoiro de muita pancadaria — «por amor daquela delambida —, dizia a ama do prior nas suas caridosas murmurações — que anda toda arrebicada por balharotas, enquanto a pobre mãe moureja todo o santo dia, ao sol e à neve, naquele rio, para ganhar um bocado de pão, sem vergonha da cara. Havia de ser comigo!»
E o mais é que a Tia Jerónima não se enganava nas suas previsões. Chegou véspera de Reis: houve à noite brincadeira ou baile extraordinário: passou-se aí tudo na melhor ordem: riu-se, tocou-se viola, dançou-se, cantou-se ao desafio e cada qual se recolheu a esperar entre os lençóis os santos Reis Magnos, designação popular dos Magos do Oriente, cuja vinda a Belém se memora na Epifania.
Houve, porém, nessa noite um saloio mais cortês, que esperou vestido e ao relento, no caminho da serra, a vinda dos três santos personagens. Foi o Manuel da Ventosa, estendido com uma tremebunda e magnífica massada, de que esteve ido, a ponto de dar ao padre-prior uma daquelas noitadas que suscitavam a cólera da Tia Jerónima e de que já acima fiz honrosa e específica menção.
O Manuel da Ventosa era filho único de um moleiro ricaço, chamado Bartolomeu, velho honrado, mas avarento como seiscentos Santanases. Teve a ventura (o rapaz entende-se) de cair em graça à Bernardina. Amoricos daqui, amoricos dacolá; janela na cara a um, respostas tortas a outros; segredar e rir de vizinhos, raivas de desprezados: soma total — zás, uma sova mestra no Manuel da Ventosa, por ter tido a negregada dita de merecer a preferência daquela que era o enlevo de todos os corações.
Mas enganaram-se. O amor redobrou com o sacrifício; os desprezos cresceram com a sede de vingança. O que começara por passatempo converteu-se em paixão violenta: um fogo íntimo devorava a alma de Bernardina e desbotava-lhe as faces dantes tão frescas e rosadas como de um serafim da peanha da Senhora da Conceição, obra de escultor insigne. No Manuel da Ventosa, isso não falemos: quando melhorou da doença, andava entre parvo e abstrato: atribuía-o o licenciado dos sítios a depressão cerebral produzida por alguma ripada nas vértebras; mas, se existia depressão de cérebro, outra era a sua origem. Certa mulher de virtude que havia na aldeia jurava e tresjurava que o moço moleiro tinha a espinhela caída. Histórias. Eu, apesar de ser então uma criança, sabia bem onde batia o ponto; por isso nunca fui para aí.
Por encurtar razões: os dois amavam-se como loucos. As pessoas desinteressadas achavam-nos um par completo; e com bom fundamento: o Manuel da Ventosa era um galhardo mancebo, único herdeiro de ginja abastado, e Bernardina uma rapariga honesta. As beatas da aldeia, às quais, conforme a direito, incumbia pôr ao soalheiro a vida privada de cada uma, no capítulo de honra nunca se tinham atrevido a ir devassar a barraquinha de Perpétua Rosa. Podia a Sra. Perpétua Rosa gabar-se, dessa! E, de feito, muitas vezes, metida no rio até aos joelhos, em discussões acaloradas com as suas ilustres amigas, as outras lavadeiras pelo círculo de Lisboa, ouvi-a emprazá-las para que formulassem precisamente, certas interpelações infundadas, rejeitando com desprezo alguns remoques bernardos relativos a Bernardina e apelando para a opinião do País, representada pelos seus órgãos, as beatas do soalheiro.
Mas, se os dois se amavam com tanto extremo e eram feitos e talhados para puxarem o mesmo carro matrimonial, porque não iam pedir ao padre-prior o conjugo vos? Aí é que certo animal torcia certa parte do corpo que eu e o leitor sabemos. Por não terem pedido esclarecimentos sobre o facto é que as lavadeiras faziam declarações vagas.
Eis o caso: o Bartolomeu da Ventosa era rico e avaro; mas bestialmente avaro: Perpétua Rosa, pobre, pobríssima. Por mal de pecados, fora ela antigamente lavadeira do casal do moinho, ou antes dos moinhos, porque, para a exação histórica, deve advertir-se que o moleiro possuía dois. Uma vez que levara grande porção de roupa tinha perdido três sacas velhas e rotas. Bartolomeu, quando tal soube, quis morrer. «Juro por esta», dizia ele, esbravejando e beijando os dois dedos índices cruzados sobre a boca, «juro que Perpétua Rosa me há de pagar as minhas três sacas novas em folha, que me perdeu, a desalmada!» Mas nem novas, nem velhas; porque a verdade era que ela não tinha com que as pagasse. Forçado foi, portanto, ao moleiro fartar a vingança com ordenar-lhe que não lhe tornasse a rapar os pés à porta. Desde esse fatal dia, nunca mais Bartolomeu da Ventosa pôde encarar com a lavadeira: o seu ódio vivia envolto e aquecido na imagem das três sacas gravadas naquele coração de avarento. Assim, para ele seria coisa monstruosa e abominável só o imaginar a possibilidade do seu filho Manuel casar com Bernardina, a quem a pobreza fora de sobra para impedimento dirimente, quanto o mais ser filha de semelhante mãe. Tal era a dificuldade insuperável que se opunha à união dos dois amantes.
E os meses iam passando e as murmurações crescendo e saltando já das lavadeiras para as beatas. Tinham visto mais de uma vez (dizia-se: valha a verdade) o moço moleiro rondando a desoras a barraquinha da beira do rio. Havia também quem dissesse que, nas madrugadas de alguns domingos, quando a Sra. Perpétua Rosa saía para a missa das almas, se enxergava ao lusco-fusco um vulto que, cosendo-se com os choupos, se aproximava da porta de Bernardina e... e et etecetera. Era muito ver! Mas a coisa ia correndo e, no fim de contas, quem ganhava com essas histórias eram as línguas dos maldizentes, que se refocilavam na palangana da murmuração, e o Diabo, que se lambia para, por estas e por outras, os catrafilar ao seu tempo.
Veio a Quaresma: santa quadra; mas que, por isso mesmo, e, às vezes, boa de mais. Desobriga vai, desobriga vem, sabe-se muita coisa. O padre-prior andava já com a pedra no sapato; porque ele não era cego, nem mouco. O meu dito, meu feito. Certo dia (por sinal que era uma sexta-feira), quando o sacristão veio abrir a porta da igreja, estavam já no adro, à espera, Perpétua Rosa e Bernardina para se confessarem. Não tardou o prior. Avisou-se a mãe: ajoelhou a filha:. persignou-se, benzeu-se, disse mea culpa e começou a sua confissão.
Se isto fosse uma história de polpa, cortesã e culta, viria neste ponto o casus foederis de eu tomar a postura trágica a Ia moda, carregando as sobrancelhas e dizendo em tom soturno e lento: «O que aí se passou entre o venerável ancião e a donzela ninguém o soube!-!-!-! Mistério!-!-!-! Acontecimento terrível e fatal!-!-! As lágrimas ardentes do velho caíram sobre a cabeça da infeliz ajoelhada aos seus pés, cujo futuro (não o dos pés, mas o da infeliz) era de maldição!-!-!-!» Limitada, porém, a minha narrativa à chá e plebeia recordação de um pobre pároco de aldeia, refletirei, em suma, que me não é lícito revelar o segredo do confessionário. Os sigilistas já deram que fazer ao marquês de Pombal, cuja consciência, como todos sabem, era delicadíssima em matérias de ortodoxia católica e em tudo. Calo-me porque não quero cair no erro que ele condenou. Direi só que foi muito demorada a confissão de Bernardina e que, ao alevantar-se de ante os pés do prior, ela trazia os olhos como punhos: e digo-o, porque o viram os circunstantes, a saber, o sacristão e a Sra. Perpétua Rosa, que devotamente ia descabeçando a penitência enquanto a filha se desobrigava.