Me chame pelo seu nome

André Aciman · Capítulo 1 de 4 · parte 3/3

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Me chame pelo seu nome

PARTE 1: Se não depois, quando?

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A coisa com Chiara aconteceu tão naturalmente que estava na cara. Ele amava dar uma gita em alto-mar no barco a remo com ela, ele nos remos enquanto ela tomava sol, tirando a parte de cima do biquíni quando paravam longe da costa.

Eu assistia. Temia perdê-lo para ela. Temia perdê-la para ele também. Mas pensar nos dois juntos não me desanimava. Eu ficava duro, embora não soubesse se o que me excitava era o corpo dela sob o sol, o dele ao lado do dela, ou os dois juntos. De onde eu estava, encostado na cerca do jardim que dava para a costa, eu estreitava os olhos e finalmente via os dois deitados ao sol um ao lado do outro, provavelmente se agarrando, a coxa dela por cima da dele, minutos depois a dele por cima da dela. Eles não tinham tirado a roupa. Isso me deixava aliviado, mas certa noite, quando vi os dois dançando, algo me disse que aqueles não eram movimentos de pessoas que se limitavam a carícias intensas.

Na verdade, eu gostei de vê-los dançando juntos. Talvez vê-lo dançando daquele jeito com alguém tenha feito com que eu percebesse que ele não estava disponível, que não havia motivos para ter esperança. E isso era bom. Ajudava na minha recuperação. Talvez pensar assim fosse um sinal de que a recuperação já estava acontecendo. Eu tinha pastado na zona proibida e saído suficientemente ileso.

Mas, quando meu coração bateu com força na manhã seguinte, no momento em que eu o vi no lugar de sempre no jardim, soube que desejar o melhor aos dois e ansiar pela recuperação não tinha nada a ver com o que eu ainda queria dele.

O coração dele batia forte quando me via entrar?

Eu duvidava.

Ele me ignorou como eu o havia ignorado naquela manhã: de propósito, para me afastar, para se proteger, para demonstrar que eu não era nada para ele? Ou estava realmente distraído, como quando as pessoas não conseguem perceber as dicas mais óbvias porque simplesmente não estão prestando atenção, não sentem atração, não estão interessadas?

Quando ele e Chiara dançaram, vi que ela deslizava a coxa entre as pernas dele. E já tinha visto os dois brincando de luta na areia. Quando é que isso tinha começado? E por que eu não estava lá no momento em que começou? E por que ninguém me falou? Por que eu não era capaz de reconstruir o momento exato em que de x eles progrediram para y? Com certeza os sinais estavam à minha volta. Por que não os vi?

Comecei a não pensar em nada além do que os dois poderiam fazer juntos. Faria tudo para estragar qualquer oportunidade que tivessem de ficar sozinhos. Teria falado mal de um para o outro, e depois usado a reação para instigar o primeiro. Mas também queria vê-los se envolvendo, queria participar, queria que eles me devessem algo e fizessem de mim o cúmplice necessário, o intermediário, o peão que se tornou tão vital para o rei e a rainha que agora domina o tabuleiro.

Passei a dizer coisas boas de um para o outro, fingindo não fazer ideia de como estava a situação entre eles. Oliver achou que eu estava sendo evasivo. Ela disse que sabia se cuidar sozinha.

— Você está tentando nos juntar? — perguntou ela, tentando não rir.

— O que você tem a ver com isso? — indagou ele.

Descrevi o corpo de Chiara nu, que tinha visto dois anos antes. Eu queria excitá-lo. Não me importava o que ele desejasse desde que estivesse excitado. Também o descrevia para ela, porque queria ver se ela se excitava do mesmo modo que eu, para poder comparar nossos sentimentos e ver qual dos dois era genuíno.

— Você está tentando fazer com que eu goste dela?

— Que mal teria nisso?

— Mal nenhum. Mas prefiro que isso aconteça por mim mesmo, se não se importa.

Demorei um tempo para entender o que eu realmente queria com aquilo. Não só fazer que ele ficasse excitado diante de mim, ou que ele precisasse de mim, mas, ao incentivá-lo a falar sobre Chiara, eu a tinha transformado em objeto de fofoca masculina. Isso permitiria que nos aproximássemos por meio dela, que superássemos a distância entre nós ao admitir que nos sentíamos atraídos pela mesma mulher.

Ou eu só queria que ele soubesse que eu gostava de garotas.

— Olha, é muita gentileza sua. Muito obrigado. Mas não faça isso.

Sua repreensão foi um aviso de que ele não participaria do meu jogo. Ele estava me colocando em meu lugar.

Não, ele fazia o tipo nobre, pensei. Não era como eu, sinistro, baixo e traiçoeiro. O que fez com que minha agonia e minha vergonha aumentassem. Agora, além de sentir vergonha por desejá-lo como Chiara desejava, eu o respeitava e temia, e o odiava por fazer com que eu me odiasse.

Na manhã após aquela noite em que vi os dois dançando, não fiz menção de me juntar a ele. Nem ele de se juntar a mim. Quando sugeri que fôssemos correr, porque o silêncio havia se tornado insuportável, ele disse que já tinha ido.

— Você tem acordado tarde ultimamente.

Inteligente, pensei.

De fato, nas últimas manhãs, eu tinha ficado tão acostumado a encontrá-lo esperando por mim, que me tornei descuidado e não me preocupava mais com a hora de levantar. Aquela seria uma bela lição.

Na manhã seguinte, embora quisesse nadar com ele, descer pareceria uma resposta humilhante à repreensão. Então, fiquei no quarto. Só para não dar o braço a torcer. Ouvi seus passos leves na varanda, quase na ponta dos pés. Estava me evitando.

Desci bem mais tarde. Ele já tinha saído para entregar suas correções e pegar as últimas páginas com a Signora Milani.

Paramos de nos falar.

Mesmo quando compartilhávamos o lugar de sempre pela manhã, a conversa, quando acontecia, era inútil, só para tampar buracos. Não dava nem para dizer que aquilo era jogar conversa fora.

Isso não o chateava. Não devia nem pensar na questão.

Como é possível alguém fazer de tudo para tentar se aproximar de você, e você não dar a mínima atenção nem pensar no assunto quando duas semanas se passam sem que vocês troquem ao menos uma palavra? Ele fazia alguma ideia? Eu deveria falar alguma coisa?

O romance com Chiara começou na praia. Ele passou a ignorar o tênis e a andar de bicicleta com ela e os amigos pelas cidades mais distantes ao longo da costa ao entardecer. Certo dia, eles estavam em um grupo muito grande, e Oliver me perguntou se eu me importava que Mario pegasse minha bicicleta emprestada, já que eu não estava usando.

Voltei a ter seis anos.

Encolhi os ombros, querendo dizer Pode pegar, nem ligo. Mas assim que eles saíram subi as escadas correndo e comecei a chorar no travesseiro.

Às vezes nos encontrávamos à noite no Le Danzing. Nunca dava para saber se Oliver estaria lá. Ele simplesmente aparecia, e desaparecia tão repentinamente quanto tinha aparecido, às vezes sozinho, às vezes com outras pessoas. Quando Chiara vinha à nossa casa, como fazia desde que era criança, ela sentava no jardim e ficava olhando para a praia, basicamente esperando que ele aparecesse. Então, quando passavam alguns minutos e não tínhamos nada a dizer um ao outro, ela finalmente perguntava:

— C’è Oliver?

Ele foi ver a tradutora. Ou: Está na biblioteca com meu pai. Ou: Está na praia.

— Bom, então vou embora. Diga que eu passei aqui.

Acabou, eu pensava.

Mafalda balançava a cabeça com um olhar de repreensão compassivo.

— Ela é uma criança. Ele é professor universitário. Por que ela não encontra alguém da idade dela?

— Ninguém pediu sua opinião — rebateu Chiara, que entreouviu o que Mafalda havia dito e não aceitava ser criticada por uma cozinheira.

— Não fale assim comigo ou parto a sua cara — disse nossa cozinheira napolitana com a palma da mão erguida. — Não tem nem dezessete anos e sai por aí atrás de peitorais à mostra? Acha que eu não percebo?

Eu imaginava Mafalda inspecionando os lençóis de Oliver toda manhã. Ou trocando informações com a empregada de Chiara. Nenhum segredo escapava à sua rede de empregadas perpetue bem-informadas.

Eu olhava para Chiara e via que estava sofrendo.

Todos suspeitavam que havia algo entre eles. Às vezes, à tarde, ele avisava que ia até o galpão ao lado da garagem pegar uma das bicicletas para ir à cidade. Uma hora e meia depois voltava. A tradutora, explicava.

— A tradutora. — A voz do meu pai ressoava enquanto desfrutava um conhaque depois do jantar.

— Traduttrice, sei — entoava Mafalda.

Às vezes nos encontrávamos na cidade.

Do caffè onde costumava encontrar alguns amigos à noite, depois do cinema ou antes de ir à boate, vi Chiara e Oliver saindo de um beco juntos, conversando. Ele estava tomando sorvete e ela se agarrava ao braço livre dele com as mãos. Quando se tornaram tão íntimos? A conversa parecia séria.

— O que está fazendo aqui? — disse ele ao me ver.

Oliver usava a ironia tanto para se proteger como para tentar esconder o fato de que não nos falávamos mais. Golpe baixo, pensei.

— Dando uma volta.

— Já não passou da hora de você estar na cama?

— Meu pai não tem disso — rebati.

Chiara estava imersa em seus pensamentos. Evitava meu olhar.

Será que ele tinha contado sobre as coisas que eu dissera a respeito dela? Parecia chateada. Estava incomodada com minha intrusão repentina no mundinho deles? Lembrei do tom de voz que ela usara na manhã em que explodiu com Mafalda. Um sorriso surgiu em seu rosto, estava prestes a dizer algo cruel.

— Na casa deles nunca teve hora para dormir, nenhuma regra, nenhuma supervisão, nada. Por isso ele é um menino tão comportado. Não é óbvio? Não tem motivos para se rebelar.

— Isso é verdade?

— Talvez — respondi, tentando minimizar a questão antes que eles fossem longe demais. — Todos nos rebelamos de alguma forma.

— É mesmo? — perguntou ele.

— Dê um exemplo — desafiou Chiara.

— Você não entenderia.

— Ele lê Paul Celan — interrompeu Oliver, tentando mudar de assunto, mas talvez também para me salvar e mostrar, sem deixar muito claro, que não tinha esquecido nossa conversa anterior.

Estaria tentando me trazer de volta depois daquele golpe seco sobre eu acordar tarde, ou seria o início de mais uma piada às minhas custas? Um olhar neutro penetrante tomava conta de seu rosto.

— E chi è? — Ela nunca tinha ouvido falar de Celan.

Lancei a ele um olhar de cumplicidade. Ele percebeu, mas não havia sinal de malícia em seus olhos quando finalmente correspondeu. De qual lado ele estava?

— Um poeta — sussurrou enquanto eles andavam em direção ao centro da piazzetta, e então soltou para mim seu casual Até depois.

Fiquei olhando enquanto eles procuravam por uma mesa livre em um dos caffès próximos.

Meus amigos perguntaram se ele estava dando em cima dela.

Não sei, respondi.

Já está pegando, então?

Eu também não sabia.

Eu queria estar no lugar dele.

Quem não queria?

Mas eu estava no paraíso. O fato de ele não ter esquecido nossa conversa sobre Celan me deu uma dose de alegria que eu não sentia havia muitos, muitos dias. Se espalhou por tudo o que eu tocava. Uma palavra, um olhar, e eu estava no paraíso. Ser feliz talvez não fosse tão difícil, afinal. Eu só precisava encontrar a fonte de felicidade dentro de mim em vez de esperar que ela viesse dos outros na próxima vez.

Lembrei da cena da Bíblia na qual Jacó pede água a Raquel e, ao ouvi-la dizer as palavras que foram profetizadas para ele, joga as mãos para o céu e beija o chão perto do poço. Eu judeu, Celan judeu, Oliver judeu — vivíamos no gueto e no oásis de um mundo cruel e implacável onde, de repente, não estamos mais entre estranhos, não há mal-entendido e ninguém nos julga, onde simplesmente conhecemos um ao outro tão profundamente que ser privado dessa intimidade é galut, palavra hebraica que significa degredo e exílio. Então seria ele meu lar, meu regresso? Você é meu regresso, Oliver. Quando estou com você e estamos bem juntos, não há nada que eu queira além disso. Você me faz gostar de quem eu sou, de quem me torno quando você está comigo. Se existe alguma verdade no mundo, ela existe quando estou com você, e se eu tiver coragem para contar minha verdade a você um dia, me lembre de acender uma vela em cada altar de Roma para dar graças.

Nunca tinha pensado que, se uma palavra dele podia me deixar tão feliz, existia outra capaz de me destruir com a mesma facilidade. Nunca tinha pensado que, se eu não queria ser infeliz, precisava aprender a prestar igual atenção a essas pequenas alegrias.

Mas, naquela noite, usei a alegria inebriante para falar com Marzia. Dançamos a noite toda, e depois a acompanhei até em casa pela praia. Paramos. Eu disse que estava tentado a dar um mergulho, esperando que ela me dissuadisse. Mas ela falou que também amava nadar à noite. Em um segundo nossas roupas estavam no chão.

— Você não está comigo porque está com raiva da Chiara?

— Por que eu estaria com raiva da Chiara?

— Por causa dele.

Balancei a cabeça, fingindo uma expressão confusa para demonstrar que não fazia ideia de onde ela poderia ter tirado aquilo.

Ela pediu que eu me virasse e não olhasse enquanto ela usava a blusa para secar o corpo. Fingi espiar, mas era obediente demais para não fazer o que me mandavam. Não ousei pedir que ela não olhasse enquanto eu vestia minhas roupas, mas fiquei feliz por ela ter se virado. Quando não estávamos mais nus, peguei sua mão e beijei a palma, então beijei o espaço entre seus dedos, e em seguida seus lábios. Ela demorou a retribuir, mas depois não queria parar.

Combinamos de nos encontrar no mesmo lugar na noite seguinte. Eu chegaria antes, disse.

— Não conte para ninguém — pediu ela.

Fiz um gesto de boca fechada.

* * *

— Quase transamos — disse a meu pai e a Oliver na manhã seguinte durante o café.

— E por que ficaram no quase? — perguntou meu pai.

— Sei lá.

— Melhor tentar e fracassar… — Oliver estava ao mesmo tempo tirando sarro e me consolando.

— Só me faltou coragem para ir adiante, ela teria deixado — disse, em parte para evitar mais críticas de um deles, mas também para deixar claro que, se era para tirar sarro, eu sabia muito bem rir de mim mesmo.

Eu estava me exibindo.

— Tente de novo depois — disse Oliver.

Era o que as pessoas bem-resolvidas faziam. Mas eu também sentia que ele estava querendo dizer mais do que aquilo, talvez por haver algo de inquietante em seu presunçoso tente de novo depois, ainda que bem-intencionado. Ele estava me criticando. Ou tirando sarro de mim. Ou sacando meu disfarce.

Percebi isso quando ele finalmente disse o que queria. Só alguém que tivesse me sacado completamente diria aquilo.

— Se não depois, quando?

Meu pai gostou.

— Se não depois, quando?

Ecoava as famosas palavras de Hilel. Se não agora, quando?

Oliver tentou na mesma hora retirar sua observação contundente.

— Eu com certeza tentaria de novo. E de novo.

Era a versão mais amena. Mas tente de novo depois era a versão velada de se não depois, quando?

Repeti aquela frase como se fosse um mantra profético que revelava como ele vivia sua vida e como eu tentava viver a minha. Repetindo o mantra que saíra de sua boca, talvez eu tropeçasse em alguma passagem secreta ou verdade latente que até então tinha me escapado, sobre mim, sobre a vida, sobre os outros, sobre minha relação com os outros.

Tente de novo depois eram as últimas palavras que eu dizia a mim mesmo toda noite, quando jurava que faria alguma coisa para trazer Oliver para mais perto de mim. Tente de novo depois significava não tenho coragem agora. As coisas ainda não estavam no ponto. Onde eu encontraria a força e a coragem para tentar de novo depois eu não sabia. Mas decidir fazer alguma coisa em vez de esperar passivamente fez com que eu me sentisse como se já estivesse fazendo algo, como se obtivesse lucro de um dinheiro que não investi, aliás, que ainda nem tinha.

Mas eu também sabia que estava me protegendo atrás da ideia de tente de novo depois, e que meses, estações, anos inteiros, uma vida passariam e eu não teria nada além de tente de novo depois carimbado em todos os meus dias. Tente de novo depois funcionava para pessoas como Oliver. Se não depois, quando? era meu xibolete.

Se não depois, quando? E se ele tivesse me sacado completamente e descoberto cada um dos meus segredos com aquelas quatro palavras incisivas?

Eu tinha que demonstrar minha total indiferença em relação a ele.

O que me fez entrar em parafuso foi conversar depois com Oliver algumas manhãs no jardim e descobrir não só que ele estava ignorando tudo o que eu dizia em nome de Chiara, mas que eu estava completamente enganado.

— Como assim enganado?

— Não estou interessado.

Não entendi se ele não estava interessado na conversa ou em Chiara.

— Todo mundo está interessado.

— Bom, pode ser. Mas eu não estou.

Ainda não estava claro.

Sua voz parecia ao mesmo tempo seca, irritadiça e grosseira.

— Mas eu vi vocês.

— O que você viu não é da sua conta. Em todo caso, não vou entrar nesse joguinho nem com ela nem com você.

Ele deu uma tragada no cigarro e me encarou com o olhar frio e ameaçador de sempre, capaz de penetrar a pele de qualquer um com precisão cirúrgica.

Eu dei de ombros

— Bem, me desculpe — disse, e voltei para meus livros.

Eu tinha passado dos limites mais uma vez e não havia como sair daquela situação com alguma elegância a não ser admitindo que eu tinha sido terrivelmente indiscreto.

— Talvez você devesse tentar — sugeriu ele.

Nunca tinha ouvido aquele tom suave em sua voz. Era eu quem costumava flertar com o decoro.

— Ela não está interessada em mim.

— Você gostaria que ela estivesse?

Aonde essa conversa estava indo e por que eu tinha a sensação de que logo cairia em uma armadilha?

— Não...? — respondi com cautela, sem perceber que a hesitação tinha feito com que meu “não” soasse quase como uma pergunta.

— Tem certeza?

Será que, por acaso, eu tinha convencido Oliver de que estava interessado nela esse tempo todo?

Olhei para ele como se estivesse devolvendo o desafio.

— O que você está insinuando?

— Eu sei que você gosta dela.

— Você não faz a menor ideia do que eu gosto — rebati. — A menor ideia.

Eu estava tentando parecer capcioso e misterioso, como se estivesse falando de um domínio da experiência humana que alguém como ele jamais conheceria. Mas só consegui parecer irritado e histérico.

Um leitor menos perspicaz da alma humana veria em minha insistente negativa sinais de uma tentativa de acobertar uma confissão sobre Chiara.

Um observador mais perspicaz, no entanto, consideraria a indicação de uma verdade completamente diferente: abra a porta por sua conta e risco — acredite, você não quer ouvir isso. Talvez seja melhor você desistir agora, enquanto ainda há tempo.

Mas eu também sabia que se ele demonstrasse qualquer sinal, por menor que fosse, de que sabia a verdade, eu faria de tudo para deixá-lo à deriva imediatamente. Se, no entanto, ele não suspeitasse de nada, minhas palavras desorientadas o deixariam ilhado da mesma forma. No fim, eu ficaria mais feliz se ele achasse que eu estava interessado em Chiara do que se ele insistisse no assunto e eu acabasse tropeçando nas palavras. Sem saber o que dizer, eu teria admitido coisas que eu não tinha planejado ou não sabia se queria admitir. Sem saber o que dizer, eu teria ido aonde meu corpo desejava muito antes do que com qualquer bon mot ensaiado por horas. Eu teria ficado vermelho, e ainda mais vermelho por ter ficado vermelho, me atrapalhado com as palavras e desmoronado… e aonde isso levaria? O que ele diria?

Melhor desmoronar agora, pensei, do que viver mais um dia fazendo malabarismos com minhas decisões inverossímeis de tentar de novo depois.

Não, era melhor que ele não soubesse. Eu podia aceitar isso. Eu podia sempre, sempre viver com isso. Nem mesmo me surpreendia a facilidade com que eu aceitava essa alternativa.

* * *

E, no entanto, do nada, um momento de carinho surgia tão de repente entre nós que as palavras que eu desejava dizer quase escorregavam dos meus lábios. Momentos dignos do calção de banho verde, ainda que minha teoria das cores tivesse sido claramente refutada, e eu já não esperasse gentileza nos dias “azuis” ou ficasse mais cuidadoso em dias “vermelhos”.

A música era um assunto fácil entre nós, principalmente quando eu estava ao piano. Ou quando ele pedia que eu tocasse algo como fulano ou sicrano. Ele gostava das minhas combinações de dois, três e até quatro compositores tocando a mesma peça, que depois era transcrita por mim. Um dia, Chiara começou a cantarolar uma melodia conhecida e, de repente, já que estava ventando e ninguém queria ir à praia e nem ficar lá fora, nossos amigos se reuniram na sala em volta do piano enquanto eu improvisava uma variação de Brahms da interpretação da peça de Mozart.

— Como você faz isso? — perguntou ele certa manhã deitado no paraíso.

— Às vezes a única maneira de entender um artista é se colocar no lugar dele, estar dentro dele. Então todo o resto flui naturalmente.

Voltamos a falar sobre livros. Eu quase nunca falava sobre livros com ninguém além do meu pai.

Ou falávamos sobre música, os filósofos pré-socráticos, sobre fazer faculdade nos Estados Unidos.

Ou Vimini aparecia.

A primeira vez que ela se intrometeu nas nossas manhãs foi exatamente no momento em que eu estava tocando uma variação das últimas variações de Brahms sobre canções de Handel.

A voz dela rompeu o calor intenso da manhã.

— O que você está fazendo?

— Trabalhando — respondi.

Oliver, deitado de bruços à beira da piscina, olhou para cima, o suor escorrendo entre as escápulas.

— Eu também — respondeu ele quando ela lhe fez a mesma pergunta.

— Você está falando, não é trabalho.

— Dá na mesma.

— Eu queria poder trabalhar. Mas ninguém me dá trabalho.

Oliver, que nunca tinha visto Vimini, olhou para mim com desespero, como se não conhecesse as regras daquela conversa.

— Oliver, esta é Vimini, ela mora na casa ao lado.

A garota estendeu a mão, e ele a cumprimentou.

— Vimini e eu fazemos aniversário no mesmo dia, mas ela tem dez anos. Além disso, ela é um gênio. Não é verdade que você é um gênio, Vimini?

— É o que dizem. Mas para mim parece que não é bem assim.

— Por quê? — perguntou Oliver, tentando não deixar transparecer um ar de superioridade.

— Seria uma piada de muito mau gosto da natureza me fazer um gênio.

Oliver pareceu mais confuso do que nunca.

— Como é?

— Ele não sabe, não é? — perguntou ela.

Balancei a cabeça.

— Dizem que talvez eu não viva muito.

— Por que está dizendo isso? — Oliver parecia totalmente atordoado. — Como você sabe?

— Todo mundo sabe. Porque eu tenho leucemia.

— Mas você é tão bonita, saudável e inteligente — protestou ele.

— Como eu disse, uma piada de mau gosto.

Oliver, agora ajoelhado na grama, literalmente deixou seu livro cair.

— Você podia ir lá em casa ler para mim um dia — disse ela. — Sou muito legal… e você também parece ser muito legal. Bom, tchau.

Ela subiu no muro.

— E desculpe se eu assustei você… bem…

Como se a música já não tivesse nos aproximado pelo menos por algumas horas naquele dia, a aparição de Vimini nos aproximou ainda mais.

Falamos sobre ela a tarde toda. Eu não precisei procurar assunto nem uma vez. Ele falou e perguntou bastante. Oliver estava fascinado. Para variar, eu não estava falando sobre mim.

Logo os dois se tornaram amigos. Ela estava sempre acordada quando ele voltava da corrida ou do mergulho matinal, os dois andavam juntos até o nosso portão e desciam as escadas com muito cuidado, iam até uma das pedras grandes onde sentavam e conversavam até a hora do café da manhã. Eu nunca tinha visto uma amizade tão bonita ou tão intensa. Nunca senti ciúme, e ninguém, certamente não eu, ousava interrompê-los ou tentar ouvir o que diziam. Jamais vou me esquecer de como ela dava a mão para ele depois que abriam o portão da escada que dava para as pedras. Ela raramente se aventurava até lá, a não ser que estivesse acompanhada de alguém mais velho.

* * *

Quando penso naquele verão, nunca consigo estabelecer uma sequência para os acontecimentos. Existem algumas cenas-chave. Além delas, só lembro dos momentos corriqueiros. O ritual matutino antes e depois do café: Oliver deitado na grama, ou à beira da piscina, eu sentado à minha mesa. Depois o mergulho ou a corrida. Ele pegando a bicicleta e indo encontrar a tradutora na cidade. O almoço na mesa grande à sombra no outro jardim, ou o almoço dentro de casa, sempre um ou dois convidados para a labuta prandial. As tardes exuberantes e esplêndidas, de sol e silêncio abundantes.

E há também cenas de verões anteriores: meu pai sempre se perguntando o que eu fazia com meu tempo, por que eu estava sempre sozinho; minha mãe me incentivando a fazer novos amigos se os velhos não me interessavam, mas, acima de tudo, a não ficar em casa o tempo todo — livros, livros, livros, sempre livros, só tocando violão, os dois implorando que eu jogasse mais tênis, saísse para dançar à noite, conhecesse pessoas, descobrisse por mim mesmo por que os outros são tão necessários na vida e não só corpos estranhos que andam ao nosso lado. Faça loucuras, se precisar, diziam, sempre tentando desenterrar os sinais misteriosos e reveladores de um coração partido que tanto ele quanto ela, desajeitada, intrusiva e devotamente, desejavam curar logo, como se eu fosse um soldado que entrou em seu jardim e cujo ferimento precisa ser estancado imediatamente ou resultará em morte. Você sempre pode conversar comigo. Eu já tive a sua idade, dizia meu pai. As coisas que você sente e pensa que só você sente, acredite, vivi e sofri todas elas, mais de uma vez; algumas nunca superei e de outras sei tão pouco quanto você, mas conheço cada curva, cada pedágio, cada compartimento do coração humano.

Há outras cenas: o silêncio pós-almoço — alguns cochilando, outros trabalhando, outros lendo, o mundo inteiro relaxado em semitons abafados. Horas celestiais, em que as vozes do mundo fora da nossa casa entravam tão suavemente que eu tinha certeza de estar cochilando. O tênis à tarde. Banho e drinques. A espera pelo jantar. Mais convidados. Jantar. Sua segunda ida à tradutora. Passear pela cidade e voltar tarde da noite, às vezes sozinho, às vezes com amigos.

E há as exceções: a tarde chuvosa que passamos sentados na sala, ouvindo música, o granizo batendo em todas as janelas da casa. As luzes se apagaram, a música acabou, e tudo o que nos restou foi o rosto uns dos outros. Uma tia falando sobre os anos terríveis que passou em St. Louis, no Missouri, que ela pronunciava San Lui, minha mãe espalhando aroma de chá e, no fundo, vindo lá da cozinha, as vozes de Manfredi e Mafalda, sussurros esparsos de um casal discutindo em sibilos altos. Lá fora, a figura magra, encoberta e encapuzada do jardineiro lutando contra as intempéries, sempre arrancando ervas daninhas mesmo na chuva, meu pai fazendo sinal com os braços na janela da sala, volte, Anchise, volte.

— Esse homem parece uma assombração — dizia minha tia.

— Pois a assombração tem um coração de ouro — respondia meu pai.

Mas todas aquelas horas eram marcadas pelo medo, como se o medo fosse um fantasma, ou um pássaro estranho e perdido preso em nossa cidadezinha e cuja asa escura lançava sobre cada ser vivo uma sombra que jamais dispersaria. Eu não sabia do que eu tinha medo, ou por que me preocupava tanto, ou por que aquela coisa que me causava tanto pânico às vezes parecia esperança e, como a esperança nos momentos mais sombrios, trazia tanta alegria, uma alegria irreal, uma alegria que trazia consigo uma armadilha. A forte batida do meu coração quando ele aparecia sem aviso me aterrorizava e me fazia vibrar ao mesmo tempo. Eu tinha medo quando ele aparecia, medo quando não aparecia, medo quando ele olhava para mim, ainda mais medo quando não olhava. Por fim, a agonia me esgotava e, nas tardes escaldantes, eu simplesmente me entregava e caía no sono no sofá da sala e, embora sonhasse, sabia exatamente quem estava no cômodo, quem entrava e saía de fininho, quem parava por ali, quem ficava olhando para mim e por quanto tempo, quem tentava pegar a seção desejada do jornal do dia fazendo o mínimo de barulho possível e acabava desistindo e procurando pela programação do cinema sem se preocupar se ia me acordar ou não.

O medo nunca ia embora. Eu acordava com ele, sentia virar alegria ao ouvi-lo tomar banho de manhã, sabendo que se juntaria a nós para o café, e a alegria azedar quando, em vez de sentar-se conosco, ele passava apressado e ia direto para o jardim trabalhar. Ao meio-dia, a agonia de esperar ouvi-lo dizer qualquer coisa já era insuportável. Sabia que o sofá estaria esperando por mim em uma ou duas horas. Eu me odiava por me sentir tão infeliz, tão invisível, tão atingido, tão imaturo. Diga alguma coisa, me toque, Oliver. Olhe para mim por tempo suficiente para ver as lágrimas marejando meus olhos. Bata à minha porta à noite e veja se eu já não a deixei aberta para você. Entre. Sempre tem espaço para você na minha cama.

O que eu mais temia eram os dias em que não o via por longos períodos — tardes inteiras e às vezes noites sem saber onde ele estava. Às vezes, eu o via atravessando a piazzetta ou falando com pessoas que eu não conhecia. Mas isso não contava, porque na piazzetta, onde as pessoas costumavam se reunir perto da hora de ir embora, ele raramente olhava para mim, só dava um aceno, que poderia não ser exatamente para mim, mais para o meu pai, de quem eu calhava de ser filho.

Meus pais, principalmente meu pai, não poderiam estar mais felizes. Oliver estava se saindo melhor do que a maioria dos hóspedes de verão. Ele ajudava meu pai a organizar seus documentos, dava conta de grande parte de sua correspondência estrangeira e seu livro claramente estava avançando. O que ele fazia em sua vida particular ou com seu tempo livre só dizia respeito a ele. Se a juventude se limitar ao trote, quem andará a galope? Era a estranha máxima do meu pai. Na nossa casa, Oliver não tinha como errar.

Como meus pais não davam atenção a suas ausências, achei que seria mais seguro nunca demonstrar que elas me causavam ansiedade. Mencionava a ausência de Oliver só quando um deles perguntava por onde ele andava; fingia estar tão surpreso quanto eles. Ah, é mesmo, faz tempo que ele saiu. Não, não faço ideia. E também precisava ter cuidado para não parecer surpreso demais, pois poderia soar falso e ia alertá-los quanto ao que estava me consumindo. Eles reconheceriam a má-fé no ato. Eu ficava surpreso por ainda não terem percebido. Sempre diziam que eu me apegava demais às pessoas. Naquele verão, no entanto, finalmente entendi o que eles queriam dizer com apegar demais. Obviamente já tinha acontecido antes, e eles provavelmente haviam percebido quando eu era novo demais para perceber por mim mesmo. Aquilo disparou alarmes em suas vidas. Eles se preocupavam comigo. E eu sabia que o sentimento não era infundado, só esperava que nunca soubessem o quanto as coisas tinham avançado para além de suas preocupações comuns. Sabia que não suspeitavam de nada, e isso me preocupava — ainda que eu não quisesse que suspeitassem. Se eu não era mais transparente e agora conseguia disfarçar parte tão considerável da minha vida, então finalmente estava a salvo, deles e dele — mas a que preço? E eu queria mesmo estar a salvo de qualquer pessoa?

Não havia com quem conversar. Para quem eu poderia contar? Mafalda? Ela iria embora. Minha tia? Provavelmente ela contaria para todo mundo. Marzia, Chiara, meus amigos? Todos me abandonariam em um segundo. Meus primos, quando viessem? Nunca. Meu pai era extremamente liberal — mas e quanto a isso? Quem mais? Devia escrever para algum dos meus professores? Consultar um médico? Dizer que precisava de um psicólogo? Contar ao Oliver?

Contar ao Oliver. Não posso contar a mais ninguém, Oliver, então, sinto muito, mas vai ter que ser você…

* * *

Certa tarde, quando a casa estava totalmente vazia, fui até o quarto dele. Eu sabia que ele não estava em casa. Abri o armário e, como aquele era meu quarto quando não havia nenhum hóspede, fingi procurar alguma coisa que tinha deixado em uma das gavetas. Eu planejava vasculhar seus papéis, mas, assim que abri o armário, ali estava ele. Pendurado em um cabide, o calção de banho vermelho que ele tinha usado naquela manhã. Pendurado ali e não na varanda para secar, porque ele não tinha ido nadar com ele. Peguei o calção. Nunca tinha mexido nos pertences de alguém antes. Levei o tecido ao rosto, esfreguei o rosto dentro dele, como se tentasse me aconchegar e me perder em suas costuras. Então esse é seu cheiro quando não está coberto de protetor solar, esse é seu cheiro, esse era seu cheiro, repeti várias vezes para mim mesmo, procurando dentro do calção por algo ainda mais pessoal e depois beijando cada pedaço, quase desejando encontrar um pelo, qualquer coisa, lambê-lo, colocá-lo inteiro na boca e, se fosse capaz de roubá-lo, ficar com ele para sempre, nunca deixar que Mafalda o lavasse, pegá-lo nos meses de inverno em casa e, ao cheirá-lo, trazê-lo de volta à vida, tão nu quanto estava naquele exato momento comigo. Por impulso, tirei meu calção e comecei a vestir o dele. Eu sabia o que queria, e queria com o tipo de êxtase inebriante que faz com que as pessoas corram riscos que jamais correriam por mais álcool que tivessem no corpo. Eu queria gozar no calção dele, e deixar a prova lá para que ele encontrasse. Foi então que uma ideia louca tomou conta de mim. Desfiz sua cama, tirei o calção e me enrolei em seus lençóis, nu. Que ele me encontre aqui. Dou um jeito de lidar com a situação. Reconheci a sensação daquela cama. Minha cama. Mas o cheiro dele estava por todo lado, robusto e indulgente, como o cheiro estranho que de repente tomou meu corpo inteiro quando um velho que estava ao meu lado em um templo no Yom Kipur colocou seu tallis na minha cabeça até que eu quase desaparecesse, em união com uma nação para sempre dispersa, mas que, de tempos em tempos, se reúne novamente quando dois seres se envolvem no mesmo pedaço de pano. Coloquei seu travesseiro em meu rosto, beijei-o com brutalidade e, colocando-o entre minhas pernas, contei-lhe o que não tinha coragem de contar a mais ninguém no mundo. Então contei-lhe o que eu desejava. Levou menos de um minuto.

O segredo tinha saído do meu corpo. E daí se ele visse. E daí se ele me pegasse ali. E daí, e daí, e daí.

No caminho de volta ao meu quarto me perguntei se seria louco o suficiente de tentar fazer aquilo de novo.

Naquela noite, me peguei prestando muita atenção em onde todos da casa estavam. O desejo vergonhoso voltou antes do que eu imaginara. Não me custaria nada subir escondido.

* * *

Uma noite, enquanto lia na biblioteca do meu pai, encontrei uma história sobre um cavaleiro jovem e belo loucamente apaixonado por uma princesa. Ela também está apaixonada por ele, embora pareça não perceber totalmente, e apesar da amizade que floresce entre os dois, ou talvez por causa dessa amizade, ele fica tão envergonhado e sem palavras diante da candura intimidante da moça que se sente incapaz de falar sobre seu amor. Certo dia, ele pergunta sem rodeios:

— É melhor falar ou morrer?

Eu nunca teria coragem de fazer uma pergunta como essa.

Mas o que eu havia falado ao seu travesseiro revelava que, pelo menos por um instante, eu tinha ensaiado a verdade, revelado essa verdade ao mundo, que tinha gostado de dizer aquelas palavras e que se ele passasse no exato momento em que eu anunciava o que não ousava dizer nem a mim mesmo diante do espelho, eu não teria ligado, não teria me importado — que ele saiba, que ele veja, que ele me julgue se quiser —, só não conte para o mundo, mesmo que você seja o mundo para mim agora, mesmo que em seus olhos eu veja um mundo assustador e desdenhoso. Esse seu olhar penetrante, Oliver. Prefiro morrer a encará-lo depois de ter contado a verdade.