Lendas e Narrativas
O Pároco de Aldeia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
O prémio da virtude é a virtude:
O castigo do vício o próprio Vício.
E foi o que Bartolomeu fez: e com razão. Não eram os respeitos dos moços e dos outros moleiros e dos lavradores seus fregueses e os dos pobres que o avaliavam pelo sécio dos trajos a prova cabal e indestrutível da sua popularidade? Eram. Que caso devia, pois, fazer dos zunzuns de meia dúzia de farroupilhas? Nenhum. Eu cá, pelo menos, sou de opinião que fez bem prosseguindo no seu caminho, tranquilo com o testemunho de uma voz íntima, que o certificava de que era homem de importância e digno por todos os títulos de representar o papel de festeiro a que fora chamado.
Mas a nobre altivez do moleiro e a firmeza que mostrara em não deslizar um ápice do carácter grave e sobranceiro que era próprio da sua situação tinham de ser postas à mais dura prova. O momento em que chegou ao adro foi aziago. Aí viu e ouviu coisas que o fizeram sair da gravidade e compostura que até então guardara. O que o negócio deu de si vê-lo-á o leitor no prosseguimento desta história, que poderá ter mil defeitos, mas que (não é por me gabar) tenho levado com toda a pontualidade na cronologia e na averiguação dos mais miúdos factos que possam ilustrá-la.
VII
TANTAENE ANIMIS?
Quando Bartolomeu ia entrando no adro, viu um taful e uma senhora que, à porta da igreja, forcejavam para romper a pinha de povo que a obstruía. Vistos assim pelas cestas, pareciam pessoas de conta. Trajava ela um vestido de seda preta, um grande xaile vermelho e um chapéu, franzido à inglesa, cor de café: ele calça e casaca preta da moda e chapéu fino, posto que já amarrotado pelos apertões da saloiada, que, fingindo quererem abrir caminho ao elegante par, cada vez se uniam mais, olhando uns para os outros com aquele sorriso de socapa e malévolo que é peculiar dos campónios quando colhem algum indivíduo, cujo porte e aparência os humilha, para vítima das suas graças e perrarias, um pouco abrutadas.
O moleiro tinha nascido naqueles sítios, nunca dormira uma noite fora do lugar, lidava com muita gente em consequência do seu tráfego, ia-lhe já a neve pela serra e, por isso, conhecia perfeitamente os hábitos, propensões e manhas dos seus patrícios. Percebeu logo que os saloios estavam de embirração com as duas personagens cortesãs e desenganou-se de todo, vendo vir do lado da igreja um dos moços do Agostinho da tenda, que, fingindo-se bêbado e cambaleando, dizia: «Cresça o Monte, rapazes; cresça o monte!»
O magnetismo animal é um mistério ainda: a extensão das afinidades magnéticas ninguém a pode demarcar. De homem para homem elas são indubitáveis; mas, porventura, vão mais longe. Ao menos, eu creio que os calções, a casaca e o chapéu armado do moleiro atuavam fortemente no seu espírito por influência oculta. Sentia no coração uma espécie de cócegas aristocráticas, uma vontade de mostrar o que podia e valia aos nobres hóspedes da sua terra, que, pretendendo assistir à festa, se colocavam naturalmente debaixo da sua proteção, como festeiro. Era esta uma ideia que não lhe viria à cabeça quando trajava os seus calções enfarinhados, o seu colete assertoado e a sua jaqueta de saragoça. Mas veio-lhe então, misteriosa, irrefletida, forçosa, posto que sem quebra da liberdade de a rejeitar, semelhante, se a comparação fosse lícita, à graça eficaz. Aproximou-se, pois, abrindo passagem por entre a turbamulta, O primeiro indivíduo com quem topou em cheio foi com Gabriel, que, tendo saído do campanário, tratava também de penetrar na igreja para ajustar contas com o sacristão, logo que se lhe oferecesse oportunidade. Para aproveitar o tempo, Gabriel, informado do que se passava, ia ajudando a aumentar o apertão que crescia cada vez mais, de modo que a dama do xaile e o dândi de preto, entalados junto do guarda-vento, nem podiam recuar nem surdir avante. Apesar, porém, da pequenez do seu corpo, Gabriel parecia ter de olho as duas vítimas, como receoso de que, voltando a cabeça, o lobrigassem. Careteava, ria, empurrava com alma; mas, de instante a instante, punha-se nos bicos dos pés, espreitava por cima dos ombros e por entre as cabeças dos vizinhos, agachava-se, ao menor movimento que via fazer aos dois, tornava a empurrar e, nesta lida, o garoto renovava, incansável em novo combate, as façanhas que, havia pouco, praticara no sempre memorando repique.
«Mariola!», rosnou colérico o moleiro por entre os dentes cerrados, ao chegar ao apertão e agarrando de súbito as orelhas de Gabriel, que, com uma cara onde assomava o choro, encolhia a cabeça entre os ombros, mal comparado, como um caracol quando lhe puxam os tentáculos. Não tanto pela voz, como pelo contacto das mãos, assaz conhecidas daquelas pobres orelhas, Gabriel sentira o patrão. Era, todavia, já tarde.
«Mariola!», repetiu Bartolomeu, com o mesmo grito mal sopeado de cólera. E ouviu-se o tinir duvidoso de uma fivela, acompanhado de um som baço, como quem dissera o do bico de um sapato grosso batendo sobre uma pouca de bombazina estufada de certa porção convexa de carne humana. Gabriel descreveu com o corpo um arco, mas no sentido inverso ao de quem faz cortesia profunda. E começou a soluçar.
«Mariola!», acrescentou, ainda outra vez, o moleiro, com aquele fatal rugido que significava o seu profundo despeito. Ao dito seguiu-se rapidamente o feito. Largou as orelhas do rapaz: recuou o braço, cerrou o punho e desfechou-lhe tal murro no toutiço, que Gabriel foi ao chão.
A princípio, uma certa contemplação com a idade, com o carácter e, mais que tudo, com a fama de ricaço de que Bartolomeu gozava, conteve os murmúrios dos poucos a quem as diligências comuns para penetrar na igreja tinham consentido atender ao duro castigo que convertera Gabriel num como bode emissário dos pecados de muitos. Quando, porém, o mesquinho rapaz caiu em terra, a indignação dos seus co-réus rebentou. O moço do Agostinho, posto que a medo, levantou a antífona.
«Também é bater à bruta! Agora, a prove criança fez-lhe algum mal?! Vá bater assim no Diabo. Olhe não matasse aqueles milordes!...»
«Entre, Sô Doutor!», atalhou Bartolomeu, atirando umas escorralhas de pontapé que ainda lhe titilavam nos tendões da perna direita ao limite inferior das vértebras de Gabriel, já que não podia sem risco aplicá-las ao orador. Essa fora, todavia, a sua primeira inspiração.
«Ai, é para isso que uma mãe cria um filho! Coitadinho, já não tens pai! Não foras tu orfo e prove. Mas, cala-te, boca. A gente sempre vê coisas!»
Ouvindo estas palavras, proferidas por uma voz feminina conhecida, o velho moleiro voltou-se. Era a Sra. Perpétua Rosa, que, em companhia da ama do prior, tinha chegado naquele instante a mata-cavalos, por se haverem ambas entretido a examinar umas meadas que a Tia Jerónima dera a curar à lavadeira e que esta, vindo ara a festa, de caminho lhe fora entregar. Posto que ligados, até certo ponto, pelo casamento dos seus filhos, a mútua má vontade da lavadeira e do moleiro, alimentada por largo tempo, tinha sido como o escalracho: cada ano profundara mais um palmo de raízes. Só havia uma diferença, e era que Perpétua Rosa, protegida pelo genro, perdera pouco a pouco o medo que tomara a Bartolomeu desde aquela história das sacas e já se engrifava para ele sem cerimónia. Encontrando-se às vezes na azenha, nem uma só deixavam de se travar de razões por qualquer palha podre. De resto, tratavam-se com aparente cordialidade. Era como a aliança e simpatia atual entre a França e a Inglaterra.
«Pois não, sua lambisgoia!», acudiu o moleiro, fazendo-se vermelho. «Acha você muito bonito que meia dúzia de patifes estejam judiando com as pessoas que querem entrar na igreja? Com um quarteirão de diabos! Quem dá o pão dá o ensino; e este, pelo menos, hei de eu ensiná-lo!... Rosna pra aí, pedaço de bruxa velha», acrescentou ele, vendo que Perpétua Rosa continuava a resmonear, já com acompanhamento de: «tem razão, Tia Perpétua!», «olha o maluco!», «se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão!», «é agora o senhor assaluto!». Era uma tempestade iminente: era a revolta eterna do pobre contra o abastado, que resfolga pelo mínimo respiradouro. E o sussurro crescia, e Bartolomeu, sufocado pela raiva, batia o pé, e debalde tentava cuspir por cima daquela quase algazarra as pragas, as injúrias, as ameaças, que lhe faziam maior entupimento na garganta do que pão de cevada faria em goelas de peralvilho dengoso. Vingava-se, é verdade, em servir de coices e cachações o mísero Gabriel, que se lhe rebolava aos pés; mas isto não era senão botar lenha ao forno e aumentar cada vez mais o tumulto. A hirta mó de saloios ao pé do guarda-vento tornava-se mais flexível, ondeava, alargava-se, dissolvia-se e vinha aglomerar-se de novo em volta de Bartolomeu, curiosos de indagarem o motivo daquela assuada. Falavam todos a um tempo: no meio do burburinho já ninguém se entendia; e, apesar da cólera e da sua habitual firmeza, o moleiro começava a titubear.
Na fúria em que estava incendido contra Perpétua Rosa, contra a ama do prior, que também tinha desembainhado a língua em defesa de Gabriel, e contra outras duas velhas do lugar que ajudavam a atenazá-lo, Bartolomeu não reparou que o taful, por cuja causa se metera naquela nora, forcejava por chegar ao pé dele. Por fim, foi a própria Perpétua Rosa que o fez atentar por isso.
«Venha, Manuel, venha cá: olhe a figura que está fazendo seu pai. Forte toirão! Abrenúncio!»
A isto o moleiro alçou os olhos para aquela parte e viu... Quem havia ele de ver? O seu Manuel, que com efeito, rompia entre a turba, aproximando-se, seguido de Bernardina, que, lá de longe fazia esgares e visagens à Sra. Perpétua Rosa e à Tia Jerónima para que se calassem. Os dois tafuis, os dois milordes, os dois fidalgos, por quem Bartolomeu afrontava as iras populares, eram, nem mais nem menos, seu filho e a sua nora. Ficou parvo. O luxo dos noivos fez-lhe esquecer Gabriel, as velhas, as injúrias, tudo. Como o corpo eletrizado pelo contacto da resina, que é repelido ao chegarem-no de novo a ela e desembesta para o vidro se lho aproximam, a sanhuda indignação do moleiro nordesteou para as novas vítimas. Cingiu involuntariamente as algibeiras com as mãos; porque cada uma delas se lhe figurou convertida num repuxo de cruzados novos, que, descrevendo uma curva parabólica, iam cair nos balcões dos arruamentos de Lisboa. Depois, fincando os punhos cerrados nos vazios e abanando a cabeça de um para outro lado, poder-se-ia comparar ao oceano, nos momentos que precedem a tempestade, quando as vagas, profundamente revoltas, ainda se não encrespam em carneiradas, mas banzam, como sonolentas, espertando-se para o combate.
Passa a França pela terra clássica da galanteria. parece que o belo sexo tem ali o seu trono. Neste ponto cedem a palma aos Franceses os outros povos. Dizem-no todos; mas eu digo que não. Vence-os esta namorada terra de Portugal. Os nossos afetos serão menos ruidosos, menos rendidos; são, porém, mais ardentes e duradoiros. Se as frases de uma língua podem, muitas vezes, servir para revelar o carácter, os costumes e, até, a história da nação que a fala, a nossa língua e a francesa nos oferecem argumento da existência dessa superioridade do coração, pela qual eu ponho, não digo a cabeça, mas quase. E, senão, respondam-me. Que incêndio seria maior: aquele que precisasse de um ano para amortecer e extinguir-se, ou o que durasse apenas um mês? Indubitavelmente o primeiro. Belamente. Venhamos agora à hipótese. O matrimónio é, da sua natureza, resfriativo: a paixão mais violenta acalma, entibia-se, entisica e morre com o trato doméstico; e feliz se pode chamar a união em que a amizade e a estima vem substituir os sonhos e delírios do amor já saciado. Há, todavia, um período em que, apesar de satisfeito, ele resiste ainda: é durante o lento desabar das ilusões, que vão caindo peça a peça. Nesse período, ainda aos casados cabe o nome poético de amantes; depois é que se chamam a coisa mais prosaica e positiva que se conhece no mundo; chamam-se marido e mulher. Esta época transitória tem a sua fórmula diversa conforme as diversas línguas. Exprime-a em francês a frase lua-de-mel: o português diz ano de noivos. É claro que em Portugal resiste o amor ao matrimónio doze vezes mais que em França. Lá um mês; cá um ano. Fiquem as raparigas de aviso: nada de amores com estrangeiros: Se em França, num mês, colhem todo o fruto da vitória, que será por essas terras de Cristo mais geladas e nevoentas? Eu, por mim, façam lá o que quiserem. Lavo daí minhas mãos.
Bernardina, essa é que a dera em cheio casando com o Manuel da Ventosa. Aos quatro meses de noivo era ainda um baboso por ela. No princípio de Julho ajustara contas com os compradores das maquias da azenha e recebera algumas moedas: a festa da aldeia estava próxima: Bernardina morria por tafularia: o moço moleiro também não lhe era avesso. Tinham o vício instintivo da gente nova, vício legítimo, se em vícios se pode dar legitimidade. Duas forças arrastavam, pois, o pobre Manuel da Ventosa: o amor e a própria inclinação. D. Tomásia, irmã do mestre-escola da aldeia (se Deus me der vida e saúde, ainda talvez um dia conte a história do digno professor), vivera na corte muitos anos com o sábio mano. Nisto de modas falava que nem um livro. Quando ia por acaso a Lisboa, nunca deixava de visitar duas ou três modistas suas conhecidas, de maneira que, por assim dizer, andava sempre ao par da ciência. Foi num aposento interior, no sancta sanctorum da residência magistral, que se traçou, discutiu e resolveu a conspiração que devia baralhar os cálculos de Bartolomeu sobre as maquias da azenha naquele semestre. Seis moedas foram ali barbaramente espatifadas. Foi um orçamento perfeito: talhou-se por cima da risca do necessário e gastou-se; gastou-se, daí a poucos dias, até o último real, já se sabe, com severíssimas economias, ficando-se devendo apenas uns três mil e seiscentos a D. Margarida, famosa modista daquele tempo. A campanha fez-se do modo seguinte: Manuel da Ventosa acompanhou D. Tomásia a Lisboa, para umas compras de certos arranjos domésticos, de que ela dizia muito carecer. Os arranjos eram os da fatal conspiração contra o velho Bartolomeu. Os trances de esperança e de receio do bom ou mau desempenho de D. Tomásia porque passou Bernardina, enquanto os dois não voltaram, não cabe no possível narrá-lo. Apesar disso, a elegância com que se imaginava trajada e trajado o seu homem namorava-a de si mesma e dobradamente dele. Chegava a ter ciúmes das olhaduras que deitariam ao Manuel as outras raparigas, sem que por isso deixasse de admitir, com certa complacência inocente, a ideia do quanto a tinham de achar atrativa os rapazes da aldeia. Enfim, é aqui o caso de dizer com o poeta, acerca do que se passava no coração da moleira:
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas Julgue-o quem não pode experimentá-lo.
Voltaram os dois às trindades. O escolar valido do mestre, que aviava os recados de casa, tinha acompanhado a expedição. Num grande saco de damasco amarelo, herdado por D. Tomásia da sua avó materna, e em duas grandes caixas de papelão, trazia o rapaz os almejados adornos. Quem diria que o monumental saco era a boceta de Pandora!? Pois era. Bernardina saltou de contente ao desenfardelar aquela feira: estava vestida à moda desde os pés até à cabeça, posto que o seu Manuel houvesse cortado para si uma posta de leão. Digo isto porque, apesar de toda a farandulagem feminina que a boa da irmã do professor escolhera com fino tato, quatro moedas tinham ficado no Adrião, num chapeleiro do Rossio e num sapateiro aí próximo, não me lembra em que rua, porque isto já lá vai há muito tempo e a história está sujeita a estas deploráveis lacunas. O caso é que ele, pela sua parte, envergada aquela fatiota, poderia, sem grande favor, passar por um fidalgo de província chegado de três dias à corte. Fugia-lhe tudo um és não és do corpo e tolhia-o, é verdade; mas ficava um mocetão teso; um milorde, como diria o jovem do Agostinho da tenda.
Segredo, segredo profundíssimo (semelhante ao da nossa tão célebre conspiração em 1640 contra os Castelhanos, da qual só, talvez, sabia o primeiro-ministro de Castela) se guardou na azenha, olim de Inácio Codeço, acerca de todas aquelas tafularias. Quantas vezes não se vestiram a casaca e o vestido de seda! Quantas vezes se não puseram a casaca e o chapéu de castor e o franzido! Que reviravoltas se não deram, que visagens se não fizeram diante de um espelho de espinheiro, com as suas cortinas de paninho, que adornava a casa de fora, sobre uma cómoda de vinhático oleado, cujas puxadeiras de metal amarelo luziam que nem ouro! Que disputas não houve sobre o abotoar e o desabotoar, o atacar e o desatacar, o pôr o chapéu assim e o pôr o chapéu assado! E D. Tomásia, que presidia àquelas conclusões, da alteza da ciência punha termo à questão com o seu parecer decisivo, magistral, oracular. No grande dia da festa, a vaidade daquelas duas criançolas, satisfeita com a admiração popular, não valeria, não podia valer, o deleite que a antevista glória desse dia lhes dava em imaginação. Ai, assim são todas as ambições e esperanças humanas! O gozo é sempre o desengano, mais ou menos ensosso, das fascinações do desejo.
Mas havia uma nuvem negra que entenebrecia o brilho de tão completa felicidade. Era a lembrança do gemo de Bartolomeu. As vezes, no meio dos mais festivos comentários sobre a grande vista que tinham de fazer com as inopinadas sécias, a figura do moleiro surgia terrível, enrugada a testa pela severidade, os olhos-ervilhacas faiscantes de cólera, a boca borbulhando pragas. Bartolomeu cortava com o seu vulto ameaçador aquela linda página dos sonhos da vida, bem como o pingo de amarelado simonte (perdoe-se o enxovalhado do símile em favor da exação) que, rolando insensivelmente pelo estendido beiço do velho sapateiro, vai cair sobre o Carlos Magno, aberto em cima dos joelhos e, espalmando-se arredondado sobre as linhas mais interessantes do livro imortal, embacia e mata as chispas de Alta-Clara no momento em que ela rompe o arnês de Ferrabrás. E o mestre pára e assoa-se; mas a interrupção fatal desvanece as ilusões dos oficiais ouvintes e, descerrando-lhes os dentes, lhes quebra os brios com que puxavam a encerolada linha ou cravavam os pinos no alteroso tacão.
Uma ideia, todavia, asserenava logo a alma de Manuel da Ventosa: o furacão paterno estava certo; mas devia ser passageiro. Ele não havia de pôr-se a ralhar nenhuns vinte anos. Era um dia ou dois, e aquelas louçainhas ficavam para toda a vida. Dilatava-se-lhe esta por horizontes tão ilimitados! O bom do rapaz ainda não dobrara o melancólico padrão de trinta anos, donde só se começa a medir bem com os olhos o curto caminho-de-ferro entre o berço e a cova, pelo qual vai correndo esta espécie de locomotiva chamada existência humana.
Aqui tem, pois, o leitor que gostar da história lardeada de todas as investigações, exibições e minudências gravíssimas de que ela se costuma temperar, com tanto juízo e talento, nesta nossa terra, as causas e itens mais remotos e recônditos da dificultosa situação em que achámos Bartolomeu, à vista da descomunal tafularia do filho e da nora, cuja defesa tomara sem os conhecer, como verdadeiro paladino, e que dava de todo coração ao Demo desde que vira assim arder sem remédio o seu remédio, como diriam o elegante autor dos Cristais da Alma, ou os poetas da Fénix Renascida.
Banzou por alguns momentos o velho. A transição era demasiado violenta e rápida e a revolução que se operava na sua alma vinha grávida de uma apoplexia. Indicavam-no as velas da cara, que engrossavam, a vermelhidão do rosto, que ia tirando a roxo. Semelhante ao hesitar da grimpa no topo do campanário, quando, em trovoada iminente, lutam dois ventos contrários, Bartolomeu não sabia se repelisse as insolências de Perpétua Rosa, que tivera a ousadia de chamar-lhe toirão, se descarregasse a cólera que o asfixiava sobre os dois bárbaros delapidadores da quase sua fazenda; quase sua, digo, porque o moleiro bem sabia que a azenha, comprada com o dote de Bernardina, era, em rigor, deles, e, por consequência, deles o seu rendimento, que, por paternal precaução, se encarregara de administrar e poupar.
Mas a avareza, superior ao orgulho no ânimo do velho, fez desembestar para o lado dos noivos o vento da cólera. Abandonando o arranhado e moído Gabriel, rompeu para os novos criminosos, que assim de súbito ousavam apresentar-se no seu inexorável tribunal. Andando, as mãos contraíam-se-lhe por espasmo nervoso, como as garras aduncas do gerifalte, e, ao chegar ao pé deles, lançou uma à gola da casaca do Manuel e outra ao braço de Bernardina. Eram duas tenazes de ferro.
«Que patifaria é esta, sô tratante?», disse, dirigindo-se ao filho em voz baixa, rouca e, de vez em quando, apipiada pela indignação que lha tolhia. «Você não sabe que o dinheiro custa a ganhar? Para que é essa trapagem toda? Com quê, já a sua jaqueta azul tem bichos? E cá a grandessíssima tola não podia passar sem sedas? Não se lembra do tempo em que andava de sapatas atrás das vacas da Josefa Enguia? Diga, senhora mosca-morta... Olha a sonsa, que parece não quebra um prato! Anda-se um homem a matar para lhes fazer casa, e vossemecês, senhores badamecos, a botar o suor da gente pela porta fora. E eu sem saber nada disto! Com trezentas carradas de diabos! Pena tenho eu de que essa mariolada os não pusesse num frangalho. Não têm vergonha de se fazerem alvo do povo e de se arruinarem e arruinarem-me a mim, que toda a vida tenho labutado para viver com a minha cara descoberta?... Ó desalmado», prosseguiu depois de um instante de silêncio, «que contas me hás de tu dar do dinheiro que extravaganciaste e que é preciso para me acabar de desempenhar da compra da azenhas?»
Neste momento, o discurso de Bartolomeu, que se Ia encaminhando ao patético, foi interrompido por um rir esganiçado e trémulo, que lhe chiou ao pé dos ouvidos. Era o caso que Perpétua Rosa o seguira sem que ele reparasse em tal e se pusera a escutá-lo atentamente. A última frase que a boa da velha ouvira tinha produzido nela tão súbita hilariedade.
«E ri-se você, sua atrevida?!», exclamou o moleiro, voltando-se para a Perpétua Rosa. «É natural que fosse intrépece nesta alhada...»
«Pois você na quer que eu ria a arrebentar ouvindo-lhe essas lérias da compra da azenha? Calo-me eu, bem sei porquê. Mas sempre lhe digo que está paga e repaga. O meu dinheiro, teu dinheiro... Entende-me Sr. Bertolameu! Minha filha não velo descalça... »
«Ó diabo de bruxa!», exclamou o moleiro fora de si. «Dão-me inguinações de t'esganar! Olha a piolhosa, a estraga-albardas, que me deu cabo de seis sacas, as melhores que eu tinha, por desmazelada...»
«Já lho disse, seu mirra-mofina, seu manita de carneiro assado, seu sovina-mor! Não me faça falar. Olhe que eu não tenho papas na língua...»
«Um estupor tivesses tu nela, que te pusesse a boca à banda, aldrabista de centopeia, basculho de chaminé, carraça do Inferno! Falta agora que a senhora diga que a lesma da filha trouxe para o casal mundos e fundos!»
«Antão, como mexe nessa borbulha?», acudiu Perpétua Rosa, agarrando o moleiro por uma das largas abas da veneranda casaca e sacudindo-o com força. «É preciso que não faça da gente tola. Assim o quis, assim o tenha. Saibam vocês», isto dizia-o voltando-se para cinco ou seis velhas que faziam roda e segredavam umas com outras, «saibam vocês que o Sr. Bertolameu da Ventosa recebeu mais de cinco centos de mil réis de dote...»
«Eu deito-me a perder com este diabo!», interrompeu o moleiro, fazendo-se fulo e soltando as mãos do braço de Bernardina e da gola do seu Manuel, para as lançar no gasnete de Perpétua Rosa. «Ó língua perversa! Quais quinhentos mil réis?!...»
«Os que o meu amo tinha juntado grão a grão, como se lá diz, à custa do suor do seu rosto, com muito glória in incelsis muito bem cantado, e muito enterro feito, e as suas bátegas d'água nos ossos, e muito sermão pregado, e muito arranjo e poupança desta sua criada, Sr. Bertolameu. Sr. Bertolameu, tenha propósito! que quem pão diz não houve; que lá reza o ditado: manha do açougue, e com vilão, vilão e meio. Foram setenta caras; salvo seja! Vi-as contar com estes olhos, que hão de comer a terra.. E quem as arrecebeu? Nanja eu. Assim compra-se muita coisa e arrotam-se postas de pescada. Diz bem, Sra. Perpétua Rosa; diz bem! Quem perdeu, perdeu; mas não queiram meter os dedos pelos olhos à gente. Nunca \i criatura assim: t'arrenego!»
Este brilhante discurso, até certo ponto, e debaixo de certos aspetos, quase parlamentar, fez voltar o catavento de raiva do moleiro para a oradora, que não era ninguém menos que a Tia Jerónima, a qual abicara ao pé dele, na alheta de Perpétua Rosa.
Bartolomeu andava-lhe já a cabeça à roda e fugia-lhe o lume dos olhos. Largou os gorgomilos da sua estimável consogra e começou a menear os braços, por tal jeito que faziam lembrar as velas do moinho da Ventosa. Os olhos saíam-lhe das órbitas e a escuma dos cantos da boca: quase não podia falar. Entretanto, Perpétua Rosa, solta do feroz amplexo, exclamava:
«Pouca vergonha! Pôr as mãos na cara de uma mulher velha, este gaiato!»
À palavra «gaiato» homens, rapazes, mulheres, que de instante a instante aumentavam a roda, ninguém se pôde conter pelo contraste monstruoso entre semelhante epíteto e o vulto de capitão holandês, romboidal, vermelho, rugoso, quadrangular, irritado, do moleiro. Foi uma cachinada, um palmear, um ah ah ah... ih ih ih..., um assobiar de garotos, que fazia tremer as carnes. Debalde Bartolomeu tentava fazer ouvir as suas explicações: o estrépito oposicionista embaraçava a atrapalhada voz do ministro, que pretendia desemaranhar aquela inextricável questão de orçamento. Ninguém se entendia: era completamente parlamentar.
Neste momento, à porta de um corredor, que dava para a sacristia, apareceu de súbito, já meio revestido, o padre-prior. O motim do adro tinha ecoado lá dentro. A vista daquele aspeto venerável e venerado, fez-se pronto e profundo silêncio.
«Que estrupida é esta?», perguntou o velho pároco, com aspeto carregado e voz severa. «É na vizinhança da casa de Deus, na hora em que vão celebrar-se os divinos mistérios, que os meus honrados paroquianos vêm tecer disputas e travar-se de razões em vez de guardarem a compostura e devoção com que devem preparar-se para o tremendo sacrifício do altar? Rixas e apupadas no dia do, bem-aventurado S. Pantaleão?! Não o sofro. Vamos, expliquem-me a causa de tal barulho. Que foi isto?»
«São estas descaradas...», gritou Bartolomeu.
«Saiba vossenhoria...», acudiu, ao mesmo tempo, a Tia Jerónima.
«E este insolente...», interrompeu Perpétua Rosa.
«Não é nada padre-prior; não é nada», diziam Conjuntamente o Manuel e a Bernardina, mais com a mão, fazendo gestos negativos, que com as palavras, enredadas ininteligivelmente com as do moleiro, da ama e da lavadeira.
«Fale um!», gritou o prior. «Assim, fico jejuando.»
«Foi...», disseram todos aos mesmo tempo.
«Pior!», acudiu o pároco. «Cada um pela sua vez. Vamos.»
«Saiba vossenhoria...», vociferou o moleiro, ganiu Perpétua Rosa, flautou a ama, murmurou o Manuel, pipitou a Bernardina, exclamaram os circunstantes.
«Visto isso, é impossível saber de que se trata?», interrompeu de novo o prior. «Está bom... Não importa! Depois da festa averiguaremos o caso. Tudo para dentro já! Vá tomar o seu lugar, Bartolomeu. Estão os mesários à espera e você entretido aqui com estas toleironas! Vamos. Nem mais uma palavra.»
E, dizendo e fazendo, recolhia-se para a sacristia. No relógio de sol, o gnómon estendia exatamente a sua sombra sobre o ponto de intersecção marcado pelo X. As rabecas soltaram a sua chiadeira quase harmónica e o grupo, desfazendo-se, escoou-se pelo portal tricêntico, cujas pedras a broxa vandálica havia amarelado; e dentro de poucos instantes o adro ficou silencioso e deserto.
Os instrumentos também fizeram silêncio passados alguns minutos e sussurrou lá dentro uma voz humana, cansada e débil, que entoava com suave melopeia:
«Introibo adaltare Dei.»
VIII
GLÓRIA AO PADRE-PRIOR!
Estamos à porta da igreja. A saloiada metemo-la dentro. O padre-mestre Prazeres, o padre Chaparro e o padre-prior, não sei se d aqui os veem na capela-mor. Fr. Narciso gira, mira, vira, revira tudo, na credência, no altar, na banqueta. O cerimonial romano é um mundo de ideias que ele dispôs nos diversos repartimentos cerebrais, com uma compreensão, um tino, uma lógica de por aí além. Fr. Narciso tem de olho o padre Chaparro, que foi toda a vida um tonto em liturgia e assim há de morrer. General naquele conflito, Fr. Narciso, está alerta; nem seiscentos Chaparros seriam capazes de lhe entortarem uma ou mil missas cantadas. Em semelhantes ocasiões, o veterano mestre-de-cerimónias contempla impassível da altura da ciência as evoluções dos seus subordinados: tudo abrange, tudo prevê, tudo dirige tranquilo. E não solta uma única voz: não repreende, não incita, não ameaça. Uns beiços estendidos e inclinados à esquerda fazem parar o missal, que ia a ser extemporaneamente arrebatado da banda da epístola para a do evangelho; uns olhos trasbordando pelas pálpebras, acompanhados de um oscilar de cabeça rápido, horizontal e fugitivo, inteiriçam os joelhos, que vão a vergar em genuflexão deslocada. Enfim, para que estarmos a matar-nos? Como o nome de Fr. Timóteo na parenética, o de Fr. Narciso, na liturgia, será o nome que a história transportará às mais remotas eras, enquanto as glórias da família arrábida durarem na posteridade.
O introibo entoou-se: o negócio está agora em mãos de mestre: podemos ficar descansados com a festividade. Como o calor da igreja é muito, venhamos eu e o leitor conversar um pouco à fresca sombra dos plátanos do adro. Tenho explicações indispensáveis que lhe fazer; dê por onde der, embora ouçamos a missa descabeçada.
Sou homem de bofes lavados, como diziam os nossos velhos, e não gosto de que me estejam a morder na pele por causa de lacunas, mistérios ou contradições nas minhas narrativas. Menos isso. A história é a história, e não se hão de deixar por aqui e por ali obscuridades e incertezas que façam suar o topete às academias futuras: muito mais que há aí uns quidams, cujo ofício é esmiuçar, anatomizar e criticar os escritos alheios e que lhes fazem os mais cruéis e desalmados processos verbais que é possível imaginar, não lhes escapando período nem linha, ponto nem vírgula. Crítica rosnada pelos cantos é a destes, semelhante ao bisbilhotar da cozinheira com a criada da vizinha, à janela do saguão, sobre os talhos que a ama deu ao presunto ou sobre o mais ou menos acogulado da medida dos feijões-fradinhos. É por isso que tais críticas chamo eu verbais; verbais porque seus atores daí não podem passar. Coitados! Escreveriam vinte heresias se copiassem o padre-nosso. São os alcaiotes dos lapsus linguae, os mexeriqueiros dos actos de memória. No vento e com vento compõem: vivem de epigramas agudos como tranca: morrem sem deixar vestígio. Literatos a barbas enxutas, eruditos lendo ainda por baixo, passam nas trevas, como a coruja; mas, bem como a coruja, roçando as asas, que salpicou na alâmpada, pela alva toalha do altar, a deixa enodoada, assim a página pura, afagada de tanto amor do artista, estudada com tão sincera consciência lá recebe, na tertúlia de parvos, a dedada torpe e sebenta de um chapadíssimo tolo.
Não sou dos mais queixosos; todavia, guardo acatamento profundo a essas caricaturas de adibe, que, à de dentes para devorarem carniça, contentam-se de fazer e empolas e brotoeja na pele do próximo. Respeito-os a todos, altíssimos e baixíssimos; que os há de todas as riscas da craveira social, no civil, no militar e no eclesiástico.
Estou, por isso, sempre com o credo na boca quando escrevo uma linha, e antes quero que se queixem da frequência dos prólogos do que me condenem sem me ouvirem.
Disse já que tinha de fazer uma explicação ao leitor. Tenho; e é indispensável. Estou ouvindo um melenas arguir assim: «Como soube a Tia Jerónima que as peças do padre-prior se tinham esgueirado, com tanta mágoa sua, só para dotar Bernardina? Como o souberam os noivos e Perpétua Rosa? Não se passou tudo particularmente entre o prior e o moleiro, ambos interessados no segredo do negócio, um por virtude, outro por avareza? Foi um duende que veio revelá-lo? Mas isso é fazer como Eugénio Sue, que, logo desde o princípio das suas novelas, arranja um homem humanamente impossível e, até, uma entidade imortal, para nos casos dificultosos se desembrulhar das aperturas da situação. Isso é empalmar; isso não vale. Queremos saber por onde transpirou a generosa ação do velho pároco; mas por meios naturais. Não admitimos tergiversação, nem milagres.»
Tá, tá! Nem eu, falando de telhas abaixo. E era para explicar este mistério naturalissimamente que chamava agora o leitor para a fresca sombra dos plátanos do presbitério. O caso foi este:
Quando o prior, preocupado pela ideia de remediar a todo o custo a rapaziada que fizera o Manuel da Ventosa, deu consigo, ao romper da manhã, no moinho de Bartolomeu, lembrados estarão de que o velho, acedendo aos desejos manifestados pelo seu pároco de ficar a sós com ele, pusera fora da porta os rapazes, com o grito de «Rua!». Se o homem fizesse como Polifemo, o qual, quando tinha Ulisses e os seus camaradas encapoeirados no antro com os carneiros e como carneiros, à falta do único olho que possuía e que lhe tinham vasado, ia apalpando e contando os que saíam, conforme mais largamente narra Homero, não sucederia o que sucedeu, e já as embrulhadas, picuinhas, ditérios e descomposturas adfacem ecclesiae, de que antecedentemente dei conta, não teriam sobrevindo, com escândalo das pessoas graves e tementes a Deus. Era, como no lugar competente deixei especificado, grande o tráfego no moinho à chegada do prior: duas récuas de machos a inquirir à porta; novos para dentro e novos para fora; sacos de farinha a rolarem e a empoeirarem a atmosfera; bulha, encontrões, sapateada, arres, xós, pragas, diabos; um pandemónio, enfim, em miniatura. A chegada do prior foi tão inesperada e súbita, que Bartolomeu, azoinado, não reparou nos que saíam à sua voz de comando. Daqui o dano. Uma testemunha ficava aí, sem que Bartolomeu desse por tal.
Esta testemunha era Gabriel. O pobre rapaz tinha andado, até à meia-noite, do moinho para a fonte e da fonte para o moinho, com um macho e dois barris, a carregar água. Depois estirou-se a dormir atrás de uma pilha de sacos de trigo, com aquele valente sono da primeira juventude a que se não resiste nem num campo de batalha. Dormiu, dormiu, dormiu. Rompia a alva, e ainda ele era pedra em poço. O grito de Bartolomeu despertou-o, na verdade; mas não teve ânimo para erguer-se: bocejou, bufou, espreguiçou-se, estendeu os, braços para diante, com os punhos cerrados, virou-se de barriga para o chão, meteu o nariz debaixo do sovaco e prosseguiu na interrompida tarefa. Felizmente para o pobre moço, que, se fosse pressentido pelo moleiro, teria de acordar de todo com o despertador infalível dos dois pontapés, Gabriel não ressonava, ainda no mais profundo sono. Crendo estarem sós, os dois travaram a larga conversação que no princípio desta famosa história ficou fielmente trasladada.
Não faço eu tão fraca ideia de mim ou do leitor que suponha assaz falta de interesse a minha narrativa ou o tenha a ele por um tal cabeça-de-vento, que admita se esquecesse da estrondosa gargalhada que desandou o padre-prior ao manhoso saloio, quando este lhe propôs desse o dote a sua sobrinha Joana, à falta de outra mais digna. À descomunal risada é que o sono de Gabriel, se não quebrado inteiramente, ao menos já estalado pelo grito de Bartolomeu, não pôde resistir. O rapaz fez uma reviravolta, abriu os olhos, deu uma guinada ao corpo, ficou assentado, com as pernas estendidas e a cabeça inclinada sobre o peito, meditabundo por alguns momentos e imóvel, como um daqueles manigrepos de que reza Fernão Mendes Pinto. Depois, levando as mãos à cabeça, começou a coçar rápido de alto a baixo, por cima das orelhas. Pouco durou, todavia essa primeira fúria. Como o som da arpa de Ossian, alongando-se e esmorecendo por entre a nebrina das serras, aquele coçar de alma afrouxou e desvaneceu-se gradualmente; as mãos, confrangidas em forma de garra, espalmaram-se flexíveis, os braços, hirtos e erguidos, despenharam-se mortais ao longo do tronco e a cabeça, sonolenta, baloiçou à direita, depois à esquerda, depois pendeu de chofre para diante e resultou, quase ao bater sobre os joelhos, semelhante ao judeu martirizado pela Santa Inquisição, quando, ao descer pendurado da polé, a corda, atada mais curta que o espaço médio entre o chão e a roldana, o desconjuntava, retendo-o subitamente alguns palmos acima do pavimento. Assim se desconjuntou aquela máquina de sono, e Gabriel abriu seis vezes a boca, engradou-a com outras tantas cruzes, esfregou os olhos com a parte anterior do canhão da jaqueta, mirou por entre os sacos os dois velhos, embasbacou de ver ali o prior e, sem tugir nem mugir, pôs-se a escutar o diálogo que se travava entre ambos.
Qual este foi e o seu desfecho sabe-o o leitor tão bem como eu. Apenas o prior se despediu, encaminhando-se pela encosta abaixo, Bartolomeu, recolhendo as setenta peças que ele deixara sobre a arca das maquias, pôs logo tudo em movimento, e Gabriel, por cuja falta, naquele primeiro ímpeto, o moleiro não dera, teve arte de se confundir com os outros moços que entravam e saíam, sem que o amo nem por sombras suspeitasse que havia uma terceira pessoa sabedora do importante negócio que se acabava de compor e sobre o qual, no meio do seu mandar e ralhar e lidar, já a ambição lhe ia alevantando na fantasia muitos castelos de vento.
Segredo em boca de rapaz, outros dizem de mulher (eu, por decência e pelos meus princípios, sustento a moção relativa aos rapazes), é manteiga em nariz de cão. Ele, na verdade, contou-o com variantes para mais e para menos, mas contou-o, que é o caso. E a quem o havia de ir meter no bico. À pessoa que mais interessada supunha na história; à Sr. Perpétua Rosa, mas pedindo-lhe pela alma das suas obrigações e pela fortuna da sua Bernardina que não dissesse nada, porque o patrão, se tal soubesse, era capaz de esganá-lo. Prometeu-lho Perpétua Rosa; jurou-o e trejurou-o. Pulava a boa velha de contente, e a primeira vez que levou roupa à cidade fez das fraquezas forças a trouxe de mimo a Gabriel e um pião novo, uma gaiola de grilos, coisa de espavento, e uma abada de castanhas do Maranhão e de figos passados, com que o bom do rapaz se regalou de pôr a boca numa lástima. E o mais é que teve palavra. Apenas contou o caso a duas ou três freguesas antigas de Lisboa e à Tia Jerónima, com quem desde a mestra, podia dizer-se era unha. com carne. Aqui é que foram as ânsias. Pelos domingos tiram-se os dias santos. A ama do prior fez-se fula quando tal ouviu. A lanceta que sangrara a meio do forro da escada aparecia finalmente; e a Tia Jerónima, sem lhe importar o ver a mortificação da pobre Perpétua Rosa, desabafou à sua vontade; mas, passado o primeiro estoiro da dor, levou do seu brio nunca mais tornar a bulir nesta desagradável matéria.
Eis a verdade, nua e crua, de como se aventou o se segredo. A alhada da porta da igreja nascida daquelas tafularias tolas do Manuel da Ventosa e da sua companheira, acabou de divulgar o negócio, sem que nisso andasse o fradinho de mão furada, nem os jesuítas, gente de poder misterioso e terrível, nem, finalmente, o judeu-errante, que tantas maravilhas obra atualmente na Terra. Mas, se nisto não entraram os irmãos do quinto voto, nem o caminheiro Ashavero, com as suas sapatas tauxiadas de pregos em cruz e com os seus alforges de cólera-morbo, entrou, a meu ver, a Providência, mas uma Providência natural e simples nos seus meios, como ela o é sempre, sem milagres nem bruxarias. Pensava o prior que a sua nobre e evangélica generosidade ficasse oculta; pensava Bartolomeu que trevas perpétuas cobrissem a torpe cobiça e a sórdida avareza com que se houvera neste negócio. Vai, que faz Deus? Serve-se de um pobre rapaz, que ninguém tinha em conta de nada, e põe tudo ao olho do sol. E fique desde aqui dito que essa é a moralidade da minha história: a virtude exaltada e o vício punido. Nem mais, nem menos, como desfecho daquelas grandes comédias que, há vinte ou trinta anos, eram as delícias dos nossos pais e a glória dos nossos dramaturgos das três unidades que Deus haja... As três unidades, entenda-se bem; porque os dramaturgos, esses o Senhor no-los conserve, enquanto puder ser, para nosso regalo e consolação.
Quem disse lá que as velhotas, testemunhas dos itens do moleiro com as personagens que mais conjuntas lhe eram, entraram para a igreja e se puseram a ouvir o cantar dos padres, e a música do coreto, e o esbravejar do pregador? Por um óculo! A sombra da sua vítima que fora e que ia ser; à sombra de Bartolomeu, a quem todos abriam caminho para o deixarem aproximar-se do banco dos festeiros, elas atravessaram a mó dos homens, unidos como sardinha em tigela, dos estrados para baixo até o guarda-vento, e chegaram ao meio do mulherio. Haja o apertão que houver, ainda não consta que saloia deixasse de fazer praça para si na, igreja. Verdade é que a Tia Jerónima ia em frente, com a cara de arremeter que Deus lhe dera, e que mais arrabinada se tornara com a anterior refrega. Quem deixaria de dar campo à ama do prior, e, sobretudo, àquela carranca? Seguiam-na os noivos, encolhidos e vergonhosos do escândalo que tinham causado, tornadas em fel e absinto as tão risonhas esperanças que, pouco havia, punham no seu garbo e bizarria; que nisto vêm a acabar muitas vezes as vanglórias do mundo. (Mais moralidade.) Após eles, vinha Perpétua Rosa e após a lavadeira vinha a Verónica do Tiago, padeira gorda, vermelha e reverendaça, a Engrácia Ripa, mulher do fogueteiro da aldeia, magra, alta, cor de enxofre, a Eufrásia Tasquinha, tia do Gabriel, e várias outras, mais anchas ou mais esguias, mais esgrouviadas ou mais repolhudas, que não sou eu nenhum Homero para estar, nem antes nem depois da batalha, a tecer catálogos de guerreiros. «Dê licença!...» «Ai, que me pisou!...» «Perdoe!...» «Não vê?...» Eis o que se ouviu murmurar por alguns instantes. E, no meio daquele mar de cabeças adornadas de lenços de cor, listrados e brancos, avultava a pinha das recém-vindas, que tentavam ajoelhar; pinha semelhante à embarcação rota a ponto de submergir-se, que baloiça vacilante e se atufa lenta mente nas águas. Manuel da Ventosa, que ficara em pé no topo inferior do estrado, sentia apertar-se-lhe o coração, vendo a sua Bernardina no meio daquele caos de capotes e roupinhas, como avezinha do céu no meio de ninhada de sapos. As sedas, o chapéu, as flores, a romeira rangiam, achatavam-se, engorovinhavam-se entalhadas entre aquelas baetas, panos, camelões e durantes, do mesmo modo que, sobre o cadáver da virgem, se achatam e quebram as alvas roupas da inocência e a coroa de rosas, debaixo da terra áspera, pesada, imunda, que o coveiro atira brutalmente sobre os rostos do que foi belo, delicado e puro. «Mas que remédio?» pensava Manuel. «As coisas assim hão de ser sempre porque assim foram desde o princípio do mundo». Ele, de feito, cria que desde esse tempo existiam missas cantadas, saloias e apertões. Mas, enfim, ajoelharam, persignaram-se, e a festa começou.
Não a descreverei eu. Quem não sabe o que é uma festividade de orago e o que é a missa solene celebrada num templo católico? Há aí alguém, crente ou não crente ria fé que os seus pais lhe ensinaram, que não tenha bem vivos na memória esses dias festivos da sua meninice? Esse culto, que sabe elevar o espírito para o Céu, com as pompas de espetáculo sensual, pompas que, parece, deveriam fazê-lo descer para a Terra? Quem se não lembra daqueles bons dias santos dos doze anos, em que o sol era mais formoso que nos dias de trabalho, sem excetuar a folgada quinta-feira do sueto escolástico?
Quem se não lembra da época em que o nosso pároco era para nós um ente quase divino, porque, pobres crianças, ainda ignorávamos os caminhos por onde esses homens, chamados a uma existência de santa e sublime poesia, sabem vir despenhar-se no charco das misérias e torpezas humanas e revolver-se aí com aqueles de que deviam ser esperança salvação e exemplo? Quem não se recorda com saudade do tempo em que o altar só lhe aparecia a certa distância, com o seu frontal broslado e a sua toalha alvíssima, assoberbado pela catadupa de lumes de um trono, perfumado pelas jarras de flores, envolto de ambiente turvo pelos rolos de fumo raro e pálido do incenso, símbolo do mistério? A quem não murmura ainda nos ouvidos o ritmo monótono e severo do salmear sacerdotal mais acorde com as doces tristezas do coração, que toda a música sentida e dolorosa dos espetáculos cénicos, a que estes, na impotência de o vencer, têm ido humildemente imitar, nas criações dos modernos artistas (porque Meyerbeer, para ser o rei das harmonias, foi invadir o templo)? Quem, finalmente, não refugiu uma vez, cansado de ceticismo, para as memórias infantis das comoções geradas pela religião dos primeiros anos, religião toda de afetos, de inspirações, sem ciência nem raciocínio, os quais, semelhantes ao sal espalhado sobre a Terra, podem fertilizar algum coração, mas esterilizam os mais deles? As impressões indestrutíveis das festas religiosas guardam-nas os que creem, como consolação do passado e como esperança de regozijo futuro, e guardam-nas também os que não creem, no longo crepúsculo da sua alma, como guardamos no Inverno as plantas odoríferas já murchas, que, debaixo do céu pardo e frio, ao pé da veiga nua e da árvore desfolhada, nos recordam o hálito suave dos campos ao pôr do Sol de um dia sereno do Estio.
Eis aí porque não descrevo a festa. Era especular descaradamente com os leitores: era como se ao Bartolomeu se lhe metesse em cabeça ir ensinar o cerimonial romano ao incomparável Fr. Narciso.
E que terá Fr. Narciso, que já escarrou duas vezes, já se assoou quatro, já bufou seis, já arregalou os olhos para o corpo da igreja oito? É que as atenções estão distraídas. Fortes brutos! Uma perfeição de cerimónias, que nem na Capela Sistina no dia da bênção urbi et orbi! «Olha o que lá vai, o que lá vai!», rosnava ele, cheiro de indignação. «Aquelas endiabradas... Quem vos decepara as línguas tarameleiras! Até aqui! Louvado seja Deus! É de mais. Psiu!»
Tinha razão. Era um zunzum na igreja, que quase galgava por cima das rabecas; e mais, chiavam e desafinavam com alma. O arrastado psiu de Fr. Narciso restabeleceu, porém, a ordem, que nem, num motim popular, uma carga de cavalaria.
Mas para se restabelecer a ordem é necessário haver desordem. Quero ver se também dizem os parvos que esta proposição é uma das minhas esquisitices, ou excentricidades, para lhes falar na sua algaravia. A coisa tinha saído do lugar onde estavam a Tia Jerónima, Perpétua Rosa e Bernardina. Qual coisa? Isso é o que não diz a história. — O que é certo é que era um bisbis que partia do centro para a circunferência, como os círculos concêntricos que encrespam a superfície do lago ao meio do qual se atirou uma pedra, e era ao mesmo tempo um baloiçar de pontas de lenços sobre os cabeções dos capotes, um rir abafado, um sussurro, uma agitação entre o mulherio tal, que atraíra a atenção e logo a cólera de Fr. Narciso. O mais que se pôde perceber foram alguns fragmentos de diálogo entre a Tia Jerónima e a Engrácia do Estanislau fogueteiro.
«Padre-nosso que estais nos Céus», dizia Engrácia Ripa, deixando correr um dos bugalhos de umas contas da Terra Santa que tinha nas mãos. «Ora essa! — Santificado seja o vosso nome. — Forte tratante! — Venha a nos o vosso reino. — E uma pessoa com a sua aquela de que era um home como se quer! — Seja feita a vossa vontade. — Safa! — Assim na Terra como nos Céus. Com que então, setenta?»
«Entregadinhas! — Ave Maria, gracia plena», respondeu a Tia Jerónima, que latinizava raivosamente, à força de viver com o prior. «Como lhe hei de dizer — Domisteco — Foi o Demo que o tentou. — Benedites tu...»
Neste ponto, a interessante conversação das duas matronas foi interrompida pelo psiu fulminante de Fr. Narciso. Não podemos dizer sobre que ela versava nem aonde iria dar consigo; e, quando, numa crónica profunda e grave como esta, faltam fundamentos favoráveis para afirmar, é dever do cronista ser sóbrio, ou, antes, abster-se de conjeturas. Direi só que, ao sair a gente da festa, não havia cão nem gato que não soubesse tim-tim por tim-tim a história do Manuel da Ventosa e da Bernardina.
Mais moralidade: é o que eles tiraram das suas tolas tafularias.
Quando o prior saiu da igreja, os rapazes desbarretavam-se, ainda com mais sinais de cortesia e respeito do que era costume; as raparigas afagavam-no com um sorrir e volver de olhos afetuoso, que fazia pensar o bom do pároco. Todos olhavam para ele e falavam em voz baixa. O prior estava zangadíssimo.
Mas, qual foi o seu pasmo ao ver chegarem-se a ele muitos velhos de cabeça branca (eram vários lavradores seus fregueses, honrados pais de família) e beijarem-lhe a mão, com os olhos arrasados de água! Estava fumando. Uma onda se lhe ia, outra se lhe vinha de destampar com tudo aquilo, e pregar uma descompostura solene e por atacado nos velhos, nos rapazes e nas raparigas.
E para isso não lhe faltava metralha. Mas lembrou-se de que era o dia do orago da aldeia e teve mão em si. Só lá perguntava aos seus botões qual seria a causa deste destempero e doidice.
Como havia ele de atinar, se tinha o costume de esquecer-se do bem que fazia, porque, sendo fraco de memória, reservava-a toda para o bem que recebia?
A história do casamento feito pelo velho pároco, conforme depois me contaram (era eu pequeno e lembra-me como se fosse hoje), chegou aos ouvidos do prelado diocesano, o qual disse ao fâmulo do fâmulo do seu secretário, um dia em que se levantou de dormir a sesta com vontade de galhofar, que, na primeira visita que fizesse à diocese, havia de elogiar, publicamente, aquele digno pastor. Nunca, porém, houve ocasião para a primeira visita, porque esta costumeira velha tinha passado já de moda. Eram pieguices só boas para os Bartolomeus dos Mártires e para os Caetanos Brandões; pobres homens, a quem Deus fale na alma, se é que valiam a pena disso. Ajuda, Novembro de 1844.
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Alexandre Herculano