O Fantasma de Canterville
— Meu caro senhor — disse Mr.…
— Meu caro senhor — disse Mr. Otis —, perdoe-me importuná-lo, mas é absolutamente necessário que unte esses grilhões. Pensando em si, trouxe este frascozinho de lubri cante. Dizem que é muito e caz logo da primeira vez que se aplica. No prospeto junto, achará muitos atestados dos mais eminentes sábios do país. Vou deixar aqui o frasco, junto dos candelabros, e sentir-me-ei deveras feliz em arranjar-lhe outro, se o senhor precisar.
Ao dizer isto, o embaixador colocou o frasco sobre o tampo de mármore de uma mesa e, fechando a porta, voltou a meter-se na cama.
O fantasma de Canterville cou uns instantes imóvel, cheio de uma indignação bem natural; depois, arremessando violentamente o frasco ao soalho encerado, sumiu-se no corredor soltando grunhidos cavernosos e projetando terri cantes clarões verdes ao redor. Porém, ao atingir o alto da grande escadaria de carvalho, abriu-se bruscamente uma porta, apareceram dois pequenos vultos vestidos de branco, e um rotundo travesseiro passou-lhe, zumbindo, rente à cabeça! Decididamente, não havia tempo a perder e, adotando como rápido meio de salvação a quarta dimensão do espaço, esvaiu-se através do revestimento de madeira das paredes, após o que a habitação recuperou a sua calma.
Tendo alcançado um quartinho secreto situado na ala esquerda do edifício, sentou-se, para retomar fôlego, e pôs-se a re etir no que lhe acabara de suceder. Em toda a sua carreira de trezentos anos, brilhante e ininterrupta, nunca tinha sido insultado tão grosseiramente. Recordou o estado de terror em que lançara a duquesa, quando ela se contemplava ao espelho, enfeitada de diamantes e rendas; as quatro criadas que haviam tido uma crise de nervos muito simplesmente porque ele, rindo com escárnio, as espreitava através dos cortinados de um dos quartos de hóspedes; o cura da paróquia, cuja vela apagara com um sopro quando ele saía uma noite da biblioteca, onde se demorara um pouco mais, e que depois, vítima de um esgotamento nervoso, fora tratado por Sir William Guil; a velha senhora de Tremouillac, a qual tendo acordado de manhã muito cedo e visto um esqueleto sentado numa poltrona, junto do fogão, imerso na leitura do seu diário íntimo, foi obrigada a car de cama durante seis semanas, presa de uma febre cerebral. A duquesa, logo que se vira curada, reconciliara-se com a Igreja, quebrando todas as relações com o Senhor Voltaire, esse céptico notório. O fantasma lembrou-se também da terrível noite em que esse patife do Lord Carterville foi encontrado no seu quarto de vestir meio sufocado, com o valete de ouros en ado na garganta; precisamente antes de morrer, confessara ter feito batota no jogo por meio dessa carta e roubado de Charles James Fox, na casa dos Crockfords, cinquenta mil libras esterlinas. O fantasma, jurava ele, obrigara-o a engolir a carta. O fantasma de Canterville revia, em pensamento, as suas mais belas façanhas. Evocou o caso do mordomo que, na copa, se suicidara com um tiro de revólver por ter visto uma mão verde bater nos vidros; depois, o da bela Lady Stut eld, que se obrigou a trazer sempre em volta do pescoço uma ta de veludo negro, para ocultar a marca que cinco dedos de fogo haviam imprimido na sua pele branca de leite, e que acabara por se afogar no lago das carpas, no m da alameda do rei. Com o egoísmo entusiástico do verdadeiro artista, o fantasma passou em revista as suas realizações mais famosas. E com um sorriso cheio de azedume, recordou-se da sua última aparição como Ruben, o Vermelho, ou o Bebé Estrangulado, da sua estreia no papel de Gibeon, o Vampiro de Moor, e da agitação que provocara, numa encantadora tarde de junho, jogando muito simplesmente bolingue com as suas próprias ossadas, em cima da relva do campo de ténis. E, ao cabo de todos estes grandiosos feitos, eis que uns miseráveis americanos modernos lhe vinham oferecer lubri cante e arremessar-lhe travesseiros à cabeça! Era verdadeiramente intolerável. Nunca fantasma algum fora tratado daquela maneira. Decidiu, pois, vingar-se; e, até romper a aurora, permaneceu em atitude de profunda meditação.
III
Na manhã seguinte, durante o pequeno-almoço, o fantasma foi objeto de prolongada discussão. O embaixador estava, como é natural, um pouco aborrecido por ver que a sua dádiva não tinha sido aceite.
— De forma alguma eu tive a intenção de dirigir ao fantasma uma injúria pessoal e, sendo certo que ele reside na casa há tanto tempo, vocês devem confessar que é muito pouco delicado atirar-lhe travesseiros à cabeça...
Lamento ter de declarar que, perante esta justa advertência, os gémeos desataram às gargalhadas.
— Por outro lado — prosseguiu o diplomata — , se ele se recusa, teimosamente, a empregar o lubri cante, teremos de con scar-lhe os grilhões. É impossível dormir com um barulho assim no corredor!
Mas, durante todo o resto da semana, o fantasma não os incomodou absolutamente nada. A única coisa a excitar a atenção era o reaparecimento contínuo da mancha de sangue no soalho da biblioteca. E essa era uma estranha coisa, porque Mr. Otis fechava a porta a chave todas as tardes e mandava cerrar bem as janelas.
O facto de a mancha mudar tantas vezes de tom, como um camaleão, provocava igualmente inúmeros comentários. Em determinadas manhãs, ela aparecia de um vermelho-escuro, quase um vermelho-indiano; no dia seguinte, era um rubro retinto; no outro dia, era um violeta sumptuoso; e até uma vez quando os Otis desceram para as orações familiares, conforme os ritos cheios de simplicidade da Igreja Livre Americana Reformada e Episcopal, veri caram que a mancha era de um verde-esmeralda resplandecente.
Bem entendido, estas mutações caleidoscópicas divertiam muito a família; e, todas as noites, estabeleciam-se apostas a seu respeito. A única pessoa que não tomava parte na brincadeira era a pequena Virginia, que, por qualquer razão ignorada, parecia sempre consternada ao ver a mancha de sangue e esteve perto de desatar a chorar na manhã em que a nódoa apareceu no tom verde-esmeralda.
A segunda aparição do fantasma ocorreu no domingo à noite. Pouco tempo depois de se terem metido na cama, foram de súbito alarmados por um medonho estrondo vindo do vestíbulo. Descendo precipitadamente a escada, veri caram que uma grande e antiga armadura, despregada da sua base, fora projetada para o lajedo, enquanto o fantasma de Canterville, sentado numa cadeira de alto espaldar e com uma expressão de angústia, esfregava os joelhos. Os gémeos, que se haviam munido das suas zarabatanas, descarregaram imediatamente dois pequenos projéteis sobre o fantasma, com essa precisão de pontaria que só longos e sérios exercícios, tendo por mestre um professor exímio, podem dar, enquanto o embaixador americano, mantendo-o sob a ameaça do seu revólver, o intimava, segundo a etiqueta californiana, a que pusesse as mãos ao alto.
O fantasma levantou-se bruscamente, com um medonho grito de raiva, e deslizou por entre eles todos tal qual um nevoeiro, apagando na sua passagem a vela de Washington Otis e deixando-os na completa escuridão. Ao alcançar o cimo da escadaria, o fantasma recobrou ânimo e decidiu fazer soar o famoso carrilhão de risos demoníacos, cuja utilidade mais de uma vez havia experimentado. Contava-se que aquilo
zera embranquecer, num instante, os cabelos de Lord Racker, e levara a
que se despedissem três governantas deLady Canterville antes de completarem um mês.
Começou pois a dar uma gargalhada do género horrível, esperando que a abóboda respondesse com o mais pavoroso dos ecos, mas a custo se ouviu tanto uma coisa como outra; nesse momento abriu-se uma porta e Mrs. Otis surgiu, vestida de roupão azul.
— Descon o que não está bom de saúde— observou ela —, de maneira que lhe trago este remédio infalível do Dr. Dobell; se é coisa de estômago, não deixe de o tomar.
Ao escutar semelhante conselho, o fantasma olhou espantado para a dona da casa e tratou logo de se preparar para uma metamorfose em canzarrão preto, transformação em que costumava ser perito e à qual o médico dos Cantervilles atribuíra a idiotia crónica de que sofrera o notabilíssimo Thomas Horton, tio do último castelão. O som, porém, de passos que se aproximavam fê-lo hesitar nessa deliberação, de forma que se contentou em fazer-se fosforescente, desvanecendo-se de todo (com um gemido surdo) à chegada intempestiva dos dois gémeos.
Ao entrar no seu quarto, o fantasma sentia-se verdadeiramente desanimado. A vulgaridade dos dois garotos, o irritante materialismo de Mrs. Otis, eram coisas deveras aborrecidas; mas o que o entristecia mais era saber que já não conseguia aguentar a armadura. Depositara tanta esperança no seu plano de estarrecer os americanos com a aparição do Espectro Cavaleiro! Além disso, a armadura era dele próprio e usara-a com grande êxito em alguns torneios, entre aplausos dos assistentes.Mas, agora, ao meter-se dentro dela, não pudera suportar o peso e caíra redondamente no chão, magoando seriamente os joelhos e contundindo os dedos da mão direita.
Durante alguns dias andou adoentado e mal saía do quarto, exceto de madrugada, quando ia reavivar a nódoa de sangue da biblioteca. Todavia, com o recato que se impôs, conseguiu melhorar e resolveu tentar novo ataque de terror contra o diplomata e a sua família. Escolheu para isso uma sexta-feira, 17 de agosto, e gastou um dia inteiro a selecionar indumentária; decidiu-se nalmente por um amplo lençol franzido no pescoço e nos punhos, chapéu desabado com pluma vermelha, e espadalhão, por sinal ferrugento. Ao cair da noite, desabou um violento temporal, e a chuva e o vento eram tão fortes que as janelas e as portas estremeciam. Era precisamente o género de tempo que lhe convinha. O projeto consistia no seguinte: iria muito sossegado até ao quarto de Washingon Otis: ali, puxaria os pés do rapaz e depois, correndo para a cabeceira da cama, espetaria três vezes a espada na sua própria garganta, ao som de uma música especial. Considerava Washington bastante antipático, pois sabia que era ele quem esfregava o soalho da biblioteca no sítio da nódoa, com o tal sabão Pinkerton. Uma vez posto fora de combate, por meio dessa exibição terri cante, o primogénito dos irmãos Otis,o fantasma correria aos aposentos do diplomata e da sua esposa e ali pousaria, na testa da referida senhora, uma das suas mãos geladas e viscosas, ao mesmo que apuparia aos ouvidos do marido. Quanto à pequena Virginia, o espectro não tinha planeado nada. A rapariga nunca o havia ofendido, e além disso era bonita e bondosa. Dois ou três lamentos murmurados dentro do guarda-vestidos seriam mais do que su cientes, pensava ele; se, porém, ela não acordasse desse modo, então poderia apalpá-la através da colcha. Mas, com relação aos gémeos, Sir Simon pretendia dar-lhes uma verdadeira lição. Primeiro, haveria desentar-se sobre o peito deles, de maneira a produzir a sufocante sensação do pesadelo; depois, como as suas camas estavam muito juntas, surgiria no meio sob a forma de um cadáver verde e gelado, até que os irmãos cassem paralisados de medo; por último, despojando-se do lençol, arrastar-se-ia em volta de todo o aposento com a sua ossada embranquecida, fazendo ao mesmo tempo girar as meninas dos olhos, numa imitação do Bailado Macabro, papel no qual produzira grande efeito em muitas ocasiões.
Às dez e meia, ouviu a família ir-se deitar. Durante algum tempo, chegaram-lhe aos ouvidos as sonoras risadas dos gémeos, os quais, com a descuidada alegria das crianças, certamente se divertiam antes de se en arem na cama. Mas às onze horas e um quarto tudo estava sossegado e, ao soar a meia-noite, partiu para a sua expedição. O mocho vinha roçar as asas nos vidros das janelas, o corvo crocitava no cimo do velho telhado e o vento vagueava em volta da casa, gemendo como alma penada. Mas a família Otis dormia, inconsciente do seu destino, e o cadenciado ressonar do embaixador cobria o ruído do temporal. O fantasma esgueirou-se para fora da madeira das paredes sem dar sinal de si. Sobre a sua boca murcha e cruel desenhava-se um a itivo sorriso, e a Lua escondeu-se por detrás de uma nuvem quando ele passou junto da grande janela ogival, ornada de um brasão azul e ouro, que representava as suas próprias armas e as da sua esposa assassinada. Deslizava como uma sombra funesta, e até as trevas pareciam odiá-lo. De súbito, supôs ouvir alguém a chamá-lo. Deteve-se; mas apenas o latido de um cão se ouvia à distância. Prosseguiu caminho, resmungando pragas do século XVI e brandindo de quando em vez a espada cheia de ferrugem. O fantasma atingiu, por m, a esquina do corredor que conduzia ao quarto do pobre Washington. Parou um instante. O vento sacudia-lhe as madeixas compridas e de cor cinza e fazia ondular, de maneira grotesca e fantástica, o lençol que o cobria. O quadro inspirava indizível horror. O relógio bateu então o quarto de hora. Compreendeu que tinha chegado o momento. Soltou, baixinho, uma risadinha de escárnio e avançou. Mas, mal tinha dado um passo, logo recuou com um lamentoso gemido de terror e logo também ocultou nas suas mãos ossudas a face macilenta.
Diante de si, erguia-se um espectro assutador, tão imóvel como uma
gura de pedra, tão monstruoso como o sonho de um louco. Tinha a
cabeça calva e luzidia, a face redonda, gorda e branca. Um riso ignóbil parecia ter-lhe contorcido as feições num esgar eterno e pavoroso. Dos olhos, saíam clarões escarlates. A boca era um largo poço de fogo e uma horrenda vestimenta, semelhante à sua, envolvia de longas pregas brancas o vulto titânico. Um letreiro, contendo uma inscrição em caracteres estranhos e antigos, ornava-lhe o peito: sem dúvida, um certi cado de infâmia, a narrativa de medonhas faltas, uma lista de crimes espantosos. Com a mão direita, brandia um gládio de aço luzidio.
Nunca tendo visto, até à data, fantasma algum, sentiu naturalmente um grande pavor. Lançou rapidamente outro olhar ao terrível espectro e desatou a fugir para o quarto, tropeçando, ao seguir pelo corredor, no longo lençol que trazia. Por último, deixou cair a espada enferrujada dentro das grossas botas do embaixador, onde o mordomo foi encontrá-la na manhãseguinte.Uma vez no refúgio da sua alcova, atirou-se para cima da estreita cama de lona e enterrou o rosto nos lençóis. Porém, transcorrido um pedaço de tempo, a antiga coragem dos Cantervilles recuperou os seus direitos. Decidiu ir falar com o outro fantasma logo que nascesse o dia. E mal a aurora prateou as colinas, voltou ao local onde havia, pela primeira vez, lançado os olhos sobre o formidável espectro, raciocinando que, no m de contas, dois fantasmas valiam mais do que um e que, com a ajuda do seu novo colega, talvez vencesse melhor os gémeos. Mas quando ali chegou, no mesmo lugar, um horrível espetáculo feriu os seus olhos. Era de todo evidente que acontecera qualquer coisa ao fantasma, porque a luz lhe desaparecera completamente das órbitas, o gládio luzidio escorregara-lhe da mão e o corpo encostava-se à parede numa atitude deveras incómoda. Precipitou-se para ele e tornou-o nos braços. Mas, com assombro seu, a cabeça do outro rolou para o chão; o corpo foi-se abaixo e ele percebeu que estreitava apenas um cortinado de cama, de fustão branco, ao mesmo tempo que uma vassoura, um machado de cozinha e um nabo oco lhe jaziam aos pés. Incapaz de compreender esta curiosa transformação, pegou o letreiro com pressa febril e, à luz pálida da aurora, leu estas palavras abomináveis:
O FANTASMA OTIS
O ÚNICO E ORIGINAL
DESCONFIEM DAS IMITAÇÕES
Como num relâmpago, compreendeu tudo. Tinham-lhe pregado uma partida! A característica expressão dos Cantervilles perpassou-lhe nos olhos; cerrou as maxilas sem dentes e, levantando muito alto, acima da cabeça, as mãos descarnadas, jurou, segundo a fraseologia pitoresca da escola antiga, que, quando se ouvisse mais duas vezes o alegre apelo do galo, dar-se-iam ali acontecimentos sangrentos e a morte deslizaria por aqueles lugares em silenciosos passos.
Mal formulara este temível juramento, subiu, à distância, de uma quinta coberta de telhas vermelhas, a voz de um galo. O fantasma soltou um prolongado e amargo riso e aguardou. Esperou mais de uma hora, mas, por qualquer razão estranha, o galo não repetiu o canto. Por m, às sete horas e meia, a chegada dos criados obrigou-o a abandonar o seu horrível posto de sentinela. Regressou ao quarto a passos lentos, a meditar na sua vã esperança e no seu abortado plano. Consultou, então, muitas obras a que dedicava particular apreço e que tratavam dos antigos tempos da cavalaria. Aí veri cou que, em todas as vezes que tal juramento havia sido formulado, sempre o galo cantara a segunda vez.
— Diabos levem aquele maldito galináceo! — resmungou ele. — Ali! Pena não me encontrar no tempo em que, com minha intrépida lança, lhe trespassaria a garganta e em que o teria obrigado a cantar só para mim até perder o fôlego!
Depois, estendeu-se num confortável caixão de chumbo, onde permaneceu até ser outra vez de noite.
IV
No dia seguinte, o fantasma estava muito fraco e cansado. Começava a ressentir-se dos efeitos da medonha agitação das últimas semanas. Estava com os nervos abalados; até o menor ruído o sobressaltava. Não saiu do quarto durante cinco dias e decidiu por m renunciar à nódoa de sangue no chão da biblioteca. Se a família Otis não queria aquilo, estava claro, sem sombra de dúvida,quenão era digna do caso. Com plena evidência, essas pessoas viviam num plano de existência de baixo materialismo e eram em absoluto incapazes de apreciar o valor simbólico dos fenómenos sobrenaturais. O assunto das aparições espectrais e o desenvolvimento dos corpos astrais eram, bem entendido, coisas diferentes e alheias à atenção dessa gente. Ele, fantasma, tinha como missão, missão solene, aparecer no corredor uma vez por semana e ulular através de um janelão em ogiva na primeira e na terceira quartas-feiras do mês e não via maneira de poder subtrair-se honrosamente às suas ocupações. A sua vida, é certo, fora culposa; mas, por outro lado, ele era rigidamente escrupuloso em tudo quanto se relacionava com o sobrenatural. Três sábados a o, o fantasma atravessou, portanto, o corredor como de costume, entre a meia-noite e as três horas da manhã, tomando mil precauções para não ser visto nem ouvido. Descalçava os sapatos, pisava tão levemente quanto possível as tábuas do soalho roídas pelo caruncho, enrolava-se no manto de veludo negro e com grilhões previamente untados de óleo. Não foi sem di culdade que veio a adotar este derradeiro meio de proteção; mas, constrangido a isso, uma noite em que a família se encontrava jantar, introduziu-se nos aposentos de Mr. Otis e lançou mão do respetivo frasco. Ao fazê-lo, experimentou, a princípio, um pouco de humilhação, mas logo adquiriu inteligência bastante para se inteirar de que a invenção estava longe de ser má e de que, até certo ponto, lhe favorecia os planos. Apesar de tudo, não o deixavam, entretanto, em paz. Estendiam, constantemente, cordas no corredor, nas quais, quando estava escuro, tropeçava; e uma vez, em que se encontrava vestido de Judeu Errante, deu um grande trambolhão, pois os gémeos haviam esfregado manteiga nos degraus da escada. Esta última afronta pô-lo em tamanha fúria que resolveu fazer um derradeiro esforço para restabelecer a sua dignidade e a sua posição social.
Decidiu, pois, uma visita, na noite seguinte, aos juvenis e insolentes colegiais de Eton, no seu famoso disfarce de Conde-sem-Cabeça. O fantasma já não fazia aparição alguma mascarado desta maneira há mais de setenta anos, precisamente desde que, assim vestido, aterrorizara a gentil Lady Barbara Modish a ponto de ela ter rompido bruscamente as promessas de noivado com o avô do atual Lord Canterville e fugido para a Escócia com o belo Jack Castleton, declarando que nada neste mundo a faria entrar numa família que deixava um tão horrível fantasma percorrer o terraço, ao cair o crepúsculo. Mais tarde, o pobre Jack foi morto em duelo por Lord Canterville em Wandsworth Common, e Lady Barbara, com o coração despedaçado, morreu em Tunbridge Wells, antes de ndar aquele mesmo ano; de sorte que, em todos os aspetos, fora um esplêndido êxito. Todavia, tratava-se de uma composição extremamente difícil (se me é permitido usar esta expressão de teatro a propósito de um dos maiores mistérios do sobrenatural, ou, para empregar um termo cientí co, do mundo supranormal), e foram necessárias precisamente três horas para executar os preparativos. Tudo se aprontou, nalmente. Estava muitíssimo satisfeito com o seu aspeto. As altas botas de montar que condiziam com o traje eram um pouco grandes de mais para ele, e não tinha podido achar senão uma das pistolas dos coldres da sela; mas, em suma, estava muito contente, e, à uma hora e um quarto, deslizou através do forro de madeira e desceu suavemente para o corredor. Chegando ao quarto que os gémeos ocupavam (chamavam-no quarto azul, por causa do tom das paredes), encontrou a porta entreaberta. Querendo fazer uma entrada de pleno efeito, empurrou bruscamente a porta, mas o conteúdo de um grande jarro entornou-se em cima dele e o próprio jarro, ao cair, roçou-lhe pelo ombro esquerdo. No mesmo instante, risadas que alguém procurava reprimir subiram dos leitos. O abalo nervoso que experimentou foi tamanho que desatou a fugir para o seu esconderijo com a maior rapidez. No dia seguinte, muitíssimo resfriado, teve de conservar-se na cama. Aúnicaconsolação que lhe restava era a de não ter levado a sua própria cabeça nesta expedição; de contrário, a imprudência poder-lhe-ia ter acarretado as mais graves consequências.
O fantasma abandonou, então, toda a esperança de assustar aquela grosseira família americana e contentou-se, por m, em percorrer os corredores com chinelos de solas de feltro, o pescoço envolto num espesso lenço vermelho, em virtude das correntes de ar, e empunhando um bacamarte com receio de ser atacado pelos gémeos. Foi a 19 de setembro que recebeu o golpe nal. O fantasma tinha descido ao vasto hall de entrada, certo de que aí ninguém o molestaria, e divertia-se a alvejar, com observações satíricas, as grandes fotogra as do diplomata e da sua mulher, assinadas por Saroni, que haviam substituído os retratos da família dos Cantervilles. Encontrava-se vestido com um longo lençol, muito simples, mas decente, salpicado de manchas de lama vinda do cemitério. Atara os queixos com uma ligadura de tela amarelada e segurava uma lanternazinha e uma enxada de coveiro. Numa palavra, estava disfarçado para o papel de Jonas, o Desenterrado, uma das suas mais notáveis criações, da qual os Cantervilles tinham excelentes razões para se lamentar, porque fora essa a verdadeira origem da desavença com o seu vizinho, Lord Ru ord.