O Cão dos Baskervilles
Capítulo VIII · Primeiro Relatório do Dr. Watson
Deste ponto em diante seguirei o curso dos acontecimentos transcrevendo minhas próprias cartas para Sherlock Holmes que estão diante de mim sobre a mesa.
Falta uma página, mas quanto ao mais elas estão exatamente como foram escritas e revelam os meus sentimentos e desconfianças do momento mais precisamente do que a minha memória, clara como é destes trágicos acontecimentos, pode provavelmente fazer.
Mansão Baskerville, 13 de outubro. Meu Caro Holmes. Minhas cartas e telegramas anteriores mantiveram-no bastante bem informado quanto a tudo o que tem ocorrido neste canto do mundo esquecido por Deus. Quanto mais tempo se fica aqui mais o espírito da charneca impregna a alma da gente com a sua vastidão e também o seu encanto sombrio. Uma vez que se esteja sobre o seu seio, deixa-se todos os vestígios da Inglaterra moderna para trás, mas por outro lado toma-se consciência em toda parte das casas e do trabalho do povo pré-histórico. Por todos os lados, enquanto se anda, estão as casas destas pessoas esquecidas, com seus túmulos e enormes monólitos que se supõe terem marcado seus templos. Quando se olha para suas cabanas de pedra cinzenta contra as encostas fragosas das colinas, deixa-se a própria era para trás, e se virmos um homem peludo, vestido de peles, engatinhar para fora da sua porta baixa, pondo uma flecha com ponta de sílex na corda do seu arco, acharemos que sua presença ali é mais natural do que a nossa própria. O estranho é que eles tenham vivido tão concentrados no que deve ter sido sempre um solo muito estéril. Não sou nenhum arqueólogo, mas posso imaginar que eles constituíam uma raça esbulhada e avessa às guerras que foi forçada a aceitar aquilo que nenhuma outra ocuparia.
- Tudo isso, contudo, nada tem a ver com a missão para a qual você me mandou e provavelmente será muito pouco interessante para a sua mente severamente prática. Ainda posso me lembrar da sua completa indiferença quanto a se o Sol girava em tomo da Terra ou a Terra em tomo do Sol. Permita-me, portanto, voltar aos fatos relativos a Sir Henry Baskerville.
- Se você não recebeu nenhum relatório nos últimos dias é porque até hoje não havia nada de importante a comunicar. Depois ocorreu uma circunstância muito surpreendente, que contarei a você no devido tempo. Mas, primeiro que tudo, preciso mantê-lo em contato com alguns dos outros fatores da situação.
- Um destes, em relação ao qual pouco falei, é o condenado fugido na charneca. Há agora um motivo forte para crer que ele foi embora, o que é um alívio considerável para os chefes de família desta região. Passou-se uma quinzena desde a sua fuga, durante a qual ele não foi visto e nada se ouviu falar sobre ele. Certamente é inconcebível que ele possa ter ficado na charneca durante todo esse tempo. Naturalmente, no que diz respeito ao seu esconderijo não há absolutamente nenhuma dificuldade. Qualquer uma dessas cabanas de pedra lhe proporcionaria um lugar conveniente. Mas não há nada para comer a menos que ele pegasse e matasse uma das ovelhas da charneca. Achamos, portanto, que ele foi embora, e, em conseqüência, os fazendeiros isolados dormem melhor.
- Somos quatro homens capazes nesta casa, de forma que podemos cuidar bem de nós mesmos, mas confesso que tenho tido momentos de inquietação quando penso nos Stapletons. Eles moram a quilômetros de qualquer ajuda. Há uma criada e um empregado velho, a irmã e o irmão, o último um homem muito forte. Eles ficariam impotentes nas mãos de um sujeito desesperado como esse criminoso de Notting Hill, se este conseguisse porventura entrar. Tanto Sir Henry como eu estamos preocupados com a situação deles, e sugeriu-se que Perkins, o criado, fosse dormir lá, mas Stapleton não quer ouvir falar disso.
- O fato é que o nosso amigo o baronete começa a demonstrar um interesse considerável pela nossa bela vizinha. Não é de admirar, porque o tempo pesa fortemente neste lugar solitário para um homem ativo como ele, e ela é uma mulher muito fascinante e bonita. Há algo tropical e exótico em relação a ela que forma um contraste singular com o seu irmão frio e pouco emotivo. Contudo ele também dá a idéia de chamas escondidas. Ele tem certamente uma influência muito marcante sobre ela, porque eu a vi olhar continuamente para ele enquanto falava como se estivesse procurando aprovação para o que dizia. Espero que ele seja bom para ela. Há um brilho seco nos olhos dele, e uma expressão firme nos seus lábios finos, que demonstram uma natureza positiva e possivelmente cruel. Você o achará um estudo interessante.
- Ele veio visitar Baskerville naquele primeiro dia, e na própria manhã seguinte levou nós dois para nos mostrar o ponto onde se supõe que a lenda do cruel Hugo tenha tido sua origem. Foi uma excursão de alguns quilômetros pela charneca até um lugar tão desolado que poderia ter sugerido a história. Encontramos um curto vale entre picos rochosos ásperos que leva a um espaço aberto, coberto de relva. No meio dele erguem-se duas grandes pedras, gastas e aguçadas na extremidade superior, que parecem as presas enormes, corroídas, de algum animal monstruoso. Ele correspondia em tudo com a cena da antiga tragédia. Sir Henry ficou muito interessado e perguntou a Stapleton mais de uma vez se ele acreditava realmente na possibilidade da interferência do sobrenatural nos assuntos dos homens. Ele falou em tom de brincadeira, mas era evidente que falava bastante seriamente. Stapleton foi cauteloso em suas respostas, mas foi fácil perceber que ele dizia menos do que podia, e que não expressava sua opinião completa, em consideração aos sentimentos do baronete. Ele nos contou casos semelhantes em que famílias haviam sofrido alguma influência maligna, e nos deixou com a impressão de que partilhava da opinião popular sobre a questão.
- Em nosso caminho de volta paramos para almoçar na Casa de Merripit, e foi lá que Sir Henry conheceu a Senhorita Stapleton. Desde o primeiro momento em que a viu pareceu ficar fortemente atraído por ela, e estou muito enganado se o sentimento não fosse mútuo. Ele referiu-se a ela várias vezes ao voltarmos para casa, e desde então dificilmente tem passado um dia em que não tenhamos visto algo do irmão e da irmã. Eles jantaram aqui esta noite, e há alguma combinação para nós irmos jantar com eles na próxima semana. Poder-se-ia imaginar que essa união seria muito bem-vinda para Stapleton, e apesar disso mais de uma vez surpreendi uma expressão de forte desaprovação em seu rosto quando Sir Henry estava prestando alguma atenção à sua irmã. Ele é muito ligado a ela, sem dúvida, e levaria uma vida solitária sem ela, mas poderia parecer o máximo do egoísmo se ele se interpusesse no caminho de um casamento tão brilhante para ela. Contudo estou certo de que ele não deseja que a intimidade deles se transforme em amor, e várias vezes tenho observado que ele tem se esforçado para impedi-los de ficarem tête-à-tête. A propósito, suas instruções para que eu nunca deixe Sir Henry sair sozinho se tomarão muito onerosas se um romance for acrescentado às nossas outras dificuldades. Minha popularidade logo sofreria se eu fosse cumprir suas ordens ao pé da letra.
- No outro dia, quinta-feira para ser mais exato, o Dr. Mortimer almoçou conosco. Ele tem estado escavando um túmulo em Long Down e conseguiu um crânio pré-histórico que o enche de grande alegria. Nunca houve um entusiasta tão sincero como ele! Os Stapletons chegaram depois, e o bom médico levou-nos todos para a Aléia dos Teixos, a pedido de Sir Henry, para nos mostrar exatamente como tudo aconteceu naquela noite fatal. É um passeio longo, melancólico, à Aléia dos Teixos, entre duas paredes altas de sebes aparadas, com uma faixa estreita de grama de cada lado. Na extremidade oposta há um pavilhão em ruínas. Na metade do caminho fica o portão da charneca, onde o velho cavalheiro deixou a cinza do seu charuto. É um portão branco com um trinco. Além dele fica a ampla charneca. Lembrei-me da sua teoria do caso e tentei imaginar tudo que havia ocorrido. Quando o velho parou lá viu alguma coisa vindo pela charneca, alguma coisa que o aterrorizou tanto que ele perdeu o juízo e correu até mais não poder, até morrer de puro horror e exaustão. Lá estava o longo túnel sombrio pelo qual ele fugiu. E de quê? De um cão pastor de ovelhas da charneca? Ou de um cão espectral, preto, silencioso e monstruoso? Houve uma influência humana na questão? Será que o pálido e vigilante Barrymore sabe mais do que quis contar? Tudo era obscuro e vago, mas sempre há a sombra escura do crime por trás disso.
- Conheci um outro vizinho desde que escrevi da última vez. É o Sr. Frankland, da Mansão Lafter, que mora, a uns seis quilômetros ao sul. É um homem idoso, de rosto vermelho, cabelos brancos e colérico. Sua paixão é pela lei inglesa, e ele gastou uma grande fortuna em ações judiciais. Ele luta pelo simples prazer de lutar e está igualmente pronto a tomar qualquer dos lados de uma questão, de forma que não admira que tenha achado isso um divertimento caro. Algumas vezes ele fecha uma servidão de passagem e desafia a paróquia a fazê-lo abri-la. Outras, arranca com suas próprias irmãos o portão de algum outro homem e declara que existiu ali um caminho desde tempos imemoriais, desafiando o proprietário a processá-lo por invasão. Ele conhece bastante os direitos senhoriais e comunais, e aplica o seu conhecimento algumas vezes a favor dos aldeãos de Femworthy e outras contra eles, de forma que é periodicamente carregado em triunfo ou queimado em efígie, segundo sua última sentença. Diz-se que ele tem cerca de sete processos em curso atualmente, o que provavelmente engolirá o resto da sua fortuna arrancando assim o seu ferrão e deixando-o inofensivo futuramente. Fora a lei ele parece uma pessoa bondosa, afável, e só o menciono porque você foi específico dizendo que eu devia mandar alguma descrição das pessoas que nos cercam. Ele se ocupa curiosamente agora porque, sendo astrônomo amador, tem um excelente telescópio com o qual se deita sobre o telhado da sua própria casa e vasculha a charneca o dia inteiro na esperança de vislumbrar o condenado fugitivo. Se ele limitasse suas energias a isso tudo estaria bem, mas há rumores de que ele pretende processar o Dr. Mortimer por ter aberto uma sepultura sem a autorização do parente mais próximo, porque ele desenterrou o crânio neolítico do túmulo em Long Down. Ele ajuda a impedir que nossas vidas se tomem monótonas e dá um pequeno alívio cômico onde esse é muito necessário.
- E agora, tendo-o atualizado quanto ao condenado fugitivo, os Stapletons, o Dr. Mortimer e Frankland da Mansão Lafter, deixe-me terminar com o que é mais importante e contar-lhe mais sobre os Barrymores, e especialmente sobre o acontecimento surpreendente de ontem à noite.
- Primeiro que tudo sobre o telegrama experimental, que você mandou de Londres a fim de se certificar se Barrymore estava realmente aqui. Eu já expliquei que o testemunho do agente do correio mostra que a experiência foi inútil e que não temos nenhuma prova num sentido ou no outro. Eu disse a Sir Henry como andavam as coisas, e ele, com a sua maneira positiva, fez Barrymore subir imediatamente e perguntou se ele recebera o telegrama pessoalmente. Barrymore disse que sim.
O menino entregou-o em suas próprias mãos? Perguntou Sir Henry.
- Barryrmore pareceu surpreso, e tempo.
- Não - disse ele. - Eu estava no quarto de guardados na ocasião, e minha mulher levou-o para mim lá em cima.
- Você o respondeu pessoalmente?
- Não. Eu disse à minha mulher o que responder e ela desceu para escrever.
- À noite ele voltou ao assunto por iniciativa própria.
- Não pude compreender completamente o objetivo das suas perguntas esta manhã, Sir Henry - disse ele, - Espero que elas não signifiquem que eu tenha feito alguma coisa para perder a sua confiança?
“Sir Henry teve de garantir-lhe que não era isso e pacificá-lo dando-lhe uma parte considerável do seu velho guarda roupa, por ter chegado de Londres toda a bagagem.
“A Sra. Barrymore interessa-me. Ela é uma pessoa corpulenta e maciça, muito limitada, intensamente respeitável e inclinada ao puritanismo. Você mal pode conceber uma pessoa menos emotiva. Contudo eu disse a você como, na primeira noite aqui, ouvi-a soluçando amargamente, e desde então mais de uma vez tenho observado vestígios de lágrimas em seu rosto. Alguma mágoa profunda está sempre consumindo o seu coração. Algumas vezes fico imaginando se ela tem uma lembrança de culpa que a persegue, e outras desconfio que Barrymore é um tirano doméstico. Sempre achei que havia alguma coisa singular e suspeita no caráter deste homem, mas a aventura da última noite leva todas as minhas desconfianças a um máximo.
“E apesar disso, isso pode parecer por si mesmo uma questão secundária. Você sabe que eu não tenho um sono muito profundo, e desde que estou de guarda nesta casa meus cochilos têm sido mais leves do que nunca. Na noite passada, cerca das duas da manhã, fui despertado por passos furtivos passando pelo meu quarto. Levantei-me, abri a porta e olhei para fora. Uma sombra negra, comprida, estava se arrastando pelo corredor. Ela era lançada por um homem que caminhava de mansinho pela passagem com uma vela na mão. Ele estava de calça e camisa, sem nada nos pés. Pude ver apenas a silhueta, mas sua altura me disse que era Barrymore. Ele caminhava muito devagar e circunspectamente, e havia alguma coisa indescritivelmente culposa e furtiva em toda a sua aparência.
“Eu disse a você que o corredor é interrompido pelo balcão que contorna o vestíbulo, mas que continua do lado oposto. Esperei até que ele tivesse desaparecido e depois o segui. Quando cheguei ao balcão ele havia atingido a extremidade do outro corredor, e pude ver pelo brilho da luz através de Uma porta aberta que ele havia entrado num dos quartos. Agora todos estes quartos estão sem mobília e desocupados, de forma que a expedição dele tomou-se mais misteriosa do que nunca. A luz brilhava firmemente como se ele estivesse parado imóvel. Segui furtivamente pela passagem o mais silenciosamente possível e olhei pelo canto da porta.
- Barrymore estava agachado junto à janela com a vela erguida contra o vidro. Seu perfil estava meio virado para mim, e sua fisionomia parecia rígida de expectativa enquanto olhava para a escuridão da charneca. Por alguns minutos ele ficou parado observando atentamente. Depois soltou um gemido profundo e, com um gesto impaciente, apagou a luz. Instantaneamente voltei para o meu quarto, e pouco depois vieram os passos furtivos passando mais uma vez em sua viagem de volta. Muito tempo depois, quando eu havia caído num sono leve, ouvi uma chave girar em alguma parte, numa fechadura, mas não posso dizer de onde vinha o som. O que tudo isso significa não posso imaginar, mas há algum negócio secreto acontecendo nesta casa de sombras ao fundo do qual chegaremos mais cedo ou mais tarde. Não o incomodo com as minhas teorias, porque você me pediu para fornecer-lhe apenas os fatos. Tive uma longa conversa com Sir Henry esta manhã, e fizemos um plano de campanha com base nas minhas observações de ontem à noite. Não falarei dele agora, mas ele pode tomar o meu próximo relatório uma leitura interessante.
Capítulo IX
Segundo Relatório do Dr. Watson
Mansão Baskerville, 15 de outubro
- Meu caro Holmes, se fui obrigado a deixá-lo sem muitas noitícias durante os primeiros dias da minha missão, você deve reconhecer que estou recuperando o tempo perdido, e que os acontecimentos estão agora se acumulando muito e depressa sobre nós. Em meu último relatório terminei minha nota principal com Barrymore na janela, e agora já tenho uma previsão que, a menos que eu esteja muito enganado, irá surpreendê-lo consideravelmente. As coisas tomaram um rumo que eu não poderia ter previsto. Em alguns sentidos elas se tomaram muito mais claras nas últimas quarenta e oito horas, e em outros, se tomaram mais complicadas. Mas vou contar-lhe tudo e você julgará por si mesmo.
- Antes do café, na manhã seguinte à minha aventura, segui pelo corredor e examinei o quarto em que Barrymore tinha estado na noite anterior. A janela para oeste pela qual ele havia olhado tão intensamente tem, notei, uma peculiaridade acima de todas as outras janelas da casa, ela domina a vista mais próxima da charneca. Há uma abertura entre duas árvores que permite a alguém deste ponto de observação - olhar diretamente para ela, enquanto que de todas as outras janelas só se pode vislumbrar uma visão distante. Segue, portanto, que Barrymore, já que só esta janela serviria para o seu propósito, devia estar procurando alguma coisa ou alguém na charneca. A noite. estava muito escura, de forma que mal posso imaginar como ele podia ter esperado ver alguém. Ocorreu-me que era possível estar ocorrendo alguma intriga amorosa. Isso teria explicado os seus movimentos furtivos e também a inquietação da sua mulher. O homem é um sujeito bonito, muito bem equipado para roubar o coração de uma moça do campo, de forma que essa teoria parecia ter algo a apoiá-la. Aquela porta se abrindo que eu havia ouvido após ter voltado para o meu quarto podia significar que ele havia saído para ter algum encontro clandestino. Portanto discuti comigo mesmo de manhã, e conto-lhe a direção das minhas suspeitas, por mais que o resultado possa ter mostrado que elas eram infundadas.
- Mas qualquer que pudesse ser a verdadeira explicação dos movimentos de Barrymore, achei que a responsabilidade de guardá-la para mim até poder explicá-la era mais do que eu podia suportar. Tive uma entrevista com o baronete no seu escritório após o café, e contei-lhe tudo o que havia visto. Ele ficou menos surpreso do que eu havia esperado.
- Eu sabia que Barrymore andava por aí de noite, e tive vontade de falar com ele a respeito - disse ele. - Ouvi seus passos duas ou três vezes na passagem, indo e vindo, mais ou menos na hora que você falou.
- Talvez então cada noite ele faça uma visita àquela janela particular - sugeri.
Talvez faça. Se assim for, poderemos segui-lo e ver o que procura. Fico imaginando o que o seu amigo Holmes faria, se estivesse aqui.
- Creio que ele faria exatamente o que o senhor sugere agora - disse eu. - Ele seguiria Barrymore e veria o que ele faz.
- Então vamos fazer isso juntos. Mas ele certamente nos ouvirá.
- O homem é bastante surdo, e de qualquer maneira devemos arriscar. Vamos ficar sentados em meu quarto esta noite e esperar até ele passar. - Sir Henry esfregou as mãos com prazer, e era evidente que ele saudava a aventura como um alívio para a sua vida um tanto monótona na charneca.
- O baronete havia se comunicado com o arquiteto que preparara os planos para Sir Charles, e com um empreiteiro de Londres, de forma que podemos esperar grandes mudanças a começarem aqui em breve. Têm havido decoradores e vendedores de móveis de Plymouth, e é evidente que o nosso amigo tem grandes idéias e meios para não poupar nenhum sacrifício ou despesa para restaurar a grandeza da sua família. Quando a casa estiver reformada e mobiliada de novo, tudo que ele precisará será uma esposa para torná-la completa. Cá entre nós, há sinais bastante claros de que isso não se fará esperar se a dama estiver disposta, porque raramente vi um homem mais babão com uma mulher do que ele com a nossa linda vizinha, a Senhorita Stapleton. E contudo o curso do verdadeiro amor positivamente não corre tão suavemente como se poderia esperar nas circunstâncias. Hoje, por exemplo, sua superfície foi perturbada por uma agitação muito inesperada que causou ao nosso amigo considerável perplexidade e aborrecimento.
- Após a conversa que mencionei sobre Barrymore, Sir Henry pôs o chapéu e preparou-se para sair. Naturalmente fiz o mesmo.
- O quê? Você vem, Watson? - perguntou ele olhando para mim de uma forma curiosa.
- Isso depende de se você vai para a charneca ?
- Sim, vou.
- Bem, você sabe quais são as minhas instruções. Lamento me intrometer, mas você ouviu como Holmes insistiu seriamente para eu não deixá-lo, e especialmente para você não ir sozinho para a charneca.
- Sir Henry pôs a mão sobre o meu ombro com um sorriso agradável.
- Meu caro amigo - disse ele - Holmes, com toda a sua sabedoria, não previu algumas coisas que têm acontecido desde que estou na charneca. Você me compreende? Estou certo de que você é o último homem do mundo que desejaria ser um desmancha-prazeres. Preciso sair sozinho.
- Isso me colocou numa posição muito esquisita. Eu não sabia o que dizer ou fazer, e antes que eu decidisse ele pegou sua bengala e foi embora.
“Mas quando vim a pensar no assunto, minha consciência me reprovou amargamente por ter sob qualquer pretexto permitido que eu o perdesse de vista. Imaginei quais seriam os meus sentimentos se tivesse que voltar e confessar a você que havia ocorrido uma infelicidade devido ao meu pouco caso pelas suas instruções. Afirmo-lhe que minhas faces coraram à simples idéia. Mesmo agora podia não ser tarde demais para alcançá-lo, portanto parti imediatamente na direção da Casa de Merripit.
“Apressei-me pela estrada na minha velocidade máxima sem ver sinal de Sir Henry até chegar ao ponto onde o caminho da charneca se bifurca. Lá, receando talvez ter vindo afinal de contas na direção errada, subi numa colina da, qual pudesse dominar o terreno, a mesma colina cortada pela pedreira escura. De lá o vi imediatamente. Ele estava no caminho da charneca, a uns quatrocentos metros de distância, e ao seu lado havia urna dama que só podia ser a Senhorita Stapleton. Era evidente que já havia um entendimento entre eles e que o encontro fora marcado. Eles caminhavam lentamente, numa conversa profunda, e eu a vi fazendo pequenos movimentos rápidos com as mãos como se estivesse sendo muito séria no que estava dizendo, enquanto ele ouvia atentamente e uma ou duas vezes sacudiu a cabeça discordando fortemente. Eu estava parado entre as rochas observando-os, muito confuso quanto ao que devia fazer em seguida. Segui-los e interromper a conversa íntima deles pareceu-me um ultraje, e apesar disso o meu dever era claramente nunca perdê-lo de vista um instante sequer. Agir como espião contra um amigo era uma tarefa odiosa. No entanto, não pude ver nenhum recurso melhor do que observá-lo da colina e limpar minha consciência confessando a ele depois o que havia feito. É verdade que se qualquer perigo súbito o tivesse ameaçado eu estava longe demais para ajudá-lo, e apesar disso estou certo de que você concordará comigo que a posição era muito difícil, e que não havia mais nada que eu pudesse fazer.
- O nosso amigo, Sir Henry, e a dama pararam no caminho e ficaram profundamente absorvidos em sua conversa quando percebi de repente que não era a única testemunha da entrevista deles. Um farrapo verde flutuando no ar atraiu minha atenção, e outro olhar me mostrou que este era carregado numa vara por um homem que estava se movendo no meio do terreno irregular. Era Stapleton com a sua rede de borboletas. Ele estava muito mais perto do par do que eu, e pareceu estar indo na direção deles. Neste instante Sir Henry puxou a Senhorita Stapleton para o seu lado. Seu braço envolveu-a, mas pareceu-me que ela estava fazendo força para se afastar dele com o rosto virado. Ele abaixou a cabeça para a dela, e ela ergueu a mão como se estivesse protestando. No momento seguinte os vi se separarem de repente e se virarem apressados. Stapleton era a causa da interrupção. Ele estava correndo como um louco para eles, com a sua rede absurda pendurada atrás. Gesticulava e quase dançou de excitação diante dos amantes. O que a cena significava não pude imaginar, mas pareceu-me que Stapleton estava descompondo Sir Henry, que ofereceu explicações que se tornaram mais irritadas quando o outro se recusou a aceitá-las. A dama estava parada ao lado em silêncio orgulhoso. Finalmente Stapleton girou nos calcanhares e fez um sinal chamando a sua irmã de maneira peremptória que, após um olhar hesitante para Sir Henry., afastou-se ao lado do seu irmão. Os gestos irritados do naturalista mostraram que a dama estava incluída em sua indignação. O baronete ficou parado por um minuto olhando para eles, e depois caminhou lentamente de volta pelo caminho pelo qual havia vindo, com a cabeça pendente, o próprio quadro do' abatimento.
- O que tudo isso significava eu não podia imaginar, mas estava profundamente envergonhado de ter testemunhado uma cena tão íntima sem o conhecimento do meu amigo. Desci a colina correndo, portanto, e encontrei-me com o baronete embaixo. Seu rosto estava rubro de cólera e sua fronte enrugada, como alguém que está sem saber o que fazer.
- Olá, Watson! De onde você surgiu? - disse ele.
Você não quer dizer que veio atrás de mim apesar de tudo?
- Expliquei tudo a ele: como eu-tinha achado impossível ficar atrás, como eu o havia seguido, e como havia testemunhado tudo o que havia ocorrido. Por um instante seus olhos arderam em chamas para mim, e ele irrompeu afinal num riso positivamente triste.
- Podia-se pensar que o meio dessa pradaria fosse razoavelmente seguro para um homem ter privacidade - disse ele - mas, com os diabos, toda a região parece ter saído para me ver fazer a corte, e quanto a isso uma corte lamentável! Onde você conseguiu um lugar?
- Eu estava naquela colina.
- Numa fila bem atrás, hein? Mas o irmão dela estava bem na frente. Você o viu cair sobre nós?
- Sim, vi.
- Já lhe ocorreu alguma vez o fato dele ser louco, esse irmão dela?
- Não posso dizer que tenha ocorrido.
- Ouso dizer que não. Sempre o considerei bastante são até hoje, mas pode acreditar em mim que ele ou eu devíamos estar numa camisa-de-força. O que é que há comigo, afinal de contas? Você viveu perto de mim por algumas semanas, Watson. Diga-me francamente, agora! Há alguma coisa que me impeça de ser um bom marido para uma mulher que eu ame?
- Eu diria que não.
- Ele não pode objetar quanto à minha posição na vida, portanto deve ser de mim mesmo que ele tem birra. O que tem ele contra mim? Que eu saiba nunca magoei nenhum homem ou mulher na vida. E apesar disso ele mal me deixaria tocar na ponta dos dedos dela.
- Ele disse isso?
- Isso e muito mais. Vou lhe contar, Watson. Eu só a conheço há estas poucas semanas, mas desde o começo senti que ela era feita para mim, e ela, também, fica feliz quando está comigo, e isso eu juro. Há uma luz nos olhos de uma mulher que fala mais alto do que as palavras. Mas ele nunca nos deixa ficar juntos, e foi só hoje que vi, pela primeira vez, uma possibilidade de trocar algumas palavras com ela sozinho. Ela estava satisfeita de se encontrar comigo, mas quando se encontrou, não era de amor que ela falaria, e ela não me deixaria falar disso também se pudesse ter impedido. Ela ficou repetindo que este era um lugar perigoso, e que ela nunca seria feliz até que eu o deixasse. Eu disse a ela que desde que a vira não estava com nenhuma pressa em deixá-lo, e que se ela quisesse realmente que eu fosse, a única maneira de conseguir isso seria ela indo comigo. Com isso ofereci em outras tantas palavras para casar-me com ela, mas antes que ela pudesse responder lá veio esse irmão dela, correndo para nós com a cara de louco. Ele estava simplesmente branco de raiva, e aqueles olhos claros dele estavam incendiados de fúria. O que estava eu fazendo com a dama? Como eu me atrevia a oferecer a ela atenções que lhe eram desagradavéis? Pensava eu que por ser um baronete podia fazer o que quisesse? Se ele não fosse irmão dela eu saberia melhor como responder a ele. Seja como for eu disse que os meus sentimentos para com sua irmã eram tais que eu não estava envergonhado, e que esperava que ela pudesse me honrar tomando-se minha esposa. Isso não pareceu melhorar as coisas, assim perdi as estribeiras; também, e respondi-lhe mais acaloradamente do que devia talvez, considerando que ela estava ao lado. Portanto tudo terminou com ele indo embora com ela, como você viu, e aqui estou, um homem tão confuso como qualquer outro neste condado. Diga-me apenas o que tudo isso significa, Watson, e ficarei lhe devendo mais do que jamais posso esperar pagar-lhe.
- Tentei uma ou duas explicações mas, realmente, eu próprio estava completamente confuso. O título do nosso amigo, sua idade, sua fortuna, seu caráter e sua aparência estão todos a seu favor, e não sei de nada contra ele, a menos que seja essa sorte tenebrosa que pesa sobre sua família. Que as investidas dele fossem rejeitadas tão bruscamente sem qualquer referência aos desejos da própria dama, e que ela aceitasse a situação sem protestos, é muito surpreendente. Contudo, nossas conjeturas foram postas de lado por uma visita do próprio Stapleton naquela mesma tarde. Ele tinha vindo para oferecer desculpas por sua grosseria da manhã, e após uma longa entrevista particular com Sir Henry em seu escritório, a conclusão da conversa deles foi que o rompimento de relações estava completamente sanado, e que devíamos jantar na Casa de Merripit na próxima sexta-feira como prova disso.
- Eu não digo que ele não seja louco - disse Sir Henry. - Eu posso esquecer o seu olhar quando correu para mim esta manhã, mas devo conceder que nenhum homem podia pedir desculpas mais graciosamente do que ele.
- Ele deu alguma explicação para a sua conduta?
- Sua irmã é tudo em sua vida, diz ele. Isso é bastante natural, e alegro-me de ele compreender o valor dela. Eles sempre estiveram juntos, e segundo o que disse ele tem sido um homem muito solitário tendo apenas ela como companhia, de forma que a idéia de perdê-la foi realmente terrível para ele. Ele não havia percebido, disse ele, que eu estava me tomando ligado a ela, mas quando viu com os seus próprios olhos que assim era realmente, e que ela podia ser levada para longe dele, isso chocou-o de tal maneira que por algum tempo não foi responsável pelo que disse ou fez. Ele lamentava muito tudo o que se passara, e reconhecia como era tolice e egoísmo imaginar que podia conservar uma mulher bonita como a sua irmã para si mesmo por toda a vida. Se ela tivesse que deixá-lo ele preferia que fosse para um vizinho como eu do que para qualquer outro. Mas de qualquer maneira isso era um golpe para ele, e levaria algum tempo antes de ele poder se preparar para enfrentá-lo. Ele retiraria toda a oposição de sua parte se eu prometesse deixar as coisas como estavam por três meses e me contentasse cultivando a amizade da dama sem exigir o seu amor. Isso eu prometi, e assim está a questão.
- Portanto aí está um dos nossos pequenos mistérios esclarecido. É uma coisa que chegou ao fundo em algum lugar deste pântano no qual estamos nos debatendo. Sabemos agora por que Stapleton considerava com hostilidade o pretendente à mão da sua irmã, mesmo quando esse pretendente era tão aceitável como Sir Henry. E agora passo para outro fio que tirei para fora da meada embaraçada, o mistério dos soluços durante a noite, do rosto manchado de lágrimas da Sra. Barrymore, da viagem secreta do mordomo até a janela de treliça a oeste. Felicite-me, meu caro Holmes, e diga-me que não o desapontei como agente, que você não se arrepende da confiança que demonstrou ter em mim quando me mandou cá para o sul. Todas essas coisas foram totalmente esclarecidas pelo trabalho de uma noite.
- Eu disse „pelo trabalho de uma noite' mas, na verdade, foi pelo trabalho de duas noites, porque na primeira não conseguimos nada. Eu fiquei sentado com Sir Henry em seu quarto até quase três horas da manhã, mas não ouvimos nenhum ruído de qualquer espécie exceto o do carilhão no andar de cima. Foi uma vigília muito melancólica, e terminou com cada um de nós dormindo em suas cadeiras. Felizmente não ficamos desencorajados, e resolvemos tentar outra vez. Na noite seguinte diminuímos a luz da lâmpada e ficamos sentados fumando cigarros, sem fazer o menor ruído. Foi incrível como as horas se arrastaram lentamente, e apesar disso fomos ajudados durante elas pelo mesmo tipo de interesse paciente que o caçador deve sentir ao vigiar a armadilha na qual espera que a caça possa cair. Uma badalada, duas, e quase havíamos desistido pela segunda vez, desesperados, quando num instante nós dois nos endireitamos como uma flecha em nossas cadeiras, com todos os nossos sentidos cansados vivamente alertados mais uma vez. Havíamos ouvido o estalido de um passo no corredor.
- Ouvimos ele passar por nós muito furtivamente até desaparecer à distância. Depois o baronete abriu sua porta devagar e partimos em perseguição. O nosso homem já havia contornado a galeria, e o corredor estava todo escuro. Seguimos em frente de mansinho até chegarmos na outra ala. Chegamos bem a tempo de vislumbrar um vulto alto, de barba preta, com os ombros curvos, enquanto este seguia pé ante pé pelo corredor. Depois ele passou pela mesma porta que antes, e a luz da vela emoldurou-a na escuridão e lançou um único raio amarelo através do corredor sombrio. Seguimos furtivamente em direção a ele, experimentando cada tábua do soalho antes de nos atrevermos a pôr todo o nosso peso sobre ela. Havíamos tomado a precaução de deixar nossas botas atrás mas, mesmo assim, as velhas tábuas gemeram e estalaram sob os nossos passos. Algumas vezes parecia impossível ele deixar de ouvir a nossa aproximação. Contudo, felizmente o homem é bastante surdo, e estava inteiramente absorvido com o que estava fazendo. Quando finalmente chegamos à porta e olhamos por ela vimos que ele estava agachado junto à janela, com a vela na mão, o rosto branco e atento comprimido contra a vidraça, exatamente como eu o havia visto duas noites antes.
- Não tínhamos combinado nenhum plano de campanha, mas o baronete é um homem para quem a maneira mais direta é sempre a mais natural. Ele entrou no quarto, e ao fazer isso
Barrymore saltou da janela com um silvo agudo da respiração e ficou de pé, lívido e tremendo, diante de nós. Seus olhos escuros, brilhando na máscara branca do seu rosto, estavam cheios de horror e espanto ao olharem fixamente de Sir Henry para mim.
- O que você está fazendo aqui, Barrymore?
- Nada, senhor. - Sua agitação era tão grande que ele mal podia falar, e as sombras saltavam para cima e para baixo com o tremor da sua vela. - Era a janela, senhor. Eu revisto à noite para ver se todas as janelas estão bem fechadas.
- No segundo andar?
- Sim, senhor, todas as janelas.
- Olhe aqui, Barrymore - disse Sir Henry severamente. - Nós decidimos extrair a verdade de você, portanto evitará problemas para você contá-la antes cedo do que tarde. Vamos, agora! Nada de mentiras! O que você estava fazendo nessa janela?
“O sujeito olhou para nós, impotente, o torceu as mãos como alguém na última extremidade da dúvida e da aflição.
“- Eu não estava fazendo nada de errado, senhor. Estava segurando uma vela contra a janela.
“- E por que você estava segurando uma vela contra a janela?
“- Não me pergunte, Sir Henry, não me pergunte! Dou-lhe minha palavra, senhor, que o segredo não me pertence, e que não posso contá-lo. Se ele não dissesse respeito a ninguém senão à mim mesmo eu não tentaria escondê-lo do senhor.
“Uma idéia súbita ocorreu-me, e tirei a vela da mão trêmula do mordomo.
“- Ele deve ter estado segurando-a como um sinal disse eu. - Vamos ver se há alguma resposta. - Ergui-a como ele tinha feito e fiquei olhando para a escuridão da noite lá fora. Pude perceber vagamente a massa negra das árvores e a extensão mais clara da charneca, porque a luz estava atrás das nuvens. E depois dei um grito de regozijo, porque uma cabeça minúscula de alfinete de luz amarela havia transfixado subitamente o véu escuro, e brilhava firmemente no centro do quadrado negro emoldurado pela janela.
- Lá está ela! - exclamei.
- Não, não, senhor, isso não é nada, absolutamente nada! - interrompeu o mordomo. - Garanto-lhe, senhor...
“- Mexa a sua vela de um lado para o outro, Watson! - exclamou o baronete. - Viu, a outra também se move! Agora, seu patife, você nega que isso seja um sinal? Fale, vamos! Quem é o seu cúmplice lá fora, e que conspiração é essa que vem ocorrendo?
O rosto do homem tomou-se abertamente desafiador.
- Isso é assunto meu, e não seu. Não direi.
- Então você está despedido já.
- Muito bem, senhor. Se tenho que sair, sairei.
- E você sai desacreditado. Com os diabos, você devia ter vergonha de si mesmo. Sua família viveu com a minha por mais de quatrocentos anos sob este teto, e cá encontro você metido em alguma trama misteriosa contra mim.
- Não, não, senhor! Não, não contra o senhor!
Era uma voz de mulher, e a Sra. Barrymore, mais pálida e mais horrorizada do que o marido, estava parada na porta. Seu vulto volumoso num xale e saia seria cômico se não fosse a intensidade da emoção no seu rosto.
- Temos que ir, Eliza. Isto é o fim de tudo. Você pode arrumar nossas coisas - disse o mordomo.
- Olhe, John, John, levei você a isto! A culpa é minha, Sir Henry, toda minha. Ele não fez nada exceto para mim, e porque eu pedi.
- Fale, então! O que significa isso?
- Meu infeliz irmão está morrendo de fome na charneca. Não podemos deixá-lo morrer em nossos próprios portões. A luz é um sinal para ele de que a comida está pronta, e a luz dele lá fora é para mostrar o local para onde levá-la.
- Então o seu irmão é...
- O condenado foragido, senhor, Selden, o criminoso.
- Essa é a verdade, senhor - disse Barrymore.
- Eu disse que o segredo não me pertencia e que não podia contá-lo ao senhor. Mas agora o senhor o ouviu, e verá que se há uma trama ela não é contra o senhor.
- Esta, então, era a explicação das expedições furtivas à noite e da luz na janela. Sir Henry e eu ficamos ambos olhando para a mulher espantados. Seria possível que essa pessoa impassivelmente respeitável fosse do mesmo sangue que um dos criminosos mais notórios do país?
- Sim, senhor, meu nome era Selden, e ele é meu irmão caçula. Nós fizemos demais a vontade dele quando ele era menino, e cedemos a ele em tudo até ele vir a pensar que o mundo fora feito para o prazer dele, e que podia fazer o que quisesse nele. Depois, quando ele cresceu, se meteu com más companhias, e ficou com o diabo no corpo até partir o coração da minha mãe e arrastar o nosso nome na sarjeta. De crime em crime ele afundou cada vez mais, até que apenas a misericórdia de Deus livrou-o do cadafalso; mas para mim, senhor, ele sempre foi o garotinho de cabelos anelados que criei e com quem brinquei, como uma irmã mais velha faria. Foi por isso que ele fugiu da prisão, senhor. Ele sabia que eu estava aqui e que não podia recusar-me a ajudá-lo. Quando ele se arrastou até aqui certa noite, cansado e esfomeado, com os guardas rentes nos seus calcanhares, o que podíamos fazer? Nós o recebemos, alimentamos e cuidamos dele. Depois o senhor voltou, e meu irmão achou que ele ficaria mais seguro na charneca do que em qualquer outra parte até passar o clamor público, portanto ficou escondido lá. Mas de duas em duas noites nós nos certificávamos de que ele ainda estava lá pondo uma luz na janela, e se houvesse resposta meu marido levava um pouco de pão e carne para ele. Cada dia esperávamos que ele tivesse ido embora, mas enquanto ele estivesse lá não podíamos abandoná-lo. Essa é toda a verdade, já que sou uma mulher cristã, honesta, e o senhor verá que se há culpa na questão ela não está com o meu marido, mas comigo, por quem ele fez tudo isso.
- As palavras da mulher vieram com uma seriedade intensa e impregnadas de convicção.
- Isto é verdade, Banymore?
- Sim, Sir Henry. Cada palavra.
- Bem, não posso culpá-lo por apoiar sua própria mulher. Esqueça o que eu disse. Vão para o seu quarto, vocês dois, e falaremos mais sobre esse assunto pela manhã.
- Quando eles haviam ido embora olhamos outra vez para fora pela janela. Sir Henry a havia aberto, e o vento frio da noite bateu em nossos rostos. Ao longe na distância negra ainda brilhava aquele ponto minúsculo de luz amarela.
- Fico imaginando como ele se atreve - disse Sir Henry.
- Ela deve estar colocada de tal maneira que só possa ser vista daqui.
- Com toda a probabilidade. A que distância você acha que está?
- Longe, junto ao Pico Rochoso da Rachadura, acho eu.
- A não mais de um e meio a três quilômetros de distância.
- Mal chega a tanto.
- Bem, não pode ser longe se Barrymore tivesse que levar a comida até lá. E ele está esperando, esse vilão, ao lado daquela vela. Com os diabos, Watson, eu vou sair para pegar esse homem!
- A mesma idéia havia me ocorrido. Não era como se os Barrymores tivessem confiado em nós. O segredo deles fora confessado à força. O homem era um perigo para a comunidade, um patife consumado para quem não havia nem piedade nem desculpa. Estávamos apenas cumprindo o nosso dever em aproveitar essa oportunidade de pô-lo de volta onde não pudesse fazer mal. Com a sua natureza brutal e violenta, outros teriam que pagar o preço se lavássemos nossas mãos. Qualquer noite, por exemplo, nossos vizinhos os Stapletons podiam ser atacados por ele, e pode ter sido a lembrança disso que tomou Sir Henry tão entusiasmado pela aventura.
- Eu também vou - disse eu.
- Então pegue o seu revólver e calce suas botas. Quanto mais cedo partirmos melhor, já que o sujeito pode apagar sua luz e ir embora.
- Em cinco minutos estávamos do lado de fora da porta, começando a nossa expedição. Apressamo-nos através dos arbustos escuros, cercados pelo gemido monótono do vento de outono e o farfalhar das folhas que caíam. O ar da noite estava pesado, com cheiro de umidade e podridão. De vez em quando a lua espreitava para fora das nuvens por um instante, mas estas estavam se movendo sobre a face do céu, e exatamente quando saímos na charneca uma chuva fina começou a cair. A luz ainda brilhava firmemente adiante.
- Você está armado? - perguntei.
- Tenho um cabo de chicote de caça.
- Temos de nos aproximar dele rapidamente, porque diz-se que ele é um sujeito desesperado. Devemos pegá-lo de surpresa e tê-lo à nossa mercê antes de ele poder resistir.
“- Watson - disse o baronete -, o que Holmes diria a isto? E quanto à hora da escuridão em que o poder do mal é exaltado?
“Corno em resposta às suas palavras ergueu-se de repente da vasta sombra da charneca aquele estranho grito que eu já havia ouvido nas margens do grande Pântano de Grimpen. Ele veio com o vento através do silêncio da noite, um murmúrio longo e profundo, depois um uivo crescente e em seguida o gemido triste com o qual morreu. Ele repetiu-se várias vezes, com todo o ar pulsando com ele, estridente, selvagem e ameaçador. O baronete segurou-me pela manga e seu rosto reluzia, branco, através da escuridão.
- Meu Deus, o que é isso, Watson?
- Não sei. É o som que eles têm na charneca. Eu o ouvi uma vez antes.
“Ele morreu, e um silêncio absoluto fechou-se sobre nós. Ficamos parados ouvindo atentamente, mas nada veio.
“- Watson - disse o baronete.
“Meu sangue gelou nas veias, porque houve uma pausa em sua voz que revelou o horror súbito que havia se apoderado dele.
- Como eles chamam esse som? - perguntou ele.
- Quem?
- Os moradores da região?
- Oh, eles são pessoas ignorantes. Por que você deve se importar como eles o chamam?
- Diga-me, Watson. O que dizem dele?
“Eu hesitei mas não pude fugir à pergunta.
“- Eles dizem que é o grito do Cão dos Baskervilles.
“Ele gemeu e ficou em silêncio por alguns instantes.
- Era um cão - disse ele por fim - mas parecia vir de quilômetros de distância, lá de longe, acho eu.
- Era difícil dizer de onde vinha.
- Ele aumentava e diminuía com o vento. Não é essa a direção do grande Pântano de Grimpen?
- Sim, é.
- Bem, foi de lá. Venha agora, Watson, você não acha que era o grito de um cão? Não sou criança. Você não precisa ter medo de dizer a verdade.
“- Staplon estava comigo quando o ouvi da última vez. Ele disse que podia ser o chamado de uma ave estranha. Não, não, era um cão. Meu Deus, será que há alguma verdade em todas essas histórias? Será possível que eu esteja realmente em perigo por uma causa tão obscura? Você não acredita nisso, acredita, Watson?
- Não, não.
- E contudo uma coisa é rir disso em Londres, e outra ficar parado aqui fora na escuridão da charneca e ouvir um grito desses. E meu tio! Havia a pegada do cão ao seu lado onde ele estava caído. Tudo se encaixa. Não acho que eu seja um covarde, Watson, mas esse som pareceu congelar meu próprio sangue. Sinta a minha mão!
“Estava tão fria como um bloco de mármore.
“- Você estará bem amanhã.
- Acho que não tirarei esse grito da minha cabeça. O que você aconselha que façamos agora?
- Vamos voltar?
- Não, com os diabos; saímos para pegar o nosso homem e faremos isso. Nós atrás do condenado, e um cão do inferno, muito provavelmente, atrás de nós. Venha! Levaremos isso a cabo mesmo que todos os demônios do inferno estejam soltos na charneca.
- Cambaleamos lentamente pela escuridão, com o vulto negro das colinas escarpadas à nossa volta e o pontinho amarelo de luz aceso firmemente adiante. Não há nada tão ilusório como a distância de uma luz numa noite escura como breu, e algumas vezes o brilho parecia estar longe sobre o horizonte e outras a alguns passos de nós. Mas finalmente pudemos ver de onde ele vinha, e então ficamos sabendo que estávamos muito perto. Uma vela gotejante estava enfiada numa fenda das rochas que a flanqueavam de cada lado para manter o vento longe dela, e também para impedir que fosse vista, salvo na direção da Mansão Baskerville. Um matacão de granito escondeu a nossa aproximação, e agachados por trás dele olhamos por cima para o sinal luminoso. Era estranho ver essa vela isolada queimando aqui no meio da charneca, sem nenhum sinal de vida perto dela, apenas a chama isolada, reta, amarela e o brilho da pedra de cada lado dela.
- O que faremos agora? - cochichou Sir Henry.
- Espere aqui. Ele deve estar perto dessa luz. Vamos ver se podemos vê-lo de relance.
- Malas palavras saíram da minha boca quando ambos o vimos. Sobre as rochas, na fenda em que a vela queimava, projetava-se um rosto amarelo, malvado, um rosto terrível de animal, todo enrugado e marcado de paixões vis. Sujo de lama, com uma barba eriçada e cabelos emaranhados pendentes, bem podia ter pertencido a um daqueles velhos selvagens que habitavam as tocas das encostas das colinas. A luz embaixo dele refletia-se em seus olhos pequenos, astutos, que olhavam ferozmente para a direita e para a esquerda através da escuridão, como um animal manhoso e selvagem que ouviu os passos dos caçadores.
- Alguma coisa evidentemente havia despertado suas suspeitas. Pode ser que Barrymore tivesse algum sinal particular que tivesse deixado de dar, ou o sujeito podia ter algum outro motivo para achar que nem tudo estava bem, mas pude perceber os seus receios no seu rosto malvado. A qualquer instante ele podia apagar a luz de repente e desaparecer na escuridão.
Portanto, saltei para a frente, e Sir Henry fez o mesmo. No mesmo momento o condenado gritou uma praga para nós e atirou uma pedra que se espatifou contra o matacão que havia nos abrigado. Vi de relance seu vulto baixo, agachado, de constituição forte quando ficou de pé num pulo e virou-se para fugir. No mesmo momento por um feliz acaso a luz irrompeu das nuvens. Avançamos pelo alto da colina, e lá estava o nosso homem descendo a grande velocidade pelo outro lado, saltando sobre as pedras em seu caminho, com a agilidade de um cabrito montês. Um tiro feliz de grande alcance do meu revólver podia tê-lo estropiado, mas eu o havia trazido apenas para me defender se fosse atacado, e não para atirar num homem desarmado que estava fugindo.
- Éramos ambos corredores velozes e razoavelmente bem treinados mas logo vimos que não tínhamos nenhuma possibilidade de alcançá-lo. Vimo-lo por muito tempo ao luar até ele se transformar apenas num pontinho pequeno, correndo rapidamente entre os matacões na encosta de uma colina distante. Corremos a mais não poder até ficarmos completamente sem fôlego, mas a distância entre nós crescia cada vez mais. Finalmente paramos e nos sentamos ofegantes sobre duas rochas, enquanto o víamos desaparecendo na distância.
- E foi nesse momento que ocorreu uma coisa muito estranha e inesperada. Havíamos nos levantado de nossas rochas e estávamos nos virando para ir para casa, tendo abandonado a nossa perseguição inútil. A lua estava baixa à direita e o pico irregular de um monte de granito erguia-se contra a curva inferior do seu disco prateado. Lá, delineada, tão preta como uma estátua de ébano naquele pano de fundo brilhante, vi o vulto de um homem sobre o pico rochoso. Não pense que era uma ilusão, Holmes. Afirmo-lhe que nunca em minha vida vi nada mais claramente. Até onde posso julgar, o vulto era de um homem alto e magro. Estava parado com as pernas um pouco afastadas, os braços cruzados, a cabeça inclinada, como se estivesse meditando sobre aquela vastidão enorme de turfa e granito que se estendia diante dele. Ele podia ser o próprio espírito daquele lugar terrível. Não era o condenado. Esse homem estava longe do lugar onde o último havia desaparecido. Além disso, era um homem muito mais alto. Com um grito de surpresa apontei-o para o baronete, mas no instante durante o qual eu me virara para segurar o seu braço o homem desapareceu. Lá estava o pico agudo de granito ainda cortando a beirada inferior da lua, mas o seu cume não revelava nenhum traço daquele vulto silencioso e imóvel.
- Eu quis ir naquela direção e revistar o pico, mas ele estava a alguma distância. Os nervos do baronete ainda estavam tremendo daquele grito, que relembrava a história obscura da sua família, e ele não estava disposto a novas aventuras. Ele não havia visto este homem solitário sobre o pico rochoso e não pôde sentir a excitação que essa estranha presença em sua atitude dominadora havia provocado em mim.
- Um guarda, sem dúvida - disse ele. - A charneca está cheia deles desde que este sujeito fugiu.
- Bem, talvez a explicação dele possa ser a verdadeira, mas eu gostaria de ter alguma outra prova disso. Hoje pretendemos comunicar ao pessoal de Princetown onde eles devem procurar seu homem desaparecido, mas é duro não termos realmente tido o triunfo de trazê-lo de volta como nosso prisioneiro. Essas são as aventuras de ontem à noite, e você tem de reconhecer, meu caro Holmes, que me saí muito bem na questão do relatório. Muita coisa do que conto a você é sem dúvida bastante irrelevante, mas acho ainda que é melhor comunicar-lhe todos os fatos e deixá-lo escolher por si mesmo aqueles que sejam mais úteis para você, ajudando-o em suas conclusões. Estamos certamente fazendo algum progresso. No que diz respeito aos Barrymores, descobrimos o motivo dos seus atos, e isso esclareceu em muito a situação. Mas a charneca com os seus mistérios e os seus estranhos habitantes continua tão inescrutável como sempre. Talvez em meu próximo eu possa ser capaz de lançar alguma luz sobre isto, também. Melhor do que tudo seria se você pudesse vir até aqui. De qualquer maneira você terá notícias minhas outra vez durante os próximos dias.
Capítulo X
Extrato do Diário do Dr. Watson
Até agora eu pude citar os relatórios que enviei durante esses primeiros dias para Sherlock Holmes. Agora, contudo, cheguei a um ponto em que sou obrigado a abandonar esse método e confiar mais uma vez nas minhas lembranças, ajudado pelo diário que mantive na ocasião. Alguns extratos do último me levarão àquelas cenas que estão indelevelmente fixadas com todos os detalhes na minha memória. Continuo, então, da manhã que se seguiu à nossa perseguição abortada ao condenado e às nossas outras experiências estranhas na charneca.
16 de outubro - Um dia triste e nublado, com garoa. A casa está envolta em rolos de nuvens que se erguem de vez em quando para mostrar as curvas sombrias da charneca, com veias finas, prateadas, nas encostas das colinas e os matacões distantes brilhando onde a luz bate sobre suas faces molhadas. A melancolia reina do lado de fora e de dentro. O baronete caiu numa- reação sinistra após as excitações da noite. Eu próprio estou consciente de um peso no coração e de uma sensação de perigo iminente, perigo sempre presente, que é mais terrível ainda porque não consigo defini-lo.
E não tenho eu motivos para essa sensação? Considere a longa seqüência de incidentes, apontando todos para alguma influência sinistra que está operando à nossa volta. Há a morte do último ocupante da Mansão, preenchendo com tanta exatidão as condições da lenda da família, e há as repetidas informações dos camponeses sobre o aparecimento de uma estranha criatura na charneca. Duas vezes ouvi com os meus próprios ouvidos o som que parecia o ladrar distante de um cão. É incrível, impossível, que isso esteja realmente fora das leis normais da Natureza. Um cão espectral que deixa pegadas materiais e enche o ar com o seu uivo certamente não é de se imaginar. Stapleton pode acreditar nessa superstição, e Mortimer também; mas se eu tenho uma qualidade na terra é o bom senso, e nada me fará acreditar numa coisa dessas. Fazê-lo seria descer ao nível desses pobres camponeses, que não se satisfazem com um simples cão diabólico, mas precisam descrevê-lo com a boca e os olhos vomitando fogo do inferno. Holmes não escutaria tais fantasias, e eu sou seu agente. Mas fatos são fatos, e já ouvi duas vezes esse grito na charneca. Suponhamos que houvesse realmente um cão enorme solto nela; isso iria longe para explicar tudo. Mas onde um cão desses poderia ficar escondido, onde conseguiria ele a sua comida, de onde vinha ele, como é que ninguém o vira de dia? Deve-se confessar que a explicação natural oferece quase tantas dificuldades quanto a outra. E sempre, além do cão, há o fato da influência humana em Londres, o homem do cabriolé e a carta que preveniu Sir Henry contra a charneca. Isso, pelo menos, era real, mas podia ter sido obra de um amigo protetor tão facilmente como de um inimigo. Onde está esse amigo ou inimigo agora? Ele ficou em Londres, ou nos seguiu até aqui? Podia ele, podia ele ser o estranho que vi sobre o pico rochoso?
É verdade que só o vi uma vez rapidamente, e apesar disso há algumas coisas pelas quais estou pronto a jurar. Ele não é ninguém que eu já tenha visto aqui, e agora já conheci todos os vizinhos. O vulto era muito mais alto do que o de Stapleton, muito mais magro do que o de Frankland. Possivelmente podia ter sido Barrymore, mas nós o havíamos deixado para trás, e estou certo de que ele não poderia nos ter seguido. Um estranho, então, ainda está nos seguindo, da mesma forma como um estranho nos seguiu em Londres. Nunca conseguimos nos livrar dele. Se eu pudesse pôr minhas mãos nesse homem, então poderíamos finalmente nos encontrar no fim das nossas dificuldades. A esse único propósito devo agora dedicar todas as minhas energias.
Meu primeiro impulso foi contar a Sir Henry todos os meus planos. Meu segundo impulso e mais prudente é jogar o meu próprio jogo e falar o menos possível com qualquer pessoa. Ele é silencioso e distraído. Seus nervos foram estranhamente abalados por aquele som na charneca. Não direi nada que aumente suas ansiedades, mas tomarei minhas próprias medidas para alcançar meu próprio fim.
Tivemos uma pequena cena esta manhã após o café. Barrymore pediu licença para falar com Sir Henry, e eles ficaram fechados no seu escritório por pouco tempo. Sentado na sala de bilhar eu ouvi mais de uma vez o tom das vozes se levantar, e tive uma idéia bastante boa de que ponto estava em discussão. Após um certo tempo o baronete abriu a porta e me chamou.
- Barrymore acha que tem motivo de queixa - disse ele. - Ele acha que foi injusto de nossa parte sair caçando o seu cunhado quando ele, por sua espontânea vontade, contou o segredo.
O mordomo estava parado muito pálido mas muito senhor de si diante de nós.
- Pode ser que eu tenha falado muito acaloradamente, senhor - disse ele -, e se falei certamente peço que me perdoe. Ao mesmo tempo, fiquei muito surpreso quando ouvi os dois cavalheiros voltarem esta manhã e soube que estiveram perseguindo Selden. O coitado já tem bastante contra o que lutar sem eu pôr mais gente na sua pista.
- Se você tivesse nos contado por sua livre e espontânea vontade teria sido uma coisa diferente - disse o baronete. - Você só nos contou, ou melhor, sua mulher nos contou, quando você foi forçado e não pôde evitar.
- Eu não pensei que os senhores fossem se aproveitar disso, Sir Henry, na verdade não pensei.
- O homem é um perigo público. Há casas isoladas espalhadas pela charneca, e ele é um sujeito que não se detém diante de nada. Basta se dar uma olhada para o rosto dele para compreender isso. Veja a casa do Sr. Stapleton, por exemplo, sem ninguém senão ele próprio para defendê-la. Não há nenhuma segurança para ninguém até que ele esteja trancado a chave.
- Ele não entrará em casa nenhuma, senhor. Dou-lhe a minha palavra solene quanto a isso. Mas ele nunca mais incomodará ninguém neste país outra vez. ' Garanto-lhe, Sir Henry, que dentro de muito poucos dias os arranjos necessários terão sido feitos e ele estará a caminho da América do Sul. Pelo amor de Deus, senhor, peço-lhe para não deixar a polícia saber que ele ainda está na charneca. Eles desistiram da busca aqui, e ele pode ficar escondido quieto até o navio estar pronto para ele. O senhor não pode denunciá-lo sem causar problemas para mim e minha mulher. Peço-lhe, senhor, para não dizer nada à polícia.
- O que você acha, Watson?
Eu encolhi os ombros. - Se ele saísse com segurança do país isso aliviaria os contribuintes de um fardo.
- Mas e quanto à possibilidade de ele assaltar alguém antes de ir embora?
- Ele não faria nada tão louco, senhor. Fornecemos a ele tudo que ele possa precisar. Cometer um crime seria revelar onde está escondido.
- Isso é verdade - disse Sir Henry. - Bem, Barrymore...
- Deus o abençoe, senhor, e obrigado do fundo do meu coração! Se ele fosse preso outra vez isso teria matado minha pobre mulher.
- Acho que estamos ajudando e favorecendo um crime, Watson. Mas, depois do que ouvimos, acho que não posso entregar o homem, portanto está terminado. Está bem, Barrymore, você pode ir.
Com algumas palavras entrecortadas de gratidão o homem se virou, mas hesitou e depois voltou.
- O senhor foi tão bom para nós, senhor, que eu gostaria de fazer o melhor que pudesse para o senhor em retribuição. Eu sei uma coisa, Sir Henry, e talvez devesse tê-la dito antes, mas foi muito depois do inquérito que eu a descobri. Eu nunca disse uma palavra sequer sobre isso ainda a nenhum homem mortal. É sobre a morte do pobre Sir Charles.
O baronete e eu ficamos ambos de pé. - Você sabe como ele morreu?
- Não, senhor, isso eu não sei.
- O que é, então?
- Eu sei por que ele esteve no portão àquela hora. Foi para se encontrar com uma mulher.
- Encontrar-se com uma mulher? Ele?
- Sim, senhor.
- E o nome da mulher?
- Não posso dar-lhe o nome, senhor, mas posso darlhe as inicias. As iniciais dela eram L.L.
- Como você sabe disso, Barrymore?
- Bem, Sir Henry, o seu tio recebeu uma carta naquela manhã. Geralmente ele recebia muitas cartas, porque ele era um homem público e bem conhecido pelo seu coração bondoso, de forma que todo mundo que estivesse com problemas gostava de recorrer a ele. Mas naquela manhã, por acaso, havia apenas esta carta, portanto reparei mais nela. Vinha de Coombe Tracey, e estava endereçada com letra de mulher.
- Bem?
- Bem, senhor, não pensei mais no assunto, e nunca teria pensado se não fosse por minha mulher. Apenas há algumas semanas ela estava limpando o escritório de Sir Charles, ele nunca foi tocado depois de sua morte, e encontrou as cinzas de uma carta queimada no fundo da grade. A maior parte dela estava carbonizada aos pedaços, mas uma pequena tira, o fim de uma página, pendia inteira, e o que estava escrito ainda podia ser lido, embora estivesse cinzento num fundo preto. Pareceu-nos ser um pós-escrito no fim da carta, e dizia: - Por favor, como o senhor é um cavalheiro, queime esta carta e esteja no portão às dez horas -. Embaixo disso estavam assinadas as iniciais L.L.
- Você tem essa tira?
- Não, senhor, ela esfarelou-se em pedaços depois de mexermos nela.
Sir Charles recebeu alguma outra carta com a mesma letra?
- Bem, senhor, eu não prestava muita atenção às suas cartas. Eu não notaria essa se por acaso ela não tivesse chegado sozinha.
- E você não tem nenhuma idéia de quem seja L.L.?
- Não, senhor. Não mais do que o senhor. Mas espero que se pudermos pôr as mãos nessa dama saberemos mais sobre a morte de Sir Charles.
- Não posso compreender, Barrymore, como você veio a esconder essa informação importante.
- Bem, senhor, isso foi imediatamente após ocorrer aquele nosso próprio problema. E depois também, senhor, nós dois gostávamos muito de Sir Charles, como devíamos, considerando tudo o que ele tinha feito por nós. Revolver isso não podia ajudar o nosso pobre patrão, e é bom ter cuidado quando há uma dama no caso. Mesmo o melhor de nós...
- Você achou que isso podia prejudicar a sua reputação?
- Bem, senhor, achei que nada de bom podia resultar disso. Mas agora o senhor foi bom para nós, e achei que estaria sendo injusto com o senhor não lhe contando tudo o que sei a respeito.
- Muito bem, Barrymore, pode ir. - Quando o mordomo havia nos deixado Sir Henry virou-se para mim. - Bem, Watson, o que você acha dessa nova informação?
- Parece que ela deixa a escuridão mais negra do que antes.
- Também acho isso. Mas se pelo menos pudéssemos identificar L.L. isso poderia esclarecer a coisa toda. Teríamos ganho pelo menos isso. Sabemos que há alguém que conhece os fatos se pudermos encontrá-la. O que você acha que deve fazer?
- Comunicar isso tudo imediatamente a Holmes. Isso dará a ele a pista que vem procurando. Estou muito enganado se isso não o trouxer aqui.
Fui imediatamente para o meu quarto e escrevi meu relatório da conversa da manhã para Holmes. Era evidente para mim que ele tinha estado muito ocupado ultimamente, porque as notas que recebi de Baker Street eram poucas e curtas, sem nenhum comentário sobre as informações que eu havia fornecido e dificilmente qualquer referência à minha missão. Sem dúvida o seu caso de chantagem está absorvendo todas as suas faculdades. E contudo esse novo fator devia certamente prender sua atenção e renovar o seu interesse. Gostaria que ele estivesse aqui.
17 de outubro - Choveu hoje o dia todo, fazendo a hera farfalhar e pingando dos beirais. Pensei no condenado lá fora na charneca descampada, fria e sem abrigo. Pobre diabo! Quaisquer que fossem os seus crimes, ele havia sofrido o bastante para expiá-los. E depois pensei naquele outro, o rosto do cabriolé, o vulto contra a lua. Estaria ele também lá fora, naquele dilúvio, o vigilante invisível, o homem da escuridão? A noite pus o meu impermeável e dei uma longa caminhada pela charneca encharcada, cheio de pensamentos sombrios, com a chuva batendo no meu rosto e o vento assoviando nos meus ouvidos. Deus ajude aqueles que vagueiam para dentro do grande pântano agora, porque até as firmes terras altas estão se tomando um atoleiro. Encontrei o pico rochoso preto sobre o qual havia visto o vigilante solitário, e do seu cume irregular olhei eu mesmo para as depressões melancólicas. Pancadas de chuva passavam pela sua superfície avermelhada, e as nuvens pesadas, cor de ardósia, pendiam baixas sobre a paisagem, arrastando espirais cinzentas para baixo nos lados das colinas fantásticas. Na depressão distante, à esquerda, meio escondidas pela neblina, as duas torres finas da Mansão Baskerville erguiam-se sobre as árvores. Elas eram os únicos sinais de vida humana que eu podia ver, salvo apenas aquelas cabanas pré-históricas que se aderisavam sobre as encostas das colinas. Em parte alguma havia qualquer sinal daquele homem solitário que eu havia visto no mesmo ponto duas noites antes.
Quando caminhava de volta fui alcançado pelo Dr. Mortimer guiando a sua charrete sobre um caminho irregular da charneca que saía da casa de fazenda isolada de Foulmire. Ele tem sido muito atencioso para conosco, e dificilmente tem se passado um dia sem que ele tenha passado na Mansão para saber como íamos. Ele insistiu para que eu subisse na sua charrete e me deu uma carona para casa. Achei-o muito perturbado pelo desaparecimento do seu pequeno spaniel. Ele havia fugido para a charneca e jamais voltara. Consolei-o como pude, mas pensei no pônei no Pântano de Grimpen, e imagino que ele não verá mais o seu cachorrinho outra vez.
- A propósito, Mortimer disse eu quando nos sacudíamos pela estrada irregular suponho que haja poucas pessoas morando a uma distância que se possa ir de charrete daqui que você não conheça?
- Dificilmente alguma, acho eu.
- Você pode, então, me dizer o nome de alguma mulher cujas iniciais sejam L.L.?
- Não - disse ele. - Há alguns ciganos e trabalhadores por quem não posso responder, mas entre os fazendeiros ou a pequena nobreza não há ninguém cujas iniciais sejam essas. Espere um pouco - acrescentou ele após uma pausa. -Há Laura Lyons, as iniciais dela são L.L., mas ela mora em Coombe Tracey.
- Quem é ela? - perguntei. E a filha de Frankland.
- O quê? Do velho Frankland, o maluco?
- Exatamente. Ela se casou com um artista chamado Lyons que veio desenhar na charneca. Ele provou ser um patife e abandonou-a. Á culpa, pelo que ouço, pode não ter estado inteiramente de um lado. O pai dela recusou-se a ter qualquer coisa a ver com ela porque ela se casara sem o seu consentimento, e talvez por um ou dois outros motivos também. Assim, entre o velho pecador e o moço, a garota tem passado um mau pedaço.
- De que vive ela?
- Imagino que o velho Frankland lhe dê uma mesada insignificante, mas não pode ser maior, porque os próprios negócios dele estão consideravelmente envolvidos. O que quer que possa ter merecido, não se pode permitir que ela vá irremediavelmente para o mal. A história dela circulou, e várias pessoas aqui fizeram alguma coisa para permitir-lhe ganhar a vida honestamente. Stapleton foi um e Sir Charles outro. Eu mesmo dei uma ninharia. Era para estabelecê-la num negócio de datilografia.
Ele quis saber o propósito das minhas perguntas, mas consegui satisfazer a sua curiosidade sem contar-lhe muito, porque não há nenhum motivo para que tenhamos que confiar em alguém. Amanhã de manhã acharei meu caminho até Coorribe Tracey, e se eu puder ver essa Sra. Laura Lyons, de reputação equívoca, um longo passo terá sido dado no sentido de esclarecer um incidente nesta cadeia de mistérios. Certamente estou adquirindo a sabedoria da serpente, porque quando Mortimer insistiu nas suas perguntas até uma extensão inconveniente perguntei-lhe casualmente a que tipo pertencia o crânio de Frankland, e assim não ouvi mais nada senão craniologia durante o resto da nossa viagem. Não foi impunemente que morei anos com Sherlock Holmes.
Tenho apenas um outro incidente para relatar neste dia tempestuoso e melancólico. Essa foi a minha conversa corri Barrymore ainda há pouco, que me dá mais um trunfo que posso usar no devido tempo.
Mortimer havia ficado para jantar, e ele e o baronete jogaram écarté depois. O mordomo trouxe o meu café na biblioteca, e aproveitei a oportunidade para fazer algumas perguntas a ele.
- Bem - disse eu -, esse estimado parente seu partiu ou ainda está escondido lá longe?
- Não sei, senhor. Espero em Deus que tenha ido, porque ele não causou senão problemas aqui! Não tive notícias dele desde que deixei comida para ele da última vez, e isso foi há três dias atrás.
- Você o viu então?
- Não, senhor, mas a comida tinha desaparecido quando fui lá da vez seguinte.
- Então ele estava lá com certeza?
- Assim se pode pensar, senhor, a menos que o outro homem a tenha tirado.
Sentei-me com a xícara de café a meio caminho dos meus lábios e fiquei olhando para Barrymore.
- Você sabe que há outro homem, então?
- Sim, senhor; há outro homem na charneca.
- Você o viu?
- Não, senhor.
- Corno sabe dele então?
- Selden me falou sobre ele, senhor, há uma semana atrás ou mais. Ele está escondido também, mas ele não é um condenado pelo que posso entender. Não gosto disso, Dr. Watson, digo-lhe francamente, senhor, que não gosto disso. - Ele falou com uma paixão súbita de seriedade.
- Agora, ouça-me' Barrymore! Não tenho nenhum interesse nesse assunto senão o do seu patrão. Vim para cá sem nenhum objetivo, exceto ajudá-lo. Diga-me, francamente, do que é que você não gosta?
Barrymore hesitou por um momento, como se estivesse arrependido da sua explosão ou achado difícil exprimir em palavras os seus próprios sentimentos.
- São todas essas extravagâncias, senhor - exclamou ele por fim acenando corri a mão em direção à janela batida pela chuva que dava para a charneca. – Há traição em algum lugar, e há perversidade negra fervendo, quanto a isso eu juro! Muito satisfeito eu ficaria, senhor, de ver Sir Henry de volta para Londres outra vez!
- Mas o que é que o assusta?
- Veja a morte de Sir Charles! Isso foi bastante ruim, apesar de tudo o que o magistrado disse. Veja os ruídos na charneca à noite, Não há um único homem que a atravesse após o pôr-do-sol, mesmo que seja pago para isso. Veja este estranho escondido lá longe, observando e esperando! O que está ele esperando? O que significa isso? Não significa nada de bom para ninguém com o nome de Baskerville, e muito satisfeito eu ficaria de largar isso tudo no dia em que os novos empregados de Sir Henry estivessem prontos para cuidar da Mansão.
- Mas quanto a esse estranho - disse eu. - Você pode me dizer alguma coisa sobre ele? O que diz Selden? Ele descobriu onde ele se esconde, ou o que ele está fazendo?
- Ele o viu uma ou duas vezes, mas ele é um finório e não conta nada. A princípio pensou que ele fosse da polícia, mas logo descobriu que ele tinha alguma profissão própria. Ele era uma espécie de cavalheiro, até onde ele pôde ver, mas o que ele estava fazendo ele não pôde compreender.
- E onde foi que ele disse que o homem vivia?
- Entre as velhas casas na encosta da colina, as cabanas de pedra que o pessoal antigo usava para morar.
- Mas e quanto à sua comida?
- Selden descobriu que ele tem um menino que trabalha para ele e leva e traz para ele tudo que ele precisa. Arrisco-me a dizer que ele vai buscar em Coorribe Tracey o que precisa.
- Muito bem, Barrymore. Podemos falar mais sobre isso em alguma outra ocasião. - Quando o mordomo havia ido embora fui até a janela preta e olhei através de uma vidraça manchada para as nuvens que passavam e para a silhueta agitada das árvores varridas pelo vento. A noite estava tempestuosa lá fora, e como devia estar numa cabana de pedra na charneca. Que paixão de ódio pode ser essa que leva um homem a se esconder num lugar desses numa ocasião dessas? E que objetivo profundo e sério pode ter ele que exija uma tal provação? Lá, naquela cabana sobre a charneca, parece estar o próprio centro daquele problema que me perturba tão dolorosamente. Juro que outro dia não se passará antes de eu ter feito tudo que um homem pode fazer para atingir o âmago do mistério.