Lendas e Narrativas

Alexandre Herculano · Capítulo 8 de 8 · parte 2/4

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Lendas e Narrativas

O Pároco de Aldeia

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Ao sol-posto desse mesmo dia, o prior espairecia a vista pela veiga coberta de verdura, assentado no cruzeiro, segundo o seu costume. A brisa da tarde era fria e aguda, porque a Primavera começava apenas; mas o velho pároco parecia não a sentir, embebido em pensamentos; e, tão fundas iam estas que, em vez de traçar na terra com a bengala as usuais figuras geométricas ou anti-geométricas, conservava-a Imóvel e perpendicular, com as mãos cruzadas sobre o castão, firmando a barba em cima. Conhecia-se no olhar e no mexer trémulo dos beiços que algum grande cuidado o inquietava. E tanto assim que nem reparou nos três sinais das ave-marias, deixando-se ficar assentado e, até, oh profanação!, com o chapéu na cabeça. Felizmente não passava ninguém naquele momento que pudesse notar a involuntária irreverência do distraído pastor.

Mas um vulto assomou ao longe e os olhos do velho brilharam, como animados por vida nova. Quem quer que era, descia do monte e vinha para a banda do rio. O caminho passava perto do adro: o prior ergueu-se, estendendo a mão e brandindo a bengala na direção do vulto.

«Ó Manuel! psio, Manuel! chega à fala! Ó rapaz!»

O filho do moleiro (porque era ele) hesitou um pouco. Alguma coisa lhe roía na consciência. Mas, vendo o prior em pé, com ar de quem estava resolvido a ir atravessar-se-lhe diante, cortou para ele, com o barrete azul e vermelho na mão.

«Boas-tardes, padre-prior: quer alguma coisa?»

«Quero que você chegue aqui, porque temos de falar.»

O tom com que estas palavras foram proferidas e, mais que tudo, aquele você fizeram estremecer o Manuel da Ventosa. O prior tratava todos por tu e o você na boca dele era presságio infalível de temporal.

O rapaz parou diante do velho, com os olhos cravados no chão, torcendo e destorcendo a orla do barrete que tinha entre as mãos. O padre-prior mediu-o de alto a baixo e começou ex abrupto:

«Então que histórias são estas da Bernardina, sô velhaco da conta benta? Sabe o que fez, grandessíssimo tratante? Aonde foi você aprender isso? (Esta pergunta era asnática.) E a doutrina que eu lhe ensinei em pequeno? De que têm servido os exemplos de modéstia e honra que lhe dá seu pai? De ser um vadio, um sedutor, um... Deixe estar:

a cadeia não se fez para as aranhas e el-rei nosso senhor (o bom do pároco puxava em política para a escola histórica) ainda não mandou queimar a nau de viagem... »

«Eu padre-prior... como lhe ia dizendo», interrompeu atarantado o saloio, coçando na cabeça e procurando atar o fio das suas ideias inteiramente confundidas.

«Cale-se; não me responda», prosseguiu o velho pároco, achando, talvez, pouco fazer cinco perguntas para ouvir uma resposta. «Diga-me: que tenções eram as suas enganando uma rapariga honesta?»

«Eu...»

«Não me replique; já lho disse. Lembre-se que é o seu pastor que lhe fala. Aí está porque você ainda não o veio desobrigar-se; pensava que, por ela ser miserável e a sua mãe uma triste viúva, não tinham ninguém neste mundo? Enganou-se. Têm-me a mim. Saiba que, a poder que eu possa, há de ir bater com o costado na Índia ou casar com a Bernardina.»

Aqui, o pobre rapaz atirou-se de joelhos a chorar aos pés do velho e exclamou, soluçando:

«E é isso o que eu quero!... Juro-o por aquela árvore da bela cruz que ali está...»

«Vera cruz, salvage! vera cruz!», interrompeu o prior, visivelmente abrandado com o pranto, humilde e declaração categórica do moço moleiro.

«Mas como eu ia dizendo», prosseguiu este, «por mor daquela diabrura das sacas, meu pai não pode tragar a Sra. Perpétua Rosa. Se lhe falasse em tal, fazia-me os ossos tão miúdos como a picadura da mó. Se a Bernardiria tivesse dote, ainda, talvez ele consentisse... Mas sem isto; bem lhe sabe o génio. Se o padre-prior pudesse adivinhar o que me tenho ralado, havia de ter dó de mim. Não como, não durmo, ando doido! Não basta a maçada que gramei... Há! há! há!»

Chorava em berreiro, e o choro não o deixava continuar. As lágrimas começaram também a bailar nos olhos do prior, que ficou por alguns momentos, pensativo.

«Levanta-te, rapaz dos meus pecados», disse ele por fim, puxando pelo braço do moleiro.

«Vamos; confessa a verdade; estás arrependido do que fizeste?»

«Estou, sim, senhor! Há! há!»

Nesta parte, apesar do choro e dos soluços, parece-me que o saloio mentia.

«Prometes, casar com Bernardina, se o teu pai consentir?»

«Prometo, sim, senhor! Há!»

«Ora, pois, sossega e não chores. Deixa o caso pela minha conta. Volte para casa e não me torne a rondar pela beira do rio. Entende? Olhe que!...»

O prior estendeu a bengala para o lado dos moinhos, que assobiavam lá no alto, e Manuel da Ventosa voltou cabisbaixo e a passos lentos pelo caminho por onde viera. Sentia confusamente que se aproximava a crise mais temerosa da sua vida.

Então o padre-prior assentou-se outra vez no poial do cruzeiro e recaiu em profunda meditação. Depois de um bom quarto de hora pôs-se em pé e encaminhou-se para o presbitério. Tinha anoitecido. De memória de homens, nunca ceara tão tarde!

E, andando, o velho sacerdote repetia aquelas palavras do livro de Job, onde, entre parênteses, há mais filosofia que num aduar inteiro de filósofos:

Nudus egressus sum de utero matris meae, et nudus revertar illuc.

O porque o dizia, bem o sabia ele! Ceou sem dar palavra: rezou o breviário: deitou-se, e apagou o candeeiro. Contra o costume, Fr. Bernardo de Brito e Fr. Diogo do Rosário ficaram aquele serão na estante. A ama sentiu-o assoar-se, tomar tabaco e escarrar até muito tarde. Coisa rara! Sinal evidente de que tinha negócio de vulto, que lhe embargava o dormir!

Pior foi pela manhã. Apenas luziu o buraco, o padre-prior saltou da cama; calçou os sapatos engraxados; vestiu a loba nova; pediu o chapéu de três ventos, a bengala de castão de prata e os óculos fixos, que só punha em dias de missa cantada, e disse à ama que se aviasse com o almoço, porque tinha de sair cedo.

Enquanto a Tia Jerónima, para maior brevidade, fazia umas papas de milho, o prior abriu um contador enorme, destes que os nossos grandes amigos ingleses nos vão agora levando em lugar de vinho do Porto, tirou para fora uma folha de papel almaço e bradou:

«Jerónima!, Ó Jerónima!»

A velha chegou ao corredor da cozinha, com o abano na mão.

«Estão quase feitas», disse ela. «Tenha paciência um instantinho.»

«Não é isso, mulher», replicou o prior. «Ouve cá: vai ao forro (Ia escada e traz-me aquilo.»

«Isso, eu lá ponho. Mas, com a sua licença, de onde veio maquia grossa? Ontem não houve batizado nem enterro... »

E a Tia Jerónima estendia a mão esquerda, coberta coma ponta do avental, para não sujar a maquia de que falava, e, ao mesmo tempo, volvia olhos ávidos, ora para o bufete, ora para o prior.

«Qual carapuça!», replicou ele, fazendo-se vermelho. «Tira-se; não se põe. Faça o que lhe digo e dê ao Demo o que sabe.»

A ama empalideceu. As palavras tira-se; não se põe eram de ruim agoiro; mas vendo já o padre-prior azedo, calou-se e obedeceu. «Dali a pouco», o velho pároco começava a tirar de um pé-de-meia uma, duas, três peças de ouro; foi tirando até setenta; restavam apenas obra de uma dúzia delas.

«Basta», rosnou o prior. «Pode ocorrer uma doença. Então, Jerónima, vêm essas papas?!»

E, dizendo isto, embrulhava muito bem as setenta peças na folha de papel que tinha sobre o bufete e metia-as na algibeira da loba.

«Guarde isso, Jerónima», disse ele à ama, que entrava com as papas. E empurrou pela mesa fora o exangue pé-de-meia. A ama, ao ver aquela horrorosa sangria, esteve a ponto de largar a frigideira no chão e de deixar o bom do padre sem almoço.

Quando voltou para a cozinha, ouviu-a o prior soluçar.

«Nudus egressus sum de utero matris meae, et nudus revertar illuc.»

Murmurando esta profunda sentença da Bíblia, o reverendo pároco saiu pela porta fora. A ama, vendo-o sair, andava como pasmada.

Nestas idas e voltas havia nascido o Sol. O Bartolomeu da Ventosa, afanado com a sua lida, em pé à porta de um dos moinhos, bracejava, ralhava, praguejava como possesso. Os brutos dos moços tinham-lhe quebrado já duas cordas ao enquerir as cargas de uma récua de machos pimpões presa à argola do moinho.

De repente viu um castão de bengala sair-lhe por cima do ombro. Voltou-se: era o prior.

«Olé, vossa senhoria por aqui a estas horas?!... Psio, o Zé Dorna, olha o rabicho daquele macho!... Grande novidade, padre-prior! grande novidade!... Raios te partam! Que tal está o filho do Diabo?!»

Estas duas últimas jaculatórias eram acompanhadas de dois reverendíssimos pontapés na barriga de uma das carruagens, que já estava carregada e que parecia achar mais prudente deitar-se enquanto as outras se aviavam.

O moleiro dava assim a modo de umas lembranças de Napoleão ditando ao mesmo tempo a dois secretários.

«Falaste, Bartolomeu!», replicou o prior. «Novidade e grande! Há quarenta anos que sou pároco desta freguesia e é a primeira vez que tal me sucede. É negócio intrincado e quero ouvir o teu conselho, porque tens caixa para as coisas. Rapazes», acrescentou, dirigindo-se aos moços do moinho, «safa daqui, que tenho que dizer ao patrão em particular.»

«Rua!», gritou o moleiro, correndo com força ambas as mãos pelo colete e pelos calções, donde saiu um nevoeiro de farinha. «Entre vossenhoria.»

O prior entrou e foi assentar-se numa tripeça que estava a um canto. Bartolomeu assentou-se sobre um saco de trigo, em frente dele. Os dois velhos mediram-se com os olhos por momentos, como se cada um deles tentasse ler no rosto do outro os pensamentos que lhe vagavam tia alma. A primeira ideia que ocorreu ao moleiro foi a de alguma festa que o pároco pretendia fazer e para que lhe vinha pedir dinheiro. Batia-lhe o coração com violência e já imaginava trinta mentiras para evitar essa calamidade.

«Homem», disse por fim o prior, «tenho na minha mão uma soma avultada; mais de quinhentos mil réis (o moleiro estendeu o pescoço): pertencem a um devoto, que os quer dar em dote a uma rapariga pobre desta freguesia. Encarreguei-me do negócio e deitei as minhas linhas para dar no vinte; mas temo não acertar e venho bater contigo. És honrado, meu Bartolomeu, posto que um tanto sovina: falo-te com o coração nas mãos, e... »

«Isso é o que dizem por aí essas línguas perversas», interrompeu o moleiro, fazendo-se vermelho de cólera; «essas mandrionas do soalheiro, porque não lhes meto no bandulho o meu remédio. Os diabos me levem... »

«Tá, tá!», acudiu o prior. «Ajustaremos contas na desobriga. Vamos agora ao que serve. Sem refolhos: a quem te parece que dêmos este dote? Parafusa lá.»

O moleiro pôs-se a pensar, alevantando os olhos para o teto, estendendo e revirando a mandíbula inferior e batendo de vez em quando na testa.

«Nada... a Genoveva da Teresa não», disse por fim... «Tal mãe, tal filha. Aquela está arrumada.»

«Nem pensar nisso é bom», retrucou o prior. «Libera nos Domine. Anda, vê se atinas.»

«A Clara da Fonte também não»...

«Hum!», rosnou o clérigo, abanando a cabeça.

«A Catarina Carriça menos. Hem?»

«Tó carapuça! Aí vai já! Fundia-me o dote em menos de um ano com tafularias tolas. Adiante.»

O leitor pode prever que o Bartolomeu da Ventosa e o seu pároco estavam no caso de duas linhas paralelas, que, prolongando-se indefinidamente, nunca podem encontrar-se: o pensamento do prior dirigia-se a Bernardina, e o moleiro já tinha afastado por três vezes do espírito essa lembrança, como ideia importuna.

«Eu», disse ele finalmente, coçando na cabeça, «tinha cá uma ideia... mas não sei... Não digo nada... Acabou-se.»

Desembucha lá, homem! Foi para te ouvir que vim aqui.»

«Então sempre lho direi. A minha sobrinha Joana é um anjo. Boa rapariga! Famosa rapariga! Meu irmão Barnabé não pede esmola, é verdade; mas anda atrapalhadote. O Casal dos Caniços arrastou-o este ano: deve-me já vinte moedas, e...»

O prior cortou-lhe o entusiasmo pelos seus parentes com uma gargalhada estrondosa. O moleiro ficou de boca aberta no meio daquele destampatório.

«Oh, oh, oh!, querias que o meu dote servisse para pagar as tuas vinte moedas!? Não é assim?» E, voltando imediatamente ao seu sério, prosseguiu: «Bartolomeu! Bartolomeu! Por causa da iniquidade da sua avareza me irei e a feri: diz o profeta. A cobiça que te cega há de baldear-te no Inferno, como tu baldeias para a ribanceira as mós que já não prestam. Queres mentir à tua consciência enganar o teu pastor, quando ele te vem pedir que o aconselhes? Isto não é bonito, Bartolomeu! Não é bonito!»

«Mas, padre-prior... »

«Qual mas, nem meio mas! Deixemo-nos de histórias. Bem diz o ditado: 'Fui a casa da vizinha, envergonhei-me; vim à minha, remediei-me'. O melhor é seguir a primeira lembrança.»

«Então, se vossenhoria já tinha posto o dedo... »

«Tinha, tinha!», retrucou o prior. «Queria só ver se tu concordavas comigo: mas sacas-te com uma esquisitice de fazer arrepiar. Não temos feito nada, meu Bartolomeu: não temos feito nada!»

E, dizendo e fazendo, o clérigo erguia-se, como para sair.

«Pois, diga vossenhoria», acudiu o moleiro, ainda atrapalhado com o revertere, «e enforcado morra eu se... »

«Não praguejes, homem! Aí vai! Quem há de apanhar o dote é a Bernardina de ao pé do rio... »

A história das sacas era espinha que ainda lhe estava atravessada na garganta: ouvindo tal nome, o velho não pôde conter-se:

«Quem? A cara de fuinha da filha da Perpétua Rosa? O padre-prior está brincando. Olha as lesmas! Umas desmazeladas e caloteiras! Isso, nas unhas da mãe, era fogo viste, linguiça. Terçãs me matem...»

«Espera, homem, espera! Não é isso o que se diz na aldeia. Tu tens osga às pobres mulheres e cega-te a paixão. Desmazeladas?! Basta olhar para elas; como andam limpas na sua miséria. Caloteiras? Coitadinhas! É porque não têm com que pagar ao Agostinho da tenda? Pagar-lhe-ão agora. Quinhentos mil réis ainda ficam livres e Bernardina há de com eles achar um bom casamento.»

Enquanto o prior falava, uma ideia bem-aventurada iluminara subitamente a alma do moleiro. As três sacas podiam não estar perdidas de todo; podiam voltar melhoradas ao moinho. Sentiu a cólera desvanecer-se-lhe, como a nuvem negra que varre a brisa do norte.

«É verdade que a gente, às vezes, tem cá as suas birras», disse ele, com certo ar que queria ser fino e saía parvo. «Cega-se com as pessoas! Vossenhoria bem sabe o que faz: dê o dote a quem quiser, que diante de mim ninguém há de tugir nem mugir contra vossenhoria.»

«Pois bem!», prosseguiu o prior, «esta lebre está corrida. Resta achar um noivo para Bernardina. Isso é bico-de-obra que requer escolha e siso. Pensa no caso, Bartolomeu! Vamos a ver se acertas melhor desta vez. Agora outra coisa. Tu és capaz: tens sabido guardar o teu dinheiro; saberás guardar o alheio. Eu para isso não presto: sou um mãos-rotas. Aqui te deixo setenta louras, que ao seu tempo se hão de entregar a. quem tocarem, incumbes-te disto?»

«Vossenhoria manda», respondeu o moleiro, cujos olhos brilharam com o fulgor devorante da avareza, ao ver rolar as peças, que o prior tivera a cautela de desembrulhar sobre a grande arca das maquias. O velho pároco usava de uma esperteza de Satanás para fazer uma obra de Deus.

E, despedindo-se de Bartolomeu, saiu. O moleiro ficou de pé e imóvel. Estava, mal comparado, como o asno de Buridan entre as duas medidas iguais de cevada: nem se podia afastar do ouro, nem ousava faltar à cortesia devida ao padre-prior. Afinal, por um movimento sublime de energia moral, correu pela porta fora atrás dele, que já ia a certa distância. Neste correr, parecia-lhe sentir estalar o que quer que era dentro do coração.

«Se vossenhoria é servido do nosso almoço», bradava o moleiro, «não tarda aí um credo. Pobre, mas de boa mente.»

«Obrigado! obrigado!», respondeu o prior, sem se voltar, brandindo para trás a bengala, como quem dizia adeus. E pensava lá consigo: «Fora, miserável sovina!»

Apenas o bom do clérigo dobra — rã a quina do muro de uma quinta que se dilatava desde a encosta até à baixa do rio, truz!... Com quem havia de dar de rosto? Com o Manuel da Ventosa, de espingarda ao ombro, rede às tostas, chumbeira e polvorinho a tiracolo. O saloio ficou embaçado.

«Com que, sim senhor! já você por aqui me aparece a estas horas», disse o prior com um gesto folgado, que forcejava por ser colérico. «Hem?»

«É verdade, padre-prior!... Entreter um bocado. A manhã estava boa.»

«Pois não! Aos pardais... bem sei! Ora corte-me para casa e vá ajudar seu pai, o pobre velho, que lá anda lidando... e você feito caçador das dúzias... Caçador! Pensava agora o sonso que me enganava! Vamos marchando!»

Deu alguns passos para diante, enquanto o Manuel da Ventosa fazia o mesmo em sentido contrário. Depois voltou-se de repente. O saloio também parara a olhar para trás.

«Olé. Escuta cá, Manuel!» O Manuel aproximou-se.

«Depois de amanhã é necessário que você se bote aos pés do seu pai, que lhe conte a boa obra que fez e que lhe peça licença para casar com Bernardina...»

«Pelo amor de Deus, padre-prior!», interrompeu o triste do rapaz, cheio de susto. «Com os fígados dele, põe-me os ossos num feixe.»

«Não se perdia nada», acudiu o velho. «Mas não é ano de fortuna. Era melhor que se tivesse lembrado a horas. Faça o que lhe digo, que não lhe há de suceder mal nenhum! Vamos.»

«Se vossenhoria entende?!»

«Entendo, sim, senhor. A Páscoa não tarda; e passada a Quaresma você há de receber-se. Mas disto nem palavra! E corte!»

O tom com que o pároco proferiu estas palavras deu uma alma nova ao Manuel da Ventosa. Imaginou logo que o padre-prior tinha aplanado o negócio. Não sabia se risse ou se chorasse. Instintamente, agarrou a mão do clérigo e beijou-a. A sua gratidão era sincera. O padre-prior sentia palpitar esse vivo sentimento naquelas mãos calosas, que apertavam a sua mão enrugada, naqueles lábios ardentes, que pareciam devorá-la, Conheceu que estava arriscado a deslizar da habitual severidade e, afastando-se rapidamente, bradou com voz áspera, mas alguma coisa trémula: «Deixa-me, pateta! Deixa-me!... e Deus te ilumine, para que seja esta a última das tuas rapaziadas.»

Fez bem em alongar-se: duas lágrimas lhe rolaram pelas faces abaixo.

Naquele dia a Tia Jerónima chegou a desconfiar de que o padre-prior tinha a bola desarranjada. Toda a manhã não fez senão cantarolar, ora um pedaço do Tantum ergo, logo um versículo do Te Deum Laudamus, e assim por diante. Até andou, por mais de meia hora, a brincar com o gato do presbitério. E, para resumir em poucas palavras a extravagância de que parecia possuído, basta dizer que, ao descalçar-se, arrumou os sapatos para um canto e, depois de ter lido um capítulo da crónica de Cister, pela primeira vez da sua vida meteu na estante essa espécie de Carlos Magno monástico, sem o pôr de pernas ao ar. Aquele coração sentia dilatar-se na santa paz do Senhor.

E porque não cabia o bom do padre na pele? Porque tinha feito felizes duas criaturinhas, sacrificando-lhes as suas economias de quarenta anos. Achava isso coisa naturalíssima; mas a Providência dava-lhe parte da sua recompensa nessa alegria suave e íntima, que mal pode entrar rios palácios dos grandes e poderosos do mundo; porque é o prémio, não do benefício insolente da opulência mas sim da abnegação caridosa da humanidade.

O padre-prior tinha tido tempo de estudar, individualmente o carácter dos seus fregueses, e por isso seguira aquele caminho para chegar ao fim moral que se propusera. De feito, o velho moleiro andou abstrato todo o dia e de noite? Não pregou olho! As escuras, via diante os olhos as setenta peças a reluzirem, como visão ao mesmo tempo celeste e infernal. Depois, naquelas longas horas de vigília, punha-se a calcular a ação prodigiosa que elas teriam, incorporadas com mais de outras tantas que tinha enterradas. Era o que bastava para dar o harmonioso epíteto da minha à azenha do Inácio Codeço, e por lá o seu Manuel a labutar e a ganhar dinheiro, muito dinheiro, e ele a tomar-lhe contas ao sábado: meia moeda... uma moeda... duas moedas, e a pilhá-lo num a gaziva de seis vinténs; e despertava daquela espécie de êxtase, ao atirar-lhe o primeiro pontapé. Era um regalo! Ria, às vezes, ao lembrar-se de uma que ele havia de pregar no outro dia ao Agostinho da tenda. Essa estava segura. Ia-lhe comprar o creto de Perpétua Rosa, por metade, por um terço, talvez. «O sô Agostinho, você não vê que isso é dinheiro perdido? Cinco mil réis! Seis mil réis! Vamos; é minha a dívida.» E tripudiava na cama, e assentava-se, lançando mão dos calções, para ir, para correr, para voar, antes que algum diabo (pensava ele) fosse meter no bico ao usurário do tendeiro a mudança de fortuna de Bernardina. Chegava, naquele fervor, a enfiar os calções; mas recaía na cama, ao ver ou, antes, ao não ver, que era escuro como breu. Momentos havia em que as suas ideias tomavam outro curso: representava-se-lhe seu irmão Barnabé a largar-lhe o Casal dos Caniços pelas vinte moedas e por mais umas trinta peças, com que o engodava; e ele a fazer estercar as terras e alqueivar e lavrar e semear e mondar e ceifar, e a ter na eira uma serra de trigo durázio, e a achar uma excomungada de uma velha pedinchona a furtar-lhe à sorrelfa uma abada daquele grande trigo e ele a desancá-la com uma tranca. E saía desse pesadelo de homem acordado a ranger os dentes e com a mão agarrada à maçaneta do catre. Daí a pouco vinha-lhe a outra enfiada de imaginações, e daí outra, e outra, até que, por fim, a ideia de que as setenta peças eram suas lhe ficava de tal modo encravada e enraizada na alma, que o arrancar-lha de lá seria o mesmo que meter-lhe no bucho uma apoplexia. Então punha-se a pensar no pensamento capital e gerador de todas essas imagens bem-aventuradas que lhe luziam no olho, e como chamaria à mochila as setenta do dote. Abafá-las? Negá-las ao prior? Estremeceu horrorizado; porque Bartolomeu era homem de probidade, ao seu modo, que, sem malícia seja dito, vinha a ser um modo, como o de tantos homens honrados que todos nós conhecemos. Nada! Era preciso um meio natural, decente, legítimo de arranjar o negócio. Caiu então no que o prior queria que ele caísse. Casou in mente o seu Manuel com a Bernardina. Feito isto, as peças eram suas; suas, porque o Manuel pelava-se com medo dele e, casado ou solteiro, havia de ficar-lhe sempre debaixo dos cabeções. Assentado este ponto, o moleiro sentia certo refrigério interior que o consolava. Não tardou a adormecer no sono do justo e, em plácidos sonhos, balouçou-se todo o resto da noite entre a azenha do Inácio Codeço e o casal do seu irmão Barnabé. Saía às vezes desta hesitação benéfica, sonhando no gatázio que ia pregar ao Agostinho, e ria com um rir de inocência. Era um santo velho aquele Bartolomeu da Ventosa!

O leitor deve estar já suficientemente aborrecido de tão comprida história do moleiro, da lavadeira e do prior; por isso não o farei assistir às explicações entre o pai e o filho. Mais repousado o sangue com o dormir, Bartolomeu refletiu pela manhã que o propor ao pároco o seu Manuel para noivo de Bernardina tinha as suas parecenças com o haver-lhe proposto para ser dotada sua sobrinha Joana, ideia maldita que lhe tinha custado uma risada nas suas barbas e um revertere com texto da Bíblia. Por outra parte, pensava que Manuel era o seu único herdeiro e que, se Bernardina trazia para a ceia, ele levaria para o jantar, princípio consagrado pela filosofia saloia talvez desde o tempo dos Mouros. Enfim, o pai nestes vaivéns e o filho com os receios que o leitor pode imaginar fizeram ao declararem-se, uma verdadeira cena de comédia. Ao cabo, porém, de tudo entenderam-se. Assim, o padre-prior, à custa das suas economias de quarenta anos, teve a consolação de fazer três sermões, um a Bartolomeu, sobre a cobiça e a avareza; outro a Manuel, sobre o trabalho, sobriedade e mais virtudes anexas à condição de ai de família; outro, finalmente, a Bernardina, sobre a honestidade, modéstia e sujeição das mulheres casadas. Depois, quando veio a Páscoa, regalou-se de atar o laço matrimonial entre os dois amantes, acabando por uma vez com as interpelações das lavadeiras, com as espreitadoras dos curiosos e com as murmurações do beatério. Custou-lhe a brincadeira setenta peças e o atirar à rua com o sermão sobre a avareza; porque o Bartolomeu continuou a ser sovina até à hora da morte, na qual piamente se deve crer o catrafilou o Diabo, não só por ser unhas de fome, mas por ter refinado a ponto que, perdendo a vergonha, já começava a sisar nas maquias, com escândalo dos fregueses e grande mortificação do seu filho Manuel.

Agora duas palavras sobre a festa do orago da paróquia, o meu rico S. Pantaleão. O leitor viu o padre-prior caminhando pela estrada dolorosa da moral evangélica: é necessário que o veja também radiante no meio das pompas do culto.

IV

ALHOS E BUGALHOS

 

S. Pantaleão era, como disse, o orago da freguesia rural cujos habitantes mais conspícuos o leitor já conhece e por via dos quais o pus em contacto com as diferentes classes de que se compunha aquele mundozinho, ou, para melhor dizer e falar de modo que não me entendam, aquele microcosmo. Este grecismo espremeu-mo do espírito S. Pantaleão, que, conforme o que bem pondera a folhinha, foi médico, e os médicos finam-se por grego. O padre-prior e o sacristão representam a Igreja espiritual e materialmente, o Agostinho da tenda o comércio, o Barnabé a agricultura, a Sra. Perpétua Rosa a indústria e, finalmente, o honrado Bartolomeu da Ventosa representa, nos seus sonhos, a indústria agrícola ou a agricultura industrial, género de existência lembrado por alguns economistas da Alemanha, para salvar as classes laboriosas do horrível futuro com que as ameaça o vapor; porque se há de advertir que alguns restos de prudência e juízo, que ainda havia cá por esta nossa Europa, varreu-os Deus para aquele canto do mundo a que nós chamamos a terra das teorias e das quimeras; nós, os homens do Meio-Dia, que fazemos falanstérios e não sei quantas mais comédias políticas, capazes de fazer rir... quem direi eu? O próprio mirradíssimo S. Pantaleão da Cidade Eterna.

Eterna, entenda-se, até que o primeiro cometa venha embrulhar na cauda este nosso microcosmo, tão caturra e parvo, chamado o orbe terráqueo.

Celebra-se a festa de S. Pantaleão a vinte e sete de Julho; data preciosa e averiguada por mim em largas vigílias, consumidas em revolver breviários, antifonários, legendários, missais, santoriais e livros historiais, na frase daquele grande retórico Gomes Eanes. Está a folhinha pontualíssima; podem acreditar-me! Celebrou-se, celebra-se e há de celebrar-se a festa de S. Pantaleão, o bem-aventurado físico, todos os vinte e sete de Julho, até a consumação dos séculos; salvo caso de ninguém se lembrar daqui a cem ou duzentos anos de que existiu no mundo o meu rico santo; mas espero tal não aconteça, ficando lançada a sua memória nestas páginas, às quais indubitavelmente pertence a imortalidade.

«Mas», acudirão os leitores, «que nos importa a nós que essa comemoração seja a vinte sete ou a vinte e oito; seja em Julho ou em Dezembro? Vamos à festa e deixemo-nos de histórias.» Devagar, devagar! E justamente porque isto é uma história grave, sisuda, erudita, que eu não me havia de meter abruptamente na narração, sem deixar averiguada, esmiuçada e apurada a data precisa e irrecusável do meu recontamento. Sabem o que é uma data? Uma data é, depois de uma questão de ortografia, do talho e da feitura de uma judia, a que os nossos velhos chamavam uma aljuba, e depois de um falanstério, a que os ditos velhos chamariam uma sandice, a coisa mais importante que conheço neste vale de lágrimas. No caso presente, suponhamos que eu fosse um cabeça-de-vento. que atirasse com S. Pantaleão para vinte e sete de Dezembro. Ficávamos asseados; não tem dúvida! Aí se me ia meter a segunda oitava do Natal com o meu santo mártir; e eu a querer revestir o padre-prior para a missa cantada e a ver-me doido na escolha da vestimenta. Vermelho? Saltava-me a canzoada dos críticos: «Fora, ignorantão! Vermelho na segunda oitava da Natividade!? Vai ler o Cláudio de Vert, alarve! Vai ler o Campello, o Gavanto, o Lambertini.» Atarantado com a grita, atirava-me ao gavetão da vestimenta branca. Pior! Vinha-me outra surriada de sotavento: «Olha a alimária! Não querem ver? A um mártir vestimenta branca! Hipócrita que nos anda aqui a pregar sermões a favor dos padres e dos frades e ainda não sabe qual é a sua vestimenta direita. Aí têm os tais escrevedores de água doce, que se riem à socapa das Arcádias e das odes pindáricas e da ciência em notas e das cronologias dos académicos. A gente que fazia essas coisas trazia as vestimentas na ponta da língua: distinguia-as como hora horae de servus servi. Vai ler, ó tábua rasa de Locke, vai ler o Prado, o Clericato, o Bauldry, o...»

E eu, que não podia ir ler tanto calhamaço em fólio, em quarto, em oitavo e em doze, estacava, punha-me a gaguejar, perdia o fio da narrativa e não prosseguia nesta notável história do padre-prior, a qual me abriria as portas do Instituto Histórico de Paris, se eu fosse tão criança que me resolvesse a pagar não sei quantos francos por ano para gozar dessa incomparável honra.

Por isto façam os leitores ideia das deploráveis consequências de um erro de data! «Porém», replicarão eles, «quem te obrigava a tratares essa questão cronológica, superior, talvez, às forças do teu entendimento? Não foste andando até aqui sem te meteres nesses debuxos? Porque não descreves a festa, deixando aos entendidos em calendário o pô-la na época própria?» Boníssimos leitores, pensais vós que eu sou o Manuel da Ventosa, que me deixe assim esmagar por uma saraivada de perguntas? Enganai-vos! A resposta vai cair dos bicos desta pena como as frechas de Apolo longe-asseteador caíam no campo dos argivos, segundo reza Homero no capítulo primeiro da sua crónica das birras do Pelida e do Átrida: a minha tréplica vai desfechar sobre os prelos, convincente, irresistível, irreplicável. Ei-la. Finjamos por um momento que, em vez de consultar os respetivos atores sobre a verdadeira casa de S. Pantaleão no tabuleiro do calendário, nem sequer pensava nisso e começava a ex abrupto a cena da festa aldeã. Que sucedia? Como estamos no Inverno, e eu gosto do Inverno, principalmente quando ruge uma boa nortada (são gostos), punha-me a escrever um destes formosos dias de Dezembro ou de Janeiro em que o firmamento parece retinto de novo no seu tão lindo azul; em que a verdura infantil das searas à flor da terra sorri, estirando-se dos topos arredondados dos outeiros pelo pendor de recostos levemente inclinados; em que a relva se mira à luz vermelha da aurora no espelho do caramel, que envidraça a superfície dos pegos e remansos dos regatos. Falar-vos-ia de uma abençoada missa do galo, na aldeia em noite de luar, missa mil e quinhentas vezes mais poética do que toda a poesia protestante desde Luterpo, o pai do protestantismo, até Strauss, que hoje lhe tira as derradeiras consequências; falar-vos-ia, enfim, de mil coisas, muito bonitas, muito viçosas, muito brilhantes, mas que viriam tanto a propósito de S. Pantaleão como o anho pascal daquela santa velha da Tia Jerónima viria a pêlo da Natividade, com o seu caldo tradicional de peru, ou como o estilo do nosso drama moderno se casa com a linguagem da sociedade, cujo transunto deve ser. E por esta razão que, em coisas sérias, quais a presente narrativa, eu sou muito pechoso em averiguar tudo quanto pode contribuir para a perfeição de obras em que a forma de, modo nenhum há de vencer a substância — e a essa classe pertencem estes estudos morais.

Resolvida e assentada a questão de tempo e lugar, sem o que não há obra literária, segundo afirmam os glossadores e espevitadores daquela famosa embrulhada de Horácio chamada a Epístola aos Pisões, resta dizer alguma coisa acerca de S. Pantaleão. Por muita importância que eu ligue à feira, aos foguetes, aos busca-pés, às jarras que eu ligue à feira, aos foguetes, aos busca-pés, às jarras de flores, aos tocheiros acesos, ao sacristão, à música, aos festeiros e ao padre-prior, ligo muita mais à memória daquele cuja festa trazia num rodopio toda a aldeia e até tivera a influência magnética de alargar os fechos da bolsa ao venerável moleiro Bartolomeu. Tenham, portanto, paciência; que já agora hei de dizer-lhes duas palavras acerca do meu rico santo. São reminiscências do sermão, o qual, desde aqui fique sabido, foi feito e pregado por Fr. Timóteo, o fradalhão arrábido de mendicante e espoliada memória. É, pouco mais ou menos, um resumo da história do santo, como a contou Fr. Timóteo. Parece-me que o estou ouvindo.

S. Pantaleão era um médico de Nicomédia. O bispo Hermolau converteu-o ao cristianismo. Desde então, ele reduziu o seu receituário à invocação do nome do Senhor. Seguiram-se daqui duas consequências graves: as suas curas foram mais baratas e mais rápidas, ao mesmo tempo que as ofertas dos doentes escasseavam nos templos pagãos e os sacerdotes de Esculápio começavam a morrer literalmente de fome. O resultado foi um clamor geral contra o pobre santo: os sacerdotes acusavam-no de ímpio e de bruxo, os médicos de charlatão. O ódio contra ele chegou ao último auge: só faltava uma ocasião para a vingança: esta não tardou a aparecer.

«Não, que não havia de chegar!», rosnou o barbeiro, que, especado em frente do púlpito, meneava a cabeça laudativamente de vez em quando, em honra da eloquência de Fr. Timóteo, que, narrando a vida do santo, esbracejava como um possesso. «Não, que não havia de chegar! Bastavam os médicos. Os médicos e os cirurgiões! Posto que, até certo ponto, pertença à faculdade, hei de dizê-lo: é a classe mais invejosa do mérito que eu conheço.»

O barbeiro pensava assim havia muitos anos: desde que fora cruelmente arranhado por três raposas, que os lentes do hospital lhe tinham largado às pernas num exame de sangrador. Boas ou más, eram as suas doutrinas.

Entretanto, o arrábido continuava a lenda de S. Pantaleão: as ideias que dela conservo são as seguintes:

Neste meio tempo veio a Nicomédia o imperador Maximiano. S. Pantaleão restituiu, perante ele, a um paralítico o uso dos membros, o que nem os sacerdotes pagãos nem os médicos tinham podido fazer, mostrando assim quanto era poderoso o Deus dos Nazarenos. Mostrar aos poderosos que se tem razão contra eles é o maior dos perigos do mundo. S. Pantaleão experimentou-o. Lançaram-no às feras no circo: mas as feras, em vez de o devorar, vieram lamber-lhe os pés. Cresceu a cólera do imperador. Mandou atá-lo a uma grande roda e soltá-lo por uma ladeira abaixo: mas as prisões quebraram-se e o supliciado ficou ileso. Então ordenou que o degolassem. O santo, segundo parece, estava saciado de prodígios: ao golpe do algoz a cabeça voou-lhe dos ombros, e a sua alma, subindo ao céu, viu o próprio nome escrito no livro dos mártires. O Inferno e a tirania tinham sido mais uma vez vencidos.

Tal é, em poucas palavras, a história do santo orago da aldeia, que constituía os domínios espirituais do padre-prior..

A noite que precedeu a grande solenidade da paróquia foi semelhante naquele ano, em que sucedeu o caso e Bernardina, ao que havia sido no ano antecedente; semelhante ao que costumam ser tais noites nos campos deste nosso bom Portugal. Um coreto coberto de velhos razes alteava-se à porta da igreja; dele resfolegava uma selvagem e, às vezes, atrozmente desentoada música e em baixo crepitavam as fogueiras. Como faltariam fogueiras no mês de Julho e em festa saloia? Os fogos noturnos são o símbolo da alegria; mas cumpre que se repintem no céu diáfano e estrelado. Debaixo de uma atmosfera crassa e negra, o seu reflexo tem o que quer que seja soturno e infernal. O sentimento poético está mais vivo e puro nas almas habituadas às harmonias campestres do que em nós, os habitantes das grandes cidades: é por isto que os camponeses acendem no Estio as fogueiras festivas, usança que, como todos sabem, ofende o nosso profundíssimo e estupidíssimo senso-comum. Eu, por mim, que, graças a Deus, não tenho a honra de pertencer à classe desses que lidam, contentes de si, por se bambolearem no vértice da animalidade pura e que se chamam homens da vida positiva, digo que, por mais ardente que vá o Estio, amo uma fogueira no arraial em véspera de festa, e aquele estoirar e chispar dos foguetes que roçam rápidos pelo manto escuro da noite. Sei também que o consumir-se pólvora em esbombardear cidades e em alastrar de cadáveres um campo de batalha é coisa muito mais filosófica e sisuda do que desbaratá-la nas festividades supersticiosas do povo. Mas nem todos podemos ser filósofos e eu tenho queda particular para a superstição.

E que quereis? O catolicismo é jovial: o seu culto, como o vulgo o entende, é ruidoso e risonho e brilhante e atrativo e sociável, e por isso debalde trabalharíeis por arrancá-lo ao povo, que vive e morre no meio do trabalho, das preocupações, das privações. O domingo, o dia santo, o orago da paróquia são os seus dias de contentamento e repouso. Abençoado quem inventou os oragos! Pois as invocações da Virgem e a advocacia dos santos?! Mil vezes bendito quem os multiplicou! Ride-vos, se vos aprouver, dos que creem que tal Senhora obra mais maravilhas que todas as outras Senhoras juntas; que tal santo é remédio infalível para esta ou para aquela enfermidade. As preces levam, pelo menos, uma vantagem às drogas dos físicos: não custam nada e são mais ricas de esperança, e a esperança é a maior, quase a única virtude dos medicamentos. E depois, as devoções, as promessas, geraram as romarias, as festas e logo as feiras e todo esse franco e alegre folgar das multidões, que voltam de lá contentes, sem tédio e sem remorsos, o que nem sempre nos acontece nos nossos prazeres das cidades, a que bem longe estamos de associar nenhum pensamento de Deus.

Alguns economistas destes tempos dizem «as, feiras vão-se», como certos doutores de há uns anos diziam, aludindo ao cristianismo, «os deuses vão-se». Ó sensaborões dos meus pecados! Nem os deuses, nem as feiras se vão. Tudo isso fica, porque o abriga e salva a égide encantada do amor popular: vós é que tendes seguro o passardes: e, se fizerdes o vosso ablativo de viagem nalguma aldeia, como a do meu padre-prior, lá do adro, onde haveis de jazer, alevantai a caveira descarnada, no dia de S. Pantaleão ou do santo influente do lugar, qualquer que ele seja, e vereis o foguete subir nos ares, e os Manuéis e as Bernardinas de então a feirarem-vos, em revindicta, sobre as cinzas, que as ventanias terão espalhado, e ouvireis os ram-ram da guitarra e o cantar ao desafio e o bradar dos leilões de cargos, e aviventar-vos-á o olfato o cheiro do incenso, envolto em rolos de fumo, que, espalmando-se nas faces dos gordos querubins pintados no teto, surdirão pelo portal da velha igreja remoçada de ocre e virão embalsamar os ares: inclinai, não as orelhas, que não as tereis, mas os ouvidos em osso, escutai o futuro padre-prior alevantando o Gloria, e o pregador — ai! já não será um fradalhão arrábido!... —, contando, voz em grita, as maravilhas do mártir. Então reconhecereis a vaidade das vossas doutrinas e morder-vos-eis e danar-vos-eis, dizendo com as vossas costelas esbrugadas, à falta de botões: «Bem nos pregava aquele grande cronista do padre-prior! Aquilo é que era homem de juízo! Miserere mei, Deus, quia asinificavimus! Compadece-te de nós, Senhor, porque asneámos!»

Agora por asnear, acudamos a um reparo, antes de ir mais longe. já ouço um destes oragos de botequim (também aqueles templos têm seus oragos); um destes eruditos em Balzac e Marryat, em Paul de Kock e Dickens, sacudir a melena anelada, afastar da boca o charuto apertado entre o pai-de-todos e o fura-bolos, salivar com os dentes cerrados, dando um som de espirro de gato, tomar a Postura solene que estudou numa gravura em madeira do Anthony de Dumas, e dizer-me em tom pausado e soturno: «Ó malfeliz, malfeliz!, que, em vez de empregares esses raios do fogo cerúleo e invisível das inspirações estéticas, que, da misteriosa solidão em que se dilata o hálito celeste da suma inteligência, desceu aos abismos íntimos da tua essência, em depurares o sentimento religioso das suas fórmulas materializadas, para o transportares às regiões ideais do culto íntimo, seguindo os vestígios das notabilidades mais remarcáveis da intelectualidade atual, que flutuam nos grandes centros de luz progressiva chamados

Paris e Londres, vertes os teus sarcasmos, baixos, triviais e desgostantes, sobre o espiritualismo panteístico, apoias o fetichismo e poetizas (crês poetizar, digo eu) essas festas da populaça e esses prazeres gordureiros das massas, que sublevam o coração daquele que adora o supremo arquiteto no silêncio interior, enquanto os seus lábios estão imóveis, como se eles fossem de mármore explorado nas carreiras de Paros! Escritor retrógrado e condenável, que, em lugar de combateres a barbárie do País, pretendes atacar mais o povo ao obscurantismo, que dirão as sumidades do jornalismo estrangeiro e os turistas e impressionistas viageiros, quando lançarem seu golpe de olho de águias para o Portugal e virem sua materialização supersticiosa inculcada e as suas tradições grosseiras exaltadas? Repetirão o que o imortal marido de Lady Byron dizia de nós, a propósito de uns cachações com que o massacraram certa noite à saída de S. Carlos:

Nação impando de ignorância e orgulho, Que lambe e odeia a mão que brande a espada Que do Galo assanhado à zanga o rouba ,...

Onde é sujo o palácio ao par da choça, E o hóspede forçado em lama trepa; Onde nobres, plebeus nunca pensaram Em ter limpa a casaca ou roupa branca , Posto que a lepra egípcia os cubra e roa, Intacta d'água a pele, e a grenha hirsuta.

Servos torpes e vis , bem que nascidos Nas pompas da criação. Tola és, natura, Com defuntos ruins em gastar cera.

Eis o que eles dirão, lendo a tua inconscienciosa defesa dos costumes e credulidades dos tempos do jesuitismo e da Inquisição.»

Tal reparo antevejo eu que me há de ser feito pelos pensadores da nossa terra, por estas ou por outras palavras. Respondo: «O que escrevi, escrevi.» A primeira vez que pus os olhos naqueles bonitos versos do Childe Harold, impei. Fui vivendo e lendo e afiz-me às injúrias de estranhos. Livros, jornais serra-madeiras, jornais populares, jornais atoalhados, jornais lençóis, em se tocando em Portugal, Santa Bárbara, advogada dos trovões, nos acuda! Fervem as calúnias, os motejos, as acusações de todo o género, o que indubitavelmente é grande, é nobre, é generoso! O dar é assim! — numa nação cuja língua, pouco conhecida na Europa, torna impossíveis as represálias. E se fosse a verdade só! Muitas verdades amargas nos poderiam dizer, como se podem dizer a todas as nações do mundo; mas a calúnia tem mais pilhéria e Portugal é um tema em que até os Ingleses querem ter graça! Os Franceses ainda alguma vez, por engano, nos fazem justiça: eles nunca. Em Inglaterra não há nenhum tolo que não faça um livro tourist, nenhum arquitolo que não o faça sobre Portugal: estes livros e os sermões constituem o grosso da sua literatura . Assim, ó filósofo idealista progressivo, eu sei tão bem como tu o que nos há de custar a festa de S. Pantaleão, quando esta famosa história for cair nas mãos dos críticos de além-mar. Mas pensas que me faltará moeda para dar troco às misérias de revisteiros, turistas, magazineiros e fazedores de livros em sarapatel mascavado de normando e teutónico, surripiado por metade em cada palavra, na melodiosa pronunciação britânica? Enganas-te, ó caricatura viva do Anthony morto! Enganas-te! Quando os Ingleses se rirem de eles terem muito dinheiro e nós pouco, torçamos a orelha e choremos, como crianças, pelas barbas abaixo. Quando eles compararem o Strand ou Regent Street com os arruamentos da nossa cidade baixa, agachemo-nos. Quando perfilarem as suas estradas com as nossas azinhagas reais, cubramos a cara. Mas quando compararem as venturas do homem de trabalho inglês com a triste sorte do peão português, risada. Quando opuserem as virtudes e ilustração das suas classes ínfimas à barbaria e estupidez das nossas, duas risadas. Quando encherem as bochechas das suas velhas liberdades (do tempo de Ricardo III, de Henrique VIII, de Isabel, de Cromwel e de Carlos II), das suas leis de propriedade em particular e da clareza, simplicidade e retidão de todas as suas leis em geral, e nos atirarem à cara o absolutismo dos nossos antigos monarcas, a bruteza da nossa ordenação, a intolerância dos inquisidores, trinta risadas. Quando, enfim, nos oferecerem, em escambo das nossas crenças e dos nossos costumes religiosos, os seus costumes e a sua crença, que esboroa há mais de dois séculos em quatrocentas crençazinhas, com os seus muito arrevessadinhos, quatrocentas risadas ou, antes, uma risada só, mas retumbante, maciça, inextinguível, como aquelas famosas gargalhadas dos deuses de Homero. O caso é disso! Se caíssemos na troca, ficávamos logrados. Traziam-nos de envolta, na carregação dos sermões domingueiros, os dízimos e as bruxas, de que há muito estamos livres, pela misericórdia divina, e que são os dois maiores flagelos da Inglaterra, depois da lei dos cereais e dos arrendamentos das terras, que aí alugam, até por semana, a dez milhões de esfaimados quatrocentos mil proprietários gordos e anafados.

Ao menos são quatrocentas mil barrigas de uma amplidão respeitável, campeando entre dez milhões de irmãos nossos, que não foram formados de barro, como nós e Adão, mas de massa ensossa de batatas.

V

EXCURSO PATRIÓTICO

 

Falemos sério: não contigo filósofo estético-romântico-progressivo, que não vales a pena disso, mas com o povo português, que fala português chão e inteligível. Falemos sério porque estas matérias de crenças e de culto são coisas graves e santas. Saber resistir à violência é forte, mas vulgar; saber resistir à calúnia e aos motejos é maior esforço e mais raro. Envergonhemo-nos do que houver mau e corrupto nos nossos costumes; envergonhemo-nos de, muitas vezes, não seguirmos na vida prática os ditames do cristianismo: não nos envergonhemos, porém, do culto dos sete séculos da monarquia.

A língua e a religião são as duas cadeias de bronze que unem, no correr dos tempos, as gerações passadas às presentes, e estes laços, que se prolongam através das eras, são a Pátria. A Pátria não é a terra; não é o bosque, o rio, o vale, a montanha, a árvore, a bonina: são-no os afetos que esses objetos nos recordam na história da vida: é a oração ensinada a balbuciar por nossa mãe, a língua em que pela primeira vez ela nos disse: «Meu filho!» A Pátria é o crucifixo com que o nosso pai se abraçou moribundo e com que nós nos abraçaremos também antes de ir dormir o grande sono, ao pé do que nos gerou, no cemitério da mesma aldeia em que ele e nós nascemos. A Pátria é o complexo de famílias enlaçadas entre si pelas recordações, pela crenças e até pelo sangue. Tomai, de feito, as duas delas que vos parecerem mais estranhas, colocadas nas províncias mais opostas de um país: examinai as relações de parentesco de uma com outra família, quais as desta com uma terceira, e assim por diante. Dessa primeira, que tão estranha vos pareceu, à última achareis o fio, enredado sim, talvez inextricável, mas sem solução de continuidade. Uma nação não é só metaforicamente uma grande família: é-o também no rigor da palavra.

A oração que consolou nossos avós nos consola no dia da amargura: o gesto com que imploramos a Providência é mais veemente quando nos foi transmitido por aqueles que pedem por nós a Deus. É por esse meio que os homens apertam mais os laços invisíveis que os unem aos seus maiores; porque o sentimento misterioso da família, e portanto da nacionalidade, se purifica e fortalece quando se prende no Céu.

Vede na história a prova de que a religião pode, por si só, criar uma nacionalidade mais rapidamente que todos os outros elementos que tendem a compor as nações. Considerai as cruzadas; essa multidão de homens nascidos em países diversos, entre os quais não há nenhuma comunidade de interesses, antes muitas vezes ódios. sangrentos e fundos. Lá na Ásia, em frente do islamismo, formam um só povo; são irmãos porque ajoelham todos ante o mesmo altar, combatem todos pela mesma ideia religiosa. Olhai para os Muçulmanos: vede o Corão, aglomerando, assimilando o beduíno e o egípcio, o alarve do Atlas e o negro de Al-Sudan. Onde quer que um pensamento grande precisa de toda a energia de unia unidade social para se desenvolver e realizar, lá haveis de encontrar a religião, produzindo essa energia.

Se isto é assim, qual culto, entre os de todas as parcialidades cristãs, será mais eficaz em gerar essa unidade forte do amor pátrio, que dá, não tanto a vida ativa e exterior, como uma vida íntima, escondida, tenaz, que resiste à morte e à dissolução sociais? Serão essas mil variações do protestantismo que diariamente se vão subdividindo e condenando umas pelas outras; essas crenças incertas, em que o filho já despreza o culto que o pai seguiu e o neto desprezará o de ambos? Quando e onde, não dizemos na mesma cidade e na mesma rua, mas na mesma família, enquanto o marido dorme ao som monótono do sermão anglicano, sublime de trivialidade e tédio, a mulher dá representações de Bedlam numa senzala de quacres ou de metodistas, pode acaso dizer-se que aí a religião é laço que impeça a morte do corpo da república, não nos dias de ventura e prosperidade exterior, em que é fácil conservar pelo orgulho a unidade nacional, mas nas épocas de calamidade e decadência? Parece-nos pouco provável. Aí as prisões morais da família são apenas hábitos humanos e não estão harmonizadas e santificadas por se prenderem no Céu: o primeiro sopro das paixões ou da desventura as reduzirá a pó. A história também no-lo diz e a história não é senão a profecia do futuro.

O protestantismo acusa o catolicismo de se haver afastado da pureza cristã antiga e gaba-se de ter revocado o cristianismo às suas tradições primitivas. O discutir tal matéria, em relação às doutrinas, fora insensato: os tempos dessa argumentação consumaram-se: tudo por este lado está dito de parte a parte. Quanto, porém, às fórmulas exteriores do nosso culto, são essas que ainda hoje atraem os insulsos motejos da imprensa protestante; é o culto católico, principalmente, que dá origem àquelas raças inglesas, tão agudas como a inteligência dos habitantes do Bethnal-Green, de Londres, ou do Winds, de Glasgow, embrutecidos pela fome, pela embriaguez e pela imundície; tão brilhantes e leves como o fumo de carvão de pedra que constitui a atmosfera britânica. Diariamente são acometidas as duas nações das Espanhas nos seus hábitos religiosos por homens, que empregariam melhor o tempo em estudar os cancros asquerosos, que devoram moral e materialmente a classe popular no seu próprio país, e em pedir à riqueza, só poderosa, só respeitada, só insolente, mais alguma caridade para com os muitos milhões dos seus compatrícios, que lidam, cheios de fome e de frio, cobertos de farrapos e vermes, para acumularem aos pés de bem poucos homens as fortunas incalculáveis e quase fabulosas que alimentam o luxo desenfreado de Londres; da Roma, ou, antes, da Babilónia moderna.

Por certo que no culto católico se têm introduzido abusos, e para isso contribui muitas vezes o próprio clero, menos instruído, menos bem educado, moralmente, que o clero anglicano. Mas, em que é culpado o culto da pouca instrução dos seus ministros e dessa falta de educação moral que diversas causas, alheias à religião, têm trazido e trazem ainda? É a Igreja que recomenda a ignorância? São os abusos consequências lógicas das doutrinas católicas? Eis o que cumpriria se provasse, como não é dificultoso mostrar que o protestantismo, querendo anular as pompas e os espetáculos, as fórmulas externas e brilhantes do catolicismo, matou tudo o que a crença do Calvário tinha de unção, de consolações, e afetos para o comum dos seus sectários, e converteu a religião numa certa metafísica nevoenta, que foge à compreensão das almas rudes e vulgares, quebrando todos os esteios a que, nesta vida de tristezas e dores, elas se encostavam para confiarem no Céu e consolarem-se na esperança; porque esses arrimos, necessários à sua fraqueza intelectual, eram o único meio de subirem até ao trono de Deus e descerem de lá armadas de resignação para continuarem a lutar com as tempestades da existência. O protestantismo foi só feito para os ditosos e abastados da Terra!

Continuar: parte 3 de 4