Me chame pelo seu nome
PARTE 1: Se não depois, quando?
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Eu ri, não do convite, mas da manobra. Ele entendeu imediatamente o motivo do sorriso. E então riu de volta, quase de si mesmo, sabendo que, se desse qualquer sinal de que sabia que eu tinha percebido sua artimanha, estaria confirmando sua culpa, mas que recusá-la, após eu ter deixado claro que havia percebido, o denunciaria ainda mais. Então ele sorriu para confessar que fora pego em flagrante, mas também para demonstrar que tinha espírito esportivo suficiente para assumir e ainda aproveitar uma ida ao cinema comigo. A situação toda me animou.
Ou talvez o sorriso tenha sido sua maneira de pagar na mesma moeda, de sugerir que, por mais que tivesse sido pego tentando simular casualidade, também vira algo digno de riso em mim — a saber, o prazer secreto, perspicaz e tortuoso que eu sentia ao descobrir tantas afinidades imperceptíveis entre nós. Talvez não houvesse nada ali, talvez eu tenha inventado tudo. Mas nós dois sabíamos o que o outro tinha visto. Naquela noite, enquanto pedalamos juntos até o cinema, eu estava — e não fazia questão de esconder — nas nuvens.
Então, astuto como era, ele não tinha mesmo entendido o significado por trás do meu gesto de afastar bruscamente sua mão? Não percebeu que cedi ao seu toque? Não soube que eu não queria que ele me soltasse? Não sentiu que quando começou a me massagear, a incapacidade de relaxar foi meu último refúgio, minha última defesa, meu último pretexto, que de forma alguma eu tinha resistido, que minha resistência era falsa, que eu era incapaz de resistir, que nunca quis resistir, independentemente do que ele fizesse ou pedisse? Não soube, naquela tarde de domingo em que não havia ninguém na casa além de nós e, sentado na cama o vi entrar no meu quarto e perguntar por que eu não estava na praia com os outros, que, se eu me recusei a responder e só dei de ombros diante de seu olhar foi apenas para não revelar que eu não conseguia tomar fôlego para falar, porque se eu permitisse que qualquer som saísse de minha boca talvez viesse uma confissão desesperada ou um soluçar — um ou o outro? Nunca, desde a infância, tinham me tratado daquele jeito. Alergia, falei. Eu também, respondeu ele. Devemos ter a mesma. Mais uma vez, dei de ombros. Ele pegou meu velho urso de pelúcia, virou o rosto do urso para si e sussurrou algo em seu ouvido. Então, virando o urso para mim e mudando a voz, perguntou:
— O que foi? Você está chateado.
Ele já devia ter percebido que eu estava de calção de banho. O cós estava mais para baixo do que o aceitável?
— Quer ir nadar? — perguntou ele.
— Depois, talvez — respondi, ecoando suas palavras, mas também tentando dizer o mínimo possível para que ele não percebesse que eu estava sem fôlego.
— Vamos agora.
Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar. Segurei sua mão, mas virei para a parede, de modo que ele não me visse, e então perguntei:
— Será que devemos?
Foi o mais perto que cheguei de dizer Fique. Só fique aqui comigo. Deixe que sua mão viaje por onde ela quiser, tire meu calção, me pegue, vou ficar em silêncio, não vou dizer a ninguém, estou duro e você sabe, e se você não fizer nada, vou pegar sua mão e colocá-la dentro do meu calção e deixar que você coloque quantos dedos quiser dentro de mim.
Ele não havia percebido nada disso?
Disse que ia trocar de roupa e saiu do meu quarto.
— A gente se encontra lá embaixo.
Quando olhei para meu calção de banho, percebi, para meu total desespero, que estava úmido. Ele tinha visto? Provavelmente. Por isso queria que fôssemos até a praia. Por isso saiu do meu quarto. Bati com a mão na minha cabeça. Como pude ter sido tão descuidado, tão desatento, tão burro? É claro que ele tinha visto.
* * *
Eu devia ter aprendido a fazer o que ele teria feito. Devia ter dado de ombros e aceitado o pré-orgasmo. Mas eu não era assim. Nunca me ocorreu dizer E daí se ele viu? Agora ele sabe.
O que jamais imaginei foi que alguém que vivia debaixo do nosso teto, que jogava baralho com a minha mãe, tomava café da manhã e jantava à nossa mesa, recitava a bênção hebraica às sextas-feiras por pura diversão, dormia em uma de nossas camas, usava nossas toalhas, compartilhava da companhia dos nossos amigos, assistia à TV conosco nos dias chuvosos e frios em que ficávamos na sala com cobertores, todos muito confortáveis por estar ali juntos ouvindo a chuva bater nas janelas… que alguém que fazia parte do meu mundo poderia gostar do que eu gostava, querer o que eu queria, ser quem eu era. Isso nunca me passaria pela cabeça porque eu ainda estava sob a ilusão de que, a não ser pelo que eu lia em livros, deduzia de boatos e ouvia de conversas indecentes, ninguém da minha idade jamais quis ser homem e mulher — com homens e mulheres. Eu já tinha sentido desejo por outros homens da minha idade e dormido com algumas mulheres. Mas antes do dia em que ele saiu daquele táxi e entrou em nossa casa, nunca teria parecido minimamente possível que alguém tão jovem e tão em paz consigo mesmo desejaria compartilhar seu corpo comigo tanto quanto eu desejava entregar o meu.
Ainda assim, mais ou menos duas semanas após sua chegada, o que eu queria todas as noites era que ele saísse do seu quarto, não pela porta da frente, mas pela que dava acesso à nossa varanda. Eu queria ouvir a porta dele se abrir, ouvir suas alpargatas na sacada e em seguida o barulho da minha porta — que nunca estava trancada — sendo aberta quando ele entrasse no meu quarto depois que todos já tivessem ido dormir, deitasse embaixo das minhas cobertas, tirasse minhas roupas sem pedir e, depois de fazer com que eu o desejasse mais do que eu imaginava ser capaz de desejar outra alma, de modo gentil e suave, com a bondade que um judeu oferece ao outro, entrasse em meu corpo depois de ouvir as palavras que eu vinha ensaiando havia dias, Por favor, não me machuque, o que queria dizer Me machuque o quanto quiser.
* * *
Eu quase nunca ficava no quarto durante o dia. Nos últimos verões, tinha me apropriado de uma mesa redonda com guarda-sol à beira da piscina. Pavel, o hóspede do verão anterior, gostava de trabalhar no quarto, e ia ocasionalmente até a varanda para dar uma olhada no mar ou fumar um cigarro. Maynard, antes dele, também trabalhava no quarto. Oliver precisava de companhia. Começou se sentando à mesa comigo, mas logo passou a se deitar em um lençol grande que estendia na grama, rodeado por páginas soltas de seu manuscrito e do que gostava de dizer que eram suas “coisas”: limonada, protetor solar, livros, alpargatas, óculos de sol, canetas coloridas e música, que ele ouvia com fones, para que fosse impossível falar com ele a não ser que ele falasse com você primeiro. Às vezes, quando eu descia com partituras ou outros livros de manhã, ele já estava esparramado ao sol com o calção de banho vermelho ou o amarelo, suando. Saíamos para correr ou nadar e, na volta, o café da manhã já estava esperando por nós. Então ele desenvolveu o hábito de deixar suas “coisas” na grama e deitar ao lado da piscina — que chamava de “paraíso”, abreviatura de “Isto é o paraíso”. Depois do almoço, Oliver costumava dizer “Vou para o paraíso agora”, acrescentando, como uma piada interna entre latinistas, “ficar ‘aprīcus’”. Tirávamos sarro das inúmeras horas que ele passava encharcado de bronzeador, deitado exatamente no mesmo lugar à beira da piscina.
— Quanto tempo ficou no paraíso esta manhã? — perguntava minha mãe.
— Duas horas. Mas pretendo voltar no início da tarde para uma apricação bem mais longa.
Ir para a orla do paraíso também significava ficar horas deitado à beira da piscina com uma perna balançando na água, com os fones de ouvido e o chapéu de palha cobrindo o rosto.
Ele não sentia falta de nada. Eu não entendia essa sensação, sentia inveja.
— Oliver, você está dormindo? — perguntava quando o ar em volta da piscina ficava extremamente sufocante e parado.
Silêncio.
Então vinha a resposta, quase um suspiro, sem que um único músculo de seu corpo se movesse.
— Estava.
— Desculpe.
Aquele pé na água… eu beijaria cada dedo. Então beijaria seus tornozelos e seus joelhos. Quantas vezes eu já tinha olhado fixamente para o calção enquanto o chapéu cobria seu rosto? Ele não tinha como saber para onde eu estava olhando.
Ou:
— Oliver, você está dormindo?
Um longo silêncio.
— Não. Pensando.
— Em quê?
Os dedos dele dão petelecos na água.
— Na interpretação de Heidegger de um fragmento de Heráclito.
Ou, quando eu não estava tocando violão e ele não estava com os fones, mas ainda com o chapéu sobre o rosto, ele quebrava o silêncio de repente:
— Elio.
— Oi.
— O que você está fazendo?
— Lendo.
— Não está, não.
— Pensando, então.
— Em quê?
Eu morria de vontade de contar.
— É pessoal — respondia.
— Então você não vai me contar?
— Então eu não vou contar.
— Então você não vai me contar — repetia ele, pensativo.
Eu amava o jeito como ele repetia o que eu acabara de repetir. Isso me fazia pensar em um carinho, uma espécie de gesto, que aconteceu de modo acidental na primeira vez, mas intencional na segunda e ainda mais na terceira. Isso me fazia pensar no modo como Mafalda arrumava minha cama todas as manhãs, primeiro dobrando o lençol de cima sobre o cobertor, então fazendo mais uma dobra para cobrir os travesseiros e ainda uma terceira quando dobrava tudo sobre a colcha — indo e voltando, deixando, entre todas aquelas dobras, sinais simultâneos de devoção e complacência, como a submissão em um instante de paixão.
O silêncio era sempre leve e discreto naquelas tardes.
— Não vou contar — dizia.
— Então vou voltar a dormir — respondia ele.
Mais uma vez o silêncio. Então:
— Isto é o paraíso.
E eu não ouvia mais uma palavra por pelo menos uma hora.
Não havia nada que eu amasse mais do que sentar àquela mesa e me debruçar sobre minhas transcrições enquanto ele ficava ali deitado de bruços fazendo anotações nas páginas que toda manhã ia buscar com a Signora Milani, sua tradutora em B.
— Escute isso — dizia ele de vez em quando, tirando os fones, quebrando o silêncio abafado daquelas longas manhãs de verão. — Ouça essa asneira. — E começava a ler algo que não acreditava que tinha escrito meses antes. — Isso faz sentido para você? Para mim não faz.
— Talvez fizesse quando você escreveu — respondi.
Ele pensou por um instante, como se medisse minhas palavras.
— É a coisa mais gentil que ouvi nos últimos meses… — disse ele com sinceridade, como se tivesse tido uma revelação súbita, levando o que eu tinha dito muito mais a sério do que eu imaginei que soaria.
Fiquei constrangido, desviei o olhar e finalmente murmurei a primeira coisa que me veio à cabeça:
— Gentil? — perguntei.
— É, gentil.
Eu não entendi o que gentileza tinha a ver com tudo aquilo. Ou talvez não percebesse para onde tudo aquilo se encaminhava e preferi deixar para lá. Silêncio de novo. Até a próxima vez que ele dissesse algo.
Como eu amava quando ele quebrava o silêncio entre nós para dizer alguma coisa — qualquer coisa — ou perguntar o que eu achava de X ou se eu tinha ouvido falar de Y. Ninguém em nossa casa pedia minha opinião sobre nada. Se ele ainda não tinha percebido o motivo, logo perceberia; era questão de tempo até que passasse a concordar com a visão de todos de que eu era o bebê da família. Mas ali estava ele, na terceira semana conosco, me perguntando se eu já tinha ouvido falar de Athanasius Kircher, Giuseppe Belli e Paul Celan.
— Ouvi, sim.
— Sou quase uma década mais velho que você e até alguns dias atrás nunca tinha ouvido falar de nenhum deles. Não entendo.
— Não há o que entender. Meu pai é professor universitário. Fomos criados sem TV. Entendeu agora?
— Volte para sua música, vai! — disse ele como se tivesse enrolado uma toalha e jogado na minha cara.
Eu gostava até mesmo do modo como ele me dispensava.
Um dia, enquanto mudava o caderno de lugar na mesa, derrubei meu copo sem querer. Caiu na grama. Não quebrou. Oliver estava perto, levantou, pegou o copo e colocou-o não só na mesa, mas bem ao lado das minhas páginas.
Eu não sabia quais palavras usar para agradecer.
— Não precisava — disse finalmente.
Ele deixou passar um tempo, o suficiente para que eu percebesse que sua resposta talvez não fosse de fato casual ou despreocupada.
— Eu quis.
Ele quis, pensei.
Eu quis, imaginei-o repetindo — gentil, delicado, expressivo, como quando ficava de bom humor de repente.
Para mim, aquelas horas sentado à mesa de madeira redonda no jardim, com o enorme guarda-sol lançando uma sombra irregular sobre meus papéis, o barulho do gelo em nossas limonadas, o som não tão distante das ondas lambendo suavemente as rochas gigantescas lá embaixo e, em segundo plano, vindo de uma casa vizinha, o hit do momento tocando sem parar… tudo isso está eternamente gravado naquelas manhãs em que todas as minhas preces eram para o tempo parar. Que o verão nunca acabe, que ele nunca vá embora, que a música toque para sempre, estou pedindo tão pouco, e juro que nunca mais vou pedir nada.
O que eu queria? E por que eu não sabia o que queria, mesmo quando estava pronto para ser direto em minhas confissões?
Talvez eu quisesse que ele ao menos falasse que não havia nada de errado comigo, que eu não era menos humano que qualquer outro cara da minha idade. Eu teria ficado satisfeito e não pediria mais nada, se ele simplesmente se abaixasse para recolher a dignidade que eu tinha lhe entregado com tanta facilidade.
Eu era Glauco e ele era Diomedes. Em nome de um culto obscuro entre homens, eu trocava minha armadura de ouro por seu bronze. Troca justa. Nenhum dos dois barganhava, assim como nenhum dos dois falava de moderação ou extravagância.
A palavra “amizade” me vinha à mente. Mas a amizade, como os outros a definiam, me era estranha, algo inculto que não me importava. O que posso ter desejado, do segundo em que ele saiu do táxi até a despedida em Roma, talvez tenha sido o que todos os seres humanos pedem uns aos outros, o que torna a vida viável. Teria que vir dele primeiro. Só então talvez viesse de mim.
Existe uma lei em algum lugar que diz que, quando uma pessoa está completamente apaixonada pela outra, a outra deve inevitavelmente se apaixonar também. Amor ch’a null’amato amar perdona. Amor, que a nenhum amado amar perdoa, palavras de Francesca no Inferno. Espere e tenha esperança. Eu tinha esperança, embora talvez só quisesse mesmo esperar. Esperar para sempre.
Sentado à mesa redonda, trabalhando em minhas transcrições durante aquelas manhãs, não queria a amizade dele, não queria nada. Só levantar a cabeça e encontrá-lo ali, protetor solar, chapéu de palha, calção vermelho, limonada. Levantar a cabeça e encontrar você, Oliver. Pois logo chegará o dia em que levantarei a cabeça e você não estará mais ali.
* * *
No fim da manhã, amigos e vizinhos das casas próximas costumavam aparecer. Todos se reuniam em nosso jardim e saíam juntos em direção à praia lá embaixo. Nossa casa era a mais próxima da água, era só abrir o portãozinho junto à balaustrada e descer as escadas estreitas para estar nas pedras. Chiara, uma das garotas que três anos antes era mais baixa do que eu e no verão anterior não me deixava em paz, tinha desabrochado e agora era uma mulher que finalmente dominava a arte de não me cumprimentar toda vez que nos víamos. Um dia, ela e a irmã mais nova vieram com os outros, pegaram a camisa de Oliver da grama, jogaram para ele e disseram:
— Chega. Estamos indo à praia e você também vem.
Ele estava disposto a ceder.
— Vou só guardar esses papéis. Ou o pai dele — com as mãos cheias de papéis, apontou para mim com o queixo — vai me esfolar vivo.
— Falando em esfolar, vem cá — disse ela.
Com as unhas, tentou puxar lenta e delicadamente um pedaço de pele descascada do ombro bronzeado de Oliver, que agora tinha o tom dourado de um campo de trigo no fim de junho. Como eu queria poder fazer aquilo.
— Diga ao pai dele que eu amassei seus papéis. Vamos ver o que ele diz — acrescentou ela.
Analisando o manuscrito que Oliver deixara na mesa de jantar a caminho do quarto, Chiara gritou do andar de baixo que traduziria melhor aquelas páginas do que a tradutora local. Filha de expatriados como eu, Chiara tinha mãe italiana e pai americano. Falava inglês e italiano com os dois.
— Você também é boa de datilografia? — A voz de Oliver veio do quarto enquanto ele procurava outro calção, depois de dentro do chuveiro, portas e gavetas batendo, sapatos sendo chutados.
— Sou boa de datilografia — gritou ela, olhando para a escada vazia.
— Tão boa quanto fala bem?
— Meliore. E mio prezo também é meliore.
— Preciso de cinco páginas traduzidas por dia, prontas para serem entregues todas as manhãs.
— Enton non faço niente — respondeu Chiara, ríspida. — Procura otra persona.
— Bom, a Signora Milani precisa do dinheiro — disse ele, descendo as escadas, camisa azul esvoaçante, alpargatas, calção vermelho, óculos escuros e a edição vermelha de Lucrécio que carregava para todo lugar. — Vou ficar com ela — continuou, passando um pouco de creme nos ombros.
— Vou ficar com ela — repetiu Chiara, rindo. — Vou ficar com você, você vai ficar comigo, ela vai ficar com ele…
— Parem de palhaçada e vamos logo nadar — disse a irmã de Chiara.
Demorei um tempo para perceber, mas ele tinha quatro personalidades, que dependiam do calção de banho que estivesse usando. Saber qual delas esperar me dava a ilusão de ter uma ligeira vantagem. Vermelho: ousado, teimoso, muito adulto, quase rude e mal-humorado — fique longe. Amarelo: jovial, alegre, engraçado, mas não sem farpas — não ceda tão facilmente; podemos voltar ao vermelho a qualquer momento. Verde, que ele raramente usava: dócil, curioso, falante, bem-humorado — por que não era sempre assim? Azul: a tarde em que entrou no meu quarto pela varanda, o dia em que massageou meu ombro ou quando pegou meu copo da grama e colocou bem ao meu lado.
Hoje era vermelho: fazia tudo às pressas, determinado, ríspido.
Ao sair, pegou uma maçã da grande fruteira e soltou um “Até depois, Sra. P.” para minha mãe, que estava sentada com duas amigas à sombra, as três de roupa de banho. Em vez de abrir o portão que dava para a escada estreita que levava até as pedras, pulou por cima. Nunca tivemos um hóspede de verão tão liberto. Mas todos amavam isso nele, como todos aprenderam a amar o “Até depois!”.
— Tudo bem, Oliver, até depois, tudo bem — respondeu minha mãe, tentando falar sua língua, depois de até mesmo ter aceitado o novo título de Sra. P.
Havia sempre um tom brusco naquelas palavras. Não era “Nos vemos mais tarde” ou “Se cuida” ou mesmo “Ciao”. Até depois! era uma saudação fria e ríspida que ignorava completamente todas as nossas delicadezas europeias. Até depois! sempre dava um sabor amargo a um momento que até então podia ter sido caloroso, íntimo. Até depois! não concluía as coisas com exatidão ou permitia que ficassem no ar. Fechava a porta na cara.
Mas Até depois! também era um jeito de evitar despedidas, de fazer com que todas fossem leves. Dizer Até depois! não significa dar adeus, mas sim que você vai voltar logo. Como quando ele respondeu “Um segundo”, em inglês, no dia em que minha mãe pediu a ele que passasse o pão e ele estava ocupado com as espinhas de peixe em seu prato. “Um segundo.” Minha mãe, que odiava o que chamava de seus americanismos, acabou apelidando Oliver de Il kaiboy — o caubói. Começou como uma provocação, mas acabou virando uma expressão carinhosa, para acompanhar o outro apelido que tinha lhe dado durante a primeira semana, quando ele desceu para o jantar depois do banho, o cabelo brilhoso penteado para trás. Lo star, disse ela, abreviação de il muvi star. Meu pai, sempre o mais tolerante de nós, mas também o mais observador, já tinha sacado o kaiboy.
— È un timido, é por isso — disse quando alguém pediu que explicasse o Até depois! ríspido de Oliver.
Oliver tímido? Essa era nova. Seriam os rudes americanismos nada mais do que um jeito exagerado de acobertar o simples fato de que ele não sabia — ou temia não saber — como se despedir com delicadeza? Lembrei que, durante dias, ele se recusou a comer ovos cozidos no café da manhã. No quarto ou quinto dia, Mafalda insistiu que ele não podia ir embora sem experimentar nossos ovos. Ele finalmente aceitou e admitiu, com uma vergonha genuína que nunca fez questão de esconder, que não sabia abrir um ovo quente.
— Lasci fare a me, Signor Ulliva, eu abro — disse ela.
Daquela manhã em diante, ela passou a trazer dois ovos ao Signor Ulliva e não servia mais ninguém enquanto não os tivesse aberto.
Mas ele já havia conquistado Mafalda antes, na terceira manhã, quando ela perguntou se ele gostava de tomar suco no café da manhã e ele disse que sim. Oliver devia estar esperando suco de laranja ou toranja, mas o que ela trouxe foi um copo cheio e quase transbordando de um grosso suco de damasco. Ele nunca tinha tomado suco de damasco. Mafalda ficou ali parada olhando para ele, a bandeja encostada no avental, tentando ler sua reação quando ele engoliu. Ele não disse nada de imediato. Então, provavelmente sem pensar, fez um barulho com os lábios. Ela estava no paraíso. Minha mãe não conseguia acreditar que pessoas que lecionavam em universidades mundialmente conhecidas estalavam os lábios ao experimentar néctar de damasco. Daquele dia em diante, um copo esperava por ele todas as manhãs.
No fim das contas, além de nunca ter tomado suco de damasco na vida, ficou perplexo ao descobrir que havia árvores de damasco, imagine só, no nosso pomar. No fim da tarde, quando não tinha outros afazeres domésticos, Mafalda pedia a ele que subisse uma escada com uma cesta e colhesse as frutas que estavam quase coradas de vergonha, segundo ela. Ele fazia graça, pegando uma fruta e perguntando, em italiano:
— Esta aqui está corada de vergonha?
— Não — respondia ela. — Esta ainda é jovem. Não tem vergonha. Isso vem com a idade.
Nunca vou esquecer a visão que tinha da minha mesa quando ele subia a pequena escada usando o calção de banho vermelho e demorava uma eternidade para colher os damascos mais maduros. A caminho da cozinha — cesta de vime, alpargatas, camisa esvoaçante, óleo bronzeador e tudo mais —, ele jogava um damasco grande na minha direção e dizia: “Para você.” Com o mesmo tom de quando jogava a bola de tênis do outro lado da quadra e dizia: “Você saca.”
É claro que ele não tinha ideia do que se passava pela minha cabeça minutos antes, mas as faces redondas e firmes do damasco, com a covinha no meio, me lembravam do movimento de seu corpo se esticando até os galhos da árvore, aquela bunda firme e redonda replicando a cor e o formato da fruta. Tocar o damasco era como tocá-lo. Ele nunca saberia. Assim como as pessoas de quem compramos jornal, e com quem fantasiamos a noite toda, não fazem ideia de que aquela expressão em seu rosto ou aquele bronzeado em seu ombro exposto nos darão prazer infinito quando estivermos sozinhos.
Para você, assim como Até depois!, tinha um quê de improviso, de aqui, pegue, que me fazia pensar em como meus desejos eram tortuosos e secretos em comparação à espontaneidade expansiva de tudo o que ele fazia. Ele jamais pensaria que, ao colocar o damasco em minha mão, estava me entregando sua bunda ou que, ao morder a fruta, eu também mordia aquela parte do seu corpo que devia ser mais clara que o restante porque nunca se apricava — e, perto dali, se eu ousasse ir mais longe, seu membro suculento como a fruta.
Na verdade, ele sabia mais sobre damascos do que nós — cultivo, etimologia, origens, futuro no Mediterrâneo e fora dele. À mesa do café naquela manhã, meu pai explicou que o nome da fruta — em italiano albicocca, abricot em francês, aprikose em alemão — vinha do árabe, como as palavras “álgebra”, “alquimia” e “álcool”, que combinavam um substantivo árabe com o artigo al-no início. A origem da palavra albicocca era al-birquq. Meu pai, que não sabia a hora de parar e precisava sempre completar sua performance com uma pequena curiosidade recente, acrescentou que o surpreendente era que em Israel e em muitos países árabes a fruta era chamada por um nome totalmente diferente: mishmish.
Minha mãe ficou sem reação. Todos nós, incluindo meu sobrinho, que era mais velho do que eu, tivemos o impulso de aplaudir.
Quanto à questão da etimologia, no entanto, Oliver respeitosamente discordava.
— Ahn?! — Foi a resposta perplexa do meu pai.
— Na verdade, a palavra não vem do árabe — disse ele.
— Como assim?
Meu pai claramente simulava uma ironia socrática, que começava com um inocente “É mesmo?”, para logo levar o interlocutor a águas turbulentas.
— É uma longa história, então tenham paciência. — De repente, Oliver ficou sério. — Muitas palavras latinas derivam do grego. Nesse caso, no entanto, aconteceu o contrário: o grego derivou do latim. A palavra latina era praecoquum, de pre-coquere, pré-sazonar, amadurecer antes da hora, como em precoce, querendo dizer temporão. Os bizantinos emprestaram praecox, que virou prekokkia ou berikokki, como os árabes devem ter finalmente herdado.
Minha mãe, incapaz de resistir a seu charme, estendeu a mão, desgrenhou seu cabelo e disse:
— Che muvi star!
— Ele está certo, não há como negar — disse meu pai em voz baixa, como se simulasse um Galileu acovardado, obrigado a resmungar a verdade para si mesmo.
— Um oferecimento de Filologia I — disse Oliver.
Eu só conseguia pensar em precoce, pré-coito, pré-coito, precoce.
Um dia vi Oliver dividindo a escada com o jardineiro, tentando aprender tudo o que podia sobre os enxertos de Anchise, que explicavam por que nossos damascos eram maiores, mais frescos e mais suculentos do que a maioria dos pêssegos da região. Ele ficou fascinado com os enxertos, principalmente quando descobriu que o jardineiro passava horas compartilhando tudo o que sabia sobre eles com qualquer um que perguntasse.
Oliver, no fim, sabia mais sobre todo tipo de comida, queijo e vinho do que todos nós juntos. Até Mafalda ficava maravilhada e, de vez em quando, recorria à sua opinião.
— Você acha que eu devia refogar a massa com cebolas ou sálvia? Não está com limão demais agora? Estraguei o prato, não foi? Eu devia ter colocado mais um ovo… não está no ponto! Será que eu uso o liquidificador novo ou o bom e velho pilão?
Minha mãe não resistia a algumas provocações. Como qualquer kaiboy, dizia ela: sabem tudo o que é possível saber sobre comida, porque não conseguem segurar uma faca e um garfo direito. Aristocratas gastronômicos com hábitos camponeses. Sirva as refeições para ele na cozinha.
Com prazer, respondia Mafalda. E de fato, um dia, quando ele chegou muito tarde para o almoço depois de ter passado a manhã com a tradutora, lá estava o Signor Ulliva na cozinha, comendo espaguete e bebendo vinho tinto com Mafalda, Manfredi, seu marido e nosso motorista, e Anchise, todos tentando ensinar-lhe uma canção napolitana. Não se tratava apenas do hino nacional da juventude sulista, mas daquilo que tinham de melhor a oferecer quando queriam entreter a realeza.
Todos haviam sido conquistados.
* * *
Era perceptível que Chiara estava igualmente fascinada. Sua irmã também. Até os preguiçosos do tênis, que durante anos passavam ali toda tarde antes de ir para a praia nadar, agora ficavam até mais tarde na esperança de jogar uma partida com ele.
Se fosse com qualquer outro dos nossos hóspedes de verão eu teria ficado ofendido. Mas, ao perceber que todos gostavam tanto dele, eu encontrava um pequeno e estranho oásis de paz. O que poderia haver de errado em gostar de uma pessoa de que todos gostavam? Todos estavam apaixonados por ele, incluindo meus primos de primeiro e segundo graus e meu sobrinho, que ficava conosco nos finais de semana e às vezes por mais tempo. Para alguém que era conhecido por amar descobrir defeitos em todo mundo, eu encontrava certa satisfação em esconder meus sentimentos por ele por trás da indiferença, da hostilidade ou do despeito que sentia por qualquer um que pudesse me ofuscar no ambiente doméstico. Como todos gostavam dele, eu tinha que dizer que também gostava. Eu era como os homens que declaram abertamente que acham outros homens belos, de modo a ocultar o desejo de abraçá-los. Negar a aprovação universal simplesmente alertaria os outros de que eu teria motivos escusos para resistir a ele. Ah, eu gosto muito dele, dizia nos primeiros dez dias quando meu pai perguntava minha opinião. Eu usava palavras intencionalmente comprometedoras porque sabia que ninguém suspeitaria de um fundo falso na misteriosa paleta de sombras que eu aplicava em tudo o que dizia sobre ele. É a melhor pessoa que eu conheci na vida, eu disse na noite em que o barquinho de pesca no qual ele embarcara com Anchise não voltava e resolvemos procurar pelo telefone dos pais dele nos Estados Unidos para o caso de ter que dar uma notícia terrível.
Naquele dia cheguei mesmo a me obrigar a deixar de lado minhas inibições e demonstrar minha aflição, como todos os outros. Mas também o fiz para que ninguém suspeitasse de que eu alimentava dores muito mais secretas e desesperadas — até que percebi, quase envergonhado, que parte de mim não se importava se ele tivesse morrido, que havia até mesmo algo empolgante na imagem de seu corpo inchado e sem olhos finalmente aparecendo na praia.
Mas eu não enganava a mim mesmo. Estava convencido de que ninguém no mundo o desejava de modo tão primitivo quanto eu; de que ninguém estava disposto a ir até onde eu iria por ele. Ninguém tinha estudado cada osso de seu corpo, tornozelos, joelhos, pulsos, dedos das mãos e dos pés, ninguém desejava cada contração muscular, ninguém o levava para a cama todas as noites e, ao vê-lo de manhã deitado em seu paraíso à beira da piscina, sorria para ele, via o sorriso vir a seus lábios e pensava, Sabia que eu gozei na sua boca ontem à noite?
Talvez até os outros nutrissem outro tipo de sentimento por ele, que ocultavam e expunham a seu modo. Ao contrário dos outros, no entanto, eu era o primeiro a vê-lo quando ele entrava no jardim ao vir da praia ou quando o contorno frágil de sua bicicleta, ofuscada pela névoa da tarde, aparecia na alameda de pinheiros que levava até a nossa casa. Fui o primeiro a reconhecer seus passos quando ele chegou atrasado ao cinema e ficou procurando por nós, sem dizer uma palavra, até me virar para ele com a certeza de que ficaria feliz por eu tê-lo visto. Eu o reconhecia pela inflexão de seus passos quando subia a escada até a varanda ou passava na frente do meu quarto no corredor. Eu sabia quando ele parava diante das portas francesas do meu quarto, hesitava quanto a bater, decidia-se pelo não e continuava andando. Eu sabia que era ele pedalando pelo modo como a bicicleta derrapava com malícia no caminho de cascalho e seguia em frente quando era óbvio que não havia mais nenhuma tração, só para parar de repente, de modo brusco, e pular da bicicleta com um gesto que parecia dizer voilà.
Tentava sempre mantê-lo em meu campo de visão. Nunca deixava que se distanciasse demais de mim, a não ser nos momentos em que não estava comigo. E quando não estava comigo, não me importava o que ele fizesse, desde que permanecesse exatamente a mesma pessoa que era quando estava. Que ele não seja outra pessoa quando estiver distante. Que não seja alguém que eu nunca vi. Que não tenha outra vida além da que eu sei que ele tem conosco, comigo.
Que eu não o perca.
Eu sabia que não tinha nada que o prendesse, nada a oferecer, nada que o atraísse.
Eu não era nada.
Só um garoto.
Ele simplesmente dispensava sua atenção quando lhe convinha. Quando me ajudava a entender um fragmento de Heráclito, porque eu estava determinado a ler “seu” autor, as palavras que me ocorriam não eram “gentileza” ou “generosidade”, mas “paciência e “tolerância”, que eram mais valiosas. Momentos depois, quando ele perguntava se eu estava gostando do livro, a pergunta era motivada mais pela oportunidade de bater papo do que pela curiosidade. Tudo era casual.
Ele ficava à vontade com o casual.
Por que você não está na praia com os outros?
Volte para sua música.
Até depois!
Para você!
Jogar conversa fora.
Bater papo.
Nada.
* * *
Oliver recebia muitos convites para ir a outras casas. Era quase uma tradição com os outros hóspedes de verão também. Meu pai sempre queria que eles se sentissem livres para falar sobre seus livros e suas áreas de expertise pela cidade. Ele também acreditava que acadêmicos deviam aprender a falar com leigos, e era por isso que sempre convidava advogados, médicos e empresários para as refeições. Todo mundo na Itália já leu Dante, Homero e Virgílio, dizia ele. Não importa com quem você esteja falando, desde que cite Dante e Homero primeiro. Virgílio é obrigação, Leopardi vem logo depois, e então sinta-se à vontade para deslumbrá-los com tudo o que sabe, Celan, cela, salame, quem liga? Isso também permitia que todos os nossos hóspedes de verão aperfeiçoassem o italiano, um dos requisitos do programa. Inseri-los no circuito de jantares de B. trazia outro benefício: desobrigava-nos de jantar com eles todas as noites.
Mas os convites de Oliver acabaram se tornando vertiginosos. Chiara e a irmã queriam sua presença pelo menos duas vezes por semana. Um cartunista de Bruxelas que alugava uma villa durante todo o verão o queria em seus exclusivos soupers de domingo, frequentados por escritores e acadêmicos da região. Havia ainda os Moreschi, a três villas da nossa, os Malaspina de N. e os conhecidos dos bares da piazzetta ou do Le Danzing. Isso sem contar as noites de pôquer e bridge cuja frequência aflorava sabe-se lá como.
Sua vida, como seus papéis, mesmo quando parecia caótica estava sempre meticulosamente compartimentada. Às vezes ele pulava o jantar e simplesmente dizia a Mafalda:
— Esco, vou sair.
Seu Esco, logo percebi, era só mais uma versão do Até depois! Uma despedida sumária e incondicional, proferida não antes de sair, mas já à porta. Dita já de costas para aqueles que estão ficando para trás. Eu tinha pena de seus destinatários que queriam recorrer, implorar.
Não saber se ele apareceria para o jantar era uma tortura. Mas suportável. Não ousar perguntar se ele estaria lá era a verdadeira provação. A forte batida que meu coração dava ao ouvir a voz dele de repente ou ao encontrá-lo sentado no lugar de sempre, quando já tinha abandonado as esperanças de tê-lo conosco em determinada noite, era como o desabrochar de uma flor envenenada. Vê-lo e pensar que ele se juntaria a nós para o jantar e logo ouvir seu Esco! decisivo me ensinou que certos desejos devem ser tolhidos como as asas de uma borboleta vicejante.
Eu queria que ele fosse embora para não ter mais que lidar com ele.
Eu queria que ele morresse também, então se eu não conseguisse parar de pensar nele e de imaginar quando o veríamos novamente, ao menos a morte colocaria um fim nisso. Eu mesmo queria matá-lo, até para que ele soubesse o quanto sua simples presença me incomodava, como era insuportável o fato de ele se sentir à vontade com tudo e com todos, de aceitar tudo com facilidade, de não se incomodar com nada, de pular a cerca para ir à praia quando todos abriam o portão, isso para não falar dos calções de banho, do seu lugar no paraíso, do Até depois! insolente, do estalar de lábios por amor ao suco de damasco. Se não o matasse, então o deixaria aleijado para sempre, para que ficasse conosco em uma cadeira de rodas e nunca mais voltasse para os Estados Unidos. Se ficasse paraplégico, eu sempre saberia seu paradeiro e seria fácil encontrá-lo. Eu me tornaria seu senhor e me sentiria superior a ele, se fosse aleijado.
Então percebi que em vez disso eu poderia me matar, ou me ferir gravemente e fazer com que ele soubesse o porquê. Se machucasse meu rosto, queria que ele me olhasse e se perguntasse por quê; por que alguém faria isso consigo mesmo, até que, anos depois — sim, depois! —, finalmente ele juntasse as peças e batesse a cabeça na parede.
Às vezes era Chiara quem devia ser eliminada. Eu sabia o que ela estava tramando. Com a mesma idade que eu, seu corpo estava mais do que pronto para ele. Mais do que o meu? Eu me perguntava. Ela estava a fim dele, isso era claro, enquanto tudo o que eu queria era uma noite com ele, só uma noite — uma hora, até —, só para saber se eu ia desejá-lo outra vez. O que eu não percebia era que essa vontade de testar o desejo nada mais é do que um ardil para conseguir o que se quer sem admitir o desejo. Tinha pavor de pensar no quanto ele poderia ser experiente. Se ele fazia amigos com tanta facilidade em semanas, era fácil imaginar como seria a vida na sua cidade. Imagine deixá-lo à solta em uma cidadezinha da Nova Inglaterra.