Lendas e Narrativas

Alexandre Herculano · Capítulo 8 de 8 · parte 3/4

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Lendas e Narrativas

O Pároco de Aldeia

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Vede aquela casinha, tão humilde e só, no meio de um descampado. Lá, sobre camilha dura e rota, delira em acesso febril um filho, único amparo de mãe desditosa, que vela, chorando ao pé dele. Na sua solidão e miséria, nenhuns socorros humanos pode esperar a pobre velha, cujas mãos trémulas em vão tentam aconchegar as roupas que o febricitante arroja, murmurando aflito com o ardor que o devora. Uma lâmpada de ferro, que ilumina frouxa o aposento, arde no canto oposto, diante de uma grosseira e afumada imagem da Virgem. A triste mãe volve para lá os olhos, embaciados da idade e das lágrimas, e sente que não se acha inteiramente abandonada. Ali está outra mãe que também derramou choro por um filho; choro mil e mil vezes mais amargoso que o seu.

Ela há de compreender-lhe a aflição e valer-lhe, porque é boa e poderosa ante Deus. Ei-la, a pobre velha, que trôpega se arrasta e ajoelha aos pés da imagem e cruza as mãos enrugadas e ora; ora com fé viva. Na procela de terrores que a cercam começa a bruxulear uma luz de esperança: espera porque crê na possibilidade da intercessão e dos milagres; e anima-se, e a tempestade da sua alma asserena-se, e a dor mitiga-se, porque, no meio das lágrimas e das rezas, ela pensa lá consigo que aquela imagem trouxe já muitas consolações aos seus pais, a ela mesmo e a toda a família, e que a Virgem Santíssima há de acudir-lhe ao seu filho, que, desde pequenino, gostava de ir apanhar as flores campestres para enfeitar a S, e que tantas vezes, à noite, antes de se deitar, ia pôr-se de joelhos ali onde ela estava a rezar uma salve-rainha. Quantas vezes, depois destas orações ardentes, volve Deus olhos compassivos para a morada da miséria e da amargura, e obra, não um milagre inútil, mas o benefício que faria qualquer médico, se na habitação solitária houvesse a possibilidade de se buscarem os socorros da ciência humana!

Dirá o protestantismo que isto é idolatria? Quê! Ignora, acaso, o mais grosseiro católico que acima dessa imagem está o espírito puro que ela representa e que acima desse espírito está Deus? O catolicismo, no seu culto das imagens, nas suas festas, nas suas visualidades, como vós lhes chamais, cometeu o grave erro de supor que a maioria do género humano não era composta de filósofos, nem capaz de um espiritualismo absoluto; de abstrair inteiramente das coisas sensíveis para remontar ao Céu.

O catolicismo lembrou-se das doutrinas do Cristo; acomodou-se à curta compreensão dos pequenos e humildes. Vós tendes um evangelho mais fidalgo e altivo. O protestantismo convém por isso ao Reino Unido, onde os quatrocentos mil senhores do solo são tudo, e são nada quinze ou vinte milhões de servos de gleba e de mendigos.

E como deixaria ele de ser exclusivo, aristocrático, orgulhoso? Essa crença, ou, antes, essa infinidade de crenças, unidas só em guerrear a igreja de dezoito séculos e que, no dia em que lhes faltasse o inimigo comum, se despedaçariam mutuamente, não podem deixar de viver de um misticismo perfumado, de um culto ininteligível para o povo. Desde que a reforma substituiu a autoridade e a tradição a ciência humana, o raciocínio e a discussão saiu do templo para a escola; transformou-se de fé em teoria. Então, o cristianismo deixou de ser uma coisa prática e positiva para todos os homens: os espíritos grosseiros e ignorantes aceitaram-no como um costume que acharam no mundo, sem afeto, nem má vontade, e as imaginações desregradas fizeram cada qual uma religião ao seu modo. Deram uma Bíblia ao ganha-pão, ao porcariço, ao bufarinheiro, e por esse facto constituíram-no teólogo, santo padre e até concílio. Creram ter estendido ao género humano a maravilha das línguas de fogo, que desciam sobre os apóstolos, e ficaram muito contentes de si. As multidões é que ficaram tristes e desconsoladas, porque tinham desaparecido de redor delas todos os símbolos, todas as imagens que lhes serviam como de marcos miliários para buscarem a Deus.

Afigurai-vos, de feito, o exemplo da mãe idosa e miserável que vê em trances mortais o filho, seu único abrigo; buscai este exemplo, ou outro qualquer, porque entre os pequenos não são raras nem pouco variadas as ocasiões de ásperos infortúnios. Lançai, a mãe aflita no seio do protestantismo. Qual refúgio lhe oferecerá a religião; refúgio imediato, sólido, esperançoso? A Bíblia? Também nós sabemos que tesouros encerra a Bíblia; também nós sabemos quantas vezes as suas páginas divinas têm feito dilatar em torrentes de lágrimas as negras aperturas do coração; também nós sabemos que dessa fonte inexaurível manam a resignação e a paz: a igreja católica sabia-o muitos séculos antes de vós existirdes. Mas quem vos assegura que a pobre velha achará a passagem análoga à sua situação; que encontrará nas palavras do livro sacrossanto o conforto de que carece e a esperança do socorro imediato e sobre-humano de que não menos precisa? Quem vos assegura, enfim, que ela saberá ler? Ou é que no país dos quacres a inspiração também faz de mestre-escola, como exercita o mister de mestre de Teologia?

E, depois, não sabeis que a dor moral do homem do povo tem gemidos e queixumes; é estrepitosa, delirante, sincera? Que não se reporta, não se esconde, e vem ao gesto aos meneios, aos olhos, à voz, como a dor física! Julgai-a semelhante ao spleen do dândi, ou ao devorar íntimo e calado das almas a quem a educação e a ciência ensinaram a dignidade das grandes agonias? Estes tais, exteriormente tranquilos, podem encostar-se ao braço, fitar os olhos no livro aberto ante si e aspirar naquelas páginas sublimes e profundas o hálito consolador que delas espira. Mas para o homem do povo, quase primitivo, quase selvagem, cujos olhos nadam em lágrimas, e que se estorce e brada, flagelado pela aflição, a Bíblia é, nesses instantes, inútil; porque é impossível. Deixai-lhe a imagem do santo, o crucifixo, o voto, o altar doméstico, a lâmpada acesa ante o vulto do mártir ou da Virgem; deixai-lhe o ajoelhar, o gemer, o rezar, o fazer promessas. Deixai os símbolos materiais da confiança na Providência à imbecilidade da natureza humana, aliás, crendo aniquilar a superstição e a idolatria, não fareis senão matar a vida moral e religiosa do povo.

Se nos dias, desgraçadamente muito comuns, das mágoas extremas só o catolicismo tem conforto para o homem rude, nos de contentamento só o catolicismo tem festas i que convertam para a gratidão e para Deus o seu gozo interior, que tende a trasbordar em risos e folgares. O simples repouso do domingo, para aquele que, condenado a lavor indefeso durante a semana inteira, compra, à custa de suor e cansaço, um pouco de pão duro é grosseiro, é uma alegria semelhante à do preso que, adormecendo em ferros, despertasse livre. Aquele coração precisa de dilatar-se, aqueles sentidos de recrearem-se, aquele espírito murcho e triste de se tornar viçoso, de desabrochar de novo ao sol da vida, ao menos nalguns desses dias reservados para o descanso. É então que o catolicismo lhe oferece as pompas das suas solenidades; o templo iluminado, os cânticos dos sacerdotes, as harmonias do órgão, o espetáculo brilhante das vestes sacerdotais e dos adornos do altar, os ramilhetes povoando os degraus do santuário ou juncando o pavimento, o incenso embalsamando a atmosfera. E, como tudo isto é para as multidões, o culto trasborda do estreito recinto e derrama-se pelas ruas, pelas praças, pelos campos, em procissões, em círios, em romarias, e o povo flutua, folga, reza, tripudia, esquece-se dos seus destinos de miséria e trabalho, ama a religião que o consola e, voltando suas habituais fadigas, leva para o meio delas a saudade do dia santo e as recordações afetuosas da Igreja.

E o protestantismo? O protestantismo despedaçou os vultos dos santos, proibiu os oragos, as romagens; esfarrapou alvas, casulas, amictos, pluviais; apagou as luzes; varreu as flores; assoprou o incenso. Fechou-se na celebração do domingo; e fez bem!, bem ao povo a quem, para tédio e tristeza, nos países protestantes, sobra o domingo. E porque fez ele isto? Foi porque essas coisas eram superstições papistas: as imagens idolatria, a água, benta água lustral, as vestes sacerdotais indecências ridículas, as cerimónias visagem, a missa mentira. Passagens da Bíblia e compridos sermões ficaram bastando ao culto externo, e, se alguma coisa deixaram ainda a esta poética e atrativa, foi o canto dos salmos e a harmonia do órgão; porque, como todos sabem, nas ágapes dos cristãos primitivos cantavam-se os salmos ao som do órgão!! Os protestantes são indubitavelmente antiquários eruditos, mas, sobretudo, lógicos.

Qual foi o resultado desta reformação insensata de instituições antigas e venerandas? Foi que o culto se tornou num hábito maquinal, numa ação que se pratica, pela impossibilidade de se praticar outra. A polícia vigia sobre isso. Deixe ela, ao domingo, abrir as lojas, os passeios, os estabelecimentos públicos, os espetáculos, as fábricas e as oficinas; deixe correr nas veias do corpo social o sangue comprimido, e os templos dos distritos de Inglaterra mais fervorosos no protestantismo ficarão tão ermos como as igrejas da Irlanda, onde o reitor prega ao sacrista o suado sermão que há de um dia, impresso, iluminar o mundo, enquanto o seu recalcitrante rebanho, a porta do presbitério solitário, ouve, ajoelhado na rua, a missa que, em altar portátil, lhe diz o pobre clérigo católico, verdadeiro e legítimo pastor, a quem incumbe consolá-los, bem como ao pároco protestante pertence... o quê?, Fazer prédicas às paredes e comer os dízimos, sacramento que, decerto, o puritanismo protestante achou nalgum alfarrábio velho ter sido instituído por Cristo!

Temos ouvido lamentar às pessoas de boa fé excessiva, destas. que estudam as nações nas aparências, e não na vida íntima, que o catolicismo não tome entre nós a severidade e decência exterior do culto anglicano; que o dia consagrado ao Senhor não seja guardado pontualmente; que as nossas igrejas não ofereçam na celebração dos ofícios divinos a gravidade, o silêncio, a ordem, o asseio de um templo protestante, nas horas destinadas â oração. No estado atual das sociedades em que o fervor dos primeiros tempos cristãos tem esfriado, em que, tanto entre católicos como entre protestantes, a religião deixou de ser o primeiro ou, ao menos, o exclusivo negócio dos homens, o que eles desejam seria impossível, e, se absolutamente um bem, relativamente um grande mal; porque as causas que facilitam esse estado de coisas em Inglaterra são a prova mais clara da morte, se não de uma certa religião vaga, em que os espíritos mais cultivados se alevantam até ao pé do trono de Deus, ao menos da religião, positiva e prática e bem definida, morta e enterrada há muito na mina de carvão de pedra chamada Grã-Bretanha.

Já dissemos que não é tanto o sentimento religioso que guarda em Inglaterra a decência do culto como a admirável polícia inglesa. Quem não o sabe? Quem ignora que, naquele país, a religião tem a natureza de outra qualquer fórmula material da sociedade; que é uma coisa como o regimento, a nau de guerra, o work-house? Ao cristão, um vigário, uma Bíblia, e a cadeia se perturbar o ofício divino; ao soldado, um coronel, uma espingarda e uns açoites, se mexer a cabeça na forma; ao marinheiro, um comodoro, um posto junto da amurada e um mergulho por baixo da quilha, se ofender a disciplina; ao miserável que vai cair no work-house, um diretor implacável, uma atafona e ração curta para aprender a deixar-se estalar à míngua sem pedir esmola. A cada instituição suas condições, sua sanção penal, seus destinos; o regimento serve para provar aos cartistas que a melhor organização política possível é a que faz morrer anualmente milhares de obreiros de fadiga, de fome e de febres pútridas, sobre uma pouca de palha fétida e húmida, no fundo de subterrâneos; a nau serve para civilizar a Índia pelas contribuições e moralizar a China pelo ópio; o work-house serve para curar radicalmente os que não têm nem pão nem camisa do vício infame da mendicidade; enfim, a igreja dominante (established church) serve para sustentar de dízimos muitas famílias honradas, com as modestas e reformadas prebendas anglicanas, entre as quais nenhuma excede a vinte mil libras esterlinas per annum, que, em moeda portuguesa, apenas montam a uns miseráveis duzentos mil cruzados.

O templo católico é comummente o símbolo da completa igualdade; lá não há distinções, senão para os ministros do culto; e, quando o orgulho humano, que forceja sempre por invadir ainda as coisas mais sagradas, vai aí profanamente estender o tapete aristocrático e colocar sentinelas, o povo murmura, e murmura em voz alta; porque sabe que na sociedade cristã, só há um Grande e Poderoso, que é Deus. Os nossos hábitos, as nossas ideias, são que o mais cómodo, o mais distinto lugar do templo pertence ao que primeiro o ocupou. O catolicismo entendeu que, diante da majestade do Criador, os vermes cobertos de brocado não o são menos que os vermes cobertos de farrapos.

Assim, o vulgo dos fiéis precipita-se como torrente através dos umbrais da igreja; estrepita nas lájeas do pavimento com os seus sapatos terrados; roça com o burel grosseiro as Finas sedas dos nobres e abastados; afasta com as mãos calosas os grupos alinhados dos peralvilhos; esquece-se, enfim, dos respeitos humanos, que se guardam e devem guardar cá fora. Como, pois, obter a ordem, as atenções, o silêncio? O nosso povo é rude e mal educado (não o gabamos por isso; mas o vulgacho inglês leva-lhe, em bruteza, incomparável vantagem); o nosso povo conserva dentro do templo os hábitos ruidosos, inquietos, grosseiros da praça pública. E poderia ele despi-los de súbito ao entrar na casa de Deus? Prova, acaso, desprezo pela religião, o borborinho que aí soa? examinai os que parecem estar com menos respeito e decência; os que falam e se agitam; são aqueles entre os quais o cristianismo iria achar os seus mártires se viessem de novo os tempos em que a crença do Crucificado precisava de ser revalidada pelo sangue dos seguidores da Cruz. Que esses pobres tontos, que nos motejam sem nos conhecerem, venham estudar o catolicismo português, se disso são capazes, e saberão se nós falamos verdade.

Nestas consequências, tão lógicas, tão rigorosas, do carácter primitivo da religião cristã e do estado das classes inferiores da sociedade, pôs cobro a igreja anglicana. É verdade que Jesus Cristo, segundo o Evangelho, na tradução vulgata, chamou principalmente os pobres e humildes; e, se no templo há quem valha mais que outrem, não são, por certo, aqueles que. o filho de Deus achava mais anchos para entrarem no Reino dos Céus do que um camelo para entrar no fundo de uma agulha. A igreja reformada entendeu, provavelmente, que outra era a interpretação do Evangelho; porque é corrente que os católicos nunca souberam grego, desde S. Jerónimo até Ângelo Policiano ou Aires Barbosa, para o poderem interpretar bem. Assim, em Inglaterra, aquelas tão formosas e vastas catedrais da idade Média, a que só falta um culto poético e consolador para serem sublimes, repartiram-se em camarotes de teatro, fechados à chave, e alguns, até, com todos os requisitos desse comfort que só os Ingleses conhecem bem. As jerarquias do dinheiro e do sangue estão lá rigorosamente guardadas: pelo lugar dos estalos e pelo seu luxo, os espíritos habituados à topografia da church podem orçar o número de avós ou os milhares de libras que possui cada filho da igreja anglicana: o comum dos vilãos, empurrados para ao pé da porta lá perdem em parte os deliciosos períodos do sermão do reitor, encarregado de acalentar... queremos dizer de conservar puros na fé, averiguada e decretada pela grande teóloga chamada rainha Isabel, os seus dizimados fregueses.

E o vulgo? Os homens do trabalho, da fome, dos farrapos? Os três quartos da população inglesa? Esses? Esses lá têm o templo da esperança e do consolo: lá têm o gin'spalace (palácio da genebra), a taberna. Na sua incrível miséria, os homens que não podem encontrar Deus, porque a igreja anglicana lho colocou numa atmosfera nebulosa, onde o não descortinam; porque o templo os repele; porque o priest, com o seu aristocrático, polido e perfumado sermão, não pode substituir a entidade exclusivamente católica chamada o missionário, sublime de persuasão, de energia e de virgem rudeza; os miseráveis, dizemos, atiram-se desorientados aos braços da embriaguez, porque a embriaguez tem o esquecimento, tem a sua horrível alegria. Lá, no gin's shop, estendendo o braço cadavérico e vacilante para a destruidora bebida, sorvendo-a com frenesi, essa espécie de brutos com forma humana resumem, no seu aspeto e meneios e na decadência de todos os sentimentos de pudor, as últimas consequências morais do protestantismo.

Que nos seja permitido citar as próprias palavras de um escritor moderno que melhor, talvez, que ninguém pintou o estado presente das últimas classes em Inglaterra e que em todos os factos que narra se funda ou nas próprias observações ou nos documentos oficiais publicados pelo Governo Inglês. Perfeitamente imparcial a respeito da Grã-Bretanha, o seu testemunho é o que mais a propósito podemos neste ponto invocar:

«A seriedade e o silêncio com que este licor ardente (a genebra) é tragado fazem arrepiar. É como se o povo assistisse a um ofício divino. Consumado o sacrifício, vão-se assentando no banco de madeira corrido em frente do balcão e ali ficam quietos, mudos, como arrebatados em inefável êxtase. Depois, passados alguns minutos, voltam ao balcão, tornam a beber e repetem até se lhes acabar o dinheiro. Vai-se assim a última mealha. E têm ânimo de afrontarem o morrer de fome, eles e os seus filhos, para se embriagarem. Provou-se, pelos inquéritos feitos por causa da lei dos pobres, que as esmolas em dinheiro dadas pelas paróquias iam cair inteiras na taberna e só aproveitavam ao taberneiro. O povo ínfimo da Inglaterra está de tal modo atolado no seu lodaçal, que não há aí caridade que possa desempegá-lo.»

«Sabem todos quão rigoroso preceito eclesiástico e civil é o guardar o domingo em Inglaterra. A única exceção da regra é a taberna. Lojas, tudo fechado; lugares de honesto ou instrutivo recreio, como hortos botânicos e museus, o mesmo. Só o gin's shop se abrirá de par em par a quem empurrar a porta com o pé.

O caso está em que pareça cerrada; duas meias portas sólidas, que se fechem por si, fazem a festa: janelas fechadas: dentro, lusco-fusco, como em santuário, e até sua luz de gás. Tomadas estas cautelas, licença inteira, licença autorizada para se venderem bebidas todo o dia sem lhe faltar hora. E é neste país, que os caminhos-de-ferro estão devolutos por todo o tempo do ofício divino, em honra do domingo! Enquanto, em Manchester, eu me espantava das largas que se davam às tabernas, apresentava-se à Câmara dos Lordes um bil para proibir o transporte das mercadorias pejos canais, no sagrado dia do domingo! Na cidade de Manchester há jardins zoológicos e botânicos, que o povo frequenta gostoso; mas não se obtém da pontualidade anglicana que estejam patentes no dia santo; e os bispos, tão escrupulosos no mais, são indiferentes pelo que toca aos gin's shops, abertos publicamente e frequentados ao domingo. Não é singular que a coisa única permitida ao povo seja embriagar-se ?»

«Não», diríamos nos ao autor do excelente livro que havemos citado. O Governo e a igreja da Grã-Bretanha sabem que entre a horrível miséria das classes laboriosas, a embriaguez e o suicídio não há uma quarta coisa para suavizar a agonia dos tratos que a primeira dá ao homem do povo. A religião, que falava aos sentidos do vulgacho e, por meio deles, ao seu espírito, mataram-na, e. como a morte não tem remédio, o protestantismo, crença de dois dias, mas já sem vigor e esfalfada, encomenda à religião das pipas o salvar os mal-aventurados obreiros, não do suicídio moral, mas, ao menos, do físico.

Dir-se-á que o povo não está entre nós numa situação análoga à do povo inglês, para o catolicismo ser posto à prova? Felizmente isso é verdade. Mas já houve tempos quase semelhantes, posto que ainda inferiores em terribilidade aos que vão correndo para a gente miúda de Inglaterra. Era quando a peste devastava as nossas cidades e invadia os nossos campos, levando-nos, às vezes, mais de um terço da população. Aí existem inumeráveis monumentos dessas épocas desastrosas: que apareça tini só por onde se prove que o desalento popular buscasse conforto no vinho e na aguardente. Pois cá o remédio não era caro! O que achamos são as preces, as romarias, procissões as lágrimas, os votos, o sentimento exaltado da confiança e da resignação na Providência. Achamos a pequena diferença que vai de um cristão a um bruto.

«E os Irlandeses?» Oh, bem sabemos que os Irlandeses, católicos como nós, na sua miséria monstruosa, têm caído, se é possível, ainda mais fundo que os Ingleses Mas, em rigor, esses católicos na intenção e na crença podem, acaso, sê-lo no culto que aviventa o espírito? Onde lhes deixou o protestantismo os seus templos, os seus sacerdotes, os seus costumes religiosos? O vulgacho irlandês é o argumento mais dolorosamente persuasivo da necessidade dessas festas, dessas alegrias, dessas formas materiais do culto. Sem elas, o católico miserável embrutece-se como o miserável protestante e o seu embrutecimento vem, por outra parte, recordar-nos de que não é possível achar um nome que qualifique devidamente o descaro com que o anglicanismo, inquisidor implacável e tenaz de três séculos, nos lança em rosto as trinta mil verdades e as sessenta mil mentiras que, com justíssimo horror, se relatam da Inquisição.

Eis o que nós podemos responder aos insulsos ditérios com que é diariamente vilipendiado o catolicismo português:. e não dizemos tudo; não dizemos metade. Quanto aos motejos que nos dirigem, como nação pobre, pequena, fraca, isso não passa de uma covardia, que só desonra a quem a pratica. Trabalhemos por levantar-nos da nossa decadência. Será essa a mais triunfante resposta.

E com estas deambulações de patriotismo religioso saltámos a pés juntos pela história do padre-prior. No capítulo seguinte daremos satisfação plena ao pio e benigno leitor.

VI

BARTOLOMEU DA VENTOSA

 

A quem não tem sucedido, nas horas de solidão, no silêncio da noite em que não pode dormir, ou no pino do dia calmoso, ao atravessar o bosque cerrado e sombrio, onde só se ouve o zumbir e o fervor dos insetos; a quem não tem sucedido engolfar-se numa vaga meditação e, por assim dizer, despenhar-se de pensamentos em pensamentos, presos por fio tão ténue, tão impercetível para a consciência, que, depois dessa espécie de devaneio, pretender remontar da última à primeira ideia seria baldado empenho, por falta de transições naturais e lógicas? E, todavia, a alma, que, nessa situação, como que perde o sentimento da vida externa, lá achou, no seu incessante pensar, uma ponte invisível para transpor os abismos que a fria, coxa e orgulhosa razão humana supõe existirem, quase a cada passada, no mundo da inteligência. Quando o espírito se desata dos corpos; quando a imaginação, depurando o senso íntimo, o faz repelir a matéria, fechando-se, como a mimosa pudica, à ação grosseira dos sentidos externos, o homem alevanta-se até o viver de além da morte, a luz dos anjos ilumina-lhe as profundezas mais obscuras do universo ideal e ele sabe quais os caminhos que, mergulhando pelos vales, unem as suas cumeadas brilhantes, únicos pontos que se podem enxergar da terra. O primeiro que disse: «Em tudo está tudo», teve uma destas revelações da imaginação pura, revelação completa do ideal, que não é mais do que a fusão da variedade absoluta e infinita na infinita e absoluta unidade.

Mas estes momentos em que somos iluminados pelo sol da vida celestial passam rápidos: o espírito cai logo dentro dos limites da sua existência de provança e desterro e, recordando-se confusamente daquelas inspirações fugitivas, sorri-se e chama-lhes sonhos, abusões, desvarios. É que a pobre e soberba razão, míope advogada do lodo e do crepúsculo, rejeita com horror as cogitações puras e luminosas que Deus faculta, às vezes, ao miserável ente, criado quase anjo por ele e a quem o primeiro raciocínio que se fez na Terra converteu em insensato e Precito.

E a que vêm estas metafísicas aqui? De que utilidade são elas para a história do pároco da aldeia e da festa do orago, há tanto tempo interrompida e que até agora não tem passado de divagações por objetos sem ligação com a vida e costumes do reverendo padre-prior? «Venha o padre-prior: venha a festa», dirão alguns, «e deixemo-nos dessas metafísicas modernas, que escorregam por entre os dedos e não passam de feixe de maravalhas, ao pé daquelas grandes filosofias dos ideólogos,, que até um sapateiro era capaz de estudar, batendo a sola e apertando o ponto; filosofia de pão, pão, queijo, queijo; filosofia substancial; filosofia de ouvir, ver, cheirar, gostar e apalpar, roliça, atoucinhada, confortativa. Se era necessário algum troço da ciência do atqui e ergo para atar estes capítulos ou capituladas da crónica aldeã, porque não recorrer ao claríssimo Condillac, ao bisclaríssimo Tracy? Para que parafusar em entes de razão impalpáveis, em armadilhas que trescalam às parvoíces germânicas, quando estava aí à mão a filosofia do senso comum, que é o senso patagão e russo, tupinamba e sueco, chim e dinamarquês, enfim, o senso de todo o mundo?»

Ai, leitor, que aí bate o ponto! Quem me dera isso! Quem me dera poder explicar por um capítulo tantos, parágrafo tantos, daquele santo homem de Locke o que me sucedeu ao escrever esta famosa história e lançar na balança da tua inflexível justiça uma desculpa de obra grossa dos meus rodeios, desvios e viravoltas na ordem e disposição destes importantes estudos! Por mais que pensasse, por mais que aferisse pelos bons princípios ideológicos o meu trabalho, saía-me tudo torto: era querer levantar uma bola com um gancho, ou firmar a tábua rasa do filósofo inglês sobre uma das pontas de um dilema. Como ajeitar a minha narração deambulatória pelas regras dó método? Impossível, impossibilíssimo! Fiz então como Constantino Magno. Não achando escápula, nem esperança na religião da matéria em que me criaram, fugi para a religião dos espíritos e, por uma teoria de abstração subjetiva, expliquei, como Deus me ajudou, as minhas, aliás inexplicáveis, divagações. Encostado a ela, como a uma coluna de basalto (de basalto, porque as de mármore e de bronze estão muito safadas do uso quotidiano), rir-me-ei do mais abalizado doutor que venha perguntar-me qual é a ordem lógica das minhas ideias. A resposta está no que expus: pontes intelectuais, invisíveis, inapreciáveis pelas regras ordinárias do método; pontos que unem o branco ao preto, o circular ao anguloso, o próximo ao remoto. Fecho-me nisto. A imaginação que assim o fez, é porque assim devia ser: está muito bem feito, ao menos no mundo da idealidade pura. Foi lá que eu passei de um vulnerável pároco de aldeia, português velho em costumes, em linguagem, em crenças, vulto poético e santo, para um inglês empertigado, monossilábico, iconoclasta, libertador de pretos alheios, escravizador de saxões e irlandeses brancos; numa palavra, galguei de um a outro pólo da humanidade. Foi lá que eu pude tombar, rolar, precipitar-me do catolicismo suave, consolador, festivo, ameigador dos miseráveis, desprezador dos poderosos soberbos, simbolizador, no seu culto, da igualdade ante Deus, para o anglicanismo perfumado, espartilhado, casquilho, teso, aristocrático, nevoento, dizimador, intolerante, enxotador dos mendigos, camaroteiro dos templos; pude tombar, rolar, precipitar-me do vértice brilhante donde derrama a sua eterna claridade o puro espírito do cristianismo no charco onde o mergulhou e afogou a vontade de um tirano devasso do século XVI e a vã presunção da sua filha, a pura, generosa e sábia Isabel, espécie de Concilio Niceno de carne e osso para o protestantismo inglês. Dou vinte anos a todos os ideólogos para explicarem por outro sistema a transição monstruosa e in compreensível que fiz a semelhante respeito nestes gravíssimos estudos. Idealizei um inglês (foi façanha!), idealizei o meu bom prior, e no mundo da razão pura lá achei que havia entre essas existências, infinitamente opostas, uma afinidade: qual, não sei eu dizer, porque o esqueci: e, ainda que me lembrasse, não saberia exprimi-lo. Dada esta explicação aos pechosos, vamos às prometidas duas palavras sobre a festa.

Era um dia ardente de Julho, a 27, coisa certíssima para o leitor, em consequência das minhas profundas investigações cronológicas. O Sol ia alto: a igreja paroquial, envolta no manto tricolor — branco, amarelo e vermelho cal, ocre, roxo-terra — parecia rir no seu júbilo. Um moço do Bartolomeu da Ventosa, rapazote de quinze anos, quatro meses, vinte e quatro dias e vinte e três horas e três quatros completos (por ter nascido a uma segunda-feira à meia-noite menos um quarto, de 2 para 3 de Março), neste grande dia do orago pilhara ao moleiro duas graças a um tempo, a de deixar em descanso o seu tonel das Danaides, a implacável joeira, e a de poder assistir à festa e ouvir a missa cantada e o sermão, em vez de ir acabar o pesado sono da madrugada à missa das almas. Gabriel, que assim se chamava o rapaz, ou, antes, Graviel, segundo a mais eufónica pronúncia saloia, vestiu logo pela manhã as suas calças e jaqueta de bombazina em folha e o seu colete vermelho, engenhado de um do patrão a troco de dois meses de sol dada, calçou as botifarras novas e enterrou o barrete azul e encarnado na cabeça, derrubando-o para trás, e, sem fazer caso do almoço (pois era uma açorda que os anjos a comeriam) desandou, outeiro abaixo, pela volta das sete e trinta e cinco minutos da manhã, caminho da paróquia. Via-se que um grande negócio lhe ocupava o espírito, por isso que levava os olhos cravados no campanário e, sem fazer caso das trilhas, cortava por entre as restevas, escorregando, aqui, nas pedras soltas, levando-as, acolá, diante dos bicos agudos das botifarras. Chegou. O sacristão, que estava à porta da igreja, apenas o lobrigou, pôs-se a rir, porque entendeu o verso. Gabriel era um dos maiores pimpões em repicar sinos que havia entre a rapaziada do lugar, mas desde que entrara para casa do Tio Bartolomeu, nunca mais pusera pé no campanário. Nos meneios, no gesto, no olhar lhe revia a sede, a ânsia, a saudade das harmonias risonhas, doidas, estrugidoras de um repique desenganado. Vinha tão cego, que só viu João Nepomuceno (assim se chamava o sacristão) quando deu de rosto com ele. Estacou embatucado; tirou o barrete e começou a coçar a região occipital, olhando de revés para o sacristão, que se encostara à ombreira com as mãos cruzadas atrás das costas, assobiando o Veni Creator.

«É-lé Graviel!», disse este, por fim, com um sorriso. «Você hoje campou. O patrão é festeiro; fica o moinho a dormir! Hem? Galdere; não é assim? Mas, cos diabos!, não sei como não vieste cá dormir. Botas os olhos acolá para o arraial. Vês? Duas bolacheiras e a Tia Sezila com queijadas; e disse. Ainda nem sequer o Chico apareceu para começar o repique. Pois para isso não é cedo, que a missa da festa é às dez em ponto. já o padre Chaparro e Fr. José dos Prazeres estão na sacristia e dizem que não tarda aí Fr. Narciso, que vem servir de mestre-de-cerimónias.»

«Ó sô João de Permecena!», acudiu o saloio, que tornara, ao ouvir o nome do Chico, a enterrar o barrete na cabeça, mas desta vez à banda, «com a sua licença, há-me de perdoar: não sei o que fez em chamar num dia destes aquele jumento do Chico para tocar os sinos. Aquilo!? Ora deixe-me rir. Há de a fazer bonita; não tem dúvida! Olhe, sempre lhe digo... »

«Não digas nada: bem sei. Mas que dianho querias tu com uma cravela de doze que dá a menza da irmandade e nicles? Mesmo o Chico, deu-me água pela barba para o resolver. Se aquilo são uns dianhos de uns fonas!»

«Pois, se vossemecê quer», interrompeu Gabriel, em cujos olhos se acendia o desejo, o deleite, a esperança, «eu lá vou. Hoje, o patrão deu-me licença até às trindades. Salto na torre e vai tudo raso. Toco até aquela cantiga de Lisboa, em que dizem que canta um tal Catragena em S. Carlos:... totro, trão-balão, re-pim, pi-ri-pim-pão.» Entusiasmado, o moço do moleiro cantarolava imitando os sons de um sino, ou, antes, de um tacho, a música horrendamente aleijada, esfarrapada, assassinada, dueto de Assur e Semíramis: La sorte piu fiera. Se Rossini ali chegasse de súbito, ou não a conhecia, ou esganava-se. O sacristão estava enlevado.

«Homem!», disse ele, quando Gabriel parou, «bom era isso: mas o Chico está ajustado; e já agora... »

«É que o Chico é o seu padagoz: há-me de dar licença que lho diga, Sr. João de Permecena!», interrompeu o moço do moleiro, vendo apagar-se a luz que lhe iluminara o espírito. «Pois eu tocava aí a desbancar, ainda por menos: bastava que me pagasse um arrátel de bolachas e dois berimbaus.»

«Eu cá não tenho padagozes, homem! Cos dianhos!», replicou o sacristão. «Se ele não estiver aqui às oito, dou-te a chave da torre, e são hoje teus os sinos. Quando quiseres terás as bolachas e os berimbaus.»

A proposta de Gabriel penetrara, como um bálsamo suave, na alma do sacristão: fazia a despesa com seis e meio e economizava o resto para a igreja, isto é, para si, como representante dela.

Gabriel saltou acima do parapeito do adro e pôs-se a olhar para o lado onde morava o Chico. Batia-lhe o coração com força. Às oito horas devia nascer para ele um dia de glória e contentamento, ou de desdouro e zanguinha. Deram as oito. «Viva!», bradou, saltando ao terreiro e correndo ao sacristão. «Venha!», prosseguiu, lançando mão da chave da torre com tal violência, que João Nepomuceno por um triz não foi a terra. Ia-lhe quebrando um dedo.

«Dianho!... Safa, alimária! Forte doido!... Ó Gabriel! Ouve cá, Gabriel! Olha que está passada a corda da garrida...»

Qual Gabriel, nem meio Gabriel! Tinha desaparecido como um foguete. O sacristão levantou os olhos para o campanário e viu já as cordas a bambolearem e a desembaraçarem-se, como as tranças de nobre dama nas mãos subtis de aia jeitosa. Gabriel era, sem a menor sombra de dúvida, a flor e nata da rapaziada curiosa da aldeia.

Uma pancada retumbante e sonora no sino grande, a qual se repetiu lentamente algumas vezes, foi como um mensageiro, despedido por montes e vales, a anunciar um dia de repouso e folgares para o homem do campo, curvado sob o sol ardente nas ceifas e mais trabalhos rurais do Estio, durante os longos dias de trabalho. Era como o romper de vasta sinfonia. Gradualmente, os outros sinos misturaram as suas vozes argentinas com a do primeiro e a atmosfera esplêndida vibrou, ondeando em tempestade de notas, que se cruzavam, cortavam, interrompiam, lutavam, com bárbara harmonia. A princípio, Gabriel, pausado e lento, lançava sucessivamente uma ou outra mão a esta ou àquela corda; pouco a pouco, os movimentos tornaram-se mais rápidos e os sons que transudavam por todas as aberturas, pelos mínimos poros da torre, começaram a assemelhar-se ao granizo do noroeste, que, de instante a instante, se torna mais espesso ao passo que a nuvem corre mais perpendicular. Era, por fim, um remoinho, um delírio, uma fúria sonora. Gabriel estava tomado de campanomania; mãos, pés, dentes, tudo repicava. Enovelado, como um gatinho, que quer agarrar e ao mesmo tempo repelir um dixe que colheu às unhas, o bom rapaz, com os olhos faiscantes e desvairados, parecia possesso: trepava, bracejava, careteava, tropeava, agachava-se, torcia-se, pulava, volteava, como se estivesse recebendo por todos os lados e a cada instante descargas elétricas. Insensível à matinada infernal que lhe estrepitava nos ouvidos, Gabriel dirigia palavras de amor, de ameaça, de incitamento aos sinos, como se eles pudessem ouvi-lo. Queria comunicar-lhes o seu ardor e entusiasmo de diletante; e, como se o entendessem, dir-se-ia que, no contínuo vaivém, eles oscilavam trémulos de prazer e tentavam desprender da pedra os braços robustos e voarem, como as aves que também soltavam livremente as suas harmonias, pela amplidão dos céus.

No fim de duas horas de lida, a natureza recuperou os seus direitos. Alagado em suor, perdido o alento, esgotados os brios e as forças, Gabriel afrouxara pouco e pouco. A estrepitosa e horrenda caricatura do dueto da Semíramis fora o canto do cisne. A viveza doidejante do repique converteu-se num tocar lento e solene, que ora imitava o dobre de finados, ora os três sinais melancólicos que indicam o fim do dia que expira.

Também era tempo. No seu banco, parte dos festeiros, cobertos de fitas e medalhas, esperavam já impacientes que o prior, o padre Chaparro e Fr. José dos Prazeres saíssem da sacristia para começar a missa. No coreto, as rabecas chiavam, cada vez com o ódio mais figadal entre si, ao passo que os virtuosos faziam todas as diligências possíveis para as por de acordo consigo mesmas e com os outros instrumentos. A gente, não só da aldeia, mas também dos casais e lugares vizinhos, afluindo de contínuo, enchiam a igreja, e o apertão, que ia a maior, começava a avariar os chapéus, os xailes e os vestidos das aldeãs mais opulentas, que tinham obtido transfigurar-se horrendamente com os trajos das peralvilhas da capital, os quais harmonizavam tão bem com aqueles corpos mal acepilhados e robustos, com aqueles rostos morenos e rosados, como os instrumentos da revoltosa orquestra se afinavam entre si.

Era um escândalo, profundo escândalo, para as beatas da freguesia, para as almas repassadas de patriotismo saloio, ver as novidades de vestuários que as corruptoras influências de Lisboa iam exercendo nos antigos costumes, viciados por essas escusadas louçainhas. A honestidade das raparigas, entendiam aquelas matronas de virtude tão sólida como as suas sapatas, tinha ido por ares e ventos, envolta nos farrapos das humilhadas salas de baeta vermelha, das abandonadas roupinhas de pano azul e das piramidais carapuças. A devassidão, embrulhada nos vestidos de chita, de lã e de seda e metida entre o forro dos chapéus de palha, penetrara no seio das famílias. Tudo estava perdido e a moral ia cada vez pior, diziam elas, com a filosofia maciça que o judicioso Horácio já gastava há dois mil anos e que é a mentira mais trivial, mais velha e mais tola que se conhece no mundo. Nas suas reflexões piedosas, as respeitáveis decanas da aldeia esqueciam, ou, antes, ignoravam, o único motivo sério que havia para lamentar aquela transformação. Era que esses trajos tornavam contrafeitas as raparigas aldeãs; matavam a poesia campestre; associavam ao idílio a valsa e o whist, e como que impregnavam a atmosfera, pura, brilhante e livre, dos miasmas repugnantes que povoam o ambiente pesado e abafadiço de tertúlia cortesã.

Mas antes de prosseguirmos nesta gravíssima história, é necessário que trepemos àquela encosta que fica em frente do presbitério e que vejamos o que é feito de um nosso conhecimento antigo, roda indispensável para o andamento da máquina de sucessos que vamos tecendo. Quem não vê que falamos do jovial e praguejador Bartolomeu, santo velho, se não fosse um desalmadíssimo avaro? O moleiro, desde que o filho casara, andava-lhe tudo à medida dos seus desejos. Era ganhar dinheiro como milho, e o futuro da família dos Ventosas surgia brilhante no horizonte. O Manuel estava, de feito, aposentado na azenha do Inácio Codeço e com uma labutação de por aí além. As peças do padre-prior tinham feito o milagre sonhado por Bartolomeu e ainda tinham sobrado algumas, que o honradíssimo moleiro associara às do seu mealheiro, para arranjar o Casal dos Caniços, de cuja venda já lhe dera palavra seu irmão Barnabé, a quem ele, havia dois meses, não deixava de dor de ilharga para que lhe tornasse as suas vinte moedas, que lhe eram indispensáveis, dizia o matreiro saloio, para pagar uma dívida contraída com um usurário de Lisboa por causa do casamento do seu Manuel, que se vira obrigado a arrumar. E, como Barnabé, que também era saloio e manhoso, lhe objetasse que só vendendo o Casal dos Caniços lhas poderia pagar de pronto e que era uma de seiscentos achar comprador que desse o que ele valia, Bartolomeu, aceso em amor fraterno, lhe declarou que o maldito usurário dera a entender que, se ele, Bartolomeu, tivesse umas terras que lhe empenhasse, esperaria pelo dinheiro com quaisquer cinco por cento ao mês; que, por isso, vendo-se naqueles apertos e aflições, faria o sacrifício de lhe tomar o casal pelas vinte moedas e mais o que fosse justo, que iria pedir ao mesmo usurário; porque — acrescentava ele, quase chorando — vão-se os anéis e Fiquem os dedos. Que ficaria arrasado, e a bem dizer a pedir esmola, porque, como ele, Barnabé, lhe afirmava todas as vezes que lhe ia pedir o seu dinheiro, as excomungadas das terras apenas davam para o fabrico. Enfim, tão despejadas mentiras pregou ao irmão, tanto o atenazou, tais artes teve de lhe converter as setas em grelhas, que as bichas pegaram e Barnabé deu o sim, a risco de estoirar os ossos à Tia Vicência, sua respeitável consorte, à mínima pegadilha, ou de rebentar de paixão alguma noite na cama, como um Satanás se não desabafasse daquela grande mágoa com uma boa maçada na mulher, consolação que para um verdadeiro saloio é, nas aflições, o supra-sumo dos prós e percalços matrimoniais.

A Providência temperou as coisas deste mundo de modo que se podem simbolizar todas as felicidades dele numa ameixa saragoçana. Doçuras, suco, beleza externa, sim, senhor; tudo quanto quiserem: mas, no fim de contas, travo e mais travo ao pé do caroço. É o que explica, pé à pá Santa Justa, a teoria das compensações de Azaís. Mais um caso para mostrar as carradas de razão que Azaís tinha na sua grande cenreira a este respeito é o que sucedeu ao moleiro no dia em que Barnabé acabou de se resolver sobre o Casal dos Caniços. Tinha sido, justamente, no dia da festa pela manhã, que Barnabé fora com a sua Joana à missa das almas e viera pelo moinho almoçar com o irmão, que não lhe mostrou a melhor cara a princípio, mas que até mandou fazer uma fritada de meia quarta de linguiça e três ovos (um botou-se fora, porque estava goro) quando soube ao que ele vinha. Bartolomeu não cabia em si de contente: obrigou a sobrinha a levar atados rio avental obra de dois arráteis de farinha, para fazer umas raivas, pondo lá o açúcar e os ovos e mandando-lhe metade delas, e, por mais que pai e filha se escusassem de aceitar o seu favor, embirrou e não houve torcê-lo. Estava naquele dia capaz de lhes dar de presente metade da sua fortuna, e mais era, dizia ele, um pobre de, Cristo. Logo que se foram, Bartolomeu deitou a correr para casa, fechou-se no seu quarto, abriu, umas após outras, as vinte gavetas de um contador, mexeu e remexeu em todas elas, tornou a fechar e, fazendo contas de cabeça, começou a passear de um para outro lado do aposento, com as mãos cruzadas nas costas e entregue às suas preocupações.

Os adornos ou guarnição. do quarto consistiam num leito de casados de pau-santo, de pés torneados e cabeceira redonda, tálamo nupcial, agora enlutado pela sempre chorada morte da Tia Genoveva da Ventosa, mãe de Manuel da Ventosa e mulher que fora do honrado Bartolomeu da Ventosa, que, para falar como os poetas, solitária rola (ou rolo ou rolho) naquele ninho silencioso, se encouchava triste nas longas noites de Inverno, aí, outrora tão felizes! O contador ficava em frente, ao lado um bufete, e sobre o bufete um oratório forrado de damasco amarelo, com sanefa encarnada. Sete santos povoavam o larário da defunta moleira: S. Sérvulo, Santo Onofre, S. Miguel, S. Sebastião, S. Gregório, Santo António e S. João Baptista; este último no centro e em peanha mais elevada; Santo António, à sua direita, com um cordão de ouro lançado ao pescoço, dando muitas voltas ao redor do corpo. Como suplemento, por cima da cabeceira da cama, uma lâmina da Senhora da Conceição e dois registos, um de Santa Bárbara e outro de Santa Rita; no tardoz da porta uma cruz de S. Lázaro, pregada com massa. Uma arca da índia, com ferrolho de correr e pregaria de grandes cabeças chatas, de duas polegadas de diâmetro, e quatro cadeiras de costas e assentos de couro lavrado completavam a mobília do aposento. No canto do bufete, quase à borda, estavam cravados um cruzado novo e um tostão falsos, memórias dolorosas de um mono que pregara certo padeiro de Lisboa ao moleiro na compra de uns sacos de farinha, história que, se eu a contasse, havia de fazer arrepiar o pêlo aos leitores, mais do que as novelas de Ana Radcliffe.

«Dez centos de mil réis! Chumba-lhe!», dizia o velho, esfregando as mãos, como um botecudo esfrega dois paus de que quer tirar lume e passeando com passos curtos e rápidos de um para outro lado. «É isso! Cem peças, setecentos e meio: quatrocentos pintos, dois centos menos oito: fazem novecentos e meio menos oito: duzentas cravelas de doze, meio cento menos dois: oito e dois dez: dez centos menos dez: oitenta de seis fazem duas moedas: duas moedas dez mil réis menos um cruzado: oito meios tostões quatro tostões: quatro tostões com... justamente, dez centos. Ah, sô Barnabé, quer setecentos? Hem? Com vinte moedas que já lá andam a juro, parece-me!... Quer ou não quer?» «Homem, isso é muito pouco...» «Pouco?! E doze moedas de foro?» «As terras dão bem para isso: só a Abrunhosa...» «Pois se dão, homem, paga-me as vinte moedas. Ah, embatucas? Oh, oh, ih, ih, ih!»

E Bartolomeu ria a bom rir daquele diálogo que fantasiava travar com o irmão. De repente, porém, as feições contraídas pelo riso se lhe imobilizaram diante de uma ideia fatal. Barnabé podia dar com a língua nos dentes acerca do negócio, nalguma noite em que fosse para a tenda do Agostinho jogar a bisca a vinho, conforme o seu costume, e sair um atravessador a picar-lhe o lanço; o Bento Rabicha, por exemplo, que tinha muito caroço e que era um dos da tripeça da bisca. Vinham-lhe calafrios com tal pensamento. Uma palavra, uma alusão perderia, talvez, tudo. Era verdadeira agonia a sua.

Costumado a implorar o céu nas grandes aflições, Bartolomeu, por uma daquelas subtilezas morais dos avaros que sabem conciliar a devoção com o seu vício hediondo, ajoelhou diante do oratório e, com lágrimas e fervorosas súplicas, começou a pedir a S. João Baptista fizesse com que Barnabé não tugisse nem mugisse a semelhante respeito. Nas suas orações passou-lhe, talvez, pela cabeça a ideia de um estupor na língua de Barnabé. Desconfio: não o afirmo; porque não gosto de coisas ditas no ar. O que é certo é que procurou dar a entender ao santo que teria duas velas acesas e uma esmola para a sua festa, se as coisas lhe saíssem a jeito, exprimindo-se, todavia, por tal arte que não ficasse absolutamente preso pela palavra e pudesse roer a corda depois de se pilhar servido.

Enquanto o moleiro se debatia nestas tempestades de ambição, passava-se no presbitério a cena que já descrevi entre João Nepomuceno e Gabriel. A princípio, Bartolomeu, embebido nos seus cálculos, temores e rogativas, nem sequer ouvira os repiques variados e harmónicos Com que o rapaz do moinho rompera o seu grande e festivo concerto; mas, pouco a pouco, o motim dos sinos crescera a ponto que só os defuntos do cemitério poderiam ficar indiferentes a tão retumbantes belezas musicais. Na aldeia já ninguém se entendia no meio dessa procela de sons, que, trepando pelos outeiros ao redor e precipitando-se para os vales além, iam levar o ruído da festa e a glória de S. Pantaleão às povoações vizinhas. Penetrando pelos ouvidos do moleiro, aquelas vibrações desalmadas fizeram-no despertar do êxtase de sovinaria devota que o arrebatava. Ergueu-se, chegou à janela, alçou a adufa, pôs-se a mirar o relógio de sol do campanário, piscando os olhos e fazendo com a mão uma espécie de pala para os defender da luz e, depois de se afirmar por um pedaço, deixando cair de golpe a adufa, correu à arca, murmurando: «Nove horas! já mais de nove horas! Esta, só por trezentos milheiros de diabos! E ainda tenho de me vestir! Com seiscentos diabos! Daqui a nada estão lá os outros. Ora o Diabo!...»

Estas imprecações em razão descendente, que o moleiro tinha sempre na boca por um mau hábito e que todas as pregações e remoques do padre-prior não tinham podido fazer perder àquela língua danada de Bartolomeu, nasciam de unia circunstância, na verdade séria. A função de igreja deveria começar às dez horas, e ele era um dos festeiros. O padre-prior tantas voltas dera que o obrigara a sê-lo e a esportular uma moeda para as despesas. Devemos acreditar que nunca o teria alcançado se não fosse o dote de Bernardina, sobre o que o moleiro tremia que o velho clérigo deixasse escapar alguma palavra. Ele aproveitara habilmente o caso para passar por bom pai e generoso e, ao mesmo tempo, para se esquivar ao menor acto de beneficência o resto da sua vida, afirmando que se empenhara até os olhos para comprar e reparar a azenha do Inácio Codeço, e estabelecer lá o seu rapaz, quando a verdade era que, comprada a azenha, posta a casa aos noivos, adquiridos seis machos, paga a soldada de três meses a dois moços, provida a despensa e deixadas algumas moedas para as despesas diárias, ainda certo número de louras do padre-prior tinham ido cair, como já disse, no escaninho onde jaziam, sem ver sol nem lua, aquelas que o moleiro acabava de contar. Obrigado por tal consideração, e à força de rogativos do pároco e das picuinhas de outros irmãos da Irmandade do Santíssimo, que se tinham metido no negócio, o moleiro achava-se elevado a uma situação que estava longe de ambicionar. Perdida a moeda, que ele havia de chorar toda a sua vida, importava-lhe não perder a consideração e valia na festa, valia que por tão alto e raivado preço comprara; era esse o risco que ele via iminente, ao menos em parte, se não estivesse a ponto de sair da sacristia para a capela-mor no préstito dos festeiros.

O dia começara bem; mas ia-se tornando aziago.

Apesar de velho, curto e barrigudo, o moleiro, não vendo nenhum outro meio de esquivar o contratempo que receava, apressou-se o mais que pôde em se adornar com o asseio e pontualidade que requeria o acto. Do fundo da arca saiu o arsenal completo para os dias de ver a Deus. Era respeitável pela antiguidade! Monumentos de mais felizes épocas, os arreios esplêndidos de Bartolomeu constavam de uns calções de gorgorão cor de tabaco, de um colete de veludo verde e de uma casaca azul de abas largas e gola estreita (isto passava há bem dezoito anos), antípoda da casaca peralvilha dos casquilhos daquele tempo. As minudências do trajo diplomático do moleiro compunham-se de um chapéu armado, de um pescocinho com bofes, de umas meias de algodão brancas e de uns sapatos de entrada a baixo, ensebados de novo, com fivelas de prata, que batiam quase na vira, de um e de outro lado. Assim vestido, era um príncipe. Não; que lá isso é verdade; metia respeito! Apressado, vermelho, suando com a calma, bufava como um touro, encaminhando-se para a igreja. Os moços dos seus colegas, os de três padeiros que havia no lugar e os de cinco lavradores a quem costumava comprar os trigos, passando por ele, desbarretavam-se até baixo; a outra saloiada, especada pelo arraial, fazia menção de cortesia com o barrete: dos mendigos que começavam a apinhar-se para o lado do presbitério ao cheiro do bodo, uns, que não o conheciam, por virem de longe, estendiam-lhe a mão e davam-lhe senhorias, tudo em vão; outros, que eram dos arredores, rosnavam e praguejavam-no. Mas dessas rosnaduras e pragas ria-se ele. Na auréola de glória que o cercava já, que o ia cercar, ainda mais brilhante Bartolomeu estava tanto acima da maledicência daqueles madraços como os homens de Estado de qualquer partido costumam estar acima das ferretoadas, sovinadas e lambadas da imprensa periódica do partido contrário, segundo afirmam os da sua parcialidade: vide jornais de todas as cores e cambiantes, passim. Como os políticos, o moleiro podia dizer, pondo a mão no coração «a minha consciência», «a minha honra», «a opinião pública», «os meus serviços», «a nação», «a posteridade», e depois tossir e escarrar grosso, e seguir avante, sem se embaraçar com aquele rosnatório despeitoso e zangado; porque, como bem disse um poeta de filosofia ancha:

Continuar: parte 4 de 4