O Silêncio dos Inocentes
1 para ele.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Creio que o senhor tem um extraordinário insight, uma perfeita introvisão. A senadora Martin prometeu que se o senhor nos ajudar a trazer Catherine Baker Martin de volta viva e incólume, ela ajudará a transferi-lo para uma instituição federal, e se houver uma janela com vista, o senhor a terá. Além disso, poderá também ser solicitado a rever avaliações psiquiátricas escritas de pacientes admi-tidos. Em outras palavras, um trabalho. Não haverá rela-xamento das restrições de segurança.
— Não acredito nisso, Clarice.
— Pois devia acreditar.
— Quid pro quo.
— Vejamos qual é a questão.
— Qual é a pior lembrança da sua infância?
— A morte de meu pai — disse Starling.
— Conte-me.
— Ele era o delegado da cidade. Uma noite surpreendeu dois gatunos, viciados em drogas, saindo dos fundos da farmácia. Quando ia saindo da caminhonete, sua espingarda de bombear enjambrou e eles atiraram primeiro. — Enjambrou?
— Ele não acionou o pistão como devia. Era uma velha espingarda de pressão, uma Remington 870, e o cartucho ficou preso no carregador. Quando isso acontece a arma não atira e é preciso desmontá-la para corrigir o defeito. — Penso que bateu com o pistão na porta quando saía.
— Ele morreu logo?
— Não. Era um homem forte. Durou um mês.
— Você o viu no hospital?
— Sim, Dr. Lecter.
— Diga-me um detalhe que você se lembre do hospital.
Starling fechou os olhos e disse:
— Apareceu uma vizinha, uma mulher idosa, soltei-rona, que recitou
o final de “Thanatopsis” 1 para ele.
Creio que era a única coisa que ela sabia recitar. Foi isso.
— Bem, já cumpri minha parte na troca.
— Sim, cumpriu. Você foi muito franca, Clarice.
Reconheço isso. Penso que seria algo muito interessante conhecer você na vida particular.
— Você acha que, quando viva, a pequena de West Virgínia era muito atrativa fisicamente?
— Ela parecia bem-cuidada.
— Não me faça perder tempo com elogios..
— Ela era gorducha.
— Grande?
— Sim.
— Foi atingida no peito pelos tiros.
— Sim.
— Tinha os seios pequenos, suponho.
— Sim, para o tamanho dela.
— Mas era cadeiruda. Confortável?
— Era, sim.
— O que mais?
— Ela teve um inseto deliberadamente inserido na garganta, detalhe que não foi divulgado.
1 Tiranatopsis: Poema de meditação sobre a morte. (N. do T.)
— Uma borboleta?
A respiração de Starling ficou suspensa por um momento. Gostaria que ele não tivesse percebido.
— Uma mariposa — disse finalmente. — Por favor, diga-me como adivinhou isso.
— Clarice: vou dizer-lhe para o que Buffalo Bil quer Catherine Baker Martin e depois será “boa noite”.
Esta é minha última palavra por enquanto. Você pode dizer à senadora o que ele deseja de Catherine e ela pode aparecer com uma oferta melhor para mim... ou pode esperar até que Catherine venha à tona e ver que eu estava certo. — O que é que ele deseja, Dr. Lecter?
— Deseja fazer um colete com seios — afirmou o Dr. Lecter.
CAPÍTULO 23
Catherine Baker Martin estava cinco metros abaixo do porão. As trevas só eram perturbadas por sua respiração e pelas batidas cardíacas. Às vezes o medo lhe oprimia o coração da forma como o caçador mata uma raposa. Às vezes ela conseguia pensar: sabia que fora raptada, mas não sabia por quem. Sabia que não estava sonhando; naquela escuridão e silêncio absolutos podia até ouvir o ba-rulhinho de suas pálpebras quando piscava.
Sentia-se melhor agora do que logo depois de recuperar a consciência. Grande parte da horrível vertigem desaparecera e sabia que tinha ar suficiente. Ela podia distinguir o lado de baixo do lado de cima e tinha uma idéia da posição de seu corpo.
O ombro, o quadril e o joelho doíam por estarem pressionados contra o piso de cimento onde permanecia deitada. Aquele lado era embaixo. Em cima sentia o áspero cobertor com que se cobrira durante o último intervalo de terrível luz brilhante. O latejar na sua cabeça desaparecera, mas doíam-lhe também os dedos da mão esquerda.
O anular estava quebrado, ela sabia.
Sua roupa era um abrigo acolchoado e lhe parecia estranha. Estava limpa e cheirava a sachê. O chão também parecia limpo, exceto pelos ossos de galinha e pedaços de verduras que seu raptor despejara pelo buraco no alto. Os únicos outros objetos no local eram o cobertor e um balde sanitário de plástico com uma corda fina amarrada na alça.
Parecia um cordão de uso na cozinha e subia pela penumbra até onde ela podia alcançar com a mão.
Catherine Martin tinha liberdade de se movimentar, mas não havia aonde ir. O piso sob os seus pés era oval, com cerca de 2,5 por 3 metros, com um pequeno dreno no centro. Sabia que era o fundo de um poço seco. As lisas paredes de cimento inclinavam-se ligeiramente para dentro à medida que se elevavam.
Estaria ouvindo alguns sons, ou era seu coração batendo? Os sons vinham claramente lá de cima. A masmorra onde estava presa ficava na parte do porão diretamente abaixo da cozinha. Ouvia agora passos no chão da cozinha e o marulhar de água correndo. As patas de um cão arranhavam o linóleo. Nada mais, até que um fraco disco de luz amarela penetrou pelo alçapão aberto; a seguir as luzes do porão se acenderam. Então surgiu de cima uma claridade cegante, e dessa vez ela se situou sentada, com o cobertor em cima das pernas, tentando olhar em volta, tentando ver por entre os dedos enquanto seus olhos se ajustavam à luz. Uma sombra girou em torno dela quando um refletor foi arriado no poço, pendurado e balançando numa corda.
Encolheu-se toda quando o balde que lhe servia de toalete se moveu, oscilando ao subir preso pela cordinha, rodando vagarosamente à medida que se elevava em direção à luz. Tentou respirar fundo para engolir o medo, aspirou ar demais, mas conseguiu falar:
— Minha família lhe pagará — soprou ela. — Em dinheiro vivo. Minha mãe pagará imediatamente, sem fazer perguntas. Vou lhe dar o número de. . Oh! — Uma sombra, parecendo um par de asas, caiu sobre ela, mas era apenas uma toalha. — O número do telefone dela é 202. .
— Lave-se.
A mesma voz estranha que ela tinha ouvido falando com o cão.
Outro balde descia agora. Sentiu o cheiro de água quente com sabão.
— Tire o balde daí e lave-se, ou terei que lavá-la com a mangueira. — Depois, dirigindo-se ao cachorro, a voz diminuiu de intensidade. — Ora, ela vai experimentar a mangueira, não é queridinha. Sim, ela vai..
Catherine Martin ouviu o raspar das unhas do cão no piso do porão. A dupla visão que ela tivera na primeira vez que as luzes se acenderam tinha sumido. Agora podia ver bem. Qual seria a altura do poço? Estaria o refletor preso numa corda forte? Poderia agarra-la com o abrigo, talvez com a toalha? Fazer alguma coisa, que diabo! As paredes eram tão lisas, um tubo liso e vertical.
A uns 30 centímetros acima de onde ela podia alcançar havia uma depressão no cimento, a única falha que conseguia perceber.
Enrolou o cobertor tão apertado quanto podia e prendeu-o com a toalha. Ficou de pé balançando um pouco, esticou-se para alcançar a fresta, enfiou nela as unhas para equilibrar-se e olhou para cima, contra a luz, apertando os olhos para enxergar. Era um refletor com um abajur, pendurado apenas uns 30 centímetros dentro do coço, cerca de três metros acima do seu braço esticado. Podia muito bem ser a lua. . Algo estava caindo dentro do poço, o cobertor se soltava, ela procurou um apoio na parede para equilibrar-se, e aquilo caiu, passando como uma sombra rente ao seu rosto.
Era uma mangueira, que a respingou de água gelada. Uma ameaça.
— Lave-se. O corpo todo.
No balde havia um pano para esfregar e, flutuando na água, uma garrafa de plástico com um caro emoliente importado.
Ela fez o que a voz mandara, os braços e pernas ar-repiados, os bicos dos seios doloridos pelo ar frio; ficou de cócoras ao lado do balde com água morna, tão perto da parede quanto possível, e lavou-se.
— Agora, enxugue-se e esfregue o corpo com o creme. Esfregue-o por todo o corpo.
O creme estava morno da água do banho. A umidade fez com que o abrigo aderisse à sua pele.
— Agora junte o lixo e lave o chão.
Ela fez isso também, juntando os ossos de galinha e recolhendo as ervilhas. Colocou-os no balde e limpou as pequenas manchas de gordura no cimento. Havia algo mais ali, junto à parede. Os restos de cimento que tinham caído da fresta acima, mais uma unha humana coberta com esmalte brilhante e quebrada junto à raiz.
O balde foi puxado para cima.
— Minha mãe lhe pagará — berrou Catherine Martin. — Sem fazer perguntas. Pagará o bastante para deixá-los todos ricos. Se for por uma causa — o Irã, a Palestina, a Liberação Negra — , ela dará o dinheiro que pedirem.
Tudo o que tem a fazer é..
A luz se extinguiu. Súbita e total escuridão.
Ela encolheu-se, com um grito assustado, quando o balde pousou ao lado dela em sua cordinha. Sentou-se sobre o cobertor, a cabeça atordoada. Supunha agora que seu raptor estava sozinho, que era americano e branco.
Tentara dar a impressão de que não tinha idéia do que ele era, da sua cor, ou de quantos seriam, que sua lembrança do estacionamento fora apagada pelos golpes na cabeça.
Tinha a esperança de que ele acreditasse que podia libertá-la sem se arriscar. A mente dela estava trabalhando, trabalhando e afinal trabalhou bem demais.
A unha! Alguém mais havia estado ali! Uma mulher, por certo, uma moça. Onde estaria agora? O que fora feito com ela?
Não fora o choque e a desorientação, não teria demorado tanto a ocorrer-lhe isso. Nas condições em que se encontrava, o emoliente para a pele a fez lembrar-se. Pelei Acabava de descobrir em poder de quem se encontrava.
Aquela consciência abateu-se sobre ela como um terror incomparável e ela começou a gritar, a gritar, tentando subir pelo poço, arranhando as paredes com as unhas, gritando e gritando até sentir algo quente e salgado na boca; levou os dedos ao rosto, o líquido pegajoso secou no dorso de suas mãos e ela ficou estendida, rígida, em cima do cobertor, fazendo um arco com o corpo da cabeça aos pés, as mãos enterradas agora no meio dos cabelos.
Í
CAPÍTULO 24
A moeda de 25 centavos de Clarice Starling tiniu dentro da caixa do telefone na desleixada sala dos guardas.
Ela discou o número do furgão de vigilância.
— Crawford — respondeu a voz no aparelho.
— Estou num telefone público na enfermaria de segurança informou Starling. — O Dr. Lecter me perguntou se o inseto de West Virgínia era uma borboleta, mas não me deu qualquer explicação. Disse que Buffalo Bil precisa de Catherine Martin por que — estou citando as palavras de Lecter: “Ele quer ter um colete com seios.” O
Dr. Lecter concorda em negociar. Mas pretende uma oferta “mais interessante” da senadora.
— Ele interrompeu a entrevista com você?
— Sim.
— Você acha que ele lhe falará de novo?
— Penso que ele gostaria de fazer isso nos próximos dias, mas eu preferiria atacá-lo de novo agora, se conseguir qualquer oferta urgente por parte da senadora.
— Urgente é a palavra certa. Obtivemos novos dados para a pequena de West Virgínia. As impressões digitais de uma pessoa desaparecida fez soar a campainha na seção de identificação há uma meia hora. Kimberly Jane Emberg, 22 anos, sumiu em Detroit desde o dia 7 de fevereiro. Estamos vasculhando a vizinhança para testemunhas. O médico legista de Charlottesvil e disse que ela morreu no máximo no dia 11 de fevereiro, possivelmente no dia anterior, 10.
— Só a manteve viva três dias — concluiu Starling.
— O período dele está encurtando. Acho que ninguém se surpreende com isso. — A voz de Crawford era tranqüila. — Ele levou Catherine Martin há arca de 26
horas. Se Lecter pode informar algo, é melhor que o faça em sua próxima entrevista. Estou instalado no escritório regional de Baltimore; o furgão transmitiu-me sua chamada. Tenho um quarto para você no Howard Johnson a dois quarteirões do hospital se quiser tirar uma soneca mais tarde.
— Ele está desconfiado, Sr. Crawford; e não tem confiança em que o senhor o deixará obter qualquer benefício. O que ele disse sobre Buffalo Bill, trocou por uma informação pessoal a meu respeito. Não acho que haja qualquer relação textual entre as perguntas dele e o caso. .
Quer saber quais foram as perguntas?
— Não.
— Por isso é que não me permitiu levar um aparelho de gravação, certo? Pensou que seria mais fácil para mim. Eu estaria disposta a contar-lhe coisas e agradar-lhe mais se ninguém pudesse escutar jamais nossa conversa.
— Eis outra possibilidade para você, Starling. Que tal se eu confiasse no seu julgamento? Que tal se eu pensasse que você era minha melhor arma e deseje aliviar uma porção de hipóteses das suas costas? Iria fazer você usar um gravador nesse caso?
— Não, senhor. O senhor é famoso pelo modo como manipula os agentes, Sr. Crawford, não é? O que poderemos oferecer ao Dr. Lecter?
— Um par de coisas que estou mandando para lá.
Chegarão em cinco minutos, a não ser que você queira antes repousar um pouco.
— Eu preferia faz-lo logo — atalhou Starling. —
Diga-lhes para pedirem o Alonzo que me conduza. Diga a Alonzo que eu o encontro no corredor externo da Seção 8.
— Em cinco minutos — prometeu Crawford.
Starling andava para um lado e para outro sobre o linóleo da modesta sala de espera. Ela era a única coisa viva na sala.
Raramente nos preparamos em pradarias ou em caminhos ensaibrados. Fazemo-la quando avisados às pressas em lugares sem janelas, em corredores de hospi-tais, em salas como esta com seu sofá forrado de plástico rachado, cinzeiros Cinzano de reclame, onde as cortinas cor de café cobrem paredes cegas de cimento. Em cômodos como este, com tão pouco tempo, preparamos nossos gestos e os decoramos para poder repeti-los quando esti-vermos assustados ao enfrentar o Mal. Starling tinha idade bastante para saber disso; não deixou a sala de espera afe-tá-la. Starling andava para lá e para cá. Gesticulava para o ar.
— Agüente a mão, pequena! — animou em voz al-ta. Dizia-a para Catherine Martin e para si mesma. — Nós somos melhores da que esta sala. Somos melhores do que a porra deste lugar! — prosseguiu em voz alta. — Somos melhores do que qualquer espécie de lugar onde ele a mantém. Ajude-me. Ajude-me. Ajude-me. — Pensou um instante em seus pais mortos. Perguntou-se se teriam vergonha dela agora — apenas essa pergunta, nada sobre sua pertinência, suas qualificações — , do modo como sempre perguntamos. A resposta foi não; não teriam vergonha dela.
Lavou o rosto e saiu para o corredor.
O guarda Alonzo ali estava, com um pacote selado de Crawford. Continha um mapa e instruções. Ela as leu rapidamente à luz do corredor e apertou o botão para Barney deixá-la entrar.
CAPÍTULO 25
O Dr. Lecter estava à sua mesa, examinando a correspondência. Starling achou mais fácil aproximar-se de sua jaula quando não estivesse olhando para ela.
— Doutor!
Ele levantou um dedo pedindo silêncio. Acabou de ler uma carta e ficou sentado, pensando, o polegar da mão que tinha seis dedos em baixo do queixo, o indicador ao lado do nariz.
— O que acha disso? — perguntou, colocando o documento no transportador de comida.
Era uma carta do Escritório de Patentes dos Estados Unidos.
— É sobre o meu relógio com a cruficicação —
explicou o Dr. Lecter. — Não me concedem uma patente, mas me aconselham a obter direitos autorais sobre o mostrador. Veja isto. — Colocou um desenho do tamanho de um guardanapo no transportador, que Starling puxou. —
Você deve ter notado que na maior parte das crucificações as mãos apontam, digamos, um quarto para as três ou, no mínimo, dez para as duas, enquanto os pés ficam nas seis horas. No mostrador deste relógio Jesus está na cruz, co-mo você vê, e os braços indicam a hora, como os dos populares relógios de Disney. Os pés permanecem nas seis e no topo um pequeno ponteiro dos segundos gira no halo.
O que é que você acha?
A qualidade do desenho anatômico era muito boa.
A cabeça era a dela.
— Vai perder muito dos detalhes quando reduzido ao tamanho de um relógio — notou Starling.
— Infelizmente é verdade, mas pense nos relógios maiores.
— Você acha que a propriedade está segura sem uma patente?
— Terá que colocar uma máquina a quartzo nos relógios, e isso já está patenteado. Não tenho certeza, mas penso que patente! Só se aplicam a dispositivos mecânicos especiais e copyrights se aplicam a desenhos.
— Mas você não é uma advogada, é? Eles já não exigem isso no FBI.
— Trago uma proposta para o senhor — disse Starling abrindo sua pasta.
Barney aproximava-se. Ela fechou a pasta de novo.
Invejava a enorme calma de Barney. Seus olhos não indicavam o uso de tóxicos e por trás deles havia uma consi-derável inteligência.
— Desculpe-me — disse Barney. — Se a senhora tem uma porção de papéis para manusear, há uma carteira escolar no armário de parede que os psicólogos usam.
Quer usá-la?
Aquilo criaria uma imagem de escola. Sim ou não?
— Podemos conversar agora, Dr. Lecter?
O doutor levantou a mão aberta.
— Sim, Barney, obrigado.
Agora sentada, e com Barney a uma distância segura, ela disse — A senadora tem uma oferta notável.
— Eu decidirei sobre isso. Você falou com ela tão depressa?
— Falei. Ela não está escondendo nada. Isto é tudo o que pode oferecer, portanto não é assunto para barga-nhar. Está tudo aí uma única oferta. — Afastou os olhos da sua pasta.
O Dr. Lecter, assassino de nove pessoas, tinha os dedos agrupados embaixo do nariz e a observava. Atrás de seus olhos havia uma noite infindável.
— Se o senhor nos ajudar a encontrar Buffalo Bill a tempo de salvar Catherine ilesa, obterá o seguinte: transferência para o Hospital da Administração de Veteranos, no Oneida Park, Nova York terá uma cela com vista para os bosques em torno do hospital. Segurança máxima ainda vigorará. Será convidado a ajudar na avaliação de testes psicológicos por escrito de alguns prisioneiros federais, embora não necessariamente daqueles que compartilhem de sua própria instituição. Fará as avaliações às cegas; nada de identificações. Terá razoável acesso a livros. — Ela levantou os olhos.
O silêncio podia ser zombeteiro.
— A coisa melhor, a coisa mais notável: durante uma semana por ano o senhor sairá do hospital e virá para cá. — Colocou o mapa no transportador de comida. O
Dr. Lecter não o puxou. — Ilha Plum — continuou ela.
— Cada tarde, durante aquela semana, senhor poderá passear na praia ou nadar no mar sem nenhuma vigilância a menos de 75 metros, mas terá segurança da SWAT. É tu-do! — E se eu não aceitar?
— Talvez possa pendurar umas cortinas cor de café nessa parede. . Não temos nada com que ameaçá-lo, Dr.
Lecter. O que consegui é uma forma de o senhor ver a luz do dia. Ela não o fitou. Não queria um duelo de olhares agora; não era uma confrontação.
— Catherine Martin virá aqui e falará comigo —
apenas sobre o seu raptor — se eu decidir publicar algo?
Falar exclusivamente comigo?
— Sim. Pode considerar isso concedido.
— Como é que você sabe? Concedido por quem?
— Eu mesma a trarei aqui.
— Se ela não quiser vir.
— Bem, primeiro temos que perguntar a ela, não é?
Ela puxou o transportador para o seu lado.
— Ilha Plum.
Olhe para o extremo norte de Long Island. Aquele dedo ao norte.
— Plum Island. Aqui diz: Centro de Doenças Animais (Pesquisas Federais da Febre Aftosa). Parece encantador. . — Essa é apenas uma parte da ilha, que tem uma bela praia e bons alojamentos. Ali, as andorinhas-do-mar fazem seus ninhos na primavera.
— Andorinhas-do-mar — suspirou o Dr. Lecter.
Inclinou ligeiramente a cabeça e tocou o centro do rubro lábio superior com a ponta da língua. — Se falarmos sobre isso, Clarice, tenho que receber qualquer coisa por conta. Quid pro quo. Eu lhe digo coisas e você me diz coisas. — Comece — concordou Starling.
Teve que esperar um minuto antes de ele falar.
— Uma lagarta transforma-se em popa dentro de uma crisálida. Então emerge, sai de dentro de seu aposento secreto de mudança como uma bela imago. Você sabe o que é uma imago, Clarice?
— Um inseto adulto, provido de asas.
— E o que mais?
Ela sacudiu a cabeça negativamente.
— É um termo da falecida religião da psicanálise.
Imago é uma imagem dos pais enterrada no inconsciente desde a infância e cercada de infantil afeto. A palavra vem das imagens de seus ancestrais feitas de cera que os romanos antigos carregavam em procissões fúnebres.. Até o fleumático Crawford deve ver alguma significação na crisálida do inseto.
— Nada para se afundar demais exceto verificar os assinantes de jornais de entomologia versos agressores sexuais criminosos no índice do computador.
— Primeiro, vamos parar com esse nome de Buffalo Bil . É um nome suposto e nada tem a ver com a pessoa que vocês procuram. Por conveniência chamemo-lo Billy. Vou dar-lhe um resumo do que penso. Pronta?
— Pronta.
— O significado da crisálida é mudança: verme em borboleta ou mariposa, Bil y pensa que deseja transformar-se. Está fazendo um traje de moça usando moças de verdade. Daí as vítimas terem que ser corpulentas — ele precisa de coisas que caibam nele. O número de vitimas sugere que ele pode ver a coisa como uma série de mudas.
E está fazendo isso numa casa de dois andares, você sabe por que dois andares?
— Durante algum tempo ele as enforcava na escada. — Correto.
— Dr. Lecter, não há correlação que eu tenha observado entre transexualismo e violência — em geral, transexuais são tipos passivos.
— É verdade, Clarice. Às vezes há uma tendência para viciar-se em cirurgia — plasticamente, transexuais
são difíceis de satisfazer — , mas a coisa termina por aí.
Bil y não é realmente um transexual. Você está muito perto, Clarice, do modo pelo qual irá apanhá-lo, sabe disso?
— Não, Dr. Lecter.
— Bom. Então você não vai se incomodar de contar-me o que aconteceu com você depois da morte de seu pai. Starling baixou os olhos para a superfície arranhada da carteira escolar.
— Não creio que a resposta esteja nos seus papéis, Clarice. — Minha mãe nos manteve juntas por mais de dois anos. — Fazendo o quê?
— Trabalhando como arrumadeira de um motel durante o dia e cozinhando num café à noite.
— E depois?
— Fui morar com a prima de minha mãe e o marido dela em Montana.
— Apenas você?
— Eu era a mais velha.
— A cidade nada fez por sua família?
— Um cheque de 500 dólares.
— É curioso não haver seguro. Clarice, você disse que seu pai bateu com a espingarda na porta da caminhonete. — Sim.
— Ele não dispunha de um carro-patrulha?
— Não.
— Aconteceu à noite?
— Sim.
— Ele não tinha uma pistola?
— Não.
— Clarice, ele estava trabalhando à noite, numa caminhonete, armado apenas com uma espingarda... Diga-me: ele por acaso usava um relógio de ponto na cintura?
Uma daquelas coisas em que existem chaves fixadas a postes por toda a cidade, de forma que você tem que se dirigir até eles e dar corda no relógio? Para que os cidadãos da cidade saibam que você não estava dormindo. Diga-me se ele usava isso, Clarice.
— Usava.
— Então ele era um guarda-noturno, não um delegado, certo, Clarice? Eu saberei, se você mentir.
— O registro na carteira dizia “delegado noturno”.
— Que aconteceu a ele?
— Que aconteceu ao quê?
— Ao relógio de ponto. Que aconteceu a ele depois que atiraram em seu pai?
— Não me lembro.
— Caso se lembrar, você me dirá?
— Sim. Espere um momento... o prefeito foi ao hospital e pediu à minha mãe o relógio e o distintivo. —
Ela nem lembrava que tinha conhecimento daquilo. O
prefeito, com sua roupa esporte e seus sapatos de excedente de Marinha. O filho da puta. .
— Quid pro quo, Dr. Lecter.
— Você pensou por um momento pelo menos, que estava inventando aquilo? Não, se o tivesse inventado, não lhe doeria. Estávamos falando sobre transexuais. Você disse que violência e um comportamento destruidor não são dados estatísticos do transexualismo. É verdade.
Lembra-se do que dissemos sobre a raiva ser expressada como luxúria e o lúpus pressentido como urticária? Billy
não é um transexual, mas pensa que é e tenta ser. Ele já tentou ser uma porção de coisas, acredito.
— O senhor disse que eu estava próxima do modo para apanhá-lo.
— Há três centros principais de cirurgia transexual: a Johns Hopkins, a Universidade de Minnesota e o Columbus Medicai Center. Eu não ficaria surpreso se ele tivesse procurado um destes centros para mudança de sexo e lhe tivessem recusado.
— Em que base o rejeitariam, o que constaria do registro?
— Você é muito arguta, Clarice. A primeira razão seria um antecedente criminal, que desqualifica o requerente, a não ser que o crime fosse de caráter relativamente leve e ligado ao problema da identidade de gênero. Prática de travesti em público, algo dessa natureza. Se ele mentis-se repetidamente sobre um registro criminoso sério, os inventários de personalidade o trairiam.
— Como?
— Você tem que saber como, a fim de peneirá-los, não é? — Correto.
— Por que você não pergunta ao Dr. Bloom?
— Prefiro perguntar ao senhor.
— O que vai ganhar com isso, Clarice, uma pro-moção e aumento de salário? O que é você, uma G-9?
Quanto ganham agora as pequenas G-9?
-— Uma chave da porta da frente, entre outras coisas. Como apareceria ele num diagnóstico?
— Você gostou de Montana, Clarice? Montana é ótima. Você gostou do marido da prima de sua mãe?
— Éramos diferentes.
— Como eram eles?
— Cansados de tanto trabalhar.
— Havia outros filhos?
— Não.
— Onde você vivia?
— Num rancho de criação.
— Criação de carneiros?
— Carneiros e cavalos.
— Quanto tempo viveu lá?
— Sete meses.
— Que idade você tinha?
— Dez anos.
— De lá, para onde foi?
— Para o Lar Luterano em Bozeman.
— Diga-me a verdade.
— Estou dizendo a verdade.
— Você está evitando a verdade.
— Se está cansada, podemos conversar lá pelo fim da semana. Eu estou me aborrecendo. Ou você preferiria conversar agora?
— Agora, Dr. Lecter.
— Muito bem. Uma criança é mandada por sua mãe para um rancho em Montana. Um rancho de criação de carneiros e cavalos.
— Sentindo falta da mãe, excitada pelos animais. .
— O Dr. Lecter fez um gesto com as mãos convidando Starling a continuar.
— Era formidável. Tinha meu próprio quarto com um tapete índio no assoalho. Deixavam-me montar um cavalo que não podia ver muito bem. Havia algo errado com os cavalos. Ou eram aleijados ou doentes. Alguns
deles tinham sido criados com crianças e relinchavam para mim de manhã quando eu ia pegar o ônibus da escola.
— E então?
— Descobri algo estranho no celeiro. Eles tinham ali um pequeno quarto de depósito. Pensei que aquela coisa fosse uma espécie de velho elmo. Quando o coloquei no chão, vi uma gravação: “Aparelho Humanitário para Matar Cavalos W.W. Grasnar.” Era uma espécie de chapéu em forma de sino e tinha um lugar no topo para alojar um cartucho. Parecia de calibre 32.
— Eles forneciam cavalos mortos nesse rancho, Clarice?
— Sim, faziam isso.
— E os matavam no rancho?
— Os que eram usados para cola e para fertilizan-tes, matavam lá mesmo. Pode-se acomodar seis num caminhão, se estão mortos. Os que eram usados para comida de cães eles levavam vivos.
— E aquele que você costumava montar?
— Fugimos juntos.
— Até onde você chegou?
— Mais ou menos até onde vou quando o senhor me explica os diagnósticos.
— Conhece o procedimento para testar candidatos a cirurgia transexual?
— Não.
— Ajudaria se você me trouxesse uma cópia do regime de qualquer um dos centros, mas, para começar: a bateria de testes usualmente inclui a escala Wechsler de Inteligência em Adultos, House-Tree-Person, Rorschach, Desenho de Autoconceito, Percepção Temática, MMPI, naturalmente, e alguns outros — o Jenkins, penso, desen-
volvido pela NYU. Você precisa de algo que possa avaliar rapidamente, não é, Clarice?
— Seria o melhor, algo rápido.
— Vejamos.. Nossa hipótese é que estamos procurando alguém do sexo masculino cujo teste diferirá do de um verdadeiro transexual. Muito bem; no teste House-Tree-Person procure alguém que não desenhou primeiro a figura feminina. Transexuais masculinos quase sempre desenham a figura feminina em primeiro lugar, e tipicamente prestam atenção aos adornos nas fêmeas que desenham. — Suas figuras masculinas são simples estereótipos
— há algumas exceções quando desenham Mr. América
—, mas não há muita coisa entre os dois casos.
“Procure o desenho de uma casa sem os enfeites de um futuro rosada nenhum carrinho de criança do lado de fora, nada de cortinas, nada de flores no jardim da frente.
“Com os verdadeiros transexuais você tem duas espécies de árvores: grandes chorões e temas de castração.
As árvores cortadas pelo canto do desenho ou pela borda do papel — imagens da castração — são cheias de vida nos desenhos dos transexuais. Flores e troncos repletos de frutos. Esta é uma importante distinção. Elas são muito diferentes das árvores assustadas, mortas, mutiladas, que você vê nos desenhos feitos por pessoas com distúrbios mentais. Este é um bom ponto: a árvore de Billy será horrorosa! Estou indo depressa demais?
— Não, Dr. Lecter.
— Num desenho dele mesmo, um transexual quase nunca se mostrará nu. Não se desoriente por certa quantidade de ideação paranóica nas cartas TAT — isso é muito comum entre transexuais que se vestem freqüentemente
como travestis; na maior parte das vezes já tiveram dificuldades com as autoridades. Devo fazer um resumo?
— Sim, gostaria de um resumo.
— Você deveria tentar obter uma lista de gente re-jeitada em todos os três centros de alterações de gênero.
Confira primeiro os rejeitados por antecedentes criminais
— e entre estes observe com mais atenção os ladrões arrombadores. Entre os que tentaram esconder antecedentes criminais, procure severos distúrbios na infância asso-ciados com violência. Possivelmente internamentos na infância. Então examine os testes. Você está procurando um homem branco, provavelmente com menos de 35 anos, corpulento. Não é um transexual, Clarice. Apenas pensa que é, e está intrigado e zangado porque não querem ajudá-lo. Isso é tudo o que pretendo dizer, penso, até que tenha estudado o caso. Você vai deixá-lo comigo, não? — Claro.
— E as fotos.
— Estão incluídas na pasta.
— Então é melhor você se apressar com o que tem, Clarice, e veremos o que consegue.
— Preciso saber como o senhor. .
— Não. Não seja gulosa ou discutiremos na semana que vem. Venha quando tiver feito algum progresso.
Ou não... E... Clarice?
— Estou ouvindo.
— Na próxima vez diga-me duas coisas. O que aconteceu com o cavalo é uma. A outra é.. como você controla sua raiva?
Alonzo veio buscá-la. Ela segurava suas notas contra o peito, andando com a cabeça baixa, tentando juntar
tudo na memória. Ansiosa pelo ar da rua, nem olhou para o escritório do Dr. Chilton quando saiu às pressas do hospital.
A luz do Dr. Chilton estava acesa. Podia-se vê-la fluindo por baixo da porta.
CAPÍTULO 26
Muito antes da enferrujada madrugada de Baltimore, ouvia-se movimento na enfermaria de alta segurança.
Lá embaixo, onde nunca escurece, os atormentados sentem o início do dia como as ostras num barril se abrem quando sua perdida maré sobe. Criaturas de Deus que foram dormir chorando se voltam para chorar de novo e aqueles que esbravejam clareiam suas gargantas.
O Dr. Hannibal Lecter estava de pé, empertigado, no fim do corredor, o rosto a 30 centímetros da parede.
Pesadas tiras de lona prendiam-no a um carrinho de mudanças como se ele fosse um relógio de pé. Por baixo das tiras de lona, usava uma camisa-de-força e presilhas nas pernas. Uma máscara de jogador de hóquei sobre seu rosto impedia-o de morder; era tão eficaz como uma mordaça e não tão úmida que impedisse os guardas de a manu-searem. Atrás do Dr. Lecter um guarda baixinho, de ombros redondos, passava um pano molhado na jaula dele.
Barney supervisionava essa limpeza três vezes por semana e ao mesmo tempo procurava algum contrabando. Os fa-xineiros tendiam a apressar-se, considerando as acomoda-ções do Dr. Lecter mal-assombradas. Barney conferia quando eles terminavam. Ele observava tudo e nunca ne-gligenciava coisa alguma.
Apenas Barney conferia o manuseio do Dr. Lecter, porque nunca se esquecia com quem estava lidando. Seus dois assistentes viam teipes de jogos de hóquei na televisão.
O Dr. Lecter se divertia — tinha vastos recursos internos e podia entreter-se por anos a fio. Seus pensamentos não eram mais tolhidos por medo ou por bondade do que os de Milton eram pela física. Em sua mente ele era livre. Seu mundo interior tem intensas cores e cheiros e não muitos sons. De fato ele devia esfoçar-se para ouvir a voz do falecido Benjamin Raspail. O Dr. Lecter estava meditando como iria entregar Jame Gumb a Clarice Starling, e era útil lembrar-se de Raspail. Cá estava o gordo flautista no último dia de sua vida, deitado no sofá de terapia de Lecter, contando-lhe acerca de Jame Gumb:
“Jame tinha o mais atroz quarto imaginável naquela casa de cômodos em San Francisco. As paredes eram pintadas aqui e ali com uma espécie de cor rosa com manchas de Day-Glo psicodélico de seus tempos de hippie, tudo terrivelmente manchado.
“Jame — você sabe, é de fato grafado assim na sua certidão de nascimento, foi daí que ele o tirou e você tem que pronunciar ‘Jame’ como ‘narre’, ou ele fica pálido de raiva, embora tenha sido um erro no hospital — já então eles estavam contratando auxiliares baratos que nem sabi-am escrever um nome direito. Hoje ainda é pior, arrisca-se a vida quando se entra num hospital. De qualquer maneira, lá estava Jame sentado na sua cama, a cabeça entre as mãos, naquele quarto horroroso; fora despedido do emprego na loja de curiosidades e cometera nova barbaridade. “Eu lhe disse apenas que não podia tolerar seu comportamento, e Klaus acabara de entrar na minha vida, naturalmente. Jame não é de fato uma bicha, você sabe, isso é justamente algo que ele pegou na cadeia. Ele na rea-
lidade não é nada, apenas uma completa falta de personalidade que quer preencher, o que o torna tão zangado.
Você sempre tinha a sensação de que o quarto ficava um pouco mais vazio quando ele entrava. Quero dizer: ele matou seus avós quando tinha 12 anos, e você pensaria que uma pessoa tão irresponsável devia ter alguma personalidade, não pensaria?
“E aí estava ele mais uma vez sem emprego, e cometera de novo a barbaridade com algum infeliz sem sorte. Eu fui-me embora. Ele tinha ido ao correio, apanhando a correspondência de seu antigo empregador, na expectativa de que nela houvesse algo que pudesse vender. E havia um pacote da Malásia ou de algum lugar por aquelas bandas. Ansioso abriu o pacote e era uma maleta cheia de borboletas mortas, e ninguém sabia por que tinham chegado para ele.
“Seu patrão mandava dinheiro para os funcionários do correio de todas aquelas ilhas, e eles lhe mandavam caixas e caixas de borboletas mortas. Ele as colocava em bandejas de lucile e fazia os mais horríveis ornamentos imagináveis — e tinha a coragem de chamá-los de objetos d’arte. As borboletas eram inúteis para Jame, e ele enfiou a mão dentro delas pensando que pudesse haver jóias por baixo — às vezes recebiam braceletes de Bali — , e só retirou a mão cheia de pó de borboletas. Nada. Ficou sentado na cama com a cabeça nas mãos coloridas de borboletas e encontrava-se no fundo do poço, como todos nós já estivemos, e chorava. Ouviu um pequeno ruído, e era uma borboleta na mala aberta. Lutava para sair de um casulo que fora misturado às borboletas, e conseguiu. Havia poeira no ar das borboletas e poeira no sol que penetrava pela janela você sabe como tudo é terrivelmente vívido
quando descritos por alguém que se embriagou. Viu quando ela bateu as asas. Era uma borboleta enorme.
Verde. Abriu a janela e ela voou para fora. Sentiu-se tão leve, afirmou ele, e sabia agora o que fazer.
“Jame descobriu a pequena casa de praia que Klaus e eu está vamos usando e quando vim para casa voltando do ensaio lá estava ele, mas não vi Klaus. Klaus não estava lá. Perguntei onde fora, e ele disse que fora nadar. Sabia que era uma mentira; Klaus nunca nadava, o Pacífico era por demais agitado. E quando abri o refrigerador, você sabe o que encontrei: a cabeça de Klaus olhando por trás do suco de laranja. Jame também fizera para ele, como você sabe, um avental da pele de Klaus, e o pusera, per-guntando se eu gostava dele agora. Sei que você deve ficar espantado que eu jamais tivesse algo a ver com Jame —
ele ainda era mais instável quando você o encontrou, e penso que ficou apenas admirado que você não tivesse medo dele.
E então, as últimas palavras que Raspail jamais pronunciou: — “Eu me admiro por que meus pais não me mataram antes que eu tivesse idade bastante para enganá-los”.
A fina lâmina do estilete tremia quando o coração de Raspail transpassado por ela tentava continuar batendo, e o Dr. Lecter disse: ‘Parece uma palhinha enfiada num buraco de formiga, não parece?’, mas era tarde demais pa-ra Raspail responder.
O Dr. Lecter podia lembrar-se de cada palavra, e de muito mais. Pensamentos agradáveis para passar o tempo enquanto eles limpam sua cela.
Clarice Starling era astuta, refletia o doutor. Poderia pegar Jame Gumb com o que ele lhe dissera, mas era uma
probabilidade remota. Para apanhá-lo a tempo, precisaria de coisas mais específicas.
O Dr. Lecter sentia-se seguro de que, quando lesse detalhes dos crimes, surgiriam indicações possivelmente ligadas ao treinamento profissional de Gumb na instituição de correção juvenil depois que ele matara seus avós.
Entregaria Jame Gumb a ela amanhã, e o faria com clareza, de forma que nem Jack Crawford poderia enganar-se.
Amanhã a coisa seria liquidada.
O Dr. Lecter ouviu passos atrás dele, e a televisão foi desligada. Sentiu quando o carrinho foi inclinado para trás. Agora iria começar o longo e cansativo processo de liberá-lo dentro da cela. Era sempre feito da mesma maneira: primeiro Barney e seus assistentes o deitavam cuidadosamente na cama, a cara para baixo; a seguir Barney amarrava com toalhas seus tornozelos à barra que ficava no pé da cama, retirando as tiras que lhe prendiam as pernas e, com a cobertura de seus dois assistentes armados como Maces e cassetetes de motim, soltava os fechos nas costas da camisa-de-força e saía da cela andando de costas, prendendo a rede em posição e trancando a porta de grades, deixando o Dr. Lecter ocupado em libertar-se das demais amarras. A seguir o doutor trocava o equipamento por seu desjejum. Esse modo de proceder estava em uso desde que o Dr. Lecter atacara ferozmente o enfermeiro, e funcionava muito bem para todo mundo.
Naquele dia o processo foi interrompido.
CAPÍTULO 27
O carrinho manual que carregava o Dr. Lecter deu um ligeiro solavanco quando ultrapassou a soleira da porta da jaula. E lá estava o Dr. Chilton, sentado na cama, examinando a correspondência particular do Dr. Lecter. Chilton tirara o casaco e a gravata. O Dr. Lecter podia distinguir uma espécie de medalha pendurada no seu pescoço.
— Fique de pé ao lado do toalete, Barney — disse o Dr. Chilton sem levantar os olhos. — Você e os outros esperem em seus postos.
O Dr. Chilton acabou de ler a mais recente comunicação do Dr. Lecter para os Arquivos Gerais de Psiquiatria. Jogou as cartas em cima da cama e saiu da cela. Houve um lampejo por trás da máscara de hóquei quando o Dr. Lecter o seguiu com os olhos sem que sua cabeça se movesse.
Chilton foi até a carteira escolar no corredor e, cur-vando-se com dificuldade, removeu um pequeno dispositivo de escuta que estava embaixo do assento.
Agitou-o na frente dos orifícios oculares na máscara do Dr. Lecter e sentou-se de novo na cama.
— Achei que ela poderia estar procurando uma violação dos direitos civis no caso da morte de Miggs e por isso resolvi ficar à escuta — disse Chilton. — Há anos não ouvia sua voz. Suponho que a última vez foi quando você deu aquelas respostas enganadoras em minhas entrevistas e depois me ridicularizou em seus artigos no Jour-nol. É difícil acreditar que a opinião de um prisioneiro pudesse valer alguma coisa no meio da comunidade profissional, não é? Mas eu ainda estou aqui. E você também.
O Dr. Lecter nada disse.
— Anos de silêncio e então Jack Crawford manda sua pequena e você se derrete todo, não é? O que foi que deu em você, Hannibal? Foram aqueles belos, fortes tornozelos? O modo como o cabelo dela brilha? Ela é estupenda, não? Remota e estupenda. Uma pequena que é um entardecer de inverno, essa é a forma como penso nela.
Sei que faz muito tempo que você não vê um pôr-do-sol de inverno, mas acredite na minha palavra.
“Você só tem mais um dia com ela. Depois a Divisão de Homicídios de Baltimore assume o interrogatório.
Eles estão aparafusando uma cadeira no chão para você na sala de terapia de eletrochoque. A cadeira tem um assento de privada para sua conveniência, e para a conveniência deles quando ligarem os fios. Eu de nada tomarei conhecimento.
“Você já entendeu? Eles sabem Hannibal. Eles sabem que você sabe exatamente quem é Buffalo Bil . Eles pensam que você provavelmente tratou dele. Quando ouvi a Srta. Starling perguntar acerca de Buffalo Bill, fiquei intrigado. Telefonei para um amigo na Divisão de Homicídios de Baltimore. Eles encontraram um inseto na garganta de Klaus, Hannibal. Eles sabem que Buffalo Bill o matou. Crawford está fazendo você pensar que é esperto.
Não creio que você saiba quanto Crawford o odeia por ter mutilado seu protegido. Agora ele pegou você. Você ainda se sente esperto?
O Dr. Lecter observou os olhos de Chilton correndo sobre as tiras que mantinham a máscara em posição.
Estava claro que Chilton desejava removê-la para poder observar o rosto de Lecter. Lecter ficou imaginando se Chilton o faria da forma segura, por trás. Se o fizesse pela
frente,teria que passar o braço diante da cabeça de Lecter, com as veias azuis da parte interna de seus antebraços próximas ao rosto dele. Venha, doutor. Chegue mais perto. Não, ele decidiu-se em contrário.
— Você está pensando que vai para algum lugar com uma janela? Acredita que vai passear na praia, ver as aves? Eu acho que não. Telefonei para a senadora Ruth Martin e ela nunca ouviu falar em nenhum acordo com você. Tive que fazê-la relembrar quem você era. Ela nunca ouviu falar em Clarice Starling. É uma arapuca. Pequenas desonestidades são de esperar numa mulher, mas esta é de arromba, não acha?
“Quando acabarem de ordenhá-lo, Hannibal, Crawford vai acusá-lo de esconder um crime. Você tentará des-carregar a culpa em Mc’Naghten, doidamente, mas o juiz não vai gostar. Você já foi julgado por seis mortes. O juiz não irá mostrar nenhum interesse pelo seu bem-estar.
“Nada de janela, Hannibal. Você passará o resto dos seus dias sentado no chão de uma instituição do estado vendo passar na sua frente o carrinho de fraldas. Seus dentes vão cair, assim como a sua força, e ninguém mais terá medo de você, e você ficará inerte dentro da enfermaria em algum lugar como Flendauer. Os mais jovens abu-sarão de você e o usarão para fazer sexo quando tiverem vontade. Tudo o que você irá ler é o que escrever na parede. Está pensando que a justiça vai ligar para isso? Você já viu os velhos; eles choram quando não gostam do doce de abricó.
“Jack Crawford e sua gostosona. Eles vão se juntar abertamente quando a mulher dele morrer. Ele vai rejuve-nescer e os dois adotarão algum esporte que possam fazer juntos. Eles são íntimos desde que Bella Crawford ficou
doente, e já não estão enganando ninguém com isso. Ga-nharão suas promoções e não pensarão em você nem uma vez por ano. Crawford deve vir pessoalmente, no fim, pa-ra lhe dizer o que você vai ganhar. Um pau no rabo! Estou certo que ele tem o discurso preparadinho.
“Hannibal: ele não conhece você tão bem quanto eu. Ele pensava que se lhe pedisse a informação, você iria apenas atormentar a mãe da moça por isso.
“Muito certo, isso — refletiu o Dr. Lecter. — Muito esperto da parte de Jack; aquela cara obtusa caledônio-irlandesa é para enganar. O rosto dele é cheio de cicatrizes se você souber olhá-lo. Bem, possivelmente há espaço para algumas mais. .
— Sei do que você tem medo. Não é da dor nem da solidão. O que você não pode suportar é a indignidade, Hannibal, a esse respeito você é como um gato. Cuidar de você é uma questão de honra para mim, Hannibal, e eu o faço. Nenhuma consideração pessoal jamais entrou em nosso relacionamento, de minha parte. E agora estou cui-dando de você.
“Nunca houve um acordo entre você e a senadora Martin, mas agora há um. Ou poderá haver. Estive ao telefone horas a fio em seu nome e para o bem daquela pequena. Vou dizer-lhe qual é a primeira condição: você só fala por meu intermédio. Eu, somente eu, publico um relato profissional sobre isso, minha bem-sucedida entrevista com você. Você não publica nada. Tenho acesso exclu-sivo a qualquer material provindo de Catherine Martin, se ela for salva.
“Essa condição é inegociável. Você irá responder-me agora. Aceita essa condição?
O Dr. Lecter sorriu para si mesmo.
— É melhor você me responder agora ou irá responder à Divisão de Homicídios de Baltimore. Eis o que você ganhará: se identificar Buffalo Bil e a pequena for encontrada a tempo, a senadora Martin — e ela confirma-rá isso por telefone — o mandará para a Prisão Estadual de Brushy Mountain, no Tennessee, fora do alcance das autoridades de Maryland. Você estará sob a jurisdição de-la, afastado de Jack Crawford. Ficará numa cela de máxima segurança com vista para os bosques. Terá livros.
Quanto a qualquer exercício externo os detalhes serão acertados, mas tudo lhe será favorável. Diga o nome dele e você poderá partir imediatamente. A Polícia Estadual do Tennessee assumirá sua custódia no aeroporto, o governador concordou.
Por fim o Dr. Chilton disse algo interessante e ele nem sabe o que foi. . O Dr. Lecter fez um bico com os lábios vermelhos por trás da máscara. A custódia da polícia. Os policiais não são tão espertos como Barney; estão acostumados a lidar com criminosos. Sentem-se inclinados a usar ferros nas pernas e algemas. Ferros nas pernas e algemas abrem-se com uma chave. Como a minha.
— O nome dele é Billy — disse o Dr. Lecter. —
Direi o resto à senadora. No Tennessee.
CAPÍTULO 28
Jack Crawford agradeceu o café que o Dr. Danielson lhe ofereceu, mas usou o copo para desfazer um Alka-Seltzer sobre a pia de aço inoxidável por trás do posto de enfermagem. Tudo era de aço inoxidável, o porta-copo, o balcão de lixo, os aros dos óculos do Dr. Danielson. O
metal brilhante sugeria o brilho de instrumentos e produzia em Crawford uma ferroada característica na área in-guinal. Ele e o médico estavam sozinhos na pequena copa.
— Não, sem uma ordem judicial você não o fará —
repetiu o Dr. Danielson. Dessa vez ele foi brusco, para compensar a hospitalidade que mostrara com o café.
Danielson era o Chefe da Clínica de Identificação de Sexos na Johns Hopkins e havia concordado em se encontrar com Crawford antes da primeira luz da manhã, antes da visita matinal.
— Você terá que me mostrar uma ordem judicial para cada caso especifico e nós vamos discutir cada um deles. O que Columbus e Minnesota lhe disseram? A mesma coisa, estou certo disso.
— O Ministério da Justiça está se dirigindo a eles neste momento. Temos que andar rápido, doutor. Se a moça ainda não está morta, ele a matará em breve, esta noite ou amanhã. Depois agarrará a próxima — disse Crawford.
— O fato de você mencionar Buffalo Bill junta-mente com os problemas de que tratamos aqui é uma ignorância injusta e perigosa, Sr. Crawford. Fico com os cabelos em pé ao pensar nisso. Levamos anos, e ainda não
acabamos nosso trabalho, para mostrar ao público que transexuais não são loucos, que não são pervertidos, que não são excêntricos — o que quer que isto signifique..
— Concordo com o senhor. .
— Espere um pouco! A incidência de violência entre os transexuais é bem menor do que na população em geral. Eles são pessoas decentes com um problema real, um problema tremendamente difícil. Merecem ajuda e nós podemos dispensá-la. Não permitirei uma caça às bruxas.
Nunca violamos a confiança de um paciente e nunca o faremos. É melhor que o senhor aja lembrando isso, Sr.
Crawford.
Havia meses, na sua vida privada, que Crawford vinha tratando com os médicos e as enfermeiras de sua mulher, tentando com a maior esperteza conseguir pequenas vantagens para ela. Estava farto de médicos. Agora, porém, não se tratava da sua vida particular. Era Baltimore e era serviço. Mantenha-se calmo agora.
— Acho que não me fiz entender bem, doutor.
Culpa minha. É madrugada e não sou um bom madruga-dor. O resumo de tudo é que o homem que procuramos não é seu paciente. Seria alguém que os senhores recusa-ram depois de reconhecer que ele não era um transexual.
Não estamos aqui voando às cegas. Eu lhe mostrarei algumas formas específicas pelas quais ele se desvia dos padrões tipicamente transexuais em seu inventário de personalidades. Aqui está uma curta lista de coisas que sua equipe poderia procurar entre aqueles que foram rejeitados.
O Dr. Danielson esfregava um lado do nariz com o dedo enquanto lia. Devolveu o papel.
— Isso é original, Sr. Crawford; de fato, é extremamente bizarro, uma palavra que não uso muito amiúde.
Posso perguntar quem lhe forneceu esse conjunto de. .
conjeturas?
Não acho que o senhor vá gostar disso, Dr. Danielson.. — A equipe da Ciência do Comportamento — esclareceu Crawford — , depois de consultar o Dr. Alan Bloom, da Universidade de Chicago.
— Alan Bloom endossou isso?
— E nós não dependemos apenas dos testes. Há uma outra maneira pela qual Buffalo Bill possivelmente se destacará em seus registros: provavelmente ele tentou esconder um registro de violência criminal ou falsificou outro material envolvendo seu passado. Mostre-me os casos que o senhor rejeitou, doutor.