Metamorfoses do corpo: uma pedagogia freudiana
IV Ofício de viver: o corpo pulsão que é de morte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
IV Ofício de viver: o corpo pulsão que
é de morte
Se verdadeiramente estás entre os eleitos, cuida de como adquirir predomínio tal Por mais que te glories, por mais que as cidades da Itália e da Tessália te celebrem os feitos em alta voz, por mais decretos honoríficos que votem os admiradores teus de Roma, nem alegria nem triunfo hão de durar-te, nem te acharás um homem superior (superior?) quando, em Alexandria, Teódoto te leve, sobre um pedaço de pano ensanguentado, a mísera cabeça de Pompeu. E não confies em que, na tua vida limitada, regrada, tão pedestre, nada aconteça de terrível, teatral. Talvez neste mesmo instante a bem cuidada casa do teu vizinho seja invadida por — invisível, imaterial — Teódoto levando uma cabeça pavorosa.
(Konstantinos Kaváfis — Teódoto)
Retomando o ensaio freudiano sobre o narcisismo, vimos como ele havia colocado em questão, de modo irreversível, a primeira oposição pulsional pulsão sexual-pulsão do eu (pulsão de autoconservação) quando formulara que o eu também é objeto de investimento libidinal, formalizando assim uma concepção especular do eu que vinha delineando desde 1910, quando introduziu pela primeira vez a problemática do duplo no seu escrito sobre Leonardo da Vinci. Com isso, evidentemente, o que fica em questão é o lugar de um eu soberano, com a pretensão de ser um intérprete hegemônico do outro, sem estar assujeitado às manhas da libido. O ideal de um eu, de uma razão e de uma normalidade pensada numa relação de exterioridade do objeto, cujas leis eram duradouras, fora do tempo e da história libidinal, perde a segurança absoluta que imaginava possuir ao representar sua prática com todas as ilusões da racionalidade soberana e cheia de certezas. Isto significa, ao contrário do que se pretendia, que o eu, que a razão não está mais sob o domínio total e que o corpo insiste, já que a relação com o código interpretativo, seja ele qual fôr, é libidinal. Nestes termos, o analista e qualquer um de nós não somos mais soberanos no acesso à verdade do Outro, já que não se pode escapar de sofrer o impacto de suas pulsões, intensamente mobilizadas numa experiência intersubjetiva. Por isso mesmo não se tem acesso transparente à verdade. O corpo é o Outro que ressurge pulsionalmente e sempre.
Eis aí uma das certezas das tradições da ciência e da filosofia no Ocidente que se quebra nessa passagem fundamental do pensamento freudiano. A razão não é mais uma ordem estável, nem pode mais pretender ser dada sempre como igual a si mesma. Há uma irreversível descontinuidade no saber dos homens sobre si mesmos, nada escapa neles à libido. Como conseqüência, não existe mais lugar no processo psicanalítico e em qualquer outro, em se tratando de humanos, para a soberania quase absoluta do intérprete, a pretensa pureza do já sabido, na medida em que o eu é também visceral e inevitavelmente marcado pelas vicissitudes da libido, sendo capaz, portanto, de todas as imposturas e desvios, deixando de ser definitivamente o possuidor da transparência racional, pretensamente normal, da verdade.
Como seria possível, no dizer de Heráclito, alguém esconder-se daquilo que jamais teve ocaso?
O eu, lembra Freud, é antes de mais nada um eu corporal, mas acrescenta... não e só uma superfície, senão ele mesmo a projeção
de uma superfície. 1 Esta formulação nos ajuda a compreender o papel do olhar e do espelho. Sem dúvida,um espelho que não é o de Clarice Lispector, ao qual nos referimos. Este é um espelho de dupla face: que forma sua superfície a partir do sentimento corporal e, ao mesmo tempo, cria sua imagem; mas só pode fazê-lo sob a regência do olhar que o transforma em testemunho da forma do semelhante.
Isso introduz necessariamente o conceito de identificação, cuja primeira forma é a narcisista, concebida por Freud em 1917, a partir do estudo Luto e Melancolia, servindo-se de uma sugestão de Abraham de considerar o luto como um modelo normal. Assim como o luto, a melancolia tem como ponto de partida a perda do objeto amado. Mas essa perda não aparece na realidade e, diferentemente do que ocorre no luto normal, o eu melancólico está dividido: uma parte critica implacavelmente a outra e a parte assim atacada representa, por identificação, o próprio objeto perdido. Torna-se necessário supor que o amor pelo objeto já era de natureza narcísica e que a perda do objeto parece provocar a transformação do amor em ódio. O eu se identifica com a imagem de um objeto desejado e perdido. A identificação do eu com a imagem total do objeto representa uma regressão a um modo arcaico de identificação, presente em nossos começos, no qual o eu se encontra numa relação de incorporação com o objeto. Esse estudo constituiu um avanço importante para a teoria do narcisismo e, como ocorre freqüentemente na elaboração freudiana, a análise dos fenômenos patológicos permite trazer à luz os processos normais.
A energia psíquica é indestrutível, mas pode ser transformada e distribuída entre as várias formas de energia psíquica; como uma medida da exigência do trabalho que é imposta ao psiquismo como
conseqüência de seu enlaçamento com o corpo. 2 A pulsão em si não tem qualidade e só podemos saber dela, à luz do dia, quando
se adere a uma representação ou como um estado afetivo. 3 Cada uma delas implica uma forma distinta de energia e pressupõe a mediação de um outro para sua simbolização. Mediação fundamental, que Freud avança ao elaborar um lugar central para as identificações na passagem para o narcisismo secundário.
Aqui, para prosseguirmos, é importante compreender o conceito de identificação em psicanálise. O uso corrente desta palavra reduz-se a um esquema muito simples, composto por duas pessoas, A e B, ligadas por uma relação de identificação. A pessoa A, já bem individualizada, transforma-se progressivamente, por identificação, em B, identifica-se com B. Ora, em psicanálise, esse esquema é modificado em profundidade, uma verdadeira subversão do modo habitual de conceber a identificação. Para Freud, longe de ligar dois indivíduos distintos, transformando-se um deles no outro, a identificação se produz, ao contrário, no espaço psíquico de um único e mesmo indivíduo. Ela é um processo de transformação efetuado no interior do aparelho psíquico, fora de nosso espaço habitual e imperceptível por nossos sentidos. Quando se trata do inconsciente, já não estamos no terreno conhecido de uma pessoa entre outras, no espaço tridimensional habitual, nem estamos mais no nível do indivíduo reconhecido de acordo com um conjunto de referenciais psicológicos e sociais. Estamos em outro lugar, no lugar impessoal e inconsciente desse outro indivíduo singularíssimo,
heterogêneo, qualificado por Freud de 4 o outro psíquico.
Identificação foi o nome dado por Freud para compreender como, no cerne do campo inconsciente, dois pólos — o eu e o objeto—entram em relação. Em outras palavras, dar nome ao processo inconsciente realizado pelo eu quando este se transforma num aspecto do objeto. Muitos malentendidos também advêm do fato de confundirmos, com freqüência, o eu com a pessoa que somos e o objeto com a pessoa do outro. Assim, o termo objeto designa, verdadeiramente, uma representação inconsciente prévia à existência de outrem, uma representação que já se acha ali e na qual virá escorar-se a realidade externa da pessoa do outro ou de qualquer de seus atributos vivos. A rigor, não existem no inconsciente representações do outro, mas apenas representações inconscientes, impessoais, por assim dizer, à espera de um outro externo que venha ajustar-se a elas. Uma parte da energia psíquica, a atividade pulsional, é metabolizada como fantasia e a outra persiste como um resto irredutível que alimenta e arrasta continuamente a pulsão pelo caminho da descarga, isto é, pelo caminho de produzir fantasias novamente. Com efeito, a fantasia é uma formação psíquica, um produto, à maneira de uma isca, destinado a entreter o ímpeto da pulsão. É uma defesa, uma proteção do eu da criança contra o medo do aniquilamento representado pela descarga total de suas pulsões, o que seria um sofrimento infinito. Assim, o objeto coincidiria justamente com esse excesso de energia constante não conversível em fantasia, mas ainda assim causa das fantasias futuras. Mas o objeto não é apenas um excedente de energia pulsional à deriva e situado na origem de diversas formações psíquicas. É, antes de mais nada, uma tensão de natureza sexual, na medida em que ela está ligada a uma fonte corporal erógena, a uma parte erotizada do corpo sempre presente no cerne de uma fantasia. A zona erógena do corpo marca com sua sexualidade tanto o excesso de energia não convertida quanto a energia descarregada. Assim, o objeto adotará diferentes figurações e terá diferentes denominações conforme a zona erógena do corpo prevalente na fantasia. Notemos que a fantasia inconsciente pode manifestar-se tão bem por intermédio de palavras quanto, mais diretamente, sob a forma de um agir.
Assim, para prosseguir, devemos considerar que o eu está preso entre a compulsão à síntese originada do narcisismo e o desejo de ser apenas um com o objeto, devido à sua dependência de uma permanente tensão de natureza sexual pulsional. Quando os obstáculos, venham de onde vierem, opõem-se à realização desta
unidade de dois em um, 5 resta ao eu a solução da identificação, que realiza o compromisso entre eu e objeto. É então que se manifesta a contradição insolúvel do eu: quer ser ele mesmo, mas só pode realizar este projeto através da contribuição libidinal do objeto com o qual deseja se unir, o que nos leva a concluir sobre a duplicidade essencial do eu. Em 1919, no seu artigo sobre O Sinistro, a problemática do duplo, à qual Rank consagrou um célebre estudo, introduz explicitamente o recurso a essa duplicação para defender-se do aniquilamento, nascida sobre o terreno do irrestrito amor por si mesmo que ...com a superação desta fase muda o sinal do duplo: de uma certeza de sobrevivência, passa a ser o sinistro anunciador
da morte. 6
É deste ponto de vista que se pode realmente falar de imortalidade, isto é, de uma autêntica recusa da morte no seio de um eu que se sabe mortal, com seu duplo que se recusa a admitir a fatalidade do término de sua existência. À mortalidade biológica do corpo, sua finitude, responde a imortalidade de uma parte do eu. É o narcisismo — efeito da sexualização das pulsões do eu — a causa disso. A análise da melancolia também já mostrava a existência de uma clivagem no eu em que uma parte deste se identifica com o objeto perdido, enquanto a outra conserva seu estatuto. A melancolia ainda é vista sob o ângulo de uma fixação libidinal, sem nenhuma referência a uma outra fonte pulsional. Pode-se ver, então, como a recusa da morte do objeto pode contribuir, por reflexão, com a fantasia da imortalidade do eu. O esquecimento de nosso próprio fazer sexual infantil, do auto-erotismo, que se inscreve na linhagem dos fenômenos onde o corpo toma o lugar do mundo externo, indica-nos o quanto desejamos nos afastar e o quanto tememos esse corpo. Este (...) regressa como um espírito não-redimido, não
se apazigua até receber a solução e a redenção); 7 pois não há arbitrariedade no psiquismo.
Depois de 1920 Freud formula claramente as proposições nascidas desse estudo da melancolia. Esclarece, sobretudo, que o narcisismo
do eu ê um narcisismo secundário, retirado dos objetos8 e que a identificação é um mecanismo pelo qual o eu captura de volta para si a energia que o isso investira no objeto. Ao capturá-lo de volta, o eu reveste-se dos traços do objeto e por assim dizer se impõe, ele próprio, ao isso, como objeto de amor, busca repará-lo: olha, pode
amar-me também a mim; sou tão parecido ao objeto... 9
Em 1923, em O Eu e o Isso, Freud diz que a transformação da libido objetai narcísica é o trabalho que o eu efetua mediante o
mecanismo da identificação.10 Assim, a transformação dos investimentos de objeto em identificações contribui com uma parcela importante para a formação do eu, que resulta assim da sedimentação dos investimentos de objetos abandonados, contendo dessa maneira a história de suas escolhas objetais. Esse eu nós-mesmos seguro de si não existe mais e vai se revelando não apenas libidinizado, mas também como um estranho país de fronteiras e de alteridades incessantemente construídas e desconstruídas, pois do corpo e seus invólucros, de si mesmo não pode fugir, contra o perigo inferior não vale fuga alguma (...) e o resultado no acontecer psíquico será por força o mesmo que um peregrino que não conhecesse a comarca por onde anda e não
tivesse vigor para a marcha.11
A clínica freudiana se torna, assim, crescentemente mais complexa, como uma palimpsesto de possibilidades sobrepostas, no qual cada um dos níveis cifrados subverte o que se encontra por cima e altera o que fica por baixo. A interpretação da transferência revela como a prática interpretativa recebe uma segunda determinação, isto é, além de ser determinada pelo campo de representações, ela supõe também o campo transferenciai: a transferência é o que impede a emergência da rememoração situada na história libidinal do sujeito, mas é, ao mesmo tempo, o que abre caminho para a sua revelação. Ausência e presença da representação no espaço psíquico, a transferência é simultaneamente resistência e alavanca do processo
analítico. 12
Porém, ao mesmo tempo, Freud começa a se dar conta do que impede a cura analítica, do que a ela faz obstáculo com uma tenacidade tal que anteriormente ainda não postulara. O que inquieta e estimula a investigação de Freud é a inevitabilidade da repetição, que alimenta uma resistência feroz e torna extremamente complicada a resolução do processo analítico. Análises prolongadas, que não se resolviam, assim como a oposição ao processo analítico sustentada num sentimento inconsciente de culpa, colocam novos enigmas, que levam Freud a formular a existência de uma compulsão à repetição, que vai se tornar o indício privilegiado, no plano clínico, do trabalho silencioso da pulsão de morte. Ao formular a noção de compulsão à repetição que ... tem suficiente poder para mudar o princípio do prazer ...e confere caráter
demoníaco a certos aspectos da vida psíquica.. 13 ., Freud rompe com uma teoria unicamente libidinal da transferência. Esta vai continuar a existir como uma manifestação da pulsão de vida, considerada como aquela que permite o trabalho analítico, enquanto a compulsão à repetição se torna o espaço das transferências negativa e erógena, que constituem as bases da resistência.
Em Além do Princípio do Prazer, Freud enumera uma série de observações que, encadeadas, implicam assumir que existe algo, um domínio, onde o princípio do prazer não exerce seus direitos. Os acontecimentos observados seriam: neuroses traumáticas e seus sonhos enigmáticos, certas características dos jogos e atividades das crianças, a estranha característica dos neuróticos frente a análise, isto é, a compulsão à repetição que impede exatamente o recordar e que se encontra também na vida normal. Esse algo é um resto que persiste, que precisa e deve ser explicado e que é suficiente, segundo Freud, para que estejamos diante de algo bastante insistente para justificar a hipótese da compulsão à repetição, algo que lhe parece mais originário, mais elementar, mais
pulsional que o princípio de prazer que ela destrona. 14
A energia inesgotável da pulsão coloca o campo do sentido e o espaço da representação em permanente transbordamento, impondo ao aparelho psíquico, a partir de agora, a exigência constante de lidar com esse além-linguagem, com a problemática da não-inscrição, de marcas que se encontram nos limites do sentido e do representável. A repetição seria uma forma de liquidação de uma experiência transbordante e que se repete, insistentemente, até encontrar sua significação, sua ordenação representativa.
Toda a estrutura do aparelho psíquico tinha que ser revista com esta passagem tópica. O espaço psicanalítico se transforma de uma estrutura fundada na oposição Inconsciente/Pré-consciente, que nada tem a ver com a anatomia, se referindo (...) regiões do aparelho psíquico, onde quer que estejam situadas dentro do corpo
e não a localidades anatômicas, 15 em outra sustentada na oposição eu-isso-supereu, tentando delimitar outras regiões onde podem ser articulados estes fenômenos. Se, por um lado, o isso mantém dimensões do anterior inconsciente, ele é dotado de uma estrutura que em muito o transcende:
Discernimos que o Inconsciente não coincide com o recalcado;
segue sendo correto que todo recalcado é inconsciente, porém
não todo Inconsciente é, por assim dizer, recalcado. Também
uma parte do eu, Deus sabe o quanto importante, pode ser
inconsciente, é seguramente inconsciente.16
Eis que Freud não só descobre um eu cúmplice do inconsciente, um traidor que solapa seus esforços para alcançar mais luz, como também que o processo psicanalítico não visaria a interpretação da inscrição, pretendendo realizar a sua tradução como se passava anteriormente na tópica do Inconsciente, mas também possibilitar que uma inscrição se realize, que uma experiência que deixou marcas se inscrevesse.
Trata-se, portanto, dos destinos a serem dados às duas formas de registro da pulsão: a ideativa e a afetiva, implicando cada uma delas em
uma forma distinta de energia psíquica. Um representante que se inscreveu na ordem ideativa já virou uma energia ligada, energia que estrutura o próprio aparelho psíquico. O afetivo, como força, ainda é ligado de forma direta à pressão da pulsão para ser removida e à sua intensidade típica, de quem não pode esperar, pois seu tempo é hoje, aqui, agora, já; comportando assim um sofrimento infinito e um risco para a própria sobrevivência do sujeito, caso não possa ser ligada.
Portanto, a compulsão à repetição indica o excesso pulsional, o a mais irredutível ao registro da simbolização. Deixa-se então o centro daquilo que é ordenado, simbolizável — o inconsciente — em direção a seus limites, onde ele esbarra com a dispersão e a indiferenciação do caos pulsional. O trabalho psíquico de decifrar e interpretar atinge então o limite, salvo se puder levar em conta — e ele não pode deixar de fazê-lo — esta realidade dos limites, o que obstaculiza a ligação, a reunião do que está separado.
Neste novo contexto pulsional, descobre-se que aquilo que é a causa e o fator determinante de tudo que está sobredeterminado no inconsciente é o que impulsiona de uma exterioridade ao inconsciente, a pulsão e sua força. A pressão da pulsão, gerada por sua força constante, tem sua origem exterior à ordem. O destaque dado à figura afetivamente exuberante do isso, em que um excesso de energia pulsional tem que ser simbolizado, anuncia que a condição de possibilidade para que isso ocorra é a experiência transferenciai marcada fundamentalmente pela compulsão à repetição. Transferência e repetição, envolvendo analisando e analista, se defrontam no reconhecimento, cada vez mais minucioso, da intensidade e da extensão dos fenômenos repetitivos no processo analítico, naquilo que o impede e a ele se opõe.
Assim, nesse quadro psíquico remanejado, em que existem também marcas de experiências que não foram ainda inscritas, a metáfora econômica passa a ter um lugar destacado no funcionamento mental. Voltemo-nos um pouco, então, para a dor e a originalidade conceituai de Freud em pensá-la nesse novo cenário. Ao examinar os fenômenos do traumatismo, os vê como aqueles que põem diretamente em questão o modo pelo qual o organismo e o aparelho psíquico recebem os estímulos e, sobretudo, como procuram neutralizar seus efeitos perturbadores. É esta a estratégia do capítulo IV, de Além do Princípio do Prazer; pensar como o traumatismo pode violar essas situações de bom equilíbrio e, com isso, pondo o aparelho psíquico em estado de pane, fazer com que suas leis regulares e habituais sejam, por conseqüência, colocadas entre parênteses.
No texto que estamos considerando, traumatismo (problemática do pensamento freudiano desde os Estudos sobre Histeria) é entendido como uma excitação vinda do exterior (trata-se, portanto, do trauma que tem por causa algo externo), capaz de provocar uma falha no sistema de paraexcitações... Descrevemos como traumáticas quaisquer excitações provindas de fora que sejam
suficientemente poderosas para atravessar o escudo protetor. 17
O conceito de trauma implicaria a idéia de ruptura de uma barreira que, noutros casos ou momentos, foi eficaz para neutralizar o estímulo. Sua violação mostra o quanto estes dispositivos montados possuem um limiar a partir do qual passam a ser não funcionais. Suponhamos, portanto, que a ruptura ocorra. O que, de fato, acontece? Em vez de pensar num traumatismo de enormes proporções, pensemos em algo de conseqüências mais limitadas.
De que se trata, mais especificamente? De um fenômeno bem conhecido, avisa Freud: a dor.
A dor, que possui uma especificidade conceituai na teoria freudiana, que a faz existir num universo extremamente particular (diferente da constelação do desprazer) tem, aqui, um papel crucial na tentativa de elucidação do problema da compulsão à repetição. No caso da dor, portanto, estaríamos diante da situação em que o escudo protetor (o sistema de paraexcitações, na língua do Projeto...) foi atravessado numa área limitada, tal como numa dor provocada por uma queimadura localizada ou então — o exemplo é de Freud — como no caso de uma dor de dente. Nesse caso há, de um lado, um fluxo contínuo de excitações desde a periferia até o aparelho central da mente. Quer dizer, na medida em que o sistema de paraexcitação foi abolido, essa excitação externa flui livremente como a excitação interna, sem barreiras. Em 1915, Freud (pensando exatamente nesse episódio da dor e percebendo que, nesse caso, a situação do fluxo interno e externo é idêntica) denomina a dor de pseudopulsão. Vejamos a citação abaixo, que nos ajuda a entender o movimento que está em andamento em Além do Princípios do Prazer:
...A fim de melhor delimitar o recalque, examinemos algumas
situações pulsionais. Pode acontecer que um estímulo externo
seja internalizado — corroendo e destruindo, por exemplo,
algum órgão corpóreo — de modo que surja uma nova fonte de
excitação constante e de aumento de tensão. Assim o estímulo
adquire uma similaridade de longo alcance em notável
semelhança com uma pulsão. Sabemos que um caso desse
tipo é experimentado por nós como dor. A finalidade dessa
pseudopulsão, no entanto, consiste simplesmente na cessação
da mudança no órgão e no desprazer que lhe é concomitante.
Não há outro prazer direto a ser alcançado pela cessação
dador.18
Mas, como se reage diante dessa pseudopulsão? Provocada a ruptura do escudo protetor e o afluxo de excitação, isto é suficiente para caracterizar a dor? Não, afirma Freud, e aqui está o aspecto original de sua análise do fenômeno. Ruptura do escudo e afluxo de excitação constituem apenas a condição básica para que ocorra a dor física. Mas ela fica nisso, isto é, na percepção dessa efração, dessa ruptura e de invasão energética conseqüente. Na verdade, e os textos de Freud insistem nisso, essa é a visão simplista das coisas, fundada no senso comum.
O que ocorre é que frente àqueles eventos há uma mobilização de outro conjunto de energias que o aparelho mental tem à sua disposição e cuja finalidade é se opor à energia invasora:
E como esperamos que a mente reaja a essa invasão? A
energia de investimento é convocada de todas as partes para
criar, nos arredores do ponto de intrusão, um investimento
energético de nível correspondente. Produz-se um enorme
"contra-investimento", em favor do qual se empobrecem todos
os outros sistemas psíquicos, de modo que o resultado é uma
extensa paralisia ou diminuição de qualquer outra operação
psíquica.19
O que se passa, portanto, segundo Freud (e aqui, mais uma vez, a dor se diferencia claramente do desprazer, pois além dela visar só seu cessar, sua diminuição é sentida pelo sujeito como prazer), é uma espécie de apelo, de chamada de um conjunto de energias que estão presentes no interior do corpo com a finalidade de aprisionar, bloquear ou imobilizar a energia que está invadindo o psiquismo. A melhor imagem aqui é, sem dúvida, a bélica: fixação do agressor num determinado ponto, impedindo que avance pela contraposição de forças estritamente equivalentes.
É exatamente isso, quer dizer, o resultado desse trabalho psíquico, que conhecemos como fenômeno da dor. O erro freqüente, nesse caso, está no fato de que tendemos a atribuir o sofrimento ao aumento de tensão. Na verdade, o que caracteriza a dor é o encontro da energia livremente móvel, desligada, que tende a escoar-se por todo o aparelho, com a energia mobilizada para bloqueá-la, ligá-la. É esse trabalho psíquico de ligação, de vinculação adicionada que caracteriza a dor. Transformar a energia livre em energia ligada, vinculada, eis o essencial do trabalho psíquico elaborado, cuja conseqüência é uma percepção específica que conhecemos como dor.
É fácil perceber que a diferença entre dor e traumatismo é, num certo sentido, gradual: a dor seria uma efração, de extensão limitada, do escudo protetor, um fenômeno microscópico, enquanto o traumatismo seria uma destruição operada nesse mesmo escudo, mas em larga escala, e teria como conseqüência uma difusão potencialmente mais catastrófica. Mas, dentro de certos limites, tudo isso é relativo. Além de certo ponto, não há defesa possível, nem material (o escudo protetor) nem funcional (mobilização de contra-investimentos), e o organismo naufraga. Aquém desse ponto tudo depende da intensidade da energia invasora e da quantidade de energia que o psiquismo de um sujeito e seu corpo podem mobilizar, de tal maneira que, genericamente, Freud pode anunciar o seguinte:
Um sistema queéaltamente investido cm si mesmo é capaz de
receber aportes de energia nova e convertê-la em investimento
próprio, isto é, de vinculá-la psiquicamente. Quanto mais alto o
próprio investimento do sistema, tanto maior será sua força
vinculadora; inversamente, entretanto, quanto mais baixo seu
investimento menos capacidade terá de receber o influxo de
energiaemais violentas serão as conseqüências de uma
perfuração da proteção anti-investimento como a
considerada.20
Assim, tanto no caso da dor como no caso do traumatismo, os mesmos dispositivos defensivos são colocados em ação. Fica claro que há, em primeiro lugar, um trabalho preliminar que o psiquismo deve realizar: a mobilização de energia que o sujeito possui e o fazer com que elas funcionem como contra-investimentos que bloqueiem e imobilizem essa energia invasora. Esse trabalho supõe, é claro, uma colocação entre parênteses do domínio do princípio do prazer. Primeiro a vinculação dessas energias invasoras, depois o trabalho de desvencilhar-se delas. Assim, é preciso que se conte um estoque de energia armazenada para que se possa colocá-la em ação no momento devido pois, caso contrário, a catástrofe será inevitável.
Desde o Projeto ...assim como em Além do Princípio do Prazer, está presente uma teoria da dor corporal, como vimos. Também, desde há tempos Freud sabe que existe algo denominado dor psíquica e, em 1926, em Inibição, Sintoma e Angústia, articula pela primeira vez esse conceito. A dor corporal, diz ele, ocorre quando um estímulo rompe os dispositivos do escudo protetor e a energia contra-investimento é convocada para bloqueá-la. Essa conceituação, é claro, é idêntica às anteriores.
Ora, quando há dor corporal, diz Freud, ocorre um intenso investimento narcísico no local afetado, o que significa dizer que há uma concentração de investimento na representação da parte do corpo em questão. Isso é provocado pelo fato de que se, sob uma dor intensa, por qualquer razão, houver um desvio psíquico provocado por um outro interesse, a intensidade da dor diminui consideravelmente. Em seguida Freud afirma:
Penso ser aqui que encontraremos o ponto de analogia que
torna possível levar sensações de dor até o âmbito psíquico,
pois o intenso investimento de nostalgia que está concentrado
no objeto do qual se sente falta ou que está perdido, em
contínuo crescimento como conseqüência de sua ausência, cria
as mesmas condições econômicas que são geradas pelo
investimento da dor que se acha concentrado na parte
danificada do corpo. Assim, o fato da causação periférica da dor
física pode ser deixado de lado. A transição da dorfísica para a
dor psíquica corresponde a uma mudança do investimento
narcísico para o investimento de objeto.21
Portanto, o que está interessando a Freud e o que faz com que ele justifique a passagem do conceito de dor corporal para o de dor psíquica — embora neste último não haja, é claro, nenhuma efração do sistema de paraexcitações — é o fato de que, em ambos os casos, é a mesma situação do ponto de vista econômico que se configura, isto é, o mesmo tipo de trabalho psíquico que é requerido. A efração que é fundamental para se pensar a dor corporal passa a ser algo absolutamente sem importância no caso da dor psíquica, em que pese o fato de, em ambos os casos, estarmos diante de um fenômeno essencialmente idêntico. Não há qualquer necessidade de se pensar que o efeito traumático da invasão pulsional tenha como condição a efração dessa misteriosa barreira do eu. Pode-se ter um efeito similar a este efeito sem que esta condição esteja presente, mesmo porque a ausência dessa barreira com relação às
excitações internas já estava explicitamente formulada.22
Assim sendo, podemos considerar que, em casos específicos (pense-se, por exemplo, na angústia do pequeno Hans antes de sua cristalização na fobia por cavalos), o sujeito é invadido por uma carga pulsional perante a qual se vê, por assim dizer, submergido. Mas, nesse caso, como isso acontece? Segundo Freud, as razões são as seguintes: em primeiro lugar, os impulsos originados das pulsões não pertencem ao tipo dos processos psíquicos vinculados, mas sim aos processos livremente móveis que pressionam no sentido da descarga. Isso porque os processos psíquicos inconscientes são totalmente diferentes dos préconscientes, e é no sistema regulado pelos primeiros que as pulsões se alojam
primordialmente.23 Nesse caso, os investimentos são facilmente transferidos, deslocados e condensados, característicos do que conhecemos com o nome de processos psíquicos primários. E, aqui, também, a primeira tarefa do aparelho psíquico será a de ligar, vincular essa excitação pulsional que se aloja no processo primário. Esta é a tarefa primordial, que é a atividade de vinculação, de ligação da excitação invasora que se manifesta como energia livremente móvel, para posteriormente ser possível, por exemplo, descarregá-la adequadamente. O que está Além do Princípio do Prazer é a atividade primordial de ligação. E é no vazio da atividade de vinculação, inscrição, na sua falha que se abre a fresta por onde surge a compulsão à repetição — talvez uma das maneiras, ainda, de tentar ligar o que quer escorrer, livremente, de qualquer forma, a qualquer tempo..., num apelo para poder abrir um lugar em que sua simbolização seja possível.
Como lembrou Pontalis, a experiência da dor é a de um 24 eu-corpo ,
a psique transformando-se em corpo e o corpo em psique. Ora, desde os Três Ensaios de Teoria Sexual, Freud havia estabelecido que todo evento físico ou mental que ultrapasse certos limites é
capaz de provocar uma excitação de caráter sexual,25 tese que manteve inalterada no percurso de sua obra. Quer dizer, qualquer abalo — um acidente, uma cirurgia, por exemplo — pode fazer com que a excitação sexual jorre e é exatamente esse desencadeamento interno da energia pulsional que exerce um efeito traumatizante, só que agora a partir do interior.
Vivemos porém sem possibilidade de reconhecer e aprender sobre as aventuras de nosso próprio corpo e do que nele é apelo ao outro para mediar o pulsional que jorra. Se o ponto de partida da medicina, tanto historicamente quanto a cada nova consulta, é o
sofrimento 26 , isto não impede que na prática médica essa vinculação seja muitas e repetidas vezes desconhecida. O eixo principal da teoria da medicina é, claramente, a teoria das doenças. Todo o trabalho médico e de educação no campo da saúde está voltado para a identificação e eliminação, quando possível, das doenças e das lesões que as causam, bem como dos comportamentos que as propiciam. Tudo o mais é secundário, inclusive o sujeito que, por acaso, traz a doença:
O saber médico é um saber sobre a doença, não sobre o
homem, o qual só interessa ao médico enquanto terreno onde a
doença evolui (...) Mas o lugar onde o objeto subsiste não é o
objeto. Para poder constituir a doença como objeto de estudofoi
preciso entificá-la, constituí-la como um ser, reconhecível em
suas manifestações "semelhantes" de um doente a outro.27
Assim, a construção das doenças como categorias teve que ser
feita excluindose os indivíduos acometidos. No momento em
que pretende o máximo de rigor, no final do século XVIII e início
do XIX, a medicina, que lança como princípio que não existem
senão homens e doenças, encontra a cada passo a lacuna
aberta entre esses dois pólos gerais. Para a clínica, o corpo
torna-se o espaço neutro que se abre à observação e ao saber.
Enfim, liberado de sua história particular, é um objeto.
No entanto, às margens da clínica, uma inquietação ressurge sempre, multiforme, lembrando ao médico e ao educador que seu parceiro verdadeiro não é a doença, nem a humanidade, porém um homem doente. Toda palavra ordenada, refletida, institucionalizada, empregase para negar o corpo. A medicina, sendo por definição a instância do imediato e da intervenção, não teve saída, desde sua
origem, senão na objetivação do corpo.28 Corpo do qual nem o sofrimento, nem a morte em cada sujeito serão levados em conta, ainda menos o prazer, a dor. Trabalhou-se sempre para reduzir o corpo ao corpo (sua estrita corporalidade) e, nesse sentido, a fisiologia, apesar dos progressos da bioquímica, fracassa na compreensão da experiência do sujeito e de sua dinâmica pulsional, quer se trate do orgasmo, da doença, do parto.
O que é que você tem (ou não tem?) Qual é sua bagagem (de crianças, de sintomas, de vitaminas)? Isto é concebido como o domínio do verdadeiro. Toda a medicina é uma taxinomia, o restante não é dizível, e pensa-se, não tem nada a ver com a ciência. Abandonando o imaginário de seus pacientes pela objetividade de seus sintomas, o discurso médico sobre o corpo não cessou, assim fazendo, de pensar apenas em proteger um campo assegurado: exorcizar aquilo sobre o que nenhum procedimento, terapêutico ou não, tem ação explicável.
Essa rigidez contrária ao corpo, a surdez graças à qual este é afastado ou neutralizado, é o produto de toda uma cultura, a nossa,
e desde Empédocles. 29 O apelo sem lei nem moderação que o corpo pode produzir ameaça a ordem e as operações de equilíbrio vigiado sobre as quais essa sociedade se fundamenta para permanecer. Os apelos do corpo — puro desejo, puro sentimento da morte imediata a cada momento — são, rigorosamente falando, o que ninguém pode olhar de frente. Porque absolutamente não é simples relacionarmo-nos com nosso corpo, lugar de uma clivagem dolorosa, ambiente de um paradoxo e desarmonia irresolvível. De um lado, a razão e a fonte de vida de um sujeito, ao mesmo tempo que, pela realidade do pulsional que não cessa de rugir nele, contradiz e choca, questiona, por outro lado, a consciência construída que temos de nós mesmos.
Esse incômodo, esse importuno de exigências constantes e perturbadoras afirma-se em nós
(...) como estrangeiro que teria penetrado, de surpresa, invasor
e tentador; é o Outro, alojado em nós mesmos, dividindo-nos.
Como tal, nosso mais próximo contrário, que nos ameaça e nos
nega. Em represália, nós o negamos. Vê-se, então, a razão e o
sentido de nossos duráveis empreendimentos contra o corpo:
do saber, para lhe designar um lugar sempre estreitamente
marcado; de toda a sociedade para objetivar; da cultura para o
dividir em camadas em sua grafia toda entregue à vista
(estátua, coreografia: um espetáculo); da medicina para não o
reter e não o ler senão em seu visível: o esfolado sobre quem
nos vingamos de nosso íntimo dilaceramento.30
O corpo então encontra-se no limite onde tropeça e se detém o saber, pois a doença, a dor, é uma experiência do limite: limite da identidade até então conhecida, limite da linguagem daquele que sente no sofrimento e na doença seu corpo infinitamente mortal.
No entanto, partindo destas constatações, seríamos precipitados ao recusar a experiência — enquanto referência — do médico: a ele se dirige, sobretudo hoje em dia, uma demanda ilimitada, que se revela facilmente insaciável, de garantias de vida e de abolição da morte. A estas pode-se acrescentar uma exigência quase tão imperativa de gozo sem limites, que só proviria de uma perfeita saúde física, do horror à dor, à sua tolerância dentro de certos limites, que acentuam o desejo de nos afastarmos do corpo, silenciando-o em seu desassossego. Estas demandas situam o médico nos limites de seu saber.
Tal interrogação permanece formulada, no e para o médico, mesmo que não o saiba. Se a medicina e suas explorações instrumentais, bem como a educação em saúde, ignoram a importância e a atividade permanente das imagens do corpo, ativas numa fantasmática que recompõe ou despreza as realidades da anátomo-fisiologia, elas se man
têm, enquanto saber visado, como uma referência para o próprio doente que se apoia sobre um não reconhecimento postulado afim de fortalecer o ser. Quando se trata de sofrimento, seja de que natureza fôr, a imagem do corpo doente provoca a da relação com o médico; pode então ocorrer que suprimir fantasmaticamente este
equivale a vencer aquela. 31
Não nos afastamos do corpo, ainda que assim pareça. E isto nos leva certamente ao narcisismo, ao que Freud nos observa da dinâmica da libido na doença orgânica: o sujeito doente concentra sua atenção em seu sofrer. Quanto mais sofre, mais pensa em sua dor e menos no mundo. E não somente não pensa nos objetos do mundo, senão que retira deles seu amor, seu investimento libidinal: Libido e interesse do eu têm aqui o mesmo destino e se tornam
outra vez indiscerníveis. 32 A libido retraída dos objetos se volta sobre o eu, pelo menos enquanto dura a enfermidade. O indivíduo doente não pode amar a outro que não seja a si mesmo. Demanda ser amado, como uma criança pequena. E este amor é aquele pelo qual um indivíduo trata de seu corpo de maneira semelhante ao
tratamento que comumente se dá ao corpo de um objeto sexual, 33 ou seja, o olha com interesse sexual, o acaricia, o mima, até que graças a estes manejos alcança a satisfação plena.
Para o discurso freudiano, o que torna quase impossível a prática de educar é o reconhecimento de que existe algo no registro do corpo que se opõe radicalmente à completa absorção do sujeito pelo Outro, pelas regras sociais e pela linguagem, mantendo-se como extrínseco ao diálogo e à ordem simbólica e impondo uma insistente diferença no campo do social. Assim, esse algo a mais no psiquismo enlaçado no corpo foi formulado no discurso freudiano de diferentes maneiras, na dependência do momento do percurso teórico: o inconsciente, o sexual,
o isso, a pulsão e a pulsão de morte. Apesar de suas diferenças conceituais, destacaram o reconhecimento desse algo a mais, que pode conduzir o sujeito aos limites da loucura e para as fronteiras de sua singularidade, onde ou ele vive uma existência sem saída ou torna-se possível uma posição de diferença radical face a qualquer
outro.34 Uma das formulações originais do pensamento freudiano é a de que a individualidade não é uma unidade centrada no eu — como é, aliás, a pretensão da instância psíquica do eu — mas uma multiplicidade de estruturas psíquicas e de pulsões que estabelecem entre si uma relação de conflito.
São muitas, seguramente, as coisas que ainda querem ser
cantadas por mim: tudo o que mudo ressoa,
o que no escuro subterrâneo afia a pedra,
o que irrompe através da fumaça. Ainda não ajustei contas com
a chama, nem com o ventoe nem com água... É por isso que a
minha sonolência abre-me, de par em par, os portões
que levam à estrela da manhã.
(Anna Akmátova, Epigrama)
Com a formulação do conceito de pulsão de morte — o Mais Além do Princípio do Prazer e, portanto, fora do espaço regulado por este princípio, Freud destaca que os objetivos da psicanálise tornam-se agora diferentes dos iniciais pois há, agora, uma forma de trabalho da pulsão que é anterior ao funcionamento psíquico definido pelo eixo de oposição prazer/desprazer. Assim, existiria uma operação básica de ligação desta pulsão num sistema de representação, que seria a inscrição primordial, necessária para que o princípio do prazer pudesse funcionar de forma dominante nesse campo de
fenômenos psíquicos.35 Na formulação freudiana de que todo recalcado é inconsciente, mas nem todo o inconsciente é
recalcado,36 há uma relativização progressiva do recalque, hegemônico na primeira tópica ou, em outras palavras, se só podemos chegar a conhecer o inconsciente quando ele experimentou uma transposição ou tradução consciente, a questão que se coloca agora é o que fazer com experiências que não se inseriram num código de linguagem e por isso se repetem insistentemente até encontrar uma ordenação no espaço da representação e suas redes simbólicas.
O recalque ocuparia o lugar fundamental apenas quando é do registro do inconsciente que se fala. Ora, o recalque, mostra Freud, equivale para o mundo interno ao que o sistema de paraexcitações é para o mundo externo. Pode-se então concebê-lo segundo um duplo funcionamento. Por um lado, mantém à distância os investimentos objetais que podem ameaçar a organização do eu. Por outro lado, na sua face externa (como uma luva possui uma superfície interna em contato com a mão e uma superfície externa em contato com o mundo externo), o recalque constitui um
revestimento cuja função é garantir os limites que dá ao eu. 37 Limite móvel e sujeito a variações que pressupõem um certo jogo, absolutamente singular a cada sujeito. Este é o momento de nos lembrarmos que a neurose traumática nasce por surpresa, quando o sinal de angústia não pode ser disparado por causa do despreparo do eu. O que paralisaria o sujeito não seria somente o fato de ter muito intensamente experimentado o que quer que seja, mas de tê-lo experimentado no escuro, tanto no escuro representativo quanto no escuro afetivo. Assim, o choque psíquico estaria mais próximo de um golpe na nuca do que de uma emoção forte. E a experiência de um estrangulamento que está além ou aquém do experimentado e
do representável.38 Seriam instantes essenciais e potencialmente terríveis na vida e no corpo de cada um de nós, em que somos estranhos a nós próprios, vagueando às portas da nossa própria psique, se um outro não confere sentido ao que experimentamos. Batemos às cegas as portas da turbulência, da força criadora, da inibição na terra incógnita de nós mesmos. E quando parece que nada repercutiu num outro, não há somente nascimento de um afeto cercado de silêncio; trata-se, antes, de um processo entravado, inacabado, que nos deixa desconcertados sobre o que acabamos
de viver.39 Como um grito parado no ar.
O sentido que se faz através da leitura do outro dos nossos começos, ordenando nossa pulsionalidade, inscrevendo-a, sempre se verá diante da exigência de recomeçar toda sua organização para poder incluir novas representações da pulsão. O corpo, como fonte da pulsão, permanece alheio a qualquer pretensão de código absoluto, fixo e totalizador. Ele sempre deseja partir, novo, diferente, obrigando o psíquico a reestruturar-se a cada inclusão de novas exigências que lhe são colocadas, exigências das provas por vir, no caminho lá fora, na vida lá fora. Sair do ventre da mãe e do abrigo da casa do pai, primeiras e constantes provas a ultrapassar.
Uma crise, um desequilíbrio, um momento de virada só se torna um desastre quando nos respondem com juízos pré-formados, isto é, com preconceitos e a eles obedecemos. Uma reação dessas não apenas aguça a crise, como nos priva da experiência de confiança no que se acabou de viver e da oportunidade por ela proporcionada a outras interpretações, a um aprendizado do novo, ao acolhimento no eu-corpo de novos elementos ignorados até então.
Passado os primeiros dias depois do nascimento, é impossível que o sujeito experimente algo, o que quer que seja, sem buscar referi-lo a uma leitura vinda do outro. Inevitável desamparo fundamental e prematuridade dos nossos começos humanos perante o corpo pulsional, que nos torna dependentes do outro como suporte e intérprete protetor desse descompasso. Desamparo tanto maior e aterrorizante quanto mais crianças formos ou infantilizados ficarmos. Daí em diante, diz Freud, cada vez que se apresenta o perigo de uma perda de objeto, e depois a ameaça de perda, a angústia será
reproduzida. 40 Essas experiências e o perigo de que a necessidade potencial não seja cancelada pelo objeto se mostram regularmente vinculadas a processos vitais, fazendo com que a saída do corpo da mãe, o desmame, a perda das fezes se constituam em outras tantas
experiências de angústia41 ou de situações-limite onde, como recém-nascidos, de novo, e sempre, alguns de nós as afrontam, as vivem, as transpõem e saem fortalecidos dessa travessia. Outros não: a elas sucumbem, desagregam-se, em várias mortes: na psicose, na submissão à fatalidade de uma situação de nada ser, no silêncio, na apatia e indiferença, na morte em vida.
Mas como levantar resistências e inscrever novos sentidos a partir desse momento em que Freud diz existir na vida psíquica uma irresistível tendência para a reprodução, para a repetição? Tendência que se afirma sem levar em consideração o princípio do prazer e que coloca, além dele, o princípio de uma inércia regida pela pulsão de morte, ligada ao eterno retorno do mesmo,
expressão masoquista da reação terapêutica negativa?42 É isso que Freud se pergunta, em outro contexto do percurso de sua obra, a propósito da sugestão. Se São Cristóvão carregava o Cristo e Cristo
carregava o mundo, onde é que São Cristóvão colocava os pés?43
Vimos que a primeira tópica desdobra-se numa segunda e resta a luta de titãs entre isso, supereu e eu e o papel defensivo atribuído ao eu, que está no primeiro plano e domina os movimentos de Freud em O Eu e o Isso. A luta contra o que se opõe ao processo analítico, o que faz obstáculo a ele, pende nesse momento mais para o lado da força do que do sentido. E a resistência é tão somente o outro nome do recalque.
Com efeito, as resistências não pertencem ao inconsciente. Este insiste e esforça-se por irromper através da pressão que pesa sobre ele para abrir caminho até a consciência. Essa pressão deve-se às resistências originárias da mesma instância que provoca o recalque: o eu. Porém, lembra Freud, o eu é também inconsciente e o isso é
o 44 outro psíquico , obrigando-nos a concluir que não somente o mais profundo, também o mais alto no eu, numa escala de valores, pode ser inconsciente. No eu estaria a razão, mas também as paixões do isso e a sua intensa influência plástica sobre os processos somáticos, sobre o corpo. O postulado que de início o orientara, a busca do prazer regulada pela realidade, isto é, um hedonismo moderado pela sabedoria, não pode mais ser suficiente. Além de manter seu trabalho anterior, o de interpretar, decifrar aquilo que já está inscrito no inconsciente, a questão revela-se mais ampla quando o processo psicanalítico se defronta com uma função antes inexistente.
A procura de estabelecimento de uma ligação fundamental, até então não realizada na história do sujeito, não significa seu alcance e, muito menos, que possa ser sabida antes de ser vivida. Como
ideal, só pode ser alcançado por aproximação, nos lembra Freud. 45 A verdade não é mais algo tão somente preexistente, a ser descoberto, mas que deve ser criada em cada domínio, deve ser construída com cada sujeito.
Nessa estrutura remanejada, com implicações radicais na teoria analítica e na sua clínica, o eu, que no início da teoria era uma das partes do conflito, não é mais sequer o seu árbitro e se arrisca a se transformar precisamente no que está em jogo. O próprio narcisismo aparece como uma defesa contra as pulsões de morte... e o discurso freudiano começa a se referir de maneira sistemática a um conjunto de defesas do eu, dentre as quais o próprio recalque, que
equivale a uma tentativa de fuga. 46
Esse complexo manejo da experiência psicanalítica, agora formulada nestes termos, lança o psicanalista diante dos limites do humano e do inumano, nas suas formas de presença reais, alteridades radicais, para a sua própria subjetividade e, sobretudo, para a sua própria análise. Assim, não existiria qualquer garantia de que o processo de ordenação primordial iria ser levado a bom termo
com cada analisando. Como formula Birman, 47 o desamparo da figura do analista é enorme nessa posição solitária em que se encontra, convivendo com o incerto, o vago, o impreciso e principalmente com o mortífero silêncio ativo, invisível e incessante da pulsão de morte: calmarias que para navegadores experimentados prenunciam o pior por vir. A era das garantias supremas do intérprete foi definitivamente superada e é a imagem de um exilado errante impelido a abrir caminhos ao longo dos limites entre mente e corpo, conhecido e desconhecido, passado e futuro, que se impõe ao psicanalista e a quem queira mover algo nos humanos.