O Cão dos Baskervilles
Capítulo XIII · Prendendo as Redes
- Estamos engajados afinal disse Holmes quando caminhávamos juntos pela charneca. Que atrevimento o sujeito tem! Como ele se recompôs diante do que deve ter sido um choque paralisador quando descobriu que o homem errado fora a vítima da sua trama. Eu disse a você em Londres, Watson, e digo-lhe agora outra vez, que nunca tivemos um inimigo mais digno da nossa determinação.
- Lamento ele ter visto você.
- Eu também, a princípio. Mas não havia meio de evitar isso.
- Que efeito você acha que terá sobre os seus planos, agora que ele sabe que você está aqui?
- Pode fazer com que ele fique mais cuidadoso, ou pode levá-lo imediatamente a medidas desesperadas. Como muitos criminosos espertos, ele pode confiar demais na sua própria esperteza e imaginar que nos enganou completamente.
- Por que não o prendemos imediatamente?
- Meu caro Watson, você nasceu para ser um homem de ação. O seu instinto é sempre fazer alguma coisa enérgica. Mas supondo, só para argumentar, que mandemos prendê-lo esta noite, como diabos ficaremos melhor por causa disso? Não podemos provar nada contra ele. Essa é a astúcia diabólica da coisa! Se ele estivesse atuando através de um agente humano podíamos obter alguma prova, mas se tivermos que arrastar esse cachorrão para a luz do dia isso não nos ajudará a colocar uma corda em volta do pescoço do seu dono.
- Certamente temos um caso.
- Nem a sombra de um, apenas suspeitas e conjeturas. Podem nos dispensar do tribunal às gargalhadas se formos com essa história e essas provas.
- Há a morte de Sir Charles.
- Encontrado morto sem uma marca no corpo. Você e eu sabemos que ele morreu de puro medo, e sabemos também o que o assustou; mas como vamos fazer com que doze jurados impassíveis acreditem nisso? Que sinais há de um cão? Onde estão as marcas dos seus dentes? Naturalmente, sabemos que um cão não morde um corpo morto e que Sir Charles estava morto antes sequer do animal alcançá-lo. Mas temos que provar tudo isso, e não estamos em condições de fazer isso.
- Bem, então, esta noite?
- Não estamos muito melhor esta noite. Novamente, não há nenhuma relação direta entre o cão e a morte do homem. Nós nem vimos o cão. Nós o ouvimos, mas não podemos provar que ele estava correndo na pista desse homem. Há uma ausência completa de motivo. Não, meu caro amigo; temos que nos conformar com o fato de que não temos nenhum caso atualmente, e que vale a pena corrermos qualquer risco a fim de estabelecer um.
- E como você se propõe a fazer isso?
- Eu tenho grandes esperanças no que a Sra. Laura Lyons possa fazer por nós quando a situação for tomada clara para ela. E tenho o meu próprio plano também. Suficiente para amanhã é o mal dele; mas espero finalmente estar em posição vantajosa antes do dia terminar.
Não consegui saber mais nada dele, e ele caminhou, perdido nos seus pensamentos, até os portões da Mansão Baskerville.
- Você vai entrar?
- Sim. Não vejo motivo para me esconder mais. Mas uma última palavra, Watson. Não diga nada sobre o cão a Sir Henry. Deixe-o pensar que a morte de Selden foi como Stapleton queria que acreditássemos. Ele terá maior coragem para a provação que terá que sofrer amanhã, quando está convidado, se me lembro corretamente do seu relatório, para jantar com essas pessoas.
- E eu também.
- Então você deve se desculpar e ele tem que ir sozinho. Isso será conseguido com facilidade. E agora, se estamos atrasados demais para jantar, acho que estamos ambos prontos para as nossas ceias.
Sir Henry ficou mais satisfeito do que surpreso ao ver Sherlock Holmes, porque estivera esperando por alguns dias que os acontecimentos recentes o trariam de Londres. Ergueu as sobrancelhas, contudo, quando descobriu que o meu amigo não tinha nenhuma bagagem nem qualquer explicação para a sua ausência. Entre nós atendemos logo as suas necessidades, e depois sobre uma ceia tardia explicamos ao baronete o suficiente da nossa experiência que pareceu desejável que ele soubesse. Mas primeiro tive o desagradável dever de dar a notícia a Barrymore e sua mulher. Para ele isso pode ter sido um alívio completo, mas ela chorou amargamente em seu avental. Para todo mundo ele era o homem violento, meio animal e meio demônio, mas para ela permaneceu sempre o pequeno menino teimoso da sua própria infância, a criança que segurara em sua mão. Mau realmente é o homem que não tem uma mulher para pranteá-lo.
- Estive me aborrecendo em casa o dia inteiro desde que Watson saiu de manhã - disse o baronete. - Acho que mereço algum crédito, porque mantive minha promessa. Se eu não tivesse jurado não sair sozinho podia ter tido uma noite mais animada, porque recebi um recado de Stapleton convidando-me para ir lá.
- Não tenho nenhuma dúvida de que o senhor teria tido uma noite mais animada - disse Holmes secamente. - A propósito, suponho que o senhor não apreciasse termos estado pranteando sobre o seu corpo com o pescoço partido?
Sir Henry abriu os olhos. - Como foi isso?
- Esse pobre desgraçado estava vestido com as suas roupas. Receio que seu empregado que as deu a ele possa ter problemas com a polícia.
- Isto é pouco provável. Não havia nenhuma marca em nenhuma delas, pelo que sei.
- Isso é sorte dele; na verdade, é sorte para vocês todos, já que todos vocês estão do lado errado da lei nesta questão. Não estou certo de que como um detetive consciencioso meu primeiro dever não seja prender todos os que morani na casa. Os relatórios de Watson são documentos muito incriminadores.
- Mas e quanto ao caso? - perguntou o baronete.
O senhor conseguiu deslindar alguma coisa? Sei que Watson e eu não sabemos muito mais desde que viemos para cá.
- Acho que estarei em condições de tomar a situação bastante mais clara para o senhor brevemente. Tem sido um caso excessivamente difícil e muito complicado. Há vários pontos sobre os quais ainda precisamos de esclarecimentos, mas esses estão chegando da mesma forma.
- Tivemos uma experiência, como Watson sem dúvida contou ao senhor. Ouvimos o cão na charneca, portanto posso jurar que nem tudo é uma superstição vazia. Lidei um pouco com cães quando estava no Oeste, e conheço um quando ouço. Se o senhor puder amordaçar esse e pô-lo numa corrente estarei pronto a jurar que o senhor é o maior detetive de todos os tempos.
- Acho que o amordaçarei e o porei numa corrente se o senhor me der a sua ajuda.
- O que quer que o senhor me diga para fazer eu farei.
- Muito bem; e vou pedir-lhe também para fazer isso cegamente, sem perguntar sempre o motivo.
- Como quiser.
- Se o senhor fizer isso acho que as probabilidades são de que o nosso pequeno problema será resolvido em breve. Não tenho nenhuma dúvida...
Ele parou de repente e ficou olhando fixamente por cima da minha cabeça para o ar. A luz batia em seu rosto e tão atento estava este e tão imóvel que podia ter sido o de uma estátua clássica nítida, uma personificação da vigilância e da expectativa.
- O que é? - exclamamos ambos.
Pude notar quando baixou os olhos que ele estava reprimindo alguma emoção interior. Suas feições ainda estavam compostas, mas seus olhos brilhavam divertidos de regozijo.
- Desculpe a admiração - disse ele ao acenar com a mão para a fila de retratos que cobria a parede oposta. - Watson não admite que eu conheça nada sobre arte, mas isso é simples ciúme porque as nossas opiniões sobre o assunto diferem. Agora, esta é realmente uma série ótima de retratos.
- Bem, alegro-me de ouvi-lo dizer isso - disse Sir Henry olhando com alguma surpresa para o meu amigo. - Eu não pretendo conhecer muito sobre essas coisas, e seria melhor juiz de um cavalo ou de um novilho do que de um quadro. Eu não sabia que o senhor encontrava tempo para essas coisas.
- Eu conheço o que é bom quando vejo, e estou vendo agora. Esse é um Kneller, posso jurar, essa dama de seda azul ali, e o cavalheiro robusto com a peruca deve ser um Reynolds. São todos retratos de família, suponho?
- Todos eles.
- O senhor sabe os nomes?
- Barrymore tem-me instruído a respeito, e acho que posso recitar minha lição razoavelmente bem.
- Quem é o cavalheiro com o óculo-de-alcance?
- Esse é o Contra-Almirante Baskerville, que serviu com Rodney nas índias Ocidentais. O homem com o casaco azul e o rolo de papel é Sir William Baskerville, que foi Presidente de Comissões da Câmara dos Comuns sob Pitt.
- E esse cavalheiro em frente a mim, aquele com o veludo preto e as rendas?
- Ah, o senhor tem o direito de saber sobre ele. Este, o malvado Hugo, é a causa de todas as confusões que o Cão dos Baskervilles começou. É provável que não o esqueçamos.
Fiquei olhando com interesse e alguma surpresa para o retrato.
- Santo Deus! - disse Holmes. - Ele parece um homem bastante tranqüilo e de hábitos pacíficos, mas ouso dizer que havia um demônio escondido em seus olhos. Eu o havia imaginado como uma pessoa mais robusta e fanfarrona.
- Não há nenhuma dúvida quanto à autenticidade, porque o nome e a data, 1647, estão atrás da tela.
Holmes pouco mais disse, mas o retrato do velho pândego parecia exercer uma fascinação sobre ele, e seus olhos permaneceram continuamente fixos sobre ele durante a ceia. Não foi senão mais tarde, quando Sir Henry havia ido para o seu quarto, que pude seguir a linha dos seus pensamentos. Ele me levou de volta ao salão de banquetes com a vela do seu quarto na mão, e ergueu-a contra o retrato manchado pelo tempo sobre a parede.
- Você está vendo alguma coisa ali?
Eu olhei para o chapéu de plumas largas, os cachos encaracolados, o colarinho de renda branca e o rosto severo e franco emoldurado entre eles. Não era um semblante brutal, mas era afetado, rígido e severo, com uma boca de lábios finos, resolutos e um olhar friamente intolerante.
- Parece-se com alguém que você conhece?
- Há alguma coisa de Sir Henry no queixo.
- Apenas uma sugestão, talvez. Mas espere um instante! - ele subiu numa cadeira e, segurando a luz na mão esquerda, curvou o braço direito sobre o chapéu largo e em volta dos longos cachos.
- Santo Deus! - exclamei espantado.
O rosto de Stapleton havia saltado para fora da tela.
- Ali, você está vendo agora. Meus olhos foram treinados para examinar fisionomias e não seus acessórios. A primeira qualidade de um investigador criminal é poder ver através de um disfarce.
Ouvimos o cão na charneca, portanto posso jurar que nem tudo é uma superstição vazia. Lidei um pouco com cães quando estava no Oeste, e conheço um quando ouço. Se o senhor puder amordaçar esse e pô-lo numa corrente estarei pronto a jurar que o senhor é o maior detetive de todos os tempos.
- Acho que o amordaçarei e o porei numa corrente se o senhor me der a sua ajuda.
- O que quer que o senhor me diga para fazer eu farei.
- Muito bem; e vou pedir-lhe também para fazer isso cegamente, sem perguntar sempre o motivo.
- Como quiser.
- Se o senhor fizer isso acho que as probabilidades são de que o nosso pequeno problema será resolvido em breve. Não tenho nenhuma dúvida...
Ele parou de repente e ficou olhando fixamente por cima da minha cabeça para o ar. A luz batia em seu rosto e tão atento estava este e tão imóvel que podia ter sido o de uma estátua clássica nítida, uma personificação da vigilância e da expectativa.
- O que é? - exclamamos ambos.
Pude notar quando baixou os olhos que ele estava reprimindo alguma emoção interior. Suas feições ainda estavam compostas, mas seus olhos brilhavam divertidos de regozijo.
- Desculpe a admiração de um connaisseur - disse ele ao acenar com a mão para a fila de retratos que cobria a parede oposta. - Watson não admite que eu conheça nada sobre arte, mas isso é simples ciúme porque as nossas opiniões sobre o assunto diferem. Agora, esta é realmente uma série ótima de retratos.
- Bem, alegro-me de ouvi-lo dizer isso - disse Sir Henry olhando com alguma surpresa para o meu amigo.
Eu não pretendo conhecer muito sobre essas coisas, e seria melhor juiz de um cavalo ou de um novilho do que de um quadro. Eu não sabia que o senhor encontrava tempo para essas coisas.
- Eu conheço o que é bom quando vejo, e estou vendo agora. Esse é um Kneller, posso jurar, essa dama de seda azul ali, e o cavalheiro robusto com a peruca deve ser um Reynolds. São todos retratos de família, suponho?
- Todos eles.
- O senhor sabe os nomes?
- Barrymore tem-me instruído a respeito, e acho que posso recitar minha lição razoavelmente bem.
- Quem é o cavalheiro com o óculo-de-alcance?
- Esse é o Contra-Almirante Baskerville, que serviu com Rodney nas índias Ocidentais. O homem com o casaco azul e o rolo de papel é Sir William Baskerville, que foi Presidente de Comissões da Câmara dos Comuns sob Pitt.
- E esse cavalheiro em frente a mim, aquele com o veludo preto e as rendas?
- Ali, o senhor tem o direito de saber sobre ele. Este, o malvado Hugo, é a causa de todas as confusões que o Cão dos Baskervilles começou. É provável que não o esqueçamos.
Fiquei olhando com interesse e alguma surpresa para o retrato.
- Santo Deus! - disse Holmes. - Ele parece um homem bastante tranqüilo e de hábitos pacíficos, mas ouso dizer que havia um demônio escondido em seus olhos. Eu o havia imaginado como uma pessoa mais robusta e fanfarrona.
- Não há nenhuma dúvida quanto à autenticidade, porque o nome e a data, 1647, estão atrás da tela.
Holmes pouco mais disse, mas o retrato do velho pândego parecia exercer uma fascinação sobre ele, e seus olhos permaneceram continuamente fixos sobre ele durante a ceia. Não foi senão mais tarde, quando Sir Henry havia ido para o seu quarto, que pude seguir a linha dos seus pensamentos. Ele me levou de volta ao salão de banquetes com a vela do seu quarto na mão, e ergueu-a contra o retrato manchado pelo tempo sobre a parede.
- Você está vendo alguma coisa ali?
Eu olhei para o chapéu de plumas largas, os cachos encaracolados, o colarinho de renda branca e o rosto severo e franco emoldurado entre eles. Não era um semblante brutal, mas era afetado, rígido e severo, com uma boca de lábios finos, resolutos e um olhar friamente intolerante.
- Parece-se com alguém que você conhece?
- Há alguma coisa de Sir Henry no queixo.
- Apenas uma sugestão, talvez. Mas espere um instante! - ele subiu numa cadeira e, segurando a luz na mão esquerda, curvou o braço direito sobre o chapéu largo e em volta dos longos cachos.
- Santo Deus! - exclamei espantado.
O rosto de Stapleton havia saltado para fora da tela.
- Ali, você está vendo agora. Meus olhos foram treinados para examinar fisionomias e não seus acessórios. A primeira qualidade de um investigador criminal é poder ver através de um disfarce.
- Mas isso é maravilhoso. Podia ser o retrato dele.
- Sim, esse é um caso interessante de reversão ao passado, que parece ser tanto física como espiritual. Um estudo de retratos de família é suficiente para converter um homem à doutrina da reencarnação. O sujeito é um Baskerville, isso é evidente.
- Com propósitos na sucessão.
- Exatamente. Esse acaso do retrato forneceu-nos um dos elos perdidos mais óbvios. Nós o temos, Watson, nós o temos, e arrisco-me a jurar que antes de amanhã à noite ele estará esvoaçando em nossa rede tão impotente como uma de suas próprias borboletas. Um alfinete, uma rolha, e um cartão, e o acrescentaremos à coleção da Baker Street! - ele estourou num dos seus raros ataques de riso quando se afastou do retrato. Eu não o tinha visto rir muitas vezes, e isso sempre resultou em mau presságio para alguém.
- Acordei cedo de manhã, mas Holmes levantou-se mais cedo ainda, porque o vi subindo pelo caminho quando me vesti.
- Sim, devemos ter um dia cheio hoje - comentou ele, e esfregou as mãos com a alegria da ação. - As redes estão todas em posição, e o arrastão está prestes a começar. Saberemos antes do dia terminar se pegamos o nosso grande lúcio de queixo curvo, ou se ele fugiu através das malhas.
- Você já esteve na charneca?
- Mandei um relatório de Grimpen para Princetown quanto à morte de Selden. Acho que posso prometer que nenhum de vocês será incomodado quanto a ela. E comuniquei-me também com o meu fiel Cartwright, que certamente estaria pregado na porta da minha cabana como um cão na sepultura do seu dono se eu não o tivesse tranqüilizado quanto à minha segurança.
- Qual é o próximo passo?
- Ver Sir Henry. Ali, aqui está ele!
- Bom dia, Holmes - disse o baronete. - Você parece um general planejando uma batalha com o chefe do seu estado-maior.
- Essa é a situação exata. Watson estava perguntando pelas ordens.
- E eu também.
- Muito bem. Você tem um compromisso, pelo que sei, de jantar com os nossos amigos, os Stapletons, esta noite.
Espero que você venha também. Eles são gente muito hospitaleira, e estou certo de que ficariam muito satisfeitos em vê-lo.
- Receio que Watson e eu tenhamos que ir para Londres.
- Para Londres?
- Sim, acho que podemos ser mais úteis lá nas circunstâncias atuais.
O rosto do baronete encompridou perceptivelmente.
- Eu esperava que vocês fossem me assistir durante este caso. A Mansão e a charneca não são lugares muito agradáveis quando se está sozinho.
- Meu caro amigo, você tem que confiar em mim implicitamente e fazer exatamente o que lhe disser. Pode dizer aos seus amigos que ficaríamos felizes de ter ido com você, mas que negócios urgentes exigiram a nossa presença na cidade. Esperamos voltar muito breve ao Devonshire. Você se lembrará de dar a eles esse recado?
- Se você insiste nele.
- Não há nenhuma alternativa, garanto-lhe.
Vi pela fronte anuviada do baronete que ele estava profundamente magoado pelo que considerava uma deserção nossa.
- Quando vocês desejam ir? - perguntou ele friamente.
- Imediatamente após o café. Iremos de trole até Coombe Tracey, mas Watson deixará suas coisas como penhor de que voltará para a sua companhia. Watson, mande um bilhete para Stapleton dizendo-lhe que lamenta não poder ir.
- Também estou com vontade de ir para Londres com vocês - disse o baronete. - Por que devo ficar aqui sozinho?
- Porque esse é o seu posto de serviço. Porque você me deu a sua palavra que faria o que lhe mandasse, e estou dizendo para você ficar.
- Está bem, então ficarei.
- Mais uma instrução! Quero que vá de trole para a Casa de Merripit. Mande o trole de volta, contudo, e diga-lhes; que pretende voltar a pé para casa.
- Mas isso é a própria coisa que você tantas vezes me preveniu para não fazer.
- Desta vez você pode fazer isso com segurança. Se eu não tivesse toda confiança na sua coragem e determinação não sugeriria isso, mas é essencial que o faça.
- Então farei.
- E se você dá valor à sua vida não atravesse a charneca em qualquer direção exceto pelo caminho reto que vai da Casa de Merripit até a Estrada de Grimpen, e que é o seu caminho natural para casa.
- Farei exatamente o que você diz.
- Muito bem. Gostaria de ir embora o mais depressa possível após o café, de maneira a chegar a Londres à tarde.
Eu fiquei muito espantado com esse programa, embora me lembrasse de Holmes ter dito a Stapleton na noite anterior que sua visita terminaria no dia seguinte. Não me tinha passado pela mente, contudo, que ele iria querer que eu fosse com ele, nem pude compreender como podíamos estar ambos ausentes num momento que ele próprio declarara ser crítico. Não havia nada a fazer, contudo, senão obedecer implicitamente, portanto dissemos adeus ao nosso pesaroso amigo, e duas horas depois estávamos na estação de Coorribe Tracey e havíamos mandado o trole em sua viagem de volta. Um garoto pequeno estava esperando na plataforma.
- Alguma ordem, senhor?
- Você vai tomar esse trem para a cidade, Cartwright. No momento em que chegar mandará um telegrama para Sir Henry Baskerville, em meu nome, para dizer que se ele encontrar o caderninho de notas que deixei cair deve mandá-lo registrado pelo correio para Baker Street.
- Sim, senhor.
- E pergunte no escritório da estação se há um recado para mim.
O menino voltou com um telegrama, que Holmes me entregou. Ele dizia: - Telegrama recebido. Indo para aí com mandado não assinado. Chego cinco e quarenta, Lestrade.
- Esse é em resposta ao meu desta manhã. Ele é o melhor dos profissionais, acho eu, e podemos precisar da sua ajuda. Agora, Watson, acho que não podemos empregar o nosso tempo melhor do que visitando a nossa conhecida, Sra. Laura Lyons.
Seu plano de campanha estava começando a se tomar evidente. Ele usaria o baronete a fim de convencer os Stapletons de que havíamos ido embora realmente, enquanto na verdade voltaríamos no instante em que provavelmente seríamos necessários. Aquele telegrama de Londres, se mencionado por Sir Henry aos Stapletons, devia afastar as últimas suspeitas de suas mentes. Eu já parecia ver as nossas redes se aproximando em tomo daquele lúcio de queixo redondo.
A Sra. Laura Lyons estava no escritório, e Sherlock Holmes iniciou sua entrevista com uma franqueza e objetividade que a espantaram consideravelmente.
- Estou investigando as circunstâncias que cercaram a morte do falecido Sir Charles Baskerville - disse ele. - Meu amigo aqui, o Dr. Watson, informou-me o que a senhora havia comunicado a ele, e também o que a senhora escondeu em relação a esse assunto.
- O que escondi eu? - perguntou ela desafiadoramente.
- A senhora confessou que pediu a Sir Charles para estar no portão às dez horas. Nós sabemos que esse foi o lugar e essa a hora da sua morte. A senhora escondeu qual a relação que há entre estes acontecimentos.
- Não há nenhuma relação.
- Nesse caso a coincidência deve realmente ser extraordinária. Mas acho que teremos sucesso em estabelecer uma relação afinal de contas. Desejo ser perfeitamente franco com a senhora, Sra. Laura Lyons. Consideramos este caso como assassinato, e a prova pode implicar não só o seu amigo Sr. Stapleton, corno também a mulher dele.
A dama saltou da cadeira.
- Sua mulher! - exclamou ela.
- O fato não é mais segredo. A pessoa que tem passado por sua irmã é na realidade sua mulher.
A Sra. Lyons havia se sentado. Suas mãos estavam agarradas aos braços da cadeira, e vi que as unhas cor-de-rosa tinham ficado brancas com a pressão.
- Sua mulher! - disse ela novamente. - Sua mulher! Ele não é casado.
Sherlock Holmes encolheu os ombros.
- Prove-me! Prove-me! E se conseguir fazer isso...
O brilho feroz dos seus olhos disse mais do que quaisquer palavras.
- Vim preparado para isso - disse Holmes tirando vários documentos do bolso. - Aqui está uma fotografia do casal tirada em York há quatro anos. Está endossada - Sr. e Sra. Vandeleur , mas a senhora não terá nenhuma dificuldade em reconhecê-lo, e a ela também, se a conhecer de vista. Aqui estão três descrições escritas de testemunhas dignas de confiança do Sr. e da Sra. Vandeleur, que nessa época tinham o colégio particular de St. Oliver. Leia-as e veja se pode duvidar da identidade dessas pessoas.
Ela olhou para elas e depois ergueu os olhos para nós com o rosto imóvel e rígido de uma mulher desesperada. - Sr. Holmes - disse ela -, esse homem ofereceu-se para se casar comigo com a condição de eu conseguir o divórcio do meu marido. Ele mentiu para mim, o vilão, de todas as maneiras possíveis. Ele jamais me disse uma palavra verdadeira. E por que, por quê? Imaginei que tudo fosse para o meu próprio bem. Mas agora vejo que nunca fui nada senão um instrumento em suas mãos. Por que devo continuar fiel a ele que nunca foi fiel a mim? Por que devo tentar protegê-lo das conseqüências dos seus próprios atos iníquos? Pergunte-me o que quiser, e não esconderei nada. Uma coisa eu juro ao senhor, e essa é que quando escrevi a carta nunca sonhei em mal algum para o velho cavalheiro, que foi o meu amigo mais bondoso.
- Acredito completamente na senhora, madame - disse Sherlock Holmes. - A narração desses acontecimentos deve ser muito penosa para a senhora, e talvez eu a tome mais fácil se lhe contar o que ocorreu, e a senhora pode me corrigir se eu cometer algum engano material. O envio dessa carta foi sugerido à senhora por Stapleton?
- Ele a ditou.
- Suponho que o motivo que ele deu foi que a senhora receberia ajuda de Sir Charles para as despesas legais relativas ao seu divórcio.
- Exatamente.
- E depois de a senhora ter enviado a carta ele convenceu-a a não comparecer ao encontro?
- Ele me disse que feriria o seu respeito próprio o fato de algum outro homem ter de dar o dinheiro com esse objetivo, e que embora ele próprio fosse um homem pobre dedicaria o seu último pêni para remover os obstáculos que nos separavam.
- Ele parece ter um caráter muito coerente. E depois a senhora não soube de mais nada até ler as notícias da morte no jornal?
- Não.
- E ele a fez jurar não contar nada sobre o seu encontro com Sir Charles?
- Fez. Ele disse que a morte foi muito misteriosa, e que certamente desconfiariam de mim se os fatos fossem revelados. Ele me assustou para eu ficar em silêncio.
- Exatamente. Mas a senhora nunca desconfiou?
Ela hesitou e baixou os olhos.
- Eu o conhecia - disse ela. - Mas se ele tivesse sido fiel a mini eu seria sempre fiei a ele.
- Acho que no todo a senhora escapou com sorte - disse Sherlock Holmes. - A senhora o teria em seu poder e ele sabia disso, e contudo a senhora está viva. A senhora tem andado por alguns meses muito perto da beira do precipício. Devemos desejar-lhe bom dia agora, Sra. Lyons, e é provável que a senhora muito breve tenha notícias nossas novamente.
- O nosso caso está se completando, e dificuldade após dificuldade está se desvanecendo diante de nós - disse Holmes quando estávamos esperando a chegada do expresso da cidade. - Logo estarei em condição de poder colocar numa única narrativa articulada um dos crimes mais singulares e sensacionais dos tempos modernos. Os estudantes de criminologia irão se lembrar de incidentes análogos em Godrio, na Pequena Rússia,1 no ano de 66, e, naturalmente, há os assassinatos de Anderson na Carolina do Norte, mas este caso possui algumas características que são inteiramente próprias. Mesmo agora, não temos nenhum caso claro contra esse homem astuto. Mas ficarei muito surpreso se ele não estiver bastante claro antes de irmos para a cama esta noite.
O expresso de Londres entrou resfolegando na estação, e um homem pequeno e forte parecido com um buldogue saltou de um. vagão de primeira-classe. Nós três apertamos as mãos, e vi imediatamente pela maneira reverente pela qual Lestrade olhava para o meu companheiro que ele havia aprendido um bocado desde o tempo em que haviam trabalhado juntos pela primeira vez. Pude me lembrar bem do desprezo que as teorias do intelectual costumavam então excitar no homem prático.
- Alguma coisa boa? - perguntou ele.
- A coisa maior durante anos - disse Holmes. - Temos duas horas antes de precisarmos pensar em partir. Acho que devemos empregá-las jantando, e depois, Lestrade, vamos tirar a cerração de Londres da sua garganta dando-lhe um hausto de ar puro da noite de Dartirtoor. Nunca esteve lá? Ali, bem, acho que você não vai se esquecer de sua primeira visita.
Antiga área com fronteiras indefinidas incluindo a Rutênia Carpática, a Polônia oriental, a Ucrânia e as margens do mar Negro.