O segredo do talento: 52 estratégias para desenvolver suas habilidades
Parte 3: Progresso Contínuo
O desenvolvim ento de talentos é com o um a corrida num terreno acidentado: você vai se deparar com desafios, obstáculos e altos e baixos. Para que seu progresso sej a perm anente, é necessário ser flexível num m om ento e intransigente em outro, lidar com os obstáculos im ediatos e, ao m esm o tem po, focar os acontecim entos a longo prazo. Em sum a, estar preparado. As dicas desta seção são ferram entas para aj udá-lo nessa j ornada.
DICA 43
ADOTE A REPETIÇÃO
A repetição não é vista com bons olhos. Geralm ente, acham os chato e desestim ulante ter que fazer a m esm a coisa várias vezes, m as essa percepção é com pletam ente equivocada. A repetição é a alavanca m ais poderosa para desenvolver nossas habilidades, porque nos faz utilizar o m ecanism o interno que aum enta a velocidade e a precisão das conexões produzidas no cérebro (vej a Apêndice).
Em preparação para capturar Osam a bin Laden no Paquistão em m aio de 2011, o Seal Team 6, grupo de elite da Marinha am ericana, construiu, na Carolina do Norte e em Nevada, réplicas em tam anho real do lugar em que o terrorista vivia, fazendo sim ulações do ataque durante três sem anas. E eles repetiram essa operação várias vezes, recriando as condições que poderiam encontrar.
Outro exem plo vem de Moe Norm an, um canadense tím ido que participou brevem ente de torneios de golfe profissional nas décadas de 1960 e 1970 e acabou sendo considerado, na opinião da m aioria dos entendidos, o j ogador de golfe m ais preciso da história. A partir dos 16 anos, ele passou a praticar 800 a m il tacadas por dia, cinco vezes por sem ana. Por conta das questões em ocionais em função do autism o, Norm an tinha dificuldade de participar de cam peonatos. Mas, num a dem onstração em 1995, o golfista deu 1.500 tacadas seguidas. Todas as bolas pararam a um a distância aproxim ada de 13 m etros um as das outras. “Norm an acordava todo dia sabendo que ia acertar. A precisão dele é assustadora”, disse Tiger Woods.
Adotar a repetição significa m udar de m entalidade. Em vez de enxergar esse procedim ento com o um a obrigação, considere-o a ferram enta m ais poderosa que você tem . Bruce Lee disse certa vez: “Não tem o o hom em que praticou m il golpes um a vez, m as aquele que praticou um golpe m il vezes.”
DICA 44
TENHA A MENTALIDADE DE UM OPERÁRIO
Vistas de longe, as pessoas m ais bem -sucedidas de suas áreas parecem ter um a vida confortável. Quando olham os de perto, vem os que passam grande parte do tem po praticando seu ofício, sem arrogância. Elas trabalham com o operários: acordam todo santo dia de m anhã e vão para o trabalho, com ou sem vontade.
Chuck Close, pintor e fotógrafo am ericano, disse: “Viver apenas de inspiração é para am adores.”
DICA 45
PARA CADA HORA DE COMPETIÇÃO,
PASSE CINCO HORAS PRATICANDO
Jogos e cam peonatos são divertidos e em ocionantes, m as tam bém atrasam o desenvolvim ento de habilidades, por quatro m otivos:
1. A presença de outras pessoas dim inui a disposição para enfrentar riscos, o
que nos afasta do ponto ideal.
2. Em j ogos não é possível executar o núm ero adequado de repetições de
qualidade.
3. A pressão gerada nos j ogos distorce as prioridades, o que nos faz aplicar a
técnica com m enos precisão.
4. Os j ogos fazem o aproveitam ento ser determ inado pelo placar, não pelo
aprendizado.
No Spartak, o clube de tênis de Moscou, os treinadores adotam um a regra sim ples: os j ogadores iniciantes devem praticar três anos antes de serem escalados para com petir profissionalm ente (vej a Dica 10). Essa iniciativa reflete a determ inação do Spartak de desenvolver j ogadas seguras e confiáveis antes de lançar os tenistas às pressões severas das com petições.
Com petições são um a ótim a oportunidade para aprender lições valiosíssim as sobre trabalho em equipe e desenvolver controle em ocional, além de serem divertidas. Em m uitos casos, porém , constituem tam bém um a form a bem ineficaz de aprim orar habilidades. O ideal é que essas perform ances em público aconteçam em ocasiões especiais, e não se transform em em rotina. Um a proporção de cinco horas de prática para um a hora de com petição é um bom ponto de partida. Se forem dez em vez de cinco, então, m elhor ainda.
DICA 46
NÃO PERCA TEMPO TENTANDO SE LIVRAR
DE HÁBITOS NEG ATIVOS. EM VEZ DISSO,
DESENVOLVA NOVOS HÁBITOS
Quando tem os hábitos negativos, tentam os nos livrar deles encarando o problem a de frente. Essa tática, evidentem ente, não funciona. É difícil desfazer hábitos. A culpa é do cérebro. Em bora sej a ótim o em estabelecer novas conexões, ele é péssim o em desconstruí-las. Por m ais que tentem os, o hábito ainda fica lá, arraigado no cérebro, esperando pacientem ente pela oportunidade de ser usado.
A solução é ignorar os hábitos negativos e concentrar a energia na construção de novos hábitos que substituam os ruins. Um bom exem plo dessa técnica pode ser encontrado em um estudo feito na Shy ness Clinic, um a em presa de Los Altos, na Califórnia, que aj uda pessoas com tim idez crônica a desenvolver habilidades sociais. Os terapeutas da clínica não investigam a história pessoal dos clientes. O propósito não é “corrigir” nada. Em vez disso, eles se concentram em desenvolver novas habilidades por m eio do que cham am de “m odelo de aptidão social”: um a série de exercícios sim ples e intensos, com níveis crescentes de dificuldade, que aj udam a construir novos “m úsculos” sociais. Um a das prim eiras tarefas que os clientes executam é perguntar as horas a um estranho na rua; no dia seguinte, precisam fazer o m esm o, m as a cinco pessoas. Logo eles j á têm de dar telefonem as ou conversar com um desconhecido no elevador. Depois de alguns m eses, alguns clientes j á estão “socialm ente aptos” para exercícios ainda m ais exigentes.
Para desenvolver novos hábitos, com ece aos poucos. Estej a disposto a se sentir bobo, desaj eitado e frustrado no início, pois as novas conexões ainda não terão sido construídas, e seu cérebro vai querer seguir o padrão antigo. Crie o novo hábito aos poucos, por m eio de um a série de exercícios com nível crescente de dificuldade. Leva tem po, m as é a única form a de alcançar esse obj etivo. Para m ais inform ações sobre esse processo, leia O poder do hábito, de Charles Duhigg.
DICA 47
PARA REFORÇAR O APRENDIZADO, ENSINE
Tem os a tendência natural de separar as pessoas que estão aprendendo em grupos, com base na idade e no nível intelectual. Grande parte das incubadoras de talentos, porém , não faz essa distinção. Em vez disso, form a grupos com integrantes de diversas idades num am biente em que todos podem observar, ensinar e aprender uns com os outros. Por exem plo, assisti a um treino de beisebol no Frank Curiel Field, em Curaçao, com 90 crianças de 7 a 16 anos. Cada j ogador m ais velho form ava dupla com um m ais novo e o ensinava a rebater, lançar e pegar a bola. Tam bém vi essa dinâm ica em várias escolas Montessori, que dão ênfase ao aprendizado colaborativo e à independência, e j á tiveram com o alunos os fundadores da Am azon, da Wikipédia e do Google.
Esse m étodo funciona porque reforçam os m elhor qualquer conteúdo em nosso cérebro quando o ensinam os. Em grupos com crianças de idades variadas, os m ais novos querem se espelhar nos m ais velhos (vej a Dica 1), que acabam desenvolvendo em patia com os iniciantes. Quando aj udam os alguém a superar um a adversidade, reforçam os nossa própria capacidade de superação.
DICA 48
ESPERE UM MÍNIMO DE OITO SEMANAS
PARA DESENVOLVER UMA NOVA HABILIDADE
Oito sem anas de prática parecem um bom tem po para com eçar a desenvolver um a nova habilidade. É o período de duração de m uitos program as de treinam ento excelentes, com o os do corpo de balé Bolshoi e da Nasa. Um estudo recente do Hospital Geral de Massachusetts, por exem plo, revelou que m editar diariam ente por 27 m inutos cria m udanças perm anentes no cérebro em exatas oito sem anas.
Evidentem ente, isso não significa que você pode ser proficiente em qualquer habilidade num intervalo de oito sem anas. Mas a partir dessa prem issa podem os concluir duas coisas: 1) desenvolver e aprim orar o circuito neural leva tem po para qualquer pessoa; e 2) a garra e a resiliência são ferram entas vitais, sobretudo nas prim eiras fases do aprendizado. Não tire conclusões precipitadas. Siga em frente, m esm o que não sinta um a m elhora im ediata. Dê a seu talento (ou m elhor, a seu cérebro) o tem po de que ele precisa para se desenvolver.
DICA 49
Q UANDO ESTAG NAR, MUDE
Todos nós conhecem os essa sensação: você com eça a desenvolver um a nova habilidade, vai se aperfeiçoando rapidam ente por um tem po e, de repente, percebe que não há m ais m elhora algum a em seu desem penho. O ponto de estagnação foi alcançado. Cheguei a esse estágio recentem ente, depois que com prei um a m esa de pingue-pongue para j ogar em casa. Fui ficando m elhor a cada vez que j ogava. Isso durou alguns m eses, até que, de repente, o progresso parou. O que aconteceu?
Um ponto de estagnação surge quando o cérebro alcança um nível de autom atism o. Em outras palavras, quando conseguim os realizar um a habilidade de form a autom ática, sem precisar pensar antes de agir – com o quando andam os de bicicleta ou m ascam os chiclete. Na m aioria dos casos, é bastante côm odo para o cérebro perm anecer nesse estado, j á que ele fica livre para outros assuntos que dem andam atenção. No que se refere a desenvolvim ento de talentos, no entanto, esse estado é nocivo, porque cria estagnação.
Um a pesquisa realizada pelo Dr. K. Anders Ericsson, professor de psicologia da Universidade do Estado da Flórida, revela que a m elhor m aneira de superar a estagnação é passar por cim a dela: m udar seu m étodo de prática de m odo a interrom per o piloto autom ático e reconstruir um circuito m elhor e m ais rápido. Um a form a de fazer isso é obrigar-se a realizar a tarefa em m enos tem po que o usual. Ou então ir m ais devagar para detectar erros não percebidos anteriorm ente. Outra ideia é fazer as coisas de m odo inverso, de trás para a frente, de cim a para baixo, etc. Não im porta a técnica, desde que você encontre um a m aneira de sair do piloto autom ático e chegar ao ponto ideal.
No m eu caso, coloquei m etade da m esa de pingue-pongue na vertical, form ando um a espécie de “paredão”. Com ecei a praticar nesse novo aparato alguns m inutos por dia. No início, foi estranho; a bola, por causa da distância m enor, voltava rápido dem ais, e eu m al conseguia rebatê-la. Mas acabei m e acostum ando com aquele ritm o, e m eu estilo de j ogo ficou m uito m ais com petitivo.
DICA 50
CULTIVE SUA G ARRA
A garra é um a m istura de paixão, perseverança e autodisciplina que nos faz seguir em frente apesar dos obstáculos. Não é algo que cham a m uita atenção, m as não é para cham ar. Num m undo em que nos distraím os frequentem ente com brilhantes dem onstrações de talento, ter garra é o que faz diferença a longo prazo.
Recentem ente, Angela Duckworth, pesquisadora da Universidade da Pensilvânia, m ediu a influência da garra em 1.200 cadetes novatos da Academ ia Militar dos Estados Unidos antes de um brutal treinam ento de verão. Ela passou aos cadetes um pequeno teste: 17 perguntas cuj as respostas serviriam de base para a avaliação da capacidade deles de persistir rum o às m etas, de continuar m otivado m esm o diante do fracasso e de seguir em frente apesar dos obstáculos. O teste − que durou cerca de dois m inutos − revelou de form a bastante fiel o potencial de sucesso dos cadetes, m uito m ais do que os usuais testes de QI, psicológicos e de aptidão física utilizados pela própria Academ ia Militar. O teste de Angela passou a ser usado em escolas, em presas e diversos outros am bientes, para prever o sucesso.
Ter garra não é algo congênito, m as um a habilidade que desenvolvem os com o se fosse um m úsculo, e esse desenvolvim ento com eça com a consciência. Por exem plo, ao se deparar com um obstáculo, com o você reage? Tende a focar o obj etivo de longo prazo ou vive m udando de interesse? O que está procurando a longo prazo? Com ece a prestar atenção nas áreas da sua vida em que você tem garra e valorize esse atributo em si m esm o e nos outros.
DICA 51
G UARDE AS G RANDES METAS EM SEG REDO
Em bora sej a natural e m uito tentador querer contar suas grandes m etas para os outros, é m ais inteligente guardá-las para si m esm o. Num experim ento realizado na Universidade de Nova York em 2009, 163 alunos receberam um proj eto difícil e tiveram 45 m inutos para propor estratégias de execução. Metade dos alunos deveria anunciá-las, enquanto a outra m etade ficaria em silêncio. Os prim eiros abandonaram o proj eto cerca de m eia hora depois, dizendo que j á estavam satisfeitos com o trabalho. Os outros, no entanto, utilizaram todo o tem po e continuaram fortem ente m otivados.
Contar nossas grandes m etas para os outros dim inui a probabilidade de elas se concretizarem . Isso acontece porque, no m om ento em que contam os, cria-se um a recom pensa inconsciente, que leva o cérebro a acreditar que j á alcançam os o obj etivo. Um a das opções m ais inteligentes que podem os fazer é a de não contar nossos obj etivos para ninguém .
DICA 52
“PENSE COMO UM JARDINEIRO,
TRABALHE COMO UM CARPINTEIRO”
Todos nós querem os desenvolver habilidades o m ais rápido possível, m as, na verdade, esse processo é lento. Ninguém vai criticar um a sem ente por ainda não ter se tornado um a árvore grande; da m esm a form a que você não deve se dim inuir por não ter atingido todo o seu potencial ainda. Em vez de ficar chateado por isso, desenvolva suas aptidões diariam ente com a prática intensiva.
Para isso, um a boa ideia é “pensar com o um j ardineiro e trabalhar com o um carpinteiro”. Ouvi essa frase no Spartak, e ela tem um significado poderoso. Sej a paciente, sem j ulgam ento. Trabalhe com afinco, de m aneira estratégica, sabendo que cada parte se conecta com um todo m aior.