Me chame pelo seu nome
PARTE 1: Se não depois, quando?
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
PARTE 1
Se não depois, quando?
“Até depois!”
As palavras, a voz, a atitude.
Eu nunca tinha ouvido alguém dizer “até depois” para se despedir. Parecia brusco, seco, desdenhoso, pronunciado com a indiferença velada de uma pessoa que talvez não se importe se vai revê-lo ou saber de você novamente.
É a primeira lembrança que tenho dele, e parece que ainda hoje consigo ouvi-lo. “Até depois!”
Fecho os olhos, pronuncio as palavras e estou de volta à Itália, tantos anos atrás, descendo a entrada arborizada, observando-o sair do táxi com uma camisa azul esvoaçante, o colarinho bem aberto, óculos escuros, chapéu de palha, muita pele à mostra. De repente ele está apertando minha mão, me entregando sua mochila, tirando a bagagem do porta-malas do táxi, perguntando se meu pai está em casa.
Poderia ter começado bem ali, naquele momento: a camisa, as mangas arregaçadas, os calcanhares escapando das alpargatas desgastadas, ansiosos para tocar o caminho de cascalho quente que levava à nossa casa, cada passo como se já perguntasse: Para onde fica a praia?
O hóspede da vez. Mais um chato.
Então, quase sem pensar, e já de costas para o carro, ele acena com a mão livre e solta um Até depois! desatento para o outro passageiro, com quem provavelmente dividiu a corrida ao sair da estação. Sem dizer seu nome, sem fazer uma gracinha que suavizasse o incômodo da parada, nada. A despedida típica dele: rápida, ousada e direta — pode escolher o adjetivo, para ele tanto faz.
Pode esperar, pensei, é exatamente assim que ele vai se despedir de nós quando for embora. Com um Até depois! abrupto e despreocupado.
Até lá, nós teríamos que suportá-lo durante seis longas semanas.
Fiquei totalmente intimidado. Ele era do tipo inacessível.
Talvez eu fosse gostar dele. Do queixo aos calcanhares. Então, em alguns dias, aprenderia a odiá-lo. O mesmo homem cuja foto no formulário de inscrição havia se destacado meses antes com promessas de afinidade imediata.
* * *
Receber hóspedes no verão era o modo como meus pais ajudavam jovens escritores a revisar um manuscrito antes da publicação. Por seis semanas, todo verão, eu tinha que desocupar meu quarto e me mudar para o quarto ao lado no corredor, muito menor, que um dia pertencera ao meu avô. Durante os meses de inverno, quando estávamos na cidade, aquele cômodo temporariamente virava um quartinho de ferramentas, depósito e sótão onde, diziam, meu avô, meu homônimo, ainda rangia os dentes no sono eterno. Os hóspedes de verão não precisavam pagar nada, podiam usufruir de toda a casa e praticamente fazer tudo o que quisessem, desde que passassem por volta de uma hora por dia ajudando meu pai com sua correspondência e papelada em geral. Eles se tornavam parte da família e, depois de quinze anos fazendo isso, tínhamos nos acostumado à enxurrada de cartões-postais e presentes que recebíamos não só perto do Natal, mas durante todo o ano, enviados por pessoas leais a nós e que, quando estavam na Europa, saíam de seu caminho o quanto fosse preciso para passar um ou dois dias em B. com a própria família e fazer uma visita nostálgica ao velho alojamento.
Durante as refeições, sempre havia mais dois ou três convidados, às vezes vizinhos ou parentes, às vezes colegas, advogados, médicos, os ricos e famosos que davam uma passada para ver meu pai a caminho de suas casas de veraneio. Às vezes até abríamos a sala de jantar para um ou outro casal de turistas que tinha ouvido falar da antiga villa e queria apenas entrar para dar uma olhada. Pessoas que ficavam encantadas quando as convidávamos para comer conosco e lhes pedíamos que nos contassem tudo a seu respeito. Mafalda, avisada em cima da hora, era obrigada a redistribuir a comida. Meu pai, reservado e tímido, amava ter um especialista precoce de qualquer área que mantivesse a conversa fluindo em algumas línguas, enquanto o sol quente de verão, depois de algumas taças de rosatello, trazia a inevitável sonolência da tarde. Chamávamos a tarefa de labuta prandial — e, depois de um tempo, a maioria dos nossos hóspedes também.
* * *
Pode ser que tenha começado logo que ele chegou, durante um daqueles almoços tediosos, quando sentou-se ao meu lado e finalmente percebi que, apesar do leve bronzeado adquirido durante a breve estadia na Sicília no início do verão, as palmas de suas mãos tinham a mesma cor da pele clara e macia da sola de seus pés, de seu pescoço e da parte interna dos antebraços, que praticamente não haviam sido expostos ao sol. Quase um rosa-claro, a pele reluzente e macia como a barriga de um lagarto. Íntima, pura, intocada, como o rosto corado de um atleta ou a insinuação do alvorecer em uma noite de tempestade. Dizia coisas sobre ele que eu jamais pensaria em perguntar.
Pode ser que tenha começado durante aquelas horas intermináveis depois do almoço, quando todos ficavam à toa dentro e fora da casa usando roupas de banho, corpos esparramados por toda parte, matando o tempo à espera de que alguém finalmente sugerisse que fôssemos até as pedras dar um mergulho. Parentes, primos, vizinhos, amigos, amigos de amigos, colegas ou qualquer pessoa que aparecesse no portão perguntando se podia usar nossa quadra de tênis — todos eram bem-vindos para relaxar, nadar e comer e, se ficassem tempo suficiente, usar a casa de hóspedes.
* * *
Ou talvez tenha começado na praia. Ou na quadra de tênis. Ou durante a primeira caminhada juntos no primeiro dia, quando pediram que eu lhe mostrasse a casa e os arredores e — uma coisa levou à outra — consegui levá-lo para além do antigo portão de ferro fundido e do interminável terreno baldio em direção aos trilhos abandonados que costumavam ligar B. a N.
— Tem alguma estação de trem abandonada por aqui? — perguntou ele, olhando através das árvores sob o sol escaldante, provavelmente tentando fazer a pergunta certa para o filho do proprietário.
— Não, nunca teve estação aqui. O trem simplesmente parava quando as pessoas pediam.
Ele estava curioso a respeito do trem; os trilhos eram muito estreitos. Era um trem de dois vagões com a insígnia real, expliquei. Mas, desde a época em que minha mãe passava o verão na cidade quando jovem, a estrutura servia de casa para alguns ciganos. Eles haviam levado os dois vagões descarrilhados mais para longe da praia. Ele queria vê-los?
— Depois, talvez.
Uma indiferença cortês, como se tivesse percebido minha preocupação despropositada em agradá-lo e estivesse me dispensando de imediato.
Só que me afetou.
Em vez de ir ver o trem, ele queria abrir uma conta em um dos bancos de B., e depois visitar a tradutora italiana que sua editora na Itália tinha contratado para seu livro.
Decidi levá-lo de bicicleta.
A conversa sobre duas rodas não foi melhor do que a pé. No caminho, paramos para beber alguma coisa. O bar-tabacaria estava totalmente escuro e vazio. O dono limpava o chão com um produto que exalava um forte cheiro de amônia. Saímos o quanto antes. Um melro-preto solitário, empoleirado em um pinheiro mediterrâneo, cantou algumas notas que foram logo abafadas pelo canto das cigarras.
Tomei um bom gole de uma garrafa grande de água mineral, passei a garrafa para ele e depois dei mais um gole. Derramei um pouco de água nas mãos e esfreguei o rosto, passando os dedos molhados no cabelo. A água não estava gelada nem gaseificada o suficiente, deixando uma sensação de sede não saciada.
O que as pessoas fazem por essas bandas?
Nada. Esperam o verão acabar.
O que as pessoas fazem no inverno, então?
Ri da resposta que estava prestes a dar. Ele captou o espírito da coisa e disse:
— Não me diga... Esperam o verão chegar, certo?
Eu gostava quando liam meus pensamentos. Ele se acostumou à labuta prandial mais rápido do que os hóspedes anteriores.
— Na verdade, no inverno fica tudo muito cinza e escuro. A gente vem no Natal. Fora isso, é uma cidade fantasma.
— E o que mais vocês fazem no Natal por aqui além de torrar castanha e beber gemada?
Ele estava fazendo piada. Ofereci o mesmo sorriso de antes. Ele entendeu, não disse nada, nós rimos.
Perguntou o que eu fazia. Eu jogava tênis. Nadava. Saía à noite. Corria. Transcrevia músicas. Lia.
Ele disse que também corria. Logo cedo. Onde as pessoas costumavam correr? No calçadão, principalmente. Eu podia levá-lo até lá, se quisesse.
A resposta me atingiu em cheio, bem quando eu estava começando a gostar dele:
— Depois, talvez.
Eu tinha deixado a leitura por último em minha lista, pensando que, pela atitude deliberada e insolente que vinha demonstrando até o momento, seria a última na dele. Horas depois, ao descobrir que ele tinha acabado de escrever um livro sobre Heráclito e que a “leitura” provavelmente não era algo insignificante em sua vida, percebi que precisava voltar atrás de um jeito inteligente e insinuar que meus reais interesses correspondiam aos dele. O que me inquietou, no entanto, não foi a manobra sofisticada necessária para me redimir. Foi a incômoda desconfiança que senti ao finalmente perceber, tanto ali como na conversa despreocupada perto dos trilhos do trem, que o tempo todo, sem que parecesse, sem nem mesmo admitir, eu já estava tentando — sem sucesso — conquistá-lo.
Quando me ofereci — porque todos os visitantes amavam a ideia — para levá-lo à igreja de São Tiago e subir até o topo do campanário que apelidamos de “de morrer”, eu devia ter pensado antes em uma resposta à altura. Pensei que conseguiria convencê-lo apenas levando-o lá e deixando que assimilasse a vista da cidade, do mar, da eternidade. Só que não. Depois!
* * *
Mas talvez tenha começado bem mais tarde do que acredito, sem que eu percebesse. Você vê a pessoa, mas não a enxerga de verdade, ela simplesmente está por ali. Ou até enxerga, mas nada bate, nada “chama a atenção” e, antes mesmo que você perceba uma presença ou algo incômodo, as seis semanas que lhe foram oferecidas já passaram e a pessoa já foi embora ou está prestes a ir, e você fica lutando para aceitar algo que, sem que você soubesse, vinha ganhando forma bem debaixo do seu nariz, trazendo consigo todos os sintomas daquilo que só pode ser chamado de desejo. Como eu não percebi? Você se pergunta. Sei reconhecer o desejo — desta vez, no entanto, tinha passado completamente despercebido. Eu me saía com meu sorriso misterioso, que fazia o rosto dele se iluminar toda vez que lia meus pensamentos, mas tudo o que eu queria era pele, apenas pele.
Durante o jantar na terceira noite, senti que ele me olhava fixamente enquanto eu falava sobre As sete últimas palavras do redentor na cruz, de Haydn, que estava transcrevendo para o violão. Eu tinha dezessete anos e, por ser o mais novo à mesa e ter menos chance de ser ouvido, desenvolvera o hábito de inserir o máximo de informação no mínimo de palavras. Eu falava rápido, o que dava às pessoas a impressão de que estava sempre agitado e atropelando as palavras. Quando terminei de explicar a transcrição, percebi o olhar penetrante que vinha da minha esquerda. Aquele olhar me deixou entusiasmado e orgulhoso; ele estava claramente interessado… ele gostava de mim. Não seria tão difícil assim, então. Mas quando finalmente virei na direção dele, encontrei um olhar frio, gélido — ao mesmo tempo hostil e vítreo, beirando a crueldade.
Meu mundo caiu. O que eu tinha feito para merecer aquilo? Queria que ele fosse gentil comigo de novo, que risse comigo como fizera dias antes nos trilhos abandonados, ou quando expliquei naquela mesma tarde que B. era a única cidade na Itália onde a corriera, a linha de ônibus regional, levava Cristo rapidamente e passava sem parar. Ele riu na hora e reconheceu a referência ao livro de Carlo Levi. Eu gostava de como nossas mentes pareciam caminhar lado a lado, como adivinhávamos de imediato as palavras que o outro queria usar mesmo que desistisse no último instante.
Ele seria um vizinho difícil. Melhor ficar longe, pensei. E pensar que quase me deixei levar pela pele de suas mãos, pelo torso, por seus pés que nunca haviam tocado uma superfície áspera… e por seus olhos, que, quando lançavam aquele outro olhar, mais gentil, eram como o Milagre da Ressurreição. Nunca era possível observá-los por tempo suficiente, mas era preciso insistir para descobrir por que não.
Eu devo ter retribuído com um olhar igualmente perverso.
Durante dois dias, nossas conversas terminaram de forma repentina.
Na longa varanda compartilhada por nossos quartos, indiferença total: só um paliativo oi, bom dia, que clima agradável, palavras breves.
Então, sem explicação, as coisas voltaram ao normal.
Eu queria ir correr de manhã? Não, na verdade não. Bem, vamos nadar então.
Hoje, a dor, a curiosidade, a atração do novo, a promessa de tanto êxtase pairando quase ao alcance das mãos, a falta de jeito perto de pessoas que posso interpretar mal e que não quero perder e cujos passos preciso antecipar o tempo todo, as artimanhas desesperadas que uso com qualquer pessoa que desperta meu desejo e cujo desejo quero despertar, as barreiras que criei entre mim e o mundo e que eram não só uma, mas várias camadas de painéis japoneses, o impulso de embaralhar e desembaralhar o que nunca esteve realmente cifrado — tudo isso teve início no verão em que Oliver veio para nossa casa. Está gravado em cada música que foi sucesso naquele verão, em cada romance que li durante e após sua estadia, em tudo, do cheiro do alecrim em dias quentes ao canto frenético das cigarras à tarde — cheiros e sons com os quais cresci e convivi durante todos os verões anteriores àquele, mas que de repente se transformaram e adquiriram nuances diferentes, para sempre coloridos pelos acontecimentos daquele verão.
* * *
Ou talvez tenha começado ao fim da primeira semana, quando vibrei ao perceber que ele ainda lembrava quem eu era, que não estava me ignorando e que, portanto, eu podia me dar ao luxo de passar por ele a caminho do jardim sem precisar fingir que não o tinha visto. Corremos cedinho na primeira manhã — fomos até a ponta de B. e voltamos. Na manhã seguinte, nadamos. Então, no outro dia, corremos de novo. Eu gostava de passar correndo pela van que entregava o leite quando ainda faltava muito para terminarem as entregas, ou pela mercearia e pela padaria quando ainda estavam abrindo, gostava de correr na areia, perto do mar, ou no calçadão quando ainda não havia ninguém na rua e nossa casa parecia uma miragem distante. Gostava quando nossas passadas ficavam sincronizadas, pé esquerdo com pé esquerdo, e tocavam o chão ao mesmo tempo, deixando pegadas na areia para as quais eu queria voltar e, em segredo, colocar meu pé onde o dele tinha deixado sua marca.
Essa alternância entre corrida e natação era a “rotina” dele durante a pós-graduação. Ele corria no Sabá? Perguntei, brincando. Ele sempre se exercitava, mesmo quando ficava doente; faria exercício na cama, se fosse preciso. Mesmo quando dormia com alguém, contou, saía para correr na manhã seguinte. A única vez que não fez nada foi quando precisou passar por uma cirurgia. Quando perguntei o motivo, a resposta que prometi a mim mesmo nunca incitar me acertou em cheio e com um sorriso malicioso.
— Depois.
Talvez ele estivesse sem fôlego e não quisesse falar muito ou simplesmente quisesse se concentrar no nado e na corrida. Ou talvez fosse seu jeito de me estimular a fazer o mesmo… totalmente inofensivo.
Mas havia algo ao mesmo tempo frio e desconcertante na distância repentina que se instalava entre nós nos momentos mais inesperados. Era quase como se ele estivesse fazendo de propósito; me dando cada vez mais bola e, de repente, arrancando qualquer sinal de companheirismo.
O olhar ríspido sempre voltava. Um dia, junto à piscina, enquanto eu tocava violão no quintal, naquela que tinha se tornado a “minha mesa”, ele estava deitado na grama, e eu logo reconheci o olhar. Olhava para mim enquanto eu me concentrava no braço do violão e, quando subitamente ergui o rosto para ver se estava gostando do que eu tocava, lá estava ele: incisivo, cruel, como uma lâmina reluzente recolhida no momento exato em que sua vítima a percebe. Ele deu um sorriso sem graça, como se dissesse: Agora não adianta esconder.
Fique longe dele.
Oliver deve ter percebido que aquilo me abalou e, em um esforço para me recompensar, começou a perguntar sobre o violão. Eu estava muito na defensiva para responder com clareza. Por outro lado, perceber que eu procurava sem sucesso por respostas o fez suspeitar de que talvez eu estivesse mais à deriva do que deixava transparecer.
— Não se preocupe em explicar. Só toque mais uma vez.
Mas eu achei que você tinha odiado. Odiou? O que fez você pensar isso? Discutíamos sem parar.
— Você pode só tocar?
— A mesma?
— A mesma.
Levantei e entrei na sala, deixando as portas francesas abertas para que ele pudesse me ouvir tocar a mesma música ao piano. Ele me seguiu até as portas e, apoiado no caixilho de madeira, escutou por um tempo.
— Você mudou. Não é a mesma música. O que você fez?
— Só toquei como Liszt teria tocado se brincasse um pouco com ela.
— Toque mais uma vez, por favor!
Eu gostava de como ele fingia ficar irritado. Então comecei a tocar de novo.
— Não acredito que você mudou de novo — disse depois de um tempo.
— Bem, só um pouco. Seria como Busoni tocaria se alterasse a versão de Liszt.
— Você não pode simplesmente tocar Bach como Bach compôs?
— Mas Bach não compôs esta peça para violão. Talvez nem sequer para cravo. Na verdade, nem temos certeza se foi mesmo ele quem a compôs.
— Deixa pra lá.
— Está bem, está bem. Não precisa ficar tão irritado — falei.
Era minha vez de fingir uma submissão contrariada.
— Este é Bach transcrito por mim sem Busoni e sem Liszt. É uma peça que ele compôs ainda muito jovem e que dedicou ao irmão.
Eu sabia exatamente que parte o tinha provocado na primeira ocasião, e cada vez que tocava aquela peça o fazia como se fosse um pequeno presente, porque era mesmo dedicada a ele, um símbolo de algo belo que eu sentia e que não seria tão difícil de perceber, e que me incentivava a incluir uma ampla cadência. Só para ele.
Estávamos — e ele deve ter reconhecido os sinais muito antes de mim — flertando.
* * *
Naquela noite, escrevi em meu diário: Eu estava exagerando quando disse que achei que você tinha odiado a peça. O que eu quis dizer foi: achei que você me odiava. Esperava que você me convencesse do contrário… e me convenceu, por um tempo. Por que não vou acreditar nisso amanhã de manhã?
Mas isso também faz parte de quem ele é, disse a mim mesmo ao ver como sua personalidade fora do gelo ao fogo.
Eu podia muito bem ter perguntado: eu também mudo completamente dessa maneira?
Não fomos escritos para um único instrumento; eu não fui, nem você.
Eu estava pronto para rotulá-lo como difícil e inacessível e descartá-lo imediatamente. Bastaram duas palavras dele para que eu visse minha apatia se transformar em vou tocar qualquer coisa até você me pedir para parar, até chegar a hora do almoço, até a pele dos meus dedos se esfolar camada por camada, porque gosto de fazer as coisas para você, farei qualquer coisa por você, é só pedir, gostei de você desde o primeiro dia e, mesmo quando você reagir às minhas constantes ofertas de amizade com uma frieza glacial, nunca vou esquecer que esta conversa entre nós aconteceu e que existem maneiras fáceis de trazer o verão de volta em meio à nevasca.
O que fui incapaz de identificar nessa promessa é que a frieza e a apatia encontram um jeito de anular imediatamente quaisquer tréguas e resoluções assinadas em momentos ensolarados.
Então chegou aquela tarde de domingo em julho quando a casa de repente ficou vazia, nós dois os únicos ali, e o fogo dilacerou minhas vísceras — porque “fogo” foi a primeira palavra, a mais fácil, que me ocorreu naquela mesma tarde quando tentei racionalizar em meu diário o que havia acontecido. Eu esperei eternamente em meu quarto, preso à cama em um transe de pavor e expectativa. Não era o fogo da paixão nem um fogo devastador, mas algo paralisante, como o fogo de bombas de fragmentação que sugam o oxigênio ao redor e deixam você ofegante como se tivesse levado um chute na boca do estômago e o vácuo tivesse rasgado todo o tecido pulmonar e deixado a boca seca, então você espera que ninguém fale, porque você mesmo não pode falar, e reza para que ninguém peça que você se mova, porque seu coração está entupido e bate tão rápido que cuspiria estilhaços de vidro antes de permitir que qualquer outra coisa fluísse por suas cavidades estreitadas. O fogo do medo, do pânico, mais um minuto e eu vou morrer se ele não bater à minha porta, mas ainda assim prefiro que nunca bata. Eu me acostumara a deixar as portas francesas que davam para a varanda entreabertas, e estava deitado na cama só de calção de banho, o corpo inteiro pegando fogo. Um fogo que era como um apelo: por favor, por favor, me diga que estou errado, me diga que imaginei tudo isso porque não pode ser verdade para você também e, se for verdade para você também, então é o homem mais cruel que já existiu. Na tarde em que ele finalmente entrou no meu quarto sem bater, como uma resposta às minhas orações, e perguntou por que eu não estava com o pessoal na praia, embora não tenha conseguido dizer só consegui pensar em responder: porque eu queria ficar com você. Com você, Oliver. Com ou sem meu calção de banho. Ficar com você na minha cama. Na sua cama. Que é minha nos outros meses do ano. Faça o que quiser comigo. Sou seu. Basta perguntar se eu quero e esperar pela resposta, mas não me faça dizer não.
E me diga que eu não estava sonhando naquela noite em que ouvi um barulho à minha porta e de repente percebi que alguém estava no meu quarto, que alguém estava sentado ao pé da minha cama, pensando, pensando, pensando, e que esse alguém finalmente começou a vir na minha direção e de repente estava deitado, não ao meu lado, mas em cima de mim, meu corpo de bruços, e gostei tanto disso que, em vez de arriscar qualquer gesto que demonstrasse que eu estava acordado ou fizesse com que ele mudasse de ideia e fosse embora, fingi estar dormindo enquanto pensava Isso não é, não pode ser um sonho, porque as palavras que me ocorreram, enquanto mantinha os olhos fechados, foram: É como a sensação de voltar para casa, como voltar para casa depois de anos entre troianos e lestrigões, como voltar para casa onde todos são como você, onde as pessoas sabem, simplesmente sabem… voltar para casa, como quando tudo se encaixa e de repente você percebe que passou quase duas décadas perdendo tempo com a combinação errada. Foi quando decidi expressar, sem me mover, sem mover um único músculo, que eu estaria disposto a ceder se você insistisse, que eu já tinha cedido, que já era seu, todo seu, mas de repente você não estava mais lá e, embora parecesse real demais para ser um sonho, eu estava convencido de que tudo o que eu queria daquele dia em diante era que você fizesse exatamente o que tinha feito enquanto eu dormia.
* * *
No dia seguinte estávamos jogando em duplas e, durante um intervalo, enquanto bebíamos a limonada da Mafalda, ele me envolveu com o braço livre e pressionou gentilmente os dedos em meu ombro, imitando um abraço-massagem… tudo muito amigável. Mas fiquei tão confuso que imediatamente me esquivei do toque, porque mais um segundo e eu desmontaria como aqueles brinquedos de madeira cujo corpo desajeitado desmorona assim que tocamos no elástico. Surpreso, ele se desculpou e perguntou se tinha apertado “um nervo ou algo do tipo”… disse que não queria me machucar. Deve ter ficado horrorizado se achou que tinha me machucado ou me tocado do jeito errado. A última coisa que eu queria era desencorajá-lo. Mesmo assim, respondi algo como “Não doeu”, e o assunto morreria ali. Mas me dei conta de que, se o motivo daquela reação não tinha sido dor, que outra explicação haveria para o fato de eu tê-lo afastado tão bruscamente na frente dos meus amigos? Então fiz cara de quem estava tentando muito, sem sucesso, sufocar uma expressão de dor.
Nunca me ocorreu que o que me fizera entrar em pânico quando ele me tocou foi exatamente o que surpreende as virgens ao serem tocadas pela primeira vez pela pessoa que desejam: o toque desperta terminações nervosas que elas nem sequer sabiam da existência e produz prazeres bem mais desconcertantes do que estão acostumadas a sentir sozinhas.
Ele ainda parecia surpreso com a minha reação, mas fingiu ter acreditado na dor, assim como eu fingia tentar ocultá-la. Era a maneira dele de pegar leve comigo e fingir que desconhecia o que estava por trás da minha reação. Conhecendo, como mais tarde vim a conhecer, sua minuciosa capacidade de decifrar sinais contraditórios, não tenho dúvida de que ele já suspeitasse de algo.
— Vem cá, isso vai ajudar.
Ele estava me testando e começou a massagear meu ombro.
— Relaxa — disse ele, na frente dos outros.
— Mas eu estou relaxado.
— Está tão duro quanto esse banco. Olha isso — disse se dirigindo a Marzia, uma das garotas que estava mais perto. — Cheio de nós. — Senti as mãos dela em minhas costas. — Aqui — indicou ele, pressionando com força a palma da mão aberta em minhas costas. — Está sentindo? Ele precisa relaxar mais — afirmou.
— Você precisa relaxar mais — repetiu Marzia.
Talvez ali, como em todos os outros momentos, porque não sabia falar em códigos, eu não soube responder. Eu me senti como um surdo-mudo que nem sequer fala língua de sinais. Balbuciei todo tipo de coisa para não dizer o que realmente estava pensando. Era o máximo que eu sabia falar em códigos. Enquanto tivesse fôlego para que as palavras chegassem à minha boca, eu meio que conseguia continuar falando. Do contrário, o silêncio entre nós poderia me entregar — por isso qualquer coisa, mesmo a bobeira mais sem noção, era melhor do que o silêncio. O silêncio poderia me expor. Mas o esforço para superá-lo na frente dos outros certamente me expunha ainda mais.
Eu estava tão desesperado que meu rosto deve ter demonstrado algo que beirava impaciência e raiva implícita. Nunca passou pela minha cabeça que ele pudesse pensar que esses sentimentos eram direcionados a ele.
Talvez por isso eu desviasse o olhar sempre que ele olhava para mim: para esconder a tensão de minha timidez. Também nunca me passou pela cabeça que ele pudesse se ofender com meu comportamento evasivo e retaliá-lo com um olhar hostil de vez em quando.
O que eu esperava que ele não tivesse percebido em minha reação exagerada era outra coisa. Antes de me esquivar do braço dele, eu sabia que tinha cedido ao seu toque e quase correspondido, como se dissesse — como tantas vezes ouvira os adultos dizerem quando alguém massageava seus ombros — Não pare. Será que tinha percebido que eu estava pronto não só para ceder, mas para me moldar ao corpo dele?
Esse foi o sentimento que registrei em meu diário naquela noite: chamei de “o desfalecer”. Por que eu tinha desfalecido? Podia acontecer tão facilmente? Era só ele me tocar para eu ficar completamente sem forças e vulnerável? Era isso que as pessoas queriam dizer com ficar todo derretido?
E por que eu não mostrava a ele o quanto estava derretido? Porque tinha medo do que poderia acontecer? Ou seria medo de que ele risse de mim, contasse para todo mundo ou me ignorasse completamente sob o pretexto de que eu era muito jovem para saber o que estava fazendo? Ou seria porque se ele suspeitasse — e qualquer um que suspeitasse necessariamente estaria na mesma situação — ficaria tentado a agir? Eu queria que ele agisse? Ou eu preferia uma vida de desejo não realizado desde que seguíssemos com esse joguinho de pingue-pongue: não saber, saber, não saber, saber? Fique quieto, não diga nada, e se não puder dizer “sim”, não diga “não”, diga “depois”. É por isso que as pessoas dizem “talvez” quando querem dizer “sim”, mas esperam que você pense que é “não” quando o que realmente querem dizer é: Por favor, pergunte de novo, e depois mais uma vez?
Penso naquele verão e não consigo acreditar que, apesar de todos os meus esforços para viver com o “fogo” e o “desfalecer”, a vida ainda me permitiu momentos maravilhosos. Itália. Verão. O som das cigarras no início da tarde. Meu quarto. O quarto dele. A varanda que nos separava do restante do mundo. O vento suave que trazia os aromas do jardim até meu quarto. O verão em que aprendi a amar pescar. Porque ele amava. A amar correr. Porque ele amava. A amar polvo, Heráclito, Tristão. O verão em que ouvia o canto de um pássaro, sentia o perfume de uma flor ou o vapor subir pelos pés em dias quentes e ensolarados e, como meus sentidos estavam sempre em alerta, automaticamente pensava nele.
Eu poderia ter negado tantas coisas: que desejava tocar seus joelhos e seus pulsos quando reluziam ao sol com um brilho que eu tinha visto em pouquíssimas pessoas; que amava como sua bermuda branca de jogar tênis parecia eternamente manchada em cor de argila, que, com o passar das semanas, se tornou a cor de sua pele; que seu cabelo, cada dia mais louro, refletia o sol antes mesmo que ele tivesse aparecido completamente pela manhã; que sua esvoaçante camisa azul, ainda mais esvoaçante em dias de ventania à beira da piscina, prometia abrigar um aroma de pele e suor que me deixava duro só de pensar. Eu podia ter negado tudo isso. E acreditado na negação.
Mas foram a corrente de ouro e a estrela de davi com a mezuzá dourada em seu pescoço que me disseram que ali havia algo mais forte do que qualquer coisa que eu já desejara dele, porque aquilo era um vínculo entre nós e me lembrava que, embora todo o resto conspirasse para que fôssemos as duas criaturas mais opostas da Terra, ao menos transcendia todas as diferenças. Vi a estrela quase imediatamente no primeiro dia. E daquele momento em diante eu soube que o que me estimulava a buscar sua amizade, achando que nunca encontraria nada que me fizesse desgostar dele, era maior do que qualquer coisa que um poderia esperar do outro, maior e, portanto, melhor que a alma dele, que o meu corpo ou a própria Terra. Olhar para o seu pescoço com a estrela e o amuleto revelador era como ver algo atemporal, ancestral, imortal em mim, em nós dois, que implorava para ser despertado e trazido de volta de seu sono milenar.
O que me frustrava era que ele não parecia notar ou se importar com o fato de que eu também usava uma. Assim como provavelmente não notava ou se importava cada vez que meus olhos vagavam até seu calção de banho, tentando imaginar o contorno daquilo que nos irmanava no deserto.
Além da minha família, ele devia ser o único outro judeu a pôr os pés em B. Mas, ao contrário de nós, ele deixava isso à mostra desde o início. Nós não éramos visivelmente judeus. Usávamos nosso judaísmo como as pessoas em quase todo o mundo: embaixo da camisa, não escondido, mas guardado. “Judeus discretos”, nas palavras de minha mãe. Ver alguém proclamar seu judaísmo no pescoço, como Oliver fazia quando pegava uma das bicicletas e ia até a cidade com a camisa aberta, nos chocava e, ao mesmo tempo, nos ensinava que poderíamos fazer o mesmo e sair ilesos. Tentei imitá-lo algumas vezes. Mas eu era muito desajeitado, como alguém que tenta parecer natural mesmo estando nu em um vestiário e acaba excitado com a própria nudez. Na cidade, eu tentava exibir meu judaísmo com um ruído silencioso que era mais vergonha reprimida do que arrogância. Ele não. Não que ele nunca pensasse sobre o fato de ser judeu ou sobre a vida dos judeus em um país católico. Às vezes era exatamente sobre isso que falávamos naquelas longas tardes em que deixávamos as tarefas de lado e conversávamos enquanto todos os outros tinham ido descansar por algumas horas em qualquer quarto que estivesse disponível. Ele tinha vivido tempo suficiente no interior da Nova Inglaterra para saber como era ser o judeu. Mas o judaísmo não o impactava como a mim, não era motivo de um permanente desconforto metafísico em relação a si mesmo e ao mundo. Nem sequer abrigava a promessa mística e implícita da fraternidade redentora. E talvez por isso ele não se incomodasse com o fato de ser judeu e não ficasse o tempo todo cutucando essa ascendência como as crianças cutucam cascas de feridas que gostariam de fazer desaparecer. Ele estava em paz com seu judaísmo. Estava em paz consigo mesmo, com seu corpo, sua aparência, seu backhand esquisito, sua escolha de livros, músicas, filmes, amigos. Estava em paz com a perda de sua estimada Mont Blanc.
— Posso comprar outra.
Também estava em paz com as críticas. Mostrava ao meu pai algumas páginas que tinha orgulho de ter escrito. Meu pai dizia que suas ideias sobre Heráclito eram brilhantes, mas que precisavam ser consolidadas, que ele precisava aceitar a natureza paradoxal do pensamento do filósofo, não simplesmente explicá-lo. Ele estava em paz com a ideia de que precisava consolidar seus argumentos, aceitava o paradoxo. Devia voltar ao início — também estava em paz com isso. Convidou minha tia mais nova para um tête-à-tête durante uma gita — passeio — de lancha à meia-noite. Ela recusou. Ele ficou em paz com a recusa. Tentou mais uma vez em alguns dias, mais uma vez foi rejeitado, e mais uma vez aceitou com leveza. Ela também não se importou e, se tivesse passado mais uma semana conosco, provavelmente aceitaria uma gita de lancha à meia-noite que duraria até o nascer do sol.
Somente durante os primeiros dias tive a sensação de que aquele jovem de vinte e quatro anos tão obstinado, mas à vontade, descontraído, despreocupado, sereno, imperturbável, que aceitava com facilidade tantas coisas da vida era, na verdade, um juiz frio, alerta e perspicaz da natureza humana e das situações. Nada do que fazia ou dizia era por acaso. Ele sabia interpretar qualquer pessoa, exatamente porque a primeira coisa que procurava nos outros era aquilo que tinha visto em si mesmo e não queria que os outros vissem. Era, como minha mãe ficou escandalizada ao descobrir, um exímio jogador de pôquer que ia escondido até a cidade duas noites por semana para “jogar algumas mãos”. Foi por esse motivo que, para nossa completa surpresa, ele insistiu em abrir uma conta no banco assim que chegou. Nenhum dos nossos hóspedes tinha conta no banco. A maioria deles não tinha um centavo.
Aconteceu durante um almoço para o qual meu pai tinha convidado um jornalista que havia se dedicado à filosofia quando jovem e queria mostrar que, embora nunca tivesse escrito sobre Heráclito, era capaz de discutir qualquer assunto. Ele e Oliver não se deram bem. Depois do almoço, meu pai disse:
— Um homem muito espirituoso… inteligente também.
— Você achou mesmo, Pro? — interrompeu Oliver.
Não sabia que meu pai, embora também fosse muito tranquilo, nem sempre gostava de ser contrariado, muito menos de ser chamado de Pro, mesmo que tenha aceitado as duas coisas.
— Sim, acho — insistiu.
— Bem, não sei se concordo. Achei o cara arrogante, maçante, desinteressante e grosseiro. Ele usa muito humor, muita voz — Oliver imitou a gravidade do tom do jornalista — e gestos amplos para chamar a atenção porque é totalmente incapaz de argumentar. A coisa da voz é exagerada, Pro. As pessoas riem não porque ele é engraçado, mas porque demonstra que quer ser engraçado. O humor não passa de um truque para conquistar aqueles que não consegue persuadir. Se olhar para ele enquanto fala, ele sempre desvia o olhar. Não está ouvindo, está apenas ansioso para dizer as coisas que ensaiou enquanto a outra pessoa estava falando porque não quer esquecê-las.
Como uma pessoa poderia intuir o modo de pensar de outra a não ser que ela mesma já fosse familiarizada com tal modo? Como ele seria capaz de perceber tantos caminhos tortuosos nos outros a não ser que também os percorresse?
O que me impressionava não era apenas o dom incrível de ler as pessoas, de vasculhar dentro delas e desenterrar a precisa configuração de sua personalidade, mas sua capacidade de intuir coisas exatamente como eu as teria intuído. Isso, no fim, foi o que fez eu me sentir atraído por ele com uma compulsão que ultrapassava o desejo, a amizade ou o fascínio de uma religião comum.
— Que tal pegar um cinema? — soltou ele certa noite.
Estávamos todos juntos, e ao fazer a sugestão foi como se de repente tivesse encontrado a solução para o que prometia ser uma noite sem graça dentro de casa. Ele ainda era novo ali e não conhecia ninguém na cidade, então provavelmente eu era uma companhia tão boa para o cinema quanto qualquer outra. Mas a pergunta tinha sido feita de modo muito espontâneo e casual, como se quisesse que todos soubessem que ele nem queria muito ir ao cinema e que poderia ficar em casa para revisar seu manuscrito sem nenhum problema. A entonação despreocupada da pergunta, no entanto, também era um sinal para os meus pais: ele estava fingindo que a ideia surgira de repente. A casualidade era sua maneira de dizer a eles, sem que eu suspeitasse, que estava se oferecendo para ir ao cinema apenas para me agradar, pois ouvira meu pai reclamar à mesa do jantar que eu andava um pouco distante e desanimado.