O Palácio da Meia-Noite

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 6 de 7

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O Palácio da Meia-Noite

O Pássaro de Fogo

 

A boca do túnel emergia ao ar livre sob o arco de uma pequena ponte de madeira, estendido sobre a falha, formando um escuro manto de veludo frente à casa do engenheiro Chandra Chatterghee. Sheere conduziu os dois jovens através de uma estreita borda argilosa que cedia sob seus pés até o extremo do lago e se deteve contemplando o edifício com o qual tinha sonhado durante toda sua vida. Aquela noite podia vê-lo com seus próprios olhos pela primeira vez sob a abóbada de estrelas e nuvens em trânsito que desenhavam uma fuga para o infinito. Ian e Ben se uniram a ela em silêncio.

A construção era um edifício de dois pisos, flanqueado por duas torres que se elevavam a cada extremo. Sua fisionomia fundia rasgos de vários estilos arquitetônicos, dos perfis eduardinos às extravagâncias paladinescas e as silhuetas que se diriam emprestadas de um castelo perdido nos Montes da Baviera. O conjunto, entretanto conservava uma serena elegância que desafiava o olhar crítico do observador. A casa parecia projetar um feitiço sedutor que, depois da primeira impressão de perplexidade, sugeria que aquela impossível disparidade de estilos e traços tinha sido concebida para que convivessem em harmonia.

Oculta na densa selva de vegetação selvagem, que a camuflava no coração da cidade negra, a morada do engenheiro oferecia um sólido aspecto palaciano e se erguia altiva frente à lagoa, como um grande cisne negro contemplando seu reflexo em um lago de obsidiana.

— Foi assim que a descreveu seu pai? — perguntou Ian.

Sheere assentiu, maravilhada, e se dirigiu para a soleira dos degraus que subiam até a porta da casa. Ben e Ian a observaram com reservas, perguntando-se como pensava entrar naquela fortaleza. Sheere, por sua parte, parecia desembrulhar-se naquele enigmático ambiente como se tivesse sido sua morada da infância. A naturalidade com que rodeava obstáculos que apareciam velados pelo manto da noite inspirava nos dois rapazs uma estranha sensação de intrusos, convidados acidentais ao encontro entre Sheere e o sonho que tinha alimentado em seus anos nômades. Ao contemplá-la subir aqueles degraus, Ben e Ian compreenderam que aquele lugar deserto e envolto em um halo fantasmagórico era o único e verdadeiro lar que a moça tinha tido.

― Vão ficar aí toda a noite? — perguntou Sheere do alto da escada.

— Estávamo-nos perguntando por onde íriamos entrar. — indicou Ben e Ian assentiu assinando a dúvida de seu amigo.

— Eu tenho a chave. ― disse a moça.

— A chave? — perguntou Ben — Onde?

— Aqui. — respondeu Sheere assinalando sua cabeça com o dedo indicador. ― As fechaduras desta casa não podem abrir-se com uma chave convencional. Existe uma chave.

Ben e Ian se aproximaram, intrigados. Ao chegar à porta, ambos puderam comprovar que no centro se encontrava uma série de quatro rodas sobrepostas sobre um eixo, do maior ao menor diâmetro à medida que se encontravam mais afastadas da superfície. No perímetro das rodas se podiam distinguir diferentes sinais lavrados sobre o metal, tal como as horas na esfera de um relógio.

— O que significam esses símbolos? — perguntou Ian tratando de desvendá-los na penumbra.

Ben extraiu um fósforo da caixa de fósforos que sempre levava como medida de precaução e o colocou frente às rodas dentadas do mecanismo de fechadura. O metal brilhou aos olhos dos três jovens.

— Alfabetos! — afirmou Ben — Cada roda tem um alfabeto gravado. Grego, latino, arábico e sânscrito. — Fabuloso — suspirou. ― Isto Ian será fácil...

— Não desesperem — interveio Sheere — A chave é simples. Basta compor uma palavra de quatro letras com os diferentes alfabetos.

Ben a observou atentamente.

— Qual é essa palavra?

— Dido — respondeu a moça.

— Dido? — perguntou Ian — Que significado tem?

— É o nome de uma rainha da mitologia fenícia. — explicou Ben.

Sheere assentiu e Ian sentiu ciúmes do brilho que parecia fluir entre os olhares de ambos os irmãos.

— Sigo sem entendê-lo — objetou Ian — O que fazem os fenícios em Calcuta?

— Rainha Dido se lançou em uma pira funerária ardente para apaziguar a ira dos deuses, em Cartago. — explicou Sheere — É o poder purificador do fogo... Também os egípcios tinham seu mito, o ave fênix.

— O mito do pássaro de fogo. — acrescentou Ben

— Não é esse o nome do projeto militar de que falava Seth? — perguntou Ian.

Ben assentiu.

—Este assunto está começando a me pôr os cabelos em pé. — afirmou Ian — Não pensarão a sério entrar aí dentro? O que vamos fazer agora?

Ben e Sheere trocaram um olhar decidido.

— Muito simples, — respondeu Ben — vamos abrir esta porta.

 

As pálpebras do bojudo bibliotecário Mr. Do Rozio começavam a ter a consistência de lajes de mármore perante as centenas de documentos que o rodeavam. O oceano de palavras e cifras que tinha resgatado dos arquivos do engenheiro Chandra Chatterghee tinham empreendido uma sinuosa dança caprichosa que parecia lhe sussurrar uma irresistível canção de berço.

— Meninos, acredito que terei que deixá-los até manhã pela manhã. — começou Mr. Do Rozio.

Seth, que tinha estado temendo esse anuncio durante um longo momento, aflorou por entre o mar magnum de pastas e exibiu um sorriso sacramental.

— Deixá-lo agora, Mr. Do Rozio? — objetou amavelmente Seth — Impossível! Não podemos abandonar agora.

— É só uma questão de segundos para que desabe sobre a mesa filho. ― replicou Do Rozio—. E Shiva, em sua infinita bondade, outorgou-me um peso que, na última comprovação efetuada no mês passado de fevereiro, oscilava entre as 250 e 260 libras. Sabe o que é isso?

Seth sorriu jovialmente. — 120 quilogramas — calculou.

— Exato, ― confirmou Do Rozio — tentou mover alguma vez um adulto de 120 quilogramas, filho?

Seth meditou sobre a questão.

— Não tenho perseverança disso neste momento. Entretanto...

— Um momento! —exclamou Michael desde algum ponto invisível da sala lotada de caixas e pilhas de papel amarelado — Encontrei algo!

— Espero que seja um travesseiro. — protestou Do Rozio, levantando sua imponente massa, com chateio.

Michael apareceu atrás de uma coluna de estantes poeirentas levando uma caixa repleta de folhas de papel e selos timbrados que o tempo tinha descolorido sem piedade. Seth elevou as sobrancelhas e rogou para que o achado valesse a pena.

— Acredito que é o sumário de um julgamento por uma série de assassinatos. — disse Michael — Estava sob uma folha de citações em nome do engenheiro Chandra Chatterghee.

— O julgamento do Jawahal? — saltou Seth visivelmente excitado.

— Me deixe ver. — ordenou Do Rozio —

Michael depositou a caixa sobre a secretária do bibliotecário. Uma nuvem de pó amarelado alagou o cone de luz dourada que projetava a lamparina elétrica. Os grossos dedos do bibliotecário repassaram cuidadosamente os documentos, enquanto seus olhos diminutos escrutinavam seu conteúdo. Seth observou o rosto do bibliotecário com o coração encolhido à espera de alguma palavra ou sinal clarificador. Do Rozio se deteve em uma folha que parecia levar diversos selos e a aproximou da luz.

— Olá, Olá… —murmurou o bibliotecário para si.

— O que é, senhor? — suplicou Seth — O que encontrou?

Do Rozio elevou o olhar e mostrou um amplo sorriso felino.

— Tenho em minhas mãos um documento assinado pelo Coronel Sir Arthur Hewelyn. Nele, alegando razões de estado maior e segredo militar, ordena desistir o procedimento judicial Nº 089861. A da quarta sala do Tribunal Maior de justiça da cidade de Calcuta, no que se acusa o cidadão Lahawaj Chandra engenheiro, da presumivel implicação, encobrimento e/ou ocultação de provas em uma investigação de assassinato, e transferi-lo para a corte suprema de justiça militar do exército de Sua Majestade, ficando anuladas todas as resoluções prévias assim como as provas apontadas pela defesa e o ministério fiscal. Data: 14 de setembro de 1911.

Michael e Seth contemplaram, atônitos o Mr. Do Rozio, sem conseguirem pronunciar palavra.

— Bem, filhos. — concluiu Do Rozio — Quem de vós sabe fazer café? Esta pode ser uma noite muito longa...

A fechadura das quatro rodas de alfabeto emitiu um rangido quase inaudível e, depois de uns segundos, a massa férrea da porta se abriu lentamente em duas lâminas, deixando escapar com uma exalação o ar que tinha permanecido fechado no interior da casa durante anos.

Ian empalideceu na sombra. — Abriu-se — sussurrou tremente

— Sempre o grande observador. — comentou Ben —

— Não é momento para brincadeiras. — replicou Ian — Não sabemos o que há aí dentro.

Ben extraiu sua caixa de fósforos e a agitou no ar fazendo-os sonar.

— Isso é só uma questão de tempo. — afirmou — Quer ser o primeiro a entrar?

Ian lhe ofereceu um sorriso recalcitrante.

— Cedo-lhe as honras. ― replicou.

— Eu irei primeiro. — disse Sheere, entrando na casa sem esperar a resposta dos dois amigos.

Ben se apressou a acender outro fósforo e seguiu seus passos. Ian jogou uma última olhada ao céu noturno, como se temesse que aquela fosse sua última oportunidade para contemplá-lo, e após inspirar profundamente, entrou no interior da casa do engenheiro. Um instante depois, a porta se fechou em suas costas com a mesma suavidade e precisão com que lhes tinha franqueado o passo.

Os três rapazs se detiveram juntos uns dos outros e Ben elevou o fósforo ao alto. Ante seus olhos se desdobrou um impressionante espetáculo que excedia as fantasias que nenhum deles tinha albergado respeito daquele lugar.

Ancontravam-se em uma sala sustentada por grosas colunas bizantinas e coroada por uma abóbada côncava coberta por um fresco monumental. Nele se podiam apreciar centenas de figuras da mitologia hindu formando uma interminável crônica em imagens que constituíam círculos concêntricos ao redor de uma figura central esculpida em relevo sobre a pintura: a deusa Kali.

As paredes da sala estavam forradas por prateleiras lotadas de livros que desenhavam dois semicírculos de mais de três metros de altura. O solo estava coberto por um mosaico de brilhantes esmaltes negros e pontas de vidro de rocha, o que conseguia criar a ilusão de um firmamento de constelações e estrelas. Ian observou atentamente o traçado a seus pés e reconheceu a configuração das várias figuras celestes que Bankim lhes tinha explicado no St. Patricks.

— Seth teria que ver isto... — sussurrou Ben. No extremo da sala, além daquele tapete de estrelas que representava o universo conhecido, uma escada de caracol subia em espiral para o segundo piso da casa.

Antes que pudesse percebê-lo, a chama do fósforo queimou os dedos do Ben e os três rapazs ficaram de novo na escuridão absoluta. Os caminhos de constelações a seus pés, entretanto, seguiam brilhando como o firmamento noturno.

— É incrível. — murmurou Ian para si mesmo.

— Espere até ver o piso de cima. — respondeu a voz de Sheere a uns metros dele.

Ben acendeu um novo fósforo e os dois amigos comprovaram que a moça já os esperava junto à escada em espiral. Sem dizer palavra, Ben e Ian a seguiram.

A escada de caracol se elevava no centro de um canal que parecia formar uma lanterna similar às que tinham estudado em gravuras de certos castelos franceses, construídos à beira do rio Loire. Elevando a vista, os rapazs podiam experimentar a sensação de encontrarem-se no interior de um grande caleidoscopio, coroado por uma rosácea catedralesca de vidros multicoloridos que transformava a luz da Lua e a decompunha em centenas de linhas azuis, escarlates, amarelos, verdes e âmbar.

Ao chegar ao primeiro piso, comprovaram que as linhas de luz que emergiam da coroa da lanterna projetavam desenhos e figuras cambiantes, que percorriam lentamente as paredes da sala como imagens de um primitivo cinematógrafo espectral.

— Olhem para isso. — disse Ben indicando uma grande superfície que se estendia a uma altura de um metro sobre o chão e ocupava um retângulo de quase quarenta metros quadrados.

Os três se aproximaram dela e descobriram o que parecia ser uma imensa maquete de Calcuta, reproduzida com um grau de detalhe e realismo que, ao contempla-la de perto, produzia a ilusão de se estar sobrevoando a verdadeira cidade. Puderam reconhecer o traçado do Hooghly, o Maidán, Fort William, a cidade branca, o templo de Kali a sul de Calcuta, a cidade negra e inclusive os bazares. Sheere, Ian e Ben contemplaram maravilhados aquela extraordinária miniatura durante um longo espaço de tempo, cativados pela beleza e o encantamento que produzia sua observação.

— Aí está a casa — indicou Ben. Todos se uniram a ele e comprovaram que no coração da cidade negra se elevava uma fiel reprodução da casa em que se encontravam. As luzes multicoloridas da lanterna varriam as ruas daquela miniatura como raios caídos do céu, a cada passo se revelavam os segredos ocultos da Calcuta.

— O que há atrás da casa? — perguntou Sheere.

— Parece uma via de trem — apontou Ian

— É — confirmou Ben, seguindo o seu traçado, até que seu olhar descobriu a silhueta angulosa e majestosa da estação do Jheeter’s Gate, depois de uma ponte de metal que cruzava o Hooghly.

— Essa via leva até à estação do incêndio. — disse Ben — É uma via morta.

— Há um trem parado na ponte — observou Sheere.

Ben rodeou a maquete para aproximar-se até a reprodução da ferrovia e o examinou atentamente. Uma incômoda comichão lhe percorreu as costas. Reconhecia aquele trem. Tinha-o visto a noite anterior, embora ele o tivesse tomado por um pesadelo. Sheere se aproximou dele em silêncio e Ben percebeu que havia lágrimas em seus olhos.

— Esta é a casa de nosso pai, Ben — murmurou Sheere — A construiu para nós, para que fosse nossa.

Ben rodeou a Sheere com seus braços e a apertou contra si. Ian observava do outro extremo da sala e desviou o olhar. Ben acariciou o rosto do Sheere e a beijou na face.

— De agora em diante, — disse — sempre será nossa casa.

Naquele momento o pequeno trem detido sobre a ponte acendeu suas luzes e, lentamente, suas rodas começaram a girar sobre os trilhos.

 

Enquanto Mr. Do Rozio consagrava, em silêncio sepulcral, todos seus poderes de análise e sua astúcia de raposa documentalista com a informação do Julgamento que o coronel Hewelyn tinha posto tanto empenho em sepultar, Seth e Michael faziam o mesmo com uma estranha pasta que continha planos e numerosas notas escritas à mão pelo próprio Chandra. Seth a tinha encontrado no fundo de uma das caixas que continham os escritos do engenheiro. Depois de seu desaparecimento, já que nenhum familiar ou instituição os tinha reclamado e atendendo à relevância pública do personagem, se tinham perdido no limbo dos arquivos do museu, cuja biblioteca estava compartilhada em consórcio com diversas instituições científicas e acadêmicas de Calcuta, entre elas o Instituto de Engenharia Superior, de que Chandra Chatterghee tinha sido um dos mais ilustres e controvertidos membros. A pasta estava encadernada com simplicidade e respondia a um único título caligrafiado em tinta azul sobre a capa: O Pássaro de Fogo.

Seth e Michael tinham evitado divulgar o achado para não distrair o bojudo bibliotecário da tarefa que monopolizava seus talentos e para a qual sua perícia de velho diabo arquivador era insubstituível. Com tal espírito, retiraram-se para o outro extremo da sala se entregaram à análise dos documentos em silêncio.

— Estes desenhos são formidáveis. — sussurrou Michael, admirando o traço do engenheiro em diversos arquivos que mostravam objetos mecânicos cuja função concreta lhe resultava oculta e insondável.

— Vamos ao que interessa. — repreendeu Seth — O que diz do Pássaro de Fogo?

— As ciências não são meu forte, — começou Michael — mas que me matem se tudo isto não é a desmontagem de uma grande maquinaria incendiária.

Seth observou os planos sem compreender um ápice do que significavam. Michael se antecipou a suas questões.

— Isto é um tanque de azeite ou algum tipo de combustível — indicou Michael sobre os planos — A ele está unido este mecanismo de sucção. Não é mais que uma bomba de alimentação, como a de um poço. A bomba fornece o combustível para manter este círculo de chamas. Uma espécie de piloto de fogo.

— Mas essas chamas não devem medir mais que uns centímetros. — objetou Seth — Não vejo o poder incendiário em algum sítio.

— Observa esta condução. ― Seth viu a que se referia seu amigo: uma espécie de tubos similar ao canhão de um fuzil.

— As chamas afloram no perímetro da boca do canhão.

— E?

― Olhe para o outro extremo. — disse Michael — É um tanque, um tanque de oxigênio.

— Química elementar. — murmurou Seth, atando cabos.

— Imagine o que aconteceria se esse oxigênio saísse cuspido em pressão pelo conduto e atravessasse o círculo de chamas. — sugeriu Michael.

— Um canhão de fogo. — corroborou Seth. Michael fechou a pasta e olhou para seu amigo. — Que tipo de segredo tinha que ocultar Chandra para desenhar um brinquedo assim para um açougueiro como Hewelyn? É como dar de presente um carregamento de pólvora ao imperador Nero...

— Isso é o que temos que averiguar. — disse Seth — E logo.

 

Sheere, Ben e Ian seguiram o percurso do trem através da maquete em silêncio até que a pequena locomotiva se deteve justo atrás da miniatura que reproduzia a casa do engenheiro. As luzes se extinguiram lentamente e os três amigos permaneceram imóveis e espectadores.

— Como demônios se move este trem? — perguntou Ben — Tem que tirar a energia de algum lugar. Existe algum gerador de eletricidade nesta casa, Sheere?

— Não que eu saiba. — respondeu sua irmã.

— Tem que haver. — afirmou Ian — Procuremos.

Ben negou em silêncio. — Não é isso o que me preocupa. — disse Ben — Caso haja, não conheço nenhum gerador que se conecte sozinho. E ainda mais depois de anos de inatividade.

— Talvez esta maquete funcione com outro tipo de mecanismo. — sugeriu Sheere sem muita convicção.

— Talvez haja alguém mais na casa — respondeu Ben.

Ian amaldiçoou sua sorte mentalmente. — Sabia... —murmurou abatido.

— Espera! ― exclamou Ben. Ian olhou seu amigo e viu que apontava de novo para a maquete. O trem havia prosseguido o movimento e refazia seu caminho em direção inversa.

— Está voltando para a estação. — observou Sheere. Ben se aproximou lentamente até o extremo da maquete e se deteve junto ao lance de via que o trem começava a entrar.

― O que você propõe? — perguntou Ian. Seu amigo não respondeu e estendeu seu braço progressivamente para a via, enquanto a locomotiva se aproximava por momentos. Quando o trem cruzou frente a ele, agarrou a locomotiva e a elevou no ar, desenganchando a dos vagões. O resto do comboio foi perdendo velocidade paulatinamente até deter-se na via. Ben se aproximou à luz da lanterna e examinou a pequena locomotiva. Suas diminutas rodas giravam cada vez mais lentamente.

— Alguém tem um senso de humor bastante estranho. — comentou Ben.

— Por que? — perguntou Sheere.

— Há três figuras de chumbo dentro da locomotiva, — disse Bem — e se parecem conosco além de possíveis coincidências.

Sheere se aproximou do Ben e tomou a pequena locomotiva entre suas mãos. As dançantes linhas de luz desenharam um arco íris sobre seu rosto e seus lábios formaram um sorriso sereno e resignado.

— Sabe que estamos aqui — disse a moça — Não faz sentido que sigamos nos ocultando.

— Quem sabe? — perguntou Ian.

— Jawahal — respondeu Ben em seu lugar — Está esperando. O que não sei é para que.

Siraj e Roshan se detiveram frente à silhueta espectral da ponte de metal que se perdia na névoa que cobria o rio Hooghly e se deixaram cair contra um muro, esgotados depois de percorrer a cidade em vão atrás do rastro de Isobel. As cúspides das torres do Jheeter’s Gate apareciam entre a névoa desenhando a crista de um dragão dormido em uma nuvem de seu próprio fôlego.

— Falta muito pouco para o amanhecer. — disse Roshan— Deveríamos voltar. Talvez Isobel esteja nos esperando há horas.

— Não acredito. — objetou Siraj.

A corrida noturna se fazia sentir na voz do rapaz, mas pela primeira vez em anos, Roshan não tinha escutado ele queixar-se uma só vez de sua asma.

— Procuramos em toda parte. — replicou Roshan — Não podemos fazer mais. Ao menos vamos procurar mais ajuda.

— Ficou um lugar por visitar...

Roshan contemplou a sinistra estrutura do Jheeter’s Gate entre a névoa e suspirou.

— Isobel não se meteria aí nem louca. — disse — E eu tampouco.

— Irei eu sozinho então. — respondeu Siraj, levantando-se de novo.

Roshan o escutou ofegar e fechou os olhos, abatido.

— Sente-se ― ordenou, adivinhando os passos do Siraj afastando-se para a ponte.

Quando abriu os olhos, a esquálida silhueta do Siraj era absorvida na névoa.

— Maldito seja. — murmurou para si, e se levantou para seguir seu amigo.

Siraj se deteve o final da ponte e contemplou o pórtico do Jheeter’s Gate que se elevava frente a ele. Roshan se aproximou de seu companheiro e ambos examinaram o lugar. Uma corrente de ar frio emergia dos túneis da estação e o fedor a madeira queimada e sujeira se tornava cada vez mais perceptível. Os dois rapazs trataram encontrar algo no poço de negrume que se abria depois da soleira da grande abóbada da estação. O eco longínquo de uma garoa repicava sobre os pôsteres caídos.

— Isto parece a boca do inferno. — disse Roshan — Larguemos agora que podemos.

— É tudo mental. — disse Siraj — Pense que não é mais que uma estação abandonada. Não há ninguém aqui dentro. Só nós.

— Se não tem ninguém, por que temos que entrar nela? — protestou Roshan.

— Não precisa entrar se não quiser. — respondeu Siraj sem nenhum indício de recriminação.

— Tá. — cortou Roshan — E você entrará sozinho, não? Esqueça. Vamos andando.

Os dois membros da Chowbar Society entraram na estação seguindo o rastro dos trilhos que cruzavam a ponte e desenhavam a rota da plataforma central. A escuridão no interior da abóbada era muito mais densa que no exterior e apenas podiam distinguir os contornos dos objetos entre manchas de claridade cinzenta e aquosa.

Roshan e Siraj caminharam lentamente, separados apenas por um metro de distância, enquanto o eco de seus passos formava uma ladainha recorrente entre o sussurro das correntes de ar, que pareciam rugir em algum lugar do interior dos túneis com a voz de um mar longínquo e enfurecido.

— É melhor que subamos à plataforma. — indicou Roshan.

— Faz anos que não passam trens por aqui. Que mais há?

— A mim importa, de acordo? — replicou Roshan, que não podia separar de sua mente a imagem de um trem entrando na via da boca do túnel e enrolando-os sob suas rodas.

Siraj murmurou algo ininteligível, mas revestido de um tom de aceitação e se dispunha a subir até a plataforma quando algo emergiu dos túneis, flutuando no ar e dirigindo-se em volta dos dois rapazs.

— O que é isso? — murmurou Roshan alarmado.

— Parece uma parte de papel. ― começou a dizer Siraj —. O vento arrasta o lixo, isso é tudo.

A folha branca rodou sobre o chão até seus pés e se deteve junto a Roshan. O rapaz se ajoelhou e tomou em suas mãos. Siraj viu como se decompunha o rosto de seu amigo.

— O que esta acontecendo? — perguntou, sentindo que o temor de seu amigo começava a resultar contagioso.

Roshan lhe tendeu a folha em silêncio e Siraj a reconheceu imediatamente. Era o desenho que Michael tinha realizado deles frente aquele lago e do qual Isobel se apropriou. Siraj devolveu o desenho a seu companheiro e, pela primeira vez desde que tinham começado a busca, contemplou a possibilidade de que Isobel estivesse em verdadeiro perigo.

— Isobel? — gritou Siraj para os túneis. O eco de sua voz se perdeu nas vísceras daquele lugar e lhe gelou o sangue. Siraj tratou de concentrar-se em não perder o controle de sua respiração, que cada vez lhe resultava mais dificultosa. Deixou que o reflexo de sua voz se desvanecesse e, controlando seus nervos, chamou de novo.

— Isobel? ― Um forte impacto metálico ressonou desde algum lugar da estação. Roshan reagiu de um salto, olhou a seu redor. O vento dos túneis lhes açoitou o rosto e os dois jovens retrocederam uns passos.

— Há algo aí dentro. — murmurou Siraj assinalando para o túnel com uma serenidade que seu companheiro não conseguia compreender.

Roshan concentrou o olhar na boca negra do túnel e, então, ele também pôde vê-lo. As luzes longínquas de um trem se aproximavam. Sentiu os trilhos vibrar sob seus pés e olhou para Siraj, apavorado. Siraj sorria estranhamente.

— Eu não vou poder correr tão depressa como você, Roshan. — disse pausadamente — Os dois sabemos. Não me espere e vá procurar ajuda.

— De que diabos está falando? — exclamou Roshan, perfeitamente consciente do que seu amigo insinuava.

As luzes do trem penetraram na abóbada da estação como um raio na tormenta.

— Corra. — ordenou Siraj — Agora.

Roshan se perdeu nos olhos de seu amigo e sentiu o estrondo da locomotiva cada vez mais próximo. Siraj assentiu. Roshan reuniu todas as suas forças e pôs-se a correr desesperadamente para o extremo da plataforma, em busca de um lugar para saltar fora da trajetória do trem. Correu tão depressa como pôde, sem deter-se a olhar para trás, com a certeza de que se encontraria com a cunha de alumínio da locomotiva somente um palmo de seu rosto se ousasse fazê-lo. Os quinze metros que o separavam do fim da plataforma, converteram-se em cento e cinqüenta e, preso de pânico, acreditou ver como a via se alargava perante seus olhos em uma fuga vertiginosa. Quando se lançou ao chão e rodou sobre os escombros, sentiu o rugido do trem troando a escassos centímetros do lugar onde tinha estado. Escutou o uivo ensurdecedor dos meninos e recebeu em sua pele a mordida das chamas durante dez terríveis segundos nos quais imaginou que a estrutura da estação se desabaria sobre ele.

Súbitamente se fez o silêncio. Roshan se levantou e abriu os olhos pela primeira vez desde que tinha saltado. A estação estava de novo deserta e não havia mais rastro do trem que duas fileiras de chamas que se extinguiam ao longo dos trilhos. Notou que as vísceras o alagavam de água gelada e correu de volta para o ponto onde tinha visto pela última vez o Siraj. Amaldiçoando sua covardia, chorou de raiva e comprovou que estava sozinho na estação.

O amanhecer, ao longe, mostrava-lhe o caminho de saída.

 

O prelúdio da alvorada se insinuava timidamente através das portas fechadas da sala da biblioteca do museu índio. Seth e Michael, exaustos, dormitavam sobre a mesa a beira da inconsciência. Mr. Do Rozio suspirou profundamente e retirou sua cadeira da secretária esfregando os olhos. Levava horas enfrascado no oceano de documentos tratando de desentranhar aquele monstruoso sumário judicial; seu estômago reclamava cuidados, além de que uma clara moratória na ingestão de café esperou por ele para que seguisse cumprindo suas funções com certa dignidade.

— Rendo-me, belos adormecidos. — troou.

Seth e Michael levantaram a cabeça de um coice e comprovaram que o dia tinha madrugado mais cedo que eles.

— O que pôde encontrar, senhor? — perguntou Seth, reprimindo um bocejo.

Seu estômago rangia e sua cabeça parecia estar repleta de uma sopa de maçãs cozidas.

— Brinca, filho? — disse o bibliotecário — Parece que me tirou o sarro.

— Não compreendo, senhor. — aduziu Michael. Do Rozio bocejou garbosamente mostrando uma boca cavernosa e emitiu um som que despertou nos joavens a imagem mental de um hipopótamo pulando em um rio.

— Muito simples. — disse o bibliotecário — Vieram aqui com uma história de assassinatos e crímes e com esse absurdo enredo do tal Jawahal.

— Mas tudo isso é verdade. Temos informação em primeira mão.

Do Rozio riu com ironia. — Talvez seja a vós a quem tem tomado por parvos — replicou — Em toda essa pilha de papéis não encontrei uma só menção a seu amigo Jawahal. Nenhuma letra. Zero.

Seth sentiu que seu desinflado estômago se deslizava até seus pés pela perna da calça .

— Mas isso é impossível, Jawahal foi condenado e ingressou na prisão da qual fugiu anos depois. Talvez poderíamos, começar de novo por aí. Pela fuga. Deve constar em algum lugar...

Do Rozio o escrutinou com cepticismo com seus olhos suínos e penetrantes. Seu rosto mostrava claramente que não haveria segunda oportunidade.

— Se eu fosse vocês, meninos, — sugeriu o bibliotecário — voltaria aonde conseguiram essa história e me asseguraria de que da próxima vez me explicassem o caso inteiro. E com respeito a esse Jawahal que segundo seu relatório misterioso estava na prisão, parece-me que é mais escorregadio do que vocês e eu podemos dirigir.

Do Rozio examinou os dois jovenss. Estavam pálidos como o mármore. O bojudo erudito lhes ofereceu um sorriso de comiseração.

— Minhas condolências, — murmurou — estiveram farejando no buraco errado.

Pouco depois, Seth e Michael contemplavam o amanhecer sentados na fachada principal do museu indiano. Uma ligeira garoa tinha impregnado as ruas de uma capa brilhante que formava uma lâmina de ouro líquido à luz do Sol ascendente entre as brumas do Este. Seth olhou para seu companheiro e lhe mostrou uma moeda.

— Cara, eu vou ver Aryami e você vai a prisão. — disse Seth — Cruz ao reverso.

Michael assentiu com os olhos semi-cerrados. Seth lançou a moeda ao ar e o círculo de bronze descreveu uma trajetória de brilhos pestanejantes, até deter-se de novo sobre a mão do Seth. Michael se inclinou para comprovar o resultado.

— Lembranças a Aryami... — murmurou Seth.

A luz do dia chegou finalmente à casa do engenheiro Chandra depois de uma noite que parecia não querer acabar jamais. Ian benzeu pela primeira vez em sua vida o sol de Calcuta quando seus raios velaram o manto de escuridão que os tinha envolto durante horas.

O dia levou consigo o aspecto ameaçador da casa, e Ben e Sheere também agradeceram visivelmente a chegada da claridade com um gesto relaxado e de sincero cansaço. Custava-lhes recordar a última vez que tinham dormido, embora apenas fosse umas horas antes. O peso do sono e o esgotamento que o ritmo dos acontecimentos lhes tinham proporcionado lhes permitiam confrontar a situação agora com uma serenidade que, na escuridão da noite, não tinham ousado considerar.

— Bem. — disse Bem — Se há algo que esta casa tem, é que resulta segura. Se nosso amigo Jawahal tivesse podido entrar aqui, já o teria feito. Nosso pai tinha afeições excêntricas, mas sabia proteger uma casa. Proponho que tratemos de dormir um pouco. Tal como estão as coisas, prefiro dormir à luz do dia e estar bem acordado ao anoitecer.

— Não posso estar mais de acordo. — conveio Ian — Onde poderíamos dormir?

— Há vários quartos nas torres, — explicou Sheere — há por onde escolher.

— Sugiro utilizar quartos contíguos. — indicou Ben.

— De acordo. — disse Ian — E tampouco seria de mais comer algo.

— Isso terá que esperar. — conveio Ben — Mais tarde sairemos a procurar algo.

— Como podem ter fome? —perguntou Sheere.

Ben e Ian encolheram os ombros. — Fisiologia elementar. — respondeu Ben — Pergunte ao Ian. Ele é o médico.

— Como me disse uma vez uma professora que dava aulas de leitura em uma escola de Bombay, — disse Sheere — a principal diferencia entre um homem e uma mulher é que um homem sempre põe seu estômago antes de seu coração. Uma mulher sempre faz o contrário.

Ben sopesou aquela teoria e não duvidou em contra-atacar.

— Cito textualmente o nosso misógino favorito, Mr. Thomas Carter, solteiro profissional e vocacional: «A verdadeira diferença é que enquanto os homens têm o estômago muito maior que o cérebro e o coração, o coração das mulheres é tão pequeno que sempre lhes escapa pela boca.»

Ian assistiu ao cruzamento de pensamentos Ilustres preso de um absoluto assombro.

— Filosofia troca — sentenciou Sheere.

— A troca, querida Sheere, — aduziu Ben — é a única filosofia que vale algo.

Ian elevou uma mão em sinal de trégua. — boa noite, casal. — disse dirigindo-se diretamente para a torre.

Dez minutos depois os três estavam absorvidos em um profundo sono do qual ninguém os poderia despertar. A fadiga pôde mais que o medo.

 

Seth desceu meia milha para o Sul das escadas do museu indiano no Chowringhee Road e virou em Park Street para o Este, em direção à área do Bemapukur, onde as ruínas da antiga penitenciária do Curzon Fort se elevavam nas imediações do cemitério escocês. O deteriorado cemitério dos escoceses tinha sido construído onde antigamente supunham ser os limites oficiais da cidade. Naquela época, a elevada taxa de mortalidade e a velocidade com que os cadáveres se decompunham obrigaram a transladar todos os terrenos funerários para fora de Calcuta por motivos de saúde pública. Os escoceses, ironicamente, embora tivessem controlado com mão firme durante décadas toda a atividade mercantil da Calcuta, descobriram que não podiam pagar um enterro entre as tumbas de seus vizinhos britânicos e se viram obrigados a levantar seu próprio cemitério. Em Calcuta os ricos se negavam a ceder seu chão aos mais pobres, inclusive depois de mortos.

Ao aproximar-se dos restos da penitenciária do Curzon Fort, Seth compreendeu por que motivo ainda não tinha sido vítima das sangrentas demolições habituais na cidade. A estrutura do edifício parecia pender de um fio invisível disposto a desabar-se sobre a multidão ao menor intento para alterar seu equilíbrio. O incêndio parecia ter devorado a prisão como se se tratasse de uma maquete de cartão, abrindo brechas e destroçando vigas e escoras com ferocidade inusitada. Os tetos carbonizados podiam entrever-se através das vidraças, como as gengivas doentes de um velho animal.

Seth se aproximou da soleira do edifício e se perguntou de que modo ia averiguar algo naquela pilha de madeiras e tijolos queimados. A bom seguro, não permaneceria ali mais memória do passado que os barrotes de metal e as celas que acabaram seus dias transformadas em fornos mortais e sem escapatória.

— Vem de visita, rapaz? — sussurrou uma voz quebrada em suas costas.

Seth se voltou, sobressaltado, e comprovou que as palavras que tinha ouvido provinham dos lábios de um ancião esfarrapado cujos pés e mãos luziam amplas chagas em avançado estado de infecção. Seus olhos escuros o observavam nervosamente por trás de um rosto mascarado pela imundície e uma barba grisalha e espaçada que diria cortada a faca.

— É esta a penitenciária do Curzon Fort, senhor? — perguntou Seth.

Os olhos do mendigo aumentaram ao escutar o insólito tratamento que lhe dedicava o rapaz e um sorriso desdentado aflorou em seus lábios pergaminhosos.

— O que fica dela — respondeu —. Procuras acomodo, filho?

— Procuro informação — repôs Seth, tratando de responder ao mendigo com um sorriso amável e cortês.

— Este é um mundo de ignorantes; ninguém procura informação. Exceto você. E o que quer saber, rapaz?

— Conhece você este lugar? — perguntou Seth.

— Vivo nele. — respondeu o mendigo — Um dia foi meu cárcere, hoje é minha casa. A providência foi generosa comigo.

— Esteve você preso no Curzon Fort? — perguntou Seth, sem poder ocultar seu assombro.

— Houve um tempo em que cometi grandes erros... e tive que pagar por eles — ofereceu o mendigo como resposta.

— Até quando permaneceu nesta prisão, senhor? — perguntou Seth.

— Até o final.

— Estava aqui na noite do incêndio? O mendigo afastou os farrapos que lhe cobriam o corpo e Seth contemplou horrorizado a cicatriz púrpura da extensa queimadura que lhe cobria o peito e o pescoço.

— Então, talvez você possa me ajudar — disse Seth — Dois meus amigos correm perigo. Recorda você ter conhecido um interno chamado Jawahal?

O mendigo fechou os olhos e negou lentamente. — Nenhum de nos chamávamos por nossos verdadeiros nomes aqui, filho — explicou o mendigo — O nome, como a liberdade, era algo que todos deixávamos na porta ao entrar e confiávamos que, se o mantívessemos afastado do horror deste lugar, talvez o pudessemos recuperar ao sair, limpo e sem lembranças. Nunca era assim, é obvio...

— O homem a que me refiro foi condenado por assassinato. — acrescentou Seth — Era jovem. Ele foi quem provocou o incêndio que destruiu da prisão e fugiu.

O mendigo o observou entre o surpreso e o divertido.

― Que provocou o incêndio! — exclamou com incredulidade — O incêndio começou nas caldeiras. Uma válvula de azeite explorou. Eu estava fora de minha cela, em meu turno de trabalho. Isso me salvou.

— Esse homem, preparou o incêndio. — Insistiu Seth, e agora quer matar meus amigos.

O mendigo inclinou a cabeça, cético, mas assentiu.

— Talvez, filho, o que importa agora? — concedeu o mendigo — Em qualquer caso, eu não me preocuparia com seus amigos. Esse homem. Jawahal, pouco poderá lhes fazer mal.

Seth franziu o cenho. — Por que diz isso, senhor? — inquiriu Seth, confuso.

O mendigo riu.

— Filho, na noite do incêndio eu não tinha nem sua idade. E era o mais jovem da prisão. — respondeu o mendigo — Esse homem, fosse quem fosse, deve ter agora mais de cem anos.

Seth evou suas mãos às têmporas, absolutamente desconcertado.

— Um momento, — disse o rapaz — não ardeu a prisão em 1916?

— 1916? — riu de novo o mendigo — Filho, de onde saiu você? Curzon Fort ardeu a madrugada de 26 de abril de 1857. Faz exatamente 75 anos.

Seth contemplou boquiaberto o mendigo, que estudava seu rosto com curiosidade e certa consideração pela consternação que parecia haver-se apoderado dele.

— Qual é seu nome, filho? — perguntou o mendigo.

— Seth, senhor. — respondeu o rapaz, lívido.

— Sinto não ter sido de grande ajuda, Seth — disse o mendigo.

— Foi sim — repôs Seth — Posso ajuda-lo em algo, senhor?

Os olhos do mendigo brilharam ao sol e um amargo sorriso aflorou a seus lábios.

— Pode voltar o tempo atrás, Seth? — perguntou o mendigo olhando a palma de suas mãos.

Seth negou lentamente. — Então não pode me ajudar. Procure agora com seus amigos, Seth. Mas nunca se esqueça de mim.

— Não o farei, senhor.

O mendigo sorriu pela última vez e, elevando sua mão em sinal de despedida, voltou-se e entrou nas ruínas da prisão destruída. Seth o observou desaparecer entre as sombras e retomou seu caminho sob o sol ardente da manhã. Um véu de nuvens negras parecia aproximar-se serpenteando no horizonte, como uma mancha de sangue pulverizando-se lentamente em um lago.

 

Michael se deteve ao pé da rua que conduzia até a casa de Aryami Bosé e contemplou atônito os restos fumegantes daquela que tinha sido a moradia da anciã. As pessoas da rua observavam silenciosamente do pátio os membros da polícia que rastreavam entre os escombros e interrogavam os vizinhos. Rapidamente, aproximou-se do lugar e abriu caminho entre o círculo de curiosos e vizinhos consternados pelo incêndio. Um oficial da polícia o deteve.

— Sinto muito, rapaz. Não pode passar. — informou contundente.

Michael observou por cima do seu ombro e comprovou como dois de seus colegas levantavam uma viga caida que ainda desprendia fumo de brasas.

— E a mulher que vive na casa? — perguntou Michael.

O policial lhe dirigiu um olhar a meio caminho entre a suspeita e o chateio.

― Conhecia-a?

— É avó de uns amigos. — respondeu Michael. ― Onde está? morreu?

O oficial o observou sem afrouxar a compostura durante uns segundos e finalmente negou.

— Não há rastro dela. — respondeu — Um dos vizinhos diz que viu alguém correr rua abaixo pouco depois das chamas aparecessem pelo teto. Agora, vá embora. Já lhe disse mais do que deveria.

— Obrigado, senhor. — disse Michael, retirando-se entre a massa humana que se empilhava à procura de eventuais descobrimentos macabros.

Uma vez livre da turba de curiosos e vizinhos, Michael examinou as moradias contíguas em busca de possíveis indícios que sugerissem para onde poderia ter fugido a anciã, que guardava com ela o segredo que Seth, e ele apenas tinham conseguido desentranhar. Os dois extremos da rua se perdiam na massa de edifícios, bazares e palácios da cidade negra. Aryami Bosé podia estar em qualquer lugar.

O jovem considerou durante uns instantes várias possibilidades e finalmente se decidiu por empreender o rumo para Oeste, em direção à proximidade do rio Hooghly. Ali milhares de peregrinos se inundavam nas águas sagradas do delta do Ganges procurando a purificação do céu e obtendo a maioria das vezes em troca febres e enfermidades.

Sem voltar-se para contemplar as ruínas da casa derrubada pelas chamas, Michael empreendeu o caminho em pleno sol, entre a multidão que povoava as ruas e as inundava em uma gritaria de mercadores, rixas e rezas não escutadas. A voz da Calcuta. Em suas costas, a uma vintena de metros, uma figura envolta em um manto escuro apareceu entre as curvas de um beco e começou a segui-lo entre a multidão.

 

Ian abriu os olhos à luz do meio-dia com a clara certeza de que sua insônia eterna não parecia estar disposta a lhe conceder mais que umas horas de trégua em honra à fadiga que sentia após os acontecimentos das últimas horas. A julgar pela consistência da luz que banhava o quarto na torre oeste da casa do engenheiro Chandra, calculou que deviam estar cruzando o meridiano do meia da tarde. O apetite contumaz que o tinha assaltado ao amanhecer voltou a fazer chiar seus dentes com toda sua sanha. Como estava acostumado a brincar Ben, parodiando as palavras do professor Tagore, cujo castelo se encontrava a poucos metros dali, quando o estômago fala, o homem sábio escuta.

Ian saiu do quarto com sigilo e comprovou que Sheere e Ben seguiam desfrutando de um invejável descanso nos braços do Morfeo. E suspeitou que, ao despertarem, inclusive Sheere, estariam dispostos a dar conta do primeiro objeto comestível que encontrassem. Por isso respeitava Ben, não havia dúvida. Nestes momentos seu melhor amigo devia estar sonhando com uma bandeja repleta de delícias culinárias e uma suntuosa sobremesa de doces da Chhana, uma mescla de suco de lima e leite fervendo que enlouquecia os gulosos bengalíes.

Consciente de que o sono já tinha sido mais caridoso com ele do que seria de esperar, decidiu aventurar-se ao exterior em busca de provisões com que pudesse aplacar seu apetite e o de seus companheiros. Com um pouco de sorte, pensou, estaria de volta antes que ambos tivessem tido tempo de bocejar.

Atravessou a sala da grande maquete e se dirigiu até a escada em espiral, comprovando satisfeito que à luz do dia o aspecto da casa resultava muito menos inquietante. O primeiro andar permanecia imperturbável e Ian constatou o fato de que a casa isolava o interior da temperatura externa com prodigiosa efetividade. Não lhe custava imaginar o sufocante calor que devia impor sua lei atrás daqueles muros e, entretanto, a casa do engenheiro se diria situada no país da eterna primavera. Cruzou várias galáxias a passo ligeiro sobre o mosaico a seus pés e abriu a porta ao exterior, confiando em não esquecer a combinação da excêntrica fechadura que selava o santuário privado de Chandra Chatterohec.

O sol caía sem mesericórdia sobre o espesso jardim e a lagoa que na noite anterior lhe tinha parecido uma lâmina de ébano gentil desprendia agora intensos brilhos sobre a fachada da casa. Ian se dirigiu à boca de saída do túnel secreto sob a ponte de madeira e por um momento se deixou levar pela ilusão de que, à luz de um dia resplandecente e abrasador do verão como aquele, as ameaças que durante a noite os tinham atormentado pareciam desvanecer-se com a mesma facilidade que uma figura de gelo no deserto.

Desfrutando daquele parêntese de tranqüilidade, introduziu-se no corredor e, antes que o fedor acre de seu interior invadisse seus pulmões, saiu de novo pela brecha que conduzia à rua. Uma vez ali, lançou mentalmente uma moeda ao ar, e decidiu empreender sua busca alimentar para Oeste.

Enquanto se afastava cantarolando pela rua deserta, não podia imaginar que os quatro círculos concêntricos da fechadura da casa, tinham começado a girar de novo com infinita lentidão e que desta vez a palavra de quatro letras que comporiam ao fixar-se na vertical não era o nome do Dido, mas o de outra deusa muito mais próxima: Kali.

Ben acreditou escutar um estrondo em sonhos e despertou na escuridão absoluta do quarto em que tinha estado descansando. Sua primeira impressão, no atordoamento dos segundos que seguem ao brusco despertar de um longo e profundo sono, foi de perplexidade ao comprovar que já tinha anoitecido e que deviam ter dormido durante mais de doze horas. Um instante depois, ao escutar de novo o impacto seco que acreditava ter ouvido em seu sonho, compreendeu que não era a noite o que impedia que a luz do dia penetrasse na habitação. Algo estava acontecendo na casa. As portas se estavam fechando com força, como as comportas de uma eclusa, hermeticamente. Ben saltou da cama e correu para a porta em busca de seus amigos.

— Ben! — escutou gritar a Sheere. Correu até a porta de seu quarto e a abriu. Sua irmã, imóvel, estava no outro lado da porta, tremendo. Abraçou-a e a tirou da estadia enquanto contemplava apavorado como, uma a uma, as janelas da casa se fechavam tal como as pálpebras de pedra.

— Ben. — gemeu Sheere — Algo entrou no quarto enquanto dormia e me enlouqueceu.

Ben sentiu que um calafrio lhe percorria o corpo e conduziu a Sheere até ao centro da sala da maquete da cidade. Em um segundo, fez-se escuridão absoluta em torno deles. Ben rodeou a Sheere com seus braços e lhe sussurrou que guardasse silêncio enquanto tratava de escrutinar na escuridão algum sinal de movimento. Seus olhos não conseguiram discernir forma alguma entre as sombras, mas ambos puderam ouvir aquele rumor que parecia invadir as paredes da casa e fazia pensar em centenas de pequenos animais brincando a correr sob o chão e entre as paredes.

— O que é isso, Ben? — sussurrou Sheere. Ben tratava de encontrar uma resposta quando um novo acontecimento lhe roubou as palavras. As luzes da maquete da cidade se estavam acendendo lentamente e os dois rapazs assistiram ao nascimento de uma Calcuta noturna frente a eles. Ben tragou saliva e sentiu que Sheere se aferrava com força a ele. No centro da maquete, o pequeno trem acendeu seus faróis e suas rodas começaram a girar lentamente.

— Saiamos daqui — murmurou Ben conduzindo as pressas sua irmã em direção à escada que descia ao piso inferior — Agora.

Antes que pudessem percorrer uns passos em direção a escada, Ben e Sheere viram que um círculo de fogo abria um orifício na porta do quarto que tinha ocupado a moça e, em menos de um segundo, consumia-a como uma brasa que atravessava uma folha de papel. Ben sentiu que seus pés se cravavam ao chão e observou umas pegadas de chamas que se aproximavam a grandes passos da soleira da porta.

— Corre para baixo! — gritou Ben empurrando a sua irmã para o pé das escadas. —Rápido!

Sheere se precipitou escada abaixo cheia de pânico e Ben permaneceu imóvel na trajetória daqueles rastros chamejantes que se abriam caminho para ele a toda velocidade. Uma baforada de ar quente e impregnado de um fedor a querosene queimado lhe cuspiu no rosto ao mesmo tempo que uma pegada de chamas caía a dois palmos de seus pés. Duas pupilas vermelhas como ferro candente se acenderam na escuridão e Ben sentiu que uma garra de fogo se fechava sobre seu braço direito. Imediatamente notou que aquela tenaz pulverizava o tecido de sua camisa até queimar sua pele.

— Ainda não chegou a hora de nosso encontro, —murmurou uma voz metálica e cavernosa frente a ele — se afaste.

Antes que pudesse reagir, a férrea mão que o agarrava o impulsionou com força para um lado e o derrubou no chão. Ben caiu sobre um flanco e apalpou o braço ferido. Então conseguiu ver um espectro incandescente que descia pela escada de caracol destruindo-a a seu passo.

Os alaridos de terror da Sheere no piso inferior lhe proporcionaram forças para ficar de novo em pé. Correu para aquela escada que apenas era já um esqueleto de barras de metal vestidas de chamas e comprovou que os degraus tinham desaparecido. Lançou-se pelo oco da escadaria. Seu corpo atingiu com impacto o mosaico do primeiro andar e uma sacudida de dor lhe percorreu o braço rasgado pelo fogo.

― Ben! — gritou Sheere — Por favor! Ben elevou o olhar e contemplou como Sheere era arrastada sobre o chão de estrelas acesas envolta em um manto de chamas translúcido, como a larva de uma mariposa infernal. Levantou-se e correu atrás dela, seguindo o rastro que seu raptor deixava em direção à parte traseira da casa e tentando se esquivar do impacto furioso das centenas de livros da biblioteca circular que saíam despedidos ardendo das prateleiras e se decompunham em uma chuva de páginas em combustão. Um dos impactos o derrubou de novo, caiu de bruços e se golpeou na cabeça.

Sua visão se nublou lentamente enquanto observava o visitante ígneo que se detinha e se voltava para o contemplar. Sheere uivava de pânico, mas seus gritos já não eram audíveis. Ben lutou para se arrastar uns centímetros pelo chão coberto de brasas e tratou de não ceder aquele impulso de deixar-se vencer pelo sono e abandonar a resistência. Um sorriso cruel e canino se desenhou frente a ele, e entre a massa imprecisa que convertia seu campo de visão em um quadro de aquarelas frescas, reconheceu o homem que tinha visto na locomotiva daquele trem fantasmagórico cruzando a noite. Jawahal.

— Quando estiver preparado, vem para mim. — lhe sussurrou o espírito de fogo —. Já sabe onde estou...

Um instante depois, Jawahal agarrou de novo a Sheere e atravessou com ela a parede traseira da casa como se fosse uma cortina de fumaça. Antes de perder os sentidos, Ben escutou o eco do trem afastando-se na distância.

— Está voltando a si — murmurou uma voz a centenas de quilômetros dali.

Ben tentou se elucidar sobre as manchas imprecisas que se agitavam frente a seu rosto e logo reconheceu alguns rostos familiares. Umas mãos o acomodaram brandamente e colocaram um objeto brando e confortável sob sua cabeça. Ben piscou repetidamente. Os olhos do Ian, avermelhados e desesperados, observavam-o ansiosos. Junto a ele estavam Seth e Roshan.

— Ben! Pode nos ouvir? — perguntou Seth, cujo rosto parecia sugerir que não tinha dormido em uma semana.

Ben recordou súbitamente e quis levantar-se bruscamente. As mãos dos três rapazs o devolveram a sua posição de repouso.

— Onde está Sheere? — conseguiu articular. Ian, Seth e Roshan trocaram um olhar sombrio.

— Não está aqui, Ben. — respondeu Ian, finalmente. Ben sentiu que o céu se desprendia sobre ele e fechou os olhos.

— O que é que aconteceu? — perguntou finalmente, mais sereno.

— Despertei antes que vós —explicou lan— e decidi sair para procurar algo para comer. Pelo caminho encontrei o Seth, que vinha para a casa.

De volta vimos que todas as janelas estavam fechadas e que saía fumaça do interior. Viemos correndo e o encontramos sem sentido. Sheere já não estava aqui.

— Jawahal a levou. Ian e Seth se olharam de soslaio.

— O que aconteceu? O que averigou? Seth levou as mãos ao seu espesso arbusto de cabelo e o afastou do seu rosto. Seus olhos o delatavam.

— Não estou seguro de que esse Jawahal exista, Ben — afirmou o robusto rapaz — Acredito que Aryami mentiu.

― Do que está falando? — perguntou Bem — Por que nos ia mentir?

Seth resumiu suas averiguações no museu com o Mr. Do Rozio e explicou que não existia menção alguma a Jawahal em toda a documentação do julgamento exceto em uma missiva particular assinada pelo coronel Hewelyn, encobrindo o assunto por escuras razões, dirigida ao engenheiro. Ben escutou as revelações com incredulidade.

— Isso não prova nada. — objetou — Jawahal foi condenado e encarcerado. Fugiu faz dezesseis anos e então começaram seus crímes.

Seth suspirou, negando de novo.

— Estive na prisão do Curzon Fort, Ben. — disse com tristeza — Não houve nenhuma fuga nem nenhum incêndio faz dezesseis anos. A penitenciária ardeu em 1857. Jawahal nunca pôde ter estado ali nem fugir de uma prisão que já não existia há décadas antes que se celebrasse seu julgamento. Um julgamento onde nem é mencionado. Nada encaixa.

Ben o olhou boquiaberto. —Mentiu-nos, Ben —disse Seth—. Sua avó nos mentiu.

— Onde está ela agora?

— Michael está procurando-a — esclareceu Ian—. Quando a encontrar, trará-a aqui.

— E onde estão outros? —Inquiriu de novo Ben.

Roshan olhou com indecisão para Ian. Este assentiu gravemente.

— Diga o que me disse.

Michael se deteve a contemplar a bruma crepuscular que cobria a borda oeste do Hooghly.

Dezenas de silhuetas envoltas parcialmente em seus mantos brancos e puídos se inundavam nas águas do rio e a soma de suas vozes se perdia no murmúrio da corrente. O som das pombas que batiam suas asas ao vento elevando-se na selva de palácios e cúpulas descoloridas e alinhadas frente à lâmina de luz do Hooghly, recordava uma Veneza das trevas.

— É você quem me procura? — disse a anciã, que jazia sentada a uns metros dele, seu rosto oculto em um véu.

Michael a olhou e a anciã elevou seu véu. Os olhos tristes e profundos de Aryami Bosé empalideceram ao crepúsculo.

— Não temos muito tempo, senhora — disse Michael — Já não.

Aryami assentiu e se levantou lentamente. Michael lhe ofereceu seu braço e ambos partiram rumo à casa do engenheiro Chandra Chatterghee ao amparo do acaso.

Os cinco rapazs se reuniram em silencio em torno de Aryami Bosé. Esperaram pacientemente que a anciã se acomodasse e encontrasse o instante oportuno em saldar a dívida que tinha contraído com eles ao lhes ocultar a verdade. Nenhum ousou pronunciar uma palavra antes que ela falasse. A angustiosa urgência que os consumia interiormente se transformou momentaneamente em uma tensa calma, uma sombra de incerteza perante a suspeita de que o segredo que a dama tinha guardado com tanto zelo se tornasse num desafio insuperável.

Aryami observou os rostos dos rapazs com profunda tristeza e esboçou uma ameaça de sorriso que apenas aflorou a seus lábios. Finalmente, baixando o olhar, suspirou fracamente e, examinando as palmas de suas mãos pequenas e nervosas, começou a falar. Desta vez, entretanto, sua voz lhes pareceu desprovida da autoridade e da determinação que tinham aprendido a esperar dela. Ao final do caminho, o medo tinha apagado a fortaleza de ânimo que emanava de sua pessoa e os rapazs comprovaram que quem lhes falava não era mais que uma anciã débil e mortalmente assustada, uma menina que tinha vivido muito.

«Antes de começar, me permitam dizer que, se alguma vez em minha vida menti, e me vi obrigada a fazê-lo em numerosas ocasiões, sempre foi para proteger alguém. Se desta vez lhes menti, foi com a certeza de que deste modo protegeria a você, Ben, e a sua irmã Sheere de algo que possivelmente pudesse os danificar mais que as estratagemas de um criminoso enlouquecido. Ninguém sabe a dor que me causou ter que levar esta carrega em solitário desde dia de seu nascimento. Tudo que lhes diga agora será a verdade até onde eu a conheço. Me escutem bem e dêem por certo tudo quanto saia de meus lábios, embora nada há tão terrível e difícil de acreditar como a pura e nua realidade dos fatos...

Parece que tinham transcorrido anos desde o dia em que lhes narrei a história de minha filha Kylian. Falei-lhes dela, de sua maravilhosa luminosidade e de como, de entre todos quantos a pretendiam, o eleito para ser seu marido foi um homem horrível de origem singela e de grande talento, um jovem engenheiro em quem tudo eram promessas, mas que trazia da infância uma pesada carga sobre suas costas, um segredo que teria que leva-lo a morte, a ele e a muitos outros. E embora lhes pareça paradoxal, me permitam que por uma vez comece este relato pelo final e não pelo princípio, em resposta aos achados que sagazmente desentranhastes.

Chandra Chatterghee foi sempre um sonhador, um homem possuído por uma visão de um futuro melhor e mais justo para sua gente, a qual via morrer na miséria nas ruas desta cidade. Enquanto, atrás dos muros de suas opulentas casas, aqueles a quem ele considerava como invasores e exploradores do legado natural de nosso povo, enriqueciam e viviam uma vida de luxo e frivolidade as custas da miséria de milhões de almas condenadas à pobreza no grande orfanato sem teto, que é este país.

Seu sonho era poder dotar de um instrumento de progresso e de riqueza à nação que ele sempre acreditou que chegaria a romper o jugo opressor da coroa. Um instrumento para abrir novas rotas entre as cidades, novos enclaves, e novos caminhos para o futuro das famílias da Índia. Ele sempre sonhou com um invento de ferro e fogo: a ferrovia. Para Chandra, os trilhos da ferrovia eram as artérias que tinham que levar o novo sangue do progresso para toda esta terra e para elas projetou um coração do qual brotaria toda essa energia: sua obra cúpula, a estação do Jheeter's Gate.

Mas a linha que separa os sonhos dos pesadelos é tão fina como um alfinete e, muito em breve, as sombras do passado voltaram para cobrar seu preço. Um alto mandatário do exército britânico, o coronel Arthur Hewelyn, tinha realizado uma meteórica carreira, edificada sobre suas façanhas e matanças de inocentes, anciões e meninos, homens desarmados e mulheres aterrorizadas em povoados e aldeias de toda a península de Bengala. Ali onde chegava a mensagem de paz e união da nova Índia, chegavam seus fuzis e suas baionetas. Um homem de grande talento e futuro, como proclamavam seus superiores com orgulho. Um assassino com a bandeira da coroa e o poder de seu exército nas mãos. Um entre tantos.

Hewelyn não demorou para reparar no talento de Chandra e sem excessivos problemas traçou um círculo negro em torno dele, bloqueando todos seus projetos. Em umas semanas, não havia uma só porta na Calcuta ou em toda a província que se abrisse. Exceto, claro, a do Hewelyn. Este lhe propôs realizar obras para o exército, pontes, linhas férreas... Todos estes oferecimentos foram rechaçados por seu pai, que preferiu manter-se com o mísero salário que os editores de Bombay sentiam prazer em lhe enviar como esmola em troca de seus manuscritos. Com o tempo, o círculo do Hewelyn se relaxou e Chandra começou a trabalhar de novo em sua obra prima.

Com o passar dos anos, Hewelyn retomou sua cólera. Sua carreira estava em perigo e necessitava urgentemente um golpe de mestre, um banho de sangue fresco com qual pudesse renovar o interesse da hierarquia de Londres em suas façanhas e restaurar sua reputação como a pantera de Bengala. Sua solução era clara. Pressionar Chandra, mas desta vez, com outras armas.

Durante anos tinha estado investigando e seus comparsas terminaram por farejar o rastro dos crímes associados com o Jawahal. Hewelyn permitiu que o caso quase aflorasse à luz pública e, quando seu pai estava mais comprometido que nunca em seu projeto do Jheeter's Gate, interveio, ocultando-o e ameaçando revelar a verdade se não criasse para ele uma arma nova, um instrumento de repressão mortífero e capaz de acabar com todos os distúrbios que pacifistas e independentistas semeavam no caminho do Hewelyn. Ele teve que capitular e esse foi o nascimento do Pássaro de Fogo, uma máquina que poderia converter uma cidade ou uma aldeia em um oceano de chamas em questão de segundos.

Chandra desenvolveu paralelamente os projetos da ferrovia e do Pássaro de Fogo, com a constante pressão de Hewelyn, a quem a cobiça e a desconfiança que começava por inspirar em seus superiores ameaçavam pondo-o em evidência. Aquele que outrora todos tinham considerado um homem sereno, equânime e cumpridor de seu dever se revelava agora um maníaco doentio, cuja necessidade de êxito e reconhecimento cegava dia a dia suas possibilidades de sobreviver.

Chandra compreendeu que a queda do Hewelyn por seu próprio peso era só questão de tempo e jogou com ele. Fe-lo acreditar que lhe entregaria o projeto antes do previsto. Mas aquela atitude só exacerbou a crispação do Hewelyn e pulverizou a pouca prudência que ainda albergava em seu interior.

Em 1915, um ano antes da inauguração do Jheeter"s Gate e a linha que partia dela, Hewelyn ordenou uma matança de pessoas desarmadas sem justificação possível e foi expulso do exército britânico depois de um escândalo que chegou até aos ouvidos da Câmara dos Comuns. Sua estrela já não brilharia nunca mais.

Aquele foi o princípio de sua loucura. Reuniu um grupo de oficiais que lhe eram fiéis e que tinham sido despojados de sua graduação como ele e ameaçados a abandonar as armas. Com semelhante banda de açougueiros organizou um sinistro grupo paramilitar que operava clandestinamente. Todos luziam seus velhos uniformizes e suas condecorações de um modo grotesco e se reuniam na antiga residência do Hewelyn, mantendo a ficção de que compunham uma unidade secreta de élite que não demoraria para expulsar dos seus cargos aqueles que tinha assinado suas atas de expulsão. Devo dizer que Hewelyn nunca admitiu que fosse degradado e afastado. Segundo ele e seus colaboradores, tinham se demitido para fundar uma nova ordem militar. Logo seu pai recebeu ameaças de morte para ele e sua esposa grávida se não entregasse o Pássaro de Fogo. Ao tratar-se já de um assunto clandestino, Chandra tinha que dirigi-lo com supremo cuidado. Se solicitava a ajuda do exército, seu passado acabaria por sair a descoberto. Não ficava mais remedeio que pactuar com o Hewelyn e seus homens.

Naquele clima de tensão, dois dias antes da data prevista para a inauguração da estação, e não depois, como eu lhes havia dito, Kylian deu luz dois filhos gêmeos. Um menino e uma menina. Sua irmã Sheere e você, Ben.

Para a noite da inauguração do Jheete’Rs Gate se projetou realizar uma viagem simbólica. O primeiro trem a cruzar a linha Calcuta-Bombay transportaria 360 meninos sem família, um por cada dia do ano, rumo aos orfanatos daquela cidade. Chandra propôs a Hewelyn e seus homens o seguinte: carregaria o Pássaro de Fogo a bordo do trem e, aproveitando uma parada técnica que ele decretaria cinqüenta quilômetros depois da partida, à altura do Bishnupur, os militares poderiam descarregá-lo e leva-lo com ele. Hewelyn aceitou. Chandra planejava inutilizar a maquinaria e desfazer-se do Hewelyn e seus homens antes que o trem fizesse soar seu apito. Mas Hewelyn, secretamente, desconfiava do trato e ordenou a seus homens que se adiantassem.

Seu pai tinha convocado os militares na estação, um verdadeiro labirinto que só ele conhecia, e sob o pretexto de lhes mostrar o Pássaro de Fogo, introduziu-os nos túneis. Hewelyn, que já tinha suspeitado algo parecido, tinha tomado suas próprias precauções e, antes de ir a sua entrevista com o engenheiro, seqüestrou a sua mãe e, com ela, vocês. Quando Chandra se dispunha a aniquilar seus chantagistas, Hewelyn lhe revelou que vós e sua mãe estavam em seu poder e ameaçou os matar a menos que entregasse o Pássaro de Fogo. Chandra não teve mais remedeio que render-se. Mas aquilo não bastou a Hewelyn. Fez encadear Chandra à locomotiva do trem, à espera de despedaçá-lo no iniciar sua viagem, e, ali mesmo, frente aos olhos de seu pai, afundou uma faca na garganta de Kylian a sangue frio. Logo deixou-a sangrar lentamente pendurando-a pela soga na abóbada central da estação. Enquanto o fazia, prometeu-lhe que os abandonaria nos túneis para que fossem devorados pelos ratos.

Depois de abandonar Chandra encadeado à locomotiva, ordenou a seus homens que pusessem em marcha o trem e levassem dali o Pássaro de Fogo. Enquanto, ele os iria ocultar num túnel onde ninguém os poderia encontrar jamais. Entretanto, algo não resultou como ele tinha planejado. Superestimando sua astúcia, o néscio do Hewelyn supôs que Chandra Chatterghee ia pôr nas mãos de um assassino como ele uma maquinaria do poder destruidor do Pássaro de Fogo sem mais nem menos. Chandra tinha levado suas precauções até ao extremo e tinha dotado o Pássaro de Fogo de um mecanismo secreto de relojoaria que só ele conhecia. Um mecanismo que liberaria sobre si mesmo todo o poder destruidor do artefato em poucos segundos, de qualquer mão alheia à sua que tratasse de empregá-lo.

Quando Hewelyn e sua corte de assassinos subiram a bordo, o líder do bando decidiu que, como despedida e avanço na vingança que pensava submeter à cidade uma vez que controlasse o poder daquela mortal invenção, destruiria aquela estação e permitiria que o fogo arrasasse a obra de Chandra e as vistas de todos quantos se congregaram a presenciar a inauguração do prodígio. Assim, quando Hewelyn acendeu o Pássaro de Fogo, assinou a sentença de morte de todos quantos se encontravam a bordo daquele trem. Incluída a sua. Cinco minutos mais tarde, o inferno atingiu a estação e levou com ele os corpos e almas de inocentes e culpados sem distinção.

Perguntarão onde estão as respostas e por que lhes menti sobre a prisão onde foi encarcerado Jawahal ou por que seu nome nunca foi mencionado. Antes de continuar, e isto é o mais importante que vou dizer-lhes, quero que compreendam que, ouçam o que ouvirem, Chandra foi um grande homem. Um homem que amou a sua esposa e que teria amado seus filhos se assim tivesse tido a oportunidade que nunca teve. Dito isto, conheçam a verdade...

Quando seu pai era jovem e caiu doente pelas febres, não foi parar a uma cabana no rio, onde um rapaz cuidou dele até que sanou tal como vos disse a primeira vez. Seu pai se criou em uma instituição que ainda existe a sul da Calcuta e que leva por nome Grant House. Vocês são muito jovens para ter ouvido esse nome, mas houve um tempo em que foi tristemente célebre. Grant House foi o lugar ao qual seu pai chegou depois de presenciar algo terrível quando apenas tinha seis anos. Sua mãe, uma mulher doente, que vivia de vender seu corpo por míseras esmolas, prendeu-se fogo a si mesmo perante seus olhos oferecendo-se em sacrifício à deusa Kali. Grant House, o lar onde cresceu Chandra, era uma casa de saúde, o que vocês chamariam um manicômio...

Durante anos, viveu confinado nas galerias daquele lugar, sem mais pais nem amigos que gente que vivia no delírio e o sofrimento. Gente que diziam ser demônios, deuses ou anjos para esquecer seu nome no dia seguinte. Quando, como vós, teve idade para sair dali, Chandra não tinha tido outra infância senão o horror e a miséria mais profunda que os olhos de um homem puderam contemplar jamais na cidade de Calcuta.

Não será necessário que lhes diga que nunca houve um amigo sinistro que cometesse aqueles crímes e que nunca houve mais sombra na vida de seu pai que a daquele parasita que se infiltrou em sua mente. Foram suas próprias mãos que cometeram aqueles crímes, cujo remorso o perseguia e cuja vergonha caía sobre ele como uma maldição.

Só a bondade e a luminosidade de Kylian o curaram e lhe devolveram a capacidade de recuperar seu próprio destino. Junto a ela escreveu os livros que conhecem, planejou as obras que o fizeram imortal e afastou aquele fantasma de sua dupla vida. Mas a cobiça dos homens não quis lhe conceder uma oportunidade e a aquela que poderia ter ser uma vida feliz e próspera se precipitou de novo às trevas. Mas esta vez, para sempre.

A noite em que Lahawaj Chandra Chatterghee contemplou como sua esposa era assassinada ante seus próprios olhos, os anos de horror de sua infância voltaram atrás dele como cães rasteiros e o catapultaram de novo para seu próprio inferno. Tinha construído toda uma vida sobre aquele pedestal que via agora desmoronar-se. E enquanto as chamas o devoravam, morreu no convencimento de que o único culpado daquela tragédia era ele e que merecia ser castigado.

Por esse motivo, quando Hewelyn acendeu o Pássaro de Fogo e as chamas alagaram os túneis e a estação, uma sombra escura na alma de Chandra jurou voltar da morte. Voltar como um anjo de fogo. Um anjo destruidor e portador de vingança. Um anjo que encarnaria o reverso escuro de sua própria personalidade. Não lhes persegue um assassino. Nem um homem. É um espectro. Um espírito.

Ou, se o preferirem, um demônio.

Seu pai sempre foi amigo dos quebra-cabeças, até ao fim. Falaram-me de um desenho que seu amigo Michael fez de todos vós, o retrato que aparecem refletidos no lago. Ali a imagem de seus rostos sobre esta água invertida. Parece que a profecia guiou o lápis do Michael. Se escrevessem o nome que sua mãe lhe deu ao nascer, Lahawaj, sobre ele, o reflexo no lago lhes devolveria outra palavra: Jawahal.

O espírito atormentado do Jawahal vive desde aquele dia unido à máquina infernal que ele mesmo criou e que, na hora da morte, deu-lhe vida eterna como um espectro da escuridão. Ele e o Pássaro de Fogo são um só. Essa é sua maldição: uma união de espírito de raiva e máquina de destruição. Uma alma de fogo apanhada no interior das caldeiras desse trem em chamas. E agora essa alma procura um novo lar.

Por isso os procura, porque no momento em que alcançarem a idade adulta, o espírito do Jawahal necessita de um de seus filhos para seguir vivendo. Para habitar em seu corpo e estender assim seu poder até ao mundo dos vivos. Só um de vós pode sobreviver. O outro, aquele cuja alma não tenha capacidade para o espírito do Jawahal, deve morrer para que ele possa seguir vivendo. Faz dezesseis anos jurou que os buscaria e os faria dele. E ele sempre cumpriu suas promessas. Em vida e depois dela. Sede consciente de que, enquanto vocês conhecem estes fatos, Jawahal já escolheu um dos dois para que albergue sua alma maldita. Só ele sabe a quem.

A providência quis lhes conceder uma oportunidade quando fez dezesseis anos o tenente Peake se introduziu no labirinto de túneis do Jhecter's Gate e descobriu o corpo sem vida de Kylian suspenso no vazio sobre seu próprio sangue derramado. Seu pranto chegou a seus ouvidos e o tenente, tragando-se sua dor, procurou-os e os arrebatou das mãos do espírito de seu pai. Mas não pôde chegar muito longe. Seus passos o levaram até minha porta, onde os entregou e fugiu de novo.

Quando algum dia explicar esta historia a sua irmã Sheere, não esqueça nunca, jamais, que o espírito de vingança que voltou das chamas do Jheeter's Gate aquela noite e acabou com o tenente Peake quando tratava de salvar vocês dois não era seu pai. Seu pai morreu no incêndio, entre as almas inocentes dos meninos. Quem voltou do inferno para destruir-se a si mesmo, ao fruto de seu matrimônio e sua obra não foi mais que um espectro. Um espírito consumido pelo diabo do rancor, do ódio e do horror que os homens semearam em seu coração. Essa é a verdade e nada nem ninguém poderá trocá-la.

Se existir um Deus, ou centenas deles, que me perdoem pelo dano que lhes pude infligir ao narrar os fatos tal e qual aconteceram... »

O que posso dizer? Que palavras poderia encontrar para expressar a tristeza que li aquele anoitecer de Maio nos olhos do Ben, meu melhor amigo?. A busca no passado nos tinha ensinado uma cruel lição e nos tinha revelado a vida como um livro no qual era preferível não voltar as páginas atrás; um caminho no qual não importava a direção que tomássemos, nunca poderíamos escolher nosso próprio destino. E desejei ter tomado já aquele navio que tinha que me levar para longe dali e que partiria no dia seguinte. A covardia se fundia em mim com a dor que sentia por meu amigo e com o amargo sabor da verdade.

Todos escutamos em silêncio o relato de Aryami E nenhum de nós ousou formular uma só pergunta, embora centenas delas bulissem em nossas mentes. Sabíamos que por fim todas as linhas de nosso destino confluíam em um lugar, uma entrevista que nos esperava inubitavelmente ao cair a noite nas trevas do Jheeter's Gate.

Quando saímos a céu aberto, as últimas luzes do dia se extinguiam em uma cinta escarlate estendida sobre o azul profundo das nuvens de Bengala. Uma tênue garoa impregnou nossos rostos enquanto enfiávamos por aquela via morta que partia do pátio traseiro da casa do Lahawaj Chandra Chatterghee para a grande estação no outro lado do rio Hooghly, atravessando o Oeste da cidade negra.

Lembrança que, pouco antes de cruzar a ponte de metal sobre o Hooghly, que conduziam diretamente à boca do Jheete’Rs Gate, Ben nos fez prometer com lágrimas nos olhos que nunca, sob nenhuma razão, revelaríamos o que tínhamos escutado aquela noite. Jurou que se ele tivesse notícia de que Sheere tinha chegado a averiguar a verdade sobre seu pai, sobre aquela miragem que tinha alimentado sua vida da infância, pela boca de um de nós, mataria-o com suas próprias mãos. Todos nos comprometemos a guardar o segredo.

Só faltava uma peça para completar a nossa história: a guerra...