Metamorfoses do corpo: uma pedagogia freudiana

Sherrine Njaine Borges · Capítulo 2 de 6

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Metamorfoses do corpo: uma pedagogia freudiana

I Começo da viagem: o corpo representado

I Começo da viagem: o corpo

representado

 

"Contemplei a terra, e ei-la solidão vazia..."

(Jeremias 4,23)

Os poetas, disse Freud, sempre souberam que um dos fenômenos mais inquietantes da história do espírito humano é o esquivar-se do concreto. Possuímos uma acentuada tendência a nos lançarmos sempre ao longínquo, indo constantemente de encontro a tudo aquilo que, estando imediatamente à nossa frente, deixamos de ver. O entusiasmo dos gestos, o aventureiro e ousado das expedições a lugares distantes é ilusório quanto a seus verdadeiros motivos: não raro trata-se simplesmente de evitar aquilo que está mais próximo, porque não nos sentimos à altura dele. Pressentimos sua periculosidade e preferimos outros perigos, de consistência desconhecida. Mesmo quando com eles nos deparamos — e estão sempre presente — têm a seu favor o brilho do repentino e do único. Seria necessária muita limitação intelectual para condenar esse espírito aventureiro, ainda que muitas vezes nasça de manifesta fraqueza. Ele nos levou a uma ampliação de nosso horizonte e dela nos orgulhamos. Mas como todos sabemos, a situação da humanidade hoje é tão séria que somos constrangidos a nos voltar para o que está mais próximo, para o concreto. Esse é o sentido pelo qual retomamos Freud, pelo que nosso presente coloca para o nosso passado originário, examinando, no campo de saber por ele inaugurado, as interrogações que nosso presente nos impõe como uma exigência. E entre as dúvidas e incertezas de nossa era e de nosso campo, uma vai se tornando cada vez mais evidente e aguda: a insuficiência da concepção de corpo humano, no modelo de causa e cura vigente no discurso da educação no campo da saúde.

Nesse sentido, acompanharemos alguns percursos do nascimento da clínica psicanalítica, surgindo de um encontro concreto, empírico, de Freud com seus mestres e seus pacientes que demandam dele um questionamento do poder atribuído aos conceitos médicos perante a experiência. Mais ainda, para constituir um modo original de problematização do novo no corpo humano, como forma de chamar a atenção para o problema da pertinência dos novos territórios e para as definições de posições quanto àquilo que se interroga, esta clínica precisou se desligar do quadro teórico da racionalidade médica e de sua teoria etiológica situada na ordem da causalidade. Ao reconhecer que com seus sofrimentos o sujeito está dizendo a verdade, esta clínica constrói categorias próprias e uma metodologia, de modo a abrir um espaço para o sentido de uma verdade subjetiva que o sofrimento do paciente indica.

Desse modo, como já afirmado, a psicanálise rompe com os campos da medicina e da psiquiatria ao conceder à loucura e ao sofrimento de um sujeito o estatuto de verdade, considerando-a como portadora de um sentido, ainda que as representações dominantes não possam reconhecê-lo. Então, são elas, as representações, que têm que ser modificadas, deixando para trás o universo de subumanidade ao qual a recente tradição psiquiátrica relegava a loucura, ao considerá-la basicamente resultante de uma anomalia na estrutura do corpo, sobre a qual a palavra não possuía

qualquer poder revelador.1

A loucura será instaurada por Freud como sendo portadora de um sentido como revelando algo que demanda a possibilidade de ser dito: .. .uma analise psicológica escrupulosa destes casos mostra

que o estado emotivo como tal está sempre justificado. 2 Apesar desta afirmativa se referir à neurose obsessiva, este tipo de formulação encontra-se presente constantemente ao longo dos textos de Freud, nos quais se enfatiza que os pacientes têm razão sobre o que os atormenta mas não conseguem formular inteiramente em que se baseia sua dor. O reconhecimento dessa verdade implica não identificar estes sofrimentos e o que neles escapa às representações dominantes, como produtos de um corpo e cérebro inferiorizados na sua natureza. Significa apreendê-lo como dizendo alguma coisa, como existindo uma subjetividade como suporte e não um corpo patológico, definido numa realidade extra-subjetiva.

Assim, o reconhecimento do sentido da loucura e do sofrimento implica conferir à palavra do paciente, ao seu modo de se expressar, à sua linguagem corporal, o direito de existência e o poder de manifestação. Ou seja, mesmo se o discurso e o que experimenta em seu corpo for aparentemente absurdo, seu sofrimento mostra de modo inequívoco que sua experiência é verdadeira, expressando uma relação do sujeito consigo mesmo e enunciando acerca dela algo fundamental. O afeto, e não o discurso, revelaria imediatamente a verdade que o sujeito atribui a si mesmo.

A veracidade da experiência vivida pelo sujeito que se revela pelo afeto, por seu sofrimento e que confere outro contexto ao aparentemente absurdo, destaca como eixo da experiência o sujeito, seu corpo e não a realidade objetiva e seus referenciais. Mas a ruptura com a ordem médico-psiquiátrica não se realizou imediatamente. Freud levou anos para se afastar da neuropatologia e voltar-se para os problemas colocados pelas neuroses.

Neste contexto, o encontro com Charcot e com a histeria será o cenário em torno do qual Freud fará descobertas importantes, cultivando-as com afinco, até lhe renderem uma colheita rica e insuspeitada, a partir da qual subverterá o espaço da medicina, sua concepção do corpo e da enfermidade e descobrirá o novo mundo da psicanálise.

Assim, se Charcot será o seu ponto de partida, a sua orientação inicial, a loucura, o sofrimento e seu valor de verdade só serão radicalizados quando Freud se emancipar de Charcot. Mas, vamos devagar, procurando seguir a indicação formulada repetidas vezes ao longo dos textos do próprio Freud de não anteciparmos as

doutrinas à experiência,3 mostrando como ele nunca esqueceu a principal lição que Charcot lhe transmitiu: a obediência ousada à experiência não é a adversária, mas a fonte e a servidora da teoria.

Em outubro de 1885, Freud chegou de trem a Paris para trabalhar no laboratório de anatomia cerebral de Charcot e assistir às suas famosas aulas. Logo ficou vivamente atraído por Charcot e por seu modo de examinar os clientes. Fiquei muito impressionado com a sua maneira brilhante de diagnosticar, escreveu à sua noiva, Martha, em 21 de outubro, e com o vivo interesse que tomava por tudo, tão diferente daquilo que estamos acostumados a ver nos

nossos grandes homens com sua capa de distinta superficialidade. 4

A atração sentida é de tal ordem que, estando em Paris, limita-se, por causa dele, a visitar um só hospital e a seguir os ensinamentos

de 5 um só homem. Um homem atento à suavidade, à alegria, à perfeição formal no discurso e paciência no trabalho, criando um clima como se estivesse pensando em voz alta e à espera de críticas de seus alunos.

Vou lhe contar em detalhe o que está me afetando, escreve à Martha, em 24 de novembro:

Charcot, que é um dos maiores médicos e homem cujo bom

senso raia pelo gênio, está simplesmente virando pelos ares

meus ideais e minhas opiniões. As vezes saio das suas aulas

como de Notre-Dame, com uma idéia inteiramente nova da

perfeição. Mas ele me exaure: quando venho de um contado

com ele não tenho mais nenhum desejo de trabalhar nas

minhas coisas idiotas; há três dias não faço nenhum trabalho e

não tenho sentimentos de culpa. Meu cérebro está saturado

como depois de uma noite no teatro. Se a semente algum dia

dará algum fruto não sei, mas o que sei é que nenhum outro ser

humano jamais me afetou desta maneira6

O contato com Charcot teve assim, para Freud, a significação de uma profunda mudança e os desdobramentos interiores desta influência não podem ser subestimados. Na tradução que Freud faz para o alemão das aulas de Charcot, por ele solicitada, destaca que o núcleo do livro deste mestre inaugurará uma nova época na apreciação da histeria, neurose até então pouco conhecida e por

isso muito caluniada. 7

De fato, a posição de Charcot ultrapassava a problemática específica da histeria, para dar a volta do parafuso no debate científico da época. Ao sustentar, com sua autoridade como anátomo-patologista, que a teoria das doenças nervosas orgânicas estava, por assim dizer, acabada, volta sua atenção para a histeria, esfinge entre outras tantas que se negava a deixar ser decifrada pelas mais penetrantes investigações anatômicas daquele época. Charcot desenhava de outro modo a rota do seu percurso e influenciava decisivamente a de Freud, que acolhe estas aprendizagens e as transforma numa herança, numa terra prometida que lhe caberia conquistar.

Em 1893, ano da morte de Charcot, Freud escreve uma nota necrológica e mais uma vez evidencia-se a grande admiração que sentia por ele e por outras aprendizagens que este acontecimento imprimiu em seu corpo, em suas idéias e que ele não deixou de mantê-las educadas no viço pelo resto de sua vida e ao longo do percurso de sua obra. Nos conta como reparou nos modos como este mestre empregava seu singular talento, ao qual se referia como de visuel, um vidente: ver uma vez, ver de novo, deter-se outra vez mais num tempo para ver as coisas que não conhecia. Aprender a ver de novo era algo que dizia ser a máxima satisfação que um homem pode ter: ver algo novo, discerni-lo como novo. E repetia sempre, a quem quisesse ouvi-lo sobre o difícil e o recompensador

deste ver.8 Charcot mesmo confessava que agora via muitas coisas que durante trinta anos teve diante de si nas salas de internados,

sem que atinasse a vê-las!9

Freud evoca que a primazia da clínica no processo de elaboração teórica, que será central no seu trabalho posterior, veio-lhe de Charcot, da prioridade que este advoga à clínica ante a medicina teórica, à experiência dos fatos ante as representações dominantes da realidade objetiva.

Conta-nos que o choque dessa descoberta se deu assim:

Éramos um pequeno grupo de estrangeiros reunidos que,

educados na tradição da fisiologia acadêmica alemã, ficávamos

a importuná-lo questionando suas inovações clínicas: Mas não

pode ser, objetou um dia um de nós, isso contradiz a teoria de

Young-Helmholtz. Ele não retrucou com um "tanto pior para a

teoria, os fatos clínicos têm precedência" ou qualquer coisa

similar, mas efetivamente disse algo que nos causou uma

enorme impressão: Teoria é bom, mas não impede que as

coisas existam 10 .

Esta frase, escrevia Freud 38 anos depois, ficou gravada em mim de

maneira inesquecível.11 Como inesquecíveis também foram as qualidades pessoais de homem e de mestre, a magia que fluía de sua presença e de sua voz, a amável franqueza que singularizava o seu comportamento assim que se superava a distância inicial no trato recíproco, a prontidão com que punha tudo à disposição de

seus discípulos e a fidelidade que lhes guardava toda a vida.12 Um trabalhador infatigável em que cada uma de suas conferências, uma pequena obra de arte por sua construção e sua articulação, de tão acabada forma, era tão persuasiva que durante todo o dia não se conseguia retirar do ouvido a palavra por ele dita, nem da mente o

que havia demonstrado. 13

Durante as chamadas Leçons du Μardi, nos diz Freud:

Charcot abordava casos que desconhecia por completo, se

expunha a todas as vicissitudes de um exame, a todos os

extravios de uma primeira indagação: se despojava de sua

autoridade para confessar em diversas ocasiões que este caso

não admitia diagnóstico, que naquele o haviam enganado as

aparências e nunca se assemelhava mais a seus ouvintes após

haver assim se empenhado, com a mais exaustiva exposição

de suas linhas de pensamento, com a máximafranqueza para

admitir suas dúvidas e reparos, em reduzir o abismo entre

mestre e discípulos.14

Neste contexto, é importante recordarmos que a histeria é um ponto de ruptura para a racionalidade médica, na medida em que ao apresentar uma variedade quase infinita de sintomas corporais de grande complexidade, não permite ser reduzida à racionalidade da medicina somática, fazendo fracassar sua pretensão de articular os sintomas com lesões anatômicas específicas.

Assim a histeria introduz o corpo e seu sofrimento, o que representa um limite à redução de um só corpo anatômico fisiológico da medicina somática. Por isso, historicamente, a histeria se caracteriza como o ponto de falência do método anátomo-clínico, que marcou o advento da medicina moderna, no início do século

XIX, como um saber do individual. 15

A moderna clínica e o que ela fundamenta na educação no campo da saúde se constitui nessa racionalidade anátomo-patológica, mas a histeria e o corpo que ela introduzia e seu sofrimento foi exatamente o que colocou esta clínica em questão e todas as práticas e saberes que nela encontram sustentação.

Com a força de sua autoridade científica e de seu prestígio na medicina francesa e européia no final da segunda metade do século XIX, Charcot reconhece a importância da histeria para a medicina, ao mesmo tempo que assinala parcialmente os limites do método anátomo-patológico, demandando simultaneamente uma outra metodologia de pesquisa. Os histéricos agora são considerados doentes, merecem ser tratados, não são mentirosos e

simuladores.16

Todavia, ter vivenciado o impacto desse homem sobre ele, o risco do fascínio e ainda que o curso de seus destinos e opiniões anteriores tenha sido radicalmente mudado por este acontecimento, não impedirá Freud no seu trabalho posterior de se diferenciar progressivamente de seu mestre e de todos aqueles que se opunham ao que surgia, conformando-se em encobrir a sua falta de

experiência própria invocando uma autoridade. 17

Freud reconhece o papel de Charcot na concepção da histeria e sua outra dívida para com ele, ao dizer numa conferência em Viena, em 1893, que aquele

conseguiu demonstrar uma regularidade e uma lei onde a

observação clínica deficiente ou desatenta de outros somente

havia visto simulação ou enigmática arbitrariedade. Pode-se

dizer que a incitação dele, remonta, de maneira direta ou

indireta, a todo o novo que nos últimos tempos temos

averiguado sobre histeria (...) Porém entre os múltiplos

trabalhos de Charcot, o que eu mais estimo é aquele em que

nos ensinou a compreender as paralisias traumáticas que

aparecem na histeria18

E assinala os limites da contribuição de Charcot: Sua análise termina com isto; não averiguamos como se geram outros sintomas, nem, sobretudo, como se produzem os sintomas histéricos na histeria comum, não-traumática, anunciando assim a originalidade de sua própria contribuição, sua saída do Egito — Charcot e início de seu longo aprendizado de travessia no deserto, no seu deserto: as neuroses, a inteligência criadora da marcha dos sintomas, no sentido da terra prometida da realidade psíquica.

Se Charcot anuncia os limites do método anátomo-clínico e privilegia a hipnose como meio pelo qual a histeria vai ser investigada, é parcial sua ruptura com a ordem médica, pois segue buscando uma etiologia para a histeria, não mais numa lesão

anatomicamente localizada, mas numa hereditariedade familiar.19 Charcot, apesar de ocupar o lugar de quem abriu o reconhecimento da histeria e de sua singularidade como legítimos e necessários campos de conhecimento, se mantém no interior da racionalidade médica.

Porém, à medida que Freud volta inteiramente seus interesses para a histeria, o hipnotismo e a sugestão, começa também a se interessar pelas descobertas da escola de Nancy, onde estará em 1889, assistindo às curas de Bernheim. Em 1904, destaca o que colheu lá, formulando que o fenômeno transferenciai é o que estaria

na base do poder curativo da sugestão. 20

Assim, Freud circula entre Charcot e Bernheim, construindo as balizas do seu próprio território de investigação, buscando especificar a sua leitura dos fenômenos histéricos e seu desafio ao já sabido.

Em 1888, num artigo sobre histeria para uma enciclopédia de medicina, num momento onde Freud ainda segue muito de perto o percurso das idéias de Charcot, notam-se claros indícios de uma busca de uma atitude mais independente, ao destacar que: Os histéricos não são só doentes que devem ser levados a sério pelo médicos e tratados por eles como Charcot se empenhou, mas acrescenta Freud, ...mesmo na mais prolongada histeria se conserva a plena clareza mental e a aptidão para os mais

extraordinários êxitos. 21 Em 1893, formula algo fundamental que distinguira sua particular e original leitura da histeria, seguindo a indicação de Charcot de dirigir-se à psicologia para explicá-la:

Eu afirmo (...) que a lesão das paralisias histéricas deve ser por completo independente da anatomia do sistema nervoso, posto que a histeria se comporta cm suas paralisias e outras manifestações como se a anatomia não existisse, ou como se não tivesse notícia

alguma dela.22

A desordenação corporal da histeria, aparentemente caótica, funciona centrada num corpo representado e não no corpo anatômico, para perplexidade dos médicos. Assim, a esfinge-histeria poderia começar a ser respondida se nos deslocássemos de uma lógica da anatomia para uma lógica da representação. A histeria é ignorante da distribuição dos nervos e toma os órgãos e o corpo no sentido trivial, popular: a perna é a perna, até a inserção da cintura; o braço é a extremidade superior tal como se desenha

sob os sentidos 23 e esta concepção não se funda em nenhum conhecimento aprofundado da anatomia nervosa, senão cm nossas

percepções táteis e sobretudo visuais.24 Desse modo, os sintomas histéricos ganhariam sentido num sistema fundado na imagem do corpo... numa alteração da concepção (representação); da idéia de

braço, por exemplo,25 diz Freud, e não no corpo funcionando segundo as leis da distribuição anatômica dos órgãos e dos sistemas. Esta foi uma das conseqüências do que Freud compreendeu da tese de Charcot, de que a lesão era puramente dinâmica ou ficcional, já que os achados na autópsia não eram significativos, tornando inviável prosseguir a investigação buscando correspondências entre sintomas histéricos e lesões anatômicas.

A verdade do sofrimento do paciente histérico deve ser remetida a algo a ser decifrado no corpo, o qual não é originariamente defeituoso e, por isso mesmo, portador de anomalias, ou defeitos a serem corrigidos ou eliminados como excessos.

Este corpo representado é a primeira construção positiva que afirma a existência de uma outra ordem corporal que não a da anatomia patológica. Além disso, o sentido considerado não se regula por uma concepção de verdade que seja o contraponto da idéia de erro, num registro regulado pela oposição verdadeiro/falso, já que outra conseqüência fundamental deste corpo representado é conferir também à anatomia e à patologia uma configuração imaginária, já que é com a imagem do corpo que o histérico produz seus sintomas somáticos e sofre as suas dores, e não com a materialidade anatômica. É neste contexto que Freud pode então

formular que é 26 sobretudo de reminiscências que sofre o histérico,

conferindo ao campo da representação toda a sua materialidade legítima, com todas as conseqüências que isto terá para a constituição de um novo espaço clínico para acolher este novo corpo, para a realização da cura catártica, penetrando mais e mais na investigação da histeria: primeira porta das mães, no dizer do poeta Goethe, na qual Freud adentra. Prosseguindo, procurando desaprender o já visto, o já sabido, para vê-los outra vez à luz do ignorado, e assim por diante, numa constante e inesgotável exibição de luz e sombra das cosas. Freud, com o critério do corpo representado, procura delinear os seus contornos, estabelecendo sua oposição e seus limites ante o corpo biológico, podendo com isso afastar-se de sua concepção primeira de uma psicogênese

generalizada27 e absoluta, a qual, em verdade, se sustentava na teoria da sugestão.

A semelhança do silêncio, que nos leva a distinguir a nitidez e a riqueza de cada som, nós nos perderíamos, sem a noite, no meio de uma claridade ofuscante, pela infinitude de sua mesmice. As narrativas míticas nos lembram que, de tempos em tempos, as sombras ameaçam encobrir as superfícies onde há luz, para tudo refluir à experiência fundadora do começo e fazer brilhar, com maior intensidade do que de hábito, a fonte de que se alimenta a claridade. Assim, especificando cada vez mais seu objeto, Freud se aproxima de outras patologias que também não se inseriram inteiramente na claridade da neuropatologia, permanecendo numa noite irredutível à racionalidade anátomo-patológica. E nesse caminho se encontra com a neurastenia—doença destacada pelo norte-americano Beard, por sua importância médico-social, sua freqüência e provocada pelo esforço exigido pelo processo civilizatório —buscando distingui-la da histeria pelo duplo caráter de presença/ausência da representação na produção do sintoma e pelo tipo de economia sexual subjacente a estas produções.

Assim, situando a histeria no plano do corpo representado, Freud, pela mesma operação metodológica, não a localiza na experiência neurastênica, que é assinalada no plano do corpo biológico como uma certa disfunção da economia sexual. De fato, a leitura de Freud desloca a neurastenia de Beard do lugar onde se inseria e a articula num espaço, segundo novas coordenadas. Sua figura se remodela, sua etiologia se transforma pelo processo civilizatório, mas primariamente como o resultado de uma disfunção da economia sexual, no interior do qual o esgotamento poderia funcionar eventualmente como causa precipitante. Este espaço remanejado, além de produzir a nova figura da neurastenia, produziria também a neurose de angústia, situada também no plano do corpo biológico, definindo-se por uma outra forma particular de disfunção sexual. Assim, enquanto na neurastenia haveria um excesso de perda da energia sexual somática, produzindo conseqüentemente o esvaziamento do sujeito, na neurose de angústia haveria ou uma contenção excessiva da excitação sexual somática ou a impossibilidade de incorporá-la no nível psíquico, permanecendo então no nível somático e levando assim à produção de sintomas

somáticos pela impossibilidade de descarga. 28 Enfim, a oposição corpo representado/corpo biológico permite delinear dois grupos de neuroses — as psiconeuroses e as neuroses atuais — em que a histeria e a neurose obsessiva estariam entre as primeiras, enquanto a neurastenia e a neurose de angústia pertenceriam ao

segundo grupo. 29

Neste momento, cabe ressaltar que o corpo representado é sexualizado e o seu investimento sexual não é o mesmo que estaria presente no corpo biológico. E esta circulação da sexualidade no campo da representação que estaria em questão na produção dos sintomas das psiconeuroses, as quais seriam passíveis de uma psicanálise, justamente porque teriam mecanismos psíquicos. Nas neuroses atuais a excitação sexual provocada no corpo biológico não teria acedido ao corpo representado, não circulando num quadro de representações. O seu mecanismo é somático, não existindo elaboração mental da excitação.

Esta oposição entre as neuroses atuais e as psiconeuroses, sustentada pela ruptura entre o corpo biológico e o corpo representado, mostra também como o critério da representação funciona para estabelecer os limites do campo psicanalítico nas suas fronteiras com o campo médico-psiquiátrico. Apenas o sintoma que se situa no plano da representação seria passível de ser examinado e curado pela psicanálise, já que esta realizaria uma análise das representações mentais, das forças nelas investidas, dos mecanismos psíquicos e sua dinâmica na produção dos sintomas. Para Freud não se trata jamais de se ocupar do corpo anátomo-patológico, marcando assim a sua ruptura com a ordem médica, ruptura pela qual este é superado para se encontrar com o corpo biológico que se insere numa problemática original, isto é, nas suas relações com o corpo representado. Por isso mesmo, a função sexual é o que o interessa especificamente nesta relação e não a totalidade das funções biológicas. Desde o início, o que se busca investigar precisamente é a passagem sexual no plano funcional

para o plano representado, 30 de modo a fazer emergir o especificamente humano.

Aprender a ver, escutar, cheirar, saborear, tatear as coisas: eis aí um caminho recorrente em Freud, desde Charcot.

Psicanálise fundando-se desde estes começos como uma arte singular da aprendizagem da educação dos sentidos, ou de como voltar ao despudor da primeira infância de querer tudo descobrir, tudo ouvir.

Assim, a descoberta de uma nova realidade — o corpo representado — e a criação de uma nova geografia do saber — a psicanálise — resultam de uma singular aprendizagem pessoal de Freud, posta em ação pelo acontecimento Charcot. Freud foi, ademais, aventureiro o suficiente para seguir adiante:

Pois a verdade é que não sou, de modo algum, um homem de

ciência, nem um observador, nem um experimentador, nem um

pensador. Sou, por temperamento, nada além de um

conquistador — um aventureiro, se você quiser que eu traduza

— com toda a curiosidade, ousadia e tenacidade que são

características de um homem dessa espécie31

— auto-avalia-se numa carta escrita no início de 1900.

Um acontecimento, no sentido técnico do termo, é o produto

simultaneamente improvável e lógico de um encontro. 32 Um acontecimento não se prevê, nem se planeja, mas embaralha as categorias mais bem estabelecidas e distribui novas cartas, novas posições, instaura novos possíveis. Um verdadeiro encontro é sempre um acontecimento: cria uma relação de proximidade inesperada, que confere às palavras, aos atos, aos saberes de cada um ressonâncias que ele mesmo não domina, e o leva a aprender, a explorar um novo mundo, abrindo aos que embarcam nesta viagem horizontes e prolongamentos imprevistos.

Uma lanterna move-se na noite escura. Que às vezes nos apraz

olhar. Quem anda ali? — medito. De onde, para onde o manda.

Dentro da escuridão essa luz insegura? 33

(Gerard Μ. Hopkins, Lanterna Externa)

Conforme assinalam diversos comentadores da obra de Freud, no momento em que ele elabora os Estudos sobre a Histeria, ela ainda não possui o conceito de inconsciente sistemático, mas o conceito de um conflito mental fundamental. Esta genial intuição de Freud já está presente e dela nunca abrirá mão.

Suas experiências com a hipnose já haviam lhe ensinado que o impacto de alguém sobre um outro não é ilimitado,

que a sufocação da autonomia (...) pela sugestão nunca é

senão parcial,34que é raro que este impacto se produza sem

resistência do hipnotizado. Este não é um mero automata:

muitas vezes se defende bastante da sugestão e desde sua

atividade própria cria umas "auto-sugestões"... a rigor, cancela

a sugestão.35

Do lado de quem pretende hipnotizar há exigências e não é tão fácil cumpri-las:

É preciso possuir entusiasmo, paciência, grande segurança e

riqueza de artifícios e ocorrências. Quem pretenda hipnotizar

seguindo um esquema dado, quem teme a desconfiança ou o

riso de seu paciente, quem começa com um estado de ânimo

vacilante, pouco conseguirá.36

No entanto, Freud insiste que ainda que estas condições exigidas fossem preenchidas por alguém, buscando um impacto sobre um outro, o que ele chamou a melhor hipnose, ainda assim a sugestão não exerceria um poder ilimitado, só um poder de certa intensidade. Há algo no interior do sujeito, com o qual o poder da sugestão se mede: O poder da sugestão se mede, em verdade, com a força que criou e mantém os fenômenos patológicos; porém a experiência mostra que esta última é de uma ordem de magnitude por inteiro

diversa daquela à qual pertence a sugestão hipnótica. 37

Assim, vejamos. Em 1894, o conceito de defesa surge articulado à delimitação do campo das psiconeuroses. Freud assinala que estas não só se originam de um conflito situado no plano da representação, como também que a defesa é o que impede a emergência da representação dolorosa/prazeirosa. A defesa seria um mecanismo ativo marcando os movimentos heterogêneos de um psiquismo que se protege de incorporar e de reconhecer uma certa

experiência mental. 38 Portanto, a noção de defesa supõe a existência de um sujeito fundamentalmente dividido, que não é unitário e coeso em torno de uma consciência.

O conceito de eu se constitui como sendo o de uma massa de representações que exclui para o seu exterior tudo aquilo que não é

compatível com a lógica do seu campo representativo.39 Nessa perspectiva, incorre-se num evidente propósito de normalização social quando se atribui a alguém a condição de doente mental, utilizando-se uma concepção de verdade sustentada no eixo definido pela oposição verdade/erro. Neste caso, a experiência da loucura, identificada como sendo da ordem da doença mental, é definida pela ruptura com um sistema de regras que circunscreve a identidade social do indivíduo. E no entanto evidente que o discurso normalizador é correlato, no plano social, do discurso do eu, isto é, das imagens unificantes do sujeito sobre a sua identidade social. Essa divisão do psíquico é sustentada num conflito mental. Uma dissociação se constituiria no sujeito em função de um processo conflitivo, em que o eu não aceitaria incorporar em si mesmo algo que contraria a lógica de suas representações. Por isso mesmo, Freud critica as formulações de Janet, que supõe que esta clivagem constatada na histeria seria baseada numa incapacidade primária

de síntese psíquica. 40 Na história de Emmy, tratada por ele em 1889, observa não ter encontrado nada equivalente a um rendimento inferior, além de ter nela notado vastos e vivos interesses e uma formação e inteligência nada comun; durante o período de seus estados mais graves foi e permaneceu capaz de cuidar de seus interesses na direção de uma grande empresa industrial, não perdendo de vista a educação de suas filhas e mantendo correspondência com pessoas de alto nível intelectual. Chamar de degenerada a uma mulher assim equivaleria a desfigurar

o significado desta palavra até fazê-lo irreconhecível. 41 A ideologia da degeneração ocupava um lugar destacado no campo médico-psiquiátrico no final do século XIX, como a formulação mais avançada do conceito de hereditariedade. A ela se atribuía a explicação da loucura como enfermidade mental, quando não se conseguia reduzi-la ao modelo anátomo-clínico.

Na medida em que a loucura passou a ser considerada como uma forma especial de enfermidade, o sujeito perdeu o lugar de suporte fundamental dessa experiência. Nesse percurso, a loucura foi des-

subjetivada. 42 O excesso no falar, no agir, no sentir seria o que adoeceria, correspondendo a uma ausência, portanto, efetiva de algo, de subjetividade, pois, se esta existisse, a existência das medidas da realidade se daria. A natureza do Mal consistiria como um excesso que carece de um reconhecimento da realidade, de um interno que se volta contra o externo.

Evidentemente, esse silenciamento do lugar do sujeito na experiência da loucura não é produzido apenas pelo discurso psiquiátrico, que se constitui e se desenvolve para responder a uma demanda sóciohistórica mais abrangente, na passagem do século

XVIII para o XIX.43 De qualquer forma, o discurso médico, ao lançar a figura da enfermidade mental sobre a loucura, encobre a retirada do lugar do sujeito dessa experiência, passando o louco a ser marcado por uma minoridade essencial, que o desqualifica e o caracteriza negativamente em toda a sua existência psicológica, social e ética.

A subtração do sujeito, o silêncio imposto sobre sua experiência da loucura e a organização no espaço social para sustentar sua suposta minoridade se condensam na prática da exclusão asilar e na interdição de circular na vida social. A alienação do lugar do sujeito na loucura formulou-se pelo discurso psiquiátrico de dois modos que, embora diferentes, não são excludentes, sendo até complementares. Pode-se pensar que esta insuficiência suposta existe basicamente no corpo biológico e tem efeitos secundários na organização moral. Ou, ao contrário, que ela é basicamente moral e nada afeta a organização somática. De qualquer modo, admitia-se que um defeito fundamental do sujeito produziria a perda da razão e explicaria seu fracasso em aprender a reconhecer a existência da "realidade".

Tendo perdido a posse de si mesmo e sendo considerado incapaz de deter qualquer saber de verdade sobre o que experimenta, o sujeito deve ser agora curado por um outro que, detendo o saber sobre a enfermidade mental, estaria apto a restaurar a normalidade. Surge o alienista, o que detém a ciência que pode definir a verdade da loucura e convertê-la à normalidade moral, portanto social.

Transformada em doença mental, subtraindo do sujeito qualquer valor de verdade sobre sua própria experiência, a loucura não apenas recebe uma redução explicativa, mas passa também a ter fora de si o eixo fundamental de sustentação de sua verdade. O saber explicativo torna-se a via que sustenta o ato terapêutico sobre a loucura, despossuída de qualquer verdade. Por este caminho, o louco recebe uma verdade que o discurso psiquiátrico se arroga o direito de possuir e impor.

A oposição entre sentido e explicação deve ser aqui particularmente considerada, não só pela movimentação que Freud fará por ela, e que veremos mais adiante, mas também por ser um divisor de águas quanto ao que estamos chamando pedagogia freudiana. Neste contexto, os dois conceitos correspondem a diferentes formulações da problemática da verdade: inclusão/exclusão do sujeito da experiência como referencial fundamental da verdade e consideração da adequação/inadequação da verdade do sujeito a

um objeto situado fora dele.44

Ao considerar a loucura como enfermidade mental e silenciar sobre o lugar do sujeito nessa experiência, o discurso médico-psiquiátrico constituído no século XIX dela retira qualquer sentido que lhe seja próprio, destituindo o louco de qualquer saber e de qualquer verdade, fazendo-o perder sua dimensão simbólica e inserindo-o na seleção e categorização dos objetos científico-naturais.

Como poderia ser diferente para a educação no campo da saúde, uma das herdeiras do discurso médico-psiquiátrico, enquanto estratégia da normalização social? Não poderia, pois afinal a verdade é formulada no que o espaço social avalia como adequação/inadequação do discurso da loucura, da desrazão. O sujeito, como vimos, não é a referência fundamental de sua própria experiência, seja ela qual fôr, já que o referencial da verdade é algo localizado fora do sujeito, como normas de avaliação com as quais é medido, comparado e julgado quanto à sua maior ou menor adequação às mesmas.

Em tal discurso explicativo da relação intersubjetiva, a relação terapêutica reduz-se a uma relação pedagógica de domesticação, que se formula numa relação de exterioridade do sujeito e de suas experiências reais da loucura, do que nele não anda bem.

Assim, para instalar definitivamente a loucura no espaço da representação, Freud tem necessariamente que romper com o conceito de degeneração. Com a constituição da noção de defesa, que fornece o estatuto de autonomia para o campo psíquico, aumenta sua ruptura com a racionalidade médica, já que tinha sido deslocado para o campo da degeneração tudo aquilo que não se reduzia ao campo anátomo-clínico.

Com efeito, o conceito de degeneração sancionava a continuidade do processo de medicalização social que se expande enormemente na segunda metade do século XIX, multiplicando em muito o poder

social da medicina, 45 que se apresentava como sendo um projeto de higiene e moralização da civilização. As marcas de uma herança constitucional, supostamente degenerada, seriam responsáveis por uma incompetência das individualidades que não respondiam adequadamente às exigências a elas feitas pelo processo civilizatório.

Cabe aqui mencionar que a reformulação acerca da enfermidade que vai sendo progressivamente concebida como doença do

corpo 46 — assim se dissipando sua referência ao dano físico — é um processo longo e complexo do qual assinalaremos apenas os aspectos que mais importam aqui reconhecer. Caracterizado basicamente pela anatomização da enfermidade, este processo incorpora progressivamente a identificação da localização da enfermidade na estrutura anatômica do corpo e a formulação da noção de irradiação da enfermidade a partir de um foco primitivo. Assim sendo, os procedimentos da prática clínica são progressivamente transformados em observação interventiva e já não significam uma decifração, mas um exame; o método de conhecimento não se pauta na observação de sucessivos eventos temporais, ou em seus registros esporádicos e isolados no acompanhamento individual dos casos, mas na simultaneidade dos eventos, na sincronia do conjunto de sinais físicos e do conjunto de sintomas, e no estudo individual/comparativo dos casos. Decorre daí uma aproximação dos casos que os considera, exclusivamente, enquanto indivíduos biológicos, e uma aproximação de suas situações vitais reduzidas apenas aos processos biológicos nelas presentes. Tais características possibilitam um conhecimento do coletivo que se dá através destas específicas constatações individuais, nas quais o modo de aproximação do objeto do conhecimento faz com que a conceituação do normal e do patológico seja reduzida à manutenção ou alteração das regularidades estruturais e funcionais do corpo, este mesmo reduzido apenas a uma estrutura anátomo-fisiológica. Por essa razão, o conhecimento do coletivo, assim produzido, apresenta-se sob a forma de generalizações técnicas e científicas iguais para o conjunto dos corpos.

Nesta medida, as concepções de saúde e enfermidade são elaboradas como concepções gerais, fundadas não apenas a partir dos casos individuais, mas na individualidade essencial dos fenômenos que intervêm em suas situações biológicas, com o que são apresentadas como concepções neutras e iguais para o conjunto dos indivíduos. O conjunto dos corpos é tido como socialmente homogêneo e composto de individualidades apenas tecnicamente distintas. Nisto qualificam a prática e o saber médico como prática e saber capazes de responder à totalidade das determinações de seu objeto, o corpo.

O reconhecimento e a restauração do lugar singular do sujeito e sua experiência da loucura como sentido, realizados por Freud, implicam conferir à sua palavra o direito de existência e o poder de manifestação. Não é por acaso, certamente, que todo o empreendimento psicanalítico será centrado no ato de falar, no convite a poder tudo dizer e nos obstáculos (hoje em dia, cada vez mais crescentes) encontrados pelo analisando no exercício desta experiência que toma a si próprio como temática e fonte de aprendizagem da sua verdade. Instalando a loucura no plano da história de cada subjetividade, dando-lhe um espaço para falar, Freud recupera-nos a experiência singular de um sujeito e seu corpo, seu estatuto de verdade, que foi apagado pela tradição médicopsiquiátrica do século XIX até nossos dias.

Com o conceito de defesa, Freud consolida assim definitivamente o campo da representação no psíquico como algo universal e não particular a certas patologias. As psiconeuroses seriam defesas diversificadas, face a experiências mentais dolorosas e prazeirosas que não podem ser recordadas. A ruptura com a racionalidade médica não se limita à ruptura com o corpo anátomo-patológico e com o corpo biológico que, enquanto tal, se situaria na extremidade do campo psicanalítico, mas também com a clínica médica, que se realiza na tradição de Charcot.

Um dos efeitos mais fundamentais neste remanejamento teórico será a recolocação em outros termos da oposição entre o normal e o patológico. A diferença não é mais de essência, ou de natureza, mas de graus. A patologia e a normalidade aparecem como reguladas pelos mesmos princípios que as ordenam, o mesmo psiquismo fundamentalmente cindido que usa para a sua manutenção os mesmos mecanismos mentais. Nesta nova clínica, que Freud constrói a partir da desconstrução da racionalidade médico-psiquiátrica, não se pretende corrigir anomalias e subtrair sintomas como formações parasitárias, mas, fundamentalmente, restituir à loucura, à experiência singular de um sujeito e seu corpo, um espaço de verdade ao que não é razoável, ao que é sem sentido, até ser possível encontrar o seu próprio sentido.

A clínica médico-psiquiátrica é de início estabelecida tão somente como prática demonstrativa do saber já constituído e predominante (a medicina das espécies), o que permite identificá-la como, sobretudo, uma prática pedagógica de uma leitura que constata o já visto:

A clínica não é um instrumento para descobrir uma verdade

ainda desconhecida; é uma determinada maneira de dispor a

verdade já adquirida e de apresentá-la para que ela se desvele

sistematicamente (...) o olhar que percorre um corpo que sofre

só atinge a verdade que ele procura passando pelo dogmático

do nome (...) Não é, portanto, o próprio olhar que tem poder de

análise e síntese; mas a verdade de um saber discursivo que

vem se acrescentando de fora e como uma recompensa ao

olhar vigilante do estudante.47

Nesta clínica do olhar, o escutar, se utilizado, o é secundariamente; é uma clínica de tipos ideais de enfermidades, estudando-se empiricamente suas variações clínicas diante de cada situação concreta. Charcot foi um dos mestres mais brilhantes desta clínica, ainda que Freud nos observe a coragem e a curiosidade deste

mestre em aprender o que desconhecia em muitas situações. 48

Abrindo espaço para tudo aquilo que ainda não adquiriu sentido na experiência singular do sujeito e que ainda não tem palavra que diga a sua verdade, Freud inverte radicalmente o desenho presente na clínica médica. Caberia agora falar/escutar a verdade que se revela através do não-dito, do que é falado e simultaneamente silenciado através de outros sinais. Interpretar aqui significa não apenas traduzir o que está inscrito num sistema de representações, mas também buscar o que não é falado mas dito por outros sinais, dando-lhe uma palavra, até para que se realize a tradução. A suposição de que existe a inscrição está sempre presente.

Posteriormente esta clínica vai sofrer uma grande modificação com a constituição do conceito de transferência e com a sua inserção na cura analítica. O fracasso da análise de Dora colocará para Freud a amplitude e o lugar estratégico da transferência.

Por hora, vejamos, nesses tempos da constituição do campo psicanalítico e de começo da viagem freudiana, o que foi se delineando nas experiências de Freud com suas pacientes e o que com elas foi aprendendo a desaprender em si, para aprender algo inesperado, ignorado e que tornou possível desenhar uma clínica e uma teoria dessa clínica que se concebe permanentemente em aberto.

Freud, desde estes começos, já procura evitar que todo o acento de sua investigação seja redutível às pressões da realidade objetiva sobre o indivíduo e à reação deste frente a ela. No entanto, ainda predomina um modo de ver onde o interior surge basicamente enquanto forças defensivas frente às forças exteriores, e onde a experiência vivenciada da clínica ainda é de um ato externo que deve se sobreacrescentar ao objeto da investigação.

Na correspondência com Fliess, Freud se refere ao que consistia sua ocupação, ao dizer que era visitar e conversar com pessoas

para convencê-las e demovê-las de coisas.49 A idéia com que se orienta neste momento parece ser que adoecer é não saber o que se tem que saber, fazer o que não se deve fazer. Certamente poderíamos evocar nesta descrição de Freud de sua ocupação, a presença das crenças iluministas de clarear as idéias e de seu otimismo pedagógico, onde não há sonhos de profundidade, como não há multiplicidade de sentidos para as produções humanas e nem há rumores a se ouvir: tudo deve se dar visivelmente, transparentemente.

Essa representação, ao tomar o saber como assemelhado a uma substância e, como tal, destacável de um e aplicável ao outro, implicava uma relação de forças unilateral que imprimia uma idéia-substância estranha no cérebro do aprendiz, do paciente. Essa representação abstraía aquilo que levará o paciente, o aprendiz, a

obedecer ou, ao contrário, a resistir às ordens, a aprender. 50

Nos dias atuais podemos dizer que uma parte importante da nossa tradição do trabalho de curar e aprender se inscreve nessa representação, onde o critério de verdade é a adequação dos sujeitos aos referenciais extra-subjetivos e à normalização esperada socialmente, apagando o sentido para o sujeito do que ele experiência.

Evidentemente, esta não é a única possibilidade de existência de um discurso explicativo sobre a experiência de sofrimento e de enlouquecimento diante do que se ignora em si mesmo. Com tal discurso, Freud inverterá suas bases, ao se colocar no lugar do paciente e não apenas do terapeuta, identificando-se com a figura

do doente. 51 Isto implicou para o próprio sujeito Freud uma assunção vivida da sua própria loucura, da sua subjetividade e condição de mortal. Nas cartas a Fliess, testemunhamos o nascimento da psicanálise se dando também através de Freud considerando a si mesmo como seu próprio paciente e se qualificando como histérico, em virtude de sua admiração por Charcot, como bem notou O. Mannoni. A retirada da figura do médico do lugar absoluto da verdade e do saber passa a ser possível também ao se enfatizar o lugar da sua subjetividade.

Com essas vivências Freud construiu a experiência analítica originária marcada em suas coordenadas básicas pelos eixos da transferência e da resistência.

De fato, várias vezes num texto de 1892-93, em que conta o que havia aprendido ao examinar uma mãe incapaz de amamentar seus filhos, evidencia-se a originalidade da orientação freudiana: o

cuidado com aquilo que uma técnica implica e pressupõe.52 Inclui no exame a qualidade e o clima da relação de confiança e receptividade entre ele e a paciente e percebe que... não me recebeu como alguém que poderia tirá-la do apuro, senão que, manifestamente, me aceitava de má vontade: eu não contava com

grande confiança de sua parte. 53 E ainda que tenha conseguido, ao hipnotizá-la duas vezes, ajudá-la a fazer ceder sua repugnância por alimentar-se e alimentar os filhos ao peito, achou incompreensível e incômodo que nunca se falara entre nós daquele assombroso

êxito.54

Um ano depois, com a chegada de um terceiro filho, de novo a paciente se vê incapaz de amamentar, voltando sua anterior repugnância a si e ao filho. Freud encontra a paciente irritada por não poder eliminar seus sintomas com sua vontade. Numa primeira hipnose, nada se consegue, além da paciente perder mais esperanças. Numa segunda hipnose, o êxito é total e a paciente pode amamentar seu filho e ter bem-estar. E Freud então repara que só com esta repetição do êxito o casal lhe diz os motivos que haviam guiado a conduta da paciente para com ele... vergonha—me disse a senhora—que algo como a hipnose obtivesse resultados onde eu, com toda força de minha vontade, descobri-me impotente?

55

Porém, diz ele não ter acreditado que a aversão da paciente e do marido pela hipnose tenha sido vencida. E, ao explicar nas páginas seguintes o mecanismo psíquico desta perturbação que a hipnose eliminou, é importante para o que nos interessa neste trabalho, a suspeita de Freud de que seja... provável que o ocorrido com minha paciente seja paradigmático e esclarecedor para uma grande série de outros casos em que a amamentação ou ações semelhantes são

obstaculizadas por estímulos nervosos.56

Claramente vemos como Freud descreveu a sugestão no sentido de que a utilização de um instrumento implica aquele que o utiliza, situa-o em relação àquilo sobre o que ele age. Interessava-lhe não a sugestão ou a hipnose em si, mas aprender em que medida seus efeitos faziam dela um instrumento terapêutico eficaz.

Foi também porque não utilizava a hipnose como puro meio de ação, cego para as razões de sua eficácia ou não, mas sim como um instrumento de investigação que implica aquele que o utiliza, que Freud percebeu que ainda que tenha sido... mais enérgico e

reassegurador 57 numa segunda vez que hipnotizou a paciente, a onipotência que a sugestão parecia conferir ao hipnotizador era meramente ilusória.

A intuição de algo, de uma força desde o interior do sujeito agindo e que não é necessariamente patológica, vai se afirmando cada vez mais.

Embora a descoberta da realidade psíquica, tal como formulada em A Interpretação dos Sonhos, seja significativa como momento no percurso freudiano, a ponto de fundar um novo objeto e um novo saber, ela possui uma gênese constituída de passos sucessivos, alguns dos quais podem ser encontrados já nos Estudos sobre a

Histeria.58 O mesmo diríamos quanto à escuta freudiana não só buscando interiorizar o que parecia primeiro vir de fora do sujeito, introduzindo-se nele e agindo como corpo estranho, que por isso precisava ser expulso, mas na sua atenção pormenorizada aos efeitos de suas sugestões pedagógicas. Do seu encontro com o que suas pacientes lhe ensinavam desses efeitos e lhe indicavam de mudança de curso, no trato com elas e na transposição dessas experiências para a teoria, Freud pôde ultrapassar as fronteiras instituídas, transgredir a organização do espaço terapêutico segundo os cânones do modelo médico-psiquiátrico e abrir a possibilidade de constituição de um espaço intersubjetivo, onde a loucura se torna obra do sentido, algo que diz à sua maneira uma verdade que não pode ser pronunciada de uma outra forma e onde aquele que a diz nem mesmo sabe que esta verdade é dita, na materialidade dos gestos, dos sintomas, dos delírios e na descontinuidade da consciência.

Nesta perspectiva, sublinhemos como Freud precisava dos sinais de seus analisandos no momento inaugural da constituição da psicanálise, não apenas para possibilitar a continuidade de seu processo analítico, mas também como garantia epistemológica de universalidade na constituição do discurso teórico da psicanálise, de modo a que este discurso não privilegiasse uma experiência singular. Tratava-se, para Freud, de destronar a miragem da racionalidade médico-pedagógica que afirma a existência de um centro absoluto de verdade, em que alguém soberano enuncia sobre um outro, suposto nada saber e nenhuma verdade formular sobre si mesmo.

Dispersos em dispersas capitais, solitários e numerosos,

brincávamos de ser o primeiro Adão que deu nome às coisas. Pelos

vastos declives da noite que limitam com a aurora, buscamos (lembro ainda) as palavras da lua, da morte, da manhã, e dos

demais hábitos do homem.

(Jorge Luiz Borges, Invocação a Joyce)

Na redação da história clínica de Anna O. (1880), feita por Breuer e relatada a Freud, antes de ir para Paris, há uma observação sobre a paciente que poderia ter sido escrita por Freud... cm algum lugar de seu cérebro tinha seu assento um observador agudo e calmo que contemplava os loucos desvarios, inclusive de seus piores estados...

persistência de um pensar claro durante o reinado da psicose. 59 .. O trecho faz-nos perceber que desde muito cedo Freud investigava os limites às sugestões pedagógicas de que fazia uso, que consistiam em impor, ou aceitar incondicionalmente, uma influência psíquica estranha, na qual a desconexão do espírito crítico era a condição

sine qua non 60 para que fossem bem-sucedidas.

O relato que proporá, por sua vez, sobre a primeira paciente tratada por ele seguindo o método catártico, Mme. Emmy (1889), nos faz saber que numa das vezes que hipnotiza a paciente se convence de que ela sabe tudo o que ocorreu na anterior, enquanto que na vigília

nada sabe disso, 61

e de que suas sugestões pedagógicas a ela, visando esvaziar o excesso e desmesura de reações afetivas muito intensas ou imotivadas, segundo os procedimentos educativos clássicos, fracassam ou são inócuas. Cita como exemplo ter dito, após hipnotizá-la, para aceitar um novo médico que vinha tratar de uma de suas filhas, ...que não se deve temer ao novo, pois também pode

trazer coisas boas.62

De fato, no mesmo dia em que lhe diz a frase acima, nota que a paciente demonstra com violência e irritação sua revolta, com sua forma de perguntar-lhe o tempo todo, interromper seus relatos e dirigi-los. E ela exterioriza o pedido de ser despertada da hipnose, o qual ele aceita. No dia seguinte, a paciente, de quem Freud diz ter

provas que vigiava seu trabalho em sua consciência hipnótica, 63 lhe diz, com expressão de insatisfação, que não devo estar lhe perguntando sempre de onde vem isto e aquilo, senão deixá-la

contar o que tem para me dizer. 64 Freud aceitará este protesto e se deixará levar pela paciente, perfeitamente desperta, por caminhos inexplorados, por desvios que irão conduzi-lo ao cerne da organização patogênica, às cenas que pudessem ter tido sobre o sujeito um impacto traumatizante, segundo os princípios do método catártico. Dois dias depois, à tarde, Freud relata-nos que havia reparado nesses dias o quanto a paciente era severa consigo mesma, sua prontidão para se fazer graves reprovações por ínfimas

negligências, 65 revelando-se alguém hipersensível no ótico,

sofrendo da inclinação a apequenar-se. 66 Pedagogia estranha essa, pela qual Freud tenta outra vez fazer uma sugestão pedagógica de que

entre o bom e o mau existe um grupo muito vasto de coisas

indiferentes, pequenas, pelas quais ninguém deve reprovar-se.67 Mas dessa vez ele diz crer que a paciente não admite esses ensinamentos mais que o faria um monge ascético da Idade Média, o qual via o dedo de Deus e a Tentação do Diabo na vivência mais

ínfima que tivesse... 68 e tentará dessa situação fazer um aprendizado de seus próprios conceitos e de seu método terapêutico.

Investigando os efeitos da sugestão e cuidando do que o uso de uma técnica implica e pressupõe, Freud vai, cada vez mais, tendo evidências clínicas de que a hipnose, o método catártico, não era e não podia pressupor aplicação a um sujeito passivo, submetido a uma autoridade arbitrária e a verdades universais.

Emmy havia lhe ensinado e ele fez esse aprendizado com ela: de que o paciente deve estar perfeitamente desperto para poder manifestar abertamente sua resistência intelectual e afetiva, cuja presença não desparece sob hipnose; que ainda que os meios da sugestão não sejam a autoridade, a intimidação, mas uma atitude benevolente e calorosa, ainda assim, essa influência é apenas provisória e dura tão somente o tempo em que perdura a autoridade do sugestionador, ou a confiança nele depositada.

A exigência epistemológica de manter em aberto a categoria do sentido, da verdade emergente da experiência do sujeito na análise, implica necessariamente que esta abertura esteja também presente em relação ao analista. Sem ela, estamos lançados inteiramente num discurso pedagógico normalizador de tipo psiquiátrico sobre a

normalidade e a anormalidade psíquica. 69

A psicanálise se constitui afastando-se do modelo psiquiátrico e da normalização pedagógica. No espaço analítico, o lugar do terapeuta é relativizado e a verdade perde qualquer fixidez, estabelecendo-se como essencialmente circulante, movimentando-se entre as duas figuras da relação intersubjetiva. Neste espaço um discurso explicativo se constrói e se transforma conforme as interrogações colocadas pela relação intersubjetiva. As transformações teóricas que se realizam ao longo do percurso de Freud, com as novas configurações do seu pensamento, como com o corpo, podem ser consideradas como um exemplo instigante dessa particularidade epistemológica do saber psicanalítico. Em função dessa problemática fundamental, Freud pôde postular que se, e somente se, o analista adota uma postura não preconcebida, o processo analítico pode fornecer ensinamentos para o desenvolvimento da teoria. Assim, quanto menos identificado estiver o analista com o saber constituído em teoria explicativa, tanto mais aberto ele estará à escuta do sentido singular que se articula na relação intersubjetiva. O discurso teórico pode se desenvolver em novas direções, e mesmo se retificar, através das novas articulações possibilitadas. No entanto, para isso, é necessário que o funcionamento da economia psíquica do analista esteja permanentemente aberto à experiência do inesperado.

Vejamos como Freud destaca a relevância desta questão, num momento em que o essencial do ponto de vista da cura catártica é, além de não tentar influenciar o paciente, pretender fazê-lo encontrar o que está em si mesmo. Procurando tornar possível que um relato na hipnose seja completo para ter efeito curativo, Freud, ainda centrado na alternativa saber ou não saber e na cura

marcando a passagem de um estado ao outro,70 quer obter um tipo

de intelecção sobre a marcha de uma histeria, 71 como nos conta na análise de Elizabeth Von R. (1892).

Segundo Freud, Elizabeth ama seu cunhado e não chega a tempo de encontrar com vida a irmã invejada, por ser casada com o homem amado. Pelos princípios do método catártico, no momento de conscientização do que a teria traumatizado psiquicamente, seus sintomas se liberariam, abrindo uma via para a expressão do afeto e reconhecimento da representação não consciente. Cabe lembrar que, nesse momento, as representações não conscientes constatadas na clínica são explicadas através de um processo pelo qual a ação defensiva do eu provoca a separação entre representações intoleráveis e os afetos que lhes correspondem. A representação permanece então como um grupo psíquico separado, corpo estranho dotado de eficácia, do qual o doente nada sabe, como era, segundo Freud, para Elizabeth, o amor por seu cunhado:

estava presente em sua consciência ao modo de um corpo

estranho em vinculações com o resto de seu representar. Havia

preexistido esse singular estado de saber e ao mesmo tempo

não saber com relação a essa inclinação, o estado do grupo

psíquico separado.72

Só que no momento em que Freud convida-a a reconhecer seus sentimentos pelo cunhado e a idéia de que ela poderia se casar estando ele livre, sobreveio um sofrimento insuportável: o efeito da readmissão daquela representação reprimida foi desconsolador para

a pobre criatura.73

O próprio Freud, após ter estado inteiramente convencido da confiabilidade de sua técnica, onde ele obedecia ora às oscilações espontâneas de seu estado, ora à minha opinião sobre onde acreditava que se achava um fragmento ainda não esgotado de sua

história de padecimento, 74 valendo-se do método de convocar mediante pressão sobre a cabeça imagens e ocorrências, vale dizer, um método inaplicável sem plena colaboração e atenção voluntária

da enferma, 75 não aceitando quando a paciente dizia que não lhe ocorria nada e insistindo com ela, que sabia com certeza que algo lhe havia ocorrido, ela o mantinha em segredo, porém nunca se

livraria de suas dores enquanto mantivesse algo em segredo76 e tendo experimentado satisfação pessoal, quando formula a hipótese de quais pensamentos haviam ocorrido no interior de Elizabeth no quarto da irmã morta, o segredo, sente-se trazendo luz para as trevas, profissão de fé iluminista —Assim tudo ficou claro. O

empenho do analista era recompensado abundantemente. 77 . . se vê então diante de algo inesperado, imprevisto e seu tom revela surpresa e uma busca, imposta pelos sofrimentos de Elizabeth, diante da revelação de estar apaixonada pelo seu cunhado, de

empreender mais de um caminho para procurar alívio à enferma. 78 Diz Freud:

...para o terapeuta sobreveio primeiro um período

desagradável. O efeito da readmissão daquela representação

reprimida foi desconsolador para a pobre criatura. Quando lhe

resumi com concisas palavras, mostrando-lhe que há muito

tempo está apaixonada por seu cunhado — se pôs a proferir

"ais"de queixa. Nesse instante se queixou de dores

crudelíssimas efez ainda um esforço desesperado para rejeitar

minhas explicações: que isso não é certo, que eu havia lhe

sugerido, que não pode ser, que ela não é capaz de semelhante

perversidade. E tampouco se perdoaria por tal.79

Este fracasso levará Freud a acolher aprendizagens que operarão uma mudança de rumo decisiva quanto ao seu método. Por que foi diferente com Elizabeth? Por que a ruína catastrófica em lugar da

iluminação milagrosa?80 Para tentar compreender a reação de Elizabeth, o motivo dessa dissociação, Freud se referirá a fatores afetivos e não aos lógicos ou representativos: o motivo era o de defesa, a revolta de todo o eu a conciliar-se com esse grupo de

representação. 81

Enquanto sistema explicativo, a teoria psicanalítica em formação neste momento e durante todo o percurso freudiano é colocada radicalmente em questão ao se experimentar diante de qualquer caso clínico, em qualquer processo analítico. Outra forma de conferir à categoria de sentido e existência da verdade, na loucura e nos movimentos de um sujeito, uma sabedoria que o processo analítico precisa reconhecer, restaurar e modificar, se assim fôr necessário, para possibilitá-la.

A experiência em seus casos clínicos faz Freud vincular a defesa — quando oposta a uma idéia inconciliável, concebida como o mecanismo psíquico gerador da histeria — à resistência das pacientes a lembrar. Isto o levará a concluir que a mesma força que rejeita a representação inconciliável é responsável pela resistência

do paciente a lembrar.82 E se pergunta: de que meios dispõe para superar esta continuada resistência?

Sua resposta, menos triunfal quanto ao poder da técnica ou do método, é que

são escassos, porém são quase todos os meios de que dispõe

de ordinário um ser humano para exercer influência psíquica

sobre outro. E deve dizer-se antes de tudo que a resistência

psíquica (...) só se pode resolver de maneira lenta e pouco a

pouco e é preciso armar-se de paciência (...) a resistência (...)

descansa sobre uma base afetiva (...) e finalmente só se pode

humanamente ajudar até onde consente o alcance da própria

personalidade e o grau de simpatia que pode se ter pelo caso

em questão.83

Freud dá a entender que a modificação interna é a garantia de uma

real tarefa terapêutica e que ela consiste em mover84 o paciente para lutar contra a resistência psíquica, não cabendo mais corrigir nem cancelar nada, muito menos revelar do exterior, ao doente, as representações sentidas como intoleráveis e reprimidas. A organização patogênica não se comporta genuinamente como um corpo estranho, senão, muito mais, como uma infiltração. Nesta comparação, deve supor-se que a resistência é o que infiltra. A terapia não consiste então em extirpar algo — hoje a psicoterapia é incapaz de tal coisa —, senão em dissolver a resistência e assim

facilitar a circulação por um caminho antes bloqueado. 85

O que adoeceria um sujeito e o paralisaria não é mais a suposição de que ele experimentou muito intensamente algo, o que quer que seja, e que é preciso eliminá-lo. A experiência adquirida mostra-lhe que o desperdício, aparentemente gratuito, dos afetos, o exagerado ou imotivado deles, resultam de transferências de uma inconsciência que reata acontecimentos e pessoas atuais com acontecimentos psíquicos há muito esquecidos, provocando assim o deslocamento da energia afetiva dos complexos de representações inconscientes para as idéias atuais, exagerando sua intensidade afetiva.

O suposto corpo estranho não é mais algo a se expulsar, mas a reconhecer: é de reminiscências, principalmente, que sofre a histérica, formula Freud. Não se trata mais de ter coragem moral ou alguém para sugeri-la, para afrontar um inimigo exterior a si; se trata agora de conhecer a si mesmo, de se reconhecer, de apreender aquilo que de uma certa maneira já se sabe, mas que tornou-se outro em nós. Por isso esse reconhecimento do que tornou-se outro em nós, não trata de ver mais, de saber mais, ou de não saber, mas sim de sabê-lo de outra forma, traduzido em outras linguagens dentro de nós. E se o reconhecimento de si, o tornar a si mesmo outro, o existir de um modo diferente, exige tempo, paciência, como diz Freud, não é só porque é trabalhoso liberar a circulação por caminhos bloqueados pela infiltração da resistência, mas também porque tornar-se outro é de algum modo, conseguir um crescimento, assimilar novos elementos e não somente olhá-los ou somá-los a

si 86 .

Então, como situar a técnica hipnótica e a sugestão no meio desse processo que, conforme afirmação de Freud, faz os Estudos sobre

a Histeria 87 conterem o "núcleo" da psicanálise?

No relato clínico de Miss Lucy R., a quem Freud trata em fins de 1892, recorda-se de ter escutado, na sua visita à clínica de Nancy em 1889, que se fosse possível ter meios para pôr em estado de sonambulismo todas as pessoas, a terapia hipnótica seria a mais poderosa. Sim, se fosse possível, se a sua aplicação não encontrasse tantos obstáculos. E o primeiro e principal destes obstáculos é notar que pelo menos minhas forças neste terreno se

moviam dentro de estreitos limites,88 pondo em dúvida, portanto, seu poder e destreza para fazer e, muitas vezes, repetir as mesmas ordens, de uma sugestão tão forte e resistente como se requeria para uma cura duradoura.

Caso isto fosse possível para ele, ainda assim não lhe conviria porque se reduziria de maneira excessiva o número dos pacientes, já que em sua experiência o número dos que alcançavam o sonambulismo era muito menor que o indicado por Bernheim. Além disso, acreditava que impondo à força a hipnose não tiraria grande

coisa da resistência.89 Havia vivido exemplos de indocilidade terapêutica absoluta, não obstante existir, no sonambulismo profundo, uma notável obediência em outros terrenos e, em todos os casos graves, viu como a sugestão introduzida voltava a desmoronar-se e então reaparecia a própria enfermidade ou um substituto dela, não lhe permitindo individualizar a resistência com

que os enfermos se aferram à sua enfermidade90.

A prioridade no processo das descobertas freudianas é a experiência clínica fruto de uma intensa e singular vivência pessoal de Freud, com seus pacientes e consigo mesmo, como podemos notar numa carta escrita a Fliess em 11/03/1900:

As perspectivas pareciam ser as mais favoráveis no caso de E.

— e foi aí que sofri o golpe mais pesado. Exatamente quando

eu acreditava ter a solução nas mãos, ela me escapou e vi-

meforçado a virar tudo pelo avesso e montar tudo de novo e,

nesse processo, perdi tudo aquilo que parecera plausível até

então. Não consegui suportar a depressão que se seguiu. Além

disso, logo descobri que era impossível prosseguir no trabalho

realmente difícil no estado de depressão branda e das dúvidas

que me assaltavam. Quando não estou bem humorado e

senhor de mim mesmo, cada um dos meus pacientes é um

torturador. Cheguei até a acreditar que teria que desistir ali

mesmo. Encontrei uma saída renunciando a qualquer atividade

mental consciente, de modo a tatear às cegas entre meus

enigmas. Desde então, tenho trabalhado, talvez, com mais

habilidade do que nunca, mas realmente não sei o que estou

fazendo 91 .

Evidenciou-se para Freud que o emprego da hipnose ocultava uma resistência que se opõe ao trabalho analítico e criava pretextos de uma "suposta" falta de memória para fazê-lo fracassar. Com o abandono da hipnose, começa a história da psicanálise propriamente dita. O analista devia agora buscar aprender que o que o embaraçava no trabalho de análise estava ali justamente para embaraçá-lo.

Esta revolução copernicana, como a chamou Birman, 92 implica uma reviravolta fundamental dos lugares e posições no espaço terapêutico, relativizando daí em diante a gigantesca importância atribuída à figura do psiquiatra e de quem mais pretender ocupar este lugar de taumaturgo, subvertido por Freud.

Breuer não conseguiu o mesmo e se desinteressou pelo que ele próprio havia descoberto, ficando prisioneiro do lugar de superhomem fascinante que apaixonara Anna O. e que a engravidara. Meio século depois, em 1932, Freud escreve a Stefan Zweig:

Naquele momento Breuer tinha na mão a chave que abre (o

que Goethe denomina a porta das Mães), mas ele a deixou cair.

Apesar de seus grandes dotes intelectuais, ele nada tinha de

fáustico em sua natureza. Tomado de um horror convencional,

fugiu e abandonou sua cliente a um colega. Ela passou os

meses seguintes na clínica, lutando por recobrar a saúde.93

Para Breuer, foi impossível desmascarar a tragédia da

taumaturgia terapêutica e revelar uma paixão que não podia ser

enunciada.

Ao se deslocar dessa posição, Freud pode viver de outro modo um fato ocorrido em sua clínica com uma paciente a quem chamou de Cecilie, que ao despertar do estado de hipnose, passou-lhe os braços em volta do pescoço e que ele associou com a descoberta da natureza sexual da histeria. Recordemo-nos o que nos conta desse fato: Mantive-me o bastante sereno para não atribuir este acidente a um encanto pessoal irresistível e julguei haver apreendido a natureza de elemento místico que operava por trás da hipnose. Para eliminá-lo ou, ao menos, isolá-lo, devia abandonar

esta última. 94

Freud agora sabia, graças a seu hábito de pôr-se primeiro e sempre,

a estudar as coisas antes de revê-las nos livros, 95 que os sentimentos que a paciente lhe manifestava, excluindo a hipótese do seu encanto pessoal irresistível, dirigiam-se, na realidade, a algum outro, a um terceiro entre ela e ele. O ocorrido com esta paciente estaria assim na origem da descoberta de um dos conceitos fundamentais e originais da psicanálise, o de transferência. E daí a Freud formular que o que é justo a respeito do outro é preciso admiti-lo também com respeito à sua própria

pessoa96 foi um pulo. Uma análise sem transferência é uma impossibilidade e o que suas experiências com a hipnose haviam lhe ensinado, reconheceu mais tarde, é que, quaisquer que fossem as técnicas utilizadas, se estabelecia um vínculo afetivo pessoal, não havendo lugar neutro. A transferência é um fenômeno humano universal, decide sobre o êxito de cada intervenção médica e ainda governa em geral os vínculos de uma pessoa com seu ambiente

humano,97 diz Freud. Qualquer que fosse a técnica, o terapeuta ou quem quer que fosse ocupar este lugar de ter influência sobre um outro, precisaria saber que inevitavelmente seria aprisionado numa cena em que serão despertados a seu respeito os mesmos efeitos de amor ou de medo, a mesma fé cega em sua infalibilidade que a criança sentiu pelos pais. O médico não é senão um desses espectros que fazem ressuscitar para o paciente as figuras

desaparecidas da sua infância. 98

O abandono da hipnose e o nascimento da psicanálise propriamente dita constituem um episódio decisivo, pois traduzem a descoberta

da criança que dorme no inconsciente do adulto,99 a existência em nós deste outro — a criança, que não se manifesta apenas na hipnose, mas igualmente em nossos sonhos noturnos, em certas tendências e funcionamentos infantis, em nosso psiquismo durante o estado desperto, nos lapsos, nos atos falhos e em todas as formas de chistes. No mais profundo de nosso ser somos crianças e o permaneceremos por toda a nossa vida.

Desde o início da sua clínica, Freud logo percebe que é em torno do sexual que recai o silêncio dos pacientes (e não só deles) e a mais intensa resistência, o que o leva a investigar precisamente a passagem do sexual no plano funcional para o plano representado. A existência de um inconsciente só pode ser presumida. Freud nos conta a dificuldade de ainda não ter este conceito sistematizado quando os pacientes reconhecem a verdade da interpretação, mas não a existência do pensamento, ao acrescentarem: Mas não posso me lembrar de ter pensado isso, o que o levará a uma afirmação, que Mannoni chamou de o axioma de identidade da psicanálise: Um mesmo fato de pensamento permanece idêntico a si mesmo, que o

sujeito o reconheça ou não como consciente.100 Isto o obrigará ao reconhecimento da existência do inconsciente e a torná-lo mais preciso.

A experiência clínica demonstrava-lhe que as associações dos doentes retrocediam desde as cenas que se queria esclarecer até vivências anteriores, cada vez mais anteriores e precoces, o que

mais tarde chamou de regressão, 101 remontando o acontecimento traumático à infância. Mas ele não tinha ainda uma teoria sobre a sexualidade e as vivências da infância.

Assim, se o corpo representado exige a pressão do corpo biológico para que se coloque em movimento e possa, dessa forma, possibilitar a realização da função sexual, esta relação não é direta nem automática, mas mediada por obstáculos que serão colocados por esta transposição. Não é imediato que a pressão sexual imponha automaticamente a satisfação, já que é necessário todo um complexo processo de incorporação psíquica para que seja possível esta realização.

A experiência clínica foi ensinando; progressivamente, a Freud, que os fatores adquiridos na etiologia das psiconeuroses, em oposição aos orgânicos, eram de natureza sexual e se vinculavam regularmente às vivências infantis. Como a existência da sexualidade infantil não era proposta, a introdução desse fator externo ou adquirido no psiquismo foi teorizada por Freud na hipótese das duas cenas e da significação da primeira (situada na infância) a partir da segunda. Esse aspecto temporal da teoria da sedução ficou com uma aquisição da psicanálise: é a teoria da posterioridade do traumatismo em dois tempos. Esta teoria postula que nada se inscreve no inconsciente humano a não ser na relação de pelo menos dois acontecimentos, separados um do outro no tempo por um momento de mutação, permitindo ao sujeito reagir diferentemente da primeira experiência, ou antes, reagir diferentemente, à lembrança da primeira experiência, de como

reagiu à própria experiência. 102 Essa teoria da posterioridade do trauma terá grande importância na posterior teorização do processo do recalcado e das formações de compromisso expressas nos sintomas.

Mas Freud experimentará logo um impasse. Numa carta a Fliess, ele expõe uma série de razões que o levaram a decidir abandonar a hipótese da etiologia traumática das psiconeuroses. Ocorre-lhe então uma historinha da sua coleção: Rebeca, tire o vestido; você

não é mais noiva nenhuma. 103

Entre as razões apresentadas, parece insustentável supor uma generalização de pais perversos, sem excluir o dele, conforme a teoria traumática obrigava, bem como supor que haja indicações de realidade no inconsciente, já que não se pode distinguir entre a verdade e a ficção; além disso, o segredo das experiências da infância não é revelado nem no mais confuso delírio e, por último, o inconsciente jamais supera a resistência da consciência. Algo sempre resistiria a ser totalmente conhecido, anunciando-nos o que se acha ao mesmo tempo aberto e fechado por esta situação: a existência de um núcleo do inconsciente irredutível à linguagem, à representação jamais consciente, portanto jamais esgotável.

Mas se tudo parece desmoronar com a teoria do trauma, que consistia na sedução da criança por um adulto, Freud curiosamente,

como notou muito bem Mannoni,104 se encontra num estranho estado de confusão e de triunfo ao mesmo tempo. Não sabe onde está, nem o que vai fazer, mas escreve na mesma carta em que anuncia ao amigo Fliess não acreditar mais em sua neurótica (teoria das neuroses):

Se eu estivesse deprimido, confuso e exausto, essas dúvidas

certamente teriam que ser interpretadas como sinais

defraqueza. Já que me encontro no estado oposto, preciso

reconhecê-las como o resultado de um trabalho intelectual,

honesto e vigoroso e devo orgulhar-me, depois de ter ido tão a

fundo, de ser ainda capaz de tal crítica. Será que essa dúvida

representa apenas um episódio no avanço em direção a novos

conhecimentos?

Freud sabia que a resposta era sim. Ao lado do enriquecimento da teoria do trauma com a hipótese das duas cenas, ele notava na experiência clínica o crescimento em importância do papel da fantasia na sexualidade e nos processos psíquicos inconscientes, antes de concluir sobre o inverossímil da teoria do trauma. Em 02/05/1897, escreve a Fliess:

...minhas conquistas estão se consolidando (...) adquiri uma

noção segura da estrutura da histeria. Tudo remonta à

reprodução de cenas do passado. A algumas se pode chegar

diretamente, e a outras, por meio de fantasias que se erguem à

frente delas. As fantasias provêm de coisas que foram ouvidas,

mas só posteriormente entendidas, e todo o material delas, é

claro, é verdadeiro. São estruturas protetoras, sublimações dos

fatos, embelezamento deles e, ao mesmo tempo, servem para

o alívio pessoal.105

Há, pois, cenas reais na base das neuroses, mas sobre estas cenas encontram-se as fantasias, fachadas psíquicas produzidas com a finalidade de impedir o acesso a essas recordações. E como o sentido delas é tornar inacessível a lembrança da qual provieram, elas emergem de uma combinação inconsciente de coisas vivenciadas e ouvidas, de acordo com certas tendências e são

formadas por amalgamação e distorção, de modo análogo à

decomposição de um composto químico que esteja combinado

com outro (...) o primeiro tipo de distorção consiste

numafalsificação da lembrança porfragmentação, na qual

precisamente as relações cronológicas ó que são

neglicenciadas (...). Um fragmento da cena visual combina-se

então com um fragmento da cena auditiva formando a fantasia

enquanto o fragmentado liberado se liga a alguma outra coisa.

Assim, a conexão original torna-se impossível de rastrear106

A sexualidade é então formulada como sendo uma demanda especificamente humana que não se restringe ao corpo biológico, como era então estabelecida pela tradição médico-fisiológica: o sexo poderia se situar no plano da fisiologia, voltado para a reprodução da espécie, mas a sexualidade se articula numa outra economia que passa pelo campo da representação buscando, basicamente, o prazer. Seria preciso um investimento particular deste campo para que fosse possível a realização da sexualidade.

Por isso mesmo, para a psicanálise se constituir como um novo

campo do sabereum novo modo de saberfoi necessário que

rompesse com a questão do instinto — centrado numa

problemática do corpo biológico — estabelecendo o campo de

possibilidade para que ela construa um outro objeto, que será

posteriormente denominado de pulsão sexual. Para que esta

entre em movimento não basta a energia do instinto sexual, que

seria sua condição necessária, mas também algo de uma outra

ordem. Este investimento é denominado de libido: ...nas

funções psíquicas cabe distinguir algo (...) que tem todas as

propriedades de uma quantidade — ainda que não possuímos

meio algum para medi-la; algo que é suscetível de aumento,

diminuição, deslocamento e descarga e se espalha pelas

marcas mnêmicas das representações como o faria uma carga

elétrica pela superfície dos corpos107

não se tratando, portanto, de uma substância hormonal, já que o que está em questão é a ordem da sexualidade e não a do sexo.

A economia do prazer/desprazer se insere nesta articulação do biológico e do representado, que rompe com a ordem da fisiologia para constituir o corpo erógeno. Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade estas relações serão sistematicamente formalizadas: o ponto de partida da demonstração é que a sexualidade visa o prazer, portanto não é um instinto nem se localiza no plano biológico. É nesta sexualidade, reguladora dos destinos do prazer e da dor de cada sujeito, que Freud percebe seu caráter fantasmático e, ainda, que o corpo erógeno só se faz apoiado ou articulado com o corpo vivo, corpo este que receberá uma nova organização, distinta do corpo estabelecido pelo saber médico-fisiológico.

Então, se inicialmente a pesquisa se centra na incidência do somático sobre a representação, logo em seguida o campo da representação funciona como uma estrutura que também transforma a energia do somático e pode, então, incidir sobre o biológico.

O que então assistimos é um movimento complexo de Freud, onde nada é abandonado, mas sim redefinido, repensado, retificado, sabido de outra forma. Quanto mais amadurece sua reflexão, avançando no conhecimento do mundo da sexualidade e da fantasia, mais Freud ancora firmemente a emergência deste mundo no restabelecimento do sujeito como seu suporte, como portador de um saber sobre si mesmo e como revelador de uma verdade a ser decifrada.

Assim, a obra de Freud apresenta, em várias dimensões, uma originalidade cujo fundamento está na formulação de que a loucura apresenta uma lógica interna que não se reduz a qualquer pensamento causal, seja de ordem biológica, seja social. Por isso não adianta, a não ser como inculcação ou moralismo pedagógico, tentar provar ao sujeito que ele não sofre o que ele diz (ainda que ele não reconheça que diz) que sofre, mas sim reconstituir as condições subjetivas da verdade desse sofrimento.

Freud, ainda como neurologista, foi o primeiro a acreditar nos sofrimentos dos seus pacientes neuróticos, nos termos que eram comunicados por eles. E também foi pioneiro ao postular que os sintomas não se constituem por acaso, ainda que as representações dominantes não possam reconhecê-los como tais, mas são produtos finais de um processo simbólico sempre singular de cada sujeito que cabe desvelar, para que possa considerá-los objeto de interpretação.

A miséria de nossa educação no campo da saúde talvez se deva à resistência que provém do sofrimento, em ouvi-lo e segui-lo como Freud ousou fazer nos territórios mais freqüentados ou temidos da experiência humana mais radical — a loucura. Para tal é preciso se deslocar de uma lógica utilitarista, para uma lógica da representação e do sentido singular a cada sujeito.

Eis os termos da equação utilitarista, em cuja ordem a modernidade depositou parcela significativa de sua inteligência, de sua esperança ética e de sua paixão política: sujeito transformado em indivíduo empírico, o comum identificado com agregação e valor, anterior à razão, por sua vez reduzida ao cálculo do dado, subtraída da

reflexividade,108 combinam-se, comparam-se, opõem-se na cesta do cálculo das médias. O sofrimento, nos termos em que é colocado por um sujeito, exaurido de sua dimensão intersubjetiva, converte-se em objeto e última razão de uma educação como cálculo e administração.

 

Notas

1. BIRMAN, J., 1991. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, p. 25.

2. FREUD, S. Obsesiones y fobias, ed. cit., vol. III, p. 76.

3. _______. La etiologia de la histeria, ed. cit., vol. III, p. 205.

4. _______. 1982. A Martha Bernays (Paris, 21.10.1885). In: Correspondência de Amor e outras cartas (1873-1939). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 209.

5. _______. Informe sobre mis estudios en Paris y Berlim: out/1885, mar/1886. In: Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu Editores, Vol. I, p. 8.

6. _______. 1982. A Martha Bernays (Paris, 24.11.1885). Op. cit., p. 219.

7. LEVIN, K., 1980. Freud: a primeira psicologia das neuroses (uma perspectiva histórica). Rio de Janeiro: Zahar Editores, p. 55.

8. FREUD, S. Charcot (1893). ed. cit., Vol. III, p.p. 13-24

9. Ibidem, p. 14.

10. Ibidem, p. 15.

11.FREUD, S. Presentación autobiográfica, ed. cit., Vol. XX, p. 13.

12. _______. Charcot (1893). ed. cit., vol. III, p. 17.

13.Ibidem, p. 19.

14.Ibidem, p. 20.

15. FOUCALT, M., 1977. Nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

16. FREUD, S. Informe sobre mis estudios en Paris y Berlin (out/1885, mar/1886). ed. cit., vol. I, p. 11.

17. Ibidem, p. 24.

18. FREUD, S. Sobre el mecanismo psíquico de los fenômenos histéricos, ed. cot., Vol. III, p. 29.

19. _______. Charcot., ed. cit., vol. III, p. 22. .

20. _______. Sobre psicoterapia., ed. cit., vol. VII, p. 248.

21. _______. Histeria (1888). ed cit., Vol. I, p. 58.

22. _______. Algunas consideraciones con miras a un estudio comparativo de las parálisis motrices orgánicas e histéricas, ed. cit., vol. I, p. 206.

23. Ibidem, p. 206.

24. Ibidem, p. 207.

25. Ibidem, p. 208.

26. FREUD, S. y BREUER, J. Sobre el mecanismo psíquico de fenómenos histéricos: comunicación preliminar, ed. cit., Vol. II, p. 33.

27. FREUD, S. Señora Emmy von Ν. ed. cit., Vol. II, p. 118.

28. _______. Sobre lajustificación de separar de la neurastenia un determinado síndrome en calidad de neurosis de angustia, ed. cit., Vol. III, p. 114.

29. _______. La sexualidad en la etiologia de las neurosis. ed. cit., Vol. III, p. 261-262

30. _______. Rascunho G. III. In: Masson, J. Μ., 1986. Α correspondência completa de S. Freud a W. Fliess (1887-1904). Rio de Janeiro: Imago, p. 99

31. Carta de Freud a Fliess, 1/2/1900. In: Masson, J. M., 1986. Op. cit., p. 399

32. CHERTOK, L e STENGERS, I., 1990. O coraçãoea razão(ahipnosedeLavosier a Lacan). Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 15.

33. HOPKINS, G. M., de CAMPOS, Α., 1991. Hopkins: Cristal terrível. Ilha de Santa Catarina. Editora Noa Noa, p. 27.

34. FREUD, S. Resenha de August Forel, Der Hypnotismus (1889). ed. cit., vol. I, p. 102.

35. Ibidem, p. 107.

36. Ibidem, p. 108.

37. FREUD. S. Tratamento psíquico (Tratamento da alma) (1890). ed. cit., vol. I, p.131.

38. _______. Las neuropsicosis de defensa. ed. cit., Vol. III, p. 52.

39. _______. Proyecto de psicologia, ed. cit., Vol. I, p. 369.

40. _______. Las neuropsicosis de defensa. ed. cit., Vol. III, p. 52.

41. _______. S. Señora Emmy von N. ed. cit., Vol. II, p. 121-122.

42. BIRMAN, J. 1991. Op. cit., p. 34

43. _______. 1978. A psiquiatria como discurso da moralidade. Rio de Janeiro: Graal.

44. _______. 1991. Op. cit., p. 37.

45. _______., 1980. Enfermidade e loucura. Sobre a medicina das interrelações. Rio de Janeiro: Campus.

46. SCHRAIBER, L., 1989. Educação médica e capitalismo. São Paulo: Hucitec/Abrasco, p. 92.

47. FOUCAULT, M., 1977. Op. cit., p. 66-68.

48. FREUD, S. Charcot, ed. cit., Vol. III, p. 18-20.

49. Carta de Freud a Fliess, 4/2/1888. In: Massom, J. Μ. Op. cit., p. 18-19.

50. CHERTOK, L e STENGERS, I., 1990. Op. cit., p. 57-58.

51. MANNONI, O., 1976. Freudea psicanálise. Rio de Janeiro. Editora Rio, Colégio Freudiano do RJ, p. 28.

52. CHERTOK, L. e STENGERS, I., 1990. op cit., p. 58.

53. FREUD, S. Un casodecuración por hipnosis. Con algunas puntualizaciones sobre la génesisdesintomas histéricos por obra de la "vontad contraria" (1892-93) ed. cit., Vol. I, p. 153.

54. Ibidem, p. 154.

55. Ibidem, p. 154.

56. Ibidem, p. 157.

57. Ibidem, p. 154.

58. PLASTINO, C. Α., 1993. A aventura freudiana. (Elaboração e desenvolvimento de conceito de inconsciente em Freud) Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro/UFRJ, p. 37-38.

59. FREUD, S. y BREUER, J. Estudios sobre la histeria (1893-1895). ed. cit., Vol. II, p. 69.

60. FERENCZI, S. Sugestão e Psicanálise (1912). In: Escritos Psicanalíticos (19091933). Rio de Janeiro: Timbre/Taurus, s.d., p. 64.

61. FREUD, S. y BREUER, J. Estúdios sobre la histeria (1893-1895). ed. cit., Vol. II, p. 77.

62. Ibidem, p. 81.

63. Ibidem, p. 83.

64. ibidem, p. 84.

65. Ibidem, p. 86.

66. Ibidem, p. 86.

67. Ibidem, p. 87.

68. Ibidem, p. 87.

69. BIRMAN, J. 1989. Freud e a experiência psicanalítica. (2- parte). Rio de Janeiro: Timbre/Taurus.

70. SCHNEIDER, M., 1993. Afeto e linguagem nos primeiros escritos de Freud. São Paulo: Escuta, p. 56.

71. FREUD, S. y BREUER, J. Estudios sobre la histeria. (1893-1895). ed. cit., Vol. II, p. 174.

72. Ibidem, p. 179.

73. Ibidem, p. 171.

74. Ibidem, p. 164.

75. Ibidem, p. 167.

76. Ibidem, p. 168.

77. Ibidem, p. 171.

78. Ibidem, p. 172.

79. Ibidem, p. 171.

80. SCHNEIDER, M. Afeto e linguagem nos primeiros escritos de Freud. ed. cit.; p. 62.

81. FREUD, S. y BREUER, J. Estudios sobre la histeria (1893-1895). ed. cit., Vol. II, p. 179.

82. Ibidem, p. 275.

83. Ibidem, p. 288.

84. Ibidem, p. 288.

85. Ibidem, p. 289.

86. SCHNEIDER, M. 1993. op. cit., p. 77.

87. FREUD, S. y BREUER, J. Estudios sobre la histeria (1893-1895). ed. cit., vol. II, p. 126.

88. FREUD, S., Tres ensayos de teoria sexual, ed. cit., vol. VII, p. 250.

89. FREUD, S. y BREUER, J. Estúdios sobre la histeria (1893-1895). ed. cit., vol. II, p. 290.

90. FREUD, S. Tres ensayos de teoria sexual, ed. cit., vol. VII, p. 250-251.

91. Carta de Freud a Fliess, 11/03/1900. In: Massom, J. M. Op. cit., p. 404-405.

92. BIRMAN, J., 1991. Op. cit., p. 45.

93. MANNONI, O., 1976. Op. cit., p. 31.

94. FREUD, S. Presentation autobiográfica, ed. cit., Vol. XX, p. 26-27.

95. Ibidem, p. 18.

96. Ibidem, p. 31.

97. Ibidem, p. 40.

98. FERENCZI, Sàndor. Transferência e Introjeção (1909). In: Escritos psicanalíticos (1909-1933). ed. cit., p. 33.

99. Ibidem, p. 50

100. FREUD, S. y BREUER, J. Estudios sobre la histeria, ed. cit., Vol. II, p. 304-305.

101. FREUD, S. Contribucióna la historia del movimiento psicoanalítico. ed. cit., Vol. XIV, p. 10.

102. LAPLANCHE, J., 1988. Novos fundamentos para a psicanálise. Lisboa: Edições 70, p. 118.

103. Carta de Freud a Fliess, 21/09/1897. In: Massom, J. M. Op. cit., p. 267.

104. MANNONI, O., 1976. Op. cit., p. 43.

105. Carta de Freud a Fliess, 2/05/1897. In: Massom, J. Op. cit., p. 240.

106. Rascunho M, anexo à carta de 25/05/1897. Ibidem, p. 248.

107. FREUD. S. Las neuropsicosis de defensa. ed. cit., Vol. III, p. 61.

108. SOARES, L. E., 1993. O lugar do sofrimento humano no pensamento político moderno. In: Síntese Nova Fase, 20:p. 265-266.