O Cão dos Baskervilles

Arthur Conan Doyle · Capítulo 9 de 11

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O Cão dos Baskervilles

Capítulo XI · O Homem Sobre o Pico Rochoso

O extrato do meu diário particular que constitui o último capítulo atualizou a minha narrativa até o dia 18 de outubro, ocasião em que estes estranhos acontecimentos começaram a se mover rapidamente para a sua terrível conclusão. Os incidentes dos poucos dias seguintes estão indelevelmente gravados na minha memória, e posso contá-los sem referências às anotações feitas na ocasião. Começo, portanto, do dia que sucedeu aquele em que eu havia estabelecido dois fatos de grande importância, um que a Sra. Laura Lyons de Coombe Tracey havia escrito para Sir Charles Baskerville e marcado um encontro com ele no próprio lugar e hora onde ele veio a morrer; o outro, que o homem escondido na charneca podia ser encontrado entre as cabanas de pedra na encosta da colina. Com estes dois fatos em meu poder achei que a minha inteligência ou a minha coragem deviam ser deficientes se eu não pudesse lançar alguma outra luz sobre esses lugares escuros.

Não tive nenhuma oportunidade de contar ao baronete o que havia sabido sobre a Sra. Lyons na noite anterior, porque o Dr. Mortimer ficou jogando cartas com ele até muito tarde. Ao café, contudo, informei-o sobre minha descoberta e perguntei a ele se queria me acompanhar até Coombe Tracey. A princípio ele ficou muito ansioso para ir, mas pensando melhor pareceu-nos a ambos que se eu fosse sozinho os resultados podiam ser melhores. Quanto mais formal tomássemos a visita menos informações podíamos obter. Deixei Sir Henry para trás, portanto, não sem alguns escrúpulos de consciência, e parti de trole para a minha nova investigação.

Quando cheguei a Coombe Tracey disse a Perkins para guardar os cavalos e fiz perguntas sobre a dama a quem eu viera interrogar. Não tive nenhuma dificuldade em descobrir onde morava, que era num lugar central e bem determinado. Uma criada introduziu-me sem cerimônia, e quando entrei na sala uma dama que estava sentada diante de uma máquina de escrever Remington ergueu-se vivamente com um sorriso agradável de boas-vindas. Sua fisionomia ficou desapontada, contudo, quando viu que eu era um estranho, e sentou-se novamente perguntando-me o objetivo da minha visita.

A primeira impressão deixada pela Sra. Lyons era de extrema beleza. Seus olhos e cabelos eram da mesma cor castanho-avermelhada, rica, e suas faces, embora consideravelmente sardentas, estavam coradas pela frescura encantadora de um moreno trigueiro, como o rosa delicado que se esconde no centro da rosa amarela. De admiração foi, repito, a primeira impressão. Mas a segunda foi de crítica. Havia alguma coisa sutilmente errada com o rosto, certa aspereza de expressão, certa dureza, talvez do olhar, certa frouxidão do lábio que perturbavam sua beleza perfeita. Mas estes, naturalmente, são pensamentos posteriores. No momento fiquei simplesmente consciente de que estava na presença de uma mulher muito bonita, que ela estava perguntando o motivo da minha visita. Eu não tinha compreendido bem até aquele instante como a minha missão era delicada.

- Tenho o prazer - disse eu - de conhecer o seu pai.

Essa foi uma apresentação desajeitada, e a dama me fez sentir isso.

- Não há nada em comum entre eu e meu pai - disse ela. - Não devo nada a ele e os amigos dele não são meus amigos. Se não fosse o falecido Sir Charles Baskerville e alguns outros corações compassivos eu podia morrer de fome que meu pai pouco se importava.

- E sobre o falecido Sir Charles Baskerville que vim aqui vê-Ia.

As sardas se projetaram no rosto da dama.

- O que posso dizer-lhe sobre ele? - perguntou ela, e seus dedos tocaram nervosamente nas teclas da sua máquina de escrever.

- A senhora se correspondia com ele?

A dama ergueu os olhos rapidamente com um brilho de raiva nos seus olhos castanhos.

- Qual é o objetivo dessas perguntas? - perguntou ela vivamente.

- O objetivo é evitar um escândalo público. É melhor eu fazê-las; aqui do que o assunto sair fora do nosso controle.

Ela estava silenciosa e seu rosto ainda estava muito pálido. Por fim ergueu os olhos com um modo um tanto desafiador e temerário.

- Bem, vou responder - disse ela. - Quais são as suas perguntas?

- A senhora se correspondia com Sir Charles?

- Certamente escrevi-lhe uma ou duas vezes para agradecer sua delicadeza e sua generosidade.

- A senhora sabe as datas dessas cartas?

- Não.

- A senhora alguma vez se encontrou com ele?

- Sim, uma ou duas vezes, quando ele veio a Coorribe Tracey. Ele era um homem muito reservado, e preferia fazer o bem escondido.

- Mas se a senhora o viu tão raramente e escreveu tão raramente, corno ele soube o suficiente sobre os seus negócios para poder ajudá-la, como a senhora diz que ele fez?

Ela enfrentou a minha dificuldade com a máxima presteza.

- Havia vários cavalheiros que conheciam a minha triste história e se uniram para me ajudar. Um foi o Sr. Stapleton, um vizinho e amigo íntimo de Sir Charles. Ele foi muito bondoso, e foi através dele que Sir Charles soube do meu caso.

Eu já sabia que Sir Charles Baskerville havia tornado Stapleton seu esmoler em várias ocasiões, portanto a afirmação da dama trazia consigo o selo da verdade.

- A senhora alguma vez escreveu a Sir Charles pedindo a ele para encontrar-se corri a senhora? - continuei.

A Sra. Lyons corou de raiva outra vez.

- Realmente, senhor, esta é uma pergunta muito extraordinária.

- Desculpe, madame, irias sou forçado a repeti-la.

- Então respondo, certamente não.

- Nem no próprio dia da morte de Sir Charles?

O corado desapareceu num instante e um rosto mortal estava diante de mim. Seus lábios secos não conseguiam dizer o - Não que eu mais vi do que ouvi.

- Certamente a sua memória a engana - disse eu. - Posso até citar uma passagem da sua carta. Ela diz: - Por favor, por favor, já que o senhor é um cavalheiro, queime esta carta e esteja no portão às dez horas.

Pensei que ela tivesse desmaiado, mas ela se recuperou com um esforço supremo.

- Será que não existem mais cavalheiros? - disse ela ofegante.

- Eu não disse que havia lido toda a carta.

- O senhor citou uma parte dela.

- Citei o pós-escrito. A carta, como disse, foi queima da e ela não era de todo legível. Pergunto-lhe mais uma vez por que foi tão insistente para que Sir Charles destruísse essa carta que ele recebeu no dia da sua morte?

- O assunto é muito particular.

- Motivo mais forte para a senhora evitar uma investigação pública.

- Vou contar ao senhor, então. Se o senhor ouviu alguma coisa sobre a minha infeliz história saberá que fiz um casamento precipitado e tive motivos para me arrepender dele.

- Ouvi dizer isso.

- Minha vida tem sido uma perseguição incessante de um marido que detesto. A lei está do lado dele, e cada dia enfrento a possibilidade dele poder me forçar a ir viver com ele. Na ocasião em que escrevi essa carta a Sir Charles eu soubera que havia uma perspectiva de recuperar a minha liberdade se pudesse fazer face a certas despesas. Isso significava tudo para mim, paz de espírito, felicidade, respeito próprio, tudo. Eu conhecia a generosidade de Sir Charles e achei que se ele ouvisse a história dos meus próprios lábios me ajudaria.

- Então como é que a senhora não foi?

- Porque recebi ajuda, no intervalo, de outra fonte.

- Por que, então, a senhora não escreveu a Sir Charles e explicou isso?

- É o que eu devia ter feito se não tivesse visto sua morte no jornal na manhã seguinte.

- A senhora faz uma injustiça a Sir Charles. Ele queimou a carta. Mas algumas vezes uma carta pode ser legível mesmo quando queimada. A senhora reconhece agora que a escreveu.

- Sim, escrevi-a - exclamou ela despejando a alma numa torrente de palavras. - Escrevi-a. Por que deveria negar? Não tenho nenhum motivo para me envergonhar disso. Eu queria que ele me ajudasse. Eu acreditava que se tivesse uma entrevista poderia conseguir a sua ajuda, portanto pedi a ele para se encontrar comigo.

- Mas por que a uma hora dessas?

- Porque eu tinha acabado de saber que ele ia para Londres no dia seguinte e podia ficar longe durante meses. Havia motivos pelos quais eu não podia chegar lá mais cedo.

- Mas por que um encontro no jardim em vez de uma visita à casa?

- O senhor acha que uma mulher pode ir sozinha a essa hora à casa de um solteirão?

- Bem, o que aconteceu quando a senhora chegou lá?

- Eu não fui.

- Sra. Lyons!

- Não, juro-lhe por tudo que me é sagrado. Não fui. Uma coisa interferiu para impedir a minha ida.

- O que foi?

- Isso é assunto particular. Não posso contar.

A senhora reconhece então que marcou um encontro com Sir Charles na própria hora e no lugar em que ele morreu, mas nega ter comparecido.

- Essa é a verdade.

Interroguei-a repetidas vezes, mas não consegui ir além desse ponto.

- Sra. Lyons - disse eu quando me ergui dessa longa e inconclusiva entrevista -, a senhora está assumindo uma responsabilidade muito grande e colocando-se numa posição muito falsa por não confessar absolutamente tudo o que sabe. Se eu tiver que pedir o auxilio da polícia a senhora descobrirá como está seriamente comprometida. Se a senhora é inocente, por que negou no primeiro caso ter escrito a Sir Charles naquela data?

- Porque eu receava que pudesse ser tirada alguma falsa conclusão disso, e poder ver-me envolvida num escândalo.

- E por que a senhora foi tão insistente para que Sir Charles destruísse a sua carta?

- Se o senhor tivesse lido a carta saberia.

A história da mulher era coerente, e todas as minhas perguntas foram incapazes de abalá-la. Eu só podia verificá-la descobrindo se ela tinha, realmente, iniciado a ação de divórcio contra seu marido na ocasião da tragédia ou por volta dela.

Era pouco provável que ela se atrevesse a dizer não ter estado na Mansão Baskerville se realmente tivesse estado, porque seria necessário um trole para levá-la até lá, e não podia ter voltado a Coombe Tracey senão às primeiras horas da manhã. Uma excursão dessas não podia ser mantida em segredo. A probabilidade era, portanto, de que ela estivesse dizendo a verdade ou, pelo menos, parte da verdade. Eu saí confuso e desanimado. Mais uma vez havia chegado àquele beco sem saída que parecia ter sido obstruído em todos os caminhos pelos quais eu tentava chegar ao objetivo da minha missão. E apesar disso quanto mais eu pensava no rosto da dama e nos seus modos, mais eu sentia que alguma coisa estava sendo escondida de mim. Por que ela ficara tão pálida? Por que lutava contra cada admissão até esta ser extraída dela à força? Por que tivera que ser tão reticente por ocasião da tragédia? Certamente a explicação de tudo isso não podia ser tão inocente como ela queria me fazer crer. No momento eu não podia continuar mais naquela direção, mas devia me voltar para aquela outra pista que devia ser procurada entre as cabanas de pedra da charneca.

E essa era uma indicação muito vaga. Percebi isso ao voltar no trole e notar como colina após colina apresentavam vestígios do povo antigo. A única indicação de Barrymore tinha sido de que o estranho morava numa dessas cabanas - abandonadas, e muitas centenas delas estão espalhadas por todo o comprimento e largura da charneca. Mas eu tinha a minha própria experiência como guia já que ela havia me mostrado o próprio homem de pé sobre o cume do Pico Rochoso Negro. Esse, então, devia ser o centro da minha busca. A partir de lá eu devia explorar cada cabana da charneca até dar com a certa. Se esse homem estivesse dentro dela eu tinha que descobrir pelos seus próprios lábios, apontando o meu revólver se necessário, quem era ele e por que nos seguira por tanto tempo. Ele podia escapar de nós por entre a multidão da Regent Street, mas ficaria embaraçado para fazer isso na charneca solitária. Por outro lado, se ele encontrasse a cabana e o seu inquilino não estivesse dentro dela eu tinha que ficar lá, por mais longa que fosse a vigília, até ele voltar. Holmes o havia perdido em Londres. Seria realmente um triunfo para mim se pudesse achá-lo, onde o meu mestre havia falhado.

A sorte tinha estado contra nós repetidas vezes nesta investigação, mas agora finalmente ela veio em meu auxílio. E o mensageiro da boa nova não foi nenhum outro do que o Sr. Frankland, que estava parado, com as suíças grisalhas e o rosto vermelho, do lado de fora do portão do seu jardim, que se abria para a estrada pela qual eu seguia.

- Bom dia, Dr. Watson - exclamou ele com desusado bom humor. - O senhor precisa realmente deixar os seus cavalos descansarem e entrar para tomar um cálice de vinho e me felicitar.

Meus sentimentos para com ele estavam longe de ser amistosos depois do que eu havia ouvido do tratamento que dera à filha, mas eu estava ansioso para mandar Perkins e o trole para casa, e a oportunidade era boa. Desci e mandei um recado para Sir Henry de que voltaria a pé a tempo para o jantar. Depois segui Frankland até a sua sala de jantar.

- E um grande dia para mim, Dr. Watson, um dos dias memoráveis da minha vida - exclamou ele com muitos risos reprimidos. - Realizei um feito duplo. Quero mostrar a eles nestas partes que lei é lei, e que há um homem aqui que não tem medo de invocá-la. Estabeleci uma servidão de passagem pelo meio do velho parque de Middleton, diretamente no meio dele, Dr. Watson, a noventa metros de sua própria porta da frente. O que acha disso? Ensinaremos a esses magnatas que eles não podem passar tiranicamente sobre os direitos dos plebeus, diabos os levem! E fechei a floresta onde a família Femworthy costumava fazer piquenique. Esta gente infernal parece pensar que não há nenhum direito de propriedade, e que eles podem formigar por onde quiserem com seus papéis e suas garrafas. Ambos os casos decididos, Dr. Watson, e ambos a meu favor. Não tinha tido um dia desses desde que processei Sir John Morland por invasão, porque ele atirou em seu próprio parque.

- Como diabo o senhor conseguiu isso?

- Procurei referências nos livros, Dr. Watson. Vale a pena ler, Frankland versus Morland, Tribunal Superior de Justiça. Custou-me duzentas libras, mas consegui minha sentença.

- Isso lhe fez algum bem?

- Nenhum, senhor, nenhum. Orgulho-me em dizer que não tenho nenhum interesse na questão. Ajo inteiramente com um sentido de dever público. Não tenho nenhuma dúvida, por exemplo, de que a família Femworthy me queimará em efígie esta noite. Eu disse à polícia da última vez que eles fizeram isso que devia impedir essas exibições vergonhosas. A Polícia do Condado está num estado escandaloso, senhor, e não me deu a proteção a que tenho direito. O caso Frankland versus Regina levará a questão à atenção do público. Eu disse a eles que eles teriam ocasião de lamentar o tratamento que me dispensaram, e as minhas palavras já se tomaram realidade.

- Como assim? - perguntei.

O velho assumiu uma expressão muito astuta.

- Porque posso dizer a eles o que eles estão morrendo para saber; mas nada me convencerá a ajudar os patifes de qualquer maneira.

Eu estivera procurando com empenho alguma desculpa pela qual pudesse me livrar dos seus mexericos, mas agora comecei a desejar ouvir mais. Eu havia visto o suficiente da natureza caprichosa do velho pecador para compreender que qualquer indicação forte de interesse seria a maneira mais certa de interromper as suas confidências.

- Algum caso de invasão, sem dúvida? - disse eu de maneira indiferente.

- Ha, lia, meu rapaz, uma questão muito mais importante do que isso! E quanto ao condenado na charneca?

Levei um susto. - O senhor não quer dizer que sabe onde ele está? - disse eu.

- Pode ser que eu não saiba exatamente onde ele está, mas estou absolutamente certo de que posso ajudar a polícia a pôr as mãos nele. Nunca lhe ocorreu que a maneira de pegar esse homem é descobrir onde ele consegue a comida, e assim segui-la até ele?

Ele certamente parecia estar chegando incomodamente perto da verdade. - Sem dúvida - disse eu. - Mas como o senhor sabe que ele está em alguma parte da charneca?

- Sei porque vi com os meus próprios olhos o mensageiro que leva a comida para ele.

Meu coração sucumbiu por Barrymore. Era uma coisa séria cair em poder desse velho abelhudo e vingativo. Mas seu comentário seguinte tirou um peso da minha alma.

- O senhor ficaria surpreso de saber que a comida dele é levada por uma criança. Eu o vejo todo dia pelo meu telescópio sobre o telhado. Ele passa pelo mesmo caminho à mesma hora, e para quem ele deve estar indo senão para o condenado?

Isso era sorte, realmente! E contudo suprimi toda aparência de interesse. Uma criança! Barrymore havia dito que o nosso desconhecido era abastecido por um rapaz. Foi na pista dele, e não na do condenado, que Frankland havia tropeçado. Se eu conseguisse saber o que ele sabia isso podia me economizar uma busca longa e cansativa. Mas a incredulidade e a indiferença eram evidentemente minhas cartas mais fortes.

- Eu diria que é muito mais provável que seja o filho de algum dos pastores da charneca levando o jantar do seu pai.

A menor aparência de oposição tocou fogo no velho autocrata. Seus olhos olharam malignamente para mim, e suas suíças grisalhas se eriçaram como as de um gato enfurecido.

- Realmente, Dr. Watson! - disse ele apontando para a vasta charneca. - Está vendo aquele pico rochoso negro lá longe? Bem, está vendo a colina baixa além com moitas espinhosas em cima? Aquela é a parte mais rochosa de toda a charneca. Aquele é um lugar onde um pastor teria probabilidade de ficar? A sua sugestão, Dr. Watson, é completamente absurda.

Respondi humildemente que havia falado sem conhecer todos os fatos. Minha submissão agradou-o e levou-o a outras confidências.

- Pode estar certo, Dr. Watson, que tenho muito bons fundamentos antes de chegar a uma opinião. Vi o menino várias vezes com a sua trouxa. Todos os dias, e algumas vezes duas vezes por dia, pude... mas espere um momento, Dr. Watson. Os meus olhos me enganam, ou há no momento alguma coisa se movendo na encosta daquela colina?

Estava a vários quilômetros de distância, mas pude ver nitidamente um pontinho preto contra o verde e o cinzento escuros.

- Venha, venha! - exclamou Frankland subindo a escada correndo. - O senhor verá com os seus próprios olhos e julgará por si mesmo.

O telescópio, um instrumento formidável, montado sobre um tripé, estava sobre as folhas de chumbo do telhado. Frankland encostou o olho vigorosamente a ele e deu um grito de satisfação.

- Depressa, Dr. Watson, depressa, antes que ele passe por cima da colina!

Lá estava ele, realmente, um menino pequeno com uma pequena trouxa sobre o ombro, subindo a colina com esforço e lentamente. Quando chegou em cima vi o vulto misterioso delineado por um instante contra o frio céu azul. Ele olhou em volta, com um aspecto furtivo e dissimulado, como alguém que receia ser perseguido. Depois desapareceu sobre a colina.

- Bem! Estou certo?

- Há um menino, sem dúvida, que parece ter alguma missão secreta.

- E qual é a missão até um policial de condado pode imaginar. Mas eles não ouvirão de mim nem uma palavra, e imponho-lhe a obrigação do segredo, também, Dr. Watson. Nem uma palavra! O senhor compreende!

- Como quiser.

- Eles têm me tratado vergonhosamente, vergonhosamente. Quando os fatos surgirem em Frankland versus Regina arrisco-me a pensar que uma onda de indignação percorrerá o país. Nada me convenceria a ajudar a polícia em qualquer sentido. Eles pouco se importariam que pudesse ter sido eu em vez da minha efígie, que estes patifes queimassem na estaca. Certamente o senhor não está indo embora? O senhor me ajudará a esvaziar a garrafa em homenagem a esta grande ocasião!

Mas eu resisti a todas as suas solicitações e consegui dissuadi-lo da sua intenção anunciada de me acompanhar até em casa. Segui pela estrada enquanto os seus olhos estavam sobre mim, e depois atalhei pela charneca e me dirigi para a colina rochosa sobre a qual o menino havia desaparecido. Tudo estava trabalhando a meu favor, e jurei que não seria por falta de energia ou perseverança que eu perderia a oportunidade que o destino havia lançado em meu caminho.

O sol já estava se pondo quando cheguei ao alto da colina, e as longas encostas abaixo de mim estavam todas verde douradas de um lado e cinzentas sombrias do outro. Uma neblina baixa pairava sobre o horizonte longínquo, do qual se projetavam as formas fantásticas dos Picos Rochosos de Belliver e Vixen. Sobre a vasta extensão não havia nenhum som e nenhum movimento. Uma grande ave cinzenta, uma gaivota ou um maçarico, pairava no espaço azul do céu. Ela e eu parecíamos ser as únicas coisas vivas entre a enorme abóbada do céu e o deserto sob ele. A cena descampada, a sensação de isolamento e o mistério e urgência da minha tarefa lançaram um calafrio no meu coração. O menino não podia ser visto em parte alguma. Mas bem abaixo de mim numa fenda das colinas havia um círculo de velhas cabanas de pedra, e no meio delas havia uma que conservava uma cobertura suficiente para servir como proteção contra o vento. Meu coração saltou dentro de mim quando a vi. Esse devia ser o abrigo onde o estranho se escondia. Por fim meu pé estava no limiar do seu esconderijo, seu segredo estava ao meu alcance.

Quando me aproximei da cabana, caminhando tão cuidadosamente quanto Stapleton faria quando, com a rede em posição, chegava perto da borboleta escolhida, certifiquei-me de que o lugar havia realmente sido usado como habitação. Um vago caminho por entre os matacões levava até a abertura dilapidada que servia de porta. Tudo estava em silêncio lá dentro. O desconhecido podia estar escondido ali, ou podia estar vagando pela charneca. Meus nervos vibravam com a sensação da aventura. Atirando o meu cigarro para o lado, cerrei a mão sobre a coronha do meu revólver, e indo rapidamente até a porta, olhei para dentro. O lugar estava vazio.

Mas havia amplos sinais de que eu não seguira um rastro falso. Aqui era certamente onde o homem morava. Alguns cobertores enrolados num impermeável jaziam sobre a própria laje de pedra sobre a qual o homem neolítico certa vez dormira. As cinzas de uma fogueira estavam amontoadas numa grade rústica. Ao lado dela havia alguns utensílios de cozinha e um balde com água pela metade. Uma confusão de latas vazias mostrava que o lugar havia sido ocupado por algum tempo, e vi, quando meus olhos ficaram acostumados à luz enfraquecida, uma canequinha e uma garrafa meio cheia de aguardente colocadas num canto. No meio da cabana uma pedra chata servia como mesa, e sobre esta estava uma pequena trouxa de pano, a mesma, sem dúvida, que eu havia visto pelo telescópio sobre o ombro do menino. Continha um pedaço de pão, uma língua em lata e duas latas de pêssegos em conserva. Quando larguei-a novamente, após tê-la- examinado, meu coração deu um pulo ao ver que embaixo dela havia uma folha de papel com algo escrito. Levantei-a, e isto foi o que li, rabiscado a lápis, grosseiramente:

- O Dr. Watson foi até Coombe Tracey”.

Por um minuto fiquei parado ali com o papel na mão refletindo nessa curta mensagem. Era eu, então, e não Sir Henry, que estava sendo seguido por esse homem misterioso. Ele próprio não havia me seguido, mas havia posto um agente, o menino, talvez, na minha pista, e esse era o seu relatório. Provavelmente eu não tinha dado um passo desde que estava na charneca que não tivesse sido observado e repetido. Sempre houvera essa sensação de uma força invisível, uma rede fina puxada em volta de nós com habilidade e delicadeza infinitas, segurando-nos tão levemente que só em algum momento supremo é que se percebia estar emaranhado em suas malhas.

Se havia um relatório podia haver outros, portanto olhei em volta da cabana em busca deles. Não havia nenhum vestígio, contudo, de nada parecido, nem pude descobrir qualquer sinal que pudesse indicar o caráter ou intenções do homem que morava nesse lugar singular, salvo que ele devia ser de hábitos espartanos e dava pouca importância aos confortos da vida. Quando pensei nas fortes chuvas e olhei para o teto escancarado compreendi como devia ser forte e imutável o propósito que o havia mantido naquela habitação inóspita. Seria ele o nosso inimigo maligno, ou era ele por acaso o nosso anjo da guarda? Jurei que não deixaria a cabana até saber.

Do lado de fora o sol estava se pondo e o horizonte a oeste estava em chamas escarlates e douradas. Seu reflexo era enviado de volta em manchas avermelhadas pelos charcos distantes que jaziam no meio do grande Pântano de Mire. Lá estavam as duas torres da Mansão Baskerville, e lá uma mancha distante de fumaça que marcava a aldeia de Grimpen. Entre as duas, atrás da colina, estava a casa dos Stapletons. Tudo era bonito, suave e tranqüilo à luz dourada da noitinha, e contudo quando eu olhava para eles minha alma não partilhava em nada da paz da Natureza, mas tremia diante da incerteza e do terror daquela entrevista que a cada instante estava se aproximando mais. Com os nervos vibrando, mas com um firme propósito, sentei-me no recesso escuro da cabana e esperei com paciência sombria a chegada do seu morador.

E então ouvi-o finalmente. De longe veio o ruído vivo de uma bota batendo numa pedra. Depois outro e ainda outro, chegando cada vez mais perto. Encolhi-me no canto mais escuro e engatilhei a pistola em meu bolso, resolvido a não me descobrir até ter a oportunidade de ver alguma coisa do estranho. Houve uma longa pausa que mostrou que ele havia parado. Depois mais uma vez os passos se aproximaram e uma sombra caiu atravessada na abertura da cabana.

- Está uma noite encantadora, meu caro Watson - disse uma voz muito conhecida. - Acho realmente que você ficará mais confortável fora do que dentro.

Capítulo XII

Morte na Charneca

Por um momento ou dois fiquei sentado sem respirar, dificilmente capaz de crer nos meus ouvidos. Depois, meus sentidos e minha voz voltaram, enquanto um peso esmagador de responsabilidade pareceu num instante ter sido erguido da minha alma. Aquela voz fria, incisiva e irônica não podia pertencer senão a um homem em todo o mundo.

- Holmes! - exclamei. - Holmes!

- Saia - disse ele - e por favor tenha cuidado com o revólver.

Abaixei-me sob a verga grosseira e lá estava ele sentado sobre uma pedra do lado de fora com os olhos cinzentos dançando divertidos ao caírem sobre as minhas feições espantadas. Ele estava magro e cansado, mas sereno e alerta, com o seu rosto agudo bronzeado pelo sol e maltratado pelo vento. Com seu temo axadrezado e boné de pano, parecia qualquer outro turista sobre a charneca, e havia conseguido, com aquele amor felino pela limpeza pessoal que era uma de suas características, que o seu queixo ficasse tão liso e sua roupa branca tão perfeita como se estivesse na Baker Street.

- Nunca fiquei mais satisfeito de ver alguém em minha vida - disse eu ao apertar-lhe a mão.

- Ou mais espantado, hein?

- Bem, devo confessar que sim.

- A surpresa não foi toda de um lado só, garanto-lhe. Não tinha nenhuma idéia de que você havia encontrado o meu retiro ocasional, menos ainda que você estivesse dentro dele, até eu chegar a vinte passos da porta.

- A marca dos meus pés, suponho?

- Não, Watson; receio não poder reconhecer a marca dos seus pés entre todas as marcas de pés do mundo. Se você desejar seriamente me enganar deve mudar de charutaria, porque quando vejo a ponta de um cigarro marcada Bradley, Oxford Street, sei que o meu amigo Watson está nas vizinhanças. Você a verá lá ao lado do caminho. Você jogou-a fora, sem dúvida, naquele momento supremo em que investiu para dentro da cabana vazia.

- Exatamente.

- Foi o que pensei, e conhecendo a sua tenacidade admirável fiquei convencido de que você estava sentado de tocaia, com uma arma ao seu alcance, esperando que o morador voltasse. Então você pensou realmente que eu fosse o criminoso?

- Eu não sabia quem era você, mas estava resolvido a descobrir.

- Excelente, Watson! E como você me localizou? Você me viu, talvez, na noite da caçada ao condenado, quando fui tão imprudente a ponto de permitir que a lua se erguesse por trás de mim?

- Sim, eu o vi então.

E sem dúvida revistou todas as cabanas até chegar a esta.

- Não, o seu menino foi observado, e isso me deu uma orientação de onde procurar.

- O velho cavalheiro com o telescópio, sem dúvida. Na primeira vez não pude entender quando vi a luz brilhando nas lentes. - Ele se levantou e olhou para dentro da cabana. - Ali, vejo que Cartwright trouxe alguns suprimentos. O que é este papel? Então você esteve em Coombe Tracey, não esteve?

- Estive.

- Para ver a Sra. Laura Lyons?

- Exatamente.

- Muito bem! Nossas pesquisas têm corrido evidentemente em linhas paralelas, e quando unirmos os nossos resultados teremos um conhecimento razoavelmente completo do caso.

- Bem, estou satisfeito do fundo do coração de você estar aqui, porque realmente a responsabilidade e o mistério estavam ambos se tornando demais para os meus nervos. Mas como, em nome de que milagre você veio aqui, e o que você tem feito? Pensei que você estivesse em Baker Street trabalhando naquele caso de chantagem.

- Isso foi o que eu quis que você pensasse.

- Então você me usou e apesar disso não confia em mim! - exclamei com alguma amargura. - Acho que mereço melhor tratamento em suas mãos, Holmes.

Meu caro amigo, você tem. sido inestimável para mim neste e em muitos outros casos, e peço-lhe que me perdoe se pareci fazer um truque com você. Na verdade, foi em parte para seu próprio bem que fiz isso, e foi a minha avaliação do perigo que você corria que me levou a vir aqui e examinar a questão por mim mesmo. Se eu estivesse com Sir Henry e você é certo que o meu ponto de vista teria sido o mesmo que o seu, e minha presença teria prevenido os nossos adversários muito formidáveis para ficarem em guarda. Como está, pude andar por aí como provavelmente não poderia ter feito se estivesse morando na Mansão, e continuo um fator desconhecido no negócio, pronto a lançar todo o meu peso num momento crítico.

- Mas por que se esconder de mim?

- Porque se você soubesse não podia ter-me ajudado, e podia provavelmente ter levado à minha descoberta. Você poderia querer me contar alguma coisa, ou em sua bondade teria me trazido um ou outro conforto, e assim correríamos um risco desnecessário. Trouxe Cartwright comigo para cá, você se lembra do sujeito baixinho do Escritório do Expresso, e ele tem cuidado dos meus desejos simples: um pedaço de pão e um colarinho limpo. O que um homem quer mais? Ele me proporcionou um par de olhos extra sobre um par de pés muito ativo, e ambos têm sido inestimáveis.

- Então meus relatórios têm sido desperdiçados! - minha voz tremeu quando me lembrei das dificuldades e do orgulho com que os havia redigido.

Holmes tirou um maço de papéis do bolso.

- Aqui estão os seus relatórios, meu caro amigo, e bastante manuseados, garanto-lhe. Tomei medidas excelentes, e eles se atrasam apenas um dia em seu caminho. Devo cumprimentá-lo calorosamente pelo zelo e a inteligência que você demonstrou num caso extraordinariamente difícil.

Eu estava bastante magoado pelo logro que havia sido praticado comigo, mas o carinho do elogio de Holmes afastou a raiva da minha mente. Senti também no meu íntimo que ele tinha razão no que dissera e que era realmente melhor para o nosso propósito que eu não soubesse que ele estava na charneca.

- Assim é melhor - disse ele vendo a sombra desaparecer do meu rosto. - E agora conte-me o resultado da sua visita à Sra. Laura Lyons, não foi difícil para mim imaginar que foi para vê-la que você tinha ido, porque sei que ela é a única pessoa em Coombe Tracey que pode nos ajudar na questão. Na verdade, se você não tivesse ido hoje é muito provável que eu tivesse ido amanhã.

O sol havia se posto e o crepúsculo estava caindo sobre a charneca. O ar esfriara e nós entramos na cabana para nos esquentar. Lá, sentados juntos à meia-luz, contei a Holmes a minha conversa com a dama. Tão interessado estava ele que tive de repetir uma parte dela duas vezes antes de ele se dar por satisfeito.

- Isso é muito importante - disse ele quando eu havia concluído. - Preenche uma lacuna que eu tinha sido incapaz de transpor neste caso muito complexo. Você sabe, talvez, que existe uma grande intimidade entre essa dama e Stapleton?

- Eu não sabia da grande intimidade.

- Não pode haver nenhuma dúvida a respeito disso. Eles se encontram, eles se escrevem, há um entendimento completo entre eles. Agora isso coloca uma arma muito poderosa em nossas mãos. Se eu pudesse usá-la pelo menos para afastar sua mulher...

- Sua mulher?

- Estou dando a você uma informação, em troca de todas que você me deu. A dama que tem passado até aqui por Senhorita Stapleton é na realidade mulher dele.

- Santo Deus, Holmes! Está certo do que está dizendo? Como pode ele ter permitido que Sir Henry se apaixonasse por ela?

- O fato de Sir Henry se apaixonar não podia fazer mal a ninguém exceto a Sir Henry. Ele cuidou especialmente para que Sir Henry não tivesse relações com ela, como você mesmo observou. Repito que a dama é sua mulher e não sua irmã.

- Mas por que essa impostura elaborada?

- Porque ele previu que ela seria muito mais útil para ele no papel de uma mulher livre.

Todos os meus instintos não articulados, minhas desconfianças vagas, tomaram subitamente e se concentraram no naturalista. Naquele homem impulsivo, pálido, com seu chapéu de palha e sua rede de borboletas, pareci ver alguma coisa terrível, uma criatura de paciência e astúcia infinitas, com um rosto sorridente e um coração assassino.

- É ele, então, que é o nosso inimigo, foi ele que nos seguiu em Londres?

- Foi o enigma que decifrei.

- E o aviso, deve ter vindo dela!

- Exatamente.

A forma de alguma vilania monstruosa, entrevista, meio imaginada, avultou através da escuridão que havia me rodeado por tanto tempo.

- Mas você está certo disso, Holmes? Como você sabe que a mulher é casada com ele?

- Porque ele até agora se esqueceu de contar a você um trecho verdadeiro de autobiografia por ocasião do primeiro encontro com você, e arrisco-me a dizer que se arrependeu disso muitas vezes. Certa vez ele foi diretor de um colégio no norte da Inglaterra. E não há ninguém mais fácil de se seguir a pista do que um diretor de colégio. Há agências escolásticas pelas quais se pode identificar qualquer homem que tenha estado na profissão. Uma pequena investigação mostrou-me que um colégio sofrera um fracasso em circunstâncias atrozes, e que o homem que era dono dele, o nome era diferente, havia desaparecido com a mulher. As descrições concordam. Quando eu soube que o homem desaparecido era dedicado à entomologia a identificação ficou completa.

A escuridão estava diminuindo, mas muita coisa ainda estava escondida pelas sombras.

- Se essa mulher é realmente casada com ele, onde entra a Sra. Laura Lyons? - perguntei.

- Esse é um dos pontos sobre o qual as suas próprias pesquisas lançaram uma luz. A sua entrevista com a dama esclareceu muito a situação. Eu não sabia sobre o projetado divórcio entre ela e seu marido. Nesse caso, considerando Stapleton como um homem livre, ela contava sem dúvida em se tomar mulher dele.

- E quando ela abrir os olhos?

- Ora, então podemos encontrar uma dama prestativa. Deve ser o nosso primeiro dever vê-la, nós dois, amanhã. Você não acha, Watson, que está longe do seu pupilo há bastante tempo? O seu lugar deve ser na Mansão Baskerville.

As últimas riscas vermelhas haviam desaparecido a oeste e a noite havia caído sobre a charneca. Algumas estrelas desbotadas estavam brilhando num céu violeta.

- Uma última pergunta, Holmes - disse eu ao me levantar. - Certamente não há nenhuma necessidade de segredo entre eu e você. Qual é o significado disso tudo? O que procura ele?

A voz de Holmes abaixou quando respondeu.

- É assassinato, Watson, refinado, a sangue-frio, assassinato deliberado. Não me pergunte detalhes. Minhas redes estão se fechando sobre ele, assim como as dele estão sobre Sir Henry, e com a sua ajuda ele já está quase à minha mercê. Não há senão um perigo que pode nos ameaçar. É dele atacar antes de estarmos prontos para fazê-lo. Mais um dia, dois no máximo, e tenho o meu caso completo, mas até então cuide do seu pupilo tão de perto como uma mãe extremosa vigiou alguma vez o seu filho doente. A sua missão hoje justificou-se por si mesma, e apesar disso quase cheguei a desejar que você não tivesse saído do lado dele, volte!

Um grito horrível, um brado de horror e angústia, explodiu no silêncio da charneca. Esse grito medonho transformou o sangue em gelo em minhas veias.

- Oh, meu Deus! - disse eu ofegante. - O que é isso? O que significa isso?

Holmes havia ficado de pé num salto, e vi o seu vulto escuro e atlético na porta da cabana, com os ombros abaixados, a cabeça projetada para a frente e o rosto perscrutando a escuridão.

- Silêncio! - cochichou ele. - Silêncio!

'O grito havia sido alto devido à sua veemência, mas havia ressoado de algum lugar afastado na planície escura. Agora explodiu nos nossos ouvidos, mais perto, mais alto, mais urgente do que antes.

- Onde está ele? - cochichou Holmes, e eu vi pela excitação da sua voz que ele, o homem de ferro, estava abalado até a alma. - Onde está ele, Watson?

- Lá, acho eu - apontei para a escuridão.

- Não, lá!

Novamente o grito de agonia passou pela noite silenciosa, mais alto e muito mais perto do que nunca. E um novo som misturou-se com ele, um troar sussurrado, profundo, musical e apesar disso ameaçador, aumentando e diminuindo como o murmúrio baixo e constante do mar.

- O cão! - exclamou Holmes. - Venha, Watson, venha! Deus nos livre de chegarmos tarde demais!

Ele tinha começado a correr rapidamente pela charneca, e eu havia seguido os seus calcanhares. Mas agora de alguma parte por entre o terreno irregular imediatamente à nossa frente veio um último grito desesperado e depois uma pancada forte e ensurdecedora. Nós paramos e ficamos ouvindo. Nenhum outro som rompeu o silêncio pesado da noite sem vento.

Vi Holmes pôr a mão na testa como um homem distraído. Ele bateu com os pés no chão.

Ele chegou antes de nós, Watson. Estamos atrasados demais.

- Não, não, certamente não!

- Que tolo fui em me conter. E você, Watson, veja no que dá abandonar o seu pupilo! Mas, por Deus, se o pior aconteceu, nós o vingaremos!

Corremos cegamente pela escuridão, esbarrando contra matacões, forçando o nosso caminho através de moitas de tojo, subindo as colinas ofegantes e descendo encostas correndo, indo sempre na direção de onde aqueles sons horríveis tinham vindo. Em cada elevação Holmes olhava em volta ansiosamente, mas as sombras eram espessas sobre a charneca e nada se movia na sua superfície erma.

- Você pode ver alguma coisa?

- Nada.

- Mas, puxa, o que é aquilo?

Um gemido baixo havia chegado aos nossos ouvidos. Lá estava ele novamente à nossa esquerda! Nesse lado uma crista de rochas terminava numa escarpa vertical que dominava uma encosta juncada de pedras. Na sua superfície desigual estava esparramado um objeto escuro, irregular. Quando corremos na direção dele o contorno vago assumiu uma forma definida. Era um homem prostrado de bruços sobre o chão, com a cabeça dobrada sob ele num ângulo horrível, os ombros redondos, e o corpo encolhido como se estivesse no ato de dar um salto mortal. Tão grotesca era a atitude que não pude perceber no momento que aquele gemido tinha sido a entrega da sua alma. Nem um sussurro, nem um roçagar, erguia-se agora do vulto escuro sobre o qual nos abaixamos. Holmes pôs sua mão sobre ele e levantou-a novamente com uma exclamação de horror. A chama do fósforo que ele riscou brilhou sobre os seus dedos empastados e sobre a poça horrível que se ampliava lentamente do crânio esmagado da vítima. E brilhou sobre mais alguma coisa que deixou as nossas entranhas reviradas e desfalecidas dentro de nós, o corpo de Sir Henry Baskerville.

Não havia nenhuma possibilidade de qualquer de nós esquecer aquele temo peculiar de xadrez avermelhado, o mesmo que ele havia usado na primeira manhã em que o havíamos visto na Baker Street. Tivemos um único vislumbre dele, e depois o fósforo piscou e se apagou, ao mesmo tempo em que a esperança havia desertado de nossas almas. Holmes gemeu e seu rosto pálido brilhava na escuridão.

- O animal! O animal! - exclamei com os punhos cerrados. - Oh, Holmes, nunca me perdoarei por tê-lo deixado entregue à sua sorte.

- A culpa é mais minha do que sua, Watson. A fim de ter o meu caso bem esclarecido e completo, desperdicei a vida do meu cliente. Esse é o maior golpe que recaiu sobre mim em minha carreira. Mas como eu podia saber, como eu podia saber, que ele arriscaria a sua vida sozinho na charneca apesar de todos os meus. avisos?

- O fato de termos ouvido os gritos dele, meu Deus, aqueles gritos, e apesar disso sermos incapazes de salvá-lo! Onde está este cão feroz que o levou à morte? Ele pode estar escondido entre estas rochas neste instante. E Stapleton, onde está ele? Ele responderá por isto.

- Vai responder. Cuidarei disso. Tio e sobrinho foram assassinados, o primeiro assustado até morrer pela própria visão de uma fera que ele pensava ser sobrenatural, o outro levado ao seu fim em sua fuga louca para fugir dela. Mas agora temos que provar a relação entre o homem e a fera. Exceto pelo que ouvimos, não podemos jurar sequer quanto à existência da última, já que Sir Henry morreu evidentemente da queda. Mas, por Deus, astuto como ele é, o sujeito estará em meu poder antes de outro dia terminar!

Ficamos de pé com os corações amargurados dos dois lados do corpo desfigurado, esmagados por esse desastre súbito e irrevogável que havia levado todos os nossos esforços longos e cansativos a um fim tão lamentável. Depois quando a lua se ergueu subimos até o alto das rochas de cima das quais o nosso pobre amigo havia caído, e do cume contemplamos a charneca escura, meio prata e meio sombras. Ao longe, a quilômetros de distância, na direção de Grimpen, uma luz amarela firme e isolada estava brilhando. Ela só podia vir da casa retirada dos Stapletons. Com uma praga amarga sacudi meu punho para ela enquanto olhava.

- Por que não podemos pegá-lo imediatamente?

- O nosso caso não está completo. O sujeito é desconfiado e astuto até o último grau. Não se trata do que nós sabemos, mas do que podemos provar. Se fizermos um movimento em falso o vilão ainda pode nos escapar.

- O que podemos fazer?

- Haverá bastante o que fazer para nós amanhã. Esta noite só podemos realizar os últimos ritos para o nosso pobre amigo.

Juntos descemos a encosta escarpada e nos aproximamos do corpo, negro e claro contra as pedras prateadas. A agonia daquelas pernas contorcidas; deram-me um espasmo de dor e encheram meus olhos de lágrimas.

- Temos que pedir ajuda, Holmes! Nós não podemos carregá-lo a distância toda até a Mansão... Santo Deus, você está louco?

Ele havia soltado um grito e se inclinado sobre o corpo. Agora estava dançando, rindo e apertando a minha mão. Poderia esse ser o meu amigo sério e retraído? Esses eram fogos escondidos, realmente!

- Uma barba! Uma barba! O homem tem uma barba!

- Uma barba?

- Não é o baronete, é, ora, é o meu vizinho, o condenado!

Com pressa febril viramos o corpo de frente, e aquela barba gotejante estava apontada para a lua fria e clara no alto. Não podia haver nenhuma dúvida quanto à testa saliente e aos olhos afundados de animal. Era, realmente, o mesmo rosto que havia olhado ferozmente para mim à luz da vela de cima da pedra, o rosto de Selden, o criminoso.

Depois, num instante, tudo tomou-se claro para mim. Lembrei-me de como o baronete havia me contado que dera o seu velho guarda-roupa a Barrymore. Este o havia passado adiante a fim de ajudar Selden em sua fuga. Botas, camisa, boné, era tudo de Sir Henry. A tragédia ainda era bastante negra, mas esse homem havia pelo menos merecido a morte pelas leis do seu país. Contei a Holmes como estavam as coisas, com o meu coração borbulhando de gratidão e alegria.

- Então as roupas tinham causado a morte do pobre diabo - disse ele. - E evidente que o cão foi lançado na pista de algum objeto de Sir Henry, a bota que foi surrupiada do hotel, com toda a probabilidade, e assim descobriu este homem. Há uma coisa muito singular, contudo: como foi que Selden, no escuro, veio a saber que o cão estava em sua pista?

- Ele o ouviu.

- Ouvir um cão na charneca não induziria um homem duro como este condenado a esse paroxismo de terror a ponto de arriscar a recaptura gritando desesperadamente por socorro. Pelos seus gritos ele deve ter corrido uma longa distância após saber que o animal estava na sua pista. Como ele- soube?

- Um mistério maior para mim é por que esse cão, supondo que todas as nossas conjeturas estejam corretas...

- Eu não suponho nada.

- Bem, então, por que esse cão devia estar solto esta noite? Suponho que nem sempre ele corra solto pela charneca. Stapleton não o deixaria ir a menos que tivesse motivos para pensar que Sir Henry estivesse lá.

- Minha dificuldade é a mais formidável das duas, porque eu acho que teremos muito depressa uma explicação da sua, ao passo que a minha pode permanecer para sempre um mistério. A questão agora é, o que devemos fazer com o corpo deste pobre diabo? Não podemos deixá-lo aqui para as raposas e os corvos.

- Sugiro que o ponhamos dentro de uma das cabanas até podermos nos comunicar com a polícia.

- Exatamente. Não tenho nenhuma dúvida de que você e eu possamos carregá-lo até lá. Ora, Watson, o que é isto? É o próprio homem, por tudo que é maravilhoso e audacioso! Nem uma palavra que revelem as suas suspeitas, nem uma palavra, ou meus planos se desmoronam no chão.

Um vulto estava se aproximando de nós pela charneca, e eu vi o brilho vermelho fraco de um charuto. A luz brilhava sobre ele, e pude distinguir a forma agitada e o andar lépido do naturalista. Ele parou quando nos viu, e depois avançou novamente.

- Ora, Dr. Watson, não é o senhor, é? O senhor é o último homem que eu teria esperado ver cá fora na charneca a essa hora da noite. Mas, meu Deus, o que é isso? Alguém ferido? Não, não me diga que é o nosso amigo Sir Henry! - Ele passou por mim depressa e abaixou-se sobre o homem morto. Ouvi uma aspiração viva e o charuto caiu dos seus dedos.

- Quem... que é esse? - gaguejou ele.

- E Selden, o homem que fugiu de Princetown.

Stapleton virou um rosto horrível para nós, mas por um esforço supremo havia superado o seu espanto e o seu desapontamento. Ele olhou vivamente de Holmes para mim.

- Meus Deus! Que caso mais chocante! Como foi que ele morreu?

- Parece que partiu o pescoço caindo sobre estas pedras. Meu amigo e eu estávamos passeando pela charneca quando ouvimos um grito.

- Eu ouvi um grito, também. Foi isso que me fez sair. Eu estava inquieto quanto a Sir Henry.

- Por que sobre Sir Henry em particular? - não pude deixar de perguntar.

- Porque eu havia sugerido que ele viesse. Quando não veio fiquei surpreso e naturalmente preocupado pela sua segurança quando ouvi gritos na charneca. A propósito - seus olhos desviaram-se outra vez do meu rosto para Holmes -, o senhor ouviu mais alguma coisa além de um grito?

- Não - disse Holmes. - O senhor ouviu?

- Não.

- O que quer dizer, então?

- Oh, o senhor conhece as histórias que os camponeses contam sobre um cão fantasma, e assim por diante. Diz-se que o ouvem à noite na charneca. Eu estava imaginando se havia alguma prova desse som esta noite.

- Nós não ouvimos nada desse tipo - disse eu.

- E qual é a sua teoria sobre a morte desse pobre homem?

- Não tenho nenhuma dúvida de que a ansiedade e o abandono o fizeram perder o juízo. Ele correu pela charneca num estado de loucura e finalmente caiu aqui e partiu o pescoço.

Essa parece a teoria mais razoável - disse Stapleton, e soltou um suspiro que julguei indicar seu alívio. - O que o senhor acha disso, Sr. Sherlock Holmes?

Meu amigo inclinou-se agradecendo.

- O senhor é rápido na identificação - disse ele.

- Estivemos à sua espera nestas partes desde que o Dr. Watson chegou. O senhor chegou a tempo de ver uma tragédia.

- Sim, realmente. Não tenho nenhuma dúvida de que a explicação do meu amigo cobre os fatos. Vou levar uma lembrança desagradável de volta para Londres comigo amanhã.

- O senhor volta amanhã?

- Essa é a minha intenção.

- Espero que sua visita tenha lançado alguma luz sobre essas ocorrências que têm nos confundido?

Holmes encolheu os ombros.

- Não se pode ter sempre o sucesso que se espera. Um investigador precisa de fatos, e não de lendas ou rumores. Não foi um caso satisfatório.

Meu amigo falou da sua maneira mais franca e despreocupada. Stapleton ainda olhava fixamente para ele. Depois virou-se para mim.

- Eu sugeriria levar esse pobre sujeito para minha casa, mas isso daria tanto medo à minha irmã que não me sinto justificado em fazer isso. Acho que se puséssemos alguma coisa sobre o seu rosto ele ficará em segurança até de manhã.

E assim fizemos. Resistindo à oferta de hospitalidade de Stapleton, Holmes e eu partimos para a Mansão Baskerville, deixando que o naturalista voltasse sozinho. Olhando para trás, vimos o vulto afastando-se lentamente pela ampla charneca, e atrás dele aquela mancha preta sobre a encosta prateada que mostrava onde estava caído o homem que chegara ao seu fim tão horrivelmente.