O Fantasma de Canterville
Capítulo VII
— Deus do Céu, lha, onde estiveste? — perguntou Mr. Otis numa voz bastante irritada, a pensar que a lha lhes tinha pregado uma partida. — Cecil e eu cavalgámos toda a região à tua procura e tua mãe esteve prestes a morrer de angústia. Nunca mais faças este tipo de brincadeiras.
— Exceto contra o fantasma! Exceto contra o fantasma! — bradaram os gémeos entre mil piruetas.
— Minha querida, graças a Deus tenho-te aqui! Nunca mais te deixarei sair de ao pé de mim — murmurou Mrs. Otis, enlaçando a criança e acariciando-lhe os cabelos
— Papá — disse Virginia num tom calmo — eu estava com o fantasma. Ele morreu. Podem ir vê-lo. Era muito mau, mas arrependeu-se verdadeiramente do que fez e, antes de morrer, deu-me este cofrezinho com maravilhosas joias.
Toda a família a tava, os olhos escancarados de surpresa, mas ela permanecia grave e séria; desviando-se, guiou-os através de uma abertura no forro de madeira das paredes até um estreito corredor secreto. Washington seguia-os empunhando uma vela que havia tirado de cima da mesa. Chegaram, por m, a uma grande porta de carvalho, ornada de pregos cheios de ferrugem. Quando Virginia a tocou, a porta girou nas dobradiças, e encontraram-se todos numa salinha baixa, de teto de abóbada e com apenas uma minúscula janela gradeada. Uma enorme argola de ferro estava cravada na parede e, preso na argola, via-se um grande esqueleto estendido de comprido no chão de pedra, parecendo tentar agarrar uma escudela velha e uma bilha colocada fora do seu alcance. A bilha devia ter contido outrora água, porque se mostrava por dentro coberta de bolor. Na escudela não existia senão uma camada de pó. Virginia ajoelhou-se junto do esqueleto e, juntando as delicadas mãos, pôs-se a rezar em silêncio, enquanto o resto da família contemplava com espanto a horrível tragédia, cujo segredo lhes era assim revelado.
— Olhem! — gritou de repente um dos gémeos, o qual se dependurara na janela para observar em que ala da edi cação se situava aquele quarto. — Olhem! A velha amendoeira toda sequinha está em
or. Veem-se muito bem as ores, ao luar.
— Deus perdoou-lhe — proferiu gravemente Virginia, erguendo-se; e uma luz maravilhosa parecia banhar-lhe o rosto.
— Você é um anjo! — exclamou o duquezinho, que lhe lançou um braço em volta do pescoço, estreitando-a contra si.
VII
Quatro dias após estes curiosos acontecimentos, um séquito fúnebre deixava o castelo de Canterville por volta das onze horas da noite. Oito cavalos negros puxavam o carro funerário acima e sobre as cabeças deles agitavam-se grandes penachos de plumas de avestruz. Um sumptuoso pano cor de púrpura, ornado com as armas dos Cantervilles bordadas em ouro, cobria o caixão de chumbo. Junto do carro, marchavam os criados empunhando tochas, e todo o cortejo assumia singular imponência. Lord Canterville dirigia o enterro. Tinha vindo expressamente do País de Gales para assistir à cerimónia e ocupava a primeira carruagem, acompanhado da jovem Virginia. A seguir iam o embaixador americano e a esposa, depois Washington e os três rapazes, e, por m, na carruagem da cauda, Mrs. Umney. Partiu-se da convicção de que a governanta, que durante mais de cinquenta anos havia sido apoquentada pelo fantasma, tinha o direito de vê-lo desaparecer para sempre. Fora escavada, num canto do cemitério, uma profunda sepultura, precisamente sob a rama do velho teixo, e as preces foram proferidas pelo reverendo Augustus Dampier da maneira mais impressionante. Ao terminar a cerimónia, os criados, conforme um costume tradicional na família Canterville, apagaram as tochas e, no momento de se fazer descer o caixão à sepultura, Virginia avançou e depôs sobre ele uma grande cruz tecida de rosas e ores de amendoeira. Simultaneamente, a Lua surgiu de trás de uma nuvem e, com as suas ondas silenciosas e argênteas, iluminou o pequeno cemitério; e do recesso de uma moita, à distância, subiu o canto de um rouxinol. A rapariga recordou a descrição que o fantasma zera do jardim da morte. Lágrimas velaram-lhe os olhos e mal articulou palavra durante o caminho de regresso.
No dia seguinte de manhã, antes que Lord Canterville partisse para Londres, Mr. Otis conferenciou com ele a respeito das joias dadas a Virginia pelo fantasma. Eram de notável magni cência, em especial certo colar de rubis com um engaste veneziano, admirável trabalho do século XVI, e o valor delas todas era tal que Mr. Otis sentia grandes escrúpulos em consentir que a lha as aceitasse.
— Lord Canterville — disse o embaixador — eu sei que neste país os bens mobiliários, tal como as terras, se transmitem na mília, pelo que me parece evidente que estas joias de família lhe pertencem. Devo, pois, pedir-lhe que as leve consigo para Londres e que as considere simplesmente como uma parte da sua herança, agora restituída em inesperadas circunstâncias. Quanto à minha lha, ela é ainda uma criança e (sinto-me feliz em dizê-lo) não presta mais do que medíocre interesse a esses vão acessórios de luxo. Além disso, a minha mulher, que, ouso a rmá-lo, é em matéria de arte uma autoridade, com a qual é necessário contar — ela gozou do privilégio de passar muitos invernos em Boston quando ainda era solteira — comunicou-me terem essas joias elevado valor monetário. Postas à venda, atingiriam um altíssimo preço. Nestas condições, Lord Canterville, estou certo de que compreenderá não poder eu permitir a nenhum membro da minha família conservá-las na sua posse. E, em boa verdade, todos esses frívolos adornos, por mais adequados ou indispensáveis que sejam à dignidade da aristocracia inglesa, estariam absolutamente deslocados entre pessoas educadas nos princípios severos e, suponho, imortais da simplicidade republicana. Talvez me seja lícito acrescentar que Virginia deseja vivamente que o senhor a autorize a guardar para ela o cofrezinho, a título de recordação dos desvarios e dos infortúnios desse seu antepassado. Visto que o cofre se acha muito velho e muito estragado, talvez o senhor julgue razoável deferir este pedido. Pela minha parte, confesso estar bastante surpreso ao ver um dos meus lhos exprimir simpatia pelas coisas medievais, seja sob qual aspeto for, e não posso explicar isto a mim próprio senão pelo facto de Virginia ter nascido nos subúrbios de Londres, quando a minha mulher andava em viagem pela Europa.
Lord Canterville escutou com muita gravidade o discurso do digno embaixador, repuxando de quando em quando as pontas do seu bigode grisalho para dissimular um sorriso involuntário; e quando Mr. Otis acabou de falar, apertou-lhe a mão e disse:
— Meu caro senhor, a sua encantadora lhinha prestou a Simon, meu infeliz antepassado, um serviço de importância, e eu e a minha família devemos muito à maravilhosa coragem dela. Está claro que as joias lhe pertencem; e, por minha fé, creio que se eu tivesse tão pouco coração que lhas tirasse, o velho sairia, antes de quinze dias decorridos, do seu túmulo e causar-me-ia uma vida de inferno. Quanto a serem bens inalienáveis, tal só seria possível se gurassem num testamento ou em documento legal, e a existência dessas joias era-me completamente desconhecida. Asseguro-lhe que não tenho mais direitos sobre elas do que, por exemplo, o seu mordomo, e, ouso dizê-lo, quando Miss Virginia for crescida desvanecer-se-á ao usar esses lindos objetos. O senhor esquece também, Mr. Otis, que comprou em conjunto a propriedade e o fantasma, e que tudo o que pertencia ao fantasma passou, implícita e imediatamente, para a sua posse, pois, por maior atividade de que Sir Simon tenha dado sinal durante a noite, nos corredores da casa, ele estava verdadeiramente morto, sob, o ponto de vista jurídico, e a aquisição feita pelo senhor tornou-o possuidor dos bens dele.
Mr. Otis, inconformado com a recusa de Lord Canterville, suplicou-lhe que reconsiderasse a sua decisão, mas o excelentíssimo membro da Câmara dos Lordes inglesa permaneceu rme e acabou por persuadir o embaixador a que consentisse à lha guardar o presente do fantasma. E quando na primavera de 1890 a jovem duquesa de Cheshire foi, por ocasião do seu casamento, apresentada à rainha, as joias que ostentava tornaram-se tema de admiração geral. Virginia recebeu a coroa, que é a recompensa de todas as boas meninas americanas, e desposou aquele que a amava desde a infância, logo que ele atingiu a idade conveniente. Eram ambos tão sedutores e amavam-se tanto que esta união encantava todo o mundo, exceto a velha marquesa de Dumbleton, que havia tentado apoderar-se do duque para uma das suas sete lhas ainda solteiras e que, com esse desígnio, dera nada menos do que três dispendiosos jantares; e, se bem que isto possa parecer estranho, o embaixador sentia pelo duquezinho uma grande afeição, embora, em teoria, não gostasse de títulos de nobreza e, para empregar mesmo palavras suas, «temia que, por in uência das mordomias da aristocracia, os verdadeiros princípios da simplicidade republicana fossem esquecidos». Mas essasobjeções foram esquecidas,e creio bem que, ao avançar, com a lha pelo braço, na nave da Igreja de S. Jorge, não havia, nesse instante, homem mais orgulhoso do que ele na Inglaterra inteira.