O Massacre de Manguinhos
Posfácio - Momentos sombrios para não serem esquecidos pelas novas gerações
Prefácio
Momentos sombrios para não
serem esquecidos pelas novas
gerações
O Massacre de Manguinhos, obra magistral de Herman Lent – um dos mais importantes entomologistas brasileiros –, conseguiu captar a atmosfera do período da resistência que os cientistas de Manguinhos viveram durante a ditadura militar instaurada em 1964. Período de grande truculência e agressividade contra o Instituto Oswaldo Cruz (IOC), templo da ciência, célula mater da Fundação Oswaldo Cruz, a casa dos brilhantes e pioneiros Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Adolpho Lutz.
Ao reeditar este livro seminal da ciência brasileira, o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict) e seu diretor Rodrigo Murtinho presenteiam-nos com um marco da história e da memória nacional, que não podem ser desconhecidas ou esquecidas pelas novas gerações de cientistas.
É fundamental ratificar a excelência da pesquisa desenvolvida no Instituto Oswaldo Cruz naquela época. Num significativo depoimento ao Canal Ciência do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), em 1983, Carlos Chagas Filho, filho de Carlos Chagas e fundador do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse: “Eu considero um abuso muito grande a afirmação de alguns de que a glória de Manguinhos não foi mantida. O trabalho em muitos setores de Manguinhos continuou com grande produtividade até o momento em que, com o aparecimento de um mau diretor, Manguinhos teve alguns dos seus melhores elementos excluídos de seus quadros…”.
Para aqueles que não viveram os anos de chumbo, faz-se relevante destacar os momentos tensos e profundamente difíceis vividos pela instituição após o golpe militar. Foram criadas comissões de inquérito e instaurados inquéritos policiais militares (IPMs) para apurar potenciais atividades subversivas, visando prejudicar e punir dez cientistas do IOC, Herman Lent, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Tito Arcoverde Cavalcanti Albuquerque, Hugo de Souza Lopes, Moacyr Vaz de Andrade, Augusto Cid de Mello Perissé, Sebastiao José de Oliveira, Masao Goto e Domingos Arthur Machado Filho, que tinham a excelência e a ética como cláusulas pétreas no seu trabalho institucional.
No dia 1º de abril de 1970, sem que absolutamente nada fosse provado contra eles nos lamentáveis IPMs e sindicâncias, os nossos cientistas foram cassados pela ditadura militar, com base no Ato Institucional nº 5 (AI-5). Tiveram os seus direitos políticos suspensos e foram impedidos de trabalhar no IOC e em outras instituições federais. Foram momentos dramáticos para Manguinhos, para a ciência brasileira e para os seus familiares.
Recortes de jornais de 1970, na vigência dos Atos Institucionais
nº 5 e nº 10, que suspenderam os direitos políticos e aposentaram
os pesquisadores.
As anotações nos recortes são do pesquisador Herman Lent.
Endossando o pensamento de Carlos Chagas Filho, vale ressaltar que vários pesquisadores “subversivos” atingidos pelo AI-5 eram membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e foram fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Ainda hoje, é difícil acreditar que uma das ideias mais “revolucionárias” que esses cientistas defendiam era a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, ideia simplesmente abominada pelo diretor Rocha Lagoa.
Lamentavelmente, o primeiro a ser atingido frontalmente pela ditadura militar foi Walter Oswaldo Cruz, filho de Oswaldo Cruz, brilhante hematologista e líder de um dos laboratórios mais produtivos do Instituto Oswaldo Cruz. O seu laboratório foi lacrado e os auxílios internacionais bloqueados. Walter Oswaldo Cruz faleceu em 1967, aos 56 anos de idade, em virtude das pressões sofridas. Dois dos mais importantes bioquímicos brasileiros, Carl Peter Dietrich, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Leopoldo de Meis, da UFRJ, foram alunos de Walter e, com toda certeza, poderiam ter permanecido no Instituto.
As pressões eram intensas, com direta interferência no dia a dia dos laboratórios. Raimundo de Britto – ministro da Saúde nomeado pela ditadura militar – afastou vários pesquisadores: “As ideias exóticas que em Manguinhos foram infiltradas serão banidas definitivamente, porque o nosso País precisa de homens que nos ajudem a acabar com o sofrimento do povo e não de elementos cujo único fito é destruir a liberdade, esfacelando o regime democrático…”. Tal fala referia-se aos mais importantes cientistas brasileiros daquela época. Marcas desses anos estampam uma declaração de meu estágio com o Dr. Moussatché, carinhosamente guardada entre os meus pertences mais preciosos; nela, encontra-se carimbada a frase “A Revolução de 1964 é irreversível e consolidará a Democracia no País”.
Walter Oswaldo Cruz no laboratório do IOC s.d.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.
Eles se julgavam eternos…
O impacto da cassação dos dez cientistas para o corpo de pesquisadores, servidores e estudantes de Manguinhos foi dramático. Havia clara percepção de que a ditadura originaria uma era de “nuvens negras e sombrias” para o Instituto. De fato, foi uma era de grande perplexidade diante dos fatos, sobretudo, das cassações. Eu e outros estudantes, tais como Marise Jurberg, Jose Lopes Quadra, Otavio Aprigliano, Eloi Garcia – entre outros integrantes da Divisão de Fisiologia e Farmacodinâmica, criada por Miguel Ozório de Almeida –, fomos imediatamente expulsos dos laboratórios e/ou impedidos de entrar na instituição. Muitas pesquisas, sonhos e carreiras foram drasticamente interrompidos e destruídos. A cassação criou fraturas profundas nos laboratórios, projetos e cooperações nacionais/internacionais, subitamente descontinuados. Vários pesquisadores e técnicos do IOC foram distribuídos a outras instituições do Ministério da Saúde, como os Drs. Mario Vianna Dias, Charles Esberard, Ivan
Caldas Marins, Junia Peixoto, Maria Queiroz, Chico Trombone, entre outros. Impactado e perplexo, o Brasil assistiu ao esfacelamento do Instituto Oswaldo Cruz, nosso templo da ciência nacional, pelo nepotismo.
Alguns pesquisadores viveram momentos de autoexilio no exterior, onde desenvolveram intensa atividade cientifica, como Haity Moussatché, na Universidad Lisandro Alvarado em Barquisimeto, Venezuela; Fernando Ubatuba, no laboratório Wellcome Research Laboratories, na Inglaterra, com John Vane (Nobel de Medicina em 1982); Herman Lent, na Universidade de Los Andes, na Venezuela, na Universidade de Assunção, no Paraguai e no Museu Americano de História Natural de Nova York; e Augusto Perissé, no Institut Max Planck, em Heidelberg e na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique. Vários pesquisadores que permaneceram no país exerceram atividades docentes na Universidade Santa Úrsula e em outras faculdades particulares, dada a impossibilidade de trabalharem para o governo.
Haity Moussatché, Renato Cordeiro, Fernando Braga Ubatuba,
Boris Vargaftig e Carlos Morel 1987. Acervo pessoal Renato
Cordeiro | IOC .
Cerimônia de reintegração dos cientistas afastados, Manguinhos,
1986. Acervo Casa de Oswaldo Cruz. Foto: Flávio de Souza.
Os cassados de Manguinhos retornam à Fiocruz: (da E. para D.) Augusto Cid Mello Perissé, Tito Cavalcanti, Haity Moussatché,
Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza
Lopes, Masao Goto, Herman Lent, Sebastião José de Oliveira e
Domingos Arthur Machado Filho, 1986. Acervo Casa de Oswaldo
Cruz. Acervo Casa de Oswaldo Cruz. Foto: Flávio de Souza.
A corajosa reintegração dos cientistas de Manguinhos pelo nosso saudosíssimo Sérgio Arouca, em 1986, representou um dos mais belos e significativos gestos para a recuperação da autoestima e a oxigenação da atividade científica institucional.
A história completa do “Massacre de Manguinhos”, mais um dos inúmeros episódios lastimáveis relacionados aos anos de chumbo no Brasil, ainda continuará a ser narrada… Talvez as lacunas até o momento existentes sejam preenchidas quando o conteúdo das “caixas pretas” dos ministros Francisco de Paula Rocha Lagoa (governo Médici), Raimundo de Britto (governo Castelo Branco) e dos diretores do IOC daquele período forem, finalmente, abertas pelo Arquivo Nacional, historiadores e comissões independentes. A memória daqueles anos de retrocesso científico, político e social deve ser respeitada e cultivada para que jamais retornem aos nossos dias, à história do Brasil.
Renato Cordeiro
Pesquisador Titular do Instituto Oswaldo Cruz
Pesquisador Emérito da Fiocruz
Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências
Pesquisador Senior do CNPq
O presidente da Fiocruz Sérgio Arouca na volta do pesquisador
Haity Moussatché, 1986.
Acervo Casa de Oswaldo Cruz.
Cartaz produzido na ocasião do centenário da Fiocruz,
homenageando os cientistas cassados em 1970 e que marca os 30
anos dos decretos que suspenderam os direitos políticos dos
pesquisadores.
Idealização
Renato Cordeiro
Arte e projeto gráfico Mauro Campello Roberto Moreira
Documentário
“O Massacre de Manguinhos” produzido em 1986.
Direção
Lauro Escorel Filho
Produção
Cinefilmes
Apoio
Casa de Oswaldo Cruz
Distribuição
VideoSaúde | Icict | Fiocruz
Disponível em:
https://youtu.be/5akQwSQqC0I
Agradecimentos
Francisco dos Santos Lourenço Roberto
João Canossa Lent, José Paulo Leite Rodrigo
Juliana Krapp Méxas
Maria Inês Rodriguês Susana
Nísia Trindade Lima Lent Paulo Elian Santos
Raquel Aguiar Taíssa
Renato Cordeiro Campello
Tania
Santos
Vinícius
Renaud
Wanda
Brant
Wanda
Hamilton
Notas
1. A formulação e implementação de políticas sanitárias passaria,
progressivamente, a ser exercida por profissionais com formação e especialização em saúde pública. A esse respeito, ver Fonseca (2007).
↩
2. Na divisão de Zoologia estavam lotados Herman Lent, Hugo de
Souza Lopes, Domingos Arthur Machado e Sebastião José de Oliveira; na divisão de Fisiologia Haity Moussatché, Tito Arcoverde Cavalcanti e Fernando Braga Ubatuba. Masao Goto e Moacyr Vaz de Andrade desempenhavam suas atividades no laboratório de Micologia, chefiado até 1964 por Antônio Arêa-Leão; e Augusto Cid de Mello Perissé pertencia ao laboratório de química.
↩
3. Para uma análise mais detalhada dos processos gerados pelos
órgãos de segurança, ver Santos (2016).
↩
4. Correio da Manhã, 24/04/1965.
↩
5. Tribuna Médica, 26/06/1964.
↩
6. Casa de Oswaldo Cruz. Fundo Instituto Oswaldo Cruz, Seção
Direção, Dossiê 005 (Ordens de Serviço), Livro 00263, Portaria nº2. (BR RJ COC 02-05-005).
↩
7. Correio da Manhã, 30/01/1965
↩
8. O Ministério da Ciência e da Tecnologia foi criado durante o
governo de José Sarney (1985-1990) pelo Decreto nº 91.146 de 15 de março de 1985.
↩
9. Arquivo Nacional. Serviço Nacional de Informação - SNI
(Agência Rio de Janeiro). Informe Especial, de 1º de dezembro de 1967, do diretor do Instituto Oswaldo Cruz ao ministro da Saúde. (ARJ-ACE-5216-69).
↩
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Herman Lent
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