O Palácio da Meia-Noite

Carlos Ruiz Zafón · Capítulo 5 de 7

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O Palácio da Meia-Noite

A Cidade dos Palácios

 

À luz nebulosa daquele dia úmido e quente de maio, os perfis das gravuras e as gárgulas do refúgio secreto da Chowbar Society pareciam figuras de cera esculpidas a faca por mãos furtivas. O Sol se ocultou atrás de um espesso manto de nuvens de cor cinza e uma asfixiante névoa que se coagulava nas ruas da cidade negra, subia o rio Hooghly emulando os vapores letais de um pântano envenenado.

Ben e Sheere conversavam atrás de duas colunas derrubadas na sala central do casarão, enquanto os restantes esperavam a uma dúzia de metros dali, dedicando ocasionais olhares furtivos e receosos ao casal.

— Não sei se estou fazendo bem ocultando isto aos meus companheiros. — confessou Ben a Sheere — Sei que os desgostará e que vai contra os princípios da Chowbar Society, mas se existir uma remota possibilidade de que haja um assassino nas ruas, que pretende me matar, coisa que duvido, não tenho intenção de os envolver nisto. Tampouco quero envolver você, Sheere. Não posso imaginar que relação guarda sua avó com tudo isto, e até que não o averigue, o melhor será manter este segredo entre você e eu.

Sheere assentiu. Desgostava-lhe compreender que de algum modo aquele segredo que compartilhava com o Ben se interpunha entre o rapaz e seus companheiros, mas ao mesmo tempo, consciente de que a gravidade do assunto podia ser maior do que contemplavam naquele momento, saboreava agradada a proximidade que aquele vínculo lhe proporcionava com o Ben.

— Também eu devo dizer algo, Ben. — começou Sheere — Esta manhã, quando vim me despedir de vocês, não pensei que tivesse importância, mas agora as coisas mudaram. Ontem à noite, enquanto voltávamos para a casa onde nos alojamos, mim avó me fez jurar que nunca mais falaria com você. Disse-me que deveria esquecê-lo e que qualquer tentativa da minha parte de me aproximar de você poderia acabar em tragédia.

Ben suspirou perante a velocidade com que aquela corrente de ameaças veladas, que floresciam em todos os lábios em relação a sua pessoa, estava adquirindo. Todos, exceto ele, aparentavam conhecer algum segredo inexprimível que o convertia em uma carta marcada e portadora de desgraças. O que ao princípio tinha sido incredulidade e mais tarde inquietação, começava a transformar-se em aberta irritação e ira perante o secretismo que parecia mover-se em suas costas.

— Que razões tem sua avó para dizer algo assim? — perguntou Ben — Jamais me tinha visto antes de ontem à noite e não acredito que meu comportamento justificasse semelhantes barbaridades.

— Não acredito que tivesse a ver com isso. — indicou Sheere — Estava assustada. Não havia raiva em suas palavras, só medo.

— Pois vamos ter que encontrar algo mais que medo se pretendemos averiguar o que é o que está acontecendo. — replicou Ben — Vamos vê-la agora.

Ben se dirigiu até onde esperavam outros membros da Chowbar Society. Seus rostos evidenciavam que tinham estado discutindo internamente o tema e que tinham chegado a alguma resolução. Ben apostou quem seria o porta-voz do inevitável protesto. Todos olharam para Ian e este, ao descobrir a conspiração, pôs os olhos em branco e suspirou.

— Ian tem algo para dizer a você. — particularizou Isobel — E fala por todos nós.

Ben encarou seus companheiros e sorriu.

— Escuto.

— Bom, ― começou Ian ― a essência do que queremos dizer...

— Vá ao grão, Ian — cortou Seth.

Ian se voltou, com toda a serena fúria contida que seu fleumático caráter lhe permitia.

— Se sou eu a explicar, o farei como me der na vontade. Está claro?

Ninguém ousou objetar mais matize sobre sua oratória. Ian emprendeu sua tarefa.

— Como dizia, o essencial é que acreditamos que há algo que não se enquadra. Disse-nos que Mr. Carter explicou a você que há um criminoso que ronda o orfanato e que o atacou. Criminoso que ninguém viu e cujos motivos, segundo suas explicações, não entendemos. Como tampouco entendemos por que pediu para falar com você especificamente ou por que você esteve falando com o Bankim e não nos disse sobre o que. Supomos que tem suas razões para guardar o segredo e compartilhá-lo só com a Sheere, ou melhor dizendo, acredito que as tem. Mas, em honra à verdade, se em algo valoriza esta sociedade e seu propósito, deveria confiar em nós e não nos ocultar nada.

Ben considerou as palavras do Ian e repassou os rostos do resto de seus companheiros, que assentiram ao discurso de seu porta-voz.

— Se estiver ocultando algo é porque penso que pelo contrário poderia pôr em perigo a vida de outros. — explicou Ben.

— O princípio básico desta sociedade é nos ajudar uns aos outros até ao fim e não simplesmente escutar histórias de fantasias e desaparecer às primeiras contrariedades, assim que cheira a chamuscado. — Protestou Seth iradamente.

— Isto é uma sociedade, não uma orquestra de senhoritas. — acrescentou Siraj.

Isobel o deu um soco no cangote.

— Você se cale. — recriminou Isobel.

— De acordo. — opinou Ben — Todos por um e um por todos. Isso é o que querem? Os Três Mosqueteiros?

Todos o observaram intensamente e, lentamente, um a um, assentiram.

— Muito bem. Dir-lhes-ei tudo o que sei, que não é muito. — disse Ben.

Durante os dez minutos seguintes a Chowbar Society escutou seu relato em versão íntegra, incluindo a conversação com o Bankim e os temores da avó de Sheere. Finalizada a exposição, abriu-se um turno de perguntas.

— Alguém ouviu falar desse tal Jawahal alguma vez? — perguntou Seth — Siraj?

O homem enciclopédia não ofereceu mais resposta que uma negativa absoluta.

— Sabem se Mr. Carter teria negócios com alguém assim? Talvez haja em seus arquivos algo a respeito? — perguntou Isobel.

— Podemos averiguá-lo. — disse Ian. ― Agora o fundamental é falar com sua avó, Sheere, e desenrolar este embrulho.

— Estou de acordo. — disse Roshan — Vamos vê-la e depois decidiremos sobre um plano de ação.

— Há alguma objeção à proposta do Roshan? — perguntou Ian.

Uma negativa geral alagou os muros ruinosos do Palácio da Meia-noite.

— Bem, em marcha.

— Um momento. — disse Michael.

Os rapazs se voltaram para escutar o perene, taciturno e virtuoso do lápis e cronista gráfico da história da Chowbar Society.

― Ocorreu a você pensar que tudo isto poderia ter relação com a história que nos explicou esta manhã, Ben? — perguntou Michael.

Ben tragou saliva. Levava meia hora fazendo-se essa mesma pergunta, mas era incapaz de achar um elo de conexão entre ambos os casos.

— Não vejo a relação, Michael. — disse Seth. Os outros pensaram sobre o tema, mas nenhum deles parecia inclinado a discordar do parecer do Seth.

— Não acredito que exista essa relação. — corroborou Ben finalmente — Suponho que sonhei.

Michael o olhou diretamente nos olhos, algo que não estava acostumado a fazer praticamente nunca, e lhe mostrou um pequeno desenho que sustentava entre os dedos. Ben o examinou e identificou a silhueta de um trem cruzando uma planície devastada de favelas e barracos. Uma majestosa locomotiva acabada em cunha e coroada por grandes chaminés que cuspiam vapor e fumaça o arrastava sob um céu semeado de estrelas negras. O trem aparecia envolto em chamas e através dos guichês dos vagões se intuíam centenas de rostos espectrais estendendo os braços e uivando no fogo. Michael tinha traduzido as suas palavras para o papel com absoluta fidelidade. Ben sentiu que um calafrio lhe percorria as costas e olhou para seu amigo Michael.

— Não entendo, Michael. — murmurou Bem — Aonde quer chegar?

Sheere se aproximou deles e seu rosto empalideceu ao contemplar o desenho e intuiu um elo de união entre a visão do Ben e o incidente no St. Patricks , que Michael tinha posto a descoberto.

— O fogo. — murmurou a moça — É o fogo.

 

A casa de Aryami Bose tinha permanecido enclausurada durante anos e o fantasma de milhares de lembranças prisioneiras entre os muros impregnava ainda o ambiente daquela casa habitada por livros e quadros.

De caminho tinham acordado unanimemente que o mais prudente era permitir que Sheere entrasse primeiro em casa, pusesse Aryami ao corrente dos fatos e lhe manifestasse a vontade dos rapazes em falar com ela. Uma vez assumida essa primeira fase, os membros da Chowbar Society acharam igualmente oportuno limitar o numero de seus representantes na reunião com a anciã, na crença de que a visão de sete adolescentes desconhecidos prenderia sua língua ostensivelmente. Por isso, além de Sheere e Ben, decidiu-se que Ian também estaria presente durante a conversação. Ian aceitou de novo o papel de embaixador em funções da sociedade, não sem suspeitar que a freqüência com que lhe correspondia assumir tal papel estava menos relacionada com a confiança de seus companheiros em seu engenho e moderação que com seu aspecto inofensivo e idôneo para granjeá-la aprovação de adultos e funcionários públicos. Em qualquer caso, depois de percorrer as ruas da cidade negra e esperar durante uns minutos no pátio de aspecto selvagem que rodeava a casa de Aryami Bosé, Ian se uniu a Ben e ambos entraram na casa ao sinal de Sheere, enquanto os outros aguardavam por sua volta.

Sheere os conduziu até uma sala insuficientemente iluminada por uma dúzia de velas situadas no interior de vasilhas com água. Sobre elas, as gotas de cera derramada formavam flores congeladas e tapavam o reflexo da chama. Os três jovens tomaram assento frente à anciã, que os observava silenciosamente desde sua poltrona, e examinaram a penumbra que velava as paredes cobertas de tecidos e as prateleiras sepultadas sob o pó de anos.

Aryami esperou que os olhos dos três jovens se pousassem sobre os seus e se inclinou para eles, em atitude confidencial.

— Minha neta me explicou o acontecido. — disse Aryami — E não posso dizer que me surpreenda. Vivi durante anos com o temor de que algo semelhante ocorresse, mas nunca cheguei a pensar que seria assim, desta maneira. Antes de mais nada, saibam que aquilo que hoje presenciastes não é mais que o princípio e que, depois de me escutarem, em vossas mãos estará deixarem que siga seu curso ou evitá-lo. Eu já sou velha e me falta o ânimo e saúde para combater forças que me ultrapassam e que cada dia me resulta mais difíceis de compreender.

Sheere tomou a mão pergaminhosa de sua avó e a acariciou brandamente. Ian observou como Ben mordiscava suas unhas e lhe deu uma discreta cotovelada.

— Houve um tempo em minha vida em que acreditei que nada tinha mais força que o amor. E é certo que tem, mas sua força é minúscula e empalidece face ao fogo do ódio. — explicou Aryami — Sei que estas revelações não são precisamente um presente idôneo para seu décimo sexto aniversário; normalmente se permite aos rapazes viver na ignorância do verdadeiro rosto do mundo até bem entrados na juventude, mas temo que vocês não terão esse duvidoso privilégio. Sei também que, pelo simples fato de vir de uma anciã, duvidarão de minhas palavras e de meus julgamentos. Aprendi a reconhecer esse olhar nos olhos de minha própria neta durante todos estes anos. E que nada é tão difícil de acreditar como a verdade e, pelo contrario, nada é tão sedutor como a força da mentira, quanto maior é seu peso. É a lei da vida e ao seu julgamento ficará encontrar o equilíbrio justo. Dito isto, me permitam lhes explicar que, além de anos, esta velha colecionou histórias e que nunca conheceu uma história tão triste e terrível como a que vou relatar e que, sem sabê-lo, vocês foram protagonistas por omissão até ao dia de hoje...

«Houve um tempo em que eu também já fui jovem e fiz tudo aquilo que se espera que façam os jovens: casar, ter filhos, contrair dívidas, decepcionar e renunciar a sonhos e princípios que um dia sempre jurou respeitar. Envelhecer, em uma palavra. Ainda assim, a fortuna foi generosa comigo, pelo menos assim me pareceu isso em princípio, uniu minha vida a de um homem que para o melhor e o pior podia dizer-se é que era bom. Nunca foi um jovem arrumado, para quê mentir. Lembro que, quando vinha a minha casa, minhas irmãs riam dele. Era um tanto torpe, tímido e tinha o aspecto de ter passado os últimos dez anos de sua vida encerrado em uma biblioteca: o sonho de qualquer jovem de sua idade, Sheere.

Meu galã trabalhava como professor em uma escola pública do Sul de Calcuta. Seu salário era miserável e seu vestuário não desmerecia de seu pagamento. Cada sábado vinha me buscar vestido com o mesmo traje, o único que tinha e que reservava para suas reuniões na escola e para me cortejar. Demorou seis anos para poder comprar outro, mas nunca lhe sentaram bem os trajes, não tinha o porte necessário.

Minhas outras duas irmãs contraíram matrimônio com dois reluzentes e bem plantados galãs que tratavam com displicência seu avô e que, em suas costas, dirigiam-me tórridos olhares que se supunha eu deveria interpretar como a oportunidade de desfrutar de um homem de verdade embora apenas por uns minutos em minha vida.

Com o tempo, aqueles folgazões teriam que viver da caridade de meu homem e de seus favores, mas isso é outra história. Pois ele, embora pudesse ler através daquelas sanguessugas, porque sempre soube ver a alma das pessoas com as quais tratava, não lhes negou seu apoio e fingiu esquecer as brincadeiras e o desprezo com que tinha sido tratado em sua juventude. Eu não o teria feito, mas meu homem, como lhes digo, sempre foi bom. Possivelmente muito.

Sua saúde, infelizmente, era frágil e me deixou logo, no ano em que nasceu nossa única filha, Kylian. Tive que criá-la sozinha e tratar de lhe ensinar tudo aquilo que seu pai teria querido que aprendesse. Kylian foi a luz que iluminou minha vida depois da morte de seu avô. Dele herdou sua natureza bondosa e seu instinto para ver através do coração de outros. Mas, onde seu pai reunia estupidez e acanhamento, ela gotejava luminosidade e elegância. Sua beleza começava em seus gestos, em sua voz, em seus movimentos. Em menina, suas palavras enfeitiçavam os visitantes e às pessoas da rua com a magia de um encantamento. Lembro que, ao contemplá-la paquerar os comerciantes dos bazares com apenas dez anos, estava acostumada a imaginar que aquela menina era como um cisne saído das águas da memória de meu homem, um pato feio e torpe. Seu espírito vivia nela, em seus gestos mais insignificantes e no modo em que, às vezes, em silêncio, detinha-se a observar as pessoas do alpendre desta casa e me olhava, toda ela seriedade, para me perguntar por que havia tantas pessoas desgraçadas no mundo.

Logo todas as pessoas da cidade negra começaram a referir-se a ela empregando a alcunha com que um fotógrafo de Bombay a batizou: a princesa de luz. E, para tal princesa, não demoraram a aparecer até debaixo das pedras os candidatos a príncipe. Foram tempos maravilhosos, em que ela compartilhava comigo as ridículas confidências que seus engalanados pretendentes lhe faziam, os horripilantes poemas que lhe escreviam e toda uma galeria de anedotas que, por haver-se prolongado, nos tivessem levado a acreditar que todos os jovens desta cidade não eram mais que uns pobres cretinos. Mas, como sempre, apareceu na cena alguém que teria que mudar tudo: seu pai, o homem mais inteligente e mais estranho de todos que conheci nesta vida.

Naquela época, como hoje, a imensa maioria dos matrimônios que se celebravam, eram combinados entre as famílias como um simples acordo comercial, onde a vontade dos futuros casais não tinha valor algum. A maioria das tradições não é mais do que as enfermidades de uma sociedade. Durante toda minha vida, tinha jurado a mim mesma que no dia em que Kylian se casasse o faria com a pessoa que ela tivesse escolhido livremente.

Quando seu pai chegou a esta porta, encarnava justamente o contrário das dezenas de moscas azuis pavoneantes que rondavam a sua mãe sem cessar. Falava pouco, mas quando o fazia, suas palavras eram afiadas como uma faca e não admitiam réplica. Era amável e, quando o desejava, possuidor de um estranho encanto que seduzia lenta, mas inexoravelmente. Contudo, seu pai mantinha sempre um trato distante e frio com quase todos. Exceto com sua mãe. Em sua companhia, transformava-se em outra pessoa, vulnerável e quase infantil. Nunca cheguei a saber qual dos dois era ele em realidade e suponho que sua mãe levou esse segredo para a tumba.

Seu pai, nas poucas ocasiões em que se dignava falar comigo, dava poucas explicações. Quando por fim decidiu solicitar meu consentimento para contrair matrimônio com sua mãe, perguntei-lhe como pensava mantê-la e qual era sua posição. Meus anos à beira da pobreza com seu avô me tinham ensinado a proteger a minha filha de uma experiência como aquela, que me tinha levado a convencer de que não há nada como um estômago vazio para desmascarar o mito do efeito enobrecedor da fome de espírito.

Seu pai me olhou guardando para si seus verdadeiros pensamentos, como fazia sempre, e respondeu que sua profissão era engenheiro e escritor. Disse que estava tentando conseguir um lugar em uma companhia britânica de construção e que um editor de Delhi lhe tinha adiantado uma quantia por um manuscrito que lhe tinha entregue. Tudo aquilo, aliado à literatura com que seu pai enfeitava seus discursos quando lhe convinha, cheirava a miséria e privações. Assim o expus. Sorriu e, tomando docemente minha mão entre as suas, murmurou-me umas palavras que não esquecerei jamais: “Mãe, esta é primeira e a última vez que o direi. Meu futuro e o de sua filha está agora em nossas mãos, como está a sacrificar o futuro e a lavrar o meu caminho na vida. Ninguém, vivo ou morto, vai poder interferir nisso. Durma tranqüila a esse respeito e confie no amor que professo em sua filha. Mas se as preocupações não a deixam conciliar o sono, guarde-se de manchar com uma só palavra, gesto ou ação o vínculo que, com ou sem seu consentimento, me unirá a ela para sempre, porque faltarão anos na eternidade para que se arrependa disso.”

Três meses depois se casaram e jamais voltei a falar a sós com seu pai. O futuro lhe deu razão e logo foi fazendo nome como engenheiro, sem abandonar sua paixão pela literatura. Mudaram-se para uma casa não muito afastada daqui, que já foi derrubada faz anos, enquanto ele desenhava aquele que seria seu lar de sonho, um verdadeiro palácio que concebeu milímetro a milímetro para recolher-se com sua mãe. Ninguém imaginava então o que se aproximava.

Nunca cheguei a conhece-lo na realidade. Ele nunca me deu essa oportunidade, nem parecia sentir nenhum interesse em abrir suas portas a ninguém que não fosse sua mãe. A mim sua personalidade intimidava e em sua presença me sentia incapaz de abordá-lo ou tentar conviver com ele. Era impossível saber o que pensava. Estava acostumada a ler seus livros, que sua mãe me trazia quando ia me visitar, e os estudava com detalhe tentando encontrar neles a chave oculta para entrar no labirinto de sua mente.

Nunca consegui penetrar nele.

Seu pai foi um homem misterioso que jamais falava de sua família ou de seu passado. Talvez por isso nunca fui capaz de intuir sobre a ameaça que se abatia sobre ele e sobre minha filha, uma ameaça nascida desse passado escuro e insondável. Nunca me deu a oportunidade de ajudá-lo e, na hora da desgraça, esteve tão só como o tinha estado durante toda sua vida, na sua fortaleza de solidão livremente escolhida, cuja chave só sustentou em suas mãos uma pessoa durante os anos que compartilhou com ele: Kylian.

Mas seu pai, como todos nós, tinha um passado e dele emergiu a figura que ia trazer a escuridão e a tragédia a nossa família.

Quando seu pai era jovem e percorria faminto as ruas da Calcuta sonhando com números e fórmulas matemática, conheceu outro rapaz, um menino de sua mesma idade, órfão e sozinho. Naquela época seu pai vivia na pobreza e, como tantos meninos desta cidade, caiu vítima de febres que em cada ano sugavam milhares de vidas. Durante a época das chuvas, a monção descarregava com força suas tormentas na península de Bengala e todo o delta do Ganges experimentava uma enchente que alagava o país. Cada ano, o lago de sal que ainda se encontra no leste da cidade transbordava; ao passar as chuvas, os cadáveres dos peixes mortos expostos ao sol, depois de baixar de novo as águas, produziam uma nuvem de vapores envenenados que, arrastados pelos ventos das montanhas do Norte, arrasavam a cidade e semeavam a enfermidade e a morte como uma praga infernal.

Aquele ano seu pai foi vítima dos ares de morte e teria estado a ponto de perecer, de não ter sido salvo por um companheiro, Jawahal, que cuidou dele durante vinte dias em um barraco de tijolo cru e madeiras queimadas a bordo do Hooghly. Seu pai, ao recuperar-se, jurou que sempre protegeria o Jawahal e que compartilharia com ele tudo o que o futuro lhe proporcionasse, porque agora sua vida também lhe pertencia. Foi um juramento de meninos. Um pacto de sangue e honra. Mas havia algo que seu pai não sabia: Jawahal, aquele anjo salvador de apenas onze anos, levava nas veias uma enfermidade muito mais terrível que aquela que tinha estado a ponto de acabar com ele. Uma enfermidade que começaria a manifestar-se muito depois, primeiro de um modo quase imperceptível, mais tarde com a fatalidade de uma condenação: a loucura.

Anos mais tarde, seu pai soube que a mãe do Jawahal se havia envolvido em chamas, frente aos olhos de seu filho em um sacrifício à deusa Kali e que a mãe de sua mãe tinha acabado seus dias em uma cela miserável de um manicômio de Bombay. Não eram mais que elos em uma larga cadeia de acontecimentos que convertiam a história daquela família em um atalho de horror e desgraça. Mas seu pai era um homem forte, inclusive desde rapaz, e assumiu a responsabilidade de proteger seu amigo fosse qual fosse a sua terrível herança.

Tudo foi simples até que, ao cumprir os dezoito anos, Jawahal assassinou a sangue frio um rico comerciante no bazar porque ele se negou a lhe vender um medalhão que desejava adquirir, aludindo a seu aspecto e duvidando de sua solvência. Seu pai o escondeu em sua casa durante meses e pôs em perigo sua vida e seu futuro ao protege-lo da justiça que o procurava por toda da cidade. Conseguiu-o, mas aquele só tinha sido o primeiro passo. Um ano depois, na noite do ano novo hindu, Jawahal incendiou uma casa onde viviam uma dúzia de anciãs e se sentou na rua a ver as chamas até que as vigas caíram convertidas em brasas. Dessa vez nem as artes de seu pai puderam salva-lo da justiça.

Houve um julgamento, longo e terrível, onde Jawahal foi condenado por seus crímes a cadeia perpétua. Seu pai fez tudo quanto pôde para ajudá-lo, gastou suas economias para lhe pagar advogados, enviou roupa limpa a prisão onde o tinham preso e subornou seus guardiães para que não o atormentassem. O único agradecimento que recebeu de Jawahal foi palavras de ódio. Acusou-o de tê-lo denunciado, abandonado, e de ter querido desfazer-se dele. Recriminou-o por ter quebrado o juramento que ambos tinham feito anos atrás e jurou vingança porque, como lhe gritou iradamente do estrado, quando se leu sua sentença condenatória, a metade de sua vida lhe pertencia.

Seu pai enterrou esse segredo no mais profundo de seu coração e nunca quis que sua mãe soubesse disso. Os anos apagaram os sinais externos daquela lembrança. Depois das bodas, dos primeiros anos de matrimônio e dos êxitos de seu pai, tudo aquilo não parecia mais que um episódio enterrado em um passado longínquo.

Lembro-me da época em que sua mãe ficou grávida. Seu pai parecia outra pessoa, um desconhecido. Comprou um cachorrinho de um cão guardião e afirmou que estava disposto a treina-lo para que se convertesse na melhor das babás para seu futuro filho e não cessava de falar da casa que ia construir, dos planos que tinha para o futuro, de um novo livro...

Um mês depois, o tenente Michael Peake, um dos antigos pretendentes de sua mãe, trouxe a sua porta uma notícia que ia semear de terror suas vidas: Jawahal tinha incendiado um pavilhão da prisão de criminosos perigosos em que estava confinado e tinha fugido, não sem antes escrever nos muros de sua cela, com o sangue de seu companheiro degolado, a palavra: vingança.

Peake se comprometeu pessoalmente a procurar Jawahal e a protege-los de qualquer possível ameaça. Passaram dois meses sem novidades nem indícios da presença do Jawahal. Até o dia do aniversário de seu pai.

Ao amanhecer chegou um pacote com o seu nome entregue por um mendigo. Continha um medalhão, a jóia pela qual tinha cometido seu primeiro assassinato, e uma nota. Nela, Jawahal explicava que andava há várias semanas a espiá-los em segredo e havia comprovado que agora ele era um homem de êxito e que tinha uma esposa radiante. Queria lhes desejar o melhor e, talvez, realizar alguma visita próxima para, como ele dizia, voltarem a compartilhar como irmãos o que pertencia a ambos.

Os dias seguintes estiveram semeados de pânico. Um dos sentinelas que Peake tinha posto a custodiar a casa de noite apareceu morto. O cão de seu pai apareceu no fundo do poço do pátio. E cada noite, ante a impotência do Peake e seus homens, os muros da casa amanheciam com novas ameaças pintadas em sangue.

Aqueles foram dias difíceis para seu pai. Acabara de construir sua obra prima, a estação do Jheeter’s Gate a Leste do Hooghly. Era uma estrutura de aço impressionante e revolucionária e constituía a culminação de um projeto, longamente ansiado por seu pai, para estabelecer uma rede de ferrovia em todo o país, que permitisse desenvolver o comércio próprio e modernizar as províncias até chegar a superar o domínio britânico. Aquela sempre foi uma de suas obsessões, sobre a qual podia falar com veemência durante horas, como se se tratasse de uma missão divina que lhe tivesse sido encomendada.

A inauguração oficial do Jheeter's Gate teve lugar no final daquela semana e, para celebrar a ocasião, decidiu-se fretar simbolicamente um trem que ia transportar 360 meninos órfãos a seu novo lar no Leste do país. Eram filhos dos estratos mais castigados pela pobreza, e o projeto de seu pai significava para eles uma nova vida. Era um empenho no qual seu pai tinha estado comprometido desde o primeiro dia e, que constituía o sonho de sua vida. Sua mãe insistiu até ao desespero para ir durante umas horas ao lugar e lhe assegurou que a proteção do tenente Peake e seus homens bastava para mantê-la segura.

Quando seu pai subiu ao trem e pôs em marcha a máquina que devia conduzir os meninos a seu novo lar, aconteceu algo imprevisto e para o qual ninguém estava preparado. O fogo. Um terrível incêndio se propagou por vários níveis da estação e ao longo dos vagões do trem, que avançava no interior do túnel convertido em um verdadeiro inferno , uma tumba de ferro candente para os meninos que viajavam em seu interior. Seu pai morreu aquela noite tentando salvar inutilmente os meninos enquanto seus sonhos se desvaneciam entre as chamas para sempre.

Quando sua mãe recebeu a notícia, esteve a ponto de perder você. Mas o destino, cansado de enviar desgraças à família, quis salva-la. Três dias mais tarde, quando apenas faltavam uns dias para dar a luz, Jawahal e seus homens irromperam na casa e levaram sua mãe, não sem antes proclamar que a tragédia do Jheeter"s Gate tinha sido obra dela.

O tenente Peake conseguiu sobreviver e seguiu-os até as vísceras da estação do Jheeter's Gate, que agora se converteu em um lugar abandonado e maldito onde ninguém havia tornado a entrar desde a noite da tragédia. Jawahal deixou uma nota em casa jurando matar a sua mãe e o menino que ia dar a luz. Mas havia algo que nem ele mesmo tinha previsto. Não era um menino. Eram dois. Dois gêmeos. Um menino e uma menina. Vocês dois... »

Aryami Bosé seguiu relatando o resto da história: como Peake tinha conseguido salvá-los e levá-los até sua casa, como ela tinha decidido separá-los e ocultá-los do assassino de seus pais... Nem Sheere nem Ben a escutavam já. Ian observou em silêncio o rosto branco de seu melhor amigo e o de Sheere. Apenas piscavam; as revelações que tinham ouvido dos lábios da anciã pareciam havê-los transformado em estátuas. Ian suspirou profundamente e desejou não ter sido ele o eleito para assistir aquela estranha sessão familiar. Sentia-se profundamente incômodo ao encarnar o papel de intruso no drama de seus amigos.

Contudo, Ian tragou a sua própria consternação por tudo quanto tinha averiguado e seus pensamentos se concentraram no Ben. Tentava imaginar a tormenta interna que a história de Aryami devia ter desencadeado nele e amaldiçoava a brutalidade que o medo e o cansaço tinham levado a anciã a revelar acontecimentos cuja transcendência ia provavelmente muito além do aparente. Tentou separar de sua mente, naquele momento, o acontecimento que Ben tinha explicado aquela mesma manhã sobre sua visão de um trem em chamas. As peças daquele quebra-cabeças se multiplicavam com uma velocidade arrepiante.

Não podia esquecer as dezenas de vezes que Ben tinha afirmado que eles, os membros da Chowbar Society, eram pessoas sem passado. Ian temia que o encontro do Ben com seu passado nas penumbras daquele casarão tivesse esmigalhado seu interior sem remédio. Conheciam-se desde meninos e Ian sabia das longas e impenetráveis melancolias do Ben, de como era melhor o apoiar sem formular perguntas ou tratar de ler seus pensamentos. Pelo que sabia de seu amigo, a fachada altiva e avassaladora com que Ben estava acostumado a defender-se habitualmente, tinha encaixado aquele golpe como uma punhalada fatal, uma ferida da qual o próprio Ben não quereria falar jamais.

Ian pousou sua mão brandamente sobre o ombro do Ben, mas seu amigo não pareceu percebê-lo.

Ben e Sheere, que apenas umas horas antes se haviam sentido unidos por um elo de simpatia e afeto crescentes, pareciam agora incapazes de olhar um para o outro, como se as novas cartas repartidas no jogo os tivessem tornado conscientes de um estranho pudor, ou de um temor elementar que muda com um simples gesto.

Aryami olhou para Ian, inquieta. O silêncio reinava na sala. Os olhos da anciã pareciam suplicar uma desculpa, o perdão do mensageiro portador de más notícias. Ian inclinou a cabeça ligeiramente, indicando a Aryanmi que abandonassem a sala. A anciã duvidou uns instantes, e Ian se levantou e lhe ofereceu sua mão. A anciã aceitou sua ajuda e o seguiu até a sala contigüa, deixando o Ben e a Sheere a sós. Ian se deteve na soleira e se voltou para olhar seu amigo.

— Estaremos lá fora. — murmurou. Ben, sem elevar o olhar, assentiu.

 

Os membros da Chowbar Society adoeciam sob o calor abrasador do pátio quando comprovaram que Ian aparecia no portão da casa acompanhado da anciã. Ambos trocaram umas palavras. Aryami assentiu fracamente e procurou o resguardo da sombra que facilitava uma velha marquise de pedra lavrada. Ian, com o semblante pálido e sério, que seus companheiros interpretaram como presságio de más notícias, aproximou-se do grupo de rapazs e aceitou o espaço de sombra que outros abriram para ele. Olhadelas se precipitaram sobre ele como as moscas ao mel. Aryami observava a poucos metros abatida.

— E então? — perguntou Isobel, dando voz ao pensamento generalizado da assembléia.

— Não sei por onde começar. — respondeu Ian.

— Começa pelo pior. — sugeriu Seth.

― O pior é tudo. — respondeu Ian. Os outros observaram em silêncio. Ian contemplou seus companheiros e sorriu fracamente.

— Dez orelhas o escutam. — disse Isobel.

Ian repetiu fielmente tudo quanto Aryami acabava de lhes revelar no interior da casa, sem omitir detalhe e deixando para o final de seu relato um epílogo especialmente dedicado ao Ben e Sheere, que continuavam sozinhos na sala, e a terrível espada que acabaram de descobrir pendendo sobre suas cabeças.

Quando tinha finalizado o relato, o pleno da Chowbar Society já tinha esquecido do calor sufocante que caía do céu como um castigo infernal.

— Como recebeu Ben tudo isso? — perguntou Roshan.

Ian encolheu os ombros e franziu o cenho.

— Suponho que não muito bem. — aventurou — Como teria recebido você?

— O que vamos fazer agora? — perguntou Siraj.

— O que podemos fazer? — perguntou Ian.

— Muito. — cortou Isobel — Alguma coisa, menos deixar fritar nossos traseiros ao sol enquanto um assassino tenta acabar com o Ben. E com a Sheere.

— Alguém se opõe? — perguntou Seth. Todos negaram em uníssono.

— Bem, coronel. — disse Ian dirigindo-se diretamente a Isobel — Quais são as ordens?

— Em primeiro lugar, alguém deveria averiguar tudo o que fosse possível sobre a história desse acidente do Jheeter's Gate e sobre o engenheiro. — indicou Isobel.

— Eu posso fazê-lo. ― ofereceu Seth — Deve haver recortes de imprensa da época na biblioteca do museu índio. E livros, provavelmente.

— Seth tem razão. — disse Siraj — O incêndio do Jheeter"s Gate foi divulgado no seu dia. Muita gente ainda o recordará. Existirá documentação a respeito. O céu saberá onde, mas existirá.

— Pois terá que buscá-la. — particularizou Isobel — Pode ser um ponto de partida.

— Eu ajudarei. — acrescentou Michael.

Isobel assentiu firmemente.

— Queremos saber tudo sobre esse homem, sua vida, e sobre essa casa maravilhosa que se supõe está em algum lugar perto daqui. — disse Isobel — Talvez seu rastro nos leve até ao desse assassino.

— Nós procuraremos a casa. — disse Siraj destacando-se a si mesmo e ao Roshan.

— Se existir, é nossa. — acrescentou Roshan.

— De acordo, mas não entrem nela. — advertiu Isobel.

— Não há problema. — tranquilizou-a Roshan mostrando as palmas das mãos abertas.

— E eu, o que é o que acha que devo fazer? — perguntou Ian, a quem não lhe ocorriam tarefas de acordo com as suas habilidades com a mesma facilidade que pareciam desfrutar de seus colegas.

— Você fica com o Ben e com o Sheere. — Indicou Isobel — Pelo que sabemos, antes do que nos demos conta, Ben começará a ter idéias desatinadas a cada dez minutos. Fique a seu lado e vigie para que não faça loucuras. Não é uma boa idéia que ande pelas ruas com Sheere.

Ian assentiu, consciente de que sua tarefa era a mais difícil do lote que Isobel tinha repartido.

— Encontraremo-nos no Palácio da Meia-noite antes do anoitecer. — concluiu Isobel — Alguém ficou com alguma dúvida?

Os rapazs se olharam entre eles e negaram repetidamente.

— Bem, vamos andando. — disse Isobel. Seth, Michael, Roshan e Siraj partiram sem mais demora rumo a seus respectivos deveres. Isobel permaneceu junto a Ian, observando sua marcha em silêncio, por entre a miragem que subia das poeirentas ruas ardentes, sob o sol.

— O que pensa fazer você, Isobel? — perguntou Ian. Isobel se voltou para ele e sorriu enigmaticamente.

— Tenho uma intuição. — disse a moça.

— Temo suas intuições como temeria a um terremoto. — replicou Ian — O que está tramando?

— Não deve preocupar-se. Ian. — murmurou Isobel.

—Quando diz isso, é quando mais me preocupo. — respondeu Ian.

— Talvez não esteja ao anoitecer no Palácio. — explicou Isobel — Se ainda não tiver voltado, faz o que deve. Você sempre sabe o que terá que fazer, Ian.

Ian suspirou, inquieto. Desgostava-lhe tanto mistério e o estranho brilho que advertia no olhar de sua amiga.

— Isobel, me olhe. — ordenou Ian; a moça obedeceu — Seja o que for, tire-o da cabeça.

— Sei me cuidar, Ian — repôs Isobel, sorridente. Os lábios do Ian, entretanto, foram incapazes de emular os da moça.

— Não faça nada que eu não fizesse. —suplicou Ian. Isobel riu.

— Farei só uma coisa que você não se atreveria a fazer nunca —murmurou Isobel.

Ian a observou perplexo e sem compreender. Logo, sem apagar de seu olhar aquela faísca enigmática, Isobel se aproximou do Ian e o beijou brandamente sobre os lábios, apenas roçando-os.

— Se cuide, Ian. — sussurrou ao seu ouvido — E não tenha ilusões.

Aquela era a primeira vez que Isobel o tinha beijado e, ao vê-la partir entre as arbustos do pátio, Ian não pôde separar de sua mente um súbito e inexplicável temor que talvez também fosse a última.

Decorrida quase uma hora, Ben e Sheere emergiram à luz do dia com o semblante impenetrável e luzindo uma estranha calma. Sheere se aproximou de Aryami, que tinha permanecido todo aquele tempo sozinha na marquise da casa, alheia às tentativas de diálogo do Ian, e se sentou junto a ela. Ben caminhou diretamente em direção ao Ian.

— Onde estão todos? — perguntou Ben.

— Pensamos que seria útil tentar fazer algumas averiguações a respeito desse indivíduo, Jawahal. — respondeu Ian.

— E você ficou de babá? — brincou Ben, embora seu tom jocoso não enganasse a nenhum dos dois.

— Algo assim. Ela está bem? — respondeu Ian, apontando para Sheere com a cabeça. Ben assentiu.

— Confusa, suponho. — disse finalmente — Odeio surpresas.

— Isobel diz que não é boa idéia que você e Sheere andem por aí. E acredito que tem razão.

— Isobel sempre tem razão, menos quando discute comigo. — disse Ben — Mas tampouco acredito que este seja um lugar seguro para nós. Embora tenha estado fechada mais de quinze anos, esta continua sendo a casa da familia. E o St. Patricks tampouco o é, está à vista.

— Acredito que o melhor será ir para o Palácio e esperar pelos outros. — sugeriu Ian.

— Esse é o plano de Isobel? — sorriu Ben.

— Adivinhou.

— Aonde foi ela?

— Não quis me dizer. ― disse Ian.

— Um de seus pressentimentos? — perguntou Ben, alarmado.

Ian assentiu e Ben suspirou abatido.

— Deus nos ajude. — disse Ben, batendo nas costas de Ian — Vou falar com as damas.

Ian se voltou para olhar Sheere e Aryami Bosé. A anciã parecia discutir acaloradamente com sua neta. Ben e Ian trocaram um olhar.

— Suspeito que a anciã mantém seus planos de partir amanhã para Bombay. — comentou Ben.

— Vai com elas?

— Não penso sair desta cidade nunca. E menos agora.

Os dois amigos observaram como se desenvolvia a discussão entre avó e neta durante alguns minutos mais e finalmente Ben se dirigiu para elas.

— Me espere aqui. — murmurou pausadamente.

 

Aryami Bosé entrou de novo na casa e deixou a sós Ben e Sheere na soleira de sua porta. Sheere mostrava um rosto aceso de ira e Ben aguardou que fosse ela mesma quem escolhesse seu momento para começar a falar. Quando o fez, sua voz tremeu de raiva e impotência e suas mãos se entrelaçaram em um nó tenso e fechado.

— Diz que partiremos amanhã e que não quer falar mais do assunto. — explicou Sheere — Diz também que você deveria vir conosco, mas que não pode obriga-lo.

— Suponho que acredita que isso é o melhor para você. — falou Ben.

— Você não pensa isso, Ben?

— Mentiria se dissesse que penso. — admitiu Ben.

— Eu passei toda minha vida fugindo de povoado em povoado, em trens, em navios e carros, sem ter uma casa própria, amigos ou um lugar que pudesse recordar como meu. — disse Sheere — Estou cansada, Ben. Não posso seguir fugindo toda a vida de alguém e nem sequer conheço.

Os dois irmãos se olharam, em silêncio.

— Ela é uma mulher anciã, Ben. Tem medo, porque sua vida se acaba e se sente incapaz de nos proteger durante mais tempo. — acrescentou Sheere — Faz de coração, mas fugir já não serve de nada. De que serviria tomar amanhã esse trem para Bombay? Para ter que pararmos em qualquer estação, com outro nome? Para mendigar um teto em qualquer povoado sabendo que no dia seguinte teríamos que sair fugindo outra vez?

— Disse isso a Aryami? — perguntou Ben.

— Não quer me escutar. Mas desta vez não penso fugir de novo. Esta é minha casa, esta é a cidade de meu pai e aqui é onde penso permanecer. E se esse homem vem até mim, lhe plantarei na cara. Se tiver que me matar, que o faça. Mas se tiver que viver, não estou disposta a fazê-lo como uma fugitiva que agradece em cada dia por poder ver o Sol. Ajuda-me, Ben?

— É obvio. — respondeu o rapaz. Sheere o abraçou e secou os olhos com um extremo do manto branco que a cobria.

— Sabe, Ben? — disse ela — Ontem à noite, com seus amigos naquela velha casa abandonada, seu Palácio da Meia-noite, enquanto lhes explicava minha história, pensei que nunca tive a oportunidade de ser uma menina como as demais. Cresci entre velhos, entre medos e mentiras. Com mendigos e viajantes sem nome como única companhia. Lembrei-me de como inventava companheiros invisíveis e falava com eles durante horas nas salas das estações, nos carros. Os adultos me olhavam e sorriam. A seus olhos, uma menina falando sozinha era uma visão adorável. Mas não o é, Ben. Não é adorável estar sozinho, nem de menino, nem de velho. Durante anos me perguntei como eram outros meninos, se tinham os mesmos pesadelos que eu, se se sentiam tão desgraçados como eu. Quem diz que a infância é a época mais feliz da vida é um mentiroso ou um estúpido.

Ben observou sua irmã e lhe sorriu.

— Ou ambas as coisas. — brincou Ben — Seguem unidas.

Sheere se ruborizou.

— Sinto muito. — disse — Falo pelos cotovelos, não é?

— Não. — negou Ben — Eu gosto de escutar você. Além disso, acredito que temos mais em comum do que pensa.

— Somos irmãos. — riu Sheere nervosa — Parece-lhe pouco? Gêmeos! Soa tão estranho!

— Bom, como é costume dizer-se, só podemos escolher nossos amigos, — brincou Ben — a família vem de bandeja.

— Então prefiro que seja meu amigo. — disse Sheere.

Ian se aproximou até eles e comprovou aliviado que ambos os irmãos pareciam estar de bom humor e inclusive se permitiam ao luxo de trocar algumas brincadeiras, o qual, dada a situação, não era pouco.

— Você saberá o que faz. Ian, esta dama quer ser minha amiga.

— Eu não lhe aconselharia. — seguiu a brincadeira Ian — Eu o sou há anos e assim vai. Tomaram uma decisão?

Ben assentiu.

— É o que imagino? — perguntou Ian.

Ben assentiu de novo e desta vez Sheere se juntou a seu gesto afirmativo.

— O que é o que decidiu? — perguntou amargamente a voz do Aryami Bosé em suas costas.

Os três jovens se voltaram e descobriram a silhueta da anciã, imóvel nas sombras atrás da soleira. Um tenso silêncio pairou entre eles.

— Não tomaremos esse trem amanhã, avó. — respondeu serenamente Sheere — Nem Ben, nem eu.

Os olhos da anciã percorreram um a um, abrasadores.

— As palavras de uns remelentos inconscientes têm feito você esquecer em uns minutos tudo o que lhe ensinei em anos? — recriminou Aryami.

— Não, avó. É minha própria decisão. E nada no mundo a vai mudar.

— Você fará o que eu disser. — cortou Aryami, embora o aroma da derrota impregnava cada uma de suas palavras.

— Senhora... ― começou Ian cortesmente.

— Se cale, filho. — espetou Aryami com renovada frieza.

Ian reprimiu seus desejos de replicar e baixou o olhar.

— Avó, não pegarei esse trem. — disse Sheere — E sabe.

Aryami contemplou sua neta das sombras, sem pronunciar uma só palavra.

— Estarei esperando-os na estação do Howrah, ao amanhecer. — disse finalmente a anciã.

Sheere suspirou e Ben percebeu como seu semblante se acendia de novo. Ben segurou um braço e lhe indicou que não continuasse a discussão. Aryami se voltou e lentamente seus passos se perderam no interior da casa.

— Não posso deixar que fique assim. — murmurou Sheere.

Ben assentiu e soltou o braço de sua irmã, que seguiu Aryami até a sala, onde a anciã se sentou em frente à luz das velas. Aryami não se voltou e permaneceu imóvel, ignorando a presença de sua neta. Sheere se aproximou dela e a rodeou brandamente com seus braços.

— Aconteça o que acontecer, avó. — disse — Eu gosto de você. Aryami acatou em silêncio e escutou os passos de Sheere, afastar-se de novo para o pátio, enquanto as lágrimas afloravam a seus olhos. No exterior, Ben e Ian aguardaram a volta de Sheere e a receberam com o semblante mais otimista que conseguiram compor.

— Aonde vamos agora? — perguntou Sheere, seus olhos molhados pelas lágrimas e as mãos tremendo.

— Ao melhor recanto de Calcuta — respondeu Ben — o Palácio da Meia-noite.

As últimas luzes da tarde começavam a empalidecer quando Isobel vislumbrou a estrutura fantasmagorica e angulosa da antiga estação do Jheeter’s Gate emergindo entre as brumas do rio como a miragem de uma sinistra catedral que tinha perecido vitima das chamas. A moça conteve a respiração e se deteve a contemplar a arrepiante visão do denso vigamento de centenas de vigas de aço, arcos e abóbadas sobrepostas, em um labirinto insondável de metal e vidro estilhaçado pelo fogo. Uma antiga ponte em ruínas e totalmente em desuso cruzava o rio até ao pórtico da estação, na outra margem, aberto tal como a negra boca de um dragão imóvel e espectador, cujas infinitas fileiras de presas longas e afiadas se desvaneciam nas trevas de seu interior.

Isobel caminhou para a ponte que conduzia até ao Jheeter’s Gate e caminhou pelos antigos trilhos que o sulcavam, riscando uma via morta para aquele mausoléu. As madeiras que formavam o estrado da velha estação estavam agora podres e enegrecidos, e o mato selvagem avançava entre eles. A estrutura oxidada da ponte rangia ao seu passo e Isobel não demorou em perceber a presença de pôsteres que proibiam a entrada e avisam do perigo de demolição que se abatia sobre ele. Nenhum trem havia tornado a cruzar o rio sobre aquela ponte e, a julgar pelo seu aspecto desolado e degradado, Isobel supôs que ninguém havia tornado a repará-lo nem sequer a percorrê-lo a pé.

À medida que a zona Leste de Calcuta ia ficando em suas costas e o fantasmagórico quebra-cabeças de aço e sombras do Jheeter’s Gate se elevava frente a ela sob o manto escarlate do crepúsculo, Isobel começou a ficar perturbada, talvez seu propósito de ir a aquele lugar não fosse tão oportuno como tinha estimado a princípio. Uma coisa era representar o papel de aventureira indômita e confiante perante as adversidades, e outra muito diferente, era entrar naquele cenário assustador sem conhecer uma só página do terceiro ato.

Um fôlego vaporoso e impregnado de cinza e cisco que exalavam a baforadas dos túneis ocultos nas entranhas da estação chegou até seu rosto. Era um fedor ácido e penetrante, um aroma que sem motivo aparente Isobel associava com uma velha fábrica enterrada em gases letais e capas de sujeira e óxido. Isobel concentrou o olhar nas primeiras luzes longínquas das barcaças que sulcavam o Hooghly e tratou de conjurar a companhia de seus anônimos navegantes, enquanto percorria o lance da ponte que faltava até a entrada da estação. Quando chegou ao extremo oposto, deteve-se entre os trilhos que entravam no negrume e contemplou o grande paredão de aço. Sobre ele empanadas pelas manchas infligidas pelas chamas, podia apreciar letras lavradas que anunciavam o nome da estação; recordava a entrada de um grande monumento funerário: JHEETER’S GATE. Isobel respirou profundamente e se dispôs a cometer o ato que menos tinha desejado realizar em seus dezesseis anos de vida: penetrar naquele lugar.

 

Seth e, Michael exibiram seu beatífico sorriso de alunos exemplares perante os escrutinadores olhos do Mr. Do Rozio, bibliotecário chefe da sala principal do museu indiano, e suportaram sua misericórdia análise durante vários segundos.

― É o pedido mais absurdo que ouvi em minha vida. — sentenciou Do Rozio — Pelo menos desde a última vez que esteve aqui, Seth.

— Sabe, Mr. Do Rozio, ― improvisou Seth — sabemos que o horário é só pelas manhãs e que o que meu amigo e eu lhe pedimos pode parecer um pouco extravagante...

— Vindo de você, nada é extravagante, jovem. — cortou Do Rozio.

Seth reprimiu um sorriso. No Mr. Do Rozio, as ironias pretendidamente agudas eram sinal inequívoco de debilidade e interesse. Seu nome completo era ignorado pela totalidade da humanidade, com as possíveis exceções de sua mãe e sua esposa, se é que havia na Índia mulher com guelras suficientes para desposar com semelhante exemplar, estandarte do heterogêneo que podia chegar a resultar no gênero humano. Sob seu aspecto de goleiro bibliófilo, Do Rozio possuía um terrível calcanhar de Aquiles: uma curiosidade e uma propensão à fofoca de corte acadêmico, que relegava às mulheres do bazar à condição de simples aficionadas.

Seth e Michael se olharam pela extremidade do olho e decidiram soltar toda a isca.

— Mr. Do Rozio, — começou Seth em tom melodramático — não deveria dizer isto, mas me vejo obrigado a confiar em sua reconhecida discrição: há vários crímes envoltos neste assunto e muito tememos que possam acontecer mais se não colocarmos um ponto final nisso.

Os olhos diminutos e penetrantes do bibliotecário pareceram crescer por uns segundos.

— Estão certos de que Mr. Thomas Carter está ciente disto? — perguntou com severidade.

— Ele nos enviou. — respondeu Seth. Do Rozio os observou de novo, em busca de fissuras em seu semblante que delatassem alguma turva destreza.

— E seu amigo, — soltou Do Rozio apontando a Michael — por que não fala alguma vez?

— É muito tímido, senhor. — explicou Seth. Michael assentiu fracamente, como se quisesse confirmar esse extremo. Do Rozio pigarreou, dúbio.

— Diz que há crímes pelo meio? — deixou cair com estudado desinteresse.

― Assassinatos, senhor. — confirmou Seth — Vários.

Do Rozio olhou seu relógio e, depois de meditar uns segundos e dirigir olhadas alternadas aos jovens e à esfera, encolheu os ombros.

― Está bem. — concordou. ― Mas será a última vez. Como se chama esse homem de que querem saber?

— Lahawaj Chandra Chatterghee, senhor. — se apressou a responder Seth.

— O engenheiro? — perguntou Do Rozio — Não morreu no incêndio do Jheeter’s Gate?

— Sim, senhor. — explicou Seth — Mas havia alguém com ele que não morreu. Alguém muito perigoso. Alguém que provocou o incêndio. Alguém que segue aí, disposto a cometer novos crímes...

Do Rozio sorriu com malícia.

— Soa interessante. — murmurou. Repentinamente uma sombra de alarme assaltou o bibliotecário. Do Rozio inclinou sua considerável massa à volta dos dois jovens e assinalou com u gesto terminante.

— Tudo isto não será uma invenção desse seu amigo, não? — inquiriu — Como se chama?

— Ben não sabe nada disto, Mr. Do Rozio. ― tranqüilizou Seth — Faz meses que não o vemos.

— Melhor assim, — sentenciou Do Rozio — me sigam.

 

Isobel entrou com passos temerosos no interior da estação e deixou que suas pupilas se aclimassem às trevas que mascaravam o lugar. Sobre ela, a dezenas de metros, abria-se a abóbada principal, formada por largas arcadas de aço e vidro. A grande maioria das lâminas de vidro se fundiram sob as chamas ou simplesmente tinha estalado pulverizando uma chuva de fragmentos ardentes sobre toda a estação. A luz do entardecer se filtrava entre as frestas de metal escurecido e os cacos de vidro que tinham sobrevivido à tragédia. As plataformas se perdiam na escuridão desenhando uma suave curva sob a grande abóbada, sua superfície coberta com os restos dos bancos queimados e as vigas desprendidas do teto.

O grande relógio que um dia se elevou na plataforma central tal como um farol na entrada de um porto se erguia agora como um sentinela sombrio e mudo. Isobel cruzou sob a esfera do relógio e advertiu que as agulhas se dobraram gelatinosamente para o chão e formavam línguas de chocolate fundido que indicavam para sempre a hora do horror que tinha devorado a estação.

Nada parecia ter tocado naquele lugar, exceto pelo rastro dos anos de sujeira e o efeito das chuvas que o manto torrencial da monção tinha filtrado através dos respiradouros e as gretas da abóbada.

Isobel se deteve para contemplar a grande estação do centro e acreditou estar no interior de um grande templo submerso, infinito e insondável.

Uma nova baforada de ar quente e úmido cruzou a estação e agitou seus cabelos no ar, ao mesmo tempo em que arrastava pequenas fibras de sujeira sobre as plataformas. Isobel sentiu um calafrio e examinou as negras bocas dos túneis que entravam na terra no extremo da estação. Teria desejado ter os outros membros da Chowbar Society junto a ela agora, justo quando os acontecimentos adquiriam uma aparência pouco recomendável e excessivamente parecida às histórias que Ben sentia prazer em inventar para suas veladas no Palácio da Meia-noite. Isobel apalpou seu bolso e tirou o desenho que Michael tinha feito de todos os membros da Chowbar Society, posando perante um lago onde seus rostos se refletiam. Isobel sorriu ao ver-se retratada pelo lápis do Michael e se perguntou se era assim como ele a via na realidade. Sentia falta deles.

Então escutou pela primeira vez, distante e enterrado no murmúrio das correntes de ar que percorriam aqueles túneis. Era o som de vozes longínquas, semelhantes ao que recordava ter ouvido da gritaria de uma multidão quando entrou no Hooghly anos atrás, o dia em que Ben a ensinou a mergulhar. Mas desta vez, Isobel teve a certeza de que não eram as vozes dos peregrinos, as que pareciam aproximar-se do mais profundo dos túneis. Eram as vozes de meninos, centenas deles. E uivavam de terror.

Do Rozio acariciou com precisão os três cilindros consecutivos que constituíam sua régia papada e examinou de novo a pilha de documentos, recortes e papéis inclassificáveis que tinha reunido em várias expedições ao espaço digestivo da biblioteca alexandrina do museu indiano. Seth e Michael o observavam ansiosos e espectadores.

— Bem. — começou ― Isto de ser bibliotecário é mais complicado do que parece. Há muita informação a respeito desse tal Lahawaj Chandra Chatterghee em diferentes entradas. A maioria da documentação que vi parecia reiterativa e pouco significativa, mas faria falta pelo menos uma semana para pôr um pouco de ordem nos papéis desse sujeito.

— O que encontrou, senhor? — perguntou Seth.

— De tudo um pouco, na verdade. — explicou Do Rozio — Mr. Chandra era um brilhante engenheiro, ligeiramente adiantado em seu tempo, idealista e obcecado por deixar a este país um legado que compensasse as pessoas pobres das desgraças que ele atribuía ao domínio e exploração dos britânicos. Não muito original, francamente. Em resumo: reunia todos os requisitos para converter-se em um autêntico desgraçado. Mesmo assim, parece que semeou um mar de invejas, complôs e manobras para acabar com sua carreira e conseguiu chegar a convencer o governo de que financiasse o que era seu sonho dourado: a construção da linha de ferrovia que uniria as principais capitais da nação com o resto do continente. Chandra acreditava que, deste modo, o monopólio comercial e político que se iniciou nos tempos de Lorde Clive e a companhia, com o tráfico fluvial e marítimo, teria os dias contados e que seriam as pessoas da Índia as que lentamente recuperariam o controle sobre a riqueza de seu próprio país. O certo é que não fazia falta ser engenheiro para compreender que isso não ia ser assim.

— Há algo a respeito de um personagem chamado Jawahal? — perguntou Seth — Era um amigo de juventude do engenheiro. Celebraram-se vários julgamentos contra ele. Casos famosos, acredito.

— Deve estar em algum lugar, filho, mas há muitos documentos por classificar. Por que não voltam daqui a umas duas semanas? Então terei tido a oportunidade de pôr um pouco de ordem em toda esta balbúrdia.

— Não podemos esperar duas semanas, senhor. — disse Michael.

Do Rozio observou surpreso o rapaz. — Uma semana? —ofereceu Do Rozio.

— Senhor, — disse Michael — é um assunto de vida ou morte. A vida de duas pessoas corre perigo.

Do Rozio contemplou o intenso olhar do Michael e assentiu, vagamente aturdido. Seth não deixou escapar um segundo.

— Nós o ajudaremos a procurar e ordenar, senhor. — se ofereceu.

— Vós? — perguntou — Não sei... Quando?

— Agora mesmo. — replicou Michael.

— Conhecem o código de cifrado das fichas da biblioteca? — Interrogou Do Rozio.

— Como o alfabeto. — mentiu Seth.

 

O Sol submergiu como um grande globo sangrento atrás das vidraças destruídas do painel leste do Jheeter’s Gate e em poucos segundos Isobel assistiu ao hipnótico espetáculo de centenas de lâminas horizontais de luz escarlate brocando a penumbra da estação. O som daquelas vozes uivantes foi crescendo, e logo Isobel as escutou ressoar. no eco da grande abóbada. O solo começou a vibrar sob seus pés e a moça percebeu que alguns estilhaços de vidro se precipitavam do teto. Isobel sentiu uma pontada no antebraço esquerdo e levou a mão ao ponto onde tinha recebido o impacto. Seu sangue morno lhe escorregou entre os dedos. Correu para o extremo da estação, protegendo o rosto com as mãos.

Uma vez sob o abrigo de uma escada que subia para os níveis superiores, descobriu ante si uma ampla sala de espera cujos bancos de madeira queimada jaziam abatidos sobre o chão. Os muros estavam cobertos por estranhas pinturas riscadas cruamente com as mãos, figuras que pareciam querer representar formas humanas deformadas e demoníacas que elevavam longas garras de lobos e possuíam um olhar exagerado. A vibração sob seus pés era agora muito intensa e Isobel se aproximou da entrada do túnel. Uma intensa baforada de ar ardente lhe abrasou o rosto e esfregou os olhos, incapaz de acreditar o que estava vendo.

Uma locomotiva de luz envolta em chamas emergia do mais profundo do túnel e cuspia com fúria círculos de fogo que o percorriam como balas de canhão e estalavam em aros de gás incandescente. Isobel se lançou ao chão e o trem de fogo cruzou a estação com um estrondo ensurdecedor do metal contra o metal e dos alaridos de centenas de meninos que gritavam apanhados entre as chamas. Manteve-se estendida, com os olhos fechados, paralisada pelo terror, até que o som do trem se desvaneceu no ar.

Elevou a cabeça e olhou a seu redor. A estação estava deserta e coberta de uma nuvem de vapor que subia lentamente e se prendia na cor vermelha intensa das últimas luzes do dia. Frente a ela, a escassos dois palmos, estendia-se uma poça de uma substância escura e viscosa que brilhava à luz do crepúsculo. Por um momento, a moça acreditou ver sobre sua superfície o reflexo do rosto luminoso e triste de uma dama envolta em luz que a chamava. Estendeu uma mão até ela e impregnou a ponta de seus dedos naquele fluido espesso e quente. Sangue. Retirou a mão repentinamente e limpou os dedos sobre seu próprio vestido, enquanto a visão daquele rosto espectral se desvanecia. Ofegando, arrastou-se até a parede e se recostou contra ela para recuperar o fôlego.

Decorrido um minuto, Isobel se levantou e examinou a estação. As luzes do entardecer se estavam extinguindo e logo se abateria a noite fechada. Naquele preciso instante só havia um pensamento claro em sua mente: não queria esperar aquele momento no interior do Jheeter’s Gate. Começou a caminhar nervosamente para o pórtico de saída e só então descobriu a uma silhueta fantasmagórica que avançava para ela entre a neblina que cobria as plataformas da estação. A figura levantou uma mão e Isobel viu que seus dedos ardiam em chamas, iluminando seu passo. Naquele momento compreendeu que não ia sair dali tão facilmente como tinha entrado.

 

Através do telhado arrebentado do Palácio da Meia-noite podia-se contemplar o céu noturno semeado de estrelas, um mar infinito de pequenas velas brancas. O anoitecer levou consigo parte do calor abrasador que tinha castigado a cidade desde o amanhecer, mas a brisa que acariciava timidamente as ruas da cidade negra era apenas um suspiro morno e impregnado da umidade noturna que exalava do rio Hooghly.

Enquanto esperavam a chegada dos membros restantes da Chowbar Society, Ian, Ben e Sheere consumiam os minutos lânguidamente, entre as ruínas do velho casarão, cada qual perdido em seus próprios pensamentos.

Ben tinha optado por deslocar-se para seu retiro predileto, uma viga nua que cruzava horizontalmente o paredão frontal da estrutura do Palácio. Sentado no centro exato de seu percurso, com as pernas penduradas, Ben costumava subir até sua vigia solitária para contemplar as luzes da cidade, as silhuetas dos palácios e os cemitérios que flanqueavam o sinuoso percurso do Hooghly através de Calcuta. Estava acostumado a passar horas ali em cima, sem falar ou incomodar-se em voltar olhar a terra firme apenas por um segundo. Os membros da Chowbar Society respeitavam esse hábito, um a mais na peregrina coleção de raridades com que Ben enfeitava sua conduta, e tinham aprendido a conviver com as prolongadas melancolias que vinham associadas inequivocamente após sua descida dos céus.

Ian observou de soslaio seu amigo do pátio do Palácio e decidiu lhe permitir desfrutar de um de seus últimos retiros espirituais; enquanto, ele retornou à tarefa com a qual tinha estado ocupando seu tempo e o da Sheere durante a última hora: tratar de explicar à moça os rudimentos do xadrez fazendo uso de um tabuleiro que a Chowbar Society dispunha em sua sede central. As peças estavam reservadas aos campeonatos anuais que se celebravam em dezembro, os quais, invariavelmente, ganhava Isobel, fazendo gala de uma superioridade a raiar o insultante.

— Há duas teorias em relação à estratégia do xadrez. — explicou Ian — Em realidade há milhares, mas só há um par que realmente contem. A primeira diz que a chave do jogo está na segunda fileira de peças: rei, cavalo, torre, rainha, etc. Segundo esta teoria, os peões não são mais do que peças que se têm que sacrificar enquanto se desenvolve a tática. A segunda teoria, em troca, defende que os peões podem e devem ser as mais letais peças de ataque e que uma estratégia inteligente deve empregá-los como tais se quer sair vitoriosa. Para mim, a verdade. Não funciona nenhuma das duas teorias, mas Isobel é uma ardente defensora da segunda.

A menção a sua companheira trouxe de novo a seu pensamento a inquietação a respeito de seu paradeiro. Sheere percebeu sua expressão perdida e o resgatou com uma nova questão a respeito do Jogo.

— Qual é a diferença entre tática e estratégia? — perguntou — É uma questão puramente técnica?

Ian pensou na pergunta de Sheere e suspeitou que não tinha resposta.

— É uma diferença literária, não real. — afirmou a voz do Ben das alturas — A tática é o conjunto de pequenos passos que dá para chegar a algum sítio. A estratégia são os passos que dá quando já não há nenhum lugar para onde ir.

Sheere elevou a vista e sorriu a Ben. — Joga xadrez, Ben? — perguntou Sheere. Ben não respondeu.

— Ben deplora o xadrez. — explicou Ian — Segundo ele, é a segunda forma mais inútil de desperdiçar a inteligência humana.

— E qual é a primeira? — perguntou Sheere, divertida.

— A filosofia — respondeu Ben desde sua vigia.

— Ben dixit, — sentenciou Ian —. por que não desce já, Ben? Os outros devem estar chegando.

— Esperarei. — disse Ben, retornando a seu lugar entre as nuvens.

Ben não desceu até meia hora mais tarde, quando Ian estava envolvido na explicação do salto do cavalo e Roshan e Siraj apareceram pela soleira do pátio do Palácio da Meia-noite. Pouco depois, Seth e Michael também apareceram e todos se reuniram em círculo à luz de uma pequena fogueira que improvisou Ian com os últimos restos de lenha seca que guardavam em uma nave coberta e protegida das chuvas na parte de trás do Palácio. Os rostos dos sete jovens adquiriram uma cor acobreada pelo fogo enquanto Ben passava uma garrafa com água que, se não estava fresca, ao menos não era portadora de febres letais.

— Não esperamos a Isobel? — perguntou Siraj, visivelmente inquieto pela ausência do objeto de seu encantamento unidirecional.

— Talvez não venha. — disse Ian.

Todos o olharam em uníssono, perplexos. Ian explicou sucintamente sua conversa com a Isobel aquela mesma tarde e comprovou que os rostos de seus amigos se foram escurecendo. Quando tinha finalizado, recordou-lhes que Isobel tinha indicado que, com ou sem sua presença, deviam contar suas averiguações e passou a oferecer o primeiro turno, a quem desejasse fazer uso dele.

— Está bem. — disse Siraj nervoso — Explicarei o que nós averiguamos e um segundo depois sairei para procurar Isobel. Só dessa cabeça poderia ocorrer sair em excursão noturna esta noite, só e sem dizer aonde ia.

— Como pudeste deixá-la ir, Ian?

Roshan saiu em ajuda do Ian e colocou sua mão sobre o ombro do Siraj. ― Não se discute com Isobel recordou Roshan. Escute. Explica o hieróglifo e logo vamos os dois procurar por ela.

— Hieróglifo? — perguntou Sheere.

Roshan assentiu.

— Encontramos a casa, Sheere — explicou Siraj — Melhor dizendo, sabemos onde está.

O rosto de Sheere se iluminou súbitamente e seu coração começou a pulsar com força. Os rapazs se aproximaram do fogo e Siraj extraiu uma folha de papel em que apareciam copiados uns versos na inconfundível caligrafia do débil rapaz.

— Mas como? — perguntou Seth.

—Um poema. — repôs Siraj.

— Lê-o. — Indicou Roshan.

 

"A cidade que amo é escura e profunda.

Casa de misérias, lar de espíritos malditos a quem ninguém abre as suas portas nem o coração.

A cidade que amo vive no crepúsculo, sombra de maldade e glórias esquecidas de fortunas vendidas e almas em penúria.

A cidade que amo não ama ninguém nem conhece repouso, torre içada ao inferno incerto de nosso destino, do enfeitiço de uma condenação escrita em sangue, grande baile de enganos e infâmias, bazar de minha tristeza..."

 

Os sete jovens ficaram em silêncio depois da leitura do poema e por um segundo só o som do fogo e a voz longínqua da cidade assobiaram no vento.

— Conheço esses versos. ― murmurou Sheere — Pertencem a um dos livros de meu pai. Vêm ao final de meu conto favorito, a história das lágrimas de Shiva.

— Exato, — corroborou Siraj — passamos a tarde inteira no Instituto Bengali da Indústria. É um edifício incrível, quase em ruínas, que empilha pisos e pisos de arquivos e salas enterradas em pó e lixo. Havia ratos e estou certo de que se fôssemos de noite poderíamos averiguar que algo, se esconde...

— nos cingimos ao essencial, Siraj — cortou Bem — Por favor.

— De acordo. — conveio Siraj deixando para outro momento seu entusiasmo pelo misterioso lugar —. Em essência, depois de horas de investigação (que não vou contar, visto o clima), demos com um dossiê de documentos que pertenceu a seu pai e que estava sob a custódia do Instituto desde 1916, data do acidente do Jheeter’s Gate. Entre eles havia um livro autografado por ele e, embora não nos nos permitissem traze-lo, pudemos examiná-lo. E tivemos sorte.

— Não vejo no que. — objetou Ben.

— Você deveria ser quem antes o viu. Junto ao poema, alguém, suponho que o pai de Sheere, tinha desenhado a planta de uma casa — replicou Siraj com um sorriso misterioso enquanto lhe estendia o papel com o poema —

Ben examinou os versos e encolheu os ombros.

— Não vejo mais que palavras. — disse finalmente.

— Está perdendo faculdades, Ben. Lástima que Isobel não esteja aqui para vê-lo — brincou Siraj — Lê de novo. Com atenção.

Ben seguiu as instruções e franziu o cenho. — Rendo-me. Estes versos não têm quadradura ou estrutura aparente. É só prosa atalho a capricho.

— Exato — corroborou Siraj. E qual é a norma desse capricho? Dito de outro modo, por que corta os versos no ponto em que o faz se poderia escolher qualquer outro?

— Para separar palavras? — aventurou Sheere.

— Ou para as unir... ― murmurou Ben para si.

— Toma a primeira palavra de cada verso e constrói uma frase. — Indicou Roshan.

Ben observou de novo o poema e olhou a seus companheiros.

— Lê — Indicou Siraj só a primeira palavra.

— «A casa à sombra da torre do grande bazar» — leu Ben.

— Existem pelo menos seis bazares só no Norte de Calcuta. ― Indicou Ian.

— Quantos deles têm uma torre capaz de projetar uma sombra que chegue até as casas edificadas ao redor? — perguntou Siraj.

— Não sei. — respondeu Ian.

— Eu sim. — repôs Siraj — Dois: o Syambazaar e o Machuabazaar, a norte da cidade negra.

— Mesmo assim, — Indicou Ben — a sombra que uma torre pode desenhar durante um dia se pulverizaria ao longo de um leque de um mínimo de 180 graus, trocando a cada minuto. Essa casa poderia estar em qualquer lugar do Norte de Calcuta, que é o mesmo que dizer em qualquer lugar da Índia.

— Um momento. — interrompeu Sheere — O poema fala do crepúsculo. Diz textualmente «A cidade que amo vive ao crepúsculo».

— Comprovou isso? — perguntou Ben.

— É obvio. — respondeu Roshan — Siraj foi ao Syambazaar e eu, ao Machuabazaar, uns minutos antes que se pusesse o Sol.

— E bem? — apressaram todos.

— A sombra da torre do Machuabazaar se perde em um antigo armazém abandonado. — explicou Siraj.

— Roshan? — perguntou Ian.

O rapaz sorriu, pegou um pau meio queimado da fogueira e riscou a silhueta de uma torre sobre os restos de cinza.

— Como a agulha de um relógio, a sombra da torre do Syambazaar acaba nas portas de uma ampla grade metálica, atrás há um espesso pátio de palmeiras e mato. Sobre as copas das palmeiras pude entrever a atalaia de uma casa.

— Isso é fantástico! — exclamou Sheere.

Ben, entretanto, não deixou de advertir a expressão inquieta que parecia haver-se apoderado do rosto do Roshan.

— Qual é o problema, Roshan? — perguntou Ben.

Roshan negou lentamente e encolheu os ombros.

— Não sei — respondeu — Havia algo nessa casa que eu não gostei.

— Viu algo? — perguntou Seth. Roshan negou. Ian e Ben se olharam por um tempo, sem pronunciar palavra.

— Ocorreu a alguém pensar que tudo isto poderia não ser mais do que uma armadilha? ― perguntou Roshan.

Ian e Ben trocaram de novo um olhar tácito e assentiram. Ambos estavam pensando o mesmo.

— Arriscaremo-nos. — disse Ben, camuflando sua voz com todo o convencimento que foi capaz de fingir.

 

Aryami Bosé acendeu de novo o fósforo e o aproximou do extremo da vela branca que jazia frente a ela. A luz piscante da chama tingiu de contornos incertos a escura sala enquanto suas mãos trementes a aproximavam do círio. A vela fixou lentamente e uma aura de claridade se pulverizou em torno dela. A anciã soprou sobre o fósforo e a pequena vara de madeira se extinguiu desprendendo um espectro de fumaça azulada que subiu lentamente para a penumbra. O suave roçar de uma corrente de ar lhe acariciou os cabelos da nuca e Aryami se voltou. Uma baforada de ar, fria e impregnada de um fedor ácido e penetrante, agitou seu manto e extinguiu a chama da vela. A escuridão a envolveu de novo e a anciã escutou dois golpes secos sobre a porta da casa. Aryami apertou os punhos e observou que os contornos da soleira filtravam uma tênue claridade avermelhada. A chamada se repetiu, desta vez com mais força. A anciã sentiu como um fio de suor frio aflorava aos poros de seu corpo.

— Sheere? — chamou fracamente.

O som de sua voz se extraviou em um eco mortiço na escuridão da casa. Não houve resposta e, segundos depois, os dois golpes se repetiram uma vez mais.

Aryami apalpou às cegas o suporte sobre o lar no qual os restos moribundos de algumas brasas desprendiam da única claridade que lhe servia de guia. Derrubou vários objetos até que seus dedos apalparam a larga capa metálica da adaga que guardava ali. Tirou a arma e observou o brilho dourado da folha serpentear à luz das brasas. Uma pontada de luz apareceu sob a porta da casa. Aryami inspirou profundamente e se dirigiu lentamente para ali. Deteve-se frente à porta e escutou o som do vento entre as folhas da mata do pátio no exterior.

— Sheere? — sussurrou de novo, sem obter resposta.

Segurou com força o cabo da adaga e, suavemente, pousou sua mão esquerda sobre o pomo da porta fazendo-o girar para baixo. Os gemidos ferrugentos do mecanismo da fechadura despertaram depois de anos de letargia. A porta se abriu lentamente e a claridade azulada do céu noturno desenhou um leque de luz no interior da casa. Não havia ninguém ali fora. A mata se agitava em muitas centenas de pequenas folhas secas, emitindo um murmúrio hipnótico. Aryami começou lentamente a olhar para um e outro lado da porta, mas o pátio estava deserto. Foi então quando suas pernas tocaram em algo e a anciã desceu seu olhar, para descobrir um pequeno cesto a seus pés. Examinou o cesto, coberto com um véu opaco que, entretanto, permitia observar a claridade que emanava de seu interior.

Aryami se ajoelhou junto a ele e afastou suavemente o véu que o cobria.

Em seu interior encontrou duas pequenas figuras de cera que representavam os corpos nus de dois bebês. De suas cabeças emergia a ponta de um filamento de tecido aceso e ambas as efígies se fundiam ao igual a velas em um templo. Um calafrio lhe percorreu o corpo. Aryami empurrou o cesto e o deixou cair pelos degraus de pedra quebrada. Levantou-se e se dispôs a entrar de novo na casa quando percebeu que, do comprido corredor que conduzia ao outro extremo de sua casa, pasadas invisíveis em chamas se aproximavam dela. A anciã sentiu que a adaga lhe escapava por entre os dedos e fechou a porta com força.

Desceu os degraus atropeladamente, sem atrever-se a voltar as costas à porta, e tropeçou com o cesto que segundos antes tinha arrojado. Caida no chão, Aryami contemplou boquiaberta que uma língua de chamas emergia sob a soleira da porta e a madeira envelhecida queimava como um pergaminho. A anciã se arrastou uns metros até a mata e se levantou atrapalhadamente, enquanto observava impotente como as chamas foram aparecendo pelas janelas da casa e envolviam a estrutura em um laço letal.

Aryami correu para a rua e não parou para olhar para trás até se encontrar a uma centena de metros daquela que tinha sido sua casa. Uma pira de chamas se elevava, cuspindo ao céu brasas e cinzas candentes com fúria. Lentamente, as pessoas do bairro apareceram a suas janelas e saíram às ruas, alarmadas, para contemplar a magnitude do incêndio que em apenas uns segundos tinha ganhado vida. Aryami escutou o estrondo do teto ao paralisar-se e cair, perto do fogo. Os rostos da multidão aglomerada se iluminaram com a força de um relâmpago escarlate enquanto olhavam atônitos uns aos outros, sem compreender o que tinha acontecido.

Aryami Bosé derramou lágrimas de amargura pelo que tinha sido seu lar de juventude, o lar onde tinha dado a luz a sua filha e, perdendo-se na confusão das ruas de Calcuta, disse-lhe adeus para sempre.

Determinar a localização exata da casa não foi complicado seguindo as instruções que oferecia o criptograma que Siraj tinha decifrado.

Segundo tais indicações, convenientemente confirmadas com a observação de campo que Roshan tinha-se procedido a efetuar, a casa do engenheiro Chandra Chatterghee estava situada em uma tranqüila rua que unia Jatindra Mohan Avenue e Acharya Profullya Road, aproximadamente uma milha a norte do Palácio da Meia-noite.

Logo que Siraj havia comprovado que o fruto de suas investigações tinha sido corretamente assimilado por seus companheiros, manifestou seu urgente desejo de não perder um minuto mais e sair em busca de Isobel. As tentativas que todos fizeram por o tranqüilizar e lhe sugerir que esperasse pela segura volta da moça não sortiram efeito algum e, finalmente, cumprindo sua promessa, Roshan se ofereceu para acompanhá-lo. Ambos partiram na noite após terem combinado encontrarem-se de novo na casa do engenheiro Chandra Chatterghee assim que tivessem notícias do Isobel.

— O que puderam averiguar vós dois? —perguntou Ian dirigindo-se a Seth e Michael.

— Eu gostaria de poder oferecer resultados tão espetaculares como Siraj, mas o certo é que nos encontramos num autêntico emaranhado de fios — respondeu Seth, e começou a explicar sua visita ao Mr. Do Rozio, a quem tinham deixado investigando no museu sob a promessa de voltar em algumas horas para continuar o ajudando.

— O que averiguamos até agora não fez mais que confirmar a história que a avó de Sheere, perdão, sua avó, explicou. Ao menos em parte. — explicou Seth.

— Há algumas lacunas na história do engenheiro que não será fácil cobrir. — disse Michael.

— Exato. — condordou Seth — É mais, acredito que o mais interessante não é o que averiguamos, mas o que não pudemos averiguar.

— Se explique — solicitou Ben.

— Verão. — continuou Seth esfregando as mãos frente ao fogo. ― A história do engenheiro Chandra começa a estar documentada com seu ingresso no Instituto Oficial de Indústria. Há documentos que confirmam que recusou várias ofertas do governo britânico para trabalhar ao serviço do exército na construção de pontes militares e de uma linha de ferrovia que tinha que unir Bombay e Delhi para uso exclusivo da armada.

— Aryami explicou a aversão que sentia para com os britânicos. — comentou Ben — Culpava-os de boa parte dos males que assolavam o país.

— Assim é. — confirmou Seth — Mas o curioso é que, apesar da sua aberta antipatia, da qual não faltam manifestações públicas, Chandra Chatterghee participou de um estranho projeto do governo militar britânico entre os anos 1914 e 1915, um ano antes de morrer na tragédia do Jheeter’s Gate. Tratava-se de um assunto secreto que respondia a um nome curioso: o Pássaro de Fogo.

Sheere arqueou as sobrancelhas e se aproximou do Seth com gesto consternado.

— O que era o Pássaro de Fogo? — perguntou.

— É difícil determiná-lo. — respondeu Seth — Mr. Do Rozio opina que talvez poderia tratar-se de um experimento militar. Parte da correspondência oficial que aparecia nos documentos do engenheiro, vinha assinada por um tal Coronel Sir Arthur Hewelyn que, segundo Do Rozio, ostentou a duvidosa honra de ser o chefe das forças responsáveis por reprimir as mobilizações pacíficas em demanda de independência no período de 1905 a 1915.

— Ostentou? — interveio Ben.

— Isso é o mais curioso. — esclareceu Seth — Sir Arthur Hewelyn, açougueiro oficial de Sua Majestade, pereceu no incêndio do Jheeter’s Gate. O que é o que fazia ali é um mistério.

Os cinco jovens se olharam entre eles perdidos em muita confusão.

— Tratemos de pôr um pouco de ordem. — sugeriu Ben — Temos por um lado um brilhante engenheiro que recusa repetidamente generosas ofertas do governo britânico para trabalhar a seu serviço em obras públicas, devido a seu manifesto ódio para o domínio colonial. Até aí tudo tem sentido. Mas de repente aparece este misterioso coronel e o envolve em uma operação que, claramente, lhe deveria ter revolto as vísceras de asco: uma arma secreta, um experimento para reprimir multidões. E ele aceita. Não encaixa. A menos...

— A menos que o tal Hewelyn possuísse um poder persuasivo fora do comum. — completou Ian.

Sheere elevou as mãos em sinal de protesto.

— É impossível que meu pai aceitasse participar de um projeto militar de qualquer tipo. Nem ao serviço dos britânicos nem ao serviço dos bengalíes. Meu pai detestava os militares e os considerava meros valentões a soldo de governos corruptos. Nunca teria emprestado seu talento para algo dirigido a matar em massa a sua própria gente.

Seth a observou em silêncio e calibrou cuidadosamente suas palavras.

— Entretanto, Sheere, há documentos que creditam que de algum modo ele participou. — disse Seth.

— Deve haver outra explicação. — replicou Sheere — Meu pai construía coisas e escrevia livros, não era um assassino de inocentes.

— Idealismos à parte, seguro que há outra explicação, — matizou Ben — e isso é o que estamos tentando encontrar. Voltemos para o tema dos poderes persuasivos do Hewelyn. O que poderia ter feito ele para obrigar o engenheiro a colaborar?

— Provavelmente sua força não estava no que podia fazer, — explicou Seth ― mas no que podia deixar de fazer.

— Não compreendo. — disse Ian.

— Esta é minha teoria. — expôs Seth — Em todo o histórico do engenheiro não encontramos uma só menção ao Jawahal, seu amigo de juventude, exceto em uma carta do coronel Hewelyn dirigida ao engenheiro Chandra e selada em novembro de 1911. Nela nosso amigo o coronel acrescenta um pós-escrito em que sucintamente sugere que, se Chandra declinar o convite de participar no projeto, ver-se-à obrigado a oferecer o posto a seu velho amigo Jawahal. O que eu penso é o seguinte: o engenheiro tinha conseguido ocultar sua relação de juventude com o Jawahal, agora encarcerado, e desenvolver sua carreira sem que ninguém soubesse do encobrimento que lhe tinha devotado. Mas suponhamos que o tal Hewelyn se encontrou com o Jawahal na prisão e este lhe teria revelado a verdadeira natureza de sua relação. Isto o poria em uma excelente situação para chantageá-lo e lhe obrigar a colaborar.

— Como sabemos que Hewelyn e Jawahal se conheciam? — questionou Ian.

— É somente uma hipótese, mas não muito aventurada. — sugeriu Seth — Sir Arthur Hewelyn, coronel do exército britânico, decide solicitar a ajuda de um brilhante engenheiro. Este se nega. Hewelyn investiga e descobre um nebuloso julgamento no passado que o envolve. Decide ir visitar o Jawahal e este lhe explica o que desejava ouvir. É simples.

— Não posso acreditar. — disse Sheere.

— Às vezes a verdade é o mais difícil de acreditar. Lembra o que disse Aryami. — comentou Ben — Mas não nos precipitemos. Continua Do Rozio investigando o tema?

— Neste mesmo momento sim. — replicou Seth — A quantidade de papéis é tal que necessitaria de um exército de ratos de biblioteca para tirar algo em concreto.

— Defendeste-los bastante bem. —ofereceu Ian.

— Não esperávamos por menos. — Indicou Bem — Voltem para perto do bibliotecário e não o percam de vista nem um segundo. Há algo em tudo isto que nos escapa.

— O que ides fazer vocês? — perguntou Michael conhecendo a resposta de antemão.

— Iremos à casa do engenheiro. — respondeu Bem — Talvez o que procuramos esteja ali.

— Talvez haja outra coisa... — indicou Michael.

Ben sorriu. — Como disse, correremos o risco.

Sheere, Ian e Ben chegaram ao pé da grade que guardava a casa do engenheiro Chandra Chatterghee pouco antes da meia-noite. Olhando para o Este, a silhueta angulosa da estreita torre do Syambazaar se recortava na esfera da Lua e projetava sua sombra desenhando uma agulha negra e afiada para o insondável jardim de palmeiras e arbustos selvagens que ocultava aquela enigmática estrutura.

Ben se apoiou sobre as lanças metálicas que formavam a grade e examinou as pontas afiadas e ameaçadoras.

— Terá que pular. — comentou — E não parece fácil.

— Não será necessário. — disse Sheere junto a ele — Nosso pai descreveu cada milímetro desta casa em seu livro antes de construi-la e eu passei anos memorizando cada recanto dela. Se o que escreveu é certo, e não tenho dúvida alguma a esse respeito, atrás desses arbustos há uma pequena lagoa e, mais à frente, eleva-se a casa.

― E o que me diz destas lanças? ― perguntou Bem — Falava também delas? Não queria acabar a noite com um cerzido.

— Há outro modo de entrar nesta casa sem necessidade de pular esta grade. — disse Sheere.

— O que estamos esperando? — perguntaram Ian e Ben ao mesmo tempo.

Sheere os conduziu através de um estreito beco, apenas uma brecha entre a grade da casa e os muros de um edifício de aspecto limitado, até uma abertura circular que parecia servir de deságüe ou coletor principal das tubulações da casa. Um fedor azedo e mordente exalava do interior.

— Por aí? — perguntou Ben incrédulo.

— O que esperava? — atiçou Sheere — Tapetes persas?

Ben observou o interior do túnel de rede de esgoto e o farejou de novo.

— Divino. — concluiu dirigindo-se ao Sheere — Você primeiro.