Metamorfoses do corpo: uma pedagogia freudiana
II Constelação da infância da razão: o corpo erógeno
II Constelação da infância da razão: o
corpo erógeno
"... tudo aqui é tão solitário! - disse Alice com voz melancólica. E
ao pensamento de sua solidão, duas grossas lágrimas lhe
escorreram pela face.
— Oh, não fique assim! — gritou a Rainha, torcendo as mãos
com desespero. Pense só em que grande menina você é!
Pense só no longo caminho que você percorreu hoje. Pense só
em que horas são. Pense em qualquer coisa, mas não chore.
Alice não pôde deixar de rir, mesmo em meio as lágrimas.
— E pode-se deixar de chorar só pensando em coisas? —
perguntou.
— É claro,é assim que se faz - disse a Rainha com firmeza —
ninguém pode fazer duas coisas ao mesmo tempo. Vejamos,
para começar, qualéa sua idade... Quantos anos você tem?
— Sete anos e meio, "exatualmente."
— Você não precisa dizer "exatualmente" — observou a rainha.
Acredito que você tenha essa idade exatamente agora. E lhe
confiarei algo em que você deve acreditar. Tenho exatamente
cento e um anos, cinco meses e um dia.
— Não posso acreditar nisso! -disse Alice.
— Não pode? -disse a rainha com um tom de voz penalizado.
Tente outra vez: respire profundamente e feche os olhos. Alice
riu:
— Não adianta fazer isso -disse ela — ninguém pode acreditar
em coisas impossíveis.
— Eu diria que você nunca praticou o bastante -disse a rainha.
— Quando eu tinha a sua idade, praticava sempre meia hora
por dia. Às vezes me acontecia acreditar em seis coisas
impossíveis antes do café da manhã."
(Lewis Carroll, Aventuras de Alice através do espelho).
Desde os Estudos sobre a Histeria, Freud pode enunciar — não apenas teoricamente mas também clinicamente, através da análise detalhada de casos — uma formulação que repetirá de diferentes maneiras ao longo de sua obra: o analisando sempre soube a razão do seu enlouquecimento. Não há propriamente novidade para ele no que se diz ao longo da análise. Freud registra insistentemente que, no final de suas análises, os pacientes afirmavam que sabiam desde sempre o que fora formulado, mas que até então não podiam
reconhecer, nem falar, o que sabiam. 1 Ter constituído o sentido como eixo fundamental que sustenta o discurso explicativo em psicanálise significa admitir a existência da verdade na loucura, até então silenciada pelo discurso médico-psiquiátrico que pretendia avaliar as formações da realidade psíquica com os princípios da realidade material, o que jamais conseguiria. Fazê-lo foi, além disso, uma forma também de sublinhar a intersubjetividade do processo analítico que, como o de Freud, caminha junto com o de seus analisandos, sendo necessárias não apenas a presença destes, como também a elaboração psíquica dos pacientes para que sua análise possa seguir caminho.
Num fragmento de sua correspondência com Fliess, ele explicita ainda mais esta intersubjetividade radical na sua mediação com a produção teórica. Na sua singularidade, o processo de elaboração psíquica do analisando não apenas consolida a construção teórica, como também permite a Freud a interpretação de alguns de seus sintomas:
Você está familiarizado com meu sonho que promete
obstinadamente o término do tratamento de E. (entre os sonhos
absurdos), e bem pode imaginar quão importante se tornou
para mim esse paciente persistente. Agora, parece que o sonho
será realizado. Digo 'parece', cautelosamente, mas, na verdade,
estou bastante seguro. Profundamente enterrada sob as
fantasias dele, descobrimos uma cena de seu período primário
(antes dos vinte e dois meses) que atende a todos os requisitos
e para a qual convergem todos os enigmas remanescentes. Ela
é tudo ao mesmo tempo: sexual, inocente, natural e todo o
resto. Mal ouso acreditar ainda.Écomo se Schliemann tivesse
mais uma vez escavado Tróia, que era até então considerada
umafábula. Ao mesmo tempo, o sujeito está passando
ultrajantemente bem. Demonstrou a realidade de minha teoria
no meu próprio caso, fornecendo-me, numa reviravolta
surpreendente, a solução de minha fobia anterior às ferrovias,
que me passara despercebida..2
Como o que está em questão na experiência da loucura é sempre a realidade psíquica e nunca a material, a interpretação freudiana é uma forma de saber que se constitui entre as duas figuras envolvidas, permitindo que ambas se situem face os mesmos enigmas e procurem aceder às suas singularidades, num cenário atravessado de paixões, algumas vindas de muito longe.
Todos, e cada um de nós, por limitada que seja nossa sensibilidade, conhecemos em nossas vidas, em algum momento, estas entradas imprevisíveis de hóspedes sem convite, irrevogáveis. De Platão a Freud, insinua-se tratar-se de algo como: já nos tínhamos visto antes. E as liberdades que o nosso hóspede toma são de uma variedade quase ilimitada, indo da leve centelha de atenção passageira à obsessão... A alteridade que entra dentro de nós torna-se outros, torna-se outro de nós.
O testemunho fundamental é o da criança. A janela que a criança abre aos visitantes diurnos e noturnos vindos dos sonhos, das fantasias, do desejo inconsciente, dá acesso às verdades psíquicas primeiras. A sala está, por assim dizer, em grande medida ainda por mobiliar. Os armários, os espelhos continuam abertos para o outro lado. A história que se conta a uma criança, a canção que ela, talvez sem dar por isso, decora, vão-lhe direto ao corpo em termos literais. Na maior parte dos adultos, esta relação imediata tende a atenuar-se; o silêncio de uma resposta racionalizada e desencantada, acumulado ao longo do tempo, entra em cena.
Visitação ou chamamento são as palavras certas. A criança segue quem a chamou: para a ilha de Crusoé ou para o arquipélago de Gulliver ou para as guerras intergalácticas. É iniciada tanto no prazer como no medo. Há necessidades adormecidas que ganham lugar e nome.
Privar-nos do sortilégio, do encantamento das histórias é uma maneira de nos enterrar em vida, emparedar no vazio e, como diz Kafka, se muitos sobreviveram ao canto das sereias, ninguém o fez a seu silêncio. A poesia, a mitologia, as viagens entre Cila e Caríbides, ou o interior das tocas dos coelhos, ou o caminho de um flautista, a turbulência da Bíblia, são visitações fundamentais para que não sejamos vítimas de uma morte precoce do sentimento e da imaginação. Pois as sereias são eternas e o ardil de Ulisses não as
destrói.3
Por trás do véu do discurso racional, há rumores a se ouvir. E essa música, tal como a do flautista de Hamelin, ameaça arrastar consigo, como a força da enchente, as estabilidades servis do sentido convencionado, das representações dominantes.
Durante o eclipse passageiro do eu, ainda que seja para dormirmos, outras presenças abrem o seu caminho luminoso ou sombrio. E Freud, ao seguir o chamamento de pôr-se, primeiro e sempre, a estudar as coisas antes de revê-las nos livros, confessa-nos seu assombro ao ouvir nos sonhos dos seus pacientes e nos seus
próprios: 4 a criança, que segue vivendo com seus impulsos.
Para restaurar o sentido dessa experiência no sonho, é preciso articular o sentido que o sujeito sonhador lhe dá numa espacialidade e temporalidade psíquica particular. Transcender à identificação entre psique e consciência é o correlato necessário disso, ou seja, a idéia de que os objetos da realidade material são o referencial privilegiado do sujeito. O inconsciente é delineado, então, como o espaço psíquico primordial. A ele podemos denominar realidade psíquica propriamente dita.
Para realizar essas transformações e empreender a ruptura epistemológica construída pela psicanálise, seria necessário reconhecer toda a materialidade que os fantasmas possuem, legitimando a sua existência no plano da realidade psíquica. Os fantasmas não existem, nem no registro da realidade material, nem em qualquer teoria científica que pretenda se construir tendo como referência os objetos dessa realidade. Mas, no registro da realidade psíquica, eles são materialidades poderosas que perturbam a existência humana, habitando as trevas da vida e visitando-nos na escuridão dos nossos sonhos e horrores.
O estudo dos sonhos vai funcionando como lugar estratégico que permite sublinhar, num outro plano, não só a materialidade dos fantasmas, mas também as analogias entre o normal e o patológico e o destacamento das mesmas regularidades, de modo a poder deduzir da oposição sonho/sintoma o mesmo espaço psíquico possibilitador destas diferenças no campo da unidade. Foi na clínica que Freud diz ter aprendido de seus pacientes que um sonho pode insertar-se no encadeamento psíquico a partir de uma idéia patológica, sugerindo-lhe aplicar a ela o método de interpretação
elaborado para os sintomas.5 Como estes, os sonhos possuíam um sentido, a ser reconhecido nos processos de deformação que os ocultavam. E para escutar "estes rumores" era necessário considerar uma realidade específica, movendo-se nesta constelação com suas leis próprias.
A psicanálise já não está mais confinada à patologia, como ainda em 1895. Freud, ao deslocar a loucura para o campo mais abrangente da representação, foi o primeiro a saber usar uma idéia clássica — o sonho é um tipo de fenômeno "patológico"normal — como antes dele ninguém soubera. Com isso, Freud construiu um modelo do psíquico fundamentalmente dividido, fundado no Inconsciente, definido como um particular sistema de registro marcado pelas transposições simbólicas e pela noção de tradução. Por esta via, ele pôde encontrar no psiquismo do doente as mesmas operações constitutivas que também estariam no psiquismo do normal. A patologia está no inconsciente de cada um. Com a descoberta do sentido dos sonhos, nos ensina que um pensamento normal é traduzido pelo processo primário, que está a serviço do desejo inconsciente, em imagens, como um fazedor de enigmas. Só quando um desejo inconsciente infantil, despertado por um desejo atual, transfere-se para um pensamento normal é que o arrasta, mergulha-o no mundo do Inconsciente, onde ele é submetido às leis ali reinantes. Como diz Freud:
Estes desejos sempre alertas, por assim dizer imortais, de
nosso inconsciente, que recordam os titãs da saga sepultados
desde os tempos imemoriais sob as pesadas massas rochosas
que uma vez lhe jogaram os deuses triunfantes, e que todavia
agora, de tempo em tempo, são sacudidas pelas convulsões de
seus membros; estes desejos que se encontram num estado de
recalcados, são eles mesmos de procedência infantil..."6
A psicanálise deixou de ser o estudo da histeria: ela é a teoria do funcionamento psíquico em geral. E o sonho, como obra de sentido, que implica radicalmente a singularidade daquele que sonha e a verdade de sua história libidinal, servirá de paradigma para outras obras de sentido, como os sintomas e um conjunto de fenômenos até então desprezados pelo saber existente, já que considerados sem qualquer valor, tais como os lapsos, os atos falhos, o chiste. Uma "psicopatologia da vida cotidiana" torna-se possível agora mediante uma lógica da representação, quando então as fronteiras entre os universos do normal e do patológico se delineiam como campos de cores que se esfumam gradualmente como nos pintores modernos.
Freud postula a existência do sentido no plano da realidade psíquica, e não no contexto da realidade material, ocupado pela racionalidade das ciências naturais, e traz uma perspectiva inovadora de deciframento, ao considerar o sonho como um escrito
cifrado,7 onde os signos não remeteriam mais a nenhum sentido fixo, mas a uma diversidade de significações. Se a problemática da singularidade do sujeito e de suas obras de sentido era a sua questão fundamental, este novo campo precisaria se diferenciar de um método de deciframento estabelecido por uma tradição que fazia uma cartografia fixa de signos e os referenciava num código de significações preexistentes. Agora, o escrito cifrado do sonho quer dizer algo singular a respeito do sujeito que sonha, remetendo tanto para o momento passado da sua história quanto para a atualidade da sua experiência psíquica. No deciframento psicanalítico, a interpretação pretende um sentido que existe e não criar um sentido novo pela linguagem do intérprete, a partir dos signos apresentados na configuração particular.
Não se trata de um sentido a ser recriado pelo intérprete, segundo
um outro código, como bem notou Birman. 8 A idéia de uma interpretação completa não tem sentido e não porque se tenham esgotado as significações, mas porque, além do sujeito ser mortal, todo sonho tem um umbigo que se comunica com o desconhecido, onde estamos no mesmo ponto em que Judith no Castelo do Barba Azul de Bartók quando pede para abrir a última porta para a noite.
Nessa perspectiva, o sujeito, cada um de nós, já teria inscrito em seu psiquismo um sentido que orienta o seu caminhar histórico, cabendo ao processo analítico, na relação de intersubjetividades, o deciframento dos enigmas que nos atravessam.
Não caberia mais impôr uma verdade extra-sujeito baseada num código qualquer da realidade material, que acaba por produzir um efeito de normalização psicológica e apagamento do que é singular neste percurso, a cada um de nós. É indicação freudiana que o sonho não apenas tem um sentido, como já é também interpretação, sempre singular, de um sujeito perante os enigmas, os visitantes de sua situação originária da infância.
Freud, conforme sublinhou J. Hyppolite, desbravou um caminho absolutamente novo, onde o sentido é desconhecido para o próprio sujeito, onde desconhecemos as significações que produzimos e onde nossa infância está sempre aí, indestrutível, e nos esmaga com todo seu peso, se bem que o estado desperto e o eu sejam uma espécie de triunfo racional sobre ele, ou, caso queiram, sejam
o próprio racionalismo.9
Os mergulhadores de águas profundas dizem que a partir de certo nível de profundidade o cérebro humano é possuído pela ilusão da possibilidade de um regresso à respiração normal. Quando isso se verifica, o mergulhador tira seu escafandro e afoga-se. Embriaga-o o encanto fatal conhecido como a vertigem das grandes profundidades. Uma vertigem familiar aos mestres das leituras e interpretações escolásticas. Nada mais longe disso do que o método de deciframento psicanalítico, onde não caberia exigir de nenhum intérprete os dons especiais de intuição, nem tampouco os códigos preestabelecidos dos símbolos presentes.
É que o sonho já é uma interpretação e a psicanálise se constitui na medida em que o psiquismo é interpretação. Ou seja, aquilo que o sujeito empreende na experiência analítica é o que sempre foi
realizado pelo psiquismo desde os seus primórdios.10 Desta forma a verdade pode então emergir e ser constituinte da subjetividade. Para tal, o método das associações livres pode se instituir como aquele que ocupa progressivamente o espaço anterior dominado pela técnica sugestiva, na medida mesmo em que ele dá lugar à emergência de todos os pensamentos, mesmo àqueles que são aparentemente sem sentido, não razoáveis, que não apresentam nenhuma conexão com o que está em pauta. Esta metodologia fornece a possibilidade de que aquilo que ainda não adquiriu sentido encontre o seu espaço para existir de forma a poder ser revelado nas várias redes significativas da história libidinal de um sujeito.
Existe então uma analogia fundamental entre as rupturas epistemológicas realizadas pelo pensamento freudiano com a psiquiatria e a psicologia do século XIX e com os saberes interpretativos sobre o sonho, também criticados na constituição do deciframento psicanalítico. Vimos que, para empreender o corte epistemológico com os saberes psiquiátrico e psicológico, a psicanálise abandonou o lugar soberano do intérprete e retirou a sustentação deste de um código universal de verdades. A mesma problemática se colocou no que se refere aos métodos de qualquer saber interpretativo de um livro de relações fixas, apagando a singularidade do sujeito, como na concepção médica, dominante em nosso meio, do corpo humano.
Vimos que a formulação teórica da existência de um corpo representado influencia decisivamente a leitura que Freud faz da histeria e de como encaminhar sua clínica e cura. Este corpo representado afirma a existência de outra ordem corporal que não a da anatomia patológica e se articula intimamente com a questão do trauma. As marcas da experiência traumática incidem sobre a imagem do corpo do histérico — corpo representado, essencialmente inserido na temporalidade da história do sujeito, que busca a satisfação do seu desejo em qualquer tempo, mesmo num momento futuro de sua história. Lembremos que o sonho é um escrito cifrado que revela os desejos originados num tempo passado da história do sujeito e sinaliza a demanda de sua satisfação. Se os desejos são inconcientes, como vimos, são também indestrutíveis, buscando eternamente a satisfação pretendida.
No entanto, a inovação do conceito de corpo representado, bem como a postulação da realidade psíquica como irredutível à realidade material, não nos autorizam a dizer que, privado da base real da teoria do trauma sobre a qual tentara fundar a etiologia das psiconeuroses e o desenvolvimento do mundo da fantasia, Freud abandona a participação do somático, do cenário orgânico na conformação da vida psíquica. De fato, o que ocorre é que os fatores constitucionais e hereditários serão apresentados não como referentes extra-subjetivos, sejam estes de ordem biológica ou social, mas metamorfoseados num registro pulsional, sexual.
Em 1905, escreve Freud: ... tentei descrever os múltiplos aspectos desta constituição sexual, bem como a composição interna da pulsão sexual e das diversas fontes orgânicas que contribuem para
originá-la.11Assim, a constituição pulsional substitui o lugar do trauma na teorização freudiana, sem que com isto Freud abandone o fato real-objetivo de que a criança, desde a sua chegada ao mundo, se vê numa situação de ser atravessada, habitada, por desejos e pulsões dos quais ela não tem a chave do tamanho de sua extensão e efeitos.
"Compor um começo com particularidades e torná-las gerais,
arrolando a soma, por meios imperfeitos. Pois o princípio
indubitavelmente é o fim —já que de nada sabemos, puro e
simples, para além de nossas complexidades.
E no entanto não há nenhum retorno: rolando para fora do
caos, prodígio de nove meses, a cidade, o homem, uma
identidade — e nunca poderia ser de outra maneira — uma
interpenetração, em ambos os sentidos. Rolando para fora!
obverso, reverso; o bêbado, o sóbrio; o renomado; o grosseiro;
um só. Renova-se a si mesmo de tal modo, em soma e
subtração, andando para cima e para baixo. E o ofício,
subvertido pelo pensamento, a rolar parafora, cuide-se ele de
não se voltar tão-só para a escrita de poemas estagnados...
Mentes como camas sempre feitas (mais pedregosas que uma
praia), relutantes ou incompetentes".
(William Carlos Williams, Paterson).
Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, Freud pôde formular pela primeira vez o conceito de sexualidade infantil, indicandonos, de novo, assombrado, como esta sempre esteve presente na estruturação do sujeito e não foi notada. Considera que isto deve guardar estreitas relações com a amnésia da maioria dos adultos sobre a sua própria infância.
Assim, com a teoria da sexualidade infantil, a psicanálise encontra um novo desdobramento, com a descoberta de um corpo erógeno
que se constitui a partir deste corpo representado originário. 12 Com isso, o corpo representado da histeria adquire uma singularidade e uma complexidade inauditas.
Vimos que a função sexual — e não todas as funções biológicas do organismo humano — é o que interessa especificamente a Freud na relação entre corpo biológico e corpo representado. Em primeiro lugar, na clínica e na etiologia das neuroses é esta função que aparece como relevante, pelo silêncio que a cerca — a história infantil sexual sepultada. Além disso, por suas três características especificamente humanas, a função sexual do sujeito parece ser a única, entre as diversas funções biológicas, cuja realização no organismo depende de uma passagem pelo registro da representação psíquica. Revela-se, assim, a singularidade do organismo humano no plano biológico e finalmente se encontra a via privilegiada para investigar esta passagem do registro corporal para o registro psíquico. Isto leva Freud a distinguir o sexual do genital, postulando a sexualidade como uma função corporal mais ampliada, que aspira ao prazer e que só secundariamente entra a serviço da reprodução. Na verdade uma ampliação que, mais que inovar, restaura, segundo Freud, o conceito em questão, restrito inadequadamente:
O desprendimento da sexualidade dos genitais tem a vantagem
de nos permitir considerar a atividade sexual das criançasedos
perversos sob o mesmo ponto de vista que as dos adultos
normais, sendo que até então a primeira havia sido inteiramente
descuidada, a outra admitida com indignação moral, porém sem
nenhuma inteligência.13
Agora, por este caminho, pode emergir e ser delimitada a problemática humana original e específica. Esta maneira de colocar a questão das relações entre corpo biológico e corpo representado abre a via metodológica para constituir o conceito de pulsão que, na economia interna da psicanálise, vai desempenhar depois o papel de uma importância fundamental e radical.
Para se constituir como uma nova forma de saber sobre a psique, a psicanálise precisou romper teoricamente com a questão do instinto, que estava centrada na problemática do corpo biológico. Só assim o pensamento freudiano pôde estabelecer as condições para construir outro objeto teórico, depois denominado pulsão sexual.
Definida como um conceito-limite entre o somático e o psíquico, a pulsão procura ultrapassar a relação de oposição tradicionalmente estabelecida entre essas duas ordens do mundo. Para a teoria psicanalítica, existe entre ambas um espaço virtual que realiza a mediação fundamental para regular as passagens de uma a outra:
...a pulsão aparece como um conceito-fronteira entre o psíquico
e o somático, como o representante psíquico das excitações
oriundas do interior do corpo e chegando ao psiquismo, como
uma medida da exigência de trabalho que é imposta ao
psíquico em conseqüência de sua ligação ao corporal.14
O psíquico se origina do somático, mas as relações entre ambos não são simples e diretas, pois é necessário um trabalho psíquico para que a passagem possa realizar-se. Antes de mais nada, as pulsões são sempre um afazer: o que diferencia as pulsões entre si e lhes atribui propriedades específicas é sua relação com suas
fontes somáticas e seus alvos. 15 A fonte seria um processo somático excitante em contínuo fluir em que o impulso leva a pulsão a se expandir constantemente e o princípio de constância marca os limites do diferencial prazer/desprazer. As pulsões têm que (se) descarregar a fim de evitar o desprazer: com isto encontram um alvo, que é o objeto pulsional.
No humano, há que se estancar a fonte somática, que é inesgotável. Se isto não se dá, o indivíduo fica especialmente adstrito ao registro orgânico. Atingir o alvo de descarga das excitações pulsionais constitui o outro extremo das pulsões, ao mesmo tempo em que indica como o homem (mesmo jamais deixando de ser orgânico) não se determina apenas organicamente. Lembremos que o corpo orgânico é um caos, mas não como sinônimo de desordem e sim de
excesso de movimento e articulação pulsional que é dispersiva. 16 Se se toma a libido como uma energia somato-psíquica, que se organiza sob a forma de pulsões, veremos que ela não se mantém igualmente distribuída pelo corpo, que é todo libidinal. Assim, este trabalho de ligação das excitações corporais é a fonte originária específica da psique, considerada como o espaço simbólico onde as excitações corporais se inscrevem no universo da representação. Mediante este trabalho, a psique se reproduz permanentemente enquanto tal, enfrentando uma pressão pulsional insistente e ininterrupta ao longo da vida. Existe, assim, uma heterogeneidade fundamental entre a ordem corporal e a psíquica, que não são lineares e nem se restringem a uma causalidade simplificada. Com o conceito de pulsão, a ordem psíquica é retirada do lugar de receptáculo passivo do que vem do corpo, onde estava restrita à condição de um epifenômeno ou de uma simples auto-expressão da ordem somática.
O princípio do prazer/desprazer coloca-se como o pressuposto teórico fundamental que regularia as demandas introduzidas para a realização dessa transposição, sendo a ordem psíquica considerada como o único lugar onde se pode dominar a insistente pressão pulsional. A realidade psíquica se materializaria nas diferentes marcas da representação psíquica das pulsões e na dinâmica que se estabelece entre elas, configurando um caleidoscópio de múltiplos arranjos, dotado de movimento incessante. E a pulsão passará a ser considerada necessariamente traumática quando se encontrar com um espaço psíquico carente de representações e,
por isso, incapaz de fixá-la e dominá-la adequadamente. 17
No momento mítico da constituição da psique, a criança estaria então submetida a uma enorme pressão pulsional, sem possuir nenhum meio de domínio dessa movimentação pulsional ininterrupta. Por faltar-lhe um sistema de representações capaz de dominar e fixar as pulsões, esta experiência pulsional originária é traumática. Esta impossibilidade originária de exercer domínio pulsional é atribuída por Freud a uma carência fundamental do sujeito: à sua prematuridade diante da pressão pulsional ao nascer, que o coloca numa posição de desamparo, tornando-o dependente de um outro como suporte para protegê-lo da terrível experiência de
desamparo diante da violência pulsional.18
Assim, define-se a dependência fundamental de cada um de nós frente a um outro, sem o qual não há escapatória numa situação-limite. Desde os nossos começos, o domínio da força pulsional se dará através de um outro situado como suporte e intérprete dessa pulsionalidade polimorfa, sem o qual não existe qualquer possibilidade da simbolização e mesmo de sobrevivência. Se considerarmos que as demandas pulsionais são múltiplas, diversificadas e associais, poderemos perceber que a pulsão é uma força desmesurada, desmedida sobre o eu, na medida em que existe no psiquismo um descompasso irresolvível entre ela e os objetos da realidade exterior, dos quais se espera que a satisfaçam. Não haveria nenhuma harmonia preestabelecida e a discórdia seria fundamental: a evolução do eu se adianta à evolução da libido, e o adiantamento de uma só pode receber mal o atraso da outra. E, quanto menor fôr a idade da vida, maior é essa desarmonia, o que confere ao sujeito a característica de um desamparo fundamental, no qual necessita vitalmente que o outro exista, receba esta força pulsional e seja capaz de operar o trabalho da ação espacífica no mundo exterior no lugar do indivíduo desamparado, isto é, capaz de completar no interior de seus corpos a operação requerida para
cancelar o estímulo endógeno.19
Contudo, esse descompasso entre a pulsão — esta força impulsionadora (Drang) que é mais forte que o eu e que, por isso mesmo, o submerge como exigência incontrolável de satisfação — e a simbolização nunca cessa, estando todos nós, para sempre, destinados à permanência neste desamparo interior a nós mesmos. Vale dizer que o domínio dessa força é fundamental e a sua inscrição no universo da representação seria então o que inaugura o sujeito como sentido e como intérprete, como sujeito-interpretação
da força pulsional,20 portanto, vital para sua existência.
Desde o Projeto de uma Psicologia Científica, Freud destacava a importância desta problemática que estaria nas origens da compreenção mútua:
(...) o organismo humano e nos começos incapaz de levar a
cabo a ação específica. Esta sobrevem mediante auxílio que
não lheepróprio; pela descarga sobre o caminho da alteração
interior (por exemplo, o grito da criança), um indivíduo
experimentado se dirige ao estado da criança. Esta via de
descarga adquire assim a função secundária, importante ao
extremo, do entendimento on comunicação e o inicial
desamparo do ser humanoéa fonte primordial de todos os
motivos morais.21
O grito, o apelo ao outro, seria a resultante de uma função
interpretante originária, 22 de maneira que a ação específica capaz de satisfazer a demanda pulsional se realizaria no contexto intersubjetivo, fora do qual a criança não teria qualquer possibilidade de domínio pulsional.
Estas inscrições originárias são passíveis de transformação, não permanecendo absolutamente imutáveis. Do constante impulso pulsional e de novos contextos intersubjetivos resulta uma maleabilidade que permite ramificações formadas a partir de cada núcleo de inscrições originárias. Nos diferentes contextos em que se estruturarem as relações do sujeito com o mundo, através do outro, as inscrições originárias serão despertadas, poderão se transformar, mas não silenciarão as inscrições básicas que estão na origem de cada cadeia associativa.
Para Freud, uma certa zona erógena organiza a libido e propõe modos de relacionamento com o outro que marcam as vias libidinais. Assim, ele pôde mostrar as três características básicas da sexualidade infantil, através do ato de sugar o dedo ou sugar sensual: Esta nasce apoiando-se em uma das funções corporais importantes para a vida, todavia não conhece um objeto sexual, pois e auto-erótica e sua meta sexual se encontra sob o império de uma
zona erógena.23
A sexualidade vai ser revelada aos poucos pelas diferentes atividades do sujeito. No instante mesmo em que satisfaz suas necessidades nutritivas, o fluxo do leite começa a provocar no
sujeito um efeito colateral 24 que, aos poucos, provocando um significativo desvio das funções somato-vitais, vai adquirindo uma autonomia que se cristalizará, mais tarde, na atividade de sugar o dedo.
Assim, efeito colateral e desvio da função biológica, a sexualidade irrompe na criança secundada por algo e cristaliza-se em zona erógena (boca, ânus, seios, genitais) privilegiada mas que, na verdade, pode ser qualquer parte do corpo. Qualquer região pode secretar a sexualidade. E, no limite, não só o corpo como qualquer atividade humana pode ser a fonte ou dar lugar à irrupção do
sexual. 25
Ou seja, estes lugares privilegiados da constituição pulsional, as zonas erógenas onde a pulsão não existe fora de seu circuito inteiro (suas quatro condições: fonte, pressão ou impulso, objeto, alvo), têm duplo estatuto. São primeiramente um modelo para o corpo erógeno, que só existe articulado com este corpo. Mas ele não se reduz ao que é a necessidade do corpo fisiológico, por isso, como segundo estatuto, as zonas erógenas são lugares de acúmulo quantitativo libidinal, escoadouros necessários para sua distribuição desequilibrada.
A sexualidade infantil é esse estado livre e selvagem onde as mais diferentes pulsões, as diferentes zonas erógenas ativam-se e desenvolvem-se, num primeiro instante absolutamente
independentes umas das outras.Verdadeiras ilhas de prazer, 26 essas diferentes pulsões, alojando-se em certas zonas, trazem para a criança um fluxo constante de prazer. O mérito maior de Freud não foi só mostrar que a sexualidade já estava presente antes do que se pensava, mas operar uma reconstrução da sexualidade ao desvinculá-la, por um lado, da genitalidade e, por outro, de um modelo comportamental pré-formado (instinto).
É observando a polimorfia perversa na criança que podemos começar a fazer uma idéia de sua natureza e de seu modo de funcionamento. Ela é um conjunto disperso, autônomo, de atividades sem ordem nem organização. Cada uma delas segue por sua conta, pouco se importando com a vizinha. Daí a organização pulsional em zonas e fases, com objetos específicos de apaziguamento pulsional.
Assim, e isto é muito importante para se compreender a subversão original de Freud quanto à sexualidade e ao corpo, podemos dizer que a própria forma de sexualidade humana é a infantil, que é a do corpo erógeno, tal como se manifesta sem estar ainda submetido a processos organizados de defesa, totalização, coerência.
Como podemos caracterizar tal conjunto não hierarquizado? Parece-nos que o corpo erógeno consiste precisamente em uma ordem que escapa inteiramente desta dimensão da unidade totalizadora, isto é, da unidade reagrupadora no sentido de uma individualidade, com a qual nos habituamos pelo registro da coerência. É antes incoerente, no sentido habitualmente dado ao termo para algo que não pode ser articulado por uma unidade
totalizadora.27 Portanto, lidamos com um estado limite, estado de dispersão permanente.
Em outras palavras, o corpo erógeno constituiria o aspecto singular, algo que acentuaria a singularidade, pois teríamos que nos haver com a erogeneidade da diferença sexual pulsional desde sempre. O nascimento pulsional é distinto do nascimento orgânico, tem regras próprias de constituição e é irredutível tanto ao orgânico, onde se apóia, quanto aos sistemas simbólicos que experimentam apreendê-lo, fixá-lo. Toda relação intersubjetiva entre dois corpos é erógena, pois qualquer ponto da superfície do corpo pode originar uma excitação do tipo sexual, ou seja, transformar-se virtualmente em zona erógena.
Nesta perspectiva, como bem observou Katz,28 a sexualidade infinita do investimento sexual humano está articulada à sexualidade finita do corpo humano. Por isso, a pulsão, conceito essencial da obra freudiana, é o que nos vai permitir pensar o homem entre o infinito e o finito, o humano e o inumano.
Ao processo psicanalítico caberia abrir esta rede singular de inscrições, que marca a história de um sujeito e que orienta o seu destino. E aqui importa destacar que os múltiplos objetos de apaziguamento pulsional não são parciais em relação a uma totalidade ou harmonia que lhes dê sentido, da qual eles derivariam ou para a qual se dirigiriam. Eles foram e sempre serão parciais, são originária e essencialmente parciais. E se os objetos não são partes de um todo é porque não há o todo; se não são fragmentos de uma unidade é porque não há a unidade; se não são desvios de uma harmonia é porque não há a harmonia.
O pensamento freudiano, portanto, exige, com o conceito de corpo erógeno, que pensemos no valor que tem em si a parcialidade, o fragmento, o incompleto bem como nossas insistentes construções finalizadoras de unidades, totalidades, harmonias.
Nesta perspectiva, podemos agora compreender melhor o sentido do primeiro ensaio, lendo os Três Ensaios... Qual é ali a polêmica de Freud e a quem ela se dirige? A opinião popular — diz Freud — tem idéias muito precisas a respeito da natureza e das características da
pulsão sexual.29 Conhecendo um pouco o cenário médico-psiquiátrico do século passado e suas teorias acerca da experiência da loucura, é claro que uma polêmica muito mais importante está sendo montada por Freud e não é com a opinião popular. Lembremo-nos que ele já havia dito que a concepção de sonho dos leigos, ainda que meio supersticiosa, se aproximava mais da verdade do que a da medicina.
É toda a concepção montada pela biologia e pela psiquiatria do século passado que está sendo diretamente visada. Instinto natural, orientado para a reprodução e por isso heterossexual por definição, eis o que é em essência a sexualidade para o século XIX. E já que a finalidade da sexualidade é a reprodução, tudo aquilo que não atender a essa finalidade será relegado ao campo do negativo (sexualidade infantil e senil) ou do desvio (homossexualismo, perversão). Assim, o primeiro dos três ensaios é a longa e
minuciosa desmontagem 30 desse conceito de sexualidade. Mas não seria muito pouco, por exemplo, tantas páginas sobre a inversão para concluir que provavelmente a pulsão sexual e no começo
independente de seu objeto? 31 Pouco ou não, talvez não seja fundamental, mas, seguramente foi um golpe mortal na concepção biológica e médica visada que supunha a sexualidade instintiva, já contendo, em si, como uma espécie de comportamento preexistente, a natureza do objeto a que se dirigirá.
No fim dessa polêmica, onde muitas outras coisas são postas abaixo, o que fica muito claro é que a sexualidade não é algo dado pronto e acabado, que o sujeito humano traz desde o início e que o habitará latentemente até que, na época apropriada (a puberdade), irrompa com suas características marcantes. Não, a sexualidade não é algo que, adormecido, habita nossas entranhas esperando o momento oportuno para se manifestar. Ao contrário, em vez de ser algo pronto, ela é o resultado de uma síntese, de uma composição, onde diferentes pulsões (sempre parciais, fragmentadas), diversas zonas, serão, através de um outro, progressivamente ativadas e provisoriamente poderão tomar a forma final que conhecemos. Assim, aprendemos que sexualidade e reprodução convergem, mas não obrigatoriamente, pois não há finalismo no psiquismo humano, o que é distinto da necessidade vital que temos de um outro, como um princípio ordenador e organizador da multiplicidade tanto corporal como simbólica.
Freud se afasta assim, de novo, de modo radical, dos corpos estabelecidos pela anatomia e pela fisiologia. O corpo erógeno se revela transitório, deslocável, e o da anátomo-fisiologia seria pensado como fixo e imutável, respondendo a relações fixas sob a forma de um sistema de estímulos-respostas. E este corpo erógeno é diferente também daqueles corpos humanos pensados como força de trabalho, pois sua erogeneidade nos lembra o que Freud teorizou como o prazer, este gastador, dissipador, que não gosta espontaneamente de trabalhar e contra quem os argumentos nada
valem. 32 Aprendemos, assim, que não há corpo instintual, assujeitado ao natural. As conexões entre psiquismo e orgânico são necessárias, mas não pontuais, como podemos ler em Freud:
O inconsciente e o psíquico verdadeiramente real e nos é tão
desconhecido em sua natureza interna como o real do mundo
exterior e nos é dado pelos dados da consciência de maneira
tão incompleta como o é o mundo exterior pelas indicações de
nossos órgãos sensorials.33
Haverá sempre um resto, um inassimilável. Como diz Chico Buarque, trata-se do que não tem governo, nem nunca terá. Não basta mais o corpo representado.
Restam então as explicações, as histórias míticas sobre nossas origens. Tantas histórias quantos foram os registros libidinais que marcaram o corpo e a trajetória de constituição de um sujeito, desde seu reconhecimento pelos outros, entre os quais, primeiramente e o mais importante, está a mãe que o gerou.
O corpo erógeno é uma criação, invenção permanente que sempre transgride seus limites. Singularidade da organização libidinal que se conjuga, porém, com a universalidade de determinados fantasmas (fantasmas de sedução, de castração, da cena primária).
As diversas 34 teorias sexuais infantis são, para Freud, as versões míticas que o sujeito constrói através dos destinos singulares do corpo e o que pensa com o corpo por meios que não havia percebido, corpo esse cujo destino enigmático exige dele uma singular interpretação retrospectiva.
Assim como as teorias sexuais infantis, os sonhos não demandam um código exterior ao sujeito para que possam ser interpretados. Além de uma interpretação já realizada, é uma combinação de símbolos que se ordenam por um código determinado, cuja regras de funcionamento e de sentido são sempre singulares a cada sujeito e referentes a um contexto determinado.
Lembremos o que significa símbolo: é antes de tudo uma palavra técnica da língua grega que significa pedaços de recordação. Um anfitrião dá a seu hóspede a chamada tessera hospitalis, ou seja, ele quebra um caco no meio, conserva uma metade e dá a outra ao hóspede, a fim de que, quando daí a trinta anos, ou mais, um sucessor desse hóspede vier de novo à sua casa, um reconheça o outro pelo coincidir dos pedaços em um todo. Um antigo passaporte: este é o sentido originário de símbolo. É algo com que se reconhece
em alguém um antigo conhecido. 35
Ao propor o sujeito como significado, a descoberta freudiana o considera também fundamentalmente como intérprete, não o restringindo a um mero objeto interpretável pelo analista, ou tábula rasa de teorias e práticas que tornam o saber como assemelhado a uma substância e, como tal, destacável de um e aplicável ao outro.
Se soubéssemos aprender da observação direta das crianças, não
apenas os 36 Três Ensaios, como diz Freud, poderiam não ter sido escritos; talvez, arriscamos dizer, a própria psicanálise não precisaria ter sido inventada. Se soubéssemos... A força própria do infantil, de um corpo erógeno, não pensa, nem calcula, nem julga, lembrando-nos incessantemente aquilo que esquecemos, que recalcamos: as tendências criadoras da infância, de que muitos de nós só raramente experimentamos a solicitação e o apelo. Respondemos a essa solicitação somente de modo efêmero ou narcótico.
O trabalho da infância, tal como o inconsciente e o corpo erógeno, é um coelho de Alice que se esquiva incessantemente e, no entanto, Freud não pode deixar de alimentar a esperança de descobrir uma forma para o infigurado, o fugidio, o impronunciável: terra prometida e promessa sempre adiada. Mas o ideal do eco completo, da recepção transparente é um ideal messiânico. O enigma de nossas origens como sujeitos nos acompanha desde sempre.
É um lugar-comum da etnografia observar que as formas de arte chamadas primitivas, mais precoces, visavam domesticar, tornar familiares as presenças animais que enchiam a grande treva do mundo exterior. As pinturas rupestres são ritos talismânicos e propiciatórios cumpridos para transformar o encontro com a estranheza e a ameaça maciça das presenças do mundo da vida numa fonte de reconhecimento e benefícios mútuos. Todas as representações, mesmo as mais abstratas, concluem por um encontro com a inteligibilidade ou, pelo menos, com uma atenuação da estranheza, elaborada pela adoção de uma forma deliberada. A apreensão (o encontro com o outro) é ao mesmo tempo medo e percepção. O continuum entre ambos, a modulação de uma coisa
na outra, acha-se na origem da poesia e das artes. 37
Ao manifestar reiteradamente sua admiração e seu desejo de aproximar-se do que sabem e podem os poetas, Freud reconhecia uma força na literatura e nas artes por serem capazes de dizer do absolutamente estranho com que nos deparamos no labirinto da intimidade, sendo sua ênfase no óbvio o melhor caminho para a redescoberta do real sepultado sob o entulho das convenções. Falam-nos do Minotauro no coração do amor, das relações familiares, da mais extrema confiança, da interrogação insistente feita por nós mesmos sobre nossos começos e que se reapresentará ao longo do caminho da nossa aprendizagem de viver num corpo deslocável, pois que erógeno:
— a comunicação acerca das teorias sexuais das crianças, tal
como elas se configuram no pensar infantil, pode resultar
interessante em diversos contextos; também — coisa
surpreendente — para entender os mitos e contos tradicionais.
E resulta indispensável — para a concepção das próprias
neuroses, nas quais estas teorias infantis conservam vigência e
têm um impacto que chega a comandar a configuração dos
sintomas.38
Segundo Freud, o primeiro e absolutamente estranho com que nos defrontamos, o primeiro e mais importante problema da vida, é "de onde eu vim?"; que não se desperta de modo espontâneo e nem como uma necessidade inata de pesquisar as causas, mas como pressão pulsional, movimentada pela chegada de um outro, um irmão. Desorganiza-se um arranjo (até então) para se introduzir um novo e o medo de perdermos o outro ordenador pulsional a quem aprendemos a amar. (...) tem por efeito despertar a vida de
sentimentos da criança e aguçar sua capacidade de pensar. 39 Orientação fundamental para o surgimento e o desdobramento do apetite de saber, isto é, a paixão pelo saber e a curiosidade em
conhecer,40 a alteração do corpo grávido da mãe não escapa aos penetrantes olhos da criança, como diz Freud. Restam então explicações e teorias, ainda que grotescamente falsas, e que contêm um fragmento da verdade e são análogas neste aspecto ás soluções consideradas "geniais"que os adultos buscam para os
problemas do universo cuja dificuldade supera o intelecto humano.41
E para respondermos de onde vem este novo, que aqui não estava e nos desassossega, e o que tem a ver o crescimento do ventre materno e sua própria aparição, objetiva necessidade da
constituição psico-sexual, 42 formularemos teorias tais como atribuir a todos os seres humanos um mesmo sexo, aquele que se
exterioriza masculino,43 que a mãe comeu algo, então evacuou este
novo e assim todos podem parir igual, 44 e que o ato de amor de
onde saem os filhos é violento.45 Como nestes tempos míticos esse pensar intensamente sobre algo, duvidar, se tornará arquetípico para todo o trabalho posterior de pensarmos em torno de problemas, de quaisquer problemas, tal como na infância, habituada a prestar atenção a pequenos indícios.
Nosso envolvimento pulsional e erógeno na investigação sobre o enigma de nossos começos se transforma no paradigma que nos faz nascer psiquicamente para as demais perguntas que podem ser feitas, incitando permanentemente o desejo de saber. Afogando o mais precocemente possível este frescor da ignorância em nós, condição para o pensar criador, em favor do estimado bom juízo, o que se quer então despistar?
Se as interpretações sobre nossas origens são essencialmente sexuais, podemos nos perguntar se a teoria, se qualquer teoria, não é fundamentalmente sexual e originariamente disparada pelo primeiro e mais importante problema da vida, que nunca se responde inteiramente, um claro-escuro, cuja presença constante nos acompanha ao lado do para onde vou? e que impulsiona o desejo de saber. Não saímos das nossas ignorâncias e das nossas limitações; por isso aprendemos permanentemente.
O pensamento freudiano, sua concepção de um corpo erógeno como um trabalho incessante a significar, coloca-nos fundamentalmente diante de nós mesmos e do outro, como tendo que realizar aqui, ali, acolá e sempre o deciframento de versões das teorias sexuais infantis, renovando assim e sempre nossas histórias míticas: as que contamos, as que nos contam, as que se contam. Desse modo, o trabalho de interpretação psicanalítica e seu aprendizado aparentam-se com a sabedoria dos habitantes do deserto que se vestem de areia e sabem identificar nuances e diferenças onde só parece haver repetição.
Tal como as teorias e a interpretação de nossos sonhos não caem do céu, obrigando-nos a desconfiar se alguém nos oferece desde o
começo de suas observações 46 uma teoria redonda e sem lacunas
assim são também as pretensões de que no percurso de um sujeito tudo esteja em paz em seu corpo (qual deles?), sem dificuldade alguma, uma criança bem criada. Pois ainda que seja inteiramente problemático saber a que deve aspirar a educação no campo da
saúde e onde tem que intervir,47isso só poderia ser fruto de uma exploração dos fatos sem prévios supostos, obrigando-nos a nos mover permanentemente com um certo grau de incerteza.
Ora, o que anuncia um novo tempo chega sempre como um sopro sutil de vento, suavemente, sem grande estardalhaço e corre o risco de que não escutemos seus rumores.
Estas descobertas abrem para Freud um outro novo mundo, o da realidade psíquica, existindo analogias entre o sonho como escrito cifrado e um corpo erógeno; pois sempre querem dizer algo singular a respeito de um sujeito e sua história libidinal, do que se passa entre o momento passado de sua história e a atualidade da sua experiência. Pretendendo construir uma hermenêutica original sobre o nascimento do sujeito, ao desdobrar o corpo representado em corpo erógeno, Freud é impelido a tornar-se crítico incisivo de qualquer pretensão de recriar um sentido, uma representação para um sujeito, desde fora de suas teorias sexuais infantis e segundo um outro código de corpo, o que só poderia se dar como normalização social e apagamento da singularidade do sujeito.
Este corpo erógeno, que permanentemente desestabiliza o corpo representado, é irredutível a qualquer realidade que pretenda fixá-lo, não sendo meramente informativo e nem representacional. As pulsões, sempre parciais, sempre fragmentadas, nunca se fundem completamente numa resultante dita "normal". Sempre há um resto, e não se pode decidir sobre o que este resto se tornará. Pode permanecer no estado de uma pulsão perversa, pode estar na origem de sintomas neuróticos ou, ainda, dar origem a formações reativas (a repugnância, a vergonha, a moralidade) que se constituem às suas expensas e são feitas das mesmas matérias-primas. As maiores qualidades humanas são feitas da mesma matéria dos maiores defeitos.
Ora, qual é a relação disso com a teoria de sedução como fator etiológico, com a qual Freud experimenta impasses, tal como atestado na carta 69 a Fliess? Como entender e salientar o papel do outro nos começos de uma teoria que, nesse instante, parece minimizar completamente a incidência do de fora?
De fato, como já notado por outros,48 após um período de hesitação, Freud voltará a colocar o papel central da sedução sem que com isso, no entanto, volte a minimizar a fantasia.
Em Esquema de Psicanálise afirma que há pelo menos uma sedução universal, onipresente, à qual ninguém escapa, seja instigando a emergência pulsional, seja pela possibilidade que isto abre para a fixação e domínio pulsional — a sedução da mãe:
...merece nosso mais alto interesse o impacto de uma situação
pela qual todas as crianças estão destinadas a passar e que
deriva de maneira necessária do fator cuidado prolongadoe da
convivência com os pais. Refiro-me ao complexo de édipo... O
primeiro objeto erótico da criança é o peito materno nutridor; o
amor se engendra apoiado na necessidade de nutrição
satisfeita. Por certo que no começo o peito nãoedistinguido do
próprio corpo e quando tem que ser divorciado do corpo,
deslocado para "fora" por menos freqüência com que a criança
o acha, carrega consigo, como "objeto", uma parte do
investimento libidinal originariamente narcísico. Este primeiro
objeto é depois completado na pessoa da mãe, a qual não só
nutre, senão também cuida e provoca na criança tantas outras
sensações corporais, tanto agradáveis como desagradáveis. No
cuidado do corpo, ela se torna a primeira sedutora da criança.
Nestas duas relações reside a raiz da importância única da
mãe, que é incomparável e sefixa imutável para toda a vida,
como o primeiro e mais intenso objeto do amor como arquétipo
de todos os vínculos posteriores de amor... em ambos os
sexos.49
O corpo do outro-mãe é pensado como alavanca, como nas artes marciais, como moradia para se habitar até que se aprenda e se suporte habitar o próprio corpo erógeno. Esta participação fundamental da mãe na mediação, para fixação, domínio pulsional e sexualização, faz com que a inscrição da pulsionalidade na representação fique para sempre marcada pela presença do
intérprete. 50
Assim, entre o sentido e a força pulsional circunscreve-se o corpo do sujeito, pois ambos os registros são inseparáveis, pois a libido é pulsão, e as pulsões se expandem sempre até encontrarem vários desejos e os vários objetos que habitam cada desejo e cada objeto. Como nos diz Leclaire, o desejo deve ser compreendido como um insolúvel conflito entre a força tranqüila e coerente da lei e o apelo
violento ao estranho e inquietante gozo de um real sem medida. 51
Assim, temos dois registros diferenciados: o pulsional, que se auto-organiza fantasmaticamente, e o desejante, na junção de corpo erógeno e linguagem e que experimenta capturar, dar forma aos incessantes investimentos pulsionais enquanto objetos, atravessados pelas fantasias fundamentais (a sedução, a cena primária, o retorno ao útero materno e a castração). Como sublinha
Katz, 52 o registro pulsional está determinado especialmente pela ação, pela afirmação permanente e insistente de si mesmo. O registro desejante (a linguagem e os outros com os quais temos que nos haver) está determinado especialmente pelo saber, investigação que pressupõe os outros. São registros descontínuos e diferenciados (assim como são o fazer e o saber), ao mesmo tempo em que ambos têm que se encontrar, quer sob a forma de conflito ou no modo de uma cisão insolúvel. Só não podem se ignorar.
Para Freud, o processo civilizatório se realizaria pela imposição de um modelo de circulação pulsional sobre os indivíduos no qual o recalque, a sublimação e a perversão seriam as resultantes, isto é, o sexual não poderia permanecer no registro da perversidade polimorfa, do corpo erógeno, tendo que se inserir na ordem da reprodução legítima. A doença nervosa dos tempos modernos seria o efeito privilegiado deste modelo de regulação da economia sexual. Freud estabelece, então, um mito constitutivo da modernidade
social, no dizer de Birman, 53 no qual, no curso da história humana, a perversidade polimorfa foi sendo progressivamente interditada. Assim, num primeiro momento, a perversidade polimorfa teria existido em estado puro na relação entre as pessoas, sendo em seguida reprimida por estar subsumida à reprodução e, num último momento, apenas a reprodução em casamento legítimo seria a forma permitida socialmente para as trocas sexuais.
A exigência de renúncia ao gozo proporcionado pelas pulsões parciais seria a grande questão que o processo civilizatório coloca para o indivíduo. Neste contexto, Freud ocupa o lugar de um incisivo crítico da ideologia do progresso social, ao assimilar os efeitos nefastos de um modelo cultural que se estabeleceu na sociedade ocidental no século XVIII e ao indicar os limites da razão iluminista. Com efeito, Freud fala também de uma forma particular de civilização que definiu um certo modelo de regulação da sexualidade e que se confunde historicamente com o estabelecimento da sociedade burguesa. Estes subprodutos do processo civilizatório indicam seus limites e o que este não considera como relevante na organização de suas instituições. Marcado pela razão iluminista, Freud indica aqui os seus limites, o que permanece como resto, o que não é dominado pela razão instrumental. Em o Mal Estar na Civilização sua crítica será mais radical e cortante.
Laplanche nos propõe que tal como o sonho, o infantil, a fruição infantil das coisas, se ofereça naturalmente ao método analítico, a essa maneira não discriminativa de tomar todos os elementos sem precisar perguntar se são efetivamente reais ou não, se são da
ordem do acontecido ou da fantasia,54 como uma autêntica criança que quase ignora a distinção entre o animado e o inanimado.
O trabalho da análise se dá em ressonância com as metamorfoses de um corpo erógeno da criança, que se aplica à redescoberta de um impulso primevo, do selvagem de toda floresta e sua infinita retração frente a todo controle, a toda tentativa de ordenamento e fixação de sentido.
As formações da sexualidade infantil, sua perversidade polimorfa, sua sensualidade difusa; uma qualidade da atenção proveniente entre tantas de um tempo de escuta e de silêncios que lhe confere uma particular intensidade de percepção; sua entrega a pequenas coisas e fatos, aos seus pormenores, a rudimentares indícios captados intuitivamente; uma atenção afetiva a sutis ligações que o olhar geral deixou passar despercebidos; nada sucumbe em nós.
Pois todo o essencial, insiste Freud, se tem conservado, ainda que pareça esquecido por completo, está todavia presente de algum modo e em alguma parte, só que soterrado, inacessível ao
indivíduo. 55
O que se afirma como nascente e essencial na investigação freudiana do corpo que temos, na sua odisséia humana, é aquilo que, no dizer de Merleau-Ponty, a filosofia (mas não só ela) tende demasiadas vezes a esquecer no homem — a sua infância e a sua sexualidade.
Pois, afinal, depois do que vimos, quem aprende em nós, sempre buscando revolver a terra do saber preestabelecido? Quem é, em nós, um descobridor de questões, um provocador de pensamento, um semeador de surpresa e espanto, de beleza, terror e compaixão? O inconsciente, um corpo erógeno, que nunca se esgota, em que resta sempre algo ainda por configurar em seu fazer plástico. Esse inconsciente e sua pulsionalidade que a todo instante migra. Nada mais distante da idéia que passou a nortear a vontade metafísica do Ocidente de sistematização e apoderamento do real (chegar à coisa em si, à verdade definitiva, ao término da errância
do pensamento e da história).56
Essas experiências originárias, nossas teorias sexuais infantis, suas variações, são passíveis de transformação. Não permanecem imutáveis. Da constante pressão pulsional e de novos encontros e acontecimentos, em que o mundo do outro entra em nosso corpo e alma, vamos em direção a outros possíveis, formados do cruzamento com cada núcleo de inscrições originárias. Ir para a infância e o nascimento das forças primeiras, coisas fronteiriças, onde ainda não é isto, nem aquilo; estamos sempre prestes a nascer e aprender a ignorância e uma sabedoria tolerante que nos evite um mundo homogêneo, loucamente lógico, racionalmente
trágico.57
Nesse sentido é que Freud descobre no corpo erógeno algo que seria irredutível à constituição do sujeito na ordem da linguagem, da representação ou dos sistemas de pensamento histórico e, portanto, ao idealismo simbólico ou discursivo que diz que somos apenas o que a cultura nos faz ser.
Assim, a recuperação do valor da verdade da experiência da sexualidade infantil, sua perversidade polimorfa, implica considerar que a matéria-prima e as leis de formação desta experiência são as mesmas que marcam as grandes produções do espírito humano.
Mas a história pulsional vai tornar-se mais complexa e um novo desdobramento já se anuncia. Isso corresponde, no entanto, a um outro momento do pensamento freudiano, que começa a assinalar os limites do campo da representação e que a problemática do narcisismo irá orientar.
Notas
1. FREUD, S. Estudios sobre la histeria, ed. cit., Vol. II, p. 304-305.
2. Carta de 21 de dezembro de 1899. In: A correspondência completa de S. Freud para W. Fliess -1887/1904. ed. cit., p. 392-393.
3. STEINER, G., 1993. Presenças reais. Lisboa: Editorial Presença, p. 177.
4. FREUD, S. La interpretación de los suenos. ed. cit., Vol. IV, p. 122.
5. ______. ______. Vol. V, p. 607 (como esclarece a nota, a frase citada não constava da 1ª edição de A interpretação dos Sonhos, sendo incorporada na de 1909 e na forma citada, na de 1919).
6. Ibidem, p. 546.
7. FREUD, S. La interpretación de los suenõs. ed. cit., Vol. IV, p. 119
8. BIRMAN, J. 1991. Op. cit., p. 80-81.
9. HYPPOLITE, J., 1989. A existência humana e a psicanálise. In: Ensaios de psicanálise e filosofia. Rio de Janeiro: Timbre/Taurus, p. 83.
10. BIRMAN, J., 1991. Op. cit., p. 105-126.
11. FREUD, S. Mis tesis sobre el papel de la sexualidade en la etiologia de la neurosis. ed. cit., Vol. VII, p. 267.
12. ______. Tres ensayos de teoria sexual, ed. cit., Vol. VII, segundo ensaio.
13. ______. Presentación autobiográfica, ed. cit., Vol. XX, p. 36.
14. ______. Pulsiones y destinos de pulsion, ed. cit., Vol. XIV, p. 117.
15. ______. Tres ensayos de teoria sexual, ed. cit., Vol. VII, p. 153.
16. KATZ, C. S., 1992. Nota sobre a função da mãe. In: O corpo erógeno uma introdução à teoria do complexo de Édipo. Campinas: Escuta, p. 72.
17. FREUD, S. Pulsiones y destinos de pulsion, ed. cit., Vol XIV, p. 116.
18. ______. Inhibición, sintoma y angustia, ed. cit., Vol. XX, p. 145.
19. ______. Proyecto de psicologia, ed. cit., Vol. I, p. 362-363.
20. BIRMAN, J., 1993. Pulsão e intersubjetividade da interpretação psicanalítica (Uma leitura da concepção freudiana de sujeito e da metapsicologia). In: Ensaios de Teoria Psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 110.
21. FREUD, S. Proyecto de psicologia, ed. cit., Vol. I, p. 362-363.
22. BIRMAN, J., 1991. Op. cit., p. 124.
23. FREUD, S. Tres ensayos de teoria sexual, ed. cit., Vol. VII, p. 165-166.
24. ______. El problema económico del masoquismo. ed. cit., Vol. XIX, p. 169.
25. MONZANI, L. R., 1989. Freud, o movimento de um pensamento. Campinas: Editora da UNICAMP, p. 30.
26. Ibidem, p. 31.
27. LECLAIRE, S., 1992. Uma introdução à teoria do complexo de Édipo — O corpo erógeno. Campinas: Escuta, p. 60-61.
28. KATZ, C. S., 1992. Introdução. Op. cit., p. 22.
29. FREUD, S. Tres ensayos de teoria sexual, ed. cit., Vol. VII, p. 123.
30. MONZANI, L. R. 1989. Freud, o movimento de um pensamento, ed. cit., p. 29.
31. FREUD, S. Tres ensayos dc teoria sexual, ed. cit., Vol. VII, p. 134.
32. ______. El porvenir de uma ilusión. ed. cit., Vol XXI, p. 8.
33. ______. La interpretation de los sueños. ed. cit., Vol. V, p. 600.
34. ______. Sobre la teorias sexualcs infantiles. ed. cit., Vol. IX.
35. GADAMER, H. G., 1985. A atualidade do belo (A arte como jogo, símbolo e festa). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, p. 50.
36. FREUD, S. Tres ensayos dc teoria sexual, ed. cit., vol VII, p. 120. Prólogo a 4ª edição.
37. STEINER, G., 1992. Presenças reais. Lisboa: Editorial Presença, p. 128-129.
38. FREUD, S. Sobre Ias teorias sexuales infantiles. ed. cit., Vol. IX, p. 189.
39. Ibidem, p. 189.
40. Ibidem, p. 191.
41. Ibidem, p. 192.
42. FREUD, S. Sobre las teorias sexuales infantiles. ed. cit., Vol. IX, p. 192.
43. Ibidem, p. 192.
44. Ibidem, p. 195.
45. Ibidem, p. 196.
46. FREUD, S. Cinco conferenciassobre psicoanálisis. ed. cit., Vol. XI, p. 17.
47. ______. Análisis de la fobia de un niño de cinco anos. ed. cit., Vol. X, p. 40.
48. MONZANI, L. R. 1989. Op. cit., p. 47.
49. FREUD, S. Esquema del psicoanálisis. ed. cit., Vol. XXIII, p. 187-188.
50. BIRMAN, J. 1991. Op. cit., p. 126.
51. LECLAIRE, S., 1977. Desmascarar o real. Lisboa: Assirio e Alvim, p. 26.
52. KATZ, C. S. 1992. Op. cit., p. 77.
53. BIRMAN, J., 1988. Alquimia no sexual. In: A ordem do sexual. Rio de Janeiro: Campus, p. 75.
54. LAPLANCHE, J., 1993. A Tina (A transcedência da transferência). São Paulo: Martins Fontes, p. 77.
55. FREUD, S. Construcciones en el análisis. ed. cit., Vol. XXIII, p. 262.
56. SANTORO, E, 1994. Poesia e Verdade. Rio de Janeiro: Sette Letras, p. 75.
57. SERRES, M., 1993. Filosofia mestiça. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 142.