O Faraó Negro

Christian Jacq · Capítulo 2 de 4 · parte 3/3

Páginas do PDF

O Faraó Negro

— Não deis ouvidos a essa moça,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Retirar! berrou Lamerskény.

O capitão protegeu durante alguns instantes os seus homens que corriam para a parte mais estreita da planície e depois imitou-os.

Soltando gritos de vitória, os líbios perseguiram-nos.

Foram presas fáceis para os arqueiros de Puarma. O resto do corpo expedicionário atacou o flanco esquerdo do regimento nortista, partindo-o em dois, enquanto Lamerskény, passando a toda a velocidade em sentido contrário ao da coluna inimiga com os seus melhores elementos, lhe cortava qualquer tentativa de retirada.

A incursão dos líbios saldava-se por um estrondoso fracasso. Mas Lamerskény não queria ficar por ali e forçou a vantagem obtida.

— Para o Nilo! ordenou.

Arqueiros e soldados de infantaria lançaram-se ao assalto dos barcos nortistas, atacados ao mesmo tempo pela frota núbia. Superiores em número, entusiasmados pelo seu êxito, os homens de Piankhi venceram facilmente e queimaram os barcos de Tefnakhte.

— Agora, Heracleopólis! decidiu Puarma.

— Não objetou Lamerskény olha!

 

As muralhas intactas, os arqueiros em grande número e os relinchos dos cavalos preparados para puxar os carros reunidos no norte da cidade... O grande exército de Tefnakhte estava intacto.

— Não lhes fizemos mais do que um arranhão considerou Lamerskény.

 

À sombra de um palanque de colunas de madeira dourada, próximo de um espelho de água onde se banhavam quando o calor se tornava muito forte, Piankhi e a sua esposa Abilé divertiam-se com o jogo do cão e do chacal. Sobre a superfície plana de uma pequena tábua de madeira de sicômoro tinham sido escavados trinta buracos nos quais os adversários colocavam pauzinhos pontiagudos cuja extremidade superior tinha a forma quer de uma cabeça de cão, quer de uma cabeça de chacal.

Nem o rei nem a rainha usavam vestuário, mas tinham a pele untada com óleo de moringa e perfumada com kyphi, a obra-prima fabricada pela filha. Depois de terem feito amor na água deliciosa do lago, enfrentavam-se muito sérios.

Na seqüência de uma brilhante manobra, Piankhi estava convencido que os seus chacais iam vencer os cães da esposa. Mas o monarca, perturbado com a beleza selvagem de Abilé, sentia cada vez mais dificuldade em concentrar-se. Sentindo o seu olhar deslizar sobre ela como uma mão acariciadora, a maravilhosa núbia começou a mover-se de forma quase imperceptível para perturbar ainda mais o jogador.

Avançou a mão muito lentamente para a mesa de madeira de sicômoro, deslocou um cão de cabeça esguia e agressiva e apoderou-se de cinco chacais.

— Ganhaste reconheceu Piankhi. Mas fizeste batota.

— Eu, fiz batota?

— Enfeitiçaste-me.

— A regra deste jogo proíbe-o?

O faraó negro enlaçou a esposa como se lhe demonstrasse o seu amor pela primeira vez.

— Como todas as rainhas do Egito, és uma grande feiticeira. O teu olhar conhece o segredo de mundos que não consigo atingir.

— Estás muito modesto, Majestade... Não te pertence o poder?

— Possa ele servir-me para proteger a Núbia de todo o perigo!

— Que temos a recear?

O olhar de Piankhi ensombrou-se.

— Este sol tão generoso não dissimulará as trevas?

Um pequeno macaco trepou ao cimo de uma palmeira, um gato branco e fulvo, de ventre rotundo, deslizou para debaixo de um maciço de hibiscos.

Aproximava-se alguém.

— Sou eu, Majestade! anunciou Cabeça-fria, que trazia um pesado cofre cheio de papiros. Tenho relatórios de Puarma!

Na presença do faraó e da grande esposa real, e obedecendo a uma ordem sua, Cabeça-fria revelou aos membros do grande conselho o conteúdo dos relatórios.

— Os capitães Puarma e Lamerskény encontraram uma forte oposição no Médio Egito. De acordo com as ordens de Sua Majestade, salvaram e protegeram Tebas, não atacaram a cidade sagrada de Thot, Hermopólis, cujo príncipe, Nemrod, traiu a confiança do Faraó, mas tentaram apoderar-se de Heracleopólis, cidade igualmente dominada pelo inimigo por causa da derrota de Pefteu. A cidade foi transformada em fortaleza e os nossos peritos consideram-na Atualmente inexpugnável.

— A missão do corpo expedicionário é então um fracasso! constatou o decano Kapa, estupefato.

— A situação é mais grave do que podíamos supor confessou o escriba. Tefnakhte é um verdadeiro chefe de guerra e reuniu um grande número de soldados a norte de Heracleopólis, cujas muralhas são defendidas por arqueiros de elite. Os comandantes Lamerskény e Puarma devem portanto limitar-se a ir castigando o inimigo e barrar-lhe a passagem para sul.

— Tefnakhte pode atacar Tebas?

— A cidade santa não corre qualquer perigo. As nossas tropas fecharam a fronteira meridional e a província de Liévre e a guarnição da cidade de Amon está em alerta permanente. Na realidade, Tefnakhte não pode avançar mais.

— E nós - constatou o decano com amargura não podemos avançar para o norte. O prestígio do faraó está manchado, já não reina sobre o seu próprio país!

— Os oficiais do corpo expedicionário não regateiam esforços, mas têm a preocupação de poupar os seus homens e de não cortar a ligação com as bases lançando-se numa aventura excessivamente arriscada. Segundo o capitão Lamerskény, cuja bravura e experiência não podem ser postas em dúvida, é impossível aniquilar as forças de Tefnakhte.

Um pesado silêncio sucedeu-se a esta declaração. Foi a rainha Abilé que o quebrou.

— Como é tratada a população do Médio Egito? O escriba sentiu-se pouco à vontade.

— Majestade, eu...

— A verdade, Cabeça-fria!

— Os nortistas estão em guerra e não se preocupam com o bem-estar daqueles que consideram como seus súditos. As nossas tropas tentam auxiliar os mais necessitados, mas várias aldeias foram destruídas e muitos inocentes pereceram.

— O Egito está a mergulhar na anarquia considerou o decano. Nem justiça, nem segurança, nem respeito pelos outros, mas apenas a violência odiosa e a infelicidade que rasteja como uma serpente.

— Cessemos de colocar inutilmente em perigo os nossos soldados recomendou o obeso Otokou e construamos uma barreira de fortins a norte de Tebas. Visto que o Médio Egito está perdido, aceitemos isso. Não devemos tirar lições de uma derrota?

— Piankhi é o faraó do Alto e do Baixo Egito! protestou o velho Kapa. Não deve abandonar mais de metade do território a um criador de complicações que esmaga o povo sob o jugo de uma impiedosa tirania.

— É uma visão de grande nobreza, mas está ultrapassada e sou o primeiro a deplorá-lo disse Otokou com gravidade. A idade de ouro terminou e ninguém a ressuscitará. Deixemos de sonhar e constatemos os fatos: Piankhi reina sobre um reino composto pela Núbia e o Alto Egito; Tefnakhte deitou a mão ao resto do país e não o abandonará nunca mais. Tenhamos apenas um único objetivo: preservar os nossos valores sagrados, a nossa alegria de viver e a paz. Para tal, negociemos e reconheçamos a fronteira surgida desses combates.

Piankhi ergueu-se.

Pelo seu olhar e atitude, Abilé compreendeu que estava tão furioso como uma pantera enraivecida.

A voz do rei encheu a sala de audiências.

— Recuso a injustiça e as exigências bárbaras daquele que se considera o mais forte. Tefnakhte violou a lei de Maât e continuará a violar se eu não intervier. Atribuindo a dois capitães a missão de aniquilar o exército nortista, esperava que eles conseguissem pôr rapidamente fim a essa sublevação. Como se comportaram os nossos soldados? Deixaram o inimigo quase incólume e fortaleceram a sua decisão de nos atacar! Tão certo como eu viver e ser amado por Ra, tão certo como meu pai Amon me guiar, irei eu próprio ao Egito e acabarei com as manobras perniciosas de Tefnakhte. Fá-lo-ei renunciar para sempre à luta e os nortistas sentirão a firmeza do meu pulso!

Ninguém se atreveu a usar da palavra depois do rei. A esposa seguiu-o até ao terraço do palácio.

— Sei que não me aprovas, Abilé, mas não tenho já o direito de gozar de uma felicidade egoísta quando o Egito está dominado pelo sofrimento. Esperava realmente que Lamerskény e Puarma me dispensassem de deixar Napata e me empenhar pessoalmente nesta batalha. Enganei-me profundamente ao subestimar o adversário. Atualmente, o meu coração está cheio de fúria contra mim próprio, contra a minha imprevidência e falta de lucidez. Foi por causa das minhas fraquezas que Tefnakhte se convenceu que era capaz de conquistar as Duas Terras. Compete-me a mim libertá-las do fardo que sobre elas pesa e de que me considero responsável.

— Enganas-te, Piankhi. O desejo de conquistar e destruir para saciar a sua sede de poder pessoal é a única razão de viver de Tefnakhte e nada nem ninguém o teriam feito recuar.

— Recuará, juro que recuará.

— Piankhi...

— Não, Abilé. Devo partir para fazer viver a lei de Maât. Se o faraó não cumpre o primeiro dos seus deveres, a felicidade desaparecerá desta terra.

— Não te peço que fiques. Quero partir contigo.

 

Os dois exércitos estavam misturados, a violência do embate fora terrível, uma multidão de jovens tinha sucumbido e essa atroz visão assombrava as noites do príncipe Nemrod. O desencadear da violência fazia-o descobrir um mundo de cuja existência não desconfiava, um mundo onde se libertavam incontroláveis instintos que a sua educação de notável não o preparara para enfrentar.

Invadira-o um estranho sentimento: sentia a falta da sua cidade. Ele, que sonhava trocá-la por Mênfis, sentia-se órfão dos seus monumentos, das suas ruelas, das suas casas. Encerrado em Heracleopólis, abandonava os seus entre as mãos de uma soldadesca que apenas pensava em derramar sangue e que, amanhã, talvez destruísse a antiga cidade de Thot.

Nemrod apresentou-se no quartel-general de Tefnakhte. Yegeb impediu-lhe a entrada.

— Lamento, príncipe, o general está muito ocupado e...

—Afasta-te.

— Garanto-vos...

Com uma firmeza que não era habitual nele, Nemrod empurrou o semita e abriu a porta do gabinete onde o general tinha estendido um mapa da região no qual marcava, a vermelho, as localidades que controlava e a negro as que ainda obedeciam a Piankhi.

— Podes escutar-me?

— Príncipe Nemrod! Entra e fecha a porta atrás de ti. Este mapa é o mais precioso dos meus segredos militares.

— Por que não tenho o direito de o examinar?

Nos olhos negros de Tefnakhte perpassou um fulgor de surpresa.

— Interessas-te pela arte da guerra, príncipe Nemrod?

— Quero defender pessoalmente a minha cidade contra Piankhi. Quem melhor do que eu conhece Hermopólis na perfeição? Visto que a nossa cilada não funcionou, reconstruirei a parte das muralhas que destruímos e reforçá-las-ei.

Tefnakhte pareceu pouco convencido.

— Uma atitude inesperada, Nemrod.

— Implicaste-me nesta guerra, general, e o sangue das vítimas sujou o meu olhar. No meio desta tormenta, uma verdade se me impôs: a minha cidade é o meu bem mais querido.

— Se Piankhi contra-atacar, estarás na primeira linha.

— Conheço bem o faraó negro: nunca abandonará a sua capital. Os seus homens continuarão a marcar passo e acabarão por estabelecer uma espécie de fronteira a sul da minha província.

— Destruí-la-ei prometeu Tefnakhte.

— Podes contar com a minha cidade e com o meu auxílio, general.

== Parte para Hermopólis, Nemrod, e transforma-a numa cidadela impossível de conquistar.

 

O capitão Lamerskény dormia ao ar livre, ladeado por dois cães de um tom amarelo areia que o alertariam ao menor perigo. Durante o seu sono, leve como o de um animal selvagem, o oficial sonhava com a Núbia e com os seus longos passeios solitários pela savana. Ele, que tinha partido para travar uma guerra franca e alegre, estava envolvido num conflito cruel e sem saída.

Privado de qualquer reforço proveniente de Tebas, cujas defesas não deviam ser desguarnecidas, o corpo expedicionário só tinha uma solução: poupar-se, restringindo os ataques a escaramuças que deixavam intacto o grosso das tropas de Tefnakhte. Os núbios retomavam uma aldeia que tinham libertado quinze dias antes e depois abandonavam-na, deixando-a exposta a um contra-ataque nortista. E este vaivém traduzia-se por um imobilismo que corroía o íntimo de Lamerskény. Mergulhavam numa cloaca, numa espécie de nem guerra nem paz, sem esperança nem futuro, onde os mais pobres se tornavam ainda mais pobres.

De que servia combater para obter um resultado daqueles? Lamerskény sentia desejo de se demitir e entregar a sua espada ao faraó negro. Deixava a soldados mais jovens e mais convictos a tarefa de tomarem o testemunho e acreditarem que o mesmo sol se ergueria amanhã.

Os dois cães rosnaram ao mesmo tempo. Lamerskény ergueu-se de imediato, com a espada na mão.

— Sou eu, Puarma.

— Porque me despertas a meio da noite?

— Os homens de Tefnakhte tentam forçar a passagem e ultrapassar a fronteira da província de Liévre.

— Ah, é só isso...

— Se conseguirem, avançarão para Tebas!

— Da próxima vez, deixa-me dormir. O dispositivo que instalei não lhes dá qualquer hipótese de passar.

— E se estivesses enganado?

— Dorme em paz, Puarma.

 

Nartreb estava vermelho de cólera.

— Uns incapazes e uns cobardes! É necessário impor sanções, senhor!

O rosto desgracioso e ossudo de Tefnakhte não evidenciava qualquer sinal de contrariedade.

— Quais, Nartreb? Todos os membros do comando que tu próprio tinhas escolhido estão mortos. Não terão nem rituais fúnebres nem sepultura. Que outro castigo poderia infligir-lhes? Desejavas verificar a eficácia da defesa adversária... Agora já sabemos. A fronteira da província de Liévre não pode ser franqueada.

Uma expressão de contrariedade deformou o rosto lunar de Nartreb.

— Pelo menos, estamos informados... Piankhi compreendeu que era inútil atacar-vos. Mantém-se na defensiva.

— Se continua a considerar-se o faraó do Alto e do Baixo Egito, não tolerará durante muito mais tempo uma situação que nega a sua soberania de forma tão gritante.

Os olhos minúsculos do semita tornaram-se interrogativos.

— Pensais... que vai intervir pessoalmente?

— O faraó negro é demasiado vaidoso para deixar a sua capital núbia onde passa dias felizes, adulado por cortesãos pródigos em lisonjas.

— Então... qual é a vossa idéia?

— A manifestação da sua cólera, ou seja, uma ofensiva contra Hermopólis.

Nartreb esfregou os dedos gorduchos uns de encontro aos outros.

— Yegeb não crê na fidelidade do príncipe Nemrod... E eu também não.

— Tomas-me por um ingênuo? A fidelidade é um sentimento inventado pelos moralistas que ignoram os imperativos da ação. Como qualquer outra pessoa, Nemrod está pronto a trair para salvaguardar os seus interesses. Mas um amor orienta a sua conduta: o que sente pela sua cidade. E sabe que Piankhi não lhe perdoará a sua deserção. Portanto, não lhe resta senão uma solução: fazer dela uma fortaleza capaz de repelir todos os assaltos e defendê-la até ao limite das suas energias. Nemrod o indeciso tornou-se um dos pilares da minha estratégia.

— Senhor... desejais que ordene a um novo comando que franqueie a fronteira da província de Liévre?

— Essas iniciativas brutais não conduzirão a nada. Aurora tem razão: Yegeb e tu devem preocupar-se exclusivamente com a gestão dos territórios que controlamos.

Trêmulo de raiva, o semita retirou-se.

Descalça, a amante do general aproximou-se sem fazer ruído e pousou as mãos perfumadas sobre o seu peito.

— Livra-te deste homem e do seu cúmplice, Yegeb. Não querem saber do teu destino e só lhes interessa o seu enriquecimento pessoal.

Tefnakhte beijou os dedos de excepcional delicadeza.

— Achas que não sei? Todo o chefe de Estado tem necessidade deste gênero de insetos que persegue os hesitantes e suprime os recalcitrantes. Para manterem o seu lugar e os seus privilégios, Yegeb e Nartreb não hesitarão em corromper e matar. É por isso que são os meus mais preciosos auxiliares.

 

Envergando uma pele de pantera, o ritualista dirigiu-se a Piankhi em tom firme.

— Impossível, Majestade.

— No entanto, tenho que partir.

— Impossível, enquanto os astros não forem favoráveis. Se não fizerdes caso, o vosso empreendimento será votado ao fracasso. Somos os filhos das estrelas e temos de respeitar a sua mensagem.

— Quanto tempo terei que esperar?

— Alguns dias, Majestade, até à próxima lunação. Quando a lua, o olho esquerdo de Hórus, estiver em harmonia com a vossa viagem, Seth o destruidor nada poderá fazer para a quebrar em vários pedaços e a luta cósmica dos dois irmãos acalmar-se-á. O seu vigor tornar-se-á o vosso e a vossa força crescerá com a lua crescente. Lembrai-vos, Majestade: a lua completa, reconstituída, é a imagem do Egito feliz, possuidor de todas as suas províncias.

 

O próprio Piankhi verificou o equipamento dos seus soldados. Examinou saiotes, sandálias, cinturões, capas, espadas, arcos, escudos e flechas, recusando os objetos medíocres. Depois, o rei preocupou-se com o alimento preferido dos núbios, peixe seco e conservado em vasos sob a forma de enormes enchidos. Tendo em consideração o tempo de viagem e o número de guerreiros que conduziria até ao Egito, os pescadores e fabricantes de conservas trabalhavam dia e noite. Abilé não estava inativa. Tendo conseguido o acordo do esposo, preocupava-se com as indispensáveis medidas de higiene e, particularmente, com a reserva de sabões, cuja matéria-prima era extraída da casca e da madeira da balanite, árvore rica em saponina.

Napata inteira se afadigava com a aproximação da partida de Piankhi, cuja iminência tirava o apetite a Otokou. Quando o faraó ia a entrar na oficina de um fabricante de rodas, o obeso atreveu-se a abordar o soberano.

— Majestade... Refleti!

Piankhi ficou admirado.

— Que tormento te aflige, meu amigo?

— Essa partida é uma loucura! Napata tem necessidade de ti.

— Esta cidade é rica e calma. O que tem ela a temer?

— Ou serás morto por Tefnakhte que invadirá a Núbia, ou residirás em Tebas para governar o Egito e a Núbia, evitando uma nova revolta dos nortistas. Tanto num caso como no outro, Napata ficará órfã.

— És lúcido, Otokou, mas o meu destino não me pertence. Amon escolheu-me como faraó e concedeu-me muita felicidade. Hoje, na hora em que o meu país sofre e se arrisca a desaparecer, tenho o direito de me mostrar ingrato?

— Poderias contentar-te em enviar outro corpo expedicionário...

— O bom nome do Faraó foi maculado. Nem tu nem o mais humilde dos meus súbditos podeis tolerar esta afronta.

— Como sobreviverá Napata sem ti?

— Confio a minha capital a um responsável que a ama e saberá preservá-la de qualquer ataque: a ti, Otokou.

— Mas, Majestade...

— Serás um excelente governador, na condição de consultares de vez em quando o velho Kapa e de ter as suas opiniões em consideração. Graças aos mensageiros que irão constantemente de Tebas a Napata e de Napata a Tebas, orientarei as tuas decisões. Estás mais descansado?

— Não, Majestade.

— Ainda bem; assim, permanecerás vigilante.

Abandonando o obeso, Piankhi entrou na oficina onde trabalhava o especialista na fabricação de rodas de carro. O rei sabia que a sorte da guerra talvez fosse decidida por um pormenor: a solidez das rodas que seriam submetidas a rude prova durante os confrontos.

O artesão aperfeiçoara a sua própria técnica e guardava ciosamente o segredo. O ajustar dos raios, em especial, era de precisão extraordinária e a escolha dos diâmetros atingia a perfeição. Piankhi experimentara diversos carros em terrenos difíceis e o material revelara-se de notável resistência.

— O teu trabalho está terminado?

— Mais dois ou três dias, Majestade, e entregar-vos-ei a totalidade das rodas exigidas.

— Podes garantir-me a sua qualidade?

— Pela minha própria vida, Majestade! Pedras, areia, solo lodoso, declives... Sereis vencedor em qualquer terreno. As rodas dos nortistas quebrar-se-ão antes das nossas, garanto-vos!

Comovido, o artesão contemplou a obra que acabava de concluir.

— Como uma roda é bela! Parece fixa, imóvel e, no entanto, contém o segredo do movimento. Nela nascem todos os caminhos e, quando se detém, guarda a recordação dos caminhos percorridos. Mas mais valeria que nunca girasse, visto que só é utilizada para a guerra.

— Se não combater os nortistas, estes descerão até Napata e destruirão aquilo que construímos. Graças a ti, impedirei esse desastre.

 

— Estás pronta, Chépéna? perguntou Piankhi à filha que, no seu laboratório, terminava a preparação de um perfume fresco como uma madrugada primaveril.

— Queria esquecer que um dia teria que deixar a minha terra natal, a minha cidade e este lugar onde tantas alegrias vivi. Não renunciaste ao teu projeto, pai?

— Bem sabes que não.

— Terei de residir em Tebas até ao fim dos meus dias?

— É a regra que se aplica à Divina Adoradora. Chépéna estava quase a chorar.

— Destroças-me o coração!

Piankhi apertou ternamente a filha de encontro a si. Tenho consciência disso, Chépéna, mas foi a tua própria maneira de ser que me levou a designar-te como a futura soberana de Tebas. Reinarás sobre Karnak, o templo dos templos, e preservarás o caráter sagrado da nossa civilização.

— Esta missão é... aterradora!

— Não, minha filha: é exaltante. Logo que envergares o teu vestido ritual de Divina Adoradora, a sabedoria das que te precederam será o teu mais precioso auxílio. Não receies, Chépéna: és depositária de uma força cuja verdadeira natureza ignoras. Revelar-se-á quando exerceres a função para a qual foste feita.

— Até à partida, meditarei no templo. Chépéna beijou as mãos do pai.

Piankhi saiu da cidade para contemplar de longe a Montanha Pura e o seu cume à luz do poente.

O trabalho dos escultores estava concluído. O Gebel Barkal imprimiria para sempre o selo da instituição faraônica no coração da Núbia.

O coração de Piankhi contraiu-se. Tornaria alguma vez a ver aquela montanha à sombra da qual tinha sido construído o templo de Amon, distante eco do de Karnak? Esperara não se afastar dele e envelhecer em paz sob a sua proteção.

Mas o destino assumia repentinamente outro rosto e apresentava as suas exigências às quais o faraó negro não podia escusar-se. A sua felicidade, o decurso regular e tranqüilo dos dias, o esplendor do seu palácio... nada disso contava face à tragédia que mergulhava o povo do Egito no desespero.

A menos de um metro de Piankhi, as moitas agitaram-se.

Surgiu delas uma cobra de pescoço negro, agressiva e pronta para morder.

O faraó não teve tempo de reagir, mas um mangusto6, mais rápido que o réptil, lançou-se sobre ele e fechou as mandíbulas sobre a sua nuca.

Com os pêlos eriçados de cólera, o pequeno carnívoro de focinho triangular e cauda longa e flexível sabia encontrar as posições de combate adequadas para evitar a mordedura do réptil. Não era o mangusto uma das manifestações de Áton, o criador? Aceitando por vezes ser domesticado, livrava o seu proprietário de lagartos, ratazanas e ratos. Em reconhecimento disso, mumificavam-no e depositavam o seu corpo de eternidade num sarcófago do seu tamanho.

A luta tinha sido breve e violenta. Recuperando o fôlego, o mangusto fitava o cadáver da cobra.

Piankhi pegou-lhe e ele não tentou escapar.

6 O icneumo, denominado «rato do Faraó”

Mostraste-me o exemplo; levar-te-ei comigo.

 

A semana tinha sido satisfatória, pois o corpo expedicionário núbio perdera o controle de duas aldeias e não atacara nenhuma patrulha líbia. Tefnakhte recebia do Norte um reabastecimento regular e abundante e reforçava constantemente as defesas de Heracleopólis.

Sentado num assento baixo com patas de leão, via Aurora alisar os cabelos antes de os cobrir com uma luxuosa peruca.

— Esta situação já durou o suficiente... É preciso descobrir um meio de provocar o assalto do corpo expedicionário, exterminá-lo e fazer vir em seu socorro parte das tropas estacionadas em Tebas. Depois, a via estará livre.

— Não há melhor estratégia, meu querido.

— Vamos então pô-la em ação! Tentemos convencer o inimigo que Heracleopólis é fácil de dominar.

— Por que não afirmar alto e bom som que deixaste a cidade e que o príncipe Pefteu tornou a ser vassalo de Piankhi? Os núbios não desconfiarão do seu aliado e a armadilha fechar-se-á sobre eles.

Tefnakhte beijou Aurora no pescoço.

— Tu sozinha substituis um conselho de guerra.

— Quero vencer... por ti, pelo Egito!

O ajudante de campo de Tefnakhte anunciou Yegeb.

— Mais tarde!

— O vosso conselheiro afirma que é urgente.

— Então que entre...

Havia medo no olhar de Yegeb.

— Senhor, uma terrível notícia!

— De onde a recebeste?

Da nossa rede de informações tebana. Piankhi acaba de enviar uma mensagem: sai de Napata e anuncia a sua chegada à cidade de Amon.

Aurora cobriu o corpo perfeito com um véu branco.

— Nunca teria acreditado em tal admitiu Tefnakhte.

— Isso modifica tudo considerou a jovem. Em breve nos bateremos contra o chefe dos núbios. Tefnakhte e Piankhi frente a frente... Após a morte do faraó negro, os seus partidários deporão as armas.

— Justamente disse — Yegeb com voz sibilante — seria bom que Piankhi nunca chegasse ao Médio Egito.

— Excelente idéia considerou Tefnakhte mas como havemos de organizar uma emboscada? O Sul é-lhe dedicado!

— A viagem será longa e difícil... Tentemos infiltrar alguns homens decididos pelo deserto de Leste. Se fracassarem, Piankhi chegará a Tebas e a cidade de Amon será o seu túmulo.

 

Graças a uma jovem camponesa pouco arisca e desejosa de se aperfeiçoar nos jogos do amor, o capitão Lamerskény passara uma noite divertida. Durante algumas horas, esquecera os fracassos das últimas semanas. Nem uma única patrulha líbia caíra nas suas redes, nenhum confronto digno desse nome, e aquele marasmo cada dia mais acentuado.

Lamerskény tentara por diversas vezes convencer Puarma a apelar para as tropas estacionadas em Tebas, não para atacar o fortíssimo ferrolho de Heracleopólis mas para recuperar de forma definitiva várias localidades da província de Liévre e torná-la mais segura. Mas o capitão dos arqueiros recusava enfraquecer o sistema defensivo da cidade de Amon.

Desta vez, estava decidido: Lamerskény apresentava a sua demissão a Puarma e entregava-lhe o comando. Ignorava ainda o que faria da sua existência; o homem do braço de acácia apenas sabia ser soldado e qualquer outra atividade lhe parecia incongruente.

Ceder assim perante aquele arqueiro que nunca saberia conduzir uma ofensiva capaz afligia Lamerskény, mas embrulhar-se nesta guerra de posições ainda lhe era mais insuportável. Privado do grande vento da aventura, estiolava.

Quando Puarma se aproximou com um grande sorriso nos lábios, Lamerskény compreendeu que ele adivinhara as suas intenções e se alegrava de antemão por ficar com as mãos livres. Um militar de carreira preparado para qualquer compromisso... eis o que era aquele manejador de flechas.

— Uma mensagem proveniente de Tebas revelou.

— Novas ordens?

— Melhor, Lamerskény. Muito melhor.

O capitão de infantaria franziu o sobrolho.

— Não compreendo...

— Piankhi está a chegar.

 

Desde o seu regresso a Hermopólis, o príncipe Nemrod revivia. Reencontrara os seus hábitos, os seus cortesãos, o seu palácio, o seu cozinheiro preferido e passava a maior parte do tempo a passear pelas ruas daquela cidade que por pouco não perdera.

As mulheres e os banquetes não passavam de distrações secundárias; a sua única amante era Hermopólis e havia de embelezá-la, estação após estação, para fazer dela a cidade mais atraente da região. Ao seu mordomo, que lhe recordara com tacto que a guerra continuava a existir, Nemrod contentara-se em responder que essa situação estacionária iria com certeza durar dezenas de anos e que o melhor era esquecê-la. Sim, esquecer, como a sua traição.

O príncipe bebia vinho branco fresco enquanto ouvia o canto de um harpista no vale das Tamargueiras, não longe do grande templo de Thot, à sombra de um caramanchão ao longo do qual trepavam clematites.

O chefe da sua milícia atreveu-se a interromper aquele momento de requinte.

— Algum problema da administração?

— Não, príncipe. Um mensageiro acaba de trazer um papiro com o selo de Tefnakhte.

Nemrod quebrou o selo do general e desenrolou o papiro.

Releu diversas vezes as poucas linhas escritas pessoalmente pelo general e tentou convencer-se que se tratava de um mau sonho. Não, o faraó negro não podia ter deixado Napata em direção a Tebas. Não, não atacaria Hermopólis. Desde a sua designação como governador de Napata, Otokou recusava-se sempre a pôr o pé no chão em frente de um inferior e os seus servidores transportavam os seus cento e sessenta quilos de um lado para outro da capital.

 

O obeso afligia-se a ponto de saltar por vezes uma das cinco refeições do dia. Confiara a responsabilidade da sua tribo a um primo cuja cabeça cortaria se desviasse a mais pequena porção de ouro e ele, Otokou, iniciava-se nos mistérios da administração central.

Quando o obeso assumia um compromisso, não agia como diletante. Mesmo que deitasse a sua saúde a perder, preservaria a prosperidade de Napata. O necessário era fazer-se respeitar pelos escribas e demonstrar-lhes que não era um homem de palha.

Para alcançar isso, só havia um meio: conseguir o auxílio incondicional de Cabeça-fria. Era essa a razão pela qual Otokou se fazia transportar a toda a velocidade na direção de sua casa, uma linda villa de quinze divisões oculta no centro de um jardim luxuriante onde predominavam as palmeiras mediterrâneas.

A esposa do anão era uma bela núbia de seios generosos que dera à luz um rapaz e uma moça. Com catorze e doze anos, destinavam-se à carreira de escriba e ouviam atentamente os ensinamentos do pai.

O porteiro saudou com uma profunda vênia o senhor Otokou e os transportadores seguiram pela álea arenosa que ia dar à entrada principal da morada de Cabeça-fria.

No limiar, a esposa do anão chorava.

— Senhora Cabeça-fria, não desejaria importunar-vos, mas preciso de consultar o vosso marido o mais rapidamente possível.

— Ai, é impossível.

— Um calafrio percorreu o corpo maciço de Otokou.

— Não pretendeis dizer que...

— Não, não, senhor... Cabeça-fria está bem vivo, mas Piankhi levou-o consigo.

O golpe era rude. Otokou desembaraçar-se-ia sozinho e o faraó negro havia de ficar orgulhoso dele. O ar transparente dava realce às ondulações amarelas do deserto depois de o véu de bruma da manhã se ter dissipado. A frota de Piankhi avançava numa paisagem que o seu exército descobria maravilhado: as planícies de cor fulva, o alaranjado dos grés, as inúmeras palmeiras, uma faixa de terra irrigada de razoável largura, os cambiantes dos trigos e das cevadas formavam um enquadramento mais ameno do que o da quarta catarata. Com impressionante vigor, o Nilo corria para norte; desafiava vitoriosamente um deserto menos agressivo e atravessava pequenas aldeias de casas brancas cujos habitantes, amontoados nas margens, aclamavam o par real, visível à proa do navio almirante.

 

A mão de Piankhi apertava a de Abilé. Inundava o olhar com a beleza luminosa da terra núbia cujo fogo alimentava a sua alma. Empoleirados no topo das palmeiras, riam macacos; dançando no céu azul, andorinhas desenhavam curvas em redor do vôo regular e majestoso dos íbis brancos.

Cabeça-fria trouxe taças de sumo de alfarroba fresco.

— Majestade... Permiti-me que vos faça notar que estais demasiado exposto. Aqui, à proa, proporcionais um alvo ideal para um arqueiro experiente.

— Não sejas tão pessimista: ainda não estamos em território ocupado por Tefnakhte.

— E se ele tivesse sido informado da vossa partida, se tivesse enviado assassinos para vos impedir de chegar a Tebas?

— Impossível.

— Assim o espero, Majestade, mas não devemos recear o pior de um inimigo como Tefnakhte?

— O que pensariam os núbios se eu me encerrasse na minha cabina? Chamariam cobarde ao Faraó e deixariam de ter confiança nele! Não é a tua opinião, Abilé?

— Cabeça-fria tem razão e tu também.

O rei e a rainha permaneceram à proa com o olhar fixo no Norte, onde os esperava a violência e a morte.

— Majestade disse o capitão aproximamo-nos da ilha de Argo. A navegação parece rápida e fácil, mas receio este local. A ilha tem o comprimento de trinta quilômetros e temos de escolher um dos dois braços que a rodeiam. Se nos enganarmos, arriscamo-nos a encontrar uma corrente desfavorável.

— Poderia colocar a frota em perigo?

— Os barcos de carga, com certeza.

— Nos lanchões com vinte metros de comprimento havia cereais, jarros com óleo, vinho e cerveja, aves, gado, legumes, sal, queijo, conservas de carne e de peixe e o arsenal necessário para um exército, sem esquecer os transportes de cavalos tratados com o maior cuidado.

— Em que vais basear a tua decisão?

— Na sorte, Majestade.

— Mostra-me um mapa.

Piankhi não o examinou com os olhos mas com as mãos. O tacto era um sentido muito mais subtil do que a maior parte dos homens supunha. A mão era capaz de ver e mesmo de discernir o invisível se se soubesse educá-la com conhecimento de causa. Fora colocando-lhe a mão sobre o pescoço que Piankhi escolhera o seu cavalo, seria com ela que optaria pelo caminho a seguir.

Passemos pela direita da ilha.

O capitão teria preferido adotar outra solução, mas não tinha nenhum argumento válido para opor ao rei.

O longo comboio enveredou por uma espécie de canal onde foi atacado por uma nuvem de moscas que impediram os pilotos de sondar corretamente o rio com as suas longas varas. Tentando enxotá-las, um deles caiu à água. Imediatamente dois marinheiros correram em seu socorro lançando-lhe uma corda à qual se agarrou para subir de novo para bordo.

— Gordura de verdelhão para todas as tripulações! ordenou Piankhi.

Todos se untaram com o precioso produto e as moscas deixaram de os atacar. Mas o rei detectou outro perigo: embora o vento estivesse fraco, formavam-se ligeiras ondulações na superfície do rio.

Um sinal que não enganava. Um sinal que anunciava bancos de areia imersos, à flor da água.

— Mandem parar! berrou um piloto.

Tarde demais para o barco da frente e para o navio almirante que chocaram com um banco e encalharam. O resto da frota conseguiu evitar o obstáculo.

Uma única solução: o reboque à sirga. Piankhi saltou para o banco de areia e comandou pessoalmente a manobra, sem hesitar em puxar o cabo com tal força que decuplicou a dos seus marinheiros.

E a passagem pela ilha de Argo em breve não foi mais do que uma má recordação.

A travessia da terceira catarata efetuou-se sem dificuldade. A frota núbia passou entre maciços de granito e de pórfiro antes de descobrir uma paisagem estranha onde a areia era cinzenta e os rochedos quase negros. Alguns antílopes fugiram em sucessivos saltos graciosos por sobre os raros arbustos de uma savana desolada.

Depois, de novo, o ocre das areias, o verde tenro das palmeiras, as margens cobertas do lodo avermelhado que possuía o segredo da fertilidade. Foi imensa a emoção de Piankhi quando o seu percurso passou junto dos locais onde estavam construídos os templos de Soleb e de Sedeinga. Celebravam o amor que Amenófis tinha dedicado à sua esposa. Teye e o caráter sagrado do par real.7

O rei abraçou Abilé.

— Se conseguirmos vencer Tefnakhte, porque não há-de ressuscitar essa época feliz?

— Nunca travámos uma guerra desta envergadura, Abilé. Bastará a coragem dos núbios?

— Não és homem para duvidar.

— Não duvido, visto que não tenho outra opção. Mas quantos mortos haverá antes que possamos depor as armas? Tefnakhte cometeu um grave erro ao perturbar a frágil harmonia do Norte, mas fez-me sair da minha letargia. Estava errado, Abilé, ao acreditar que os príncipes se contentariam com os seus territórios respectivos e calariam as suas ambições insensatas. Estava errado... Nunca se deve confiar nos homens ávidos de poder. E os cobardes, como os príncipes Pefteu e Nemrod, não são menos perigosos, pois traem na primeira ocasião. Enganei-me ao pensar que o receio bastaria para os manter no caminho reto. Talvez devesses regressar a Napata, Abilé.

7 Amenófis também mandou edificar o templo de Luxor, um dos brasões de Tebas, num período em que as Duas Terras eram unidas, ricas e felizes

— Quero viver esta provação contigo. Se for necessário morrer para defender a nossa causa, estarei a teu lado.

O mangusto trepou para o ombro de Piankhi, como para lhe provar que também estava pronto para o combate.

A chegada precipitada de Cabeça-fria, que corria pela ponte escorregadia com perigo de partir o pescoço, não pressagiava nada de bom.

— Uma catástrofe, Majestade! E é tudo por minha culpa...

— Que erro cometeste?

— Não verifiquei todas as caixas de amuletos... E uma delas apenas continha loiças! Vários marinheiros vão ficar sem proteção mágica e recusar-se-ão a continuar!

— Acalma-te recomendou a rainha Abilé. Distribuirei os das minhas servas, que os possuem em quantidade.

Amuletos em faiança, em quartzito, em cornalina, em jaspe vermelho ou em serpentina com a forma de uma mão, de um pilar, de uma esfinge, de um olho de falcão, de uma cabeça de hipopótamo... Cabeça-fria sentiu-se descansado. Visto que cada membro da expedição ficaria ao abrigo das forças hostis, esta chegaria inevitavelmente a bom porto.

 

Muitos cavalos tinham morrido de fadiga, mas a mensagem chegara a uma tribo do extremo sul da Líbia. Em troca de uma dezena de barras de prata, de ungüentos de primeira qualidade e de cem burros, cinqüenta jovens caçadores tinham aceitado atravessar clandestinamente a fronteira egípcia e atacar Piankhi por alturas da segunda catarata. O local era particularmente propício a uma emboscada. Demasiado seguro de si, o faraó negro não esperaria esse gênero de agressão no território por si controlado.

Apesar da importância do prêmio, os voluntários não tinham sido muitos. Piankhi tinha a reputação de um guerreiro invencível que os homens com experiência não desejavam enfrentar. Apenas rapazolas trasbordantes de saúde tinham aceite tentar essa louca aventura, com a esperança de trazer para a sua aldeia a cabeça cortada do faraó negro. Kafy, o filho mais jovem da tribo, desempenhara o papel de organizador. Sabendo que tinha poucas hipóteses de alcançar o poder devido ao ódio que por ele sentia o irmão mais velho, Kafy encontrava assim a ocasião de demonstrar o seu verdadeiro valor.

A expedição anunciava-se perigosa. Durante o dia, não seria possível navegar a não ser nas zonas do Nilo que não fossem vigiadas pelos soldados de Piankhi; durante a noite, havia que correr o risco de encalhar num rochedo. Mas era preciso não pensar no fracasso e avançar o mais depressa possível para surpreender Piankhi no local previsto. O rei admirou a vela de linho retangular que partia da extremidade superior do mastro duplo e vinha até à borda. Utilizando sobretudo a forte corrente para avançar, os seus marinheiros entregavam-se no entanto a delicadas manobras a fim de não desperdiçarem a força do vento. Quando este caía, enrolavam a vela em torno das vergas, desmontavam o mastro e deitavam-no sobre dois barrotes de extremidade bifurcada.