O Palácio da Meia-Noite

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 7 de 7 · parte 1/2

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O Palácio da Meia-Noite

O Nome da Meia-Noite

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

Calcuta, 29 de maio de 1932.

 

A sombra do temporal precedeu a chegada da meia-noite e estendeu lentamente um extenso e plúmbeo manto sobre Calcuta que resplandecia como um sudário ensangüentado a cada estalo da fúria elétrica que albergava em seu seio. O fragor da tormenta que se avizinhava, desenhava no céu uma imensa aranha de luz que parecia tecer sua teia sobre a cidade. Enquanto, a força do vento do Norte varria a neblina sobre o rio Hooghly e despia de noite fechada o esqueleto devastado da ponte de metal.

A silhueta do Jheeter's Gate se ergueu entre a névoa fugaz. Um raio desceu do céu até a agulha da cúpula da abóbada central da estação e se acendeu em uma hera de luz azul que percorreu a retícula de arcos e vigas de aço até aos alicerces.

Os cinco jovens se detiveram frente à soleira da ponte; só Ben e Roshan adiantaram uns passos em direção à estação. Os dois trilhos desenhavam um caminho reto flanqueado por duas linhas prateadas que se afundavam diretamente na boca da estação. A Lua se ocultou atrás do manto de nuvens e a cidade pareceu ficar ao amparo da luz de uma longínqua vela azul.

Ben examinou com cautela o percurso da ponte em busca de fissuras ou gretas que pudessem enviá-los diretamente à corrente noturna do rio, mas apenas era possível vislumbrar nada mais que a guia resplandecente dos trilhos entre a mata e os escombros. O vento arrastava um rumor mascarado da outra borda do rio. Ben olhou para Roshan, que observava nervosamente as bocas escuras da estação. Este se aproximou até aos trilhos e se agachou junto a eles, sem afastar o olhar de Jheeter's Gate. O rapaz possou a palma da mão sobre a superfície de um dos trilhos e a retirou súbitamente, como se tivesse recebido uma descarga elétrica.

— Está vibrando. ― disse Roshan, atemorizado — Como se se aproximasse um trem.

Ben se aproximou e apalpou a larga estria de metal. Roshan olhou, ansioso.

— É a vibração do rio contra a ponte. — tranquilizou — Não há nenhum trem.

Seth e Michael se aproximaram deles enquanto Ian se ajoelhava para apertar os sapatos com um duplo nó, um ritual que reservava para as situações em que seus nervos se convertiam em cabos de aço.

Ian levantou a vista e sorriu timidamente, sem mostrar nem um ápice do temor que Ben sabia que gotejava, nos outros e nele mesmo.

— Eu esta noite faria um nó triplo. — brincou Seth.

Ben sorriu e os membros em ativo da Chowbar Society trocaram um olhar aberto e expectante. Um segundo depois, todos imitaran lan e a reforçar os nós de seus sapatos, conjurando aquele talismã que tão bom resultado tinha dado em seu companheiro em outros lances.

Pouco depois formaram uma fila indiana, iniciada pelo Ben e fechada pelo Roshan na retaguarda, e entraram com precaução na ponte. Ben, aconselhado pelo Seth, pôs esmero ao pisar perto do trilho, onde a estrutura da ponte era mais sólida. Em pleno dia resultava simples contornar as madeiras quebrados e ver com antecipação as zonas que tinham cedido ao passar do tempo e pendiam como escorregas diretos ao centro do rio, mas a meia-noite e sob as nuvens do temporal que se aproximava, o traçado se transformava em um bosque infestado de armadilhas, que quase teriam que avançar passo a passo, apalpando o terreno.

Não tinham completado ainda uma cincuentena de metros, uma quarta parte do percurso, quando Ben se deteve e elevou a mão em sinal de alto. Seus companheiros olharam para a frente sem compreenderem. Por um instante permaneceram em silêncio, imóveis sobre as vigas que oscilavam gelatinosamente sob a contínua investida do rio que rugia a seus pés.

― O que aconteceu? — perguntou Roshan do final da formação— Por que nos detemos?

Ben assinalou para Jheeter's Gate e todos puderam ver duas artérias de fogo que abriam caminho para eles sobre os trilhos a grande velocidade.

— Para um lado! — gritou Ben. Os cinco rapazs se lançaram ao chão e as duas paredes de fogo cortaram o ar junto a eles, com a raiva de duas armas de gás aceso. Seu passo produziu um intenso efeito de sucção, arrastou consigo partes do caminho e semeou um rastro de chamas sobre a ponte.

— Todo mundo está bem? — perguntou Ian, levantando-se e comprovando que parte de suas roupas fumegavam e desprendiam vapor.

Outros assentiram em silêncio.

― Aproveitemos para cruzar antes que se extingam as chamas. — sugeriu Ben.

— Ben, acredito que há alguma coisa debaixo da ponte. — apontou Michael.

Outros tragaram saliva. Um estranho som repicava sob a prancha de metal a seus pés. A visão de umas garras de aço arranhando a lâmina iluminou na mente do Ben.

— Pois não ficaremos aqui para comprovar. — replicou Ben — Rápido.

Os membros da Chowbar Society apressaram o passo e seguiram o Ben serpenteando pela ponte até seu extremo, sem deterem-se para olhar atrás. Ao pisar de novo terra firme a escassos metros da entrada para a estação, Ben se voltou e indicou a seus companheiros que se afastassem do vigamento metálico.

— O que era isso? — perguntou Ian em suas costas. Ben encolheu os ombros.

— Olhem! — exclamou Seth — No centro da ponte!

Os olhares de todos se concentraram naquele ponto. Os trilhos estavam adquirindo uma tonalidade avermelhada que irradiava em ambas as direções e desprendia um ligeiro halo fumegante. Em poucos segundos, ambos os trilhos começaram a curvar-se sobre si mesmos. A estrutura inteira da ponte começou a gotejar grossas lágrimas de metal fundido que caíam sobre o Hooghly e produziam explosões violentas com o impacto na fria corrente.

Os cinco rapazs assistiram paralisados ao assustador espetáculo de uma estrutura de aço de mais de duzentos metros que se fundia ante seus olhos, como um bloco de manteiga em uma frigideira ardente. A luz âmbar do metal líquido se inundou no rio e desenhou uma densa pincelada sobre os rostos dos cinco amigos. Finalmente, o vermelho incandescente deu lugar a um tom metálico opaco, sem brilho, e os dois extremos se abateram sobre o rio como se dois salgueiros de aço tivessem ficado apanhados na contemplação de sua própria imagem.

O som furioso do aço faiscando na água se apaziguou lentamente. Então os cinco amigos puderam escutar em suas costas que a voz da antiga sereia da estação do Jheeter's Gate rasgava a noite de Calcuta pela primeira vez em dezesseis anos. Sem dizerem uma palavra, voltaram-se e cruzaram a fronteira que os separava do fantasmagórico cenário da partida que se dispunham a jogar.

 

Isobel abriu os olhos ante o alarido da sereia que percorreu os túneis imitando a advertência de um bombardeio. Seus pés e mãos estavam unidos firmemente a duas largas barras de metal ferrugentas. A única claridade que percebia se filtrava do ralo de um respiradouro situado sobre ela. O eco da sereia se perdeu lentamente...

De repente escutou que algo se arrastava para o orifício do alçapão. Olhou para as frestas de luz e observou que o retângulo de claridade obscurecia e o alçapão se abria. Fechou os olhos e conteve a respiração. O fechamento dos ganchos metálicos que a imobilizavam de pés e mãos saltou com um estalo e sentiu uma mão de compridos dedos a agarrava pela base do pescoço e a elevava em vertical através do alçapão. A moça não pôde evitar gritar de terror e seu seqüestrador a lançou contra a superfície do túnel como um peso morto.

Abriu os olhos e contemplou uma silhueta alta e negra, imóvel, frente a ela, uma figura sem rosto.

— Alguém veio por você. — murmurou a face invisível — Não os façamos esperar.

Imediatamente, duas pupilas ardentes se acenderam sobre aquele rosto, fósforos acesos na escuridão. A figura a agarrou pelo braço e a arrastou através do túnel. Depois do que lhe pareceram horas de agônica caminhada na escuridão, Isobel distinguiu a silhueta fantasmagórica de um trem detido nas sombras. Deixou-se arrastar até ao vagão de trás e não opôs resistência quando foi empurrada para o interior com força, onde ficou encerrada.

Isobel tinha caído de bruços sobre a superfície carbonizada do vagão e notou uma profunda pontada de dor no ventre. Um objeto lhe tinha aberto um corte de vários centímetros. Gemeu. O terror se apoderou dela totalmente ao perceber umas mãos que a aferravam e tratavam de lhe dar a volta. Gritou e enfrentou o rosto sujo e exausto do que parecia ser um rapaz ainda, mas assustado que ela.

— Sou eu, Isobel. — murmurou Siraj — Não tenha medo.

Pela primeira vez em sua vida, Isobel deixou que suas lágrimas fluissem sem freio frente a Siraj e abraçou o corpo ossudo e fraco de seu amigo.

 

Ben e seus companheiros se detiveram ao pé do relógio, com suas agulhas caídas, que se elevava na plataforma principal do Jheeter's Gate. Ao seu redor se desdobrava um amplo e insondável cenário de sombras e luzes angulosas que entravam da clarabóia de aço e vidro, e que deixavam entrever os rastros do que algum dia tinha sido a mais suntuosa estação de trem jamais sonhada, uma catedral de ferro ereta ao deus da ferrovia.

Ao contemplá-la dali, os cinco rapazs puderam imaginar o semblante que Jheeter’s Gate teria, brilhante antes da tragédia. Uma majestosa abóbada luminosa estendida por arcos invisíveis que pareciam suspensos do céu e cobriam fileiras e fileiras de plataformas alinhadas em curva, em forma de ondas desenhadas por uma moeda em um lago. Grandes pôsteres que anunciavam as saídas e chegadas dos trens. Luxuosos quiosques de metal lavrado e relevo vitorianos. Escadarias palacianas que subiam por condutas de aço e vidro para os níveis superiores e criavam corredores suspensos no ar. As multidões perambulando por suas salas e abordando longos espressos que haveriam de levá-los a todos os pontos do país... De todo aquele esplendor apenas ficava nada mais que um escuro reflexo cilindrico, convertido na ameaça de sala de espera ao inferno que seus túneis pareciam prometer.

Ian se fixou nas agulhas do relógio, deformadas pelas chamas, e tratou de imaginar a magnitude do incêndio. Seth se uniu a ele, ambos evitaram comentários.

— Deveríamos nos separar em grupos de dois para esta busca. O lugar é imenso. — Indicou Ben.

— Não acredito que seja uma boa ideia. — resppondeu Seth, que não podia apagar de sua mente a imagem da ponte derrubando-se sobre as águas.

― E se fizéssemos assim, somente somos cinco. — indicou Ian. Quem iria sozinho?

— Eu — respondeu Ben. Os outros o observaram com uma mescla de alívio e preocupação.

— Continua sem me parecer uma boa ideia. — repetiu Seth.

— Ben tem razão. — apoiou Michael — Pelo que vimos até agora, pouco importa se formos cinco ou cinqüenta.

— Homem de poucas palavras, mas sempre cheias de ânimo. ― comentou Roshan.

— Michael, — sugeriu Bem — você e Roshan podem revistar os níveis. Ian e Seth se ocuparão deste nível.

Ninguém parecia disposto a discutir a partilha dos destinos. Tão pouco apetecível parecia um como outro.

— E você, onde pensa procurar? — perguntou Ian, intuindo a resposta.

— Nos túneis.

— Com uma condição. — indicou Seth, tratando de impor o sentido comum.

Ben assentiu.

— Sem heroísmos nem estupidezas. — explicou Seth — O primeiro que veja um indício de algo acontecendo, marca o lugar e volta para procurar o resto.

— Soa razoável. — conveio Ian.

Michael e Roshan assentiram de bom grau.

— Ben? — solicitou Ian.

— De acordo. — murmurou Ben.

— Não o ouvimos. — insistiu Seth.

— Prometido. — disse Ben — Nos encontraremos aqui em meia hora.

— O céu o ouça. — disse Seth.

 

Na memória de Sheere as últimas horas se transformaram em apenas uns segundos, durante os quais sua mente parecia ter sucumbido aos efeitos de uma poderosa droga que tinha nublado seus sentidos e a tinha precipitado para um abismo sem fundo. Recordava vagamente seus esforços vãos por escapar da pressão implacável daquela silhueta ígnea que a tinha tornado miserável através de uma interminável retícula de condutas, mais escuras que a noite fechada. Recordava também, uma cena extraída de um episódio longínquo e confuso, o rosto do Ben debatendo-se no chão de uma casa cujos contornos lhe resultavam familiares, embora ignorasse quanto tempo tinha transcorrido desde então. Talvez uma hora, uma semana ou um mês.

Quando recuperou a consciencia de seu próprio corpo e dos machucados que a luta tinha deixado nele, Sheere compreendeu que estava já acordada há uns segundos e que o cenário que a rodeava não formava parte de seu pesadelo. Encontrava-se no interior de uma estadia larga e profunda, flanqueada por duas fileiras de janelas através das quais se aventurava uma certa claridade longínqua que permitia adivinhar os restos do que parecia ser um estreito salão. Os esqueletos destroçados de três pequenos abajures de vidro pendiam do teto igual a arbustos secos. Os restos de um espelho estilhaçado brilhavam na penumbra atrás de um mostrador que sugeria o aspecto de um bar de luxo. Um bar de luxo, entretanto, devorado por uma fúria incendiária sem misericordia.

Tratou de levantar-se e, ao tempo que comprovava que a corrente que lhe pendia as mãos às costas estava travada em um estreito tubo, compreendeu instintivamente onde se achava: no interior de um trem que tinha estado parado nas galerias subterrâneas do Jheeter's Gate. A sombria certeza de seu paradeiro deixou cair sobre ela uma chuva de água gelada que a despertou do torpor e o atordoamento que pesavam sobre sua mente.

Forçou a vista e tratou de encontrar, entre a massa escura de mesas caídas e restos do incêndio, alguma ferramenta que pudesse lhe servir para liberar-se de suas ataduras. O interior do vagão devastado não parecia conter mais que vestígios carbonizados e imprestáveis que tinham sobrevivido milagrosamente. Lutou exasperada sem obter mais resultado que um endurecimento nas ataduras que a retinham.

Dois metros em frente a ela, uma massa negra, que tinha tomado desde o começo por uma pilha de escombros, se voltou repentinamente, com a celeridade de um grande felino que tinha permanecido imóvel. Um sorriso luminoso se acendeu sobre um rosto invisível na sombra. Seu coração deu um tombo e a figura se aproximou até um palmo escasso de seu rosto. Os olhos do Jawahal resplandeceram como brasas ao vento e Sheere percebeu o fedor ácido e penetrante da gasolina queimada.

— Bem-vinda ao que resta de meu lar, Sheere — murmurou Jawahal fríamente — É assim como você se chama, não?

Sheere assentiu, paralisada pelo terror que lhe inspirava aquela presença.

— Não deve temer nada de mim. — disse Jawahal. Sheere reprimiu as lágrimas que tentavam escapar a seu controle; não pensava render-se tão cedo. Fechou os olhos com força e respirou entrecortadamente.

— Me olhe quando falo com você. — disse Jawahal em um tom que lhe gelou o sangue.

Sheere abriu os olhos lentamente e comprovou com horror que a mão do Jawahal se aproximava de seu rosto. Seus longos dedos, protegidos por uma luva negra, acariciaram sua face e lhe afastaram as mechas de cabelo que caíam sobre seu rosto com terna delicadeza. Os olhos de seu seqüestrador pareceram empalidecer por um segundo.

— Parece-se tanto com ela... — sussurrou Jawahal. Repentinamente, a mão se retirou igual a um animal assustado, e Jawahal se levantou. Sheere notou que as ligaduras atrás de suas costas cediam e suas mãos ficavam livres.

— Se levante e me siga. — ordenou.

Sheere obedeceu docilmente e deixou que Jawahal desse o primeiro passo. Assim que a escura silhueta se adiantou um par de metros entre os escombros do vagão, pôs-se a correr em direção oposta tão rapidamente como seus músculos intumescidos o permitiram. A moça atravessou o vagão atropeladamente e se lançou contra a porta que separava os carros do comboio e os conectava através de uma pequena plataforma ao ar livre. Pousou sua mão sobre o bracelete de aço enegrecido e pressionou com força. O metal cedeu como argila de moldar e Sheere contemplou atônita como se convertia em cinco afiados dedos que a agarraram pelo pulso. Lentamente, a lâmina da porta se dobrou sobre si mesma e adquiriu a forma de uma estátua brilhante em cujo rosto liso emergiram os traços do Jawahal. Seus joelhos fraquejaram e caiu prostrada frente a ele. Jawahal a elevou no ar e a moça leu a ira contida em seus olhos.

— Não tente de fugir de mim, Sheere. Muito em breve, você e eu seremos um só ser. Eu não sou seu inimigo. Sou seu futuro. Cruze a meu lado ou, caso contrário, isto é o que acontecerá com você.

Jawahal tirou do chão os restos de uma xícara de vidro quebrada, rodeou-a com seus dedos e pressionou com força. O vidro se fundiu sob seu punho e derramou entre os dedos grossas gotas de vidro líquido que caíram sobre a superfície do vagão formando um espelho de chamas entre os escombros. Jawahal soltou a Sheere e a deixou cair a escassos centímetros do vidro fumegante.

— Agora, faça o que lhe disse.

 

Seth se ajoelhou frente ao que parecia uma lâmina brilhante sobre o chão na seção central da estação e a apalpou com a ponta dos dedos. O líquido estava morno, era espesso e tinha a textura do azeite derramado.

— Ian, venha ver isto. — chamou Seth. O jovem se aproximou e se ajoelhou junto a ele. Seth lhe mostrou seus dedos impregnados naquela substância viscosa. Ian umedeceu a ponta de seu dedo indicador e, depois de comprovar a consistência esfregando-a com o polegar, farejou a substância.

— É sangue — opinou o aspirante a médico.

Seth empalideceu súbitamente e limpou os dedos na perna da calça da calça com impaciência.

— Isobel? — perguntou Seth se afastando da poça e reprimindo as náuseas que subiam da boca de seu estômago.

— Não sei. — respondeu Ian desconcertado — É recente ou assim parece.

Ian se levantou e olhou ao redor da ampla mancha escura.

— Não há marcas ao redor. Nem rastros. — murmurou.

Seth olhou para ele, sem compreender o alcance daquela apreciação.

— Quem quer que tenha perdido todo esse sangue não poderia ir muito longe sem deixar um rastro, ― explicou Ian — mesmo se o tivessem arrastado. Não tem sentido.

Seth sopesou a teoria de seu amigo e rodeou os restos de sangue, corroborando a observação de que não havia marcas ou sinais que partissem dele em vários metros à sua volta. Ambos os amigos se reuniram de novo e trocaram um olhar de estranheza. Repentinamente, uma sombra de incerteza apareceu nos olhos do Ian e Seth caçou em vôo a idéia que acabava de cruzar a mente de seu amigo. Devagar, ambos elevaram a cabeça e olharam em direção à abóbada que se elevava na escuridão.

Ian e Seth escrutinaram as sombras superiores da grande sala e seu olhar se deteve sobre a estrutura de uma grande arranha de vidro que pendia de seu centro. Desde um dos extremos, uma soga branca sujeitava um corpo envolto em um manto brilhante que se balançava lentamente no vazio. Ambos tragaram saliva.

— Está morto? — perguntou timidamente Seth.

Ian manteve o olhar fixo no macabro achado e encolheu os ombros.

— Não deveríamos avisar os outros? ― indicou Seth nervosamente.

— Logo que averigüemos quem é. ― replicou Ian — Se o sangue for dela, e tudo parece indicar que assim é, pode ser que ainda viva. Vamos desprender-lo.

Seth entreabriu os olhos. Tinha esperado que algo semelhante acontecesse assim que tinham cruzado a ponte, mas constatar que sua previsão era certa reforçou a náusea que lhe dançava na garganta. O rapaz respirou profundamente e optou por não pensar mais a respeito.

— De acordo. — conveio Seth, resignado — Como?

Ian examinou a parte superior da sala e percebeu que existia uma plataforma metálica que rodeava seu perímetro a uns quinze metros de altura. De ali partia um estreita conduta até a aranha de vidro, apenas uma passarela, provavelmente destinada à manutenção e limpeza da estrutura.

— Subiremos até esse corredor e o desprenderemos. — assinalou Ian.

— Um de nós teria que ficar aqui para atendê-lo, — precisou Seth — e acredito que teria que ser você.

Ian observou atentamente seu companheiro. — Está certo de que quer subir sozinho?

— Morro de vontade... — replicou Seth — Espere aqui. E não se mova.

Ian assentiu e viu Seth partir em direção às escadas que subiam ao nível superior do Jheeter's Gate. Logo que as sombras engoliram seu companheiro e o som de seus passos se afastou escada acima, examinou a escuridão ao seu redor.

As brisas que escapavam dos túneis uivavam em seus ouvidos e arrastavam pequenos fragmentos de escombros sobre o chão. Ian elevou de novo a vista e tratou de reconhecer aquela figura que girava suspensa sem consegui-lo. A só a idéia de que pudesse tratar-se de Isobel, Siraj ou Sheere não ousava insinuar-se em sua mente. De súbito, um reflexo fugaz pareceu iluminar a superfície do atoleiro a seus pés, mas quando lan baixou o olhar, já não havia nada.

 

Jawahal arrastou Sheere através do passadiço fantasmagórico que formava aquele trem detido no túnel até à cabeça do vagão, que precedia à locomotiva. Uma intensa luz alaranjada aparecia sob as comportas do vagão e o rumor furioso de uma caldeira rugia em seu interior. Sheere sentiu que a temperatura crescia vertiginosamente a seu redor e que todos os poros de sua pele se abriam ao contato do ar ardente e abrasador que exalava daquele lugar.

— O que há aí dentro? — perguntou Sheere, alarmada.

Jawahal fechou seus dedos sobre o braço dela como um grilhão e atirou-a com força.

— A máquina do fogo — respondeu Jawahal abrindo a porta e empurrando à moça o interior — Esta é minha casa e meu cárcere. Mas muito em breve tudo isso mudará graças a você, Sheere. Depois de todos estes anos, reunimo-nos de novo. Não é isso o que você sempre desejou?

Sheere protegeu o rosto da baforada de calor ardente que lhe assaltou súbitamente e observou entre seus dedos o interior daquele vagão. Uma gigantesca maquinaria formada por grandes caldeiras metálicas unidas a um interminável alambique de tubagens e válvulas rugia frente a ela ameaçando estalar pelos ares. De entre as juntas daquele monstruoso engenho exalavam e escapavam furiosos vapores e gáses, que adquiriam uma intensa cor acobreado que revestia as paredes do vagão. Sobre uma prancha de metal que sustentava todo um jogo de chaves de pressão e manômetros, Sheere reconheceu uma figura lavrada no ferro que representava uma águia elevando-se majestosamente de entre as chamas. Sob a efígie da ave Sheere advertiu umas palavras gravadas em um alfabeto que desconhecia.

— O Pássaro de Fogo. — disse Jawahal junto a ela — “o altar do meu ego”.

— Meu pai construiu esta máquina... — murmurou Sheere — Você não tem nenhum direito a utilizá-la. Não é mais que um ladrão e um assassino.

Jawahal a observou pensativo e lambeu os lábios.

— Que mundo construímos onde nem os ignorantes podem ser felizes? — perguntou Jawahal — Acordada, Sheere.

Sheere se voltou para contemplar com desprezo Jawahal.

— Você o matou... disse lhe dirigindo um intenso olhar de ódio.

Os lábios de Jawahal se encolheram em uma careta silenciosa e grotesca. Segundos mais tarde, Sheere compreendeu que se estava rindo. Enquanto o fazia, Jawahal a empurrou brandamente contra a parede ardente do vagão e assinalou para ela com um dedo acusador.

— Fique aí e não se mova. — ordenou.

Sheere observou Jawahal aproximar-se da palpitante maquinaria do Pássaro de Fogo e viu que pousava as palmas das mãos sobre o metal ardente das caldeiras. Suas mãos aderiram à prancha e Sheere pôde cheirar o fedor da pele chamuscada entre o horripilante som que produzia a carne ao queimar-se. Jawahal entreabriu lentamente os lábios e as nuvens de vapor que flutuavam no vagão pareceram entrar em suas vísceras. Logo se voltou e sorriu ante o rosto horrorizado da jovem.

— Assusta você brincar com fogo? Então brincaremos de outra coisa. Não podemos decepcionar seus amigos.

Sem esperar réplica, Jawahal se separou das caldeiras e se dirigiu até ao extremo do vagão, onde agarrou um grande cesto de vime com o qual se aproximou da Sheere sustentando um inquietante sorriso nos lábios.

— Sabe qual é o animal que mais se parece com o homem? — perguntou amavelmente Jawahal.

Sheere negou.

— Vejo que a educação que lhe proporcionou sua avó é mais pobre do que caberia supor. A ausência de um pai é irreparável...

Abriu o cesto e introduziu o punho no interior. Seus olhos desprederam um brilho malicioso. Quando o extraiu, sustentava em suas mãos o corpo sinuoso e brilhante de uma serpente. Uma áspide.

— Este é o animal mais parecido com o homem. Arrasta-se e troca de pele a conveniência. Rouba e come as crias de outras espécies em seus próprios ninhos, mas é incapaz de enfrentar-se a eles em uma luta limpa. Sua especialidade, contudo, é aproveitar a menor oportunidade para aplicar sua picada letal. Só tem veneno para uma mordida e necessita horas para refazer-se, mas aquele que leva sua marca está condenado a uma morte lenta e segura. Enquanto o veneno penetra pelas veias, o coração da vítima pulsa cada vez mais devagar, até deter-se. Inclusive esta pequena besta, em sua mesquinharia, dispõe de um certo gosto pela poesia. Como o homem. Embora ela, em diferença deste, nunca morderia seus semelhantes. Uma falha. Não acha? Talvez por isso tenham acabado servindo de divertimento como guia de ruas de faquires e curiosos.

Ainda não está à altura do rei da criação.

Jawahal aproximou o réptil de Sheere e a moça se apertou contra a parede. Jawahal sorriu agradado ante o olhar de terror que percebeu em seus olhos.

— Sempre tememos mais o que nos parece. Mas não se preocupe, ― a tranqüilizou Jawahal — não é para você.

Jawahal pegou numa pequena caixa de madeira vermelha e introduziu a serpente em seu interior. Sheere respirou com mais calma uma vez que o réptil esteva fora de seu campo de visão.

― O que pensa fazer com ela?

— Como lhe disse, é para levar a cabo um pequeno jogo. — explicou Jawahal — Esta noite temos convidados e devemos lhes proporcionar toda sorte de entretenimentos.

— Que convidados? — perguntou Sheere, rogando que Jawahal não confirmasse seus piores temores.

— Uma questão supérflua, querida Sheere. Reserve suas perguntas para as verdadeiras questões, como por exemplo, verão nossos amigos a luz do dia?, ou, quanto demora o beijo de nossa pequena amiga para amornar um coração são e jovem, transbordante da saúde dos dezesseis anos? A retórica nos ensina que isso são perguntas com sentido e estrutura. Se não sabe se expressar, Sheere, não sabe pensar. E se não sabe pensar, está perdida.

— Essas palavras pertencem a meu pai. — acusou Sheere — Ele as escreveu.

— Então vejo que ambos lemos os mesmos livros. — replicou Jawahal — Que melhor princípio para uma amizade eterna, querida Sheere?

Sheere assistiu em silencio ao pequeno discurso de Jawahal sem afastar a vista da caixa de madeira vermelha que cobria a áspide, imaginando seu corpo escamoso retorcendo-se no interior. Jawahal elevou as sobrancelhas.

— Bem, — concluiu— agora deverá me desculpar se me ausentar uns momentos para ultimar o recebimento de nossos hóspedes. Tenha paciência e me espere. Valerá a pena.

De seguida, Jawahal agarrou de novo Sheere e a conduziu até um minúsculo cubículo que se acessava por uma estreita porta posicionada num dos muros do túnel e que noutro momento tinha feito as vezes de quarto para cobrir as cavilhas de segurança das mudanças de vias. Empurrou à moça ao interior e depositou a caixa vermelha a seus pés. Sheere o olhou suplicante, mas Jawahal fechou a porta frente a ela e a deixou na mais absoluta escuridão.

— Me tire daqui, por favor. — suplicou Sheere.

— Tirarei muito em breve, Sheere. — sussurrou a voz do Jawahal no outro lado da porta — E então ninguém nos separará.

― O que quer fazer comigo?

— Vou viver dentro de ti, Sheere. Em sua mente, em sua alma e em seu corpo. — respondeu Jawahal — Antes que amanheça, seus lábios serão os meus e seus olhos verão o que eu ver. Amanhã será imortal, Sheere. Que poderia pedir mais?

Sheere gemeu na escuridão.

— Por que faz você tudo isto? — suplicou a moça.

Jawahal guardou silêncio uns instantes.

— Porque quero você, Sheere... — respondeu — E já conhece o ditado: sempre matamos aquilo que mais amamos.

 

Depois de uma interminável espera, Seth apareceu finalmente ao pé da plataforma que rodeava a parte superior da sala. Ian suspirou aliviado.

― Onde você se tinha metido? — exigiu Ian. Sua voz ricocheteou na sala, formando um estranho diálogo com seu próprio eco. Suas escassas esperanças de passar desapercebidos durante o registro se estavam esfumando a toda pressa.

— Não é fácil chegar até aqui — vozeou Seth — Este lugar é o pior ninho de corredores e corredores escuros, tirando as pirâmides do Egito. Agradeça por que não me tenha perdido.

Ian assentiu e indicou a Seth que se dirigisse a conduta no interior do coração da aranha de vidro. Seth percorreu a plataforma e se deteve no seu início.

— Algo está mal? — perguntou Ian observando seu comanheiro situado a uns dez metros sobre ele.

Seth negou em silêncio e seguiu caminhando sobre a estreita passagem até deter-se de novo a dois metros do corpo que pendia da soga. Aproximou-se lentamente até à bordo e se inclinou para examinar o corpo. Ian observou que o rosto de seu companheiro se decompunha.

— Seth? O que aconteceu, Seth? Os cinco segundos seguintes decorreram a velocidade vertiginosa e Ian não pôde fazer mais do que assistir ao terrível espetáculo que se desdobrava ante seus olhos e registrar cada um de seus detalhes sem dispor de tempo para reagir. Seth se ajoelhou para desatar a soga que sujeitava o corpo, mas, ao agarrá-la, a corda se enroscou entre suas pernas como uma serpente e o corpo inerte se precipitou no vazio. Ian contemplou que a corda que havia suspenso o corpo atirou-se para seu amigo com uma violenta sacudida e o arrastava para as trevas da abóbada, como um boneco indefeso. Seth, preso pela perna, lutava inutilmente e gritava pedindo ajuda enquanto seu corpo se elevava em vertical numa arrepiante velocidade e desaparecia da vista.

Enquanto isso acontecia, o corpo que tinha caído no vazio se precipitou sobre o atoleiro de sangue. Ian observou que, sob o manto brilhante que o envolvia, apenas ficavam os restos de um esqueleto cujos ossos estalaram ao impacto com o contacto do chão e se dissolveram em pó; o manto cobriu a mancha escura e a absorveu. Ian reagiu e se aproximou dele. Ao examiná-lo, reconheceu aquele manto que tinha acreditado ver tantas ocasiões no St. Patricks durante suas noites de insônia, vestindo aquela dama de luz que visitava seu amigo Ben em sonhos.

Elevou de novo o olhar em busca de algum rastro de seu amigo Seth, mas a escuridão impenetrável o tinha devorado e não ficava mais vestígio de sua presença que o eco moribundo de seus gritos percorrendo as curvas da abóbada catedralica.

 

— Ouviste isso? — perguntou Roshan detendo-se escutar os gritos que pareciam provir das vísceras da gigantesca estrutura.

Michael assentiu. O eco dos gritos se desvaneceu e logo ambos ficaram de novo envoltos no intermitente tilitar que produziam as gotas da garoa ao impactar contra a parte superior da abóbada sob a que se encontravam. Tinham subido até o último nível do Jheeter's Gate e uma vez ali tinham descoberto o insólito espetáculo da grande estação das alturas. As plataformas e as vias apareciam longínquos e o preciosista vigamento de arcos e níveis sobrepostos se apreciava com muita maior clareza desde aquele ponto.

Michael se deteve na beira de uma balaustrada metálica que entrava no vazio sobre a vertical do grande relógio sob o qual tinham cruzado ao penetrar na estação. Sua percepção pictórica lhe permitiu apreciar o hipnótico efeito óptico que insinuava a fuga de centenas de vigas curvadas do centro geométrico da cúpula e que pareciam perder-se em uma curva infinita que jamais chegava ao chão. Desde aquela atalaia privilegiada, o espectador experimentava a sensação de que a estação subia para o céu, traçando uma insondável torre de Babel que entrava nas nuvens e se retorcia entre elas como uma coluna bizantina. Roshan se uniu a ele e jogou uma breve olhada à vertiginosa visão que parecia enfeitiçar seu amigo.

— Você vai enjoar. Venha, sigamos. ― Michael elevou a mão em sinal de protesto.

— Não, espera. Venha aqui. ― Roshan apareceu fugazmente a beira da balaustrada.

— Se olho outra vez, cairei. ― Um enigmático sorriso aflorou nos lábios do Michael. Roshan observou seu companheiro, se perguntando o que seus olhos teriam descoberto.

— Não se dá conta, Roshan? — perguntou Michael.

Seu amigo negou. — Explique-me isso

— Esta estrutura. — indicou Michael — Se observar a fuga desde esse ponto da cúpula, dar-se-à conta.

Roshan tratou de seguir as indicações do Michael, mas o objeto de suas observações nem sequer lhe insinuava.

— O que está tentando me dizer, Michael?

— É muito singelo. Esta estação, toda a estrutura do Jheeter's Gate, não é mais que uma imensa esfera da qual só vemos a parte que emerge da superfície. A torre do relógio está situada diretamente na vertical do centro da cúpula, como um assento do raio.

Roshan absorveu as palavras do Michael com parcimônia.

— Bem. É uma condenada bola. — admitiu — E o que mais?

— Sabe a dificuldade técnica que implica construir uma estrutura como esta? — perguntou Michael.

Seu companheiro negou de novo.

— Deduzo que é considerável. — aduziu Roshan.

— Radical. — sentenciou Michael, desempoeirando o adjetivo que reservava ao cúmulo dos superlativos — Por que motivo alguém desenharia uma estrutura como esta?

— Não estou muito seguro de querer saber a resposta. — replicou Roshan — Baixemos ao nível inferior. Aqui não há nada.

Michael assentiu, ausente, e seguiu Roshan em direção às escadas.

O subnivel inferior que se estendia sob a plataforma de observação da cúpula apenas media metro e meio de elevação e estava virtualmente alagado pelas águas filtradas das chuvas que tinham começado a cair sobre Calcuta desde inícios de maio. A superfície do chão, quase sob um palmo de água estagnada e poluida que emitia um vapor fétido e nauseabundo, estava coberta por uma massa de lama e escombros, decompostos pela ação das filtrações durante mais de uma década. Michael e Roshan, agachados para poderem introduzir-se no estreito subnivel, avançavam dificilmente entre o lodo que os cobria até ao tornozelo.

— Este lugar é pior que as catacumbas — comentou Roshan — Por que demônios este piso é tão condenadamente baixo? Faz séculos que as pessoas não medem metro e meio.

— Provavelmente esta era uma zona restringida — respondeu Michael—. Possivelmente albergue parte do sistema de pesos que compensam a abóbada. Procure não tropeçar. Caso contrário vem tudo abaixo.

— Isso é uma brincadeira?

— Sim — repôs suncintamente Michael.

— É a terceira piada que ouço você contar em seis anos — comentou Roshan — E é a pior.

Michael não se incomodou em responder e seguiu avançando lentamente através daquele paradoxal pântano elevado nas alturas. O fedor das águas poluidas começava a martelar-lhe o cérebro e começou a contemplar a possibilidade de sugerir que dessem a volta de novo e descessem para outro nível, visto que duvidava que nada nem ninguém se ocultasse naquele lodaçal inexpugnável.

— Michael? — perguntou a voz do Roshan, perdida uns metros mais atrás.

O jovem se voltou e advertiu a silhueta do Roshan encurvada junto a um lance oblíquo de uma grande viga metálica.

— Michael — disse Roshan em tom desconcertado, pode ser que esta viga se esteja movendo ou é minha ilusão?

Michael supôs que seu amigo também tinha inalado aqueles vapores putrefatos muito tempo e se dispôs a abandonar definitivamente o subnivel quando escutou um forte estrondo no outro extremo do piso. Ambos se voltaram em uníssono e cravaram os olhos um no outro. O som estalou de novo, desta vez com movimento, e os dois rapazs observaram que algo avançava para eles a grande velocidade, submerso na lama e levantando à sua passagem uma esteira de desperdícios e água suja que se estrelavam contra o teto baixo. Os dois jovens, sem esperar um segundo, lançaram-se a toda pressa para a porta de saída, avançando tão rapidamente como podiam fazê-lo, agachados e caminhando sobre uma capa de barro e água de trinta centímetros.

Antes que pudessem afastar-se mais de uns poucos metros dali, o objeto submerso os ultrpassou a toda velocidade, descreveu uma curva fechada a seu redor e enfiou de novo em linha reta na direção deles. Roshan e Michael se separaram e cada um correu em direções opostas, tratando de distrair a atenção do que quer que fosse que lhes estava dando caça implacavelmente. A criatura oculta sob o lodo se dividiu em duas metades e cada uma delas se lançou em uma vertiginosa perseguição atrás dos rapazs.

Michael, ofegante e perdendo o fôlego, voltou-se meio segundo para comprovar se ainda o seguiam e seus pés impactaram com um degrau submerso no barro. Seu corpo caiu sobre a superfície lamacenta e as águas fétidas o engoliram. Quando emergiu e abriu os olhos doridos pela ardência, uma coluna de lodo se elevava lentamente frente a ele, semelhante a uma figura de chocolate quente vertida de uma jarra invisível. Michael se arrastou entre o barro e suas mãos escorregaram de novo, o deixando estendido sobre o lodo.

A figura de barro desdobrou dois longos braços, de cujos extremos brotaram dedos longos e curvados com grandes anzóis de metal. Michael assistiu apavorado à formação daquela sinistra figura e contemplou que do tronco se elevava uma cabeça, em cujo rosto se desenharam umas grandes faces sulcadas de presas longas e afiadas como facas de caça. A figura se solidificou imediatamente e a argila seca desprendeu uma cortina de bafo. Michael se levantou e escutou que a estrutura de lodo rangia, enquanto centenas de gretas se estendiam sobre ela. As fissuras do rosto se expandiram lentamente e os olhos de fogo do Jawahal se acenderam sobre ele. A argila seca desabou em um mosaico de infinitas peças. Jawahal agarrou Michael pela garganta e aproximou o rapaz de seu rosto.

— É você o desenhista? — perguntou Jawahal elevando Michael no ar.

Ele assentiu.

— Bem — disse Jawahal. ― Tem sorte, filho. Hoje verá coisas que manterão seu lápis ocupado durante o resto de sua vida. Caso, claro, viva para as desenhar.

Roshan correu para a porta de saída sentindo a chicotada da adrenalina por suas veias como um fio de gasolina acesa. Quando apenas o separavam dois metros da via de escapamento, saltou e caiu de bruços sobre a superfície livre de barro da galeria de distribuição. Ao levantar-se, seu primeiro impulso foi seguir correndo até que seu coração se desfizesse em manteiga. O instinto adquirido em seus anos anteriores a ingressar no St. Patricks como guia trombadinha de ruas na selva de Calcuta não se extinguiu.

Entretanto, algo o deteve. Tinha perdido o rastro do Michael quando ambos se separaram no interior do subnivel e agora nem sequer escutava os gritos de seu amigo correndo desesperadamente por sua vida. Roshan ignorou as advertências que proferia seu senso comum e se aproximou de novo até a entrada do subnivel. Não havia sinal do Michael nem da criatura que os tinha açoitado. Roshan sentiu um algo parecido ao impacto de um punho de aço no estômago ao compreender que seu perseguidor tinha ido atrás do Michael e que, graças a isso, ele estava agora são e salvo. Voltou ao interior e tentou encontrar de novo seu amigo.

— Michael! — gritou com força. Suas palavras se perderam sem resposta. Roshan suspirou abatido enquanto se perguntava qual seria seu seguinte passo: ir procurar os outros e abandonar Michael naquele lugar ou entrar e procurar por ele. Nenhuma das alternativas parecia oferecer grandes reflexos de êxito, mas alguém tinha decidido já por ele. Dois longos braços de lodo emergiram da porta ao mesmo nível chão, dois projéteis dirigidos a seus pés. As garras se fecharam sobre seus tornozelos. Roshan tentou liberar-se da presa, mas os dois braços seguraram ele com força, o derrubando e o arrastando de novo para o interior do subnivel como um menino faria com um brinquedo quebrado.

 

Dos cinco rapazs que tinham prometido reunir-se sob o relógio em meia hora, o único a ir à entrevista foi Ian. Nunca a estação lhe tinha parecido tão deserta como naquele momento. A angústia que lhe produzia a incerteza do destino de Seth e de seus amigos o asfixiava sem remédio. Isolado naquele lugar fantasmagórico não era difícil imaginar que ele era o único que ainda não tinha caído nas garras de seu sinistro anfitrião.

Ian escrutinou nervosamente a estação desolada em todas direções, perguntando-se o que deveria fazer: esperar ali imóvel ou ir em busca de ajuda em metade da noite. A garoa que se filtrava começava a formar pequenas goteiras que caíam de alturas insondáveis. Ian teve que fazer uma chamada à serenidade para se separar de sua mente a idéia de que aquelas gotas que se estrelavam sobre os trilhos não eram senão o sangue de seu amigo Seth, balançando-se na escuridão.

Por enésima vez, elevou a vista para a abóbada com a vã esperança de adivinhar algum indício do paradeiro do Seth. As agulhas do relógio mostravam seu sorriso flácido e as gotas da chuva deslizavam lentamente sobre a esfera formando canais brilhantes entre as cifras em relevo. Ian suspirou. Seus nervos começavam a trai-lo e pensou que, se não obtivesse um sinal imediato da presença de seus amigos, entrava ele mesmo na rede subterrânea atrás dos passos do Ben. Não achava uma idéia particularmente inteligente, mas o baralho de alternativas estava mais desprovida agora do que nunca. Foi então quando escutou o estalo de algo aproximando-se da boca de um dos túneis e respirou aliviado, ao comprovar que não estava sozinho.

Aproximou-se do extremo da plataforma e observou a forma incerta que aflorava sob o dintel do túnel. Uma incômoda comichão lhe percorreu a nuca. Uma vagoneta se aproximava lentamente, impulsionada pela inércia. Sobre ela se distinguia uma cadeira e nela, imóvel, uma silhueta com a cabeça oculta em um capuz negro. Ian tragou saliva. A vagoneta desfilou lentamente frente a ele até deter-se completamente. Permaneceu parado no solo contemplando a figura paralisada e se surpreendeu dando voz tremente à suspeita que albergava em seu coração.

— Seth? — gemeu. A figura sobre a cadeira não moveu um músculo.

Ian se aproximou até o extremo da vagoneta e saltou para o interior. Não havia sinal de movimento algum em seu ocupante. Percorreu com lentidão agônica a distância que o separava dele até deter-se uns centímetros da cadeira.

— Seth? — murmurou de novo.

Um estranho som emergiu sob o capuz, similar a um chiar de dentes. Ian sentiu que o estômago se encolhia até ao tamanho de uma bola de críquete. O som amortecido se repetiu de novo. Agarrou o capuz entre suas mãos e contou mentalmente até três. Fechou os olhos e arrancou o capuz.

Quando os abriu de novo, um rosto sorridente e ridículo o observava com um olhar exagerado. O capuz lhe caiu das mãos. Era um boneco de rosto branco como a porcelana e dois grandes rombos negros pintados sobre os olhos cujo vértice inferior descia pelas bochechas em uma lágrima de alcatrão.

O boneco chiou os dentes mecanicamente. Ian examinou a grotesca figura daquele arlequim de feira ambulante e tentou pensar o que se ocultava atrás daquela excêntrica manobra. Com cautela, alongou sua mão até ao rosto da figura e tratou de examiná-la em busca do mecanismo que parecia sustentar seu movimento.

Com celeridade felina, o braço direito do autômato caiu sobre o seu e, antes que pudesse reagir, lAN comprovou que sua mão esquerda estava presa na argola de umas algemas. A outra argola rodeava o braço do boneco. Ian puxou com força, mas o boneco estava agarrado a vagoneta e se limitou a chiar seus dentes de novo. Lutou desesperadamente e, quando compreendeu que não se livraria daquela atadura por si só, a vagoneta já tinha começado a mover-se; esta vez, entretanto, de volta à escura boca do túnel.

 

Ben se deteve em uma intercessão entre dois túneis e por um segundo estimou a possibilidade de que talvez tivesse cruzado duas vezes pelo mesmo sítio. Desde que entrou nos túneis do Jheeter's Gate, aquela estava começando a resultar numa sensação recorrente e intranquilizadora. Extraiu um dos fósforos que economizava com critério espartano e o acendeu arranhando brandamente a parede com a ponta. A débil penumbra a seu redor se tingiu com a cálida claridade da luz. Ben examinou a união do túnel sulcado pelos trilhos e o amplo respiradouro que o atravessava perpendicularmente.

Uma baforada de ar poeirento apagou a chama do fósforo e Ben retornou aquele mundo de penumbras no qual, por muito que caminhasse em uma ou outra direção, nunca parecia chegar a parte alguma. Começava a suspeitar que talvez se extraviasse e que, se persistisse em entrar mais naquele complexo mundo subterrâneo, podia chegar a demorar horas, ou dias, para sair. O sentido comum o aconselhava com prudência a refazer seus passos e voltar em direção à seção principal da estação. Por mais que tentasse visualizar mentalmente o labirinto de túneis e o arrevesado sistema de ventilação e intercomunicação entre as galerias adjacentes, não conseguia evitar a absurda suspeita de que aquele lugar se movia em seu redor; ensamblar na escuridão novos caminhos só o conduziriam ao ponto de partida.

Resolvido a não deixar-se aturdir pela confusa rede de galerias, deu a volta e apertou o passo, perguntando-se se já teria completado o prazo de tempo que tinham acertado para reunir-se de novo sob o relógio da estação. Enquanto perambulava pelas intermináveis condutas do Jheeter's Gate, imaginou que talvez existisse uma estranha lei física que demonstrava que, na ausência de luz, o tempo corria mais depressa.

Ben começava a ter a sensação de ter percorrido milhas inteiras na escuridão quando a diáfana claridade que emanava do espaço aberto sob a grande cúpula do Jheeter's Gate se insinuou no limite da galeria. Respirou aliviado e correu para a luz com a certeza de ter escapado do pesadelo do labirinto depois de uma interminável peregrinação.

Mas quando atravessouu finalmente a boca do túnel e enfiou no estreito canal que se prolongava entre as duas plataformas contíguas, sua injeção de otimismo se revelou fugaz e logo uma nova sombra de inquietação se abateu sobre ele. A estação aparecia desolada e não havia rastro algum dos restantes membros da Chowbar Society.

Galgou com um salto até a plataforma e percorreu a cinquenta escassos metros que o separavam da torre do relógio só com a companhia do eco de seus próprios passos e o rumor ameaçador da tormenta elétrica. Rodeou a torre e se deteve ao pé da grande esfera, com suas agulhas deformadas. Não necessitava relógio para intuir que o período que tinham determinado seus companheiros para reunir-se naquele ponto tinha prescrito amplamente.

Apoiou-se contra a parede de tijolo enegrecido da torre e constatou que sua idéia de separar o grupo para trazer maior eficácia na busca não parecia ter dado o fruto esperado. A única diferença entre aquele instante e o momento em que tinha cruzado a soleira do Jheeter's Gate é que agora estava sozinho; tal como a Sheere, tinha perdido o resto de seus companheiros.

A tormenta lançou um furioso rugido como se tivesse partido o céu em duas metades com uma dentada. Ben decidiu começar a procurar por seus companheiros. Pouco lhe importava se necessitava uma semana ou um mês para dar com seu paradeiro; à vista das cartas servidas, aquela era a única jogada que podia contemplar. Dirigiu-se à plataforma central, em direção à parte traseira do Jheeter's Gate, onde se albergavam os antigos escritórios, as salas de espera e a pequena cidadela de bazares, cafeterias e restaurantes carbonizados depois de ter apenas uns minutos de vida útil. Foi então quando divisou um manto brilhante caído sobre o chão no interior de uma das zonas de espera. Sua memória lhe insinuou que a última vez que tinha visto aquele lugar, antes de entrar nos túneis, aquele pedaço de tecido acetinado não estava ali. Apressou o passo e, em seu nervoso avanço, não percebeu que alguém o esperava nas sombras, imóvel.

Ben se ajoelhou frente ao manto e estendeu uma mão furtiva até ele. O tecido estava impregnado de um líquido escuro e morno, cujo tato lhe resultava vagamente familiar e lhe produzia uma repulsão instintiva. Sob o manto se adivinhavam as formas que ao Ben davam a sensação de serem peças soltas de algum objeto. Extraiu a caixa de fósforos que guardava e se dispôs a acender um para examinar atentamente o achado, mas comprovou que só ficava um último fósforo. Resignado, guardou-o para melhor ocasião e forçou a vista, tentando recolher o maior número de detalhes, atrás de uma pista que desse luz sobre o paradeiro de algum de seus amigos.

— Toda uma experiência, contemplar seu próprio sangue derramado, não é assim, Ben? — disse Jawahal em suas costas — O sangue de sua mãe, tal como o meu, não encontra descanso.

Ben sentiu que o tremor se apoderava de suas mãos e se voltou lentamente. Jawahal repousava sentado no extremo de um banco de metal, um sinistro rei das sombras em seu trono ereto entre escombros e destruição.

― Não vai perguntar-me onde estão seus amigos, Ben? — ofereceu Jawahal — Talvez tema obter uma resposta pouco esperançosa.

— Responderia-me se o fizesse? — replicou Ben, imóvel junto ao manto ensangüentado.

— Talvez. — sorriu Jawahal.

Ben tentou não descansar seu olhar nos olhos hipnóticos do Jawahal e, sobretudo, afastar de sua mente aquela absurda idéia que alguém parecia gritar do interior de seu cérebro tentando lhe convencer de que aquela sombra funesta com a qual conversava sobre um cenário roubado do mesmo inferno era seu pai, ou o que restava dele.

— As dúvidas o assaltam, Ben? — Perguntou Jawahal, que parecia estar desfrutando da conversa.

— Você não é meu pai. Ele nunca faria mal a Sheere — espetou Ben nervosamente.

— Quem lhe disse que vou magoá-la? Ben arqueou as sobrancelhas e observou como Jawahal alargava sua mão embainhada em uma luva e a impregnava do sangue que jazia a seus pés. Logo levou os dedos tingidos de sangre ao rosto e pulverizou sobre seus rasgos angulosos.

Continuar: parte 2 de 2