O Palácio da Meia-Noite

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 3 de 7

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O Palácio da Meia-Noite

O Regresso da Escuridão

 

Calcuta, maio de 1916.

 

Pouco depois da meia-noite, uma barcaça emergiu da neblina noturna que subia da superfície do rio Hooghly, como o fedor de uma maldição. Na proa, sob a tênue claridade que projetava de um lampião agonizante agarrado ao mastro, podia-se adivinhar a figura de um homem envolto em uma capa remando afincadamente para a margem longínqua. Mais à frente, a oeste, o perfil do Forte William no Maidán se erguia sob um manto de nuvens de cinza à luz de um infinito sudário de faróis e fogueiras, que se estendia até onde alcançava a vista. Calcuta.

O homem se deteve uns segundos para recuperar o fôlego e a contemplar a silhueta da estação do Jheeter's Gate que se perdia definitivamente nas trevas que cobriam a outra borda do rio. A cada metro que avançava na bruma, a estação de aço e vidro se confundia com outros tantos edifícios ancorados em esplendores esquecidos. Seus olhos vagaram entre aquela selva de mausoléus de mármore enegrecido por décadas de abandono e as paredes nuas às quais a fúria da monção havia arrancado a sua pele ocre, azul e dourada e as tinha apagado como aguarelas que se desvanecem num lago.

Somente a certeza de que apenas restavam umas horas de vida, possivelmente alguns minutos, permitiu-lhe continuar a marcha, abandonando nas entranhas daquele lugar maldito à mulher a quem tinha jurado proteger com sua própria vida. Naquela noite, enquanto o tenente Peake empreendia sua última viagem a Calcuta a bordo de uma velha barcaça, cada segundo de sua vida se desvanecia sob a chuva que tinha chegado com o amparo da madrugada.

Ao mesmo tempo que lutava para arrastar o barco para a margem, o tenente podia escutar o pranto dos dois meninos ocultos no interior da sentina. Peake olhou para trás e comprovou que as luzes da outra barcaça piscavam apenas uma centena de metros atrás dele, ganhando terreno. Podia imaginar o sorriso de seu perseguidor, saboreando a caça. Inexorável.

Ignorou as lágrimas de fome e frio dos meninos e dedicou todas as forças que lhe restavam para pilotar o barco até a margem do rio, que devia morrer na soleira do labirinto insondável e fantasmagórico das ruas de Calcuta. Duzentos anos tinham bastado para transformar a densa selva, que crescia ao redor de Kalighat, em uma cidade onde Deus não se teria atrevido a entrar jamais.

Em poucos minutos a tormenta se havia abatido sobre a cidade com a cólera de um espírito destruidor. Em meados de Abril, e até meados do mês de junho, a cidade se consumia nas garras do chamado verão índiano. Durante esses dias, a cidade suportava temperaturas de 40 graus e um nível de umidade no limite da saturação. Minutos depois, sob o influxo de violentas tormentas elétricas que convertiam o céu num tecido de pólvora, os termômetros podiam descer 30 graus em questão de segundos.

O manto torrencial da chuva velava a visão dos raquíticos cais de madeira podre que se balançavam sobre o rio. Peake não retrocedeu em seu empenho até sentir o impacto do casco contra a madeira do cais dos pescadores e, só então, jogou a vara no fundo lamacento e se apressou a procurar os meninos, que estavam envoltos em uma manta. Ao tomá-los em seus braços, o pranto dos bebês impregnou a noite como o rastro de sangue que guia o predador até sua presa. Peake os apertou contra seu peito e saltou para terra.

Através da espessa cortina de água que caía com fúria se podia observar a outra barcaça aproximando-se lentamente da borda como uma nave funerária. Sentindo a chicotada do pânico, Peake correu pelas ruas que rodeavam o Maidán pelo Sul e desapareceu nas sombras daquele terço da cidade que seus privilegiados habitantes, europeus e britânicos em sua maioria, denominavam a cidade branca.

Apenas albergava a esperança de poder salvar a vida dos meninos, mas estava ainda longe do coração da zona Norte de Calcuta, onde ficava a morada de Aryami Bosé. Aquela anciã era agora a única que o podia ajudar. Peake se deteve um instante e observou a imensidão tenebrosa do Maidán em busca do brilho longínquo dos pequenos faróis que desenhavam estrelas a piscar no norte da cidade. As ruas escuras e mascaradas pelo véu da tormenta seriam seu melhor esconderijo. O tenente agarrou os meninos com força e se afastou de novo nessa direção, em busca da proteção das sombras dos grandes edifícios palacianos do centro da cidade.

Instantes depois, a barcaça negra, que lhes havia dado caça, se deteve junto ao cais. Três homens saltaram para terra e amarraram a nau. A porta da cabine se abriu lentamente e uma escura silhueta envolta num manto negro percorreu a passadeira que os homens tinham estendido no cais, ignorando a chuva. Uma vez em terra firme, estendeu sua mão envolta em uma luva negra e, assinalando para o ponto onde Peake tinha desaparecido, esboçou um sorriso que nenhum de seus homens pôde ver sob a tormenta.

 

A estrada escura e sinuosa, que cruzava o Maidán e rodeava a fortaleza, se transformou em um lamaçal sob as investidas da chuva. Peake recordava vagamente ter cruzado aquela parte da cidade durante seus tempos de lutas nas ruas às ordens do coronel Hewelyn, a plena luz do dia e às rédeas de um cavalo junto a um esquadrão do exército sedento de sangue. O destino, ironicamente, levava-o agora a percorrer aquela extensão de campo aberto que Lorde Clive fizera arrasar em 1758 para que os canhões do Fort William pudessem disparar livremente em todas direções. Mas desta vez, ele era a presa. O tenente correu desesperadamente para a arvoredo, enquanto sentia sobre ele os olhares furtivos de silenciosos vigilantes ocultos entre as sombras, habitantes noturnos do Maidán. Sabia que ninguém sairia no seu encalço para o assaltar e lhe arrebatar a capa ou os meninos que choravam em seus braços. Os moradores invisíveis daquele lugar podiam cheirar o rastro da morte colada aos seus calcanhares e nenhuma alma ousaria interpor-se no caminho de seu perseguidor. Peake saltou as grades que separavam o Maidán do Chowringhee Road e se infiltrou na artéria principal da Calcuta. A majestosa avenida se estendia sobre o antigo traçado do caminho que, apenas trezentos anos antes, cruzava a selva bengali em direção ao Sul, para o templo do Kali, o Kalighat, que tinha dado origem no nome da cidade. O habitual enxame noturno que rondava nas noites da Calcuta se retirou perante a chuva e a cidade oferecia o aspecto de um grande bazar abandonado e sujo. Peake sabia que a cortina de água que afogava a visão e lhe servia de cobertura na noite fechada podia desvanecer-se tão rapidamente como tinha aparecido. As tempestades que vinham do oceano até ao delta do Ganges se afastavam rapidamente para o Norte ou para o Oeste para descarregar seu dilúvio purificador sobre a península de Bengala deixando um rastro de brumas e ruas alagadas por charcos venenosos onde os meninos jogavam submersos até a cintura e onde os carros ficavam parados como navios à deriva.

Peake correu rumo ao extremo Norte de Chowringhee Road até sentir que os músculos de suas pernas fraquejavam e que apenas era capaz de seguir sustentando o peso dos meninos em seus braços. As luzes do setor Norte piscavam nas proximidades sob o pano de fundo aveludado da chuva. O tenente tinha consciencia de que não poderia seguir mantendo aquele ritmo por muito mais tempo e que a casa de Aryami Bosé ainda se encontrava longe dali. Precisava fazer uma parada na marcha.

Deteve-se para recuperar o fôlego, oculto sob a escadaria de um velho armazém de tecidos cujos muros estavam cheios de posters anunciando sua derrubada, por ordem oficial. Recordava vagamente ter inspecionado aquele lugar anos atrás sob a denúncia de um rico comerciante que afirmava que em seu interior se ocultava um importante lugar para fumar ópio.

Agora, a água suja se filtrava entre os degraus desconjuntados e recordava sangue negro brotando de uma ferida profunda. O lugar parecia desolado e deserto. O tenente elevou os meninos até seu rosto e contemplou os olhos aturdidos dos bebês; já não choravam, mas estremeciam de frio. A manta que os cobria estava empapada. Peake tomou as diminutas mãos nas suas com a esperança de lhes dar calor enquanto observava entre as frestas da escadaria em direção às ruas que emergiam do Maidán. Não lembrava quantos assassinos tinha recrutado seu perseguidor, mas sabia que só restavam duas balas em seu revólver. Duas balas que deveria administrar com tanta astúcia como fora capaz de conjurar; tinha disparado o resto da munição nos túneis da estação. Envolveu de novo os meninos na extremidade menos úmido da manta e os deixou uns segundos num espaço de chão seco que se revelava sob um vazio na parede do armazém.

Peake tirou seu revólver e elevou a cabeça lentamente sob os degraus. Ao sul, Chowringhee Road, deserta, parecia um cenário fantasmagórico esperando o início da representação. O tenente forçou a vista e reconheceu a esteira de luzes longínquas do outro lado do rio Hooghly. O som de uns passos apressados sobre o pavimento alagado pela chuva o sobressaltou e se retirou de novo para as sombras.

Três indivíduos emergiram da escuridão do Maidán, um escuro reflexo do Hyde Park esculpido em plena selva tropical. As lâminas das facas brilharam na penumbra como línguas de prata candente. Peake se apressou a tomar os meninos de novo em seus braços e inspirou profundamente, consciente de que, se fugisse nesse momento, os homens cairiam sobre ele como uma matilha faminta em questão de segundos.

O tenente permaneceu imóvel contra a parede do armazém e vigiou seus três perseguidores, que se tinham detido um instante em busca de seu rastro. Os três assassinos pagos trocaram palavras ininteligíveis e um deles indicou aos outros que se separassem. Peake estremeceu ao comprovar que um deles, o que tinha dado a ordem para separarem-se, dirigia-se diretamente para as escadas sob as quais se ocultava. Por um segundo, o tenente pensou que o cheiro de seu temor o conduziria até seu esconderijo.

Seus olhos percorreram desesperadamente a superfície do muro sob as escadas em busca de alguma abertura para fugir. Ajoelhou-se junto ao vazio onde tinha deixado repousar os meninos uns segundos antes e tratou de forçar as tábuas desencravadas e amolecidas pela umidade. A lâmina de madeira, ferida pela podridão, cedeu sem dificuldade e Peake sentiu uma exalação de ar nauseabundo que emanava do interior do porão do edifício em ruinas. Olhou para trás e observou o assassino, que apenas se encontrava a uma vintena de metros do pé da escada e balançava a faca em suas mãos.

Rodeou os meninos com sua própria capa para protegê-los e arrastou-se para o interior do armazém. Uma pontada de dor, uns centímetros por cima do joelho, paralisou-lhe subitamente a perna direita. Peake se apalpou com as mãos trementes e seus dedos roçaram o prego oxidado que se afundava dolorosamente em sua carne. Afogando o grito de agonia, Peake agarrou a ponta do frio metal, puxou-o com força, sentiu que a pele se rasgava a cada passo e um sangue morno brotava entre seus dedos. Um espasmo de náusea e dor lhe nublou a visão durante vários segundos. Ofegante, pegou de novo os meninos e se levantou com dificuldade. Perante ele se abria uma fantasmagórica galeria com centenas de estantes vazias de vários pisos formando uma estranha retícula que se perdia nas sombras. Sem duvidar um instante, correu para o outro extremo do armazém, cuja estrutura ferida de morte rangia sob a tormenta.

Quando Peake emergiu de novo ao ar livre depois de ter atravessado centenas de metros nas vísceras daquele edifício em ruínas, descobriu que se achava a uma centena de escassos metros do Tiretta Bazar, um dos muitos centros de comércio da área Norte. Benzeu sua fortuna e se dirigiu para o complexo ripado de ruas estreitas e sinuosas que compunham o coração daquele mesclado setor da Calcuta, em direção à casa de Aryami Bosé.

Demorou dez minutos para percorrer o caminho até o lar da última dama da família Bosé. Aryami vivia sozinha em um antigo casarão de estilo bengali que se elevava depois da espessa vegetação selvagem que tinha crescido no pátio durante anos, sem a intervenção da mão do homem, e que lhe conferia o aspecto de um lugar abandonado e fechado. Entretanto nenhum habitante do Norte de Calcuta, uma zona também conhecida como a cidade negra, tinha ousado trespassar os limites daquele pátio e entrar nos domínios de Aryami Bosé. Quem a conhecia a apreciava e respeitava tanto como a temiam. Não havia uma só alma nas ruas do Norte de Calcuta que não tivesse ouvido falar dela e de sua estirpe em algum momento de sua vida. Entre as pessoas daquele lugar, sua presença era comparável a de um espírito: poderosa e invisível.

Peake correu até ao portão de lanças negras que abria o atalho, formado por arbustos no pátio e se apressou até as escadas de mármore quebrado que subiam até a porta da casa. Sustentando os dois meninos com um braço, bateu repetidamente à porta com o punho, esperando que o fragor da tormenta não afogasse o som de sua chamada.

O tenente golpeou a porta durante vários minutos, com os olhos fixos nas ruas desertas e em suas costas, alimentado pelo temor de ver aparecer seus perseguidores a qualquer momento. Quando a porta cedeu perante ele, Peake se voltou e a luz de um candeeiro o cegou enquanto uma voz, que não tinha escutado em cinco anos, pronunciava seu nome em voz baixa. Peake cobriu os olhos com uma mão e reconheceu o semblante impenetrável de Aryami Bosé.

A mulher leu o seu olhar e observou os meninos. Uma sombra de dor se estendeu pelo seu rosto. Peake baixou o olhar.

— Ela morreu, Aryami. — murmurou Peake — Já estava morta quando cheguei...

Aryami fechou os olhos e respirou profundamente. Peake comprovou que a confirmação de suas piores suspeitas abria caminho na alma da dama como salpicos de ácido.

— Entre. — lhe disse finalmente, afastando-se um passo e fechando a porta em suas costas.

Peake se apressou a depositar os meninos sobre uma mesa e a despoja-los das roupas molhadas. Aryami, em silêncio, pegou panos secos e envolveu aos meninos, enquanto Peake avivava o fogo para lhes fazer chegar o calor.

— Seguem-me, Aryami. — disse Peake— Não posso ficar aqui.

— Está ferido. — Indicou a mulher indicando a ferida que o prego do armazém lhe tinha produzido.

— É somente um arranhão superficial. – indicou Peake – Não dói.

Aryami se aproximou dele e estendeu sua mão para acariciar o rosto suado de Peake.

— Você sempre a quis...

Peake desviou o olhar até aos pequenos e não respondeu.

— Poderiam ter sido seus filhos. — disse Aryami — Possivelmente assim tivessem tido melhor sorte.

— Devo ir agora, Aryami. — concluiu o tenente. ― Se ficar aqui, não se deterão até me encontrar.

Ambos trocaram um olhar derrotado, conscientes do destino que esperava Peake tão logo voltasse para as ruas. Aryami tomou as mãos do tenente entre as suas e as apertou com força.

— Nunca fui boa com você. — lhe disse — Temia por minha filha, pela vida que poderia ter junto a um oficial britânico. Mas estava equivocada. Suponho que nunca me perdoará isso.

— Isso já não tem nenhuma importância. — respondeu Peake — Devo ir agora.

Peake se aproximou um último instante para contemplar os meninos que descansavam no calor do fogo. Os bebês olharam para ele com curiosidade brincalhona, olhos brilhantes e sorridentes. Estavam a salvo. O tenente se dirigiu até a porta e suspirou profundamente. Depois daquele par de minutos em repouso, o peso da fadiga e a dor palpitante que sentia na perna caíram sobre ele implacavelmente. Tinha resistido até ao último fôlego de suas forças para conduzir os bebês até aquele lugar e agora duvidava de sua capacidade para fazer frente ao inevitável. Lá fora, a chuva seguia açoitando as moitas e não havia sinal de seu perseguidor nem de seus comparsas.

— Michael... — disse Aryami em suas costas. O jovem se deteve sem voltar o olhar para trás.

― Ela sabia. — mentiu Aryami — Soube sempre e estou certa de que, de algum jeito, correspondia-lhe. Foi por minha culpa. Não lhe guarde rancor.

Peake assentiu em silêncio e fechou a porta em suas costas. Permaneceu uns segundos sob a chuva e depois, com a alma em paz, empreendeu caminho ao encontro de seus perseguidores. Abrandou seus passos, ao chegar no lugar por onde tinha saído do armazém abandonado, para penetrar de novo nas sombras do velho edifício em busca de um esconderijo onde se dispôs a esperar.

Enquanto se ocultava na escuridão, o esgotamento e a dor que sentia se fundiram paulatinamente em uma embriagadora sensação de abandono e paz. Seus lábios desenharam uma ameaça de sorriso. Já não tinha nenhum motivo, nem esperança, para seguir vivendo.

Os dedos longos e afiados da luva negra acariciaram a ponta ensangüentada do prego que aparecia na madeira quebrada, ao pé da entrada para o porão do armazém. Lentamente, enquanto seus homens esperavam em silencio atrás de suas costas, a esbelta figura, que ocultava seu rosto num capuz negro, levou a ponta do indicador aos lábios e lambeu a gota de sangue escuro e espesso saboreando-a como se se tratasse de uma lágrima de mel. Depois de alguns segundos, voltou-se para aqueles homens que tinha comprado horas antes por umas simples moedas, e a promessa de um novo pagamento no término de seu trabalho, e assinalou para o interior do edifício. Os três comparsas se apressaram a entrar através do alçapão que Peake tinha aberto minutos antes. O encapuzado sorriu na escuridão.

— Estranho lugar que você escolheu para morrer, tenente Peake. — murmurou para si mesmo.

Oculto atrás de uma coluna de caixas vazias nas entranhas do porão, Peake observou às três silhuetas, entrarem no edifício e, embora não pudesse ver dali, teve certeza de que seu amo estava esperando no outro lado do muro. Pressentia sua presença. Peake sacou seu revólver e fez girar o pequeno tambor até colocar uma das duas balas na antecâmara, amortecendo o som da arma sob a túnica emsopada que o cobria. Já não sentia receio em percorrer o caminho para a morte, mas não pensava percorrê-lo sozinho.

A adrenalina que corria por suas veias tinha amenizado a dor aguda de seu joelho até convertê-la num batimento do coração, surdo e distante. Surpreso diante sua própria serenidade, Peake sorriu de novo e permaneceu imóvel em seu esconderijo. Contemplou o lento avanço dos três homens através dos corredores entre as escadas nuas, até que seus verdugos se detiveram a uma dezena de metros. Um dos homens elevou a mão em sinal de alto e assinalou umas marcas no chão. Peake colocou sua arma à altura do peito, apontando para eles, e esticou o gatilho do revólver.

A um novo sinal, os três homens se separaram. Dois deles rodearam lentamente o caminho que conduzia até a pilha de caixas, e o terceiro caminhou em linha reta para Peake. O tenente contou mentalmente até cinco e, subitamente, empurrou a coluna de caixas sobre o seu atacante. As caixas desabaram em cima de seu oponente e Peake correu para a abertura pela qual tinham entrado.

Um dos assassinos pagos saiu ao seu encontro numa intercessão do corredor, brandindo a folha da faca a um palmo de seu rosto. Antes que aquele criminoso de aluguel pudesse sorrir vitorioso, o cano do revólver do Peake se cravou sob seu queixo.

— Solte a faca. — cuspiu o tenente.

O homem leu os olhos glaciais do tenente e fez o que ele ordenava. Peake o agarrou brutalmente pelo cabelo e, sem retirar a arma, voltou-se para seus aliados defendendo-se com o corpo do seu refém. Os outros dois valentões se aproximaram lentamente para ele, esperando.

— Tenente, nos economize tempo e entregue o que procuramos. — murmurou uma voz familiar atrás de suas costas — Estes homens são honrados pais de família.

Peake voltou os olhos para o encapuzado que sorria na penumbra a poucos metros dele. Algum dia não muito longínquo tinha aprendido a apreciar aquele rosto como o de um amigo. Agora apenas podia reconhecer nele o seu assassino.

— Vou fazer voar a cabeça deste homem, Jawahal. — gemeu Peake.

Seu refém fechou os olhos, tremendo.

O encapuzado cruzou as mãos pacientemente e emitiu um leve suspiro de irritação.

— Faça-o se agrada a você, tenente. — replicou Jawahal — Mas isso não tirará você daqui.

— Falo sério. — replicou Peake afundando a ponta do cano sob o queixo do valentão.

— Claro, tenente. — disse Jawahal em tom conciliador— Dispare se tiver coragem necessária para matar um homem a sangue frio e sem a permissão de sua majestade. Caso contrário solte a arma e assim poderemos chegar a um acordo proveitoso para ambas as partes.

Os dois assassinos armados se detiveram e permaneceram imóveis, dispostos a saltar sobre ele ao primeiro sinal do encapuzado, Peake sorriu.

— Bem. — disse finalmente — O que lhe parece este acordo?

Peake empurrou seu refém para o chão e se voltou para o encapuzado com o revólver apontado. O eco do primeiro disparo percorreu o porão. A mão enluvada do encapuzado emergiu da nuvem de pólvora com a palma estendida. Peake acreditou ver o projétil esmagado brilhando na penumbra e fundindo-se lentamente em um fio de metal líquido que escorregava entre os dedos afiados como um punhado de areia.

— Má pontaria, tenente. — disse o encapuzado— Tente novamente, mas desta vez, mais perto.

Sem lhe dar tempo para mover um músculo, o encapuzado pegou na mão armada de Peake e levou a ponta da pistola a seu rosto, entre os olhos.

— Não lhe ensinaram a fazê-lo assim na academia? —sussurrou-lhe.

— Houve um tempo em que fomos amigos. — disse Peake.

Jawahal sorriu com desprezo.

— Esse tempo, tenente, passou. — respondeu o encapuzado.

— Que Deus me perdoe. — gemeu Peake, pressionando de novo o gatilho.

Em um instante que lhe pareceu eterno, Peake contemplou como a bala perfurava o crânio de Jawahal e lhe arrancava o capuz da cabeça. Durante uns segundos, a luz atravessou a ferida sobre aquele rosto congelado e sorridente. Logo, o orifício fumegante aberto pelo projétil se fechou lentamente sobre si mesmo e Peake sentiu que seu revólver lhe escorregava entre os dedos.

Os olhos acesos de seu oponente se cravaram nos seus e uma língua longa e negra apareceu entre seus lábios.

— Ainda não entendeu, não é, tenente? Onde estão os meninos? Não era uma pergunta; era uma ordem. Peake, mudo de terror, negou com a cabeça.

— Como queira.

Jawahal estendeu sua mão e Peake sentiu que os ossos de seus dedos estalavam sob a carne. O espasmo de dor o derrubou no chão de joelhos, sem respiração.

— Onde estão os meninos? — repetiu Jawahal.

Peake tratou de articular umas palavras, mas o fogo que ascendia do coto ensangüentado que segundos antes tinha sido sua mão lhe tinha paralisado a fala.

― Quer dizer algo, tenente? — murmurou Jawahal, ajoelhando-se frente a ele.

Peake assentiu.

— Bem, bem. —sorriu seu inimigo— Francamente, seu sofrimento não me diverte. Me ajude a lhe pôr fim.

— Os meninos morreram. — gemeu Peake. O tenente viu a careta de desgosto que se desenhava no rosto do Jawahal.

— Não, não. Estava-o fazendo muito bem, tenente. Não estrague tudo agora.

— Morreram. — repetiu Peake.

Jawahal encolheu os ombros e assentiu lentamente.

— Está bem. — concedeu — Não me deixa outra opção. Mas antes que me vá, permita lhe recordar que, quando a vida de Kylian estava em suas mãos, foi incapaz de fazer nada para salvá-la. Homens como você foram a causa da sua morte. Mas os dias desses homens acabaram. Você é o último. O futuro é meu.

Peake elevou um olhar suplicante a Jawahal e, lentamente, viu que as pupilas de seus olhos se afiavam em um estreito corte sobre duas esferas douradas. O homem sorriu e com infinita delicadeza começou a tirar a luva que lhe cobria a mão direita.

— Infelizmente, você não viverá o suficiente para vê-lo. — acrescentou Jawahal — Não acredite nem por um segundo que seu heróico ato serviu para alguma coisa. É um estúpido, tenente Peake. Sempre me deu essa impressão e na hora de morrer não fez mais que confirmar isso. Espero que haja um inferno para os estúpidos, Peake, porque é para lá que eu vou enviar você.

Peake fechou os olhos e escutou o vaio do fogo a uns centímetros de seu rosto. Logo, após um instante interminável, sentiu uns dedos ardentes fechando-se sobre sua garganta, cegando seu último fôlego de vida. Entretanto, à distância, escutava o som daquele trem maldito e as vozes espectrais de centenas de meninos uivando entre as chamas. Depois, a escuridão.

 

Aryami Bosé percorreu a casa e foi apagando uma a uma as velas que iluminavam seu santuário. Deixou somente a tímida luz do fogo que projetava halos fugazes de luz sobre as paredes nuas. Os meninos dormiam já ao calor das brasas e apenas o repico da chuva sobre as portas fechadas e o ranger das fibras do fogo rompiam o silêncio sepulcral que reinava em toda a casa. Lágrimas silenciosas escorregaram sobre seu rosto e caíram sobre sua túnica dourada enquanto Aryami tomava com mãos trementes o retrato de sua filha Kylian de entre os objetos que guardava em um pequeno cofre de bronze e marfim.

Um velho fotógrafo itinerante proveniente de Bombay tinha tirado aquela imagem um tempo antes do casamento sem aceitar pagamento algum em troca. A imagem mostrava tal e qual como Aryami a recordava, envolta naquela estranha luminosidade que parecia emanar de Kylian e que encantava todos que a conheciam, do mesmo modo que tinha enfeitiçado o olho perito do retratista, que a batizou com o apelido com que todos a recordavam: a princesa de luz.

É obvio, Kylian nunca foi uma verdadeira princesa nem teve mais reino que as “calles” que a tinham visto crescer. O dia que Kylian deixou a casa dos Bosé para viver com seu marido, as pessoas de Machuabazaar despediram-se com lágrimas nos olhos enquanto viam afastar a limusine branca como se levasse para sempre à princesa da cidade negra. Era apenas uma menina quando o destino a levou e jamais voltou.

Aryami se sentou junto aos meninos frente ao fogo e apertou a velha fotografia contra seu peito. A tormenta rugiu de novo e Aryami resgatou a força de sua ira para decidir o que deveria fazer agora. O perseguidor do tenente Peake não se contentaria acabando com ele. O valor do jovem lhe tinha oferecido uns minutos preciosos que não poderia desperdiçar sob hipótese alguma, nem sequer para chorar a memória de sua filha. A experiência já lhe tinha ensinado que o futuro lhe reservaria mais do que tempo para lamentar-se dos enganos cometidos no passado.

Deixou a fotografia de novo no cofre e tomou a medalha que tinha mandado fazer para Kylian anos atrás, uma jóia que jamais chegou a luzir. A medalha se compunha de dois círculos de ouro, um sol e uma lua, que encaixavam um no outro formando uma única peça. Pressionou no centro da medalha e ambas as partes se separaram. Aryami encaixou cada uma das duas metades da medalha nas respetivas correntes de ouro e as colocou em torno do pescoço de cada um dos meninos.

Enquanto o fazia, a dama meditava em silêncio sobre as decisões que deveria tomar. Só um caminho parecia apontar para sua sobrevivência: deveria separá-los e afastá-los um do outro, apagar seu passado e ocultar sua identidade ao mundo e a si mesmos, por muito doloroso que isso pudesse resultar. Não era possível mantê-los juntos sem se denunciarem mais cedo ou mais tarde. Aquele era um risco que não podia assumir a nenhum preço. E necessariamente, deveria resolver aquele dilema antes do amanhecer.

Aryami pegou os dois bebês em seus braços e os beijou brandamente na face. As mãos diminutas acariciaram seu rosto e seus dedos minúsculos apalparam as lágrimas que cobriam suas bochechas enquanto os olhares risonhos de ambos a escrutinavam sem compreender. Estreitou-os de novo em seus braços e os devolveu ao pequeno berço que tinha improvisado para eles.

Assim que os deixou repousando, acendeu a luz de um candeeiro e pegou na pluma e papel. O futuro de seus netos estava agora em suas mãos.

Inspirou profundamente e começou a escrever. Ao longe podia escutar a chuva que já amainava e os sons da tormenta que se afastavam para o Norte estendendo sobre Calcuta um infinito manto de estrelas.

 

Thomas Carter tinha acreditado que, ao completar os cinquenta, a cidade de Calcuta, seu lar durante os últimos trinta e três anos, já não reservaria mais surpresas para ele.

O amanhecer daquele dia de maio de 1916, depois de uma das tormentas mais furiosas que recordava fora da época da monção, a surpresa chegou às portas do orfanato St. Patricks em forma de uma cesta com um menino e uma carta lacrada dirigida a sua exclusiva atenção pessoal.

A surpresa vinha em dobro. Em primeiro lugar, ninguém se incomodava em abandonar um menino em Calcuta às portas de um orfanato; havia becos, esgotos e poços por toda a cidade para fazê-lo mais comodamente. E, em segundo lugar, ninguém escrevia cartas de apresentação como aquela, assinadas e sem qualquer dúvida a respeito da sua autoria.

Carter examinou suas lentes a luz e exalou o bafo de seu fôlego sobre os vidros para facilitar sua limpeza com um lenço de algodão cru e envelhecido que empregava para tal tarefa não menos de vinte e cinco vezes ao dia, trinta e cinco durante os meses do verão índiano.

O menino descansava no piso inferior, no dormitório de Vendela, a enfermeira chefe, sob sua atenta vigilância, depois de ter sido reconhecido pelo doutor Woodward, que foi arrancado do sono pouco antes da alvorada e a quem, à exceção de seu dever de juramento, não lhe deram mais explicações.

O menino estava essencialmente são. Mostrava certos sinais de desidratação, mas não parecia estar afetado por nenhuma febre do amplo catálogo que acostumava cegar a visão de milhares de criaturas como aquela e que lhes negava o direito de alcançar a idade necessária para aprender a pronunciar o nome de sua mãe. Tudo que vinha com ele era a medalha, em forma de sol, em ouro que Carter sustentava entre seus dedos e aquela carta. Uma carta que, se tinha que dar como verdadeira, e lhe custava encontrar uma alternativa a essa possibilidade, colocava-se em uma situação comprometedora.

Carter guardou a medalha à chave na gaveta superior de sua escrivaninha e tomou de novo a carta, relendo-a pela décima vez.

 

Apreciado Mr. Carter

 

Vejo-me obrigada a solicitar sua ajuda na mais das penosas circunstâncias, apelando à amizade que, pelo que me consta, o uniu a meu defunto marido durante mais de dez anos. Durante esse período, meu marido não poupou elogios para com sua honestidade e a extraordinária confiança que você sempre lhe inspirou.

Por isso, hoje lhe rogo que atenda minha súplica, por estranha que possa lhe parecer, com a maior urgência e, sem dúvida, com o maior dos segredos.

O menino que me vejo obrigada a entregar-lhe perdeu seus pais às mãos de um assassino que jurou matar a ambos e acabar igualmente com sua descendência. Não posso nem acho oportuno lhe revelar os motivos que o levaram a cometer tal ato. Bastará lhe dizer que a descoberta do menino deverá ser mantida em segredo e que sob nenhum conceito deve você dar parte do mesmo à polícia ou às autoridades britânicas, posto que o assassino dispõe de conexões em ambos os organismos que não demorariam para o levar até ele.

Por motivos óbvios, não posso criar o menino a meu lado sem o expor a sofrer o mesmo destino que acabou com seus pais. Por isso lhe rogo que se encarregue dele, dê-lhe um nome e o eduque nos sérios princípios de sua instituição para fazer dele no futuro uma pessoa tão honrada e honesta como o foram seus pais.

Sou consciente de que o menino não poderá conhecer jamais seu passado, mas é de vital importância que assim seja.

Não disponho de muito tempo para brindá-lo com mais detalhes e me vejo de novo na obrigação de lhe recordar a amizade e a confiança que teve você em meu marido para legitimar minha petição.

Suplico-lhe que, ao terminar a leitura desta carta, a destrua, assim como qualquer sinal que pudesse denunciar o achado do menino. Sinto não poder efetuar esta petição em pessoa, mas a gravidade da situação me impede de fazer isso.

Na confiança de que saberá tomar a decisão adequada, receba minha eterna gratidão.

 

Aryami Bosé.

 

Uma batida a sua porta o arrancou da leitura. Carter tirou as lentes, dobrou cuidadosamente a carta e a depositou na gaveta de sua escrivaninha, fechando-a com chave.

— Entre. — falou.

Vendela, a enfermeira chefe do St. Patricks, apareceu em seu escritório com seu eterno semblante sério e oficioso. Seu olhar não respirava bons augúrios.

— Há um cavalheiro lá em baixo que deseja vê-lo. — anunciou sucintamente.

Carter franziu o cenho.

— Do que se trata?

— Não quis me dar detalhes. — respondeu a enfermeira, mas sua expressão parecia insinuar claramente que seu instinto farejava que tais detalhes, existindo, resultavam vagamente suspeitos.

Depois de uma pausa, Vendela entrou no escritório e fechou a porta em suas costas.

— Acredito que se trata do menino. — disse a enfermeira com certa inquietação — Não lhe disse nada.

— Falou com alguém mais? — perguntou Carter.

Vendela negou silenciosamente. Carter assentiu e guardou a chave de sua secretária no bolso de sua calça.

— Posso lhe dizer que não está aqui neste momento. — apontou Vendela.

Carter pensou na opção por um instante e determinou que, se as suspeitas de Vendela apontavam na direção correta (e estava acostumada a fazê-lo), aquilo não faria mais do que reforçar a aparência de que o St. Patricks tinha algo que ocultar. A decisão foi tomada imediatamente.

— Não. Receberei-o, Vendela. Faça-o entrar e assegure-se de que ninguém do pessoal fala com ele. Discrição absoluta sobre este assunto. De acordo?

— Compreendido.

Carter escutou afastarem-se pelo corredor os passos de Vendela enquanto limpava de novo suas lentes e comprovava que a chuva voltava a golpear os vidros de sua janela com rabugice.

O homem vestia uma larga capa negra e sua cabeça estava envolta em um turbante, sobre o qual se apreciava um medalhão escuro que emulava a silhueta de uma serpente. Seus estudados gestos sugeriam os de um próspero comerciante do Norte de Calcuta e seus traços pareciam vagamente hindus, embora sua pele refletisse uma palidez doentia, a pele de alguém a quem nunca alcançavam os raios do sol. A mestiçagem de raças nascidas em Calcuta tinha fundido em suas ruas bengalíes, armênios, judeus, anglo-saxões, chineses, muçulmanos e inumeráveis grupos chegados até ao campo de Kali em busca de fortuna ou refúgio. Aquele rosto podia pertencer a qualquer dessas etnias ou a nenhuma.

Carter sentiu os olhos penetrantes em suas costas, o inspecionando cuidadosamente, enquanto servia as duas xícaras de chá na bandeja com que Vendala os havia provido.

— Sente-se, por favor. — indicou Carter amavelmente ao desconhecido — Açúcar?

— Tomarei como você.

A voz do desconhecido não mostrava acento nem expressão alguma. Carter tragou a saliva, fixou um sorriso cordial em seus lábios e se voltou estendendo a xícara de chá ao sujeito. Dedos embainhados em uma luva negra, compridos e afiados como garras, fecharam-se sobre a porcelana ardente sem vacilação. Carter sentou-se em sua poltrona e removeu o açúcar de sua própria xícara.

— Sinto o importunar neste momento, Mr. Carter. Imagino que terá você muito que fazer, por isso serei breve. — afirmou o homem.

Carter assentiu cortesmente.

— Qual é então o motivo de sua visita, senhor...? — começou Carter.

— Meu nome é Jawahal, Mr. Carter. — explicou o desconhecido — Lhe serei muito franco. Talvez minha pergunta lhe pareça estranha, mas, encontraram um menino, um bebê de apenas uns dias, durante a noite passada ou durante o dia de hoje?

Carter franziu o cenho e luziu seu melhor semblante de surpresa. Nem muito óbvio nem muito sutil.

— Um menino? Acredito que não compreendo.

O homem que afirmava chamar-se Jawahal sorriu amplamente.

— Sabe. Não sei por onde começar. O certo é que se trata de uma história um tanto embaraçosa. Confio em sua discrição, Mr. Carter.

— Conte com ela, senhor Jawahal. — respondeu Carter tomando um gole de sua xícara de chá.

O homem, que não tinha provado a sua, relaxou e se dispôs a esclarecer suas demandas.

—Possuo um importante negócio têxtil no Norte da cidade. — explicou — Sou o que poderíamos chamar um homem de posição acomodada. Alguns me chamam rico e não lhes falta razão. Tenho muitas famílias a meu cargo e me honra tratar de ajudar sempre que está ao meu alcance.

— Todos fazemos o podemos, tal como estão as coisas. — acrescentou Carter, sem afastar seu olhar daqueles dois olhos negros e insondáveis.

— Claro. — continuou o desconhecido — O motivo que me trouxe para sua honorável instituição é um penoso assunto ao qual queria pôr solução quanto antes. Faz uma semana uma moça que trabalha em uma de minhas oficinas deu a luz um menino. O pai da criatura é, ao que parece, um patife anglo-indiano que a freqüentava e cujo paradeiro, uma vez teve notícia do embaraço da moça, é desconhecido. Ao que parece, a família da jovem é de Delhi, muçulmanos e gente simples, que não estavam ao corrente do assunto.

Carter assentiu gravemente, mostrando sua comiseração pela história referida.

— Faz dois dias soube por um de meus capatazes que a moça, em um momento de loucura, fugiu da casa onde vivia com uns familiares com a idéia de, ao que parece, vender o menino. — prosseguiu Jawahal — Não a julgue mal, é uma moça exemplar, mas a pressão que pesava sobre ela transbordou. Não deve estranhar. Este país, é igual ao seu, Mr. Carter, é pouco tolerante com as debilidades humanas.

— E você crê que o menino possa estar aqui, senhor Jawahal? — perguntou Carter, procurando reconduzir o fio de volta à meada.

— Jawahal. — corrigiu o visitante— Perceberá. O certo é que, uma vez que tive conhecimento dos fatos, senti-me em certo modo responsável. Depois de tudo, a moça trabalhava sob meu teto. Eu e um par de capatazes de confiança percorremos a cidade e averiguamos que a jovem tinha vendido o menino a um desprezível criminoso que comercializa criaturas para mendigar. Uma realidade tão lamentável como a habitual hoje em dia. Demos com ele mas, por circunstâncias que agora não vêem ao caso, escapou no último momento. Isto aconteceu ontem à noite, nas imediações deste orfanato. Tenho motivos para pensar que, por medo do que lhe pudesse acontecer, este indivíduo possivelmente abandonou o menino na vizinhança.

— Compreendo. ― opinou Carter — E levou este assunto ao conhecimento das autoridades locais, senhor Jawahal? O tráfico de meninos será duramente castigado, como sabe.

O desconhecido cruzou as mãos e suspirou levemente.

— Confiava poder solucionar o assunto sem necessidade de recorrer a esse extremo. — disse — Francamente, se o fizesse, implicaria o jovem e o menino ficaria sem pai e sem mãe.

Carter pesou cuidadosamente a história do desconhecido e assentiu lenta e repetidamente em sinal de compreensão. Não acreditava em uma só vírgula de toda a história.

— Sinto não lhe poder ser de ajuda, senhor Jawahal. Por desgraça, não encontramos nenhum menino nem tivemos notícia de que isso tenha ocorrido na área. — explicou Carter — De qualquer modo, se me proporcionar seus dados, me poria em contato com você caso tivesse qualquer notícia, embora temo que me veria obrigado a informar às autoridades caso um menino fosse abandonado nesta instituição. É a lei e eu não posso ignorá-la.

O homem contemplou Carter em silencio durante uns segundos, sem piscar. Carter lhe sustentou o olhar sem alterar seu sorriso um milímetro, embora sentisse como lhe encolhia o estômago e seu pulso acelerava como se tivesse de frente a uma serpente disposta a saltar sobre ele. Finalmente, o desconhecido sorriu cordialmente e apontou a silhueta do Raj Bhawan, o edifício do governo britânico, de aspecto palaciano, que se elevava na distância sob a chuva.

— Vocês, os britânicos, são admiravelmente observadores da lei e isso os honra. Não foi Lorde Wellesley quem decidiu trocar a sede do governo em 1799, esse magnífico enclave, para dar nova envergadura a sua lei? Ou foi em 1800? — inquiriu Jawahal.

— Lamento dizer que não sou um bom conhecedor da história local. — falou Carter, desconcertado pelo extravagante giro que Jawahal tinha conferido à conversação.

O visitante franziu o cenho em sinal de amável e pacífica desaprovação de sua declarada ignorância.

— Calcuta, com apenas duzentos e cinqüenta anos de vida, é uma cidade tão desprovida de história que o menos que podemos fazer por ela é conhecê-la, Mr. Carter. Voltando ao tema, eu diria que foi em 1799. Sabe a razão do traslado? O governador Wellesley disse que a Índia devia ser governada a partir de um palácio e não de um edifício de contadores; com as idéias de um príncipe e não as de um comerciante de especiarias. Toda uma visão, diria eu.

— Sem dúvida. — confirmou Carter, levantando-se com a intenção de se despedir do estranho visitante.

— Mas, que fazer, em um império onde a decadência é uma arte e Calcuta seu maior museu. — acrescentou Jawahal.

Carter assentiu vagamente sem saber muito bem a que.

— Sinto lhe ter feito perder seu tempo, Mr. Carter. — concluiu Jawahal.

— Ao contrário. — respondeu Carter — Somente lamento não poder lhe ser de maior ajuda. Em casos assim todos temos que fazer tudo o que esteja em nossas mãos.

— Assim é. — concordou Jawahal, levantando-se por sua vez — Agradeço sua amabilidade de novo. Apenas queria lhe formular uma pergunta mais.

— Responderei-a com supremo gosto. — replicou Carter, rogando internamente a chegada do momento em que poderia livrar-se da presença daquele indivíduo.

Jawahal sorriu maliciosamente, como se tivesse lido seus pensamentos.

— Até que idade permanecem com vocês os rapazes que recolhem , Mr. Carter?

Carter não pôde ocultar seu gesto de estranheza perante a questão.

— Confio em não ter cometido nenhuma indiscrição. — se apressou a afirmar Jawahal — Se assim for, ignore minha questão. É simples curiosidade.

— Absolutamente. Não é nenhum segredo. Os internos do St. Patricks permanecem sob nosso teto até ao dia que completem os dezesseis anos. Passado esse prazo, concluiu o período de tutela legal. Já são adultos, ou assim determina a lei, e estão em disposição de empreender sua própria vida. Como verá, esta é uma instituição privilegiada.

Jawahal o escutou atentamente e pareceu meditar sobre assunto.

— Imagino que deve ser doloroso para você vê-los partir depois os ter todos esses anos ao seu cuidado. — observou Jawahal — De algum modo, você é o pai de todos esses meninos.

— Faz parte de meu trabalho. — mentiu Carter.

— É obvio. Entretanto, perdoe meu atrevimento, mas, como sabem vocês qual é a verdadeira idade de um menino que carece de pais e família? Um tecnicismo, suponho...

— A idade de cada um de nossos internos se fixa na data de seu ingresso ou por um cálculo aproximado que a instituição aplica. — explicou Carter, incômodado perante a perspectiva de discutir procedimentos do St. Patricks com aquele desconhecido.

— Isso o converte em um pequeno Deus, Mr. Carter. — comentou Jawahal.

— É uma apreciação que não compartilho. — respondeu secamente Carter.

Jawahal saboreou o desagrado que tinha aflorado ao rosto do Carter.

— Desculpe minha ousadia, Mr. Carter. — respondeu Jawahal — Em qualquer caso, alegra-me por o haver conhecido. É possível que o visite no futuro e possa fazer uma contribuição a sua nobre instituição. Talvez volte dentro de dezesseis anos e possa assim conhecer os rapazs que hoje mesmo vão entrar para formar parte de sua grande família.

— Será um prazer o receber então se assim o desejar. — disse Carter, acompanhando o desconhecido até a porta de seu escritório — Parece que a chuva aumenta com força outra vez. Talvez você prefira esperar que amaine.

O homem se voltou para Carter e as pérolas negras de seus olhos brilharam intensamente. Aquele olhar parecia ter estado calibrando cada um de seus gestos e expressões desde o momento em que tinha penetrado em seu escritório, farejando nas fissuras e analisando pacientemente suas palavras. Carter lamentou ter feito aquele oferecimento ao estender a hospitalidade do St. Patricks.

Naquele preciso instante, Carter desejava poucas coisas no mundo com a mesma intensidade com que ansiava perder de vista aquele indivíduo. Pouco lhe importava se um furacão estava arrasando as ruas da cidade.

— A chuva cessará logo, Mr. Carter. ― respondeu Jawahal— Obrigado de todo o jeito.

Vendela, precisa como um relógio, estava esperando no corredor o fim da entrevista e escoltou o visitante até a saída. Da janela de seu escritório, Carter contemplou aquela silhueta negra afastando-se sob a chuva até vê-la desaparecer ao pé da colina entre as ruelas. Permaneceu ali, frente a sua janela, com o olhar fixo no Raj Bhawan, a sede do governo. Minutos depois, a chuva, tal como Jawahal havia previsto, cessou.

Thomas Carter se serviu de outra xícara de chá e se sentou em sua poltrona contemplando a cidade. Criou-se em um lugar parecido ao que agora dirigia, nas ruas do Liverpool. Entre os muros daquela instituição tinha aprendido três coisas que presidiram o resto de sua vida: apreciar o valor do material em sua justa medida, amar os clássicos e, em último lugar, mas não de menor importância, reconhecer um mentiroso a uma milha de distância.

Saboreou o chá sem pressa e decidiu começar a celebrar seu cinqüentagéssimo aniversário, visto que Calcuta ainda tinha surpresas reservadas para ele. Aproximou-se de sua cristaleira e tirou a caixa de charutos que reservava para as ocasiões memoráveis. Riscou um comprido fósforo e acendeu o valioso exemplar com toda a calma que requeria o cerimonial.

Logo, aproveitando a chama providêncial daquele fósforo, tirou a carta de Aryami Bosé da gaveta de seu escritório e lhe colocou fogo. Enquanto o pergaminho se reduzia a cinzas numa pequena bandeja gravada com as iniciais do St. Patricks, Carter se deleitou com o tabaco e, em honra a um de seus ídolos de juventude, Benjamim Franklin, decidiu que o novo inquilino do orfanato St. Patricks cresceria com o nome do Ben e que ele pessoalmente poria todo seu empenho em que o rapaz encontrasse entre aquelas quatro paredes à família que o destino lhe tinha roubado.

Antes de prosseguir com minha narração e entrar em detalhas sobre os acontecimentos realmente significativos deste relato, que tiveram lugar dezesseis anos mais tarde, devo me deter brevemente para apresentar a alguns de seus protagonistas. Basta dizer que, enquanto tudo isto acontecia nas ruas da Calcuta, alguns de nós ainda não tínhamos nascido e outros contávamos com apenas uns dias de vida. Só uma circunstância nos era comum e acabaria por nos unir sob o teto do St. Patricks: nunca tivemos uma família nem um lar.

Aprendemos a sobreviver sem nenhuma das duas coisas ou, melhor, inventando nossa própria família e criando nosso próprio lar. Uma família e um lar escolhidos livremente, onde não cabiam o azar nem a mentira. Nenhum dos sete conhecia outro pai senão Mr. Thomas Carter e seus discursos sobre a sabedoria que escondiam as páginas de Dante e Virgilio, nem outra mãe senão a cidade de Calcuta, com os mistérios que albergavam suas ruas sob as estrelas da península de Bengala.

Nosso clube particular tinha um nome pitoresco, cuja origem verdadeira só conhecia Ben, que o batizou a seu capricho, embora alguns tivessemos a suspeita de que tinha tomado a denominação emprestada de um velho catalogo de importadores por correio de Bombay. Seja como for, a Chowbar Society se constituiu em algum momento de nossas vidas, a partir do qual os jogos do orfanato já não ofereciam desafios tentadores. Pelo contrário, nossa astúcia estava suficientemente desenvolvida para conseguirmos sair impunemente do edifício no meio da madrugada, passado o toque de silêncio da venerável Vendela, rumo a nossa sede social, a muito secreta e moderadamente encantada casa abandonada que ocupou durante décadas a esquina do Cotton Street e Brabourne Road, em plena cidade negra e a apenas a algumas quadras do rio Hooghly.

Em honra à verdade, devo dizer que aquele casarão, ao que nós denominávamos com orgulho o Palácio da Meia-noite (em consideração ao horário de nossas sessões plenárias), nunca esteve encantado. A fama de seu feitiço, porém, não era alheia a nosso trabalho subterrâneo. Um de nossos membros fundadores, Siraj, asmático profissional e perito erudito em histórias de fantasmas, assombrações e encantamentos da cidade de Calcuta, tramou uma lenda convenientemente sinistra e verosímil a respeito de um suposto antigo inquilino. Isto ajudava a manter limpo e livre de intrusos nosso refúgio secreto.

A história, em breves palavras, versava sobre um velho comerciante que aparecia envolto em um manto branco e percorria o casarão levitando sobre o chão, com os olhos acesos como brasas e longas presas aparecendo entre seus lábios, sedento de almas incautas e bisbilhoteiras. O matiz dos olhos e as presas, é obvio, era uma contribuição pessoal e intransferível do Ben, entusiasta ferrenho em tecer tramas cuja truculência colocava os clássicos do Mr. Carter, Sófocles e o sangrento Homero incluídos, à altura do betume.

Face às ressonâncias jocosas de seu nome, a Chowbar Society era um clube tão seleto e restrito como os que povoavam os edifícios eduardinos do centro da Calcuta e emulavam seus homônimos em Londres; salões onde não fazer nada, com uma taça de brandy na mão, era patrimônio dos mais altos patrícios saxões. Nosso propósito, entretanto, a falta de cenário mais glorioso, era mais nobre.

A Chowbar Society tinha nascido com duas missões irrenunciaveis. A primeira, garantir a cada um de seus sete membros ajuda, amparo e apoio incondicional dos outros, sob qualquer circunstância, perigo ou adversidade. A segunda, compartilhar os conhecimentos que cada um de nós ia adquirindo e pô-los ao alcance dos outros, nos preparando para o dia em que cada um de nós tivéssemos que enfrentar o mundo sozinho.

Cada membro tinha jurado por seu nome e sua honra (não dispúnhamos de parentes próximos aos quais poderíamos hipotecar nos juramentos) cumprir com estes dois propósitos e guardar o segredo da sociedade. Nos sete anos de sua existência ininterrupta jamais se aceitou um novo membro. Minto, fizemos uma exceção, mas relatá-la agora seria adiantar acontecimentos...

Nunca houve um clube onde seus membros estivessem mais unidos E onde a importância do juramento tivesse tanto peso. A diferença dos clubes de cavalheiros enriquecidos do Mayfair, é que nenhum de nós tinha um lar ou uma amada nos esperando à saída do Palácio da Meia-noite. E também em clara divergência com as antigas pensões para ex-alunos de Cambridge, a Chowbar Society admitia mulheres.

Começarei pois, pela primeira mulher que assinou o juramento como membro fundador da Chowbar Society, embora quando a cerimônia teve lugar, nenhum de nós ( a referida incluída, aos seus nove anos) pensava nela como uma mulher Seu nome era Isobel e, tal como ela dizia, tinha nascido para as lamparinas. Isobel sonhava transformar–se na sucessora de Sarah Bernhardt, seduzir o público desde a Broadway ao Shafestbury, e colocar no desemprego às divas da nascente indústria do cinema em Hollywood e Bombay. Colecionava recortes e programas de teatro, escrevia seus próprios dramas («monólogos ativos», dizia ela) e os representava para todos nós com notável êxito. Sobressaíam-se suas excelentes composições de mulher fatal a beira do abismo. Sob seu aspecto extravagante e melodramático, Isobel possuía, com a provável exceção de Ben, o melhor cérebro do grupo.

As melhores pernas, entretanto, pertenciam ao Roshan. Ninguém corria como Roshan, que tinha crescido nas ruas da Calcuta aos cuidados de ladrões, mendigos e toda uma sorte de fauna daquela selva de pobreza que eram os nascentes bairros em expansão ao sul da cidade. Aos oito anos, Thomas Carter o trouxe para o St. Patricks e após várias fugas e retornos, Roshan decidiu ficar conosco. Entre seus talentos estava a serralharia. Não havia na Terra uma fechadura ou cadeado que resistisse a suas artes.

Já falei que o Siraj era o nosso especialista em casas encantadas. Siraj, além de sua asma, sua compleição débil e sua saúde doentia, possuía uma memória enciclopédica, especialmente no referente a histórias tenebrosas da cidade (e as havia as centenas). Nos relatos fantasmagóricos que adornavam nossas veladas assinaladas, Siraj era o documentalista e Ben, o fabulador. Desde o fantasma cavalgante de Hastings House ao espectro do líder revolucionário do motim de 1857, passando pelo horripilante sucesso do chamado buraco negro de Calcuta (onde morreram mais de cem homens asfixiados após serem capturados em um assédio ao antigo Fort William), não havia conto nem episódio macabro da história da cidade que escapasse ao controle, análise e arquivo do Siraj. Convém dizer que para os outros, a sua paixão era motivo de regozijo e celebração. Para sua desgraça, entretanto, Siraj sentia uma adoração pela Isobel, vizinha do doente. Não passavam seis meses sem que suas propostas de matrimônio futuro (invariavelmente declinadas) fossem causa da tormenta romântica no grupo e piorassem a asma do pobre amante ignorado.

Os afetos da Isobel eram competência exclusiva do Michael, um rapaz alto, magro e taciturno que se entregava a longas melancolias sem motivo aparente e que tinha o duvidoso privilégio de ter chegado a conhecer e recordar seus pais, mortos numa inundaçõe no delta do Ganges com o afundamento de uma barcaça sobrecarregada. Michael falava pouco e sabia escutar. Só existia um modo de chegar a conhecer seus pensamentos: observar as dezenas de desenhos que fazia durante o dia. Ben estava acostumado a dizer que, se houvesse mais do que um Michael no mundo, ele investiria sua fortuna (por ganhar ainda) em ações de companhias de cestos de papéis.

O melhor amigo do Michael era Seth, um rapaz bengali, forte e de semblante severo que sorria umas seis vezes ao ano e mesmo assim com reparos. Seth era um estudioso de tudo o que ficasse na sua linha de tiro, devorador incansável dos clássicos do Mr. Carter e aficionado à Astronomia. Quando não estava conosco, dedicava todos seus empenhos à construção de um estranho telescópio, e como Ben estava acostumado a dizer não chegaria a ver-se nem a ponta dos pés. Seth nunca apreciou o senso de humor vagamente cáustico de Ben.

Somente fica Ben e, embora o tivesse deixado para o final, resulta-me muito difícil falar dele. Havia um Ben diferente para cada dia. Seu humor trocava à meia hora e passava de longos silêncios com o rosto triste, a períodos de hiperatividade que acabavam por nos esgotar a todos. Um dia queria ser escritor; no seguinte, inventor e matemático; no outro, navegante ou mergulhador; e o resto, tudo junto e algumas coisas mais. Ben inventava teorias matemática que nem ele mesmo conseguia recordar e escrevia histórias de aventuras tão desatinadas que acabava por destrui-las antes das terminar, envergonhado das haver assinado. Metralhava constantemente todos aqueles que o rodeavam com ocorrências extravagantes e com arrevesados jogos de palavras que sempre se negava a repetir. Ben era como um baú sem fundo, cheio de surpresas e também de mistérios, de luzes e sombras. Ben era, e suponho que continua sendo, embora faça décadas que não nos vemos, meu melhor amigo.

Quanto a mim, há pouco que contar. Me chamem simplesmente Ian. Só tive um sonho, um sonho modesto: estudar Medicina e chegar a exercer como Médico. O destino foi amável comigo e me concedeu isso. Como escreveu uma vez Ben em uma de suas cartas, «Eu passava por ali e vi o que estava acontecendo».

Lembrança que nos últimos dias daquele mês de maio de 1932, os sete membros da Chowbar Society iam cumprir os dezesseis anos. Aquela era uma idade fatídica, temida e esperada com ansiedade por todos.

Aos dezesseis anos, o St. Patricks nos devolvia, conforme rezavam seus estatutos, à sociedade, para que crescêssemos como homens e mulheres e nos convertêssemos em adultos responsáveis. Aquela data tinha outro significado que todos compreendíamos muito bem: significava a dissolução definitiva da Chowbar Society. A partir daquele verão, nossos caminhos se separavam e embora pese as nossas promessas e às amáveis mentiras que tínhamos chegado a vender a nós mesmos, sabíamos que o vínculo que nos tinha unido não demoraria a desvanecer-se como um castelo de areia à beira do mar.

São tantas as lembranças que conservo daqueles anos no St. Patricks, que inclusive hoje me surpreendo sorrindo perante as ocorrências do Ben e as fantásticas histórias que compartilhamos no Palácio da Meia-noite. Mas possivelmente, de todas aquelas imagens que resistem a perder-se na corrente do tempo, a que sempre recordarei com mais intensidade era aquela figura que tantas vezes acreditei ver o anoitecer no dormitório que compartilhavam quase todos os meninos do St. Patricks, uma larga divisão, escura, de tetos altos e arqueados que fazia pensar na sala de um hospital. Suponho que, uma vez mais, a insônia que sempre padeci até passados dois anos de minha viagem a Europa converteu-me em espectador de tudo o que acontecia ao meu redor enquanto outros dormiam placidamente.

Foi ali, naquela sala sem graça, onde tantas vezes me pareceu ver aquela pálida luz cruzar a habitação. Sem saber como reagir tratava de me levantar e seguir o reflexo até ao extremo da divisão e naquele momento a observava de novo, do modo em que tinha sonhado, vendo-a em tantas outras ocasiões. A silhueta evanescente de uma mulher envolta em mantos de luz espectral se inclinava lentamente sobre a cama em que Ben dormia profundamente. Eu lutava por manter os olhos abertos e acreditava ver a dama de luz acariciar maternalmente meu amigo. Contemplava seu rosto ovalado e transparente envolto em um halo brilhante e vaporoso. A dama elevava os olhos e me olhava. Longe de sentir medo, eu me perdia no poço daquele olhar triste e ferido. A princesa de luz me sorria e logo, depois de acariciar de novo o rosto do Ben, sua silhueta se desvanecia no ar em numa chuva de lágrimas de prata.

Sempre mantive a fantasia de que aquela visão encarnava a sombra de uma mãe que Ben nunca chegou a conhecer e em algum lugar de meu coração, albergava a esperança infantil de que, se algum dia conseguisse me render ao sono, uma aparição como aquela velasse também por mim. Aquele foi o único segredo que nunca compartilhei com ninguém, nem sequer com o Ben.