O Cão dos Baskervilles

Arthur Conan Doyle · Capítulo 11 de 11

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O Cão dos Baskervilles

Capítulo XIV · O Cão dos Baskervilles

Um dos defeitos de Sherlock Holmes, se é que, realmente, se pode chamar isso de defeito, era que ele era excessivamente avesso a comunicar os seus planos completos a qualquer outra pessoa até o instante da sua realização. Em parte isso vinha sem dúvida da sua própria natureza magistral, que adorava dominar e surpreender aqueles que estavam à sua volta. Em parte também da sua cautela profissional, que o impedia sempre de correr quaisquer riscos. O resultado, contudo, era muito penoso para aqueles que estavam atuando como seus agentes e assistentes. Eu havia sofrido isso muitas vezes, mas nunca tanto quanto durante aquela longa viagem de trole no escuro. A grande provação estava diante de nós; pelo menos estávamos prestes a fazer o nosso esforço final, e apesar disso Holmes não havia dito nada, e pude apenas imaginar qual seria o curso da sua ação. Meus nervos formigaram de expectativa quando finalmente o vento frio sobre os nossos rostos e os espaços vazios, escuros, dos dois lados da estrada estreita me disseram que estávamos, mais uma vez, de volta à charneca. Cada passo dos cavalos e cada volta das rodas estavam nos levando para mais perto da nossa aventura suprema.

A nossa conversa foi dificultada pela presença do cocheiro do trole alugado, de forma que fomos forçados a falar de assuntos triviais quando os nossos nervos estavam tensos de emoção e expectativa. Foi um alívio para mim, após essa limitação pouco natural, quando passamos finalmente pela casa de Frankland e vimos que estávamos chegando perto da Mansão e da cena da ação. Nós não fomos de trole até à porta, mas descemos perto do portão da avenida. O trole foi pago e mandado imediatamente de volta para Coombe Tracey, enquanto começamos a caminhar para a Casa de Merripit.

- Você está armado, Lestrade?

O pequeno detetive sorriu.

- Enquanto estiver com as minhas calças tenho um bolso traseiro, e enquanto tiver meu bolso traseiro tenho algo dentro dele.

- Ótimo! Meu amigo e eu também estamos prontos para emergências.

- O senhor está muito fechado quanto a este caso, Sr. Holmes. Qual é o jogo agora?

- Um jogo de espera.

- Palavra, esse não parece um lugar muito animado disse o detetive com um calafrio, olhando em volta para as encostas sombrias da colina e para o enorme lago de cerração que pairava sobre o Pântano de Grimpen. - Vejo as luzes de uma casa na nossa frente.

- Essa é a Casa de Merripit e o fim da nossa jornada. Devo pedir-lhes que caminhem na ponta dos pés e que não falem acima de um sussurro.

Seguimos cautelosamente pelo caminho como se estivéssemos nos dirigindo para a casa, mas Holmes nos deteve quando estávamos a cerca de cento e oitenta metros dela.

- Aqui está bom - disse ele. - Estas pedras à direita constituem uma proteção admirável.

- Vamos esperar aqui?

- Sim, faremos a nossa pequena emboscada aqui. Entre nesta cavidade, Lestrade. Você já esteve dentro da casa, não esteve, Watson? Pode dizer a posição das peças? De onde são aquelas janelas com treliças nesta extremidade?

- Acho que são as janelas da cozinha.

- E aquela além, que brilha tanto?

- Aquela certamente é da sala de jantar.

- As cortinas estão levantadas. Você conhece melhor a disposição do terreno. Avance em silêncio furtivamente e veja o que eles estão fazendo, mas pelo amor de Deus não os deixe perceber que estão sendo vigiados!

Desci pelo caminho na ponta dos pés e abaixei-me por trás de um muro baixo que cercava o pomar raquítico. Entrando com cuidado em sua sombra, atingi um ponto de onde pude olhar diretamente pela janela sem cortina.

Havia apenas dois homens na sala, Sir Henry e Stapleton. Estavam sentados com seus perfis voltados para mim dos dois lados de uma mesa redonda. Os dois estavam fumando charutos, e havia café e vinho diante deles. Stapleton estava falando com animação, mas o baronete parecia pálido e distraído. Talvez a lembrança daquela caminhada solitária pela charneca de mau agouro estivesse pesando fortemente em sua mente.

Enquanto eu os observava Stapleton ergueu-se e deixou a sala, enquanto Sir Henry enchia o seu copo outra vez e recostava-se na sua cadeira, fumando o charuto. Ouvi o ranger de uma porta e o ruído nítido de botas sobre o saibro. Os passos passaram pelo caminho do outro lado do muro sob o qual eu me agachara. Olhando por cima, vi o naturalista parar diante da porta de uma dependência no canto do pomar. Uma chave girou numa fechadura, e quando ele entrou lá houve um ruído curioso de luta vindo de dentro. Ele ficou apenas um minuto ou coisa parecida dentro, e depois ouvi a chave girar mais uma vez e ele passou por mim entrando em casa novamente. Vi-o reunir-se outra vez ao seu convidado, e voltei furtivamente em silêncio para onde meus companheiros estavam esperando para contar-lhes o que havia visto.

- Você diz, Watson, que a dama não está lá? - perguntou Holmes quando eu havia terminado meu relatório.

- Não.

- Onde pode estar ela, então, já que não há nenhuma luz em qualquer outro cômodo exceto na cozinha?

- Não posso imaginar onde ela esteja.

Eu havia dito que sobre o grande Pântano de Grimpen pairava uma cerração branca, densa. Ela estava vindo lentamente em nossa direção e se acumulava como um muro daquele lado, baixa porém espessa e bem definida. A lua brilhava sobre ela, e ela parecia um grande campo de gelo bruxuleante, com os cumes dos picos rochosos distantes como rochas transportadas sobre a sua su~erfície. O rosto de Holmes virou-se para ela e ele resmungou impaciente ao observá-la arrastar-se vagarosamente. - Ela está vindo em nossa direção, Watson.

- Isso é sério?

- Muito sério realmente, a única coisa que podia ter transtornado os meus planos. Ele não pode demorar muito agora. Já são dez horas. O nosso sucesso e até a vida dele podem depender dele sair antes que a cerração cubra o caminho.

A noite estava clara e linda acima de nós. As estrelas brilhavam frias e nítidas, enquanto uma meia-lua banhava toda a cena com uma luz macia e incerta. Diante de nós estava o vulto escuro da casa, com o seu telhado serrilhado e chaminés janelas de baixo estendiam-se pelo pomar e pela charneca. Uma delas apagou-se de repente. Os criados haviam deixado a cozinha. Restava apenas o lampião, da sala de jantar onde os dois homens, o anfitrião assassino e o convidado inconsciente, ainda conversavam fumando seus charutos.

A cada minuto aquela planície branca que cobria metade da charneca arrastava-se cada vez mais para perto da casa. As primeiras espirais finas dela já estavam se enroscando pelo quadrado dourado da janela iluminada. O muro oposto do pomar já estava invisível, e as árvores estavam se projetando de um roda moinho de vapor branco. Enquanto a observávamos, as espirais da cerração vieram se arrastando em volta de ambos os cantos da casa e rolaram lentamente formando uma barreira densa, sobre a qual o andar superior e o telhado flutuavam como uma embarcação estranha num mar sombrio. Holmes bateu com a mão colericamente na pedra diante de nós e com os pés em sua impaciência.

- Se ele não sair num quarto de hora o caminho ficará coberto. Dentro de meia-hora não poderemos ver nossas mãos diante de nós.

- Vamos recuar para mais longe em terreno mais elevado?

- Sim, acho que isso seria melhor.

Assim à medida que a barreira de cerração deslocava-se para a frente nós recuávamos diante dela até chegarmos a oitocentos metros da casa, e aquele denso mar branco com a lua prateando sua orla superior ainda avançava lenta e inexoravelmente.

Estamos indo longe demais - disse Holmes. - Não podemos correr o risco de ele ser alcançado antes de poder chegar até nós. Devemos ficar onde estamos a todo custo. -Ele caiu de joelhos e colou o ouvido ao chão. - Graças a Deus, acho que o estou ouvindo chegar.

Um ruído de passos rápidos rompeu o silêncio da charneca. Agachados; entre as pedras, olhávamos atentamente para a barreira encimada de prata diante de nós. Os passos ficaram mais altos, e através da cerração, como através de uma cortina, emergiu o homem que estávamos esperando. Ele olhou em volta surpreso ao sair na noite clara e estrelada. Depois veio rapidamente pelo caminho, passou perto de onde estávamos, e continuou subindo a longa encosta atrás de nós. Enquanto andava ele olhava continuamente por cima dos ombros, como um homem que estivesse pouco à vontade.

- Psiu! - exclamou Holmes, e ouvi o estalido metálico de uma pistola engatilhando. - Cuidado! Ele está vindo!

Havia um patear fraco, vivo e contínuo vindo de alguma parte no âmago da barreira que se arrastava. A nuvem estava a quarenta metros de onde estávamos, e nós olhamos fixamente para ela, todos três, incertos do horror que estava prestes a irromper do meio dela. Eu estava junto ao cotovelo de Holmes, e olhei por um instante para o seu rosto. Ele estava pálido e exultante, com os olhos brilhando vivamente ao luar. Mas de repente eles se fixaram em frente num olhar rígido e fixo, e seus lábios partiram-se, estupefatos. No mesmo instante Lestrade soltou um grito de terror e lançou-se de bruços no chão. Eu saltei de pé, com minha mão inerte agarrada à pistola, minha mente paralisada pela aparição horrível que havia saltado sobre nós das sombras da cerração. Era um cão, um cão enorme, negro como o carvão, mas não um cão que olhos mortais jamais tivessem visto. Jorrava fogo de sua boca, seus olhos brilhavam, seu focinho, pêlos do pescoço e papada estavam delineados em chamas bruxuleantes. Nunca no sonho delirante de um cérebro em desordem podia ser concebido nada mais selvagem, mais aterrador, mais infernal do que o vulto escuro e a aparência selvagem que irrompeu sobre nós do muro de cerração.

Com longos saltos a enorme criatura preta estava descendo o caminho aos pulos, seguindo firme os passos do nosso amigo. Ficamos tão paralisados pela aparição que permitimos que ela passasse antes de recuperarmos a coragem. Depois Holmes e eu atiramos ambos juntos, e a criatura soltou um uivo medonho, que mostrou que pelo menos um a havia atingido. Ela não parou, contudo, mas continuou seguindo aos pulos. Ao longe no caminho vimos Sir Henry olhando para trás com o rosto branco ao luar, as mãos erguidas de terror, olhando impotente fixamente para a coisa assustadora que o estava perseguindo.

Mas aquele grito de dor do cão havia lançado todos os nossos receios aos quatro ventos. Se ele era vulnerável, era mortal, e se podíamos feri-lo, podíamos matá-lo. Nunca vi um homem correr como Holmes correu naquela noite. Sou considerado ligeiro de pés, mas ele me ultrapassou tanto quanto eu ultrapassei o pequeno profissional. Diante de nós, ao voarmos pelo caminho, ouvimos grito após grito de Sir Henry e o rosnar profundo do cão. Cheguei a tempo de ver a fera saltar sobre sua vítima, atirá-la ao chão, e lançar-se à sua garganta. Mas no instante seguinte Holmes havia esvaziado cinco tiros do seu revólver no flanco da criatura. Com um último uivo de agonia e uma mordida enraivecida no ar, ela rolou de costas com os quatro pés agitando-se furiosamente, e depois. caiu mole de lado. Eu me abaixei, ofegante, e comprimi minha pistola contra a cabeça horrível, que brilhava fracamente, mas não foi apertar o gatilho. O cão gigantesco estava morto.

Sir Henry jazia insensível onde havia caído. Arrancamos o seu colarinho e Holmes murmurou uma prece de gratidão quando viu que não havia nenhum sinal de ferimento e que o socorro havia chegado a tempo. As pálpebras do nosso amigo já estremeciam e ele fez um débil esforço para se mexer. Lestrade enfiou seu frasco de conhaque entre os dentes do baronete, e dois olhos assustados ficaram olhando para nós.

- Meu Deus! - sussurrou ele. - O que era isso? O que, em nome dos céus, era isso?

- Está morto, o que quer que seja - disse Holmes.

Liquidamos com o fantasma da família de uma vez para sempre.

Apenas em tamanho e força era uma criatura terrível que jazia estendida diante de nós. Não era um sabujo puro e não era um mastim puro, mas parecia ser uma combinação dos dois, ossudo, selvagem e tão grande como uma pequena leoa. Mesmo agora, na imobilidade da morte, as mandíbulas enormes pareciam gotejar uma chama azulada e os olhos pequenos, profundos e cruéis estavam orlados de fogo. Coloquei minha mão no focinho brilhante, e quando a levantei meus próprios dedos esbraseavam e brilhavam na escuridão.

- Fósforo - disse eu.

- Um preparado astuto dele - disse Holmes cheirando o animal morto. - Não há nenhum cheiro que possa ter interferido com o poder do seu faro. Devemos a você profundas desculpas, Sir Henry, por tê-lo exposto a esse susto. Eu estava preparado para um cão, mas não para uma criatura como esta. E a cerração deu-nos pouco tempo para recebê-la.

- Você salvou a minha vida.

- Tendo primeiro a posto em perigo. Você tem força bastante para se levantar?

- Dê-me mais um gole grande desse conhaque e estarei pronto para qualquer coisa. Portanto! Agora, se você quiser me ajudar. O que você propõe fazer?

- Deixá-lo aqui. Você não está preparado para outras aventuras esta noite. Se você esperar, um ou outro de nós voltará com você para a Mansão.

Ele tentou levantar-se cambaleando, mas ainda estava horrivelmente pálido e tremendo em todos os membros. Nós o ajudamos a ir até uma pedra, onde ele se sentou tremendo com o rosto mergulhado nas mãos.

- Temos que deixá-lo agora - disse Holmes. - O resto do nosso trabalho tem que ser feito, e cada momento é importante. Temos o nosso caso, e agora queremos apenas o nosso homem.

- É de mil para um a probabilidade de o encontrarmos em casa - continuou ele ao refazermos nossos passos rapidamente pelo caminho. - Aqueles tiros devem ter dito a ele que o jogo terminou.

- Estávamos afastados a alguma distância, e essa cerração pode tê-los amortecido.

- Ele seguiu o cão para chamá-lo, disso vocês podem estar certos. Não, não, ele se foi a esta altura! Mas revistaremos a casa para ter certeza.

A porta da frente estava aberta, portanto entramos correndo e fomos de cômodo em cômodo, para espanto de um velho criado trôpego que se encontrou conosco no corredor. Não havia nenhuma luz salvo na sala de jantar, mas Holmes apanhou o lampião e não deixou nenhum canto da casa inexplorado. Não pudemos ver nenhum sinal do homem que estávamos perseguindo. No andar de cima, contudo, a porta de um dos quartos estava trancada.

- Há alguém aqui - gritou Lestrade. - Posso ouvir um movimento. Abra essa porta!

Um gemido e um farfalhar fraco vieram de dentro. Holmes atingiu a porta logo acima da fechadura com a sola do pé e esta se abriu. Com a pistola na mão, nós três entramos correndo no quarto.

Mas não havia nenhum sinal dentro dele daquele vilão desesperado e desafiador que esperávamos ver. Em vez disso nos deparamos com um objeto tão estranho e tão inesperado que ficamos parados por um momento olhando para ele espantados.

O quarto havia sido arrumado como um pequeno museu, e as paredes estavam cobertas por um certo número de caixas com tampas de vidro cheias daquela coleção de borboletas e mariposas, cuja formação tinha sido o passatempo desse homem complexo e perigoso. No centro do quarto havia uma trave vertical, que havia sido colocada em algum período como suporte dos barrotes de madeira comidos pelo cupim que sustentavam o telhado. A esse poste estava amarrado um vulto, tão enfaixado e encoberto pelos lençóis que tinham sido usados para amarrá-lo que não se podia dizer no momento se era de um homem ou de uma mulher. Uma toalha passava em volta da garganta e estava presa atrás do pilar. Outra cobria a parte inferior do rosto, e sobre ela dois olhos escuros, olhos cheios de dor, vergonha e uma interrogação horrível, nos contemplavam. Num minuto havíamos arrancado a mordaça, desenfaixado os laços, e a Sra. Stapleton caiu no chão diante de nós. Quando a sua bela cabeça caiu sobre o peito vi o claro vergão vermelho de uma chicotada no seu pescoço.

- O animal! - exclamou Holmes. - Aqui, Lestrade, sua garrafa de conhaque! Ponha-a na cadeira! Ela desmaiou de maus tratos e exaustão.

Ela abriu os olhos outra vez.

Ele está em segurança? - perguntou ela. - Ele escapou?

- Ele não pode escapar de nós, madame.

- Não, não, não me refiro ao meu marido. Sir Henry? Ele está em segurança?

- Está.

- E o cão?

- Está morto.

Ela soltou um longo suspiro de satisfação.

- Graças a Deus! Graças a Deus! Oh, esse vilão! Viu como ele me tratou! - ela estendeu os braços para fora das mangas, e vimos com horror que estavam todos cobertos de contusões. - Mas isto não é nada, nada! É a minha mente e minha alma que ele torturou e maculou. Eu pude suportar isso tudo, maus tratos, solidão, uma vida de impostura, tudo, desde que pudesse me agarrar ainda à esperança de que tinha-o seu amor, mas agora sei que nisso também tenho sido joguete e seu instrumento. - Ela irrompeu num pranto apaixonado enquanto falava.

- A senhora não tem nenhuma boa vontade para com ele, madame - disse Holmes. - Conte-nos, então, onde podemos encontrá-lo. Se a senhora alguma vez o ajudou no mal, ajude-nos agora e assim expie.

- Não há senão um lugar para onde ele pode ter fugido respondeu ela. - Há uma velha mina de estanho numa ilha no meio do pântano. Era lá que ele guardava o seu cão e lá também que ele fez preparativos para que pudesse ter um refúgio. Para lá é que ele fugiria.

A barreira de cerração jazia como lã branca contra a janela. Holmes ergueu o lampião em direção a ela.

- Veja - disse ele. - Ninguém pode encontrar seu caminho para dentro do Pântano de Grimpen esta noite.

Ela riu e bateu as mão. Seus olhos e dentes brilharam com alegria feroz.

- Ele pode encontrar seu caminho para entrar, mas nunca para sair - exclamou ela. - Como pode ele ver as varas orientadoras esta noite? Nós as plantamos juntos, ele e eu, para marcar o caminho através do pântano. Oh, se eu pudesse ao menos tê-las arrancado hoje. Então realmente os senhores o teriam a sua mercê!

Era evidente para nós que toda a perseguição era em vão até que a cerração tivesse levantado. Enquanto isso, deixamos Lestrade de posse da casa enquanto Holmes e eu voltamos com o baronete para a Mansão Baskerville. A história dos Stapletons não podia mais ser escondida dele, mas ele recebeu o golpe bravamente quando soube a verdade sobre a mulher que havia amado. Mas o choque das aventuras da noite havia destruído os seus nervos, e antes de amanhecer ele estava delirante e com febre alta, sob os cuidados do Dr. Mortimer. Eles dois estavam destinados a viajar juntos à volta do mundo antes de Sir Henry se tomar mais uma vez o homem são e robusto que era antes de se tomar dono daquela propriedade de mau agouro.

E agora chego rapidamente à conclusão desta narrativa singular, na qual tentei fazer o leitor partilhar daqueles receios sombrios e suspeitas vagas que toldaram as nossas vidas por tanto tempo e terminaram de maneira tão trágica. Na manhã após a morte do cão a cerração havia se levantado e fomos guiados pela Sra. Stapleton até o ponto onde eles haviam encontrado o caminho através do lodaçal. Quando vimos a ansiedade e a alegria com que ela nos pôs na pista do seu marido, isso nos ajudou a compreender o horror da vida dessa mulher. Nós a deixamos parada sobre a fina península de terra firme e turfosa que se estreitava para dentro do amplo lodaçal. A partir do fim dela uma pequena vara plantada aqui e ali mostrava onde o caminho ziguezagueava de tufo em tufo de junco por entre estes buracos escumados de verde e atoleiros imundos que barravam o caminho para o estranho. Caniços opulentos e luxuriantes e plantas aquáticas viscosas exalavam um cheiro de podridão e um vapor rnefitico e pesado em nossos rostos, enquanto um passo em falso nos mergulhou mais de uma vez até a coxa no paul escuro e trêmulo, que se sacudia por vários passos em ondulações macias em tomo dos nossos pés. Sua viscosidade tenaz segurava os nossos calcanhares quando andávamos, e quando afundávamos nela, era como se alguma mão maligna estivesse nos puxando para baixo dentro daquelas profundezas obscenas, tão feroz e intencional era a pressão com que nos prendia. Só uma vez vimos um traço de que alguém havia passado por aquele caminho perigoso antes de nós. Do meio de um tufo que brotava para fora do lodo projetava-se uma coisa escura. Holmes abaixou-se até a cintura quando saiu do caminho para pegá-la, e se não estivéssemos lá para puxá-lo para fora ele podia nunca mais pôr os pés em terra firme outra vez. Ele segurava uma velha bota preta no ar. - Meyers, Toronto- estava impresso do lado de dentro do couro.

- Isso vale um banho de lama - disse ele. - E a bota perdida do nosso amigo, Sir Henry.

- Atirada aqui por Stapleton em sua fuga.

- Exatamente. Ele a conservou na mão após usá-la para pôr o cão no rasto. Ele fugiu quando viu que o jogo havia terminado, segurando-a ainda. E atirou-a fora neste ponto da sua fuga. Sabemos finalmente que ele chegou até aqui em segurança.

Porém mais do que isso nós nunca estávamos destinados a saber, embora houvesse muito que pudéssemos imaginar. Não havia nenhuma possibilidade de encontrar pegadas no pântano, porque a lama que subia brotava rapidamente sobre elas, mas quando chegamos por fim a terreno mais firme além do brejo nós todos as procuramos ansiosamente. Mas nem o mais ligeiro sinal delas jamais foi visto. Se a terra contasse uma história verdadeira, então Stapleton jamais chegou àquela ilha de refúgio em direção a qual lutou através da cerração na noite anterior. Em alguma parte no coração do grande Pântano de Grimpen, no fundo da viscosidade imunda do enorme atoleiro que o havia sorvido, esse homem frio e de coração cruel está enterrado para sempre.

Encontramos muitos vestígios dele na ilha cercada de lodo onde ele havia escondido o seu selvagem aliado. Um volante enorme e um poço meio cheio de detritos mostravam a posição de uma mina abandonada. Ao lado dela estavam os restos em ruínas das casinhas dos mineiros, expulsos sem dúvida pelo cheiro infecto do pântano em tomo. Em uma dessas um grampo de ferro e uma corrente com uma quantidade de ossos roídos mostravam onde o animal havia estado confinado. Um esqueleto com um emaranhado de pêlos marrons presos a ele jazia entre os detritos.

- Um cão! - disse Holmes. - Por Deus, um spaniel de pêlos encaracolados. Pobre Mortimer, nunca verá o seu animal de estimação outra vez. Bem, pelo que sei este lugar não contém qualquer outro segredo que já não tenhamos imaginado. Ele pôde esconder o seu cão mas não pôde calar sua voz, e daí aqueles gritos que mesmo à luz do dia não eram agradáveis de ouvir. Numa emergência ele podia guardar o cão na dependência de Merripit, mas era sempre um risco, e foi só no dia supremo, que ele considerou como o fim de todos os seus esforços, que se atreveu a fazer isso. Esta pasta na lata sem dúvida é a mistura luminosa com a qual a criatura era besuntada. Isso foi sugerido, naturalmente, pela história do cão diabólico da família, e pelo desejo de amedrontar o velho Sir Charles até matá-lo. Não admira que o pobre diabo do condenado corresse e gritasse, da mesma forma como o nosso amigo fez, e como nós mesmos teríamos feito, quando viu essa criatura saltando através da escuridão da charneca na sua pista. Foi um artifício astuto, porque, além da possibilidade de levar sua vítima à morte, que camponês se aventuraria a investigar com demasiado empenho a respeito dessa criatura se a tivesse visto, como muitos viram, na charneca? Eu disse em Londres, Watson, e digo outra vez agora que nunca até agora ajudamos a caçar um homem mais perigoso do que esse que jaz lá longe - ele girou seu braço comprido em direção à extensão enorme do pântano, salpicado de manchas verdes que se estendiam à distância até se fundir com as encostas avermelhadas da charneca.

Capítulo XV

Um Retrospecto

Era fim de novembro, e Holmes e eu estávamos sentados, numa noite fria, úmida e nevoenta, de ambos os lados de um fogo resplandecente em nossa sala da Baker Street. Desde o desfecho trágico da nossa visita ao Devonshire ele esteve ocupado com dois casos da mais alta importância; no primeiro dos quais havia denunciado a conduta atroz do Coronel Upwood em relação ao famoso escândalo das cartas do Clube Noripareil, ao passo que no segundo havia defendido a infeliz Mme. Montpensier da acusação de assassinato que pendia sobre ela em relação à morte da sua enteada, Mlle. Carére, a jovem que, como se deve lembrar, foi encontrada seis meses mais tarde viva e casada em Nova York. O meu amigo estava de excelente humor pelo sucesso que havia se seguido a uma sucessão de casos difíceis e importantes, de forma que pude convencê-lo a discutir os detalhes do mistério de Baskerville. Eu havia esperado pacientemente pela oportunidade, porque sabia que ele nunca permitiria que os casos se superpusessem, e que sua mente límpida e lógica fosse afastada do seu trabalho atual para alongar-se sobre lembranças do passado. Sir Henry e o Dr. Mortimer estavam, contudo, em Londres, a caminho daquela longa viagem que havia sido recomendada para a restauração dos seus nervos abalados. Eles haviam nos visitado naquela mesma tarde, de forma que era natural que o assunto surgisse para discussão.

- Todo o curso dos acontecimentos - disse Holmes do ponto de vista do homem que chamava-se a si mesmo de Stapleton, era simples e direto, embora para nós, que no começo não tínhamos nenhum meio de saber os motivos dos seus atos e podíamos saber apenas uma parte dos fatos, tudo parecesse excessivamente complexo. Eu tive a vantagem de duas conversas com a Sra. Stapleton, e o caso agora foi tão completamente esclarecido que não sei se há alguma coisa que tenha permanecido secreta para nós. Você encontrará algumas anotações sobre o assunto na letra B da minha lista indexada de casos.

- Talvez você tenha a bondade de me fazer de memória um resumo do curso dos acontecimentos.

- Certamente, embora não possa garantir que tenha todos os fatos em mente. A concentração mental intensa tem uma maneira curiosa de apagar o que passou. O advogado que tem o seu caso na ponta dos dedos e pode discutir com um especialista sobre o seu próprio assunto descobre que uma semana ou duas de tribunal afastará isso tudo para longe da sua cabeça mais uma vez. Assim cada um dos meus casos substitui o último, e Mlle. Carére apagou a minha lembrança da Mansão Baskerville. Amanhã algum outro pequeno problema pode ser submetido à minha atenção, o que por sua vez desalojará a bela dama francesa e o infame Upwood. No que diz respeito ao caso do Cão, contudo, vou dar-lhe o curso dos acontecimentos o mais de perto que puder, e você sugerirá qualquer coisa que eu possa ter esquecido.

- Minhas investigações mostram além de qualquer dúvida que o retrato de não mentiu, e que esse sujeito era realmente um Baskerville. Ele era filho daquele Rodger Baskerville, o irmão caçula de Sir Charles, que fugiu com uma reputação sinistra para a América do Sul, onde diz-se que morreu sem se casar.

Na verdade ele se casou, e teve um filho, esse sujeito, cujo nome verdadeiro é o mesmo do seu pai. Ele se casou com Beryl Garcia, uma das belas de Costa Rica e, tendo roubado uma soma considerável de dinheiro público, mudou o nome para Vandeleur e fugiu para a Inglaterra, onde se estabeleceu com um colégio à leste do Yorkshire. Seu motivo para tentar essa linha especial de negócio foi por haver encetado um conhecimento com um tutor tuberculoso na viagem para casa, e haver usado a capacidade deste homem para tomar o empreendimento um sucesso. Fraser, o tutor, morreu, contudo, e o colégio que havia começado bem caiu do descrédito para a infâmia. Os Vandeleurs acharam conveniente mudar o nome para Stapleton, e ele trouxe os restos da sua fortuna, seus planos para o futuro, e o seu gosto pela entomologia para o sul da Inglaterra. Eu soube no Museu Britânico que ele era uma autoridade reconhecida no assunto, e que o nome de Vandeleur havia sido ligado permanentemente a uma certa mariposa que ele havia, no seu tempo de Yorkshire, sido o primeiro a descrever.

- Chegamos agora àquela parte da vida dele que provou ser de um interesse tão intenso para nós. O sujeito havia evidentemente investigado e descoberto que só duas vidas interpunham-se entre ele e uma propriedade valiosa. Quando foi para o Devonshire seus planos eram, creio, excessivamente vagos, mas que ele estava com más intenções desde o princípio é evidente pela maneira como levou sua mulher consigo disfarçada como sua irmã. A idéia de usá-la como chamariz já estava claramente em sua mente, embora ele possa não ter tido certeza de como os detalhes da sua trama deviam ser dispostos. Ele pretendia no fim ter a propriedade, e estava pronto a usar qualquer instrumento ou correr qualquer risco para esse fim. Seu primeiro ato foi estabelecer-se o mais perto possível do seu lar ancestral, e o seu segundo foi cultivar uma amizade com Sir Charles Baskerville e com os vizinhos.

- O próprio baronete contou a ele sobre o cão da família, e assim preparou o caminho para a sua própria morte. Stapleton, como continuarei a chamá-lo, sabia que o coração do velho era fraco e que um choque o mataria. Isso ele tinha sabido pelo Dr. Mortimer. Ele havia ouvido também que Sir Charles era supersticioso e havia levado muito a sério essa lenda sombria. Sua mente engenhosa sugeriu instantaneamente um meio pelo qual o baronete pudesse ser morto, e apesar disso dificilmente seria possível imputar a culpa ao verdadeiro assassino.

- Tendo concebido a idéia, começou a executá-la com considerável finesse. Um planejador comum teria se contentado em trabalhar com um cão selvagem. O uso de meios artificiais para tornar a criatura diabólica foi um lampejo de gênio da parte dele. O cão ele comprou em Londres de Ross e Mangles, os comerciantes da Fulham Road. Era o mais forte e mais selvagem em poder deles Ele o trouxe para o,sul pela linha North Devon e caminhou uma grande distância pela charneca a fim de levá-lo para casa sem provocar nenhum comentário. Em suas caçadas de insetos ele já havia aprendido a penetrar no Pântano de Grimpen, e assim encontrara um esconderijo seguro para a criatura. Ali ele o manteve no canil e esperou a sua oportunidade.

- Mas esta levou algum tempo para chegar. O velho cavalheiro não podia ser atraído para fora dos seus terrenos à noite. Várias vezes Stapleton escondeu-se por perto com o seu cão mas sem resultado. Foi durante essas andanças infrutíferas que ele, ou melhor seu aliado, foi visto pelos camponeses, e que a lenda do cão diabólico recebeu uma nova confirmação. Ele havia esperado que sua mulher pudesse levar Sir Charles à ruína, mas aqui ela provou ser inesperadamente independente. Ela não procuraria enredar o velho cavalheiro numa ligação sentimental que pudesse entregá-lo ao seu inimigo. Ameaças e até, lamento dizer, pancadas, não conseguiram demovê-la. Ela não teria nada a ver com isso, e por algum tempo Stapleton ficou num impasse.

- Ele encontrou uma saída para as suas dificuldades através da oportunidade que Sir Charles, que havia expressado amizade por ele, proporcionara, encarregando-o da sua caridade no caso dessa infeliz mulher, a Sra. Laura Lyons. Apresentando-se como solteiro ele adquiriu completa influência sobre ela, e deu-lhe a entender que, no caso dela obter o divórcio do seu marido, se casaria com ela. Seus planos foram levados de repente a uma fase decisiva pelo seu conhecimento de que Sir Charles estava prestes a deixar a Mansão a conselho do Dr. Mortimer, com cuja opinião ele próprio pretendia concordar. Ele devia agir imediatamente ou a sua vítima podia ficar fora do seu alcance. Portanto fez pressão sobre a Sra. Lyons para escrever aquela carta, implorando ao velho para conceder-lhe uma entrevista na noite anterior à da sua partida para Londres. Depois, através de um argumento capcioso, impediu-a de ir, e assim teve a oportunidade pela qual havia esperado.

- Voltando de trole de Coorribe Tracey à noite, ele chegou a tempo de pegar o seu cão, lambuzá-lo com essa tinta infernal, e levar o animal até o portão no qual tinha motivos para esperar encontrar o velho cavalheiro esperando. O cão, incitado pelo dono, saltou por cima da cancela do portão e perseguiu o infeliz baronete, que fugiu gritando pela Aléia dos Teixos. Naquele túnel sombrio devia realmente ter sido uma visão horrível ver aquela criatura preta enorme, com as mandíbulas em chamas e os olhos candentes, saltando atrás da sua vítima. Ele caiu morto no fim da aléia de ataque cardíaco e terror. O cão havia ficado sobre a margem gramada enquanto o baronete havia corrido pelo caminho, de forma que nenhuma pista senão a do homem era visível. Ao vê-lo caído imóvel, a criatura provavelmente aproximou-se para farejá-lo, mas encontrando-o morto havia se afastado novamente. Foi então que ela deixou a marca que foi realmente observada pelo Dr. Mortimer. O cão foi chamado e levado às pressas para o seu covil no Pântano de Grimpen, e foi deixado um mistério que confundiu as autoridades, alarmou a região e finalmente trouxe o caso ao campo da nossa observação.

- Isso quanto à morte de Sir Charles Baskerville. Você percebe a astúcia diabólica dela, porque realmente seria quase impossível criar um caso contra o verdadeiro assassino. Seu único cúmplice era um que não podia nunca denunciá-lo, e a natureza grotesca, inconcebível do artifício, só serviu para torná-lo mais eficaz. Ambas as mulheres relacionadas com o caso, a Sra. Stapleton e a Sra. Laura Lyons, foram deixadas com uma forte desconfiança contra Stapleton. A Sra. Stapleton sabia que ele tinha planos quanto ao velho, e também da existência do cão. A Sra. Lyons não sabia nenhuma destas coisas, mas havia ficado impressionada pela morte ocorrer na ocasião de um encontro não desmarcado, o que só ele sabia. Contudo, ambas estavam sob a influência dele, e ele não tinha nada a recear delas. A primeira metade da sua tarefa fora realizada com sucesso, mas o mais difícil ainda restava.

- É possível que Stapleton não soubesse da existência de um herdeiro no Canadá. De qualquer maneira ele saberia disso muito em breve pelo seu amigo, o Dr. Mortimer, e o último contou a ele todos os detalhes da chegada de Sir Henry Baskerville. A primeira idéia de Stapleton foi que esse jovem estranho do Canadá pudesse ser morto possivelmente em Londres sem ir absolutamente até o Devonshire. Ele não confiava na sua mulher desde que ela se recusara a ajudá-lo em preparar uma armadilha para o velho, e não se atrevia a deixá-la por muito tempo longe dele com medo de perder a influência sobre ela. Foi por esse motivo que levou-a para Londres consigo. Eles se hospedaram, descobri, no Hotel Particular Mexborough na Craven Street, que foi realmente um daqueles visitados pelo meu agente em busca de provas. Ali ele manteve a mulher prisioneira no quarto enquanto ele, disfarçado com uma barba, seguiu o Dr. Mortimer até a Baker Street e depois até a estação e ao Hotel Northumberland. Sua mulher tinha alguma idéia dos seus planos, mas ela tinha um tal medo do marido, medo fundado no mau tratamento brutal, que não se atreveu a escrever para prevenir o homem que ela sabia estar em perigo. Se a carta caísse nas mãos de Stapleton sua própria vida não estaria segura. Finalmente, como sabemos, ela adotou o expediente de cortar as palavras que formariam a mensagem, e endereçar a carta numa letra disfarçada. Esta chegou ao baronete e deu-lhe o primeiro aviso do perigo que corria.

- Era essencial para Stapleton arranjar alguma peça de vestuário de Sir Henry para que, no caso de ser obrigado a usar o cão, pudesse ter sempre os meios de lançá-lo na sua pista. Com presteza e audácia características ele cuidou disso imediatamente, e não podemos duvidar de que o engraxate ou a camareira do hotel foram bem subornados para ajudá-lo em seu desígnio. Por acaso, contudo, a primeira bota que foi conseguida para ele era nova e, portanto, inútil para o seu objetivo. Então ele a fez ser devolvida e obteve outra, um incidente muito instrutivo, já que provou conclusivamente em minha mente que estávamos lidando com um cão verdadeiro, porque nenhuma outra suposição poderia explicar essa ansiedade de obter uma bota velha e essa indiferença pela nova. Quanto mais outro e grotesco é um incidente com mais cuidado ele merece ser examinado, e o próprio ponto que parece complicar um caso é, quando devidamente considerado e cientificamente manipulado, aquele que tem mais probabilidade de elucidá-lo.

- Depois tivemos a visita dos nossos amigos na manhã seguinte, seguidos sempre por Stapleton no cabriolé. Pelo seu conhecimento do nosso endereço e da minha aparência, bem como da sua conduta geral, estou inclinado a pensar que a carreira criminosa de Stapleton não está limitada de maneira alguma a este caso isolado de Baskerville. É sugestivo o fato de durante os últimos três anos ter havido quatro roubos consideráveis na Região Oeste, para nenhum dos quais qualquer criminoso jamais foi preso. O último desses, em Folkstone Court, em maio, foi notável pelo disparo a sangue-frio no pajem, que surpreendeu o ladrão mascarado e solitário. Não posso duvidar que Stapleton obteve seus recursos que terminavam dessa maneira, e que durante anos ele tem sido um homem desesperado e perigoso.

- Tivemos um exemplo na presteza dos seus recursos naquela manhã em que se livrou de nós com tanto sucesso, e também da sua audácia em mandar de volta o meu próprio nome através do cocheiro. Desde aquele momento ele compreendeu que eu havia assumido o caso em Londres, e que portanto não havia nenhuma chance para ele aqui. Ele voltou para Dartmoor e esperou a chegada do baronete.

- Um momento! - disse eu. - Você descreveu, sem dúvida, a seqüência dos acontecimentos corretamente, mas há um ponto que você deixou inexplicado. Que fim levou o cão quando o seu dono esteve em Londres?

- Eu dediquei alguma atenção a esse ponto e sem dúvida ele é importante. Não pode haver nenhuma dúvida de que Stapleton tinha um confidente, embora seja pouco provável que ele alguma vez tivesse se colocado em seu poder partilhando todos os seus planos com ele. Havia um velho empregado na Casa de Merripit cujo nome era Anthony. Sua ligação com os Stapletons pode ser remontada há vários anos, até o tempo em que dirigiu o colégio, de forma que ele devia saber que seu patrão e patroa eram realmente marido e mulher. Esse homem desapareceu e fugiu do país. É sugestivo que Anthony não é um nome comum na Inglaterra, ao passo que Antonio é em todos os países hispânicos ou hispano-americanos. O homem, como a própria Sra. Stapleton, falava inglês bem, mas com um sotaque ciciado curioso. Eu mesmo vi esse velho atravessar o Pântanofle Grimpen pelo caminho que Stapleton havia demarcado. E muito provável, portanto, que na ausência do seu patrão fosse ele que cuidasse do cão, embora nunca possa ter sabido o fim para que o animal era usado.

- Os Stapletons foram depois para o Devonshire, no sul, para onde foram seguidos em breve por Sir Henry e você. Uma palavra agora quanto à minha própria posição na ocasião. Provavelmente você deve se recordar que quando examinei o papel sobre o qual as palavras impressas foram coladas fiz um exame minucioso da marca d'água. Ao fazer isso segurei-o a poucos centímetros dos meus olhos, e percebi um ligeiro aroma do perfume conhecido como jasmim branco. Há setenta e cinco perfumes e é muito necessário que um especialista em crimes possa distinguir uns dos outros, e mais de uma vez têm ocorrido casos em minha própria experiência que dependeram do seu pronto reconhecimento. A fragrância sugeria a presença de uma dama, e os meus pensamentos já começavam a se voltar para os Stapletons. Assim eu havia me certificado do cão, e havia desconfiado do criminoso antes mesmo de irmos para a Região Oeste.

- O meu jogo era vigiar Stapleton. Era evidente, contudo, que eu não podia fazer isso se estivesse com vocês, já que ele ficaria atentamente em guarda. Enganei todo mundo, portanto, inclusive você, e fui para o sul secretamente quando pensavam que eu estava em Londres. Minhas provações não foram tão grandes como você imaginou, embora esses detalhes triviais nunca devam interferir com a investigação de um caso. Fiquei a maior parte do tempo em Coombe Tracey, e só usei a cabana da charneca quando foi necessário ficar perto da cena da ação. Cartwright tinha vindo comigo, e em seu disfarce como menino do campo foi de grande ajuda para mim. Eu dependia dele para a comida e a roupa branca limpa. Enquanto eu estava observando Stapleton, Cartwright estava freqüentemente observando você, 4e forma que eu podia manter na mão todos os cordões.

- Eu já disse a você que os seus relatórios me chegavam rapidamente, sendo reenviados instantaneamente da Baker Street para Coombe Tracey. Eles me ajudaram muito, e especialmente aquela peça incidentalmente verdadeira da biografia dos Stapletons. Eu pude estabelecer a identidade do homem e da mulher, e saber afinal a quantas andava. O caso havia sido consideravelmente complicado pelo incidente do condenado foragido e das relações entre ele e os Barrymores. Isso também você esclareceu de forma muito eficiente, embora eu já tivesse chegado às mesmas conclusões pelas minhas próprias observações.

- Quando você me descobriu na charneca eu tinha um conhecimento completo de todo o negócio, mas não tinha um caso que pudesse ir a um júri. Mesmo a tentativa de Stapleton contra Sir Henry naquela noite que terminou com a morte do infeliz condenado não nos ajudou a provar assassinato contra o nosso homem. Parecia não haver nenhuma alternativa senão pegá-lo em flagrante, e para isso tínhamos que usar Sir Henry como isca, sozinho e aparentemente desprotegido. Fizemos isso, e ao custo de grave choque para o nosso cliente conseguimos completar o nosso caso e levar Stapleton à sua destruição. Que Sir Henry tivesse sido exposto a isso é, devo confessar, um descrédito para a minha condução do caso, mas não tínhamos nenhum meio de prever o espetáculo terrível e paralisador que o animal apresentou, nem podíamos prever a cerração que permitiu que ele irrompesse sobre nós tão inesperadamente. Tivemos sucesso em nosso objetivo a um custo que tanto o especialista como o Dr. Mortimer me asseguram ser temporário. Uma viagem longa pode permitir ao nosso amigo se recuperar não só dos seus nervos abalados, como também dos seus sentimentos feridos. Seu amor pela dama era profundo e sincero, e para ele a parte mais triste de todo esse caso negro foi ter sido enganado por ela.

- Resta apenas indicar o papel que ela desempenhou em tudo isso. Não pode haver nenhuma dúvida de que Stapleton exercia uma influência sobre ela que pode ter sido amor ou pode ter sido medo, ou muito provavelmente ambos, já que elas não são de maneira alguma emoções incompatíveis. Ela era, pelo menos, absolutamente eficaz. Por ordem dele ela concordou em passar por sua irmã, embora ele encontrasse os limites do seu poder quando procurou fazer dela o acessório direto do assassinato. Ela estava pronta para avisar Sir Henry desde que pudesse sem implicar seu marido, e tentou fazer isso várias vezes. O próprio Stapleton parece ter sido capaz de ciúmes, e quando viu o baronete fazendo a corte à dama, embora isso fizesse parte do seu próprio plano, apesar disso não pôde evitar interromper com uma explosão apaixonada que revelou a alma inflamada que os seus modos retraídos escondiam tão astutamente. Encorajando a intimidade ele certificou-se de que Sir Henry iria freqüentemente à Casa de Merripit e que teria mais cedo ou mais tarde a oportunidade que desejava. No dia do crime, no entanto, sua mulher voltou-se de repente contra ele. Ela havia sabido de alguma coisa sobre a morte do condenado, e sabia que o cão estava sendo guardado na dependência na noite em que Sir Henry ia jantar lá. Ela responsabilizou o marido pelo crime pretendido, e seguiu-se uma cena furiosa na qual ele revelou pela primeira vez que ela tinha uma rival no seu amor. A fidelidade dela transformou-se num instante num ódio amargo e ele percebeu que ela ia traí-lo. Portanto amarrou-a, para que ela não tivesse nenhuma possibilidade de avisar Sir Henry, e esperou, sem dúvida, que quando toda região atribuísse a morte do baronete à maldição da sua família, como certamente faria, ele poderia recuperar a fidelidade dela fazendo-a aceitar o fato consumado e manter silêncio sobre o que sabia. Nisso acho que de qualquer maneira ele cometeu um engano, e que, se nós não estivéssemos lá, a sorte dele estaria selada apesar disso. Uma mulher de sangue espanhol não perdoa um agravo desses tão facilmente. E agora, meu caro Watson, sem me referir aos meus apontamentos, não posso fazer um relato mais detalhado para você deste caso curioso. Não sei se alguma coisa essencial foi deixada sem explicação.

- Ele não podia ter esperado matar Sir 14enry de susto como havia feito com o velho tio com o seu cão diabólico.

- O animal era selvagem e estava meio esfomeado. Se a sua aparência não matasse sua vítima de susto, pelo menos paralisaria a resistência que ela pudesse oferecer.

- Sem dúvida. Resta apenas uma dificuldade. Se Stapleton herdasse, como poderia ele explicar o fato de ele, o herdeiro, estar vivendo escondido sob outro nome tão perto da propriedade? Como poderia ele reivindicá-la sem levantar suspeitas e perguntas?

Essa é uma dificuldade formidável, e receio que você esteja pedindo demais quando espera que eu resolva isso. O passado e o presente estão dentro do campo da minha investigação, mas o que um homem pode fazer no futuro é uma questão difícil de responder. A Sra. Stapleton ouviu o marido discutir o problema em várias ocasiões. Havia três condutas possíveis. Ele podia reivindicar a propriedade da América do Sul, estabelecer sua identidade diante das autoridades inglesas lá, e assim obter a fortuna sem jamais vir à Inglaterra; ou podia adotar um disfarce elaborado durante o curto período em que precisasse estar em Londres; ou, novamente, poderia fornecer as provas e documentos a um cúmplice, apresentando-o como herdeiro, conservando o direito a uma proporção da renda dele. Não podemos duvidar pelo que sabemos dele que ele teria encontrado algum meio de se sair da dificuldade. E agora, meu caro Watson, tivemos algumas semanas de trabalho duro, e por uma noite, acho eu, devemos voltar nossos pensamentos para coisas mais agradáveis. Tenho um camarote para Les Huguenots. Você já ouviu o De Reszkes? Posso pedir-lhe então para estar pronto em meia-hora, e podemos parar no Marcini para um pequeno jantar no caminho?

FIM

 

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Você terminou O Cão dos Baskervilles

Arthur Conan Doyle

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