O Fantasma de Canterville

Oscar Wilde · Capítulo 3 de 6

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O Fantasma de Canterville

Eram aproximadamente duas horas e um quarto…

Eram aproximadamente duas horas e um quarto da manhã. O fantasma poderia a rmar que todos os moradores da casa repousavam. Mas ao dirigir-se, em ar de passeio, para a biblioteca, a m de ver se ainda restava qualquer vestígio da mancha de sangue, saltaram de súbito sobre ele, de um recanto escuro, dois vultos que agitavam ferozmente os braços por cima da cabeça e lhe berravam U-u! U-u! aos ouvidos.

Tomado de pânico, o que em tais circunstâncias era muitíssimo natural, precipitou-se para a escadaria; porém, aí esperava-o Washington com a grande bomba de água com que se regava o jardim. Cercado de todos os lados pelos inimigos, literalmente encurralado, desapareceu no interior do enorme fogão, que, felizmente para ele, não estava aceso. Teve de abrir caminho através dos canos e das chaminés e alcançou o seu quarto num terrível estado de sujidade, desarranjo e desespero.

 

Após esta aventura renunciou às expedições noturnas. Os gémeos muitas vezes se ocultaram à espera dele e, todas as noites, juncavam os corredores de cascas de nozes, coisa que aborrecia bastante os pais e os criados; mas foi tudo inútil. Era manifesto que o fantasma, ferido nos seus sentimentos, se recusava a aparecer. Em consequência, Mr. Otis retomou a sua grande obra sobre a História do Partido Democrático, em que trabalhava havia uma porção de anos. Mrs. Otis organizou uma maravilhosa festa, que causou espanto em toda a região. Os rapazes dedicaram-se ao cross, ao écarté, ao póquer e a outros jogos nacionais americanos. Virginia percorreu no seu potro todos os caminhos circunvizinhos, em companhia do duque de Cheshire, que tinha vindo passar no castelo de Canterville a sua última semana de férias. Supôs-se, naturalmente, que o fantasma desaparecera dali, e Mr. Otis escreveu a Lord Canterville para informá-lo do caso. Este respondeu que a notícia lhe dava grande prazer e enviou os seus cumprimentos à digna esposa do embaixador.

Mas os Otis enganaram-se, porque o fantasma permanecia ainda na casa e, embora estivesse agora quase inválido, não tinha de forma alguma a intenção de car quieto, sobretudo desde que soube que, entre os convidados, se encontrava o duquezinho de Cheshire, cujo tio-avô, Lord Francis Stilton, apostara um dia cem guinéus em como jogaria dados com o fantasma de Canterville, vindo a ser encontrado, na manhã seguinte, estendido no chão da sala de jogo e completamente paralítico. Não obstante ter vivido atéidadeavançada, nunca mais pôde dizer senão isto: «Sena - Ás!» A história era bem conhecida na época em que sucedera o caso; mas, para poupar o sentimento de duas famílias nobres, tudo foi tentado para ocultar o fato. Todavia, encontrar-se-á uma narrativa pormenorizada a respeito do caso no terceiro volume da obra de Lord Tattle: Memórias Relativas ao Príncipe Regente e seus Amigos. Era consequentemente natural que Sir Simon quisesse provar que não tinha perdido a in uência sobre os Stilton, aos quais o unia um parentesco afastado, devido a uma sua prima-irmã ter casado em segundas núpcias com o senhor de Bulkeley, de quem os duques de Cheshire, como se sabe, descendem em linha direta. Assim, tomou as suas disposições para aparecer ao jovem enamorado de Virginia na sua célebre criação do Monge Vampiro, ou o Beneditino Exangue, espetáculo tão horrível que quando a velha Lady Startup o viu, coisa que lhe sucedeu nessa fatal véspera do ano de 1764, desatou nos mais dilacerantes gritos, que terminaram por um ataque de apoplexia; morreu três dias depois, não sem ter deserdado os parentes, os quais eram os seus parentes mais próximos, e deixando todo o dinheiro que possuía ao seu boticário de Londres.

Mas, à última hora, o terror que lhe davam os gémeos impediu o fantasma de abandonar o seu quarto. E, na câmara real, o duquezinho dormia em paz, no vasto leito de baldaquino ornado de plumas, e sonhava com Virginia.

V

Passados uns dias, andavam Virginia e o seu apaixonado de cabelos encaracolados a percorrer a cavalo as pradarias de Brockley; foi quando a jovenzinha, ao sentir-se presa numa sebe, rasgou o vestido de amazona tão desastradamente que, ao reentrar em casa, decidiu tomar a escada secreta para que ninguém a visse. Porém, ao passar a correr diante da sala das tapeçarias, cuja porta precisamente estava aberta, julgou perceber a existência de alguém no interior. Pensando que seria a criada de quarto da mãe, a qual, às vezes, levava para lá a costura, entrou para pedir à mulher que lhe consertasse a saia. E, com imensa surpresa sua, Virginia viu o fantasma de Canterville em pessoa! Estava sentado junto da janela, contemplando o ouro das árvores amarelentas, vendo as folhas rubras rodopiarem como loucas na grande alameda. Tinha a cabeça apoiada na mão e toda a sua atitude traía uma depressão extrema. Na verdade, ele apresentava um ar tão desolado e tão lamentável que a pequena Virginia, cuja primeira ideia foi fugir e fechar-se no quarto, tomada logo de piedade, resolveu tentar reconfortá-lo. Os passos de Virginia eram tão leves e a melancolia do fantasma tão profunda que este não teve consciência da presença da jovem senão quando ela lhe dirigiu a palavra.

 

— Lamento o que lhe tem acontecido — disse Virginia —, mas os meus irmãos voltam amanhã para Eton e, se o senhor se portar bem, ninguém o atormentará.

— Pedirem-me que me porte bem! Mas é absurdo! — respondeu ele com os olhos escancarados de espanto à vista daquela gentil jovenzinha que ousava dirigir-se a ele. — É completamente absurdo! É imprescindível que eu faça ranger os meus grilhões e que ulule pelos buracos das fechaduras e que passeie por aí de noite, se é a isto que a menina faz alusão. Essa é a minha única razão de existir.

— Isso não é uma razão de existência, e o senhor bem sabe que tem sido muito mau. Mrs. Umney disse-nos, no dia da nossa chegada aqui, que o senhor matou a sua mulher.

— Bem, concordo — disse com vivacidade o fantasma —, mas trata-se de um assunto de família e as pessoas nada têm com isso.

— É muito mau matar alguém — insistiu Virginia, que, às vezes, mostrava uma encantadora expressão de gravidade puritana, herdada de qualquer antepassado da Nova Inglaterra.

— Olhe, detesto esse corriqueiro rigor da ética abstrata! A minha mulher era feia, nunca engomava convenientemente a minha gola de pregas e não sabia nada de cozinha. Olhe, eu tinha matado um veado nos bosques de Hogley, um veadozinho magní co. Quer saber como ela o fez aparecer na mesa? Mas que importa o caso, presentemente?! Tudo isso acabou. Não creio, porém, que fosse muito bonito da parte dos seus irmãos fazerem-me morrer de fome, embora eu a tenha matado.

— Fazê-lo morrer de fome? Oh, senhor fantasma... quero dizer, Sir Simon... o senhor tem fome? Trago uma sanduíche comigo. Quer?

— Não, obrigado, já não como agora. Mas é, apesar de tudo, muita amabilidade da sua parte. A menina é muito mais gentil do que o resto da sua família horrível, grosseira, indigna!

— Cale-se! — bradou Virginia batendo com o pé no chão.—Quem é grosseiro, horrível e vulgar, é o senhor; e, quanto à indignidade, sabe perfeitamente que foi o senhor quem roubou os tubos da minha caixa de pintura para tentar avivar essa ridícula mancha de sangue na biblioteca. Primeiramente, pegou todos os meus vermelhos, sem esquecer o vermelhão, e eu tive de deixar de pintar o pôr do sol; depois, arrebatou o verde e o amarelo cromado; e, nalmente, só me restou o índigo e o branco-da-china, de modo que eu só podia pintar paisagens à luz do luar, que deprimem tanto quando a gente as olha e não são nada fáceis de fazer. Eu nunca disse fosse o que fosse contra o senhor; contudo andava muito aborrecida e tudo aquilo era bastante ridículo. Já se viu sangue de tom verde-esmeralda?

— Mas — disse o fantasma acalmando-se um pouco — que posso eu fazer? Nestes nossos dias, é muito difícil encontrar sangue verdadeiro e, visto que foi o seu irmão a irromper com o tira-nódoas, não vejo motivo para não lançar mão dos tubos que lhe pertencem. Quanto à cor, é simples questão de gosto: os Cantervilles, por exemplo, têm sangue azul, o mais azulado da Inglaterra, mas sei que vocês, os americanos, troçam deveras de tudo isto.

— O senhor não sabe nada a esse respeito, e o melhor que tem a fazer é emigrar, para cultivar o espírito. O meu pai não deixará de sentir-se muitíssimo feliz em lhe conseguir uma passagem gratuita. O senhor não encontrará di culdade alguma, na alfândega, onde todos os funcionários são democratas. Uma vez em Nova Iorque, alcançará o maior dos êxitos. Conheço muita gente que daria cem mil dólares para ter um antepassado, e ainda mais para ter um fantasma na família.

— Estou certo de que não gostaria da América.

— Porque, suponho, não temos lá ruínas, nem curiosidades — disse Virginia ironicamente.

— Nem ruínas! Nem curiosidades! — replicou o fantasma. — Mas têm a sua marinha de guerra e essas suas maneiras!

— Adeus! Vou pedir ao meu pai que conceda aos gémeos uma semana suplementar de férias.

— Não, não vá, Miss Virginia! — exclamou o fantasma. — Estou tão só e tão desgraçado que não sei verdadeiramente o que fazer. Quero dormir e não posso.

— Mas isso é absurdo! Basta deitar-se e soprar a vela. Às vezes, é difícil a gente manter-se acordada, na igreja sobretudo, masdormiré coisa bem fácil. Até os próprios bebés o sabem, e, todavia, não são muito inteligentes.

— Há trezentos anos que não durmo — disse ele com tristeza (os belos olhos azuis de Virginia dilataram-se de espanto). — Há trezentos anos que não durmo, e estou tão cansado!

O rosto de Virginia tornou-se grave e os labiozinhos puseram-se a tremer como pétalas de rosa. Aproximou-se do espectro e, ajoelhando-se junto dele, ergueu os olhos para a velha face enrugada.

— Pobre, pobre fantasma! — murmurou.—Não há então local onde possa dormir?

— Lá em baixo, para lá do pinheiral — respondeu ele numa voz lenta e meditativa — há um jardinzinho. A erva, ali, é espessa e alta, salpicada das grandes estrelas brancas e toda a noite cantam rouxinóis. A fria lua de cristal reclina-se para ver melhor, e o cipreste estende os seus braços gigantescos sobre os que dormem.

Os olhos de Virginia velaram-se de lágrimas e escondeu o rosto nas mãos.

— Fala do cemitério, bem sei — murmurou.

— Sim, do jardim da morte! A morte deve ser tão bela! Repousar na terra doce e escura, tendo as ervas a ondular por cima de nós, e escutar o silêncio! Não ter ontem, nem amanhã! Esquecer tempo! Esquecer a vida, estar em paz! Talvez possa ajudar-me, abrir para mim as portas da casa da morte, porque o amor, mais forte do esta, vive em si, Miss Otis.

Virginia estremeceu; percorreu-a toda um calafrio; durante momentos, fez-se silêncio. Tinha a impressão de estar a ter um terrível sonho. O fantasma voltou então a falar, e a voz dele parecia um suspiro do vento.

— Já alguma vez leu a velha profecia inscrita nos vitrais da biblioteca?

— Oh, muitas vezes! — exclamou aVirginia, erguendo os olhos para o seu interlocutor. — Conheço-a muito bem. Está pintada em curiosas letras negras e é difícil de ler. São apenas seis versos:

Quando uma criança de coração puro conseguir

Tirar dos lábios pecaminosos uma prece,

Quando a estéril amendoeira orescer,

Quando dos olhos puros brotar uma lágrima,

Esta casa cará para todo o sempre tranquila,

A paz voltará a Canterville.

— Mas não sei o que isto quer dizer.

— Isto quer dizer — respondeu ele tristemente — que a menina deve chorar comigo pelos meus pecados, porque eu já não tenho lágrimas, e rezar comigo pela minha alma, porque nada me resta de fé. Então, se tiver sido sempre meiga e boa, o anjo da morte terá piedade de mim. Há de ver, na escuridão, vultos horríveis; vozes maldosas falar-lhe-ão ao ouvido, mas não sofrerá mal algum porque o inferno nada pode contra a pureza de uma criança.

Virginia não respondeu e o fantasma torceu as mãos com desespero, baixando o olhar sobre a cabeça coroada de cabelos de ouro reclinada perto dele. A jovem ergueu-se de súbito, muito pálida. Um estranho clarão perpassou pelo seu olhar.

— Não tenho medo — disse ela com rmeza. — Rogarei ao anjo que tenha piedade de si.

O fantasma endireitou o busto, ao mesmo tempo em que soltava um débil grito de alegria, e, inclinando-se, com uma gentileza já há muito fora de moda, pegou na mão da jovenzinha e beijou-a. Os dedos de Sir Simon tinham a frieza do gelo e os seus lábios queimavam como fogo, mas Virginia não sentiu o menor desfalecimento, enquanto ele a fazia atravessar o compartimento cheio de sombras. Bordadas nas tapeçarias, cujo tom verde fora desbotando, viam-se gurinhas de caçadores. Estes sopraram nas suas trompas ornadas de glandes e, com as minúsculas mãos, zeram-lhe sinal para que fugisse. — Volta para trás, Virginiazinha — gritavam eles! Mas o fantasma apertava-lhe a mão com mais força e Virginia fechou os olhos para não os ver. Horrorosos animais de caudas semelhantes às dos lagartos, olhos salientes da cabeça, pestanejaram-lhe repetidamente, de cima da chaminé esculpida, e murmuravam: — Toma cuidado, Virginiazinha, toma cuidado! Mas, o fantasma deslizou com mais celeridade e Virginia não deu ouvidos àqueles. Ao atingirem a extremidade da sala, o fantasma parou e murmurou umas palavras que Virginia não pôde compreender. Ela abriu os olhos e viu a parede desaparecer lentamente como um nevoeiro, após o que se encontrou diante de uma grande caverna negra. Envolveu-os um vento áspero e frio e a jovem sentiu que a puxavam pela saia.

— Depressa! Depressa! — gritou o fantasma. — Senão será demasiado tarde.

Num instante, o forro de madeira tomou a cerrar-se por detrás deles. A sala das tapeçarias cara vazia.