Metamorfoses do corpo: uma pedagogia freudiana

Sherrine Njaine Borges · Capítulo 6 de 6

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Metamorfoses do corpo: uma pedagogia freudiana

V Fim de um novo começo: o corpo mestiço

V Fim de um novo começo: o corpo

mestiço

 

"Quisera atar as mãos errantes da natureza"

(Paul Cézanne)

Ao longo do percurso em que procuramos delinear os contornos da constituição do corpo no pensamento freudiano, acompanhamos as transformações deste pensamento, orientadas numa direção bastante precisa, ou seja, num distanciamento cada vez mais rigoroso e complexo de uma concepção orgânica e racional do corpo. Estabelecendo diferentes registros para o corpo e diversas estratégias metodológicas para considerar estes registros, torna-se mais complexo o espaço criado analiticamente para pensá-lo.

Não é por acaso que, precisamente, no meio de sua obra, num contexto em que desaparece qualquer ilusão quanto à existência de um "manual de técnicas canônicas" para lidar com este corpo pulsional, bem como qualquer pretensão de escaparmos dele, encerrando-o em modelos de acabamento, que Freud faz uma

analogia do processo analítico com o jogo de xadrez.1 No emprego dessa metáfora, a partida de xadrez indica um jogo de difícil aprendizado, em que apenas os lances de abertura e de final são passíveis de descrição sistemática. As jogadas intermediárias, suas infinitas variedades — que constituem a partida propriamente dita — não podem ser ensinadas. No corpo pulsional não há igualmente regra absoluta, mas apenas algumas balizas que admitem uma infinidade de possibilidades, tantas quantas forem a diversidade dos sujeitos, de suas constelações psíquicas e da plasticidade de sua história libidinal. Essa representação freudiana indica simbolicamente que o corpo pulsional, sexual, não é um lugar controlado por normas minuciosas e rígidas, mas um espaço aberto a estratégias que admite uma infinidade de lances num corpo vivo, sustentado por algumas necessidades básicas. Precisamente neste contexto, Freud formula que todas as técnicas se resumem numa só e esta consiste meramente em não querer fixar-se em nada em particular e em prestar a tudo o que se escuta a mesma atenção

igualmente flutuante.2 Complemento necessário deste postulado, a técnica pode variar de acordo com a personalidade, que descreve princípios orientadores compatíveis com a sua maneira de ser e

com a sua experiência analítica 3 Assim, desaparece qualquer ilusão quanto à existência e não só de um modelo de regras técnicas canônicas para lidar com o corpo libidinal, bem como se sublinha a singularidade deste, o que nos permite registrar que ninguém pode pretender um modelo, uma norma de um corpo absoluto. Não por acaso, Freud sempre se recusou a escrever um livro sobre técnica psicanalítica, bem como foi se afastando da medicina, da psiquiatria, da psicologia, pois o contrário implicaria no congelamento dessa mobilidade fundamental de corpo libidinal, que marca a originalidade da concepção freudiana da psicanálise e sua irredutibilidade a qualquer outra concepção de corpo. Na psicanálise, tudo é teoria desenvolvida e aplicada em contato com este corpo pulsional.

Neste momento estamos muito distantes do modelo inicial dos Estudos sobre a histeria. Com efeito, se os critérios da razão, da moral e da normalidade, que pretendem encerrar esse corpo no orgânico, são simultaneamente esvaziados e se quem pretenda intervir nele fica submetido ao mesmo corpo libidinal, pulsional, então a lógica da representação coerente completou o seu processo de desmontagem, proposto pelo percurso freudiano. Estamos inteiramente lançados no campo da invisibilidade, que supera as figuras envolvidas. Ninguém detém um poder onipotente sobre o campo do inconsciente, que submete-nos a todos, sem exceção, aos seus mais delicados efeitos. Acabou-se, assim, definitivamente, o universo da segurança e da garantia absoluta que a representação coerente de um corpo anátomo-fisiológico fornecia, afirmando que aquele que detivesse o seu código também deteria o poder sobre ele. O campo do desejo, do inconsciente, do incontrolável desse corpo pulsional, retirou as bases dessa geometria euclidiana: agora, ninguém detém um poder absoluto sobre este campo da invisibilidade e as metamorfoses desse corpo. Sua revelação passa pela presença do Outro, por uma relação transferenciai, espaço por onde os pensamentos inconscientes, que pensamos com o corpo, como por exemplo deixar o estômago pensar por mim, falar com a boca de sua mãe, se desdobram em todas as suas vicissitudes. Aqui, a questão se fecha em toda a sua radicalidade.

O esquecimento, nossas resistências às descobertas da análise, implica passarmos a pautar a escuta do que experimentamos neste corpo e do que o outro experimenta, pelo discurso teórico que aprendeu, e não pelas rachaduras abertas no eu, por algo que questiona sua coerência, ou representação, até então. Com isso, a singularidade significativa de um destino subjetivo que se apresenta diante de si é silenciada.

Neste contexto, a figura do educador, e muita vezes a do analista, coloca seu corpo libidinal fora da experiência vivida de sua subjetividade e passa a explicar a figura do outro a partir de um suposto código universal de verdades sobre o corpo, a dor, a doença, a morte, a sexualidade. O silenciamento da sigularidade da figura do outro é o correlato e a contrapartida necessária do silenciamento da especificidade de si próprio e do corpo libidinal em que habita. Com isso, a educação no corpo e a pedagogia freudiana, como os gregos diziam pedagogia — viagem das crianças —, torna-se impossível num cenário de normalização pedagógica, um cenário de morte do educador e de desamparo mortífero da criança que somos e permaneceremos sendo para sempre, viajando no corpo libidinal.

Ou seja, quando o educador e o analista estancam o seu movimento, fazendo ponto parasitariamente no lugar da teoria, da técnica, do método, eles mesmos se tornam obstáculo poderoso ao processo de aprendizado, de educação, na viagem no corpo libidinal do outro. Podemos assim afirmar justo o contrário: o estancamento do educador e do analista no pólo da singularidade de suas experiências, suas viagens, também funciona como obstáculo, fazendo-os perder a capacidade de se sensibilizarem por outras configurações libidinais, outros aprendizados nesta viagem.

Para uma nova forma de saber sobre a psique, que destaca insistentemente a problemática da verdade singular do sujeito, contra todas as ilusões que este engendra permanentemente para não apreender certas marcas que colocam em xeque seu corpo narcísico, e que pretende ir além da consciência, do visível, se impõe, necessariamente, um novo nome: metapsicologia. Assim o sujeito é colocado na posição de criador permanente, com seu corpo, de sua história mítica, o que nela foi escrito e o que não quer ser escrito, tendo que fantasmar insistentemente sobre cadeias associativas que se desdobram em rios inumeráveis ou, como no dizer de Kafka: o problema és tu. E não se vislumbra um aluno para

o resolver. 4

Ao atribuir tal relevância ao conceito de fantasmar — que funcionaria como mediação fundamental entre o contexto intersubjetivo do processo analítico e a construção teórica da metapsicologia — o saber psicanalítico rompe epistemologicamente com os critérios de cientificidade da ciência objetivista — experimental do início do século e, ao mesmo tempo, mostra que os fundamentos e as outras formas de validação da ciência que Freud

pretendia construir eram diferentes dos da ciência experimental. 5 Tal giro o leva a se encontrar com o legado proporcionado pela tradição literária e artística sobre a experiência do sujeito, não só na loucura, mas na criação de um aprendizado, de um estudo real a ser empreendido com a diversidade do quadro do corpo libidinal e da vida que nele pulsa permanentemente, ainda que sob o risco de morte nas situações limites.

A experiência estética, como a experiência psicanalítica e o corpo que a torna possível de ser permanentemente criada — corpo libidinal, pulsional — encontram-se investidas, graças a uma incerteza inicial, a um descompasso estrutural de uma profundidade inesperada e irredutível. Voltado para o inconsciente nesse corpo, o espelho da psicanálise não tem de lhe ser fiel, mas de transfigurá-lo, como a arte em relação à natureza. Nesse além, a qualidade de uma emoção, de um rosto, ou da aparência de uma coisa só pode ser recuperada na sua intensidade vibrante e no seu calor se o artista, o psicanalista, transmutarem as formas naturais, pulsionais, em metáforas verbais ou plásticas que traduzam sua emoção e permitam que a de um outro também se faça. A relação intersubjetiva é absolutamente fundamental neste processo de inscrição originária das pulsões e nas suas reinterpretações subseqüentes, nos vários momentos em que se ordena o corpo libinal do sujeito. A sensação afetiva só recebe a qualidade do afeto quando passa a existir no plano da representação. Sem este investimento nas cadeias associativas o afeto retornaria ao estatuto econômico de intensidade de afeto, isto é, à ordem do corpo pulsional, localizado miticamente entre o somático e o psíquico.

Algo semelhante nos pareceu ter encontrado numa linda narrativa de Balzac, A Obra-prima Desconhecida, onde o velho professor Frenhofer dedica-se, por dez longos anos, a uma busca quase impossível: a Grande Obra — um Nu — em que realizaria, a partir de um modelo feminino, a idéia de toda a beleza possível. Mas até esse dia, nenhum modelo pudera igualar-se, segundo ele, à beleza ideal de que apenas a obra de arte pode aproximar-se ao longo de suas retomadas e de suas metamorfoses.

Recusando a imitação passiva do modelo, obcecado pela visão de um mundo sobrenatural, arrebatado, enfim, pela louca paixão do absoluto, a obra do artista não representa uma criatura: ela é, afirma o velho professor, uma criação.

Essa criação, mantida a sete chaves e ciosamente escondida sob um véu, o pintor não quer revelar a ninguém, sob pena de deixar de ser pai, amante e Deus. Será porque ainda não encontrou, diz ele, o modelo que, inspirando-o, permitir-lhe-ia enfim concluir com perfeição sua obra? O modelo até então impossível de ser encontrado, sob forma de uma mulher incomparavelmente bela, é-lhe oferecido por dois de seus amigos e discípulos, os quais, em troca, pedem ao Mestre que lhes mostre sua obra, uma vez terminada. Consentindo nisso, o Mestre termina num instante sua Grande Obra e a revela aos dois pintores que, consternados, declaram nada perceber no quadro além das cores confusamente misturadas e contidas por uma multidão de linhas bizarras formando uma muralha de pintura. A natureza — a nudez do modelo — fora dissolvida pela transcendência da arte: a representação açambarcara a obra. Dessa névoa informe, entretanto, emerge, deliciosamente viva, a ponta de um pé nu, qual um fragmento de natureza por milagre poupado ao fogo de um cataclisma. Frenhofer, o velho professor, fica indignado com a incompreensão e cegueira de seus dois amigos: eles, que se pretendiam artistas, seriam incapazes de se aprofundar no céu da Beleza? Não obstante, apodera-se dele uma dúvida a respeito de sua obra, desesperando-o. Não teria produzido apenas um equívoco de criação? Por ter tentado rivalizar com o poder dos deuses, por ter escolhido ignorar as leis da gravidade plástica e da encarnação, por talvez ter transgredido depressa demais os obstáculos e as regras de seu ofício, o pintor visionário não teria apenas diluído á idéia de sua obra na inconsistência de um sonho? Ter-se-ia perdido junto com ela? Na noite seguinte, depois de ter queimado suas telas, qual Prometeu vencido, morre o pintor, devorado por seu próprio mito.

Picasso, fascinado por essa narrativa de Balzac, interrogou-se, como poucos o fizeram, no próprio âmago de sua criação sobre as relações entre o artista, seu modelo e sua obra, os três representados em inúmeras de suas gravuras e desenhos. Meditação plástica obstinada, que para o que nos interessa nesse momento, aproxima-se do que lemos em Freud, numa partida que se joga entre o modelo físico que se oferece ou posa, o olho do artista que vê, concebe e imagina e o gesto que executa e recria, estabelece-se a figura da obra, através da série de suas metarmorfoses, para bem longe de seu pretenso modelo. A noção de modelo inicial não se limitaria, por conseguinte, àquilo que é para o artista apenas um pretexto e um estímulo à criação? Se se deve declarar inatingível qualquer modelo que lhe seja exterior, seria preciso dizer então que a arte só recebe os modelos de si mesma, porque os cria.

Hipótese confirmada, desde que se reconheça à arte — quer se trate das artes do corpo humano, da pintura, da poesia, da escultura — um poder de distanciamento e metamorfose: o poder de abrir para uma inumerável legião de mundos novos que sua magia de primeira manhã do mundo nos convida a habitar, como num segundo nascimento.

Nós apreendemos a natureza apenas através da idéia que dela formamos: uma idéia cultural ligada à verdade do homem e do mundo, que a história humana, por meio tanto da arte quanto da filosofia, da ciência e, mais recentemente, pensamos nós, da psicanálise, não cessa de elaborar e questionar, demonstrando-nos que nunca sabemos tudo do que ela possa vir a ser, apesar do poderoso desejo pela unidade que nos habita.

Tal como Balzac e Picasso, Freud interrogou-se sobre a vida e o corpo dos homens, no âmago de sua criação da psicanálise, sua própria vida e a de seus pacientes. Considerando como objeto da psicanálise o sujeito humano enquanto ele próprio se auto-organiza

fantasmaticamente, é auto-hipotético, autoteorizador 6 de modo a nos fazer ver e ouvir o que sem ele jamais teríamos visto e ouvido: que nossa vida, mesmo e sobretudo a vida psíquica, é uma vida corporificada. Mas essa corporificação é de uma natureza especial. Nosso corpo tem em nossa vida uma participação decisiva, que não havíamos reconhecido até então. Pensamos, fazemos mitos, perguntas, conjecturamos hipóteses, investigamos com o corpo, por meios que não havíamos percebido. É que o inconsciente é um modo estranho e trabalhoso de saber sobre nossa vida e do que dela está escrito ou não quer ser escrito, em nosso corpo.

Anos depois, Freud nos conta ter compreendido que a experiência vital, que regeu os acontecimentos e as descobertas que desembocaram no seu grande livro dos sonhos, foi sua reação frente à morte de seu pai, Jacob Freud. Na verdade, a experiência clínica de Freud com seus pacientes e consigo mesmo vai delineando cada vez mais como característica do seu modo de conhecer algo, não o que seria supostamente não sabido, mas o sabê-lo de outra forma. Em uma carta, Freud esclarece mais ainda o processo de criação que orientou a elaboração do seu livro dos sonhos:

Aqui está. Foi difícil eu me decidir a deixar que saísse de

minhas mãos (...). Ele segue completamente os ditames do

inconsciente, segundo o célebre princípio de Itzig, o viajante

dominical.

—Itzig para onde você vai?

—E eu sei? Pergunte ao cavalo.

Não iniciei um só parágrafo, sabendo onde ele iria terminar. É

claro que o livro nãofoi escrito para o leitor; depois das duas

primeiras páginas, desisti de qualquer tentativa de cuidar do

estilo. Por outro lado, é claro que acredito nas conclusões.

Ainda não tenho a mínima idéia da forma que finalmente

assumirá o conteúdo.7

Como com os artistas, Freud nos ensina que é essencial que nunca se trabalhe já de início com uma impressão do que virá, concebida de antemão. Ao contrário, é preciso aprender a entregar-se àquilo que vai se formando na área a ser pintada e perseverar como um escaravelho fazendo vários testes para ver se rola, aparando arestas, medindo. Por isso, na psicanálise como na arte, importa tanto o último dia quanto o primeiro.

Pois há um lento trabalho interior, corporal, grávido de conseqüências como tantas vezes Freud diz, onde as redes do inconsciente se disseminam sobre um longo caminho de conhecimentos e experiências conscientes, e onde cada nova compreensão das coisas, de outros sentidos para elas, exige a revisão de todo o corpo precedente, o que pode demolir partes essenciais do que se pensava já concluído. Algo que Ferenczi

chamava de 8 parto de pensamentos, que destaca o nascimento permanente de um novo.

Nessa perspectiva, trata-se de recapturar algo de primordial: o advento no corpo do que se percebe em estado puro, antes de qualquer representação conceituai, antes de qualquer interpretação intelectual das formas visíveis, obrigando-nos assim a tratar os conceitos e categorias que usamos para falar desse corpo, não como o fundamento de sua história orgânica, mas como composições, necessariamente parciais, de uma realidade exterior a ele, que as subverte e ultrapassa: o corpo libidinal, que nos individualizaria em nossa vida. Identificar-nos-ia de uma maneira distinta da individualização das moléculas marcadoras, descobertas com as pesquisas sobre transplante de órgãos, que, como uma espécie de etiqueta idêntica inteiramente pessoal em todas as células, rigorosamente próprias de cada indivíduo, abalaram todo o conceito de prevenção no campo da saúde.

Esses marcadores do indivíduo, denominados antígenos de

transplante 9 ou antígenos de histocompatibilidade, permitiram renovar toda a genética e impõem a construção de uma prevenção singular, individual, dirigida apenas contra as doenças que as moléculas marcadoras revelam ser uma ameaça àquele corpo de um determinado sujeito. O corpo libidinal que Freud nos revela também impõe uma individualização, de uma maneira não fisiológica, submetendo cada um de nós a um destino singular, que nos confronta como uma compulsão enigmática com a qual não sabemos o que fazer.

A histeria mostrou a Freud que, quando pensamos com o corpo, isso é feito de maneiras idiossincráticas que nenhuma anatomia é capaz de qualificar. O corpo libidinal, corpo erógeno, só se faz apoiado ou articulado com o corpo vivo, mas não é idêntico ao corpo anatômico ou fisiológico, e estabelece outro tipo de relação com nossa vida.

Daí em diante Freud acalentará a procura do que em nós foi pensamento no corpo antes de nos tornarmos num ser de palavras, tal como sésamos naturais, no dizer do poeta Torga, capaz de despertar o futuro adormecido dentro do ser humano. Um corpo que, como a pressão impetuosa da arte, não suporta distinção de gêneros e quer destruir os limites, ao qual se refere Paul Klee, em seus Diários:

— Não seria estranho se agora eu começasse a falar de uma

garota de onze anos mais ou menos? Estávamos sentados em

nossa taberna encantadora perto de Sorgin quando entraram

musici (como de costume), e começavam a afinar bandolins e

violões. A primeira peça, como era de se esperar, soou meio

desafinada, mas cheia de sentimento. Perto do afinal da

apresentação, uma menina, que entrara discretamente junto

com os músicos, começou a chamar a atenção fazendo alguns

gestos, e ao acorde final se pôs à frente do grupo com a maior

desenvoltura. Sabíamos que nos encontrávamos diante de uma

cena (e que cena!). Já vi muitas realizações artísticas, mas

nada tão primevo. A menina tem no corpo uma certa nobreza;

não é bonita, e também não tem voz. Podemos aprender a ver

a beleza apenas na verdade da expressão. Podemos entender

que um talento antecipa, intuitivamente, coisas que só muito

mais tarde irá viver, e a isso se acrescenta a vantagem de os

sentimentos primitivos serem os mais fortes. O futuro está

adormecido dentro do ser humano; só precisa ser despertado.

Não pode ser criado. Por isso uma criança também conhece

Eros. 10

O corpo libidinal que Freud nos revela não é um irracional a ser conquistado pela razão. É antes uma razão sexualizada que raciocina por meios sem que o sujeito aperceba-se disso, o que é bem diferente, e que ficará atravessando a carne, as palavras, os sonhos, as dores, os saberes, como uma constelação de enigmas, que cada um de nós deve, na esteira de Édipo, enfrentar seu próprio destino, decifrando seus nomes secretos, disseminados sobre todo o corpo.

Corpo mensageiro, como Hermes, o deus dos tradutores, das fronteiras, voando de uma margem para outra, mas que pode se encontrar também sobre a terra ou no mar, em ilhas ou caminhos,

esses 11 lugares mestiços, como parte do eu-corpo, como parte do mundo do isso e como fronteira entre o eu e o mundo.

Fronteiras permanentemente em mudança, as desse eu-corpo, que assinalam, na medida em que o sujeito vai se constituindo, a interrogação insistente, feita por ele mesmo, sobre as suas origens como o enigma fundamental da sua identidade. Como eu nasci? De onde eu vim? Remetenos inevitavelmente a um corpo, a um outro corpo — o grávido de uma mulher, a começar daquele da mãe que nos gerou. Como paradigma de todos os enigmas posteriores, mantemos desde esta primeira interrogação, diz Freud, a experiência de que todo saber é um fragmento e de que em cada

estágio fica um resto não solucionado.12 Pois que ensinar e aprender com o próprio fazer desse corpo não-metódico, perverso-polimorfo, e que quer ser finito, cuja energia nunca pode ser medida ou temperada como num sistema de balanças, exige certa educação, não qualquer uma, mas a que permitiria penetrar o que se tem diante de si, seja o que for, e esperar o que se segue, sem precipitações, sem pressa em querer compreender o visto, ouvido, percebido.

Freud insiste em que evitemos as armadilhas das generalizações e dos universais em se tratando dos humanos, pois a intensidade originária da pulsão é de magnitude diversa nos diversos indivíduos. Falanos das vicissitudes de nossas pulsões corporais, retratando-as como vias interrompidas — vias de nossas vidas que não são internamente ordenadas ou predeterminadas, mas que se interrompem em oposição aos acontecimentos que as fazem retroceder em sua história e a começar de novo. Há, pois, alguma coisa além, uma coisa diferente do que pensamos ser bom para nós e daqueles que pensamos ser, quando imaginamos o que supomos querer ou necessitar.

Viver num corpo de fronteiras, um lugar mestiço, exige-nos a presença de todos os elementos juntos, onde o diabólico deverá se mesclar ao celestial. Esse corpo libidinal e suas mesclas vai pelo seu caminho de ir e vir e não rende nada quando queremos retirá-lo para fora deste, adequando-o a referenciais extra-subjetivos.

Para aprender a aprender com este corpo, há que seguirmos o curso do caminho que vai se fazendo ou que se faz em nós e, nesse caminho, outros possíveis podem se intercalar, mas sem exigência de onde chegar, do resultado que vai dar. É preciso esperar o que se segue. Os eventos que compõem nossos destinos libidinais seriam eventos de um tipo especial. Trata-se dos eventos que estão esquecidos no que dizemos e fazemos, naqueles que somos e em que nos tornamos. Eles são a insistência de fragmentos de alguma coisa que, no entanto, nunca podemos contar. Nosso corpo representado-erógeno-narcísico-pulsão que é de morte é a lembrança daquilo que esquecemos. Nenhuma palavra, nenhuma imagem, jamais o alcançará plenamente. E, no entanto, devemos prosseguir como se lá fôssemos chegar.

Mas para efetuarmos esse reconhecimento do modo singular de ser desse corpo, em vista de um repatriamento, o corpo libidinal, pulsional, formulado por Freud, deve ser afirmado no seu poder de separação em relação à natureza, ao corpo orgânico. Se este introduz suas marcas, como num relevo ou numa paisagem, é para melhor tomarmos distância, multiplicar desvios e perpectivas e estimular seu poder de metamorfoses em outros corpos, à moda das bonecas russas, encaixadas umas dentro das outras. Na articulação entre o corpo pulsional e o corpo orgânico organiza-se uma pista de vôo ou um embarcadouro para novos mundos. No seu Tratado de Pintura, Leonardo da Vinci diz que cada ser vivo é caracterizado por uma linha ondulante ou por esse serpentear que lhe é próprio; o segredo do desenho está na descoberta, para cada ser, dessa linha serpentiforme que, qual uma onda, por ela se distribui em pequenas vagas superficiais. Linha que é o eixo gerador da forma concreta e pode muito bem não ser nenhuma das linhas visíveis do modelo. Mais concebida que percebida, é uma coisa psíquica dotada de um poder constitutivo. Como não associar, diante do que nos diz Da Vinci, esta coisa psíquica a que Freud chamará mais tarde de pulsão sexual e ao corpo por ela revestido, que serpenteará e trocará de pele, renovando-se sempre?

Além das aparências naturais, além do belo ou do horror que todavia pode produzir, o corpo pulsional visa dar existência a uma força do interior do corpo, que é um possível, desenvolvendo-se em seu tempo próprio e em seu próprio espaço para fazer circular um sentido que o represente, que o encarne, através de um intérprete. O verdadeiro lugar do corpo pulsional instaura-se nessa separação entre o mundo em que o corpo é produzido e o mundo produzido pelo corpo.

Para Freud, os pensamentos do inconsciente eram como representantes que ficavam no corpo, no lugar do corpo em seus destinos libidinais. Nesse sentido, pensa-se com o corpo, e o que o incita a pensar dessa maneira é o que Freud chamou de nossa sexualidade ou nossa libido, como algo fundamentalmente rebelde ou inassimilável, por isso fundamentalmente traumático, introduzindo algo além de tudo o que fazemos, imaginamos que somos ou devemos ser. Os pensamentos inconscientes da histérica não são os das funções de seu corpo, ainda que nelas apoiado de modo singular, mas os de um além, de uma energia psíquica que desafia qualquer conhecimento dessas funções e de suas alterações mórbidas. E o mesmo tipo de pensamento corporal chega à razão com o sintoma obsessivo, um pensamento com o qual ela se embaraça, não sabe o que fazer, assim como a queixa do órgão desaparecido de um hipocondríaco, que se transforma em fonte de investigação, de escuta, um olho dentro do corpo que sente, pressente, adivinha e adverte. Assim, nosso corpo estaria constantemente introduzindo em nossa vida pensamentos que escapam à razão iluminista e à educação que ela informa, confundindo-a e interrompendo sua pretendida harmonia com o mundo. Desconhecendo em nós os limites da inteligência, a educação iluminista no campo da saúde, ao se propor ser um instrumento ou ato externo a se sobreacrescentar a nós, não pode nos instruir nas chamas irregulares do corpo pulsional, cega às evidências de como é sujeita à instabilidade e trovoadas a vitória da razão.

O que Freud chamou de zonas erógenas não é mais anatômico. Boca, ânus, órgãos sexuais, olhar, voz, são as zonas corporais de nossa vida, portas de entradas e saídas, que constituem as fontes de uma energia libidinal, tirando proveito do que nos acontece, interrompendo constantemente as regularidades de nossa vida, para passar por um processo de frustração, recalque e regressão, mediante o qual torna a nos confrontar de outras maneiras. É um ritmo não metódico dos acontecimentos eróticos de nossa infância e de pensamentos-interpretação que elaboramos com o corpo, que rompem a continuidade de nossa vida e cujos efeitos não nos é possível conhecer ou prever, pois ocorrem cedo demais ou sobrevêm muito tardiamente para que possamos assimilá-los. Eles são o a mais, o excesso de coisas que nos acontecem e que não podemos controlar, e assim as esquecemos e repetimos na descontinuidade de nossas vidas. São eles, os acontecimentos pulsionais, que põem o inconsciente para funcionar sempre e não podemos evitá-lo, restando-nos inclui-los. Na verdade, por isso é que dizemos que a característica do método freudiano não e a de ensinar o que seria supostamente não sabido, como a tradição de educação no campo da saúde segue, mas a de vir sabê-lo de outra forma. O simples saber não basta, é preciso que se lhe acresça uma leitura afetiva, pulsional, que lhe confira o equivalente de uma necessidade. Sem esta liberação de uma espontaneidade corporal, o esforço para decifrar as representações recalcadas seria um jogo intelectual e não um verdadeiro reconhecimento representativo e carnal. Adotar uma representação não é, então, simplesmente adotar uma idéia, mas integrar o movimento corporal que lhe é correlativo, movimento que, convertendo-se em afeto, tornar-se-á

suscetível de uma aceitação psíquica. 13 Se um conflito nos destroça é porque opõe, não simples idéias, mas movimentos passionais no interior dos quais estamos profundamente engajados. A abertura em direção à tomada de consciência deverá se fazer correlativamente em direção ao corpo, a fim de reencontrar o caminho que conduz da tensão física, dos pensamentos com o corpo, ao afeto enquanto experiência, único modo dele existir no plano psíquico.

A partir do momento em que a educação no campo da saúde se constitui fundamentada pela biomedicina e pela epidemiologia, o que está excluído é o erógeno, o erótico, o libidinal. Tomando como objeto o fisiológico, o biológico e sua perturbações e relações com o social, de que modo retorna o erógeno, o libidinal? Diríamos que retorna de imediato, embaraçando-nos diante de um pedido da razão iluminista que fizesse de nós seres autônomos, independentes e razoáveis em suas demandas. Qualquer tentativa de delimitação de um campo, principalmente científico, evidencia a verdade desse lugar-comum: quando fazemos alguém sair pela porta, retorna pela janela, quando tentamos expulsar alguma coisa, ela sempre retorna, de uma forma ou de outra. É exatamente o que ocorre na educação no campo da saúde: o que foi deixado de fora e que permite a sua delimitação vaga, sempre se encontra no interior do campo. Por mais que tentemos nos safar desse corpo que temos, nunca conseguimos.

Não podemos conceber a reintegração pretendida pela educação humana, que considera o homem em sua integralidade, ou a famosa psicossomática, senão como algo de um suporte radicalmente falso? Pois afinal de contas, se o campo da racionalidade que fundamenta a educação na saúde se define justamente pela exclusão do erógeno, se ele se delimita assim, reintroduzi-lo, sem deixar de manter tal exclusão, conduziria evidentemente o campo científico a impasses insolúveis.

É impossível reintroduzir neste campo, que se delimita pela exclusão do prazer, algo que, precisamente, seja erógeno. Ou então, caso haja esta reintrodução, tudo deverá ser repensado, refeito e provavelmente não mais nos reconheceremos neste campo, nem tampouco saberemos onde está; o que é, afinal de contas, bastante desagradável, pois há toda uma tradição que é preciso conservar. Por conseguinte, continuamos em meio a uma absoluta confusão e desorientação, que se anuncia mais aguda, à medida que o grande problema ético, que se coloca no desenvolvimento do século XX, é o que é suficiente para deter os homens na reconstrução do humano, a partir dos possíveis da biomedicina e da tecnociência.

Em face desse resto terrestre e animal onde se apoia o corpo pulsional, a atitude do homem é, muitas vezes, ambígua, um misto de atração e repulsa. As deformidades de um corpo e a amedrontadora selvageria de uma paisagem testemunhariam o monstruoso impudor da natureza. Que podem significar essas marcas da arte sobre um corpo submetido a todas as experiências plásticas como pinturas faciais, tatuagens, escarificações, incrustações e deformações anatômicas, maquilagens e máscaras.

Segundo M. Leiris,14 não existe nenhuma população do globo que tenha deixado o corpo no seu estado de nascença. As artes primitivas do corpo testemunham a consciência que o homem tem de sua contingência original. Atestam que o homem, dotando-se de um segundo nascimento através de aparências novas, está disponível para metamorfosear-se entre a ordem da natureza e a ordem da cultura.

Desse modo, o pensamento freudiano formula que o corpo que temos, nascido pulsionalmente, é distinto do nascimento orgânico, tem regras próprias de constituição e é irredutível tanto ao orgânico, onde se apóia, quanto aos sistemas simbólicos que experimentam apreendêlo. Tal como a arte, e a própria psicanálise, é uma interrogação inacabada e incessantemente retomada. Bem mais que um saber, o corpo pulsional erógeno, conforme uma imagem de Merleau-Ponty, é como uma onda com sua espuma de passado e sua crista de futuro chamando uma seqüência dc outras

metamorfoses.15 É sempre retirado desse inesgotável fundo de caos, que é o isso do qual não cessam de emergir as forças vivas da natureza, recomeçando incessantemente tal como o mar que sempre fará ouvir seu rumor.

Assim, pretendemos ter mostrado que a história do corpo, que o pensamento freudiano formula e nos conta, não procede por progressão contínua, nem por acumulação e nem para um final feliz, muito menos por um desenvolvimento sem falhas ou erros, mas por refluxo, repetição, regresso do refluxo. Somos seres erógenos, habitando um corpo vivo, antes de seres humanos, seres de cultura, e as pulsões estarão sempre entre o somático e o psíquico, a natureza e a cultura, desenhando redes de bifurcações, ensinando-nos essa viagem das crianças em direção à alteridade, uma mestiçagem. Esse saber peregrino em nosso corpo não é nunca o apegar-se ritualmente a metodologias, escolas de pensamentos, técnicas e que tais. É sempre um ousar ver e agir comunicando o visto. A segurança das garantias revela-se aqui sempre ilusória. Não há garantias preestabelecidas para um ousar saber e um saber ousar que o incessante nascimento pulsional impõe-nos.

Incessante nascimento pulsional que não poderemos suportar atravessar sem um outro, sem uma leitura vinda do outro: o aprendizado consiste numa mestiçagem assim e só evolui por novos cruzamentos, atestando que os dados sensíveis, nossas experiências erógenas, a irrupção pulsional, ultrapassam, por suas significações, o elemento, o saber e o corpo em que se as supõe enclausuradas, não estando limitadas a nenhuma região especial de objetos, nem sendo privilégio de conteúdo algum.

Deparamo-nos assim com um traçado de um corpo, que está mais em profundidade do que em superfície, que é não o da perspectiva mas o do volume, que sugere a deflagração de algo em via de se produzir.

Um corpo que não cessa de nascer, pois que pulsional, com uma percepção alargada a todos os sentidos: o olfato, o ouvido, o tato, o gosto, o ritmo, o tom, os silêncios, que revelam-se como antenas igualmente importantes como o olhar e o sentido (predominantes ao longo da história ocidental), para uma captação singular do plural da vida. Um corpo com uma inteligência afetiva, mais preocupada com a força de correlações e de analogias do que com estruturas de coerência, ou com uma síntese ou uma chegada a quaisquer conclusões. O pensamento aqui não é separável do corpo, na convicção de que a pulsão, nos seus registros de força de afeto e representação, é também instrumento epistemológico válido.

Delicadamente, analiticamente, Freud nos ensina como começar uma educação no corpo ou a viagem das crianças: aprender de si, no inconsciente, do inconsciente, pelo inconsciente e seus retornos no corpo erógeno-pulsional. Para não coisificar, conteudizar, para não fixar esta educação e esta viagem numa direção, para não nos fixarmos como tal, numa direção dada. A ética da psicanálise e seu aprendizado implicariam então numa política que trabalha para uma humanidade, cuja solidariedade está fundada no reconhecimento do seu inconsciente, força pulsional e representação-desejante, destruidor, medroso, vazio, impossível, infância, que desestabiliza permanentemente o que julgamos ou pensamos ser nossas identidades, nossos corpos.

Nossa questão passa a ser como conviver com um corpo trágico, com um mundo em nós e no outro em que nossa identidade não é dada, nosso convívio amoroso é instável, nosso destino é incerto. Seus custos, suas conseqüências e seus limites: ainda hoje, só ignoramos à custa de uma brutalidade mortífera.

A proposta da educação no corpo freudiana, portanto, não é uma vida equilibrada, medida ou temperada como num sistema de balanças, mas uma espécie de savoir-faire (habilidade) com essa energia incalculável de nossa vida corporificada, cujos efeitos não podem ser conhecidos de antemão, mas apenas interpretados na posterioridade, em seus efeitos, nas complexidades, nas inadaptações e nos sofrimentos que fazem com que nossas vidas sejam nossas e tenham que ser vividas e atravessadas em suas vicissitudes por nós mesmos: sem dublês ou intermediários para as tarefas perigosas.

A meta da psicanálise, sua educação, não seria a meta utilitarista ou instrumental de nos tornar produtivos ou bem adaptados ao mundo em que funcionamos. Ela é, antes, a ética de um saber novo e um novo modo de saber, uma tentativa que comporta para os envolvidos nessa viagem um risco do imprevisível, do desconhecido, na transformação do impossível em possível.

Não se trata mais de só partir, nem de chegar. A questão é o que se passa entre. Precisamente, porque o caminho às terras das pulsões, nossa reserva de infância da linguagem e da razão, implica num aprendizado permanente, já que não opera com conceitos, numa espécie de experimentação tateante, de ver na escuridão, e seu traçado recorre a meios pouco estimados, pouco confessáveis e racionais, nos dias de hoje. São meios da ordem do sonho, dos processos patológicos, da embriaguez ou do excesso, das criações da arte. Na verdade, segundo o veredito freudiano, não conheceremos nada por conceitos, se não os tivermos de início criado, isto é, construído numa intuição que é própria...

Um dos mais esplêndidos traços da invenção freudiana do corpo pulsional é, como numa autêntica criança, quase ignorar a distinção entre o animado e o inanimado, o humano e o inumano, a pulsão como representação e como força ou medida de exigência de trabalho que ela representa. Os meios estéticos e a plasticidade pulsional organizam composições seletivas, condensadas, entre as imposições do mundo observado tal como é e as possibilidades ilimitadas da imaginação criadora. Ela nos diz que as coisas podem ser, foram, ou serão de outra maneira. E esta tradução do inarticulado e idiossincrático, em reconhecimento genericamente humano, exige a mais extrema cristalização e o mais extremo investimento em termos de viagem interior e de controle da exploração organizada do intuído.

No fim de um novo começo e para nos colocar aquém do visível e vermos um há outro corpo, utilizaremos os dispositivos de Cézanne, na série de Santa Vitória, montanha de sua terra natal, perseguida ao longo de quase 50 óleos.

Num espaço curvo em que as formas parecem deslizar umas sobre as outras e cada toque passa sobre os que o cercam, os campos da planície parecem, na sua escalada, aprumar a montanha ao longe e, subtraindo-lhe o peso imóvel, trazem-na para mais perto de nós que os planos mais próximos. Uma triangulação do espaço dramatiza a circulação dos fluxos: a planície, a montanha e o céu atraem-se ou se repelem dois a dois, e os reflexos do céu sobre a terra têm o efeito de preservar os volumes de qualquer fechamento ou qualquer divisão. Enfim, no jogo das forças centrífugas e centrípetas que parecem imitar a inspiração e a expiração de um corpo, a natureza e as coisas, em estado nascente, começam a se mexer, cor contra cor. A cor, tanto aqui, como entre os grandes pintores, tem uma função de ressurreição, onde trata-se não de nossa percepção do mundo, que seria uma visão natal ou de origem, mas, como no processo de Proust, de fundar a percepção do primordial na própria criação da obra. A Santa Vitória de Cézanne não é a representação

de uma montanha, ela é 16 uma montanha-pintura, tão fundadora quanto a muralha de pintura evocada por Balzac em A Obraprima Desconhecida.

Pensamos que a psicanálise, como a arte, não está a reboque das coisas e se revela o forro invisível do visível, por ser sempre um registro constituinte. O corpo erógeno, pulsional, é nossa condição permanente de possibilidades, é essa abertura para a construção de obras em movimento entre as subjetividades, em que essas desenham possíveis que podem ser traçados pelo mesmo sujeito, pela reinterpretação incessante dos escritos, das cores, das formas de sua história, se fazendo continuadamente, em uma incessante mutação.

Pintar, psicanalisar: produzir um mundo e não reproduzir uma imagem do mundo. Que outra coisa pode fazer uma pedagogia freudiana senão adequar-se à sua tela, ao material que lhe oferecemos?

Não cessaremos a exploração

E o fim de toda nossa pesquisa

Consistirá em chegar onde partimos

E conhecer o lugar pela primeira vez.

Através do desconhecido e lembrado portão

Quando o último pedaço de terra a descobrir

For aquilo que era o princípio;

Na nascente do mais longo rio

A voz da cascata escondida

E as crianças na macieira

Não conhecidas, porque não procuradas

Mas ouvidas, semi-ouvidas, na quietude

Entre duas ondas do mar.

Depressa, aqui, agora, sempre.

(T. S. Eliot, Quatro Quartetos)

 

Notas

1. FREUD, S. Sobre la initiación del tratamiento, ed. cit., Vol. XII, p. 125.

2. ______. Consejos al médico sobre el tratamiento psicoanalítico. ed. cit.,Vol. XII, p. 111.

3. ______. Sobre la initiación del tratamiento. ed. cit., Vol. XII, p. 135.

4. KAFKA,F., 1993. Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho. Lisboa: Hiena,p. 16.

5. BIRMAN, J., 1991. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, p. 115-117.

6. LAPLANCHE, J., 1988. Novos fundamentos para a psicanálise. Lisboa: Edições 70, p. 90.

7. Carta de 7 de julho de 1898. In: A correspondência de S. Freud a W. Fliess (18871904). ed. cit., p. 320.

8. FERENCZI, S. Prolongamento da "técnica ativa" em psicanálise. In: Escritos Psicanalíticos (1907-1933). Rio de Janeiro: Timbre/Taurus, p. 183.

9. HAMBURGER, J., 1993. Uma trajetória poética do cotidiano. Rio de Janeiro: Francisco Alves, p. 159.

10. KLEE, E, 1990. Diários. São Paulo: Martins Fontes, p. 271.

11. SERRES, M., 1993. Filosofia mestiça. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 187.

12. FREUD, S. Análisis de la fobia de un nino de cinco anos. ed. cit., Vol. X, p. 40.

13. SCHNEIDER, Μ., 1994. Afeto e linguagem nos primeiros escritos de Freud. São Paulo: Escuta, p. 79.

14. LEIRIS, M., 1971. Idade de Homem. Lisboa: Estampa.

15. MERLEAU-PONTY, M., 1964. Loeil et Vcsprit. Paris: Gallimard, p. 23.

16. RILKE, R. M., 1985. Cartas sobre Cézanne. Buenos Aires: Paidós, p. 56.

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Sherrine Njaine Borges

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