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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais
lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir
a um novo nível."
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Minha Para
Proteger
Livro 2
Série Os Falcão
Copyright © 2016 Dudaah Fonseca
Capa: Annie Sabat
Revisão: Valéria Avelar
Diagramação Digital: Valéria Avelar
Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é
entreter as pessoas. Nomes,
personagens, lugares e acontecimentos
descritos são produtos da imaginação da
autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.
Esta obra segue as regras da Nova
Ortografia da Língua Portuguesa.
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São proibidos o armazenamento e/ou a
reprodução de qualquer parte dessa
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consentimento escrito da autora.
Criado no Brasil.
A violação dos direitos autorais é crime
estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Índice
SINOPSE
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1 – O PROTESTO
CAPÍTULO 2 – CAPA DE REVISTA
CAPÍTULO 3 – LUZ NO FIM DO TÚNEL
CAPÍTULO 4 – O MELHOR GOLPE
CAPÍTULO 5 – SEDUZIDO POR ELA
CAPÍTULO 6 – FÊNIZ NA ÁGUA
CAPÍTULO 7 – MINHA AFRODITE
CAPÍTULO 8 – VOCÊ É MEU CÉU
CAPÍTULO 9 – A MENINA DOS MEUS
OLHOS
CAPÍTULO 10 – FAÇO ISSO POR AMOR
CAPÍTULO 11 – PONTE DE LUZ
CAPÍTULO 12 – OS FALCÃO
CAPÍTULO 13 – LÁGRIMAS DE ANJO
CAPÍTULO 14 – PROFUNDAMENTE SUA
CAPÍTULO 15 – ENSAIO SOBRE CEGUEIRA
CAPÍTULO 16 – MEU FAZ DE CONTA
CAPÍTULO 17 – CORAÇÕES QUEBRADOS
CAPÍTULO 18 – AMOR MEU
CAPÍTULO 19 – ALÍVIO
CAPÍTULO 20 – MEU MAIOR PRESENTE
CAPÍTULO 21 – CÉU ESCURO
CAPÍTULO 22 – VISÃO CELESTIAL
CAPÍTULO 23 – PRIMEIRA DAMA
EPÍLOGO
SINOPSE
Theo prometeu ao seu avô que seria o
Presidente do Brasil, e carregaria
sempre o sobrenome da família acima
de tudo. Uma infância marcada por
descobertas, conheceu um lado de sua
família que estava oculta por sua mãe.
Tudo para protegê-lo de duas famílias
que estavam dispostas a fazer qualquer
coisa para terem o poder.
Se dedicou totalmente aos estudos,
sempre foi o primeiro da turma e
Presidente dos comitês estudantis e dos
grupos de esportes. Desde novo
percebeu que tinha um poder grande em
administrar suas decisões. Com o apoio
de toda sua família trouxe novamente o
destaque
para
família
Medeiros,
anunciando que se candidataria para
Presidente do Brasil. E conseguiu realizar sua promessa e seu sonho.
Laura Monteiro é uma doce estudante
de História que adora participar de
protestos. Quando não está satisfeita
com uma decisão das autoridades, a
estudante não mede esforços para unir o
maior grupo de pessoas possíveis, para
ir às ruas protestar, exigindo direitos e
melhorias. Sua deficiência visual não a
impede de lutar pelo que acredita, e
mesmo sem nunca ter visto o rosto do
Presidente, Theo Mendes Medeiros
Alvarez, o odeia por suas decisões
estúpidas.
Um projeto da universidade os
colocaram frente a frente, pela segunda
vez.
PRÓLOGO
O Brasil parou para prestigiar o novo
Presidente do país, Theodoro Mendes
Medeiros Alvarez. Aos 35 anos, tornou-
se um dos homens mais poderosos do
mundo, ocupando um cargo que poucos
conseguiram alcançar.
Theo dedicou sua vida aos estudos,
tornando-se líder de comitês estudantis, capitão dos times esportivos que
praticava. Desde pequeno sua mãe
percebia seu potencial para liderar, o
que não a agradava muito. Dona Marina
queria seu filho longe da política, pois
tinha medo que esse meio o cegasse.
Apesar de tudo, toda a família de
Theo o apoiava. E assim, o atual
Presidente subiu os degraus sempre com
honestidade
e
comprometimento.
Realizou projetos eficientes para seu
povo. Com determinação ergueu o
partido METP que fora criado pela
linhagem da família paterna de sua mãe,
os Medeiros.
Ele cumpriu a promessa que fizera ao
seu avô Ricardo. Hoje ele é o
Presidente. Passou todos esses anos
tentando mostrar à sua família que é uma
pessoa feliz, contudo quando está
sozinho, sente a solidão amargurar seu
coração e mente. Indagando a si próprio:
Por que eu fiquei?
Não tem cabimento, entretanto ele acha que é culpado pela morte de seu
avô materno. Theo pensa que não tem
sentido continuar existindo, não enxerga
motivo para isso. Ele traçou um plano,
mas antes de concretizá-lo passará os 4
anos na presidência do país dando o seu
melhor, juntamente com sua equipe.
— Pronto? — Indagou sua irmã
Vitória.
Ele terminara de abotoar o último
botão de sua camisa social de linho, na
cor azul-marinho.
— Como nunca estive antes, dengo
meu. — Piscou para sua irmã, sorrindo.
— É bom mesmo! A família toda não
veio à toa para Brasília assisti-lo
gaguejar na frente do país inteiro. —
Provocou o irmão, ela sabia que Theo
nunca temeu falar em público, a
verdade, é que seu irmão mais velho
nunca se intimidou com nada.
Os aplausos, tomaram conta do
ambiente. Theo havia escrito um
discurso belíssimo, e lembrou-se de seu
avô Ricardo Medeiros. Sabe que sua
mãe e avó Elisa, tiveram uma história conturbada devido a ganância de seu
avô, mas no fim todos se recuperaram.
Infelizmente, Ricardo não viveu por
inteiro sua segunda chance.
Se Deus interferiu dessa forma,
quem era eu para criticar. Pensou Theo,
olhando o mar de pessoas em sua frente.
A Praça dos Três Poderes, nunca
estivera
tão
lotada.
Todos
ali,
admirando o jovem Presidente, sabendo
de fato que finalmente o país seria
comandado por um homem honesto, pois
até o momento Theo nunca fora
envolvido em pilantragens por debaixo
dos panos. Era odiado por muitos , pela
sua integridade.
Admirou sua família. Seus pais, seus
irmãos, avós. Todos ali, afirmando que o
apoiava. Ele sorria para as centenas de
câmeras, e milhares de pessoas. No
fundo sabia que quando chegasse em sua
casa, sentiria aquele velho vazio.
Fazia tempo desde que esteve
intimamente com uma mulher. Muitas se
jogavam aos seus pés, porém ele sempre
buscou a verdadeira. Suas namoradas,
que foram poucas, sempre queriam algo
mais. Ele nunca conseguiu dar o
próximo passo. Faltava algo.
A poucos metros de distância do
palco, entre a multidão estava a
estudante de História Laura Monteiro,
ao seu lado estava sua melhor amiga
Isabela, que estava ali contragosto.
— Ah, Laurinha vamos embora.
Meus pés estão doendo. — Pediu,
estava arrependida de ter cedido ao
pedido
da
melhor
amiga
para
acompanhá-la
à
posse
do
novo
Presidente da República.
— Pare de chatice, Bela. Você sabe
que faço questão de estar presente
nesses eventos.
— Eventos chatos.
Laura deu um beliscão no braço da
amiga, fazendo-a gritar.
— Eventos históricos. Deveria ficar
feliz por eu estar levando você pelo bom
caminho, ingrata.
— Caramba, doeu! — Massageou a
pele vermelha pelo belisco. — Eu sei o
quanto você gosta e blábláblá, mas eu
não suporto.
— Eu poderia muito bem vir sozinha.
— Resmungou, sabendo que no fundo
sua deficiência visual nunca a deixaria
ter uma vida totalmente independente.
Isabela sabia o que sua amiga estava
pensando, fora logo falando:
— Estou aqui com você, por que te
amo Laurinha. Você é minha amiga e
irmã do coração. Não pense bobagens!
A linda mulher encerrou a conversa
para prestar atenção na voz do
Presidente. Ela achava loucura sentir as
famosas borboletas no estômago só de ouvir a voz grossa… Como um trovão de
tão potente. Mas ao mesmo tempo segura
a língua com o dente para não ser presa
ali, afinal falaria tudo que estava
guardado referente a uma decisão
estúpida do senhor poderoso.
— Como ele é? — Indagou Laura a
amiga.
— Muito, muito gostoso.
De alguma forma a resposta de sua
melhor
amiga
a
fez
sentir
um
desconforto. Que idiotice, pensou Laura.
— Não fisicamente, boba! Digo de
personalidade, o defina.
— É difícil, pois nunca sentei para
tomar um chá e conversar com ele. —
Laura sorriu, com a ironia da amiga.
— Palhaça! — Isabela riu.
— Ele parece bem sério, e além de
ser muito bonito… Parece que ele não é
realmente essa imagem que mostra.
Theo decidiu responder algumas
perguntas do povo. Todos admiraram
sua iniciativa e atenção. Acabara de
responder a décima pergunta, todas
foram relacionadas aos novos projetos
econômicos. Quando pensa que ninguém
mais perguntaria nada, ouviu uma voz
doce por cima dos murmurinhos, e todos
pairaram sobre a jovem.
— Eu tenho uma pergunta, senhor
Presidente.
Sem
conseguir
desfaçar,
ficara
encantado pela beleza da jovem. Parece
tão pura, e muitos anos mais jovem que
ele. Idade para ele não era problema,
mas… Afinal que rumo seus pensamentos
estavam seguindo.
— Como se chama? — Indagou pelo
microfone.
— Laura Monteiro. Posso fazer a
pergunta?
Atrevida…
Talvez
rebelde,
de
qualquer forma Theo gostou da jovem.
— Fique à vontade, Laura.
Isabela estava com vergonha por ter
uma amiga tão protestante. Afinal, Laura
nunca mediu as consequências com as
palavras e provavelmente a pergunta de
sua amiga seria a próxima notícia dos
meios informativos.
—
Acha
justo
os
deficientes
perderem sua porcentagem no mercado
de trabalho?
O suspiro do Presidente fora ouvido
pelo microfone. Todos ali estavam
concentrados nos dois. Theo teve um
problema a respeito com um outro
Deputado de seu partido. De início
todos pensaram que ele fizera esta
decisão de deixar os deficientes de fora
do mercado de trabalho, aposentando
todos. Absurdo isso, ele sabe, e felizmente conseguiu conter a bagunça
que o Deputado queria fazer no seu
partido. O que ele fez? Simplesmente o
chutou de seu partido.
— Pelo visto um paraplégico,
deficiente visual ou qualquer outro não
servem para trabalhar, é isso mesmo?
Onde está o respeito pelo próximo? —
Vociferou Laura, sendo alvo dos
fotógrafos da mídia.
Deus do céu, o que ela tinha de linda,
também tinha de topetuda, atrevida. Ele
queria calar a boca dela por ser tão
desafiadora… Pera aí, ele a muito tempo
não se sentia vivo… Feliz por existir.
— Isso foi um mal-entendido…
— Ah, nem venha com conversa
afiada. Saiu uma reportagem no jornal,
onde o senhor tinha se encontrado com o
Deputado Rodrigues para verem o
projeto. Que grande babaquice! —
Laura levou uma cotovelada da amiga.
Começou o falatório, e Isabela
aproveitou para arrastar a amiga até seu
carro estacionado no final da esquina.
Entraram no modelo Palio, na cor preto desgastado, logo Isabela seguiu caminho
para a casa da amiga. Durante o caminho
fora escutando Laura reclamar por não
terem ficado lá e esperado uma resposta
decente do Presidente.
O Presidente conseguiu acalmar o
povo, e finalmente explicou como tudo
aconteceu. Infelizmente não viu mais a
bela jovem, mas a imagem dela ficou
guardada em sua memória.
CAPÍTULO 1 – O
PROTESTO
LAURA
Eu amo os meus pais, e adoraria que
eles me deixassem dormir até tarde,
pelo menos hoje que é o meu
aniversário. Abriram a cortina, tiraram
minha coberta que fazia um ótimo
trabalho aquecendo meu corpo. E agora
sentaram na minha cama, fazendo as
molas rangerem um pouco.
— Parabéns, minha princesa. — Diz,
meu pai Heitor, apertando minhas
bochechas.
Sentei na cama, arrumando de forma
confortável os travesseiros e encostei minhas costas. Bocejei, esfregando os
olhos preguiçosamente.
— Obrigada, meus velhos. — Falei,
arrancando uma risada cheia do meu pai
Lauro.
Não preciso pedir nada ao assoprar a
velhinha pequena, em cima do cupcake
de chocolate, o meu preferido. Eles são
os melhores pais que eu poderia ter. É
logico, que quando eu fui adotada com
poucos meses de idade, não tinha noção
do que acontecia. Mas ao longo do
tempo, entendi perfeitamente que não
tinha nada de errado ter dois pais.
Nunca vi os olhares das pessoas
quando me viam com eles, mas eu ouço
muito
bem.
Escutei
comentários
maldosos, porém mandei tudo à merda.
Eu
era
feliz
sendo
filha
de
homossexuais, e daí? O problema é que
tem
muitas
pessoas
fúteis,
preconceituosas, infelizmente.
— Não somos tão velhos assim. —
Ralhou, meu pai Heitor, humorado.
— Sabe, mesmo não enxergando,
adoraria que tivessem mantido a cortina
do meu quarto fechada. — Mordi um
pedaço do meu bolinho.
— Adoro seu humor matinal. —
Murmurou meu pai Lauro, tomando meu
cupcake da minha mão.
— Ei, esse bolinho é meu!
— Perdeu o direito por ser uma filha
mal-humorada.
Ele se afastou, provavelmente foi
terminar de devorar meu delicioso
bolinho de chocolate, na cozinha.
— O doutor Gael ligou, mandando
felicidade e saúde para você.
Lembrar do doutor Gael, me faz ter
uma pequena esperança que um dia eu possa enxergar. Fui deixada num
orfanato, não sei o motivo. De qualquer
maneira, não odeio meus pais biológicos
e nem sou revoltada. Confesso que tenho
sim, curiosidade de conhecer minha
origem, apenas isso.
— Depois, ligo agradecendo. Ele é
um bom homem.
O doutor Gael Vasco é considerado o
melhor oftalmologista do país. Ele, junto
com sua equipe, recebeu vários prêmios
nacionais
e
internacionais
por
desenvolvimento
em
pesquisa
e
tratamentos eficazes. A sorte é que ele é
amigo do meu pai Heitor desde o tempo
do colegial. Por isso, meu tratamento é
gratuito. Ainda bem, pois meus pais
gastaram absurdos para eu poder ter o
melhor conforto possível.
— E sabe o que mais ele falou?
— Não, o quê?
Meu pai segurou minha mão, fazendo
um carinho por cima com o seu polegar.
Eu sabia que meus pais tinham
esperanças de eu enxergar, poder ser
independente, segura. Odiaria ouvir um
dia o doutor Gael dizer que todos esses
anos de pesquisa sobre meu caso foi em
vão. Seria arrasador para meus pais e
amigos. Bom, eu poderia continuar
vivendo, afinal vivi assim até hoje.
— Que ele conseguiu apoio de um
oftalmologista muito conceituado da
Inglaterra.
— Uau… Isso parece importante.
— Claro que é, querida! Eu e seu pai
estamos borbulhando de alegria. Quero
sua felicidade, e faremos o possível
para você ser feliz.
— Eu já sou feliz, pai. — Envolvi
meus braços em volta de seu pescoço.
— Sabemos disso, mas também
sabemos que pode ser mais feliz,
Laurinha.
Minha família estava reunida em
nosso quintal, onde eu sentia o maravilhoso aroma de carne assada.
Meu
pai
Lauro
era
o
melhor
comandando as panelas, nesse caso a
churrasqueira. Aproveitei que todos
pararam de me mimar, não que eu
estivesse reclamando, gosto de saber
que existe pessoas boas e adoráveis
como minha pequena família e meus
dois melhores amigos. Com muita
tranquilidade,
dei
uma
volta
no
quarteirão com meu cão-guia Tom. Ele é
vira-lata, treinado pelo meu pai Heitor
que modesta a parte é um veterinário
excelente e muito procurado.
— Vamos lá, garoto. — Incentivei
meu companheiro.
Passamos pelo o portão de casa, e soltei o guia da coleira de Tom, o
deixando livre pelo o quintal. Toda vez
que eu chamo, ele me atende. Era
totalmente fiel.
— Estava para ir atrás de você,
Laurinha. — Diz, Chico meu melhor
amigo.
Eu, ele e Bela nos conhecemos na
quinta série e desde então temos essa
amizade forte. Sabemos tudo um do
outro, claro temos discursões bobas,
mas não aguentamos ficar brigados por
muito tempo.
— Fui dar uma volta no quarteirão
com Tom.
Sentei no sofá. Eu estava acostumada
com tudo em minha casa, não era
necessário eu me locomover com a
bengala aqui dentro, entretanto tem
vezes que meus pais puxam minha
orelha, pois pode ter algo no meio da
casa que possa fazer eu tropeçar,
machucar.
— Minha nossa, essa carne esta
divina! — Exclamou Bela, e senti o sofá
afundar um pouco.
— Não duvido. — Murmurei
convencida dos dotes culinários do meu
pai Lauro.
— Acabei de ver na rede social um
grupo
de
estudantes
da
nossa
universidade, em frente ao Palácio do
Planalto. Estão protestando por terem
cortado
a
bolsa
alimentação
e
transporte.
—
Pensei
que
era
apenas
comentários. Isso é sério! Muitos
realmente,
não
tem
condições
financeiras. — Falei meu ponto de vista.
É parece que o senhor Presidente, já
está fazendo besteira. E nem tem um
mês que está na presidência.
— Ah, céus! Eu conheço essa
ruguinha na sua testa. — Sabia que
Isabela estava falando comigo.
— Vamos logo para lá. Nem vamos
avisar aos meus pais, onde vamos.
Quando pretendia levantar, Bela
segurou meu braço, dizendo:
— Nem pense nisso mocinha! É seu
aniversário, sua louca.
— Então eu posso escolher o que
fazer, certo?
Enquanto Chico dirigia, eu tentava de
forma desengonçada fazer as listras nas
maças do meu rosto com tinta guache,
nas cores da bandeira do Brasil. Bela
até tentou me ajudar, mesmo sem
enxergar preferi fazer sozinha, enquanto
ela cuidava de fazer a mesma coisa nela.
Assim que chegamos ao local, fui
guiada por Chico. Preferia, não arrastar
Tom para o meio de minhas loucuras.
Nesses casos, eu tinha meus dois
melhores amigos. Entramos no meio da
multidão, e ali ficamos gritando,
exigindo
nossos
direitos
como
estudantes. Eu não precisava das bolsas,
porém eles precisavam e faria minha
parte de bom grado.
THEO
Estou quase um mês em meu mandato.
Semana passada estive nos Estados
Unidos, negociando com o Presidente
William Smith. Depois de três horas
trancados em seu gabinete, chegamos a
um consenso. Continuaremos exportando
nossos alimentos, principalmente carne
bovina. Com um preço novo, onde
também ficaremos com o melhor que
produzimos por preços adequados. Caso
tenha uma crise econômica, saberemos
controlar
sem
precisar
elevar drasticamente os preços.
Farei de tudo para viajar só quando
necessário. Prefiro comandar meu país
estando nele, e não fora. Exausto com
um novo protesto de universitários em
frente à minha nova residência, segui
para o banheiro da suíte. Após o banho,
trajo minha calça social preta e pego
uma camiseta perfeitamente passada, na
cor branca.
Encaro meu reflexo no espelho, e
antes que eu comece a abotoar os
botões. Fixo em minha tatuagem, a fênix
cobre meu peitoral direito por inteiro.
Fiz aos 18 anos, em homenagem a minha
mãe por ser uma verdadeira guerreira,
que sofreu muito, e mesmo assim
conseguiu perdoar as pessoas que lhe
causaram
mal,
também
fiz
em
homenagem a minha avó Elisa, ao meu
pai do coração Enrico, depois que eu
soube do trauma que sofreu quando era pequeno e por principalmente ser
destemido, pois lutou com a alma pela
minha mãe e me aceitou como um filho
legítimo. O quarto motivo é meu avô
Albestini, pois ele trouxe felicidade a
minha avó Elisa, ambos superaram a dor
juntos construindo um novo presente; o
quinto motivo é o meu avô Ricardo, ele
me salvou, ele entregou-se à morte para
eu sobreviver. Ele morreu por mim. E o
sexto motivo sou eu mesmo, afinal eu
renasci naquele trágico acidente. Como
lembrança tenho uma pequena cicatriz
acima da sobrancelha.
— Presidente, desculpe-me entrar
assim, mas a imprensa toda está lá fora
querendo sua cabeça. — Expôs Bento,
meu assessor, braço direito e amigo.
Rolei os olhos, passando as mãos nos
fios úmidos dos meus cabelos, alguns
caiam sobre minha testa. Vitória tem
razão, eu preciso cortar o cabelo.
— Os seguranças já estão em seus
pontos?
— Sim, senhor.
Fitei Bento, enquanto puxava as mangas da camisa social até os
cotovelos.
— Bento, sabe que eu continuo o
mesmo. Sou seu amigo Theo, o mesmo
que acaba com você no futebol. — Ele
riu nervoso.
— É claro que sei, acontece que tem
universitários cheios de energias em
frente à casa do senhor Presidente
chamando atenção da mídia. Não temos
motivos para ficar nervosos, que tal
batermos uma bolinha?
Sai andando, me divertindo com sua
ironia. Assim que cheguei ao portão, o
mar de seguranças fez um círculo em
volta de mim, fora os que estavam
fazendo a guarda em cima do Palácio e
sei lá onde mais. Eu já estava
acostumado em ter guarda-costas em
minha cola, afinal minha mãe era uma
guarda-costas, hoje ela é sócia da
melhor empresa do país, a Blindados.
— Por favor, calma! O Presidente irá
esclarecer tudo, por favor! — Pediu
Bento, pelo autofalante.
— Abram o portão. — Mandei, fazendo Bento e todos ali se calarem.
Eu com certeza não tinha medo da
morte. Talvez… Até a desejasse, porém
antes de qualquer coisa farei do meu
país um lugar melhor durante esses 4
anos.
Depois de parecer horas, o portão foi
aberto. Os seguranças continuaram ali
perto, prontos para qualquer coisa.
Quando eu pretendia explicar o que
realmente aconteceu com as bolsas
ajuda das universidades, começaram o
falatório e suposições. Para piorar
Bento pedia “por favor, deixem o
Presidente falar” . Qual é? Eles são
jovens, adoram mostrar poder nas
palavras e atitudes. Eu gosto disso.
Estava a ponto de rir da atitude de meu
assessor, pois parecia um pai tentando
conter seus filhos malcriados.
Pus meu polegar e dedo indicador
nos cantos da boca, imitindo um assobio
alto. Todos se calaram, e pareciam
surpresos por meu método.
— Prestem atenção! Gosto de saber
que tem pessoas que vão atrás das coisas, mas é importante saberem o
outro lado antes de começarem a acusar.
— Pausei encarando todos eles, falei
num tom alto.
Quando eu pretendia continuar, ouvi a
mesma voz feminina, doce, que faz parte
de meus sonhos eróticos:
— Pare de enrolar e fale de uma vez!
Eu sorri, simplesmente sorri por
saber que a topetuda estava ali, entre os
universitários. A procurei como um
gavião e a vi ao lado de um rapaz e a
mesma moça que a acompanhou no dia
da minha posse. Senti vontade de domar
a topetuda manifestante. Linda, ela é
muito linda. Seus olhos estão fixos em
mim, a cor azul-escuro contrasta com
sua pele clara, levemente bronzeada.
Gostaria muito de sentir seu cabelo
castanho-claros entre meus dedos, seria
um manjar sentir seus lábios cheios e
rosados nos meus. Ela é uma bela
mulher.
— É um prazer revê-la Laura. —
Cumprimentei fazendo-a se encolher um
pouco, mas logo voltou a empinar o nariz.
Perdi a concentração nela, devido ao
número de jornalistas e fotógrafos que
estavam tentando de alguma forma se
aproximar de mim, mas a equipe de
segurança estava impedindo.
— A bolsa alimentação e transporte
foi suspensa, pois eu, junto com o Reitor
teremos uma reunião. É injusto pessoas
receberem esse auxilio sendo que não
precisam, e para resolver esse problema
foi necessário suspender para obtermos
em mãos a lista dos universitários que
realmente necessitam. Iremos pesquisar
a fundo, e ajudaremos de bom gosto
todos vocês que precisam. Aposto que
todos que estão aqui nessa manifestação
é porque realmente dependem dessa
ajuda, admiro isso. E podem ter certeza
que tudo vai ficar melhor. Pensei que o
Reitor tinha avisado, para evitar
surpresa a vocês. Agora que sabem,
peço que se tranquilizem.
Começou a falação e vi olhares
contentes direcionados a mim. Eu estava
querendo
achar
a
moça
bonita,
infelizmente Bento tirou minha atenção,
murmurando:
— Precisa entrar, Presidente. Falta
poucos minutos para a reunião via vídeo
conferência com o vice-presidente da
Argentina. — Bufei frustrado, eu queria
saber da manifestante atrevida, mas
seria um prato cheio para mídia
especular.
Eu a encontraria, usaria os meus
métodos.
E
pelo
visto
ela
é
universitária, o que facilitou por onde,
começaria minha busca.
CAPÍTULO 2 – CAPA
DE REVISTA
LAURA
Segunda-feira com certeza deveria ser o dia mundial da preguiça. Após,
tomar um banho revigorante, trajei
minha típica calça jeans, blusa de manga
curta na cor preta. Como eu sei a cor?
Bom,
desde
pequena
meus
pais
arquitetaram tudo para meu dia a dia ser
o mais normal e independente possível.
No meu roupeiro de seis portas, a do
meio contem minhas diversas camisetas.
A parte de cima prossegue a pilha da
seguinte forma: branca, preto, vermelho,
azul, verde, amarelo e estampadas, da
direita para esquerda. Essas são minhas
cores preferidas, e são os tipos de
blusas que eu uso durante a semana.
Faço carinho na cabeça de Tom, que
está deitado na minha cama. Meu pai
Lauro sempre briga a respeito, mas Tom
nunca pareceu se importar. Ele adora
meu
colchão
insuportavelmente confortável.
Meu
cão-guia
me
acompanha durante todo o dia, todos o
aceitam, e nada bobo adora ser mimado.
— Vamos para mais um dia, amigão!
Assim que entrei na cozinha, senti
aquele cheirinho de café gostoso. Fui até
os armários pegando uma xícara. Sentei
à mesa e estranhei todo o silêncio. Isso
significava apenas uma coisa, encrenca.
— Bom dia, pais.
Coloquei café na minha xícara com
cuidado para não passar do ponto.
— Parece que você e os pestinhas
desviaram o caminho da sorveteria para
participar do protesto em frente à casa
do Presidente. — Fui pega na maior
mentira.
Eu sabia que meus pais ficariam
bravos por saberem que mais uma vez
eu
estava
enfiada
na
multidão
manifestando. Fazer o quê? Gosto de
estar nesse meio, não é à toa que curso
História, e sem dúvida a História do
meu país é a que mais me encanta. Por
essa razão, ocultei que fui ao protesto,
dizendo que tinha ido a sorveteria com
Bela e Chico. Como diz o ditado
popular “mentira tem perna curta” , e
tem mesmo.
— Como ficaram sabendo?
— Pensou mesmo que conseguiria
esconder isso de nós? — Fiz uma careta,
obviamente
eu
nunca
conseguiria
esconder nada deles. — Você está na
capa da revista Poder.
Deixei o pão com manteiga e queijo,
no ar. Só podia ser brincadeira do meu
pai. Ele estava querendo me punir de
alguma forma? Oh, Deus! Porque eu sou
tão
bocuda.
Não
poderia
ir
simplesmente a uma manifestação e
manter a língua guardada.
— Laura? — Meu pai Heitor, me
chamou.
— Isso é brincadeira. Estão se
aproveitando que não posso enxergar
para me punir, não é? — Meu pai
gargalhou, pode parecer estranho, mas
eu não tenho problema em fazer uma
piada ou outra da minha falta de visão.
Eu preciso caminhar sem medo. — Mais
que merda!
— Pois é minha querida. A senhorita
está na capa da revista, com o rosto
listrado com as cores da bandeira
nacional com um olhar desafiador para o
homem mais importante do país. —
Pausou deixando um silêncio tenso,
continuou: — Amamos você, filha! —
Diz, meu pai Heitor.
Acabei o acompanhando na risada.
— O que faremos com você moça?
— Murmurou meu pai Lauro, continuei
tomando meu café da manhã. Estava querendo ficar tranquila, agora que estou
rodando o país inteiro em uma das
revistas mais importantes. — Deixe-me
ver…. Cortaremos seu cartão de crédito,
tiraremos o celular de você… Ih, nada de
namoro.
Eu amo meus pais, principalmente o
humor deles. Diferente dos modos
tradicionais do tipo, errou fica de
castigo ou apanha. Eles me educaram
muito bem, sem dúvida. Entretanto, meus
erros sempre foram resolvidos com uma
boa conversa séria. Nunca fiquei de
castigo, e muito menos tenho um cartão
de crédito e namorado.
— Vocês deviam ser comediantes.
— Eu queria, porém seu pai não quis
ser meu parceiro. — Cochichou meu pai
Heitor, sorri.
É notável o amor dos dois. Sonho um
dia poder encontrar isso, contudo minha
deficiência trouxe insegurança em alguns
aspectos. Nunca namorei, nem mesmo
beijei. Privei isso para mim mesma,
pois eu gostaria de olhar nos olhos do
meu grande amor. Eu posso sentir, muito mais que uma pessoa que tem a visão
normal, porém nada se comprara a
enxergar.
O engraçado, é que sinto falta de algo
que nunca tive antes. A visão.
***
Tentei prestar atenção, na aula de
História antiga, porém minha cabeça
estava longe dali. Durante o caminho
para cá, Bela foi falando o quanto eu era
doida e linguaruda. Não é a primeira vez
que chamei atenção durante uma
manifestação, por mais simples que seja,
eu estou lá.
— Quase não comeu. — Comentou
Chico, estamos no restaurante da
universidade.
— Ela está com a consciência
pesada. — Resmungou Bela, deu
vontade de puxar seu cabelo por causa
dessa birra.
Hoje infelizmente Tom, não me
acompanhou.
Precisava
tomar
as vacinas, então passaria o dia com meu
pai, no pet shop. Alguns colegas até
perguntaram por ele, expliquei porque
não veio.
— Sem piadinhas, Bela.
— Certo, eu parei por hoje.
— Obrigada.
— Agora mudando de assunto. Fiquei
sabendo que vai abrir um projeto
incrível de estágio, e o melhor,
ganharemos um salário mínimo durante o
período do estágio.
— Nossa, isso é dez.
— É mesmo, Bela. Eu vi a lista dos
cursos que já foram selecionados, no
site da universidade. E adivinhem?
Meio chateada, falei:
— Seu curso está nessa lista.
— Não, apenas o meu. Direito e
História licenciatura, também estão.
Bela soltou um gritinho de puro
contentamento. Eu formei um “O”
enorme, afinal não é segredo que os
cursos de licenciatura são vistos de
forma negativa. Poucas pessoas hoje
querem ser professores, por conta da falta de consideração financeira e
pública, no fim das contas quem forma
qualquer profissional é o professor.
— E como funciona a seleção? —
Indaguei, animada.
— Encaminharemos o currículo para
o nosso departamento. Todos passaram
por uma avaliação pelo proprietário da
empresa. Tenho certeza que vamos
conseguir! Além disso, esse projeto é
exclusivo para quem está cursando o
último período do curso e servirá para
complementarmos o TCC.
Ganhei meu dia com essa notícia.
THEO
Recebi o Reitor da Universidade
Federal,
Luiz
Tourinho,
em
meu
gabinete. Li a lista de nomes juntamente
com o relatório anexado. Tiramos da
lista, os estudantes que tinham a renda
acima da faixa. Entregando a bolsa para
aqueles que realmente precisam.
— Já mandei divulgarem no site da
universidade o projeto do estágio para
quem está no último período. E mais
uma vez peço desculpa por não ter
avisado
aos
estudantes
sobre
a
suspensão das bolsas.
Eu havia mandado um e-mail com o
projeto, que para minha surpresa foi
atendido rapidamente. Quero que esse
estágio funcione como incentivo para o
mercado de trabalho, caso o estudante
seja realmente um excelente funcionário,
será contratado pela empresa. Mas só
saberão no final.
— Excelente. — Entreguei a lista. —
Lembre-se que a estudante Laura
Monteiro Rosa, trabalhará do meu lado.
Ela será a responsável de escrever
sobre mim. O livro será publicado
apenas no fim do meu mandato.
Pedi para Bento pesquisar sobre a
topetuda. Não demorou muito, e descobriu que a moça bonita é
universitária
e
cursa
História
Licenciatura. Sem dúvida será a
professora mais linda. Não quis saber
da vida dela por inteiro, quero
desvendá-la.
— O senhor tem certeza, Presidente?
— Absoluta.
— Creio que não sabe que essa
estudante tem alguns problemas…
O interrompi:
— Não há problema que eu não
possa resolver, senhor Tourinho.
Logicamente, eu sabia que Laura era
atrevida. Isso é bom, gosto de pessoas
que tem atitude. Bento, mostrou a capa
da revista Poder desse mês. Eu sorri,
admirando a imagem da senhorita
Monteiro me desafiando, também fiquei
surpreso pela eficiência da editora ter
mudado o catálogo só para pôr a foto de
uma bela estudante lutando pelos seus
ideais, e uma imagem minha encarando-
a com ternura e divertimento.
Passei o restante da tarde, estudando
as propostas de investimento e acordos
econômicos de outros países. Depois do
jantar, peguei um bom vinho despejando
na taça. Concentrado, admirei a vista
que dominava a frente do Palácio.
Nunca fui descontrolado em relação a
sentimento. Estou me sentindo perdido,
aquela moça me tirou a concentração e
talvez eu até mude meus planos tristes,
no fim de meu mandato. Por ela, eu
mudaria o meu destino.
Desvio minha atenção, para atender
meu celular:
— Theo falando!
— Espero que não tenha se
esquecido do seu irmão preferido.
— Impossível esquecer a peste que é,
Rafael. — Ele riu.
— Gostaria de saber se o senhor
Presidente me receberia em seu humilde
Palácio. Amanhã estarei aí.
Rafael é piloto comercial, se formou
com honras e mérito. Ele é esforçado,
companheiro e dedicado. Costumo dizer que tudo que ele toca se torna ouro.
— Você mesmo se convidou.
— Não se esqueça que eu sou o seu
irmão preferido.
— Sabemos que isso não é verdade.
— Brinquei.
— Só falta me dizer que o Neto é o
seu irmão preferido.
— Você e o grandalhão não são meus
preferidos. Meu dengo que é minha
preferida.
Era evidente que todos nós somos
loucos pela nossa irmã Vitória. Aquela
baixinha, consegue tudo que deseja,
basta um olhar… E pronto.
— Está certo, eu posso sobreviver
com isso. Quem não ama aquela
loirinha.
— Mandarei o motorista lhe buscar
no aeroporto.
— Ótimo, espero que tenha tempo
para mim.
— Com certeza, não terei. — Xingou
alguns palavrões e ri. — Podemos sair
para jantar a noite, durante o dia estarei
ocupado.
— Combinado.
— Até amanhã.
CAPÍTULO 3 – LUZ NO
FIM DO TÚNEL
LAURA
Não suportava mais o barulho do
telefone tocando. Estava enfurecida por
ter a imprensa lá fora, praticamente
acampados em frente da minha casa.
Parabéns, Laura! Quem mandou ser
linguaruda.
Bufei, odiando meu próprio cérebro
me recriminar. Assim que eu saí da
universidade, fui pega de surpresa e
quase atropelada pelos jornalistas. Eu
apenas desviei como pude, e com ajuda
da minha melhor amiga conseguimos vir
para minha casa. O lado ruim, é que
agora eles sabem onde resido. E para
completar minha bela segunda-feira,
posso imaginar que meu pai Lauro está
soltando fumaça pelas ventas e orelhas.
— Nem sei por onde começar.
Poderia começar não ficando com
raiva, pensei. Meu pai Lauro é
funcionário público há 15 anos e trabalha somente no período matutino. A
última coisa que ele queria era chegar
em casa e ver esse mar de enxeridos
tentando invadir nossa privacidade. Eu
respeito os jornalistas, mas a partir do
momento em que eles ficam como
cachorros loucos lá fora a ponto de
agarrar minhas pernas, a história é outra.
— Pai, calma. Uma hora eles vão
cansar. — Nem eu acreditei no que
disse.
— Querida, você sabe que sexta-
feira receberemos seu irmão. Odiaria
que eles continuassem em frente da
nossa casa.
Agora eu queria me chutar. Meus pais
entraram com o pedido de adoção há
cinco meses. E graças aos céus, tudo
desenrolou de forma rápida, a assistente
social já nos visitou e elogiou nossa
casa. Há um mês terminamos de decorar
o quarto do meu irmão Marlon. É um
garoto de 8 anos, adorável e muito
esperto. Somos apaixonados por ele.
Estou sentindo um peso enorme nas
costas, pois se esse circo continuar é
provável que a assistente social
interfira, afinal ela ficará avaliando os
primeiros meses da nossa convivência
com o Marlon.
— Filha, não quero fazê-la se sentir
culpada. Não é isso, porém você sabe
que se isso continuar a assistente social
pode achar negativo.
— O pior é que não temos ideia do
que fazer, senhor Lauro.
— Vocês podem subir e fazer as
atividades da faculdade. Eu vou ligar
para polícia, sei lá… Penso em algo.
Deitada na minha cama com Bela ao
lado, tentei me animar para fazer meu
dever.
Entretanto,
estava
chateada
demais com essa situação. Ainda bem
que hoje eu não dou aula.
Ganho um dinheiro extra sendo
professora de Braile. Tenho três alunos:
João, Pietro e Luci. Os três também
nasceram com má-formação ocular, no
meu caso o doutor Gael e sua equipe estudam meu quadro, segundo ele tenho
possibilidade de enxergar. O que falta é
estudarem um procedimento eficaz,
construir as etapas da cirurgia.
— Não fique com essa cara de
culpada. Eu avisei!
— Pode jogar na minha cara, Bela.
Ela levantou-se da cama, jogando no
meu rosto uma almofada. Longo senti o
colchão afundar, indaguei:
— O que está fazendo?
— Irei mandar nossos currículos para
o
do
nosso
respectivo
departamento.
—
Acho
que
seria
melhor
entregarmos pessoalmente.
— Está louca, Laurinha! Tenho
certeza que os departamentos estarão uma feira.
— Ok, então mande.
Fiquei ouvindo seus dedos de
encontro ao teclado do seu notebook, o
qual ela sempre carrega na bolsa.
Simplesmente, não consegui desviar o
rumo dos meus pensamentos. E cá estou
eu, imaginando como é o Presidente
fisicamente. Aposto que ele deve estar
se roendo por ter uma petulante pronta
para desafiá-lo.
THEO
Depois de um dia tenso em reunião
com o Senador e Deputado de São
Paulo, pude voltar para meu refúgio. Ver
alguém da minha família é sempre bom.
Conversei um pouco com Rafael, antes
de subir para suíte, tomar banho e vesti
uma roupa mais confortável. Nada de
terno e gravata. Pelo menos hoje à noite.
Bento me informou que os jornalistas
estavam praticamente acampados em
frente à casa da moça bonita. Mandei ele
entrar em contato com todas as redes
comunicativas, ordenando que deixasse
Laura e sua família sossegados. Mesmo assim, não poderei impedir que ela seja
novamente alvo da imprensa.
Quem mandou ser topetuda. Sorri
com meus pensamentos.
— Esse sorriso todo é meu?
Rafael como sempre desconhece a
palavra privacidade. Irmão caçula é
isso, um pé no saco. E claro, não
vivemos sem essas pestes.
— Não, Rafa.
— Ah, entendi. Está todo animadinho
com a tal universitária. Ela é gata pra caralho!
Antes de vestir a camiseta, lhe acerto
com ela.
— Respeito, irmão. Respeito.
— Falei alguma mentira?
— Vontade de te bater não me falta.
— O pessoal lá em casa, estão
curiosos a respeito. Preciso voltar com
a notícia verídica.
***
Jantamos no melhor restaurante de
Brasília. Fazia um tempo que não me
divertia. A companhia dos meus, sempre
trazia um pouco de conforto para meu
coração e mente fodida. Eu sou inteligente o suficiente para saber que
tenho um problema sério, talvez algum
quadro de depressão, talvez nem seja.
Acontece que não sinto mais vontade
de viver. Passei todos esses anos
fingindo ser um homem alegre. Durante
meus relacionamentos tentei buscar o
que faltava, porém não consegui. Por
isso acabava terminando. Seria covardia
prender alguém nesse meu mundo
obscuro. Então tracei um plano, onde
realizarei o melhor na História do meu
país, e depois… Chegará minha hora.
LAURA
Tivemos o primeiro fim de semana
em família com Marlon. Ele nos
presenteia com sua graça. Como
costume de comemoração, meu pais
fizeram um churrasco convidando os
amigos mais próximos para conhecerem
o novo integrante da família.
Não sei exatamente como aconteceu,
apenas acordei no outro dia e os
jornalistas tinham sumido. Porém, o
telefone ainda continuava tocando, tanto
que meu pai tirou do gancho. Só Deus sabe, como esses enxeridos conseguiram
o
número
telefônico
de
minha
residência.
Na sexta-feira recebi a ligação da
secretária do Reitor. Quando atendi o
telefone, dona Vilma se identificou,
fiquei muda tentando lembrar se tinha
aprontado algo. Aliviada eu estava, esse
mês não organizei nenhuma manifestação
dentro da universidade. Tinha certeza
que se o senhor Tourinho pudesse, daria
meu diploma de presente. Só para eu
sumir da sua frente. Dei pulinhos de
alegria junto com meus pais e irmão,
pois fui selecionada. Dona Vilma não
disse qual escola ou empresa que faria o
estágio, apenas informou o básico.
— Quer mais cereal, filhão? —
Perguntou meu pai Heitor.
Hoje ele vai sair com meu irmão para
conhecerem algumas escolas. Marlon,
não pode ficar muito tempo sem frequentar o colégio.
— Eu quero mais um pouco. —
Respondeu animado. — Lá no orfanato,
não podíamos repetir se não faltava.
Era doloroso ouvir isso.
— O quê? — Vociferou meu pai
Lauro, sua voz é puro teatro. — Você é
adotado? Como assim? — Brincou
arrancando risadas.
— Alguém me explica isso, por
favor? Somos idênticos. — Nosso pai
Heitor, entrou na brincadeira teatral.
— Seria estranho… Quer dizer, eu
sou negro e vocês branquelos. — Diz,
meu irmãozinho entre risos.
— Além do fato que homens também
não podem engravidar. Pera aí… Eu
também sou adotada? — Entrei no
clima, e senti a cabeça de Marlon
tombar no meu braço, as vibrações do
seu corpo mostrava o quanto estava
gargalhando.
— Oh, céus… Acho que terei um
síncope.
Os melhores dias sempre serão com
eles. Minha família.
***
Ansiosa fui logo entrando no cômodo
da reitoria. Chamei por dona Vilma, e
pelo silêncio não está aqui. Eu queria
sentar no pequeno sofá, mas preferi
seguir para o escritório do Reitor. Abri
minha bengala de alumínio, e fui
caminhando em direção a sala. Eu sabia
o caminho, digamos que eu frequentei
muito essa sala devido meu jeito…
Rebelde.
Antes de abrir a porta, fechei minha
bengala dobrável e a segurei com a mão
esquerda.
— Com licença, Reitor. Olá?
Pelo visto ele e a secretária saíram.
Ficarei esperando aqui. Tateio com a
mão a enorme mesa, estico o braço e
sento-me na cadeira estofada. Senti um
arrepio na nuca, eu sabia que não estava
sozinha. Estou me odiando por perceber
só agora. Não é o senhor Tourinho, o
perfume dele é forte, enjoativo. Aspiro
discretamente
fechando
os
olhos
gostando do perfume amadeirado. Por
puro instinto, abri minha bengala
acertando o corpo que obviamente se
aproximou de mim.
— Mais que porra! — Exclamou, é
voz de homem.
Levantei atrapalhada da cadeira,
querendo alcançar a porta. Porém, mãos
fortes agarram minha cintura. Não
pensei duas vezes, gritei:
— Socorro! Socorro! — Lágrimas
salpicavam de meus olhos, odiava não
enxergar nessas horas.
Poxa, eu havia perguntada se tinha
alguém.
Se
for
uma
brincadeira
estúpida, juro que irei processar.
— Doida é pouco para você! —
Parei de fazer escândalo.
Essa voz grossa… Aquela sensação
de borboletinhas fazendo a festa no meu
estômago. Não, é possível. O Presidente tem coisas mais importantes para fazer
do que vir a universidade. Despertei de
meus devaneios, quando senti a palma
da mão grande acariciando minha
bochecha.
Ouvi um barulho, não estava apenas
nós dois. Tirei sua mão do meu rosto
rudemente, me afastando.
— Quem mais está aqui? — Indaguei
irritada.
— Meus dois guarda-costas. Por
favor, retirem-se e não permita que
ninguém entre nessa sala.
Eu estava tão distraída que nem usei
meus sentidos. A porta bateu de leve,
agora sim tinha apenas nós dois.
— Como é possível?
O encontro de seus sapatos, com o
piso me deixaram atenta. Ficaram mais
forte, ele estava se aproximando.
Levantei minha bengala verticalmente,
falando:
— Podemos conversar a distância.
— Um pequeno riso seu, escapou.
Continuei: — Como é possível o quê? O
senhor Tourinho estava à minha espera, onde ele está?
— Seus olhos se movimentam
normalmente. Nem de longe imaginei
que você poderia ser cega. — Engoli
seco, abaixando a bengala.
Doutor Gael e sua equipe ainda não
entendiam meu caso. Afinal, estão
estudando minha cegueira desde meus 8
anos. Tive um progresso surpreendente
aos 15 anos, consegui muito pouco, mais
vi um pequeno feixe de luz. É o máximo
que pude degustar da visão. Os anos
foram se passando, e nada mais evoluiu.
Minha
má-formação
ocular,
é
desconhecida. Eu sou cobaia, por fim
quando a equipe de oftalmologistas
encontrarem um método cirúrgico para
meu caso, serei operada. Confesso que
não guardo tantas esperanças.
— Pensou que eu entrei de bengala
para fazer uma pegadinha? — Joguei
meu sarcasmo. — É melhor eu ir.
— Pedi para o Reitor, marcar hoje com você. A verdade, é que eu quero
muito conversar com a senhorita.
— Vai mandar me prender porque
bati em você? — Ele gargalhou, gostei
do som de sua risada.
—
Não
seria
má
ideia.
—
Aproximou-se e dessa vez não me
afastei. — Seu estágio será trabalhando
para mim.
Sem reação, esse era meu atual
estado, ele prosseguiu:
— No fim do meu mandato pretendo
publicar um livro, contando a linhagem
política da minha família. Eu li seu
histórico, aliás parabéns pelas notas.
Percebi o quanto gosta de política,
manifestações. Seria perfeito você
escrever esse livro.
Limpei a garganta, tentando assimilar
tudo que o Presidente disse.
— Já pensou procurar um escritor profissional? — Ele riu, e mesmo sem
ver sua expressão tenho certeza que foi
um riso debochado.
— Não insulte minha inteligência,
moça bonita. Você passará os próximos
meses montando a linha do tempo, então
começará a escrever sobre o lado
político de minha família. Tudo já está
resolvido com o Reitor e professores,
basta aceitar. Pense no quanto isso vai
impulsionar sua futura carreira.
Estou
apreensiva.
Há
poucos
minutos, ele parecia bem chocado por eu
ser deficiente visual, e agora está agindo
como se nada tivesse acontecido. Sem
drama, longe de mim. Acontece que o
senhor Presidente parece reagir muito
bem a minha deficiência. Para mim é
estranho, porque pessoas que pensavam
que eu enxergava quando sabiam que eu
sou cega, ficavam escandalizados, então
começava o bombardeio de perguntas.
— Seria uma honra, mas prefiro arrumar um estágio numa escola, pois
esse será meu meio profissional.
Suspirou alto sem paciência, talvez.
— Pare de ser tão topetuda, moça.
Estarei esperando a senhorita amanhã à
tarde no meu gabinete.
Ele que espere. Ninguém manda em
mim.
O rangido da porta de madeira que
foi aberta, ainda não tinha se fechado.
Ele ainda estava dentro do escritório.
— Se você não comparecer amanhã,
Laura. Pode ter certeza que mando,
prender você.
Soltei a respiração que prendia,
assim que ouvi a porta se fechar.
CAPÍTULO 4 – O
MELHOR GOLPE
THEO
Não consigo parar de sorrir. A moça
bonita, a topetuda manifestante que pelo
seu
histórico
de
encrencas
da universidade, adora lutar pelos seus
ideais mesmo não enxergando, seu
corpo, alma, coração e voz estão ali,
batalhando. Sinceramente fico contente
em saber que ela não enxerga o quanto
sou fraco. Eu tenho vontade de ficar.
Aquela solidão e melancolia que
habitam no meu peito, evaporaram.
Sei o quanto é importante um político
manter sua imagem. E me envolver com
Laura, além do profissional seria uma
carta cheia para a mídia. Ah, dane-se!
Antes de ser Presidente, sou homem,
tenho sentimentos. Muitos integrantes do
meu partido encheram meus ouvidos,
insinuando o quanto seria perfeito eu ser
casado. Não pensava em casamento, até
conhecer a topetuda atrevida, também
não irei casar tão cedo. Eu quero
conhecer a Laura, mesmo ela sendo tão
geniosa, orgulhosa, linguaruda, atrevida,
desafiadora, gostosa, muito gostosa.
— Senhor Presidente, está tudo bem?
— Arqueei a sobrancelha para meu
assessor. — Perguntei se podemos ir
diretamente para o centro comunitário?
Preciso me manter focado em meus
compromissos com meu povo. Combinei
de visitar o centro comunitário que
abriga idosos que foram esquecidos por
suas famílias. Muitos deles foram
abandonados em hospitais, e quando
obtiveram alta, seguiram diretamente
para lá. Criei esse centro e entre outros,
quando eu ainda era Deputado do Rio de
Janeiro. E quando me tornei Senador,
encaminhei os centros aqui para
Brasília. E estou com o projeto para
espalhar as sedes de abrigos em outras
cidades.
— Sim, Bento. Por favor, Paulo vá
direto para o centro comunitário. —
Pedi ao motorista, estávamos saindo dos
arredores da Universidade.
Atrás a equipe de segurança nos
seguiam. Consegui entrar por trás do
prédio, sem ser visto por ninguém. E
para não chamar muita atenção, preferi
manter
apenas
dois
guarda-costas comigo lá dentro.
— Posso saber, por que desse
sorriso?
— Com certeza não é por sua causa.
Ele rir, mexendo na sua agenda, onde
estão todos os meus compromissos.
— Ainda bem, estava até ficando
com medo.
Foquei na vista que se passava pela
janela do carro. Minha vontade era de
passar o dia com a topetuda linda.
Quero saber como é seu dia, como ela
conseguiu
ser
tão
forte
mesmo
parecendo frágil. Eu poderia ter sua
ficha completa num estalar de dedos,
mas quero ouvir tudo daquela boquinha.
— Amanhã estarei esperando Laura,
no meu gabinete. Desmarque qualquer
reunião ou evento, caso tenha, a noite.
— Seu sorriso tem nome. — Encarei
Bento,
que
maneava
a
cabeça
negativamente.
— Sem indiretas.
— Você sabe que antes de ser seu
assessor,
eu
sou
seu
amigo.
Sinceramente, acho melhor que você e
essa
moça
não
se
envolvam
amorosamente.
Poderia
ser
um
escândalo, se interpretado de má fé.
Suspirei, coçando minha barba.
— É bom você saber, que mesmo
sendo meu amigo, eu posso demiti-lo. —
Toei rude. — Nem pense que você ou outra pessoa são capazes de monitorar
minha vida. Eu sou o Presidente desse
país, e sei muito bem meus deveres, mas
não se esqueça que sou ser humano. Se
eu me envolver com Laura, não será
caso de uma noite. Vai ser de maneira
correta, como um homem deve tratar
uma mulher.
Fomos o restante do caminho em
silêncio. Minha intenção não era ser
grosseiro com Bento. Entretanto, a
maneira que ele falou me fez lembrar da
conversa que tive com minha mãe e avó.
Elas afirmaram que o declínio do meu
avô Ricardo teve em parte a ver com a
manipulação que colocavam nas costas
deles, e infelizmente o mesmo aceitou
sendo ganancioso a princípio. Jamais
serei uma marionete nas mãos desses
sanguessugas que rodeiam a política
fazendo a politicagem de bosta.
— Presidente, é uma honra tê-lo aqui.
— Diz, dona Berna, a comandante do
abrigo.
Assim que o carro estacionou, o
bombardeio de fotógrafos e jornalistas caíram em cima. Respondi algumas
perguntas sobre meus projetos, e os
questionamentos sobre Laura, deixei em
branco. Não ficaria de picuinha aqui e
ali. Laura Monteiro, será apresentada
diante de todos como a encarregada de
escrever o livro sobre a linhagem
política da minha família.
— Sabe que gosto de saber como
anda as coisas por aqui. — Abraço-a,
beijando seus cabelos grisalhos. — Está
faltando algo?
— Não, na verdade, que estamos
esperando os remédios da farmácia,
aliás estão atrasados duas semanas.
— Telefonou para saber o motivo?
— Disseram que estavam esperando
chegar.
— Pedirei que cuidem dessa falta de
compromisso. Até amanhã à tarde, os
remédios estarão aqui.
— Que maravilha! O senhor sabe que
muitos precisam tomar os medicamentos
regularmente.
— Por isso mesmo, não deixarei
impune.
Conversei com alguns senhores e
senhoras. Tomei uma xicara de café,
enquanto escutava as histórias deles. É
triste saber que estou de frente para
pessoas que um dia foram jovens e
fizeram de tudo para proporcionar o
melhor para seus filhos e netos, para no
fim, serem descartados como nada.
Cinco
precisam
realizar
cirurgia
ortopédica, encaminharei tudo para o
secretário de saúde.
Muitos pediram para tirar foto
comigo, e assim fiz. Sei que para
algumas pessoas tudo que estou fazendo
é jogada de marketing, mero engano. Eu
gosto de realizar melhorias, não tenho
nojo em abraçar, cumprimentar e
conversar com meu povo. Faço tudo
com o coração, sem hipocrisia nenhuma.
LAURA
Eu ainda estava meio… Perturbada,
com a novidade que meu pai, contou
assim que cheguei em casa. Antes de ele falar, narrei como minha manhã na
universidade foi inesperada. Nunca
pensei que meus pais ficariam tão
empolgados por eu ser a estagiaria
responsável de escrever sobre o
Presidente mandão. Meu pai Heitor
disse que se eu for presa a mando do
senhor posso tudo, ele não pagará
minha fiança. Então acho melhor
comparecer amanhã no gabinete dele.
— Sinceramente acho que foi um
engano, pai. — Murmurei, enquanto
comia pipoca sentada no sofá. Tom, está
deitado nos meus pés preguiçosamente,
posso imaginá-lo dessa maneira.
— E por que mentiríamos? —
Questionou meu pai Heitor.
— Eu não disse que vocês estão
mentindo. Apenas acho que foi um erro
deles.
É impossível uma grande agência de
modelos, como a Angel se interessar por
mim. Uma universitária, que gosta de
comer
enormes
hambúrgueres, acompanhado de uma cesta de batatas
fritas. Além disso, eu tenho apenas 1,60
de altura e meu quadril é um pouco
largo. Percebo isso quando trajo calça
jeans. E fala sério! Nem tem como me
descrever fisicamente se nunca vi meu
reflexo.
— Você é uma gata, mana. — Elogiou
Marlon.
Sorri, estou adorando essa nossa
interação. Pensei que a princípio ele
teria dificuldades em se acostumar a
uma nova rotina. Quando se está do lado
de pessoas maravilhosas, como são
nossos pais, a felicidade é um brinde a
mais.
— Seria horrível minha própria
família dizer que sou feia. — Brinquei.
— Para de bobeira, Laurinha! —
Bela que até então estava calada, se
pronunciou. — Quantas vezes você
ouviu
elogios
dos
carinhas
da universidade? — Fiquei muda, continuei
comendo pipoca. — Eu vou acompanhar
você, não se preocupe.
Rolei os olhos. Lógico que ela iria
me acompanhar. Bela, adora tudo que
tem a ver com moda. Ainda não consigo
entender porque ela cursa Direito, sendo
que poderia fazer algo que realmente
gosta.
— Deviríamos ficar preocupados
com isso, querido? — Indagou meu pai
Lauro ao meu pai Heitor.
Eles sabiam o quanto Bela era
eufórica com essas coisas.
— Ei, eu posso ser sua agente.
— Não viaja, Bela.
— Querida, é realmente uma pena
você não ver com seus próprios olhos o
quanto é bonita. Porque não pode
acreditar em si mesma, apenas usando
seus sentidos. Ser modelo fotográfica
pode ser uma boa, faz tempo que você
junta dinheiro para poder comprar
aquele terreno e construir um abrigo
para
cachorros
abandonados.
Se
tivéssemos condições financeiras já
teríamos comprado há anos o terreno.
O pior de tudo é que nem estou perto
da quantia que o dono do terreno, pede.
O local é perfeito, pois fica afastado da
grande movimentação da cidade. Meu
pai Heitor se comprometeu a tratar de
todos os cachorros que estarão no
abrigo, e ainda poderia conseguir mais
veterinários.
— Tem razão, pai. Se eles acham que
eu posso ser modelo, por que não? —
Dei de ombros, indecisa. — O que ele
disse mesmo?
— O próprio dono da agência ligou,
e afirmou que você é o rosto que eles
procuram.
Anotei
os
números
telefônicos que ele passou.
— Amanhã cedo ligo para ele.
— Perfeito!
Enquanto Bela, fazia as unhas. Eu prosseguia minha leitura no meu livro de
História Antiga. Meu cuidado com os
meus livros, são extremamente irritantes,
eles custam caro por serem em Braile
então, não posso simplesmente ser
desleixada.
***
Quando terminei o café da manhã,
pedi para meu pai Lauro discar o
número do dono da agência Angel.
Depois de esperar uns quinze minutos,
finalmente falei com Clóvis Carvalho.
Ele pareceu empolgado, e deixei claro
minha deficiência visual, sua resposta
rápida confirmou que não teria problema
algum eu ser cega.
Pus o guia no Tom, e seguimos para
frente de casa. A buzina escandalosa do
carro de Bela, logo encheu o ambiente.
Durante o caminho, quis gritar com ela,
pois estava parecendo uma criança.
Disse que ficaríamos famosas, e ela
seria minha agente. Ao chegarmos na
universidade,
precisei
ouvir
tudo
novamente, afinal ela estava contando a
novidade para Chico. Deixei Tom, no
lugar de sempre, na porta da frente do
prédio. Ali, ele seria paparicado pelos
milhares de estudantes e funcionários.
Por eu estar familiarizada com os
cômodos da universidade, não é
necessário que meu cão-guia me
acompanhe aqui dentro.
***
— Para de bater o pé no chão.
Estamos a um tempinho esperando o
senhor Carvalho. Pelo que Bela, disse o
lugar esbanja luxo.
— Eu estou nervosa.
— Sem motivos.
Acariciei o pelo macio de Tom.
A secretária avisou que poderíamos
entrar. Bela, se segurou em mim, toda
atrapalhada. Quase ri, mas resolvi
segurar minha gargalhada, não é um bom
momento.
— Que maravilha receber minha
nova estrela. — A voz soou, bem
próxima.
— É um prazer estarmos aqui. Tenho
certeza que Laura, vai brilhar muito aqui
na Angel.
Quase bufei e belisquei o braço de
minha amiga doida. Ela não precisa
ficar bajulando o Manda-Chuva.
— Eu sinto que você, Laura será um
sucesso. E com uma agente dessas,
choverá de trabalhos publicitários.
Assim que eu conseguir a quantia
necessária para comprar o terreno,
cairei fora. Pensei, e sorri amigável.
— Espero que sim.
— Sentem-se, por favor.
Tom me guiou, e Bela segurava meu
braço direito. Assim que sentamos, um
silêncio estranho pairou sobre o ar.
Limpei a garganta, e falei:
— Então… Como será meu trabalho?
— Ah, claro! Desculpe-me é que eu
realmente estou fascinado com sua
beleza. Minha esposa e filho, que
também
trabalham
comigo,
estão surpreendidos. Há dois anos estamos
atrás de uma imagem feminina que
represente verdade em todos os aspectos
da beleza e que principalmente seja
natural. Então vimos sua foto na revista
Poder, e mesmo seu rosto estando
pintado com as cores de nossa bandeira
nacional,
sua
beleza
estava
ali
estampada. Nunca pensei que fosse
deficiente visual, seus olhos brilham e
se movimentam de maneira tão pura.
Fiquei abalada com suas palavras,
parece ser sincero.
— Então a Laura, seria modelo
fotográfica?
— Sim, senhorita…
— Isabela.
— Queremos Laura como uma Angel
oficial, Isabela. Nossa agência mantém
dois tipos de contrato. Temos o oficial
onde tornamos os modelos exclusivos, e
realizam trabalhos todo mês. E outro é
onde impulsionamos os modelos para o
mercado.
— Parece bom. — Falei baixinho,
apenas para minha amiga escutar. — E
como seria o lucro?
— Todo mês sua margem de
porcentagem
será
equivalente
aos
trabalhos que realizou. O valor será
depositado diretamente em sua conta
bancária.
— Não pretendo ser modelo, isso
nunca passou pela minha cabeça.
Entretanto, sei que posso conseguir um
dinheiro bom, o qual pretendo aplicar
em um projeto. Por isso, aceito senhor
Carvalho.
— É bom saber de sua sinceridade,
Laura. Pedirei ao meu advogado para
mudar uma cláusula do contrato.
— E qual disposição especial
mudará? — Indagou Bela.
— Seu período de trabalho será
livre. No contrato estaria que você, Laura modelaria para Angel durante
dois anos, mas o tempo estará
indeterminado. Sendo que a qualquer
momento você poderá sair da agência.
Porém peço que se comprometa com
todos os trabalhos que surgirem.
— Prometo.
Seu
Carvalho,
nos
mostrou
a
empresa. Bela, fazia questão de narrar o
que tinha nos cômodos que visitávamos.
Tom, como eu esperava chamou atenção.
Cumprimentei as pessoas que me eram
apresentadas. Notei que alguns tons de
vozes
pareceram
falsos,
talvez
repudiando o fato de uma cega poder
modelar. Odiava quando eu passava por
isso, afinal não vejo as expressões
faciais, uso os meus sentidos. Então não
posso brigar por algo que apenas eu consigo perceber.
Nos despedimos do senhor Carvalho,
voltaríamos assim que ele ligasse
informando que seu advogado mudou o
contrato.
— Ai, por que parou assim? —
Resmunguei, pois acabei colidindo nas
costas de Bela.
— Por favor, me fale que não
cometeu nada de errado.
— Se isso te deixar tranquila, eu
falo. — Falei humorada. Segurei melhor
o guia.
— Pare de gracinhas, Laura. Tem
dois carros pretos muito bonitos a
poucos metros, e tem dois homens
encostados no automóvel.
— E…?
— Eles estão se aproximando.
Tom começou a latir, talvez por notar
meu certo medo e achar que os homens
podem ser uma ameaça.
— Senhorita Monteiro?
— É ela.
Nossa, que amiga corajosa eu tenho.
— Qual o problema?
— O senhor Presidente a espera em
seu gabinete. Venha.
Ah, céus! Acabei esquecendo.
— Ah, é isso. — Murmurou Bela.
— Tudo bem, estou indo. Bela,
depois eu ligo para você.
— Calma aí sua maluca! Como
vamos ter certeza que esses homens
realmente estão a mando do Presidente.
Agora ela está corajosa.
— Senhores, eu irei com minha
amiga até o Palácio. Se quiserem podem
nos seguir.
— Mas o Presidente…
— Ele manda em vocês, não em mim.
Vamos, Bela!
CAPÍTULO 5 –
SEDUZIDO POR ELA
THEO
Alguns minutos de atraso eu posso
aceitar, agora duas horas de atraso é
muito. Minha vontade era de pegar
Laura de um jeito que sinceramente me
tornaria um pervertido. Pedi para Bento,
localizá-la e mandasse os seguranças
buscá-la, aonde ela estivesse.
Eu não conseguia me concentrar em
mais nada. Há pouco meu cérebro
trabalhava num contrato aparentemente
excelente, um acordo ambiental. E a
porra dos meus pensamentos estão na
topetuda atrevida.
— Senhor Presidente, os seguranças
acabaram de ligar informando que a
senhorita Monteiro está a caminho.
— Aonde ela estava?
— Na agência Angel, acompanhada
de sua amiga e o cão-guia.
Ainda é surreal saber que aquela
moça bonita, não pode enxergar. Eu não
sei quais os planos de Deus referente a
Laura. Mas quero fazer o possível e
impossível para ela voltar a enxergar.
Porém sou egoísta ao ponto de querê-la
desse jeitinho, para protegê-la sempre e
que minha fraqueza nunca seja vista por
seus olhos.
— Qual o motivo?
— Parece que ela deixará de ser uma
simples estudante para ser uma modelo.
Que merda! O ciúme é uma cadela
mesmo. Só de imaginá-la se exibindo para o mundo com toda sua formosura,
sorriso marcado pelas covinhas, o olhar
genuíno. Eu sou o Presidente desse país,
quem sabe posso impedi-la de modelar.
Ah, que porra estou pensando?
— Assim que ela chegar, mande-a
entrar.
—Sim senhor.
Finalmente
encontrei
minha
concentração.
Li
todo
o
acordo
ambiental, e achei melhor, antes de
tomar qualquer decisão conversar com
alguns integrantes do meu partido. Dei
continuidade ao trabalho, até que escutei
uma batida na porta. Mandei entrar, e
logo a moça bonita entrou. Sua mão
segurava a bengala de alumínio que
deixou um belo roxo em minha pele. Por
um momento pensei que Laura, iria
aparecer vestida com um conjunto formal, mas sendo a menina que conheço
a pouco tempo, sabia que não ia vir
desse jeito. Está trajando sua calça jeans
que aperta seus quadris, deixando o
formato de sua bunda e coxas marcadas
sensualmente, e uma camisete de alça
com dois botões abertos, na cor branca.
E claro, seu tênis All Star surrado.
— Antes de qualquer coisa, meu
atraso tem um motivo.
— É bom ter mesmo, moça. — Cocei
o queixo, avaliando-a. — Sente-se, a
cadeira está dez passos a sua frente,
ande em linha reta.
Ela suspirou, obviamente surpresa
por eu não ter a ajudado. Claro, que
estou me segurando para não ir até ela.
Entretanto, quero que essa topetuda
saiba, que nunca colocaria obstáculos
em sua frente, melhor dizendo, entre nós.
Ela me parece muito independente, pelo
menos até o ponto que sua deficiência
visual a permite ir sozinha. Por isso,
meu plano é mantê-la confortável e
derrubar suas defesas com todo amor
que guardei quando encontrasse a verdadeira. A atração é forte, a vontade
de ficar perto e cuidar é quente, sinto
que ultrapassei os limites, pois estou no
limite de uma atração insana. Não posso
assustá-la.
— Que beleza, estou me sentindo um
chihuahua.
Ri, com gosto. Ao me recuperar do
ataque de riso, conclui:
— Pequena e brava como eles.
Mordi os lábios segurando o riso. As
maças de seu rosto ficaram vermelhas, e
sua expressão facial não é nada boa.
Ainda bem que ela não consegue ver os
objetos pontudos que estão à sua frente,
pois se não… Minha nossa, seria um
estrago e tanto.
— Se o senhor pode me chamar de
cachorra, então posso xingá-lo de
fantoche. Espero que com esse humor
todo seja capaz de mudar os índices
ordinários do nosso país. — Enfrentou-
me sem medo.
Era perturbador saber que a linda
moça a minha frente, não demostra
medo. Quem diria que essa rebelde que adora protestar, é realmente corajosa.
Seja qualquer manifestação, lá está ela,
no meio da multidão levantando seu
cartaz. Mesmo sem poder enxergar, ela
faz coisas que uma pessoa com a visão
perfeita,
não
tem
coragem.
É
inspiradora.
Gosto de saber que Laura, não
enxerga o quão solitário sou. Tenho uma
família perfeita, irmãos maravilhosos,
sempre dispostos a me ajudar. Ser o
Presidente do meu país, é uma honra,
mesmo assim sinto que falta algo em
minha vida. Um motivo para eu
continuar vivendo… Talvez eu entre na
história de forma trágica. Sinceramente,
não sei se devo continuar nessa missão.
Adoro saber que meu povo tem crescido
por projetos sociais verdadeiros e
acima de tudo, honestos, pois tive que
varrer todo o sujo do partido do meu
avô Ricardo Medeiros.
— Vai ficar calado? — Indagou, a
topetuda. Ela me instiga, fascina.
— Eu fui criado por uma rainha e um
rei. Jamais maltrataria uma mulher
fisicamente e verbalmente. Sou um
verdadeiro príncipe, então nem tente
testar minha paciência. Você me agride e
eu continuarei lhe respeitando. — Ela
bufou rebelde. — Depois agradeça os
meus pais.
— É muito cínico!
— Fiz uma comparação. — Brinquei.
— Ok, eu não brinco mais com você.
—
Vamos
ao
que
interessa,
Presidente. — Pôs a mochila no colo. —
Como tudo foi em cima da hora, não
pesquisei sobre a linhagem política de
sua família. O ideal seria eu começar,
apenas quando eu concluísse a pesquisa
e montasse a linha do tempo. Aí sim,
conheceria melhor sua rotina, seus
projetos.
— Theo. Me chame de Theo. Faça
sua pesquisa aqui todas as tardes.
— O senhor é quem sabe. Ainda bem
que não vejo sua cara.
Fico surpreso por saber que ela se dá
bem com sua deficiência. Sem auto
piedade, ela apenas continua vivendo.
Ela abre sua mochila, e tira seu
notebook que é coberto por diversas
figurinhas. Concentrada, começa a fazer
as pesquisas referente aos Medeiros.
Com o avanço da tecnologia, os
deficientes visuais podem utilizar o
computador por meio de um software
leitor de tela, que capitam tudo com
sintetizadores de voz. Com seus fones de
ouvidos, ela prossegue seu trabalho.
Providenciei um lanche para nós
dois, ela estava comendo tudo em
silêncio.
— Não quer perguntar nada?
—
Antes
de
começar
os questionamentos, preciso de tempo para
terminar as pesquisas, e depois faço as
perguntas a você, Theo.
— Gostaria muito que deixasse
minha vida pessoal de fora.
— As pessoas gostam de saber sobre
isso.
—
Eu
prefiro
manter
minha
privacidade.
— Depois que eu concluir esse
estágio, estarei livre?
— Não.
— Ficar me segurando aqui já é
birra. Além disso, não sou escritora.
Quero ser professora, essa não é minha
área. Eu poderia estar estagiando numa
escola.
— Eu sei disso.
— Então o que mais quer de mim,
senhor Presidente?
— Quero cada pedacinho seu, Laura.
LAURA
Esse homem só pode ter bebido.
Afinal, não estou vendo mesmo, para ter
absoluta certeza que está sóbrio.
Mastiguei o pedaço do sanduiche
lentamente, desejando que ele retirasse
o que acabou de dizer.
— Que horas são?
— Não seja sonsa.
— Eu acho que já está na hora de eu
ir embora.
Antes que ele falasse, meu celular
começou a vibrar no bolso da calça.
Peguei rapidamente, atendi:
— Alô?
— Ei, amiga! Como é trabalhar ao
lado do Presidente gostosão?
Ah, eu mereço.
— Pode vir me buscar, Bela? —
Falei.
— Claro que sim. Estou parada no
sinal, esse trânsito é uma bosta. Pode
reclamar para o Presidente… Pensando
melhor, prefiro fazer uma listinha das
coisas que eu não gosto, aí amanhã você
entrega para ele. Só para avisar, deixei
o Tom na sua casa em total segurança.
Como essa criatura é tagarela.
— Estarei esperando por você.
— Passei na sua casa, e peguei sua
roupa. Espero que esteja bem-disposta
para o pole dance.
Eu tinha uma preguiça imensa em
relação a praticar esportes. Entretanto,
sempre mantive uma refeição saudável.
Aceitei fazer aulas de pole dance com
Bela, há mais ou menos dois anos.
Pensei que nunca conseguiria, mas a
professora Rita, afirma com todas as
letras que eu sou muito boa. Então
decidi continuar com as aulas. Tentamos
praticar pelo menos duas vezes durante
a semana. Praticando essa dança, saio
da lista de sedentários do mundo.
— Com certeza. Até mais.
Desliguei o celular, guardando-o no
bolso novamente.
— Compromisso?
Peguei meu notebook que estava em
sua mesa, e guardei em minha mochila.
— Sim.
— Continuaremos com essa conversa
em outro momento. E nem tente fugir.
Preciso saber de uma coisa.
— Fale que estou com pressa. —
Desdobrei minha bengala.
— Você aceitou ser modelo da
agência Angel?
— Está me vigiando? Eu não sou
nenhuma terrorista.
— Sem palhaçada, moça bonita.
Levantei, e ouvi seus passos se
aproximando. Inalei disfarçadamente seu
perfume de homem másculo. Céus, qual
o meu problema? Preciso ir logo
embora.
— Por incrível que pareça o dono da
agência me quer como modelo. Eu
aceitei.
— Que tipo de fotos vai fazer?
Suas mãos seguraram meus braços,
delicadamente.
— Ainda não sei.
— Está precisando de dinheiro para
quê?
— Ah, me poupe. Até amanhã.
Quando tentei me afastar, apertou
meus braços com firmeza. Meu corpo
colidiu com o seu, fazendo-me sentir sua respiração quente em meu rosto. Fechei
os olhos nocauteada ao sentir seus
lábios deixarem um beijo em minha