O Silêncio dos Inocentes
1 para ele.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Danielson estava o tempo todo sacudindo a cabeça.
— Exames e material de entrevistas são confidenciais. — Dr. Danielson, como podem fraude e informações falsas ser confidenciais? Como pode o nome real de um criminoso e seu passado real inserir-se numa relação paciente-médico quando ele nunca lhe disse a verdade, o senhor tendo que descobri-la por si mesmo? Sei quão rígida a Johns Hopkins é. O senhor deve ter vários casos co-mo este, estou certo. Viciados em cirurgia apelam a todo lugar em que se pratica cirurgia. Isso não afeta a instituição ou os pacientes legítimos. O senhor pensa que loucos também não procuram o FBI? Nós os temos a toda hora.
Um homem com uma cabeleira à Moe Ritz apareceu em St. Louis na semana passada; tinha uma bazuca, dois fo-guetes e uma barretina militar de pele de urso no seu saco de golfe.
— Os senhores o admitiram no FBI. .?
— Ajude-me, Dr. Danielson. O tempo está se es-gotando. Enquanto ficamos aqui a discutir, Buffalo Bill pode estar transformando Catherine Martin numa coisa como esta — e Crawford pôs uma fotografia sobre a mesa brilhante.
— Não faça isso — disse o Dr. Danielson. — É
uma criancice você forçar a barra comigo. Fui cirurgião de combate, Sr. Crawford. Ponha sua foto de volta no bolso.
— Certamente um cirurgião pode suportar a visão de um corpo mutilado — prosseguiu Crawford, amassan-do seu copo de papel e pisando no pedal da lata de lixo.
— Mas não acho que um médico possa admitir a perda de uma vida. — Deixou cair o copo e a tampa da lata fechou-a com um barulho exagerado. — Aqui está minha melhor oferta: não pedirei informações sobre pacientes, apenas informações sobre pedidos de cirurgias, com base em certas referências. O senhor e sua equipe de revisão psiquiátrica podem manusear os pedidos rejeitados muito mais depressa do que eu. Se encontrarmos Buffalo Bil por informação sua, ocultarei o fato. Para fins de registro, encontrarei outra maneira pela qual poderíamos tê-lo feito.
— A Johns Hopkins poderia ser uma testemunha protegida, Sr. Crawford? Poderíamos ter uma nova identidade? Ficar com o apelido de Colégio Bob Jones, digamos? Duvido muito que o FBI ou qualquer outra agência do governo possa manter tal segredo por muito tempo.
— O senhor ficaria surpreso se soubesse..
— Duvido. Tentar escapar de uma inepta mentira burocrática poderia ser mais danoso do que dizer a verdade. Por favor, jamais nos proteja desta maneira, muito obrigado. .
— Muito obrigado ao senhor, Dr. Danielson, por suas observações humorísticas. São muito úteis para mim, como vou mostrar-lhe num minuto. O senhor gosta da verdade — pois ouça esta: o bandido rapta mulheres jovens e arranca-lhes a pele. Veste essas peles e se diverte metido nelas. Não desejamos que ele continue fazendo isso. Se o senhor não me ajudar tão rápido quanto lhe for possível, eis o que farei: Nesta manhã mesmo o Ministério da Justiça expedirá publicamente uma ordem legal, alegando que o senhor se recusou a ajudar. Faremos isso du-as vezes por dia, com tempo suficiente para alcançar os jornais da manhã e da tarde. Toda notícia liberada pelo Ministério sobre este caso dirá como estamos nos arranjando com o Dr. Danielson da Johns Hopkins, tentando fazer com que ele colabore. Toda vez que houver notícia sobre o caso Buffalo Bil — quando Catherine aparecer boiando, quando a próxima aparecer boiando, e quando mais uma aparecer boiando — , imediatamente liberare-mos uma notícia para os jornais sobre como vamos indo com o Dr. Danielson da Johns Hopkins, inclusive seus comentários humorísticos sobre o Colégio Bob Jones.
Mais uma coisa, doutor. O senhor sabe que o Serviço de Saúde Humana fica exatamente aqui em Baltimore. Meus pensamentos estão se dirigindo para o Escritório de Política de Elegibilidade, e espero que os seus pensamentos cheguem lá primeiro, está bem? Que tal se a senadora Martin, algum tempo após o funeral da filha, fizesse aos camaradas da Elegibilidade a seguinte pergunta: As opera-ções de mudança de sexo que os senhores fazem aqui não deveriam ser consideradas cirurgias plásticas? Talvez eles cocem a cabeça e decidam: “Ora, sabem de uma coisa? A senadora Martin está certa. Sim. Consideramos que é ci-
rurgia plástica.” Então o seu programa não se qualificará para uma ajuda federal mais do que uma clínica de cirurgia plástica do nariz.
— Isso é um insulto!
— Não; é apenas a verdade.
— O senhor não me assusta, o senhor não me in-timida. .
— Muito bem. Eu não desejo fazer nenhuma das duas coisas, doutor. Só desejo fazê-lo saber que estou falando sério. Ajude-me, doutor. Por favor.
— Você afirmou que está trabalhando com o Dr.
Alan Bloom. — Sim. Na Universidade de Chicago.
— Conheço Alan Bloom e preferiria discutir o caso num nível profissional. Avise-o que entrarei em contato com ele esta manhã. Eu lhe direi o que decidi antes do meio-dia. Eu me preocupo com a jovem, Sr. Crawford. E
com as outras. Mas aqui entra muita coisa em jogo e não acho que deva ser tão importante para o senhor quanto é. . Sr. Crawford, o senhor testou sua pressão arterial recentemente?
— Eu mesmo o faço.
— E o senhor também se medica sozinho?
— Isso é contra a lei, Dr. Danielson.
— Portanto o senhor tem um médico.
— Sim.
— Participe-lhe os seus resultados, Sr. Crawford.
Que perda para todos nós se de repente o senhor caísse morto. Entrarei em contato com o senhor mais tarde, hoje mesmo.
— Dentro de quanto tempo, doutor? Que tal uma hora? — Uma hora.
O beeper de Crawford soou quando ele saia do elevador. Jeff, seu motorista, estava acenando para ele enquanto Crawford corria apressado em direção ao furgão.
Ela está morta, acharam-na, pensou Crawford quando agarrou o fone. A chamada era do diretor. As notícias não foram tão ruins quanto poderiam ser, mas também não eram boas! Chilton interferira no caso e agora a senadora Martin estava se metendo. O promotor público do Estado de Maryland, mediante instruções do governador, tinha autorizado a transferência para o Tennessee do Dr. Hannibal Lecter. Seria necessário todo o prestigio da Corte Federal do Distrito de Maryland para impedir ou protelar a remoção. O diretor queria uma opinião de Crawford e a queria agora mesmo.
— Espere um pouco — reagiu Crawford. Descansou o fone sobre a perna e olhou pela janela do furgão.
Não havia muita cor em fevereiro para a primeira luz do dia. Tudo cinza, tudo frio.
Jeff começou a resmungar e Crawford mandou que se calasse com um gesto da mão.
O monstruoso ego de Lecter. A ambição de Chilton. O terror da senadora Martin por sua filha. A vida de Catherine. Tudo bem!
— Deixe que prossigam — falou ao telefone.
CAPÍTULO 29
O Dr. Chilton e três soldados da milícia do Tennessee com o uniforme bem passado estavam de pé, bem juntos, na pista de asfalto varrida pelo vento ao raiar do dia. Erguiam suas vozes acima do barulho do pesado tráfego de rádio que vinha da porta aberta do Grumman Gulfstream e de uma ambulância com o motor ligado ao lado do avião.
O capitão encarregado do grupo passou uma caneta ao Dr. Chilton. Os papéis se agitaram na ponta da prancheta e o policial teve que segurá-los.
— Não podemos fazer isso no ar? — perguntou Chilton.
— Senhor, é preciso complementar a documentação no momento da transferência. Estas são as minhas instruções.
O co-piloto acabou de fixar a rampa nos degraus da escada do avião.
— O.K. — aprovou ele.
Os soldados reuniram-se com o Dr. Chilton atrás da ambulância. Quando ele abriu a porta, ficaram tensos como se estivessem esperando que algo estranho fosse saltar de dentro.
Viram o Dr. Lecter de pé, envolto em faixas de lo-na e usando sua máscara de hóquei. Estava esvaziando a bexiga enquanto Barney segurava o urinol.
Um dos soldados ensaiou um risinho; os outros desviaram os olhos.
— Desculpe — disse Barney ao Dr. Lecter, e fechou a porta por mim.
— Deixe estar, Barney — apaziguou o Dr. Lecter.
— Eu já terminei. Obrigado.
Barney arrumou a roupa de Lecter e rolou o carrinho para a traseira da ambulância.
— Barney?
— Diga, Dr. Lecter.
— Você foi decente comigo por muito tempo. Obrigado.
— Não há de quê.
— Da próxima vez que o Sammie estiver calmo, diga-lhe adeus.
— Por certo.
— Adeus, Barney.
O guarda corpulento reabriu as portas e disse aos policiais:
— Peguem por baixo, camaradas. Agarrem dos dois lados. Coloquem-no no chão. Devagar!
Barney empurrou o carrinho com o Dr. Lecter rampa acima e para dentro do avião. Três assentos tinham sido retirados no lado direito do aparelho. O co-piloto prendeu o carrinho às presilhas soltas dos assentos.
— Ele vai voar deitado? — perguntou um dos milicianos. Tem fraldas de borracha?
— Você terá que se agüentar sem urinar até Memphis, camarada — disse o outro soldado.
— Dr. Chilton, eu poderia dar-lhe uma palavrinha?
— perguntou Barney.
Estavam fora do avião e o vento levantava pequenos torvelinhos de poeira e lixo em volta deles.
— Esses camaradas não têm a menor prática —
comentou Barney.
— Terei alguma ajuda do outro lado. Guardas psi-quiátricos experientes. Agora o Dr. Lecter está sob a responsabilidade deles.
— O senhor pensa que vão tratá-lo bem? O senhor sabe como ele é.. tem-se que ameaçá-lo com uma solidão absoluta. É só o que ele teme. Bater nele não adianta nada.
— Eu nunca permitiria isso, Barney.
— O senhor vai estar lá quando o interrogarem?
— Sim. — E você não estará. . acrescentou Chilton para si mesmo.
— Eu poderia instalá-lo no outro lado, e estaria de volta apenas umas duas horas atrasado para o meu turno
— sugeriu Barney.
— Ele não está mais sob a sua responsabilidade, Barney. E eu estarei lá. Explicarei a eles como devem tratá-lo, passo a passo.
— É melhor que fiquem atentos — disse Barney.
— Ele ficará..
Í
CAPÍTULO 30
Clarice Starling, sentada na beira de sua cama no motel, ficou olhando para o telefone negro por quase um minuto depois que Crawford desligou. Tinha o cabelo despenteado e enrolara a camisola da Academia em torno do corpo ao agitar-se durante o curto sono. Sentia-se co-mo se tivesse levado um soco no estômago.
Fazia apenas três horas que ela tinha deixado o Dr.
Lecter e duas desde que ela e Crawford tinham acabado de trabalhar na folha de características para checar os pedidos de internação no centro médico. Naquele curto intervalo, enquanto ela dormia, o Dr. Frederick Chilton conseguira estragar tudo.
Crawford vinha buscá-la. Precisava aprontar-se, tinha que pensar em preparar-se.
Que porra! Que PORRA! QUE PORRA! O senhor a matou, Dr. Chilton. O senhor a matou, doutor de merda! Lecter sabia mais alguma coisa e eu poderia tê-la arrancado dele. Tudo perdido, tudo perdido!
Quando Catherine boiar, vou fazê-lo dar uma olhada nela, juro que vou! Você a roubou de mim. Agora preciso fazer alguma coisa útil. Agora mesmo. O que posso fazer agora, neste minuto? Preparar-me.
No banheiro, um cestinho com sabonetes, vidros de xampu e loção, um pequeno jogo para costurar, os ob-séquios que se recebem num bom motel.
Ao entrar debaixo do chuveiro, Starling teve uma rápida visão dela mesma aos oito anos, trazendo toalhas, xampu e sabonete para sua mãe que limpava os quartos do motel. Quando tinha oito anos havia um corvo — um de um bando naquela ventosa e amarga cidade — , e esse corvo gostava de roubar coisas do carro de limpeza de quartos do motel. Ele roubava qualquer coisa brilhante. O
corvo esperava uma oportunidade e então remexia entre as muitas coisas que havia no carro. Às vezes, tendo que levantar vôo numa emergência, defecava na roupa de ca-ma limpa. Uma das outras mulheres da limpeza jogou detergente nele. O único efeito foi manchar suas penas com marcas brancas como neve. O corvo branco e preto estava sempre vigiando Clarice, esperando que ela se afastasse do carro para levar coisas à mãe que limpava os banheiros. A mãe estava de pé na porta de um banheiro do motel quando lhe disse que ela devia partir para viver em Montana. A mãe arriou as toalhas que tinha na mão, sentou-se na beirada da cama do motel e abraçou-a. Starling ainda sonhava com o corvo e via-o agora, sem tempo sequer para pensar por quê. Sua mão subiu num movimento de carícia e então, como se necessitasse de uma desculpa para o gesto, elevou-a até a testa e afastou para trás o cabelo úmido. Vestiu-se rapidamente: slacks, uma blusa, um suéter leve sem mangas, a pistola de cano curto contra as costelas no coldre chato, o carregador rápido debaixo do cinto, no outro lado. Seu blazer precisava de um pouco de atenção. Uma costura do forro em cima do carregador rápido estava se descosturando. Ela se dispôs a ficar ocupada, bem ocupada, até se acalmar. Pegou o pequeno estojo de costura do motel e consertou o forro. Alguns agentes cos-turavam arruelas nas bordas dos casacos, de maneira que caíssem normalmente; ela teria que fazer isso.
Crawford estava batendo à porta.
CAPÍTULO 31
Na experiência de Crawford a raiva fazia as mulheres parecerem relaxadas. A raiva arrepiava seu cabelo atrás, pintava o diabo com sua cor e fazia-as esquecer de fecharem seus zíperes. Qualquer traço menos atraente era exagerado. Starling parecia exatamente ela mesma quando abriu a porta do quarto do motel, mas estava com uma raiva danada.
Crawford sabia que talvez agora conhecesse uma grande e nova verdade acerca de Starling.
Uma fragrância de perfume e de vapor invadiu-o quando ela apareceu no limiar da porta. As cobertas do leito atrás haviam sido puxadas sobre o travesseiro.
— O que você acha da situação, Starling?
— Eu acho que tudo se danou, Sr. Crawford; e o senhor, o que acha?
Ele assentiu com a cabeça.
— A lanchonete na esquina já está aberta. Vamos tomar um café.
Era uma manhã amena para fevereiro. O sol, ainda baixo a leste, lançava um reflexo vermelho na fachada do asilo quando por ele passaram. Jeff seguia-os vagarosamente no furgão, os rádios fazendo barulho. A certa altura passou o fone pela janela aberta, e Crawford teve uma breve conversa pelo rádio.
— Podemos abrir um processo contra Chilton, por obstrução à justiça?
Starling caminhava um pouco à frente dele, mas Crawford pôde ver que os músculos do seu maxilar se retesaram quando ela fez a pergunta.
— Não, não daria resultado.
— Que tal se ele a desgraçar, se Catherine morrer por causa do Chilton? Eu desejo realmente jogar isso na cara dele... Deixe-me continuar com este caso, Sr. Crawford. Não me mande de volta para a escola.
— Ocorrem duas coisas. Se eu mantiver você, não será para jogar a verdade na cara do Chilton, isso poderá ficar para mais tarde. Segundo: se eu a retiver por muito mais tempo, você terá que repetir parte do curso, o que vai lhe custar alguns meses. A Academia não dá folga a ninguém. Eu posso garantir que você voltará, mas isso é tudo. . Haverá um lugar reservado parra você, é só o que posso lhe garantir.
Ela inclinou a cabeça bem para trás e depois abaixou-a de novo enquanto andava.
— Talvez essa não seja uma pergunta delicada para fazer ao chefe, mas o senhor está metido em alguma encrenca? A senadora Martin pode fazer algo contra o senhor? — Starling, devo me aposentar dentro de dois anos.
Se eu descobrir Jimmy Hoffaman e o assassino do Tyle-nol, ainda assim tenho que pendurar as chuteiras. Não me preocupo com isso.
Crawford, sempre cauteloso em demonstrar qualquer sentimento, sabia quanto precisava ser prudente. Sabia que um homem de meia-idade pode desejar com tal desespero ser prudente que é capaz de inventar alguma coisa, e que isso pode ser fatal para uma jovem que acredita nele. Assim, falou muito cuidadosamente e apenas de coisas que sabia.
O que transmitiu a ela naquela feia Rua de Baltimore, aprendera numa sucessão de madrugadas geladas na
Coréia, numa guerra que acontecera antes mesmo de ela nascer. Evitou a parte da Coréia, achando que não necessitava disso para emprestar autoridade ao que dizia.
— Este é o período mais duro, Starling. Aproveite-o bem e ele irá endurecê-la. Agora vem o teste mais difícil: não deixar que a raiva e a frustração a impeçam de pensar.
Isso é o essencial para sabe se você pode comandar ou não. O desperdício e a estupidez são os que mais pode afetar você. Chilton é um maldito estúpido e pode ter causado a morte de Catherine Martin. Mas talvez não.. Nós somos a chance dela. Starling, qual é a temperatura do nitrogênio líquido no laboratório?
— Hem? Ah, nitrogênio líquido. . cerca de 200
graus centígrados negativos; ferve um pouco acima disso.
— Você alguma vez congelou alguma coisa com e-le?
— Por certo.
— Chega. . está bem? — Ele sorriu, mostrando dentes pequenos como os de uma criança.
Starling riu para ele, apesar de toda sua preocupação. Quando correu para o furgão, deu-lhe um adeus com a mão sem se voltar.
Crawford ficou satisfeito com aquilo.
CAPÍTULO 32
O Grumman Gulfstream que levava o Dr. Hannibal Lecter pousou em Memphis soltando duas nuvenzi-nhas de fumaça azul dos pneus. Seguindo instruções da torre, ele taxiou em direção aos hangares da Guarda Nacional Aérea, longe dos terminais de passageiros. Uma ambulância do Serviço de Emergência e uma limusine aguardavam dentro do primeiro hangar.
A senadora Ruth Martin observava através do vidro esfumaçado da limusine quando os milicianos estaduais rolaram o carrinho do Dr. Lecter para fora do avião. Teve vontade de correr para a figura amarrada e mascarada e arrancar-lhe a informação, mas era inteligente bastante para conter-se.
O telefone da senadora Martin tocou. Seu assistente, Brian Gossage, apanhou-o do assento extra.
— É o FBI. . Jack Crawford — informou Gossage.
A senadora Martin estendeu a mão para o fone sem tirar os olhos do Dr. Lecter.
— Por que não me informou sobre o Dr. Lecter, Sr. Crawford.
— Tive receio que a senhora fizesse exatamente o que está fazendo, senadora.
— Não quero brigar com o senhor, Sr. Crawford.
Se o senhor me hostilizar, vai se arrepender.
— Onde está agora o Dr. Lecter?
— Estou olhando para ele.
— Ele pode ouvi-la?
— Não.
— Senadora Martin, escute-me. A senhora deseja dar garantias pessoais ao Lecter. . muito bem! muito bem!
Mas faça uma coisa por mim: deixe o Dr. Bloom instruí-la antes que a senhora enfrente Lecter. Bloom pode ajudá-la, acredite.
— Eu já tenho um conselheiro profissional.
— Espero que seja melhor do que Chilton.
O Dr. Chilton estava batendo com os dedos na janela da limusine. A senadora Martin mandou Gossage a-tendê-lo fora do carro.
— Uma luta interna é desperdício de tempo, Sr.
Crawford. O senhor mandou uma recruta inexperiente a Lecter com uma oferta falsa. Eu posso agir melhor do que isso. O Dr. Chilton diz que Lecter é capaz de responder a uma oferta legítima e estou lhe apresentando uma, sem burocracia, sem testemunhas, sem questões de credibili-dade. Se tivermos Catherine de volta ilesa, todo mundo vai se sentir bem, inclusive o senhor. Se ela. . morrer, eu não darei porra de importância nenhuma a desculpas!
— Use-nos, então, senadora Martin.
Ela não notou raiva na voz dele, apenas uma frieza profissional que reconheceu logo. Respondeu-lhe:
— Prossiga.
— Se a senhora conseguir alguma coisa, deixe-nos agir com base no que obtiver. Certifique-se de que nos transmitiu tudo. Certifique-se de que a polícia local coopera. Não os deixe pensar que lhe agradarão se nos excluí-rem. — Paul Krendler, do Ministério da Justiça, está vindo para cá. Ele cuidará disso.
— Qual é o seu policial mais graduado aí?
— O major Bachman, do Tennessee Bureau of Investigation.
— Bom. Se já não for muito tarde, tente um ble-caute da mídia. Será melhor se ameaçar Chilton a esse respeito. Ele adora chamar atenção. Não queremos que Buffalo Bil saiba qualquer coisa. Quando o encontrarmos, vamos usar o Grupo de Resgate de Reféns. Devemos atingi-lo rapidamente e evitar um impasse. A senhora ten-ciona questionar Lecter pessoalmente?
— Sim.
— Gostaria de falar com Clarice Starling primeiro?
Ela está a caminho.
— Com que finalidade? O Dr. Chilton fez um sumário daquele material para mim. Nós já perdemos muito tempo...
Chilton estava de novo batendo na janela, pronun-ciando palavras através do vidro. Brian Gossage pegou no seu pulso enquanto sacudia a cabeça.
— Preciso ter acesso ao Dr. Lecter depois que a senhora falar com ele.
— Sr. Crawford: ele prometeu que revelará o nome de Buffalo Bil em troca de privilégios, realmente, como-didades. Se não fizer isso, o senhor pode ficar com ele para sempre.
— Senadora Martin, vou dizer-lhe uma coisa delicada, mas tenho que dizê-la à senhora: o que quer que fa-ça, nunca lhe implore!
— Certo, Sr. Crawford. Mas agora não posso continuar a falar-lhe. — E desligou o telefone. — “Se eu estiver errada, ela não estará mais morta que as últimas seis de que o senhor cuidou.. ” — disse para si mesma, e mandou Gossage e Chilton entrarem no carro.
O Dr. Chilton tinha pedido um escritório em Memphis para a entrevista da senadora Martin com Hannibal Lecter. Para economizar tempo, uma sala de reuni-ões da Guarda Nacional Aérea no hangar fora rearrumada rapidamente para o encontro.
A senadora Martin teve que esperar do lado de fora do hangar enquanto Chilton instalava Lecter na sala im-provisada. Ela não agüentara ficar dentro do carro. Andava em volta de um pequeno círculo embaixo do alto teto do hangar, olhando lá em cima as altas vigas cruzadas e depois baixando os olhos para as tiras pintadas no piso.
Uma vez parou ao lado de um velho Phantom F-4 e descansou a cabeça de encontro àquele corpo frio onde estava escrito em estêncil NÃO PISE. Este aviso deve ser mais velho do que Catherine. Meu bom Jesus, me acuda!
— Senadora Martin — o major Bachman estava a chamá-la.
Chilton, da porta, convidava-a a entrar.
Na sala havia uma mesa para Chilton e cadeiras pa-ra a senadora Martin, seu assistente e o major Bachman.
Um cameraman estava a postos para registrar o encontro.
Chilton informara que era uma das condições de Lecter.
A senadora Martin entrou, parecendo bem-disposta. Seu conjunto azul-marinho recendia a poder. Ela também incutira uma boa aparência em Gossage.
O Dr. Hannibal Lecter estava sentado no meio da sala, numa pesada poltrona de carvalho aparafusada no chão. Um cobertor cobria sua camisa-de-força e as presilhas nas pernas, escondendo o fato de ele estar acorrentado na cadeira. Além disso, ainda usava a máscara de hóquei que o impedia de morder.
“Por quê? — pensou a senadora Martins a idéia inicial fora permitir ao Dr. Lecter alguma dignidade num ambiente de escritório. A senadora Martin deu uma olhada para Chilton e virou-se para Gossage, pedindo os papéis. Chilton dirigiu-se para trás do Dr. Lecter e, fitando diretamente a câmara, desfez as amarras e retirou a máscara com um floreio.
— Senadora Martin, apresento-lhe o Dr. Hannibal Lecter. Ver o que o Dr. Chilton fizera a título de exibicio-nismo assustou a senadora Martin mais do que qualquer coisa desde que sua filha desaparecera. Qualquer confiança que ela tivesse tido no bom senso de Chilton desapareceu ante a fria evidência de que ele era um idiota.
Mas tinha que tocar para a frente.
Uma madeixa do cabelo do Dr. Lecter caiu entre seus olhos castanhos. Ele estava tão pálido quanto a máscara. A senadora Martin e o Dr. Lecter encararam um ao outro — ela extremamente brilhante, ele impossível de avaliar por qualquer meio conhecido pelo homem.
O Dr. Chilton voltou à sua mesa, correu os olhos em volta dos presentes e começou:
— O Dr. Lecter fez-me saber, senadora, que ele deseja contribuir para a investigação com alguns conhecimentos especiais, em troca de certas regalias ligadas às condições da sua prisão.
A senadora Martin segurou na mão um documento:
— Dr. Lecter, este é um compromisso que assinarei agora. Diz que eu o ajudarei. Deseja lê-lo?
Ela pensava que Lecter não ia responder e já se voltava para a mesa a fim de assinar, quando ele disse:
— Não vou fazê-la perder seu tempo e o de Catherine barganhando por privilégios mesquinhos. Gente car-reirista já desperdiçou bastante tempo. Deixe que eu a ajude agora e confio em que a senhora me ajudará quando isto terminar.
— Pode contar com isso. — Voltou-se para o assistente: Brian?
Gossage levantou sua prancheta.
— O nome de Buffalo Bill é William Rubin. Conhecido como Bil y Rubro. Foi-me apresentado em abril ou maio de 1975 por meu paciente Benjamin Raspail. Disse que vivia em Filadélfia, não posso lembrar-me do endereço, mas estava na ocasião morando com Raspail em Baltimore. — Onde estão seus registros? — interrompeu o major Bachman.
— Meus registros foram destruídos por ordem da Justiça pouco depois..
— Qual era a aparência dele? — perguntou o major Bachman.
— Me dá licença, major? Senadora Martin, a única. . — Dê-me sua idade e uma descrição física, qualquer outra coisa de que possa se lembrar — insistiu o major Bachman.
O Dr. Lecter simplesmente apagou. Pensou em outra coisa: nos estudos anatômicos de Géricault para A jan-gada da Medusa, e se ouviu as perguntas que se seguiram não o demonstrou.
Quando a senadora Martin recuperou a atenção de-le, estavam sozinhos na sala. Ela tinha nas mãos a prancheta de Gossage.
Os olhos de Lecter focalizaram-se nos dela.
— Aquela bandeira cheira a charutos — disse ele.
Você alimentou Catherine ao peito?
— Perdão? Eu fiz o quê?
— Alimentou Catherine ao seio?
— Sim.
— São uns bichinhos sedentos, não?
Quando as pupilas dela sombrearam, o Dr. Lecter provou uma única amostra da dor que ela sentiu e achou-a esquisita. Considerou que era o bastante para aquele dia.
— William Rubin tem um metro e oitenta e três e deve estar hoje com 35 anos. É muito forte, cerca de 86
quilos quando eu conheci e aumentou de peso desde então, creio. Tem o cabelo castanho e olhos azuis, pálidos.
Dê isso a eles e então prosseguiremos.
— Sim, eu o farei — disse a senadora Martin. Passou as nota para fora da porta.
— Só o vi uma vez. Ele marcou outra consulta, mas não voltou.
— Por que o senhor pensa que ele é Buffalo Bil ?
— Já naquele tempo ele assassinava moças e fazia coisas assim com elas, anatomicamente. Disse que precisava de alguma ajuda para parar, mas na verdade só queria conversar fiado sobre os seus feitos. Apenas prosear-se.
— E o senhor não. . ele estava certo de que o senhor não iria denunciá-lo?
— Ele não estava certo, mas gostava de arriscar-se.
Eu honro a confiança do seu amigo Raspail.
— Raspail sabia que ele andava fazendo isso?
— Os apetites de Raspail eram os mais estranhos, ele estava coberto de cicatrizes.
“Billy Rubin disse-me que tinha um prontuário criminal, porém sem detalhes. Fiz uma curta ficha médica.
Nada tinha de excepcional, exceto por uma coisa: Rubro me disse que certa vez sofreu de um antraz. Isto é tudo do que me lembro, senadora Martin creio que a senhora está ansiosa para sair. Se qualquer outra coisa me ocorrer, eu lhe mandarei um recado.
— Bil Rubin matou a pessoa cuja cabeça estava no carro? — Acredito que sim.
— O senhor sabe quem é essa pessoa?
— Não. Mas Raspail chamava-o de Klaus.
— As outras coisas que o senhor disse ao FBI eram verdadeiras
— Pelo menos tão verdadeiras quanto as que o FBI me disse, senadora.
— Fiz alguns arranjos temporários para o senhor aqui em Memphis. Conversaremos sobre sua situação e o senhor irá para Brushy Mouniain quando isto.. quando tivermos resolvido isto.
— Obrigado. Gostaria de um telefone, se eu lembrar de alguma coisa.
— O senhor o terá.
— E música. Glenn Gould, as Variações Goldberg.
Será que é pedir demais?
— Está bem.
— Senadora Martins não confie nenhuma pista exclusivamente ao FBI. Jack Crawford nunca joga limpo com as outras agências. É um jogo complicado o dessa gente.. Ele está decidido a realizar a prisão ele mesmo.
Um “fominha” é como o chamam.
— Muito obrigada, Dr. Lecter.— Gostei muito do seu conjunto — acrescentou quando ela se dirigia para a porta.
CAPÍTULO 33
Jame Gumb percorre quarto após quarto, o porão, como um labirinto que nos atormenta e aos nossos sonhos. Quando ele ainda era encabulado, séculos e séculos atrás, o Sr. Gumb gostava dos quartos mais afastados, longe das escadas.
Existem quartos nos cantos mais remotos, quartos de outras vidas, que Gumb não abre há anos. Alguns deles ainda estavam ocupados, por assim dizer, embora os sons por trás das portas tenham atingido um auge e descamba-do para o silêncio há muito tempo.
Os níveis do chão variam de quarto para quarto, as diferença chegando até a 30 centímetros. Há soleiras a subir, topos de porta onde é preciso curvar-se. Cargas são impossíveis de rolar e penosa de arrastar. Fazer marchar qualquer coisa à sua frente — aos tropeções e chorando, implorando, batendo com a cabeça às tontas é difícil, até mesmo perigoso.
Quando ficou mais esperto e confiante, o Sr. Gumb não acha mais que devia satisfazer suas necessidades nas partes ocultas do porão. Ele agora usa um conjunto de quartos em volta da escada quartos espaçosos, providos de água corrente e eletricidade.
O porão permanece em total pretume.
Abaixo do chão arenoso, na masmorra, Catherine Martin permanece quieta.
O Sr. Gumb está aqui no porão, mas não nesta câmara. O quarto que fica atrás da escada é negro para a vista humana, mas cheio de pequenos sons. Água escorre
e pinga, e pequenas borbas zumbem. Com mal audíveis ecos, o quarto parece grande.
O ar é úmido e fresco; tem um cheiro de verdura.
Uma batida de asas contra o rosto, uns poucos estalidos no ar. Um baixo som nasal de prazer, um som humano.
O quarto não reflete nenhum dos comprimentos de onda acessíveis ao olho humano, mas o Sr. Gumb está aqui e pode ver muito bem, embora veja tudo em sombras e tons de verde. Ele está usando um excelente par de óculos infravermelho (excedente militar de Israel, menos do que 400 dólares) e dirige o feixe de uma lanterna infravermelha para a gaiola de arame à sua frente. Está sentado na borda de uma cadeira reta, absorvido, observando um inseto que trepa numa planta na gaiola de arame. A jovem imago acaba de sair de uma crisálida rachada na terra úmida do chão da gaiola. Ela trepa cautelosamente num galho de dulcamara, procurando um espaço para desdobrar suas novas asas úmidas, ainda presas às suas costas. Escolhe um galho horizontal.
O Sr. Gumb precisa entortar a cabeça para ver.
Pouco a pouco as asas se enchem de sangue e de ar. Elas ainda estão presas umas às outras nas costas do inseto.
Passam-se duas horas. O Sr. Gumb quase não se mexeu. Ele acende e apaga a lâmpada infravermelha para surpreender-se com o progresso que o inseto faz. Para passar o tempo, projeta a luz pelo resto do quarto — sobre os grandes aquários cheios de solução vegetal de tau-rino. Em cima de pranchas e padiolas, dentro dos tanques, suas recentes aquisições destacam-se como pedaços de estatuária clássica quebrada e verde no fundo do mar. Sua luz movimenta-se sobre a grande mesa de trabalho galva-nizada com seu eixo horizontal de metal, anteparas e dre-
nos, e toca no guincho que lhe fica por cima. De encontro à parede, compridas pias industriais. Tudo em imagens verdes de infravermelho filtrado. Bater de asas, riscos de fosforescência cruzam-lhe a visão, pequenas caudas como cometas de mariposas soltas no quarto.
Dirige a lanterna para a gaiola exatamente a tempo.
O grande inseto distendeu as asas sobre as costas, escondendo e distorcendo suas marcas. Agora traz as asas para baixo, para vestir seu corpo e o famoso desenho aparece nítido. Uma caveira humana, maravilhosamente executada nas escamas que parecem pêlos, encara-nos das costas da mariposa. Debaixo da sombreada abóbada do crânio vê-em-se os negros buracos dos olhos e as proeminentes maçãs do rosto. Por baixo delas uma mancha escura semelha uma mordaça acima do maxilar A caveira descansa numa marca com o topo de um osso pélvico.
Um crânio colocado sobre a pelve, tudo desenhado sobre as asas de uma mariposa por um acidente da natureza. O Sr. Gumb sente-se bem e leve no seu intimo. Inclina-se para frente e sopra delicadamente sobre a mariposa. Esta levanta a tromba e demonstra com um ruído sua zanga. Ele caminha em silêncio com sua luz até o quarto da masmorra. Abre a boca para silenciar a respiração. Não quer estragar seu humor com qualquer barulho vindo do poço. As lentes de seus óculos, nos pequenos aros que se projetam ligeiramente, parecem olhos de caranguejos. O
Sr. Gumb sabe que os óculos não são nada atraentes, mas ele já se divertiu muito com eles no porão negro, fazenda aqueles jogos de porão.
Inclina-se e lança sua luz invisível dentro do poço.
O material está deitado de lado, dobrado como um camarão, parece estar dormindo. O balde para servir-se está ao lado dele. Ela não rebentou de novo, tolamente, a cordinha, tentando içar-se pelas paredes a pino. Em seu sono ele segura o canto do cobertor contra o rosto e chu-pa o polegar.
Observando Catherine, passando com o feixe infravermelho para cima e para baixo no seu corpo, o Sr.
Gumb se prepara para os problemas muito reais que aparecem à sua frente.
Lidar com a pele humana é monstruosamente difícil se os padrões de qualidade do serviço não são tão altos quanto os do Sr. Gumb. Há decisões estruturais básicas a tomar e a primeira é onde colocar o zíper.
Ele corre o feixe luminoso pelas costas de Catherine. Normalmente faria o fecho nas costas, mas nesse caso como poderia vesti-lo sozinho? Não era a espécie de coisa que pudesse pedir a alguém para ajudá-lo, embora tal perspectiva fosse muito excitante. Ele conhece lugares, círculos, onde seus esforços seriam muito admirado —
existem certos iates onde ele poderia exibir-se — , mas isso terá que esperar. Por enquanto deve ter coisas que possa vestir sozinho. Cortar a frente pelo centro seria um sacrilégio — e expulsa isso logo da sua mente.
O Sr. Gumb nada pode dizer sobre a cor de Catherine com luz infravermelha, mas ela parece mais magra.
Acredita que talvez estivesse fazendo regime quando ele a agarrou.
A experiência ensinou-lhe a esperar de quatro dias a uma semana antes de recolher a pele. Uma súbita perda de peso faz a pele ficar mais solta e mais fácil de retirar. Além disso, a fome tira muito da força das pessoas e faz com
que sejam mais fáceis de manusear. Mais dóceis. Um estupor de resignação acomete algumas delas. Contudo, é necessário prover algumas rações para impedir o desespero e alguma ação destrutiva que possa danificar pele.
Ela definitivamente perdeu peso. É tão especial, tão central para aquilo que ele está fazendo, que já não pode esperar muito, e nem precisa. Amanhã à tarde poderá fa-zê-lo, ou amanhã à noite. O mais tardar no dia seguinte.
Em breve.
CAPÍTULO 34
Clarice Starling reconheceu o painel das Stonehinge Villas das nas notícias na televisão. O complexo habita-cional de Memphis Leste, uma mistura de apartamentos e casas residenciais, formava um grande U em volta de uma área de estacionamento.
Starling parou seu Chevrolet Celebrity alugado no grande estacionamento. Trabalhadores de colarinho azul bem pagos e executivos de classe média viviam aqui: os carros Trans-Ams e Camar IROC-Z revelavam isso. Casas rebocadas para fins de semana e lanchas para esqui aquáti-co com pintura brilhante estavam estaciona das na seção própria do parque.
As Stonehinge Villas — o nome ficava atravessado na garganta de Starling cada vez que olhava para ele. Provavelmente os apartamentos seriam cheios de vime branco e nogueira cor de pêssego Fotos debaixo do vidro das mesinhas de café — O Livro de cozinha para dois e Fon-due no cardápio. Starling, cuja única residência era um quarto no dormitório da Academia do FBI, era uma seve-ra crítica dessas coisas.
Precisava conhecer Catherine Martin e aquele parecia um lugar estranho para uma filha de senadora viver.
Starling lera o breve material biográfico que o FBI reunira, o qual mostrava que Catherine Martin era uma brilhante fracassada. Fora reprovada em Farmington e passara dois anos infelizes em Middlebury. Agora era estudante em Southwestern e praticante de professora.
Starling poderia facilmente tê-la imaginado como uma garota de internato, absorvida em si mesma, tapada,
uma dessas pessoa que nunca ouvem. Starling sabia que nisso precisava ser cuidadosa porque tinha seus próprios ressentimentos e preconceitos. Ela mesma passara algum tempo em internatos, vivendo de bolsas de estudos, suas notas muito melhores que suas roupas. Conviver com uma porção de garotas de famílias ricas e cheias de problemas, passando tempo demais em internatos. Pouco ligava para algumas delas, mas ao crescer descobrira que a indiferença pode ser um estratagema para evitar o sofrimento, e que isso, muitas vezes, é interpretado como indiferença e futilidade.
Era melhor pensar em Catherine como uma criança navegando num barco a vela com seu pai, como aparecia na televisão, no filme que mostraram com o apelo da senadora Martin. Imaginou se Catherine tentava agradar o pai quando era pequena; pensou no que Catherine estaria fazendo quando lhe vieram contar que o pai falecera de um ataque cardíaco, aos 42 anos. Starling não tinha dúvidas de que Catherine sentia falta do pai. Sentir falta do pai, uma ferida comum, fazia Starling sentir-se ligada àquela moça. Também achava essencial gostar de Catherine Martin porque isso a ajudava a esforçar-se mais.
Starling parou ver o apartamento onde Catherine vivia — dois carros da Patrulha de Estradas do Tennessee estavam estacionados na frente do edifício. Havia marcas de pó branco no estacionamento na área mais próxima do prédio. O Tennessee Bureau of Investigation devia ter estado a levantar manchas de óleo com pedra-pomes ou outro pó inerte. Crawford garantira que o FBI era muito bom.
Starling andou até onde estavam os veículos de re-creio e os barcos na área especial de estacionamento em frente ao edifício. Fora ali que Buffalo Bill a apanhara.
Bastante perto da sua porta, pois ela a deixara destrancada ao sair. Algo a havia tentado, a situação lhe teria parecido aparentemente isenta de perigo.
Starling sabia que a polícia de Memphis fizera exaustivas entrevistas de porta em porta e que ninguém vira nada, portanto talvez tivesse acontecido entre as altas casas rebocadas. Ele deveria tê-la observado dali. Sentado em alguma espécie de veiculo, com certeza. Mas Buffalo Bill sabia que Catherine vivia ali. Teria localizado a moça em algum lugar e a seguira, aguardando uma chance. Pequenas do tamanho de Catherine não são comuns. Ele não devia ter ficado esperando em vários lugares até que uma mulher do tamanho conveniente aparecesse. Poderia esperar dias e nenhuma aparecer.
Todas as suas vitimas eram grandes. Todas. Algumas podiam ser também gordas, mas todas eram grandes.
“De forma que ele possa conseguir algo que lhe sirva.”
Lembrando-se das palavras do Dr. Lecter, Starling teve um arrepio. Dr. Lecter, o novo habitante de Memphis.
Aspirou profundamente, encheu o peito de ar e deixou-o escapar vagarosamente. Vejamos o que é possível descobrir sobre Catherine.
Um miliciano da polícia do Tennessee, com seu chapéu Smokey the Bear atendeu à porta no apartamento de Catherine Martin. Quando Starling mostrou suas credenciais, deixou-a entrar.
— Policial, preciso dar uma olhada neste local. —
‘Local’ parecia-lhe uma boa palavra a empregar para um homem que andava de chapéu na cabeça dentro de casa.
Ele assentiu com um sinal de cabeça.
— Se o telefone tocar, deixe que eu atendo.
No balcão da cozinha Starling pôde ver um gravador de fite ligado ao telefone. Ao lado dele havia dois novos telefones. Um não tinha disco — era uma linha direta para a Segurança da companhia telefônica encarregada de traçar chamadas no Centro-Sul.
— Alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-la?
— indago o jovem policial.
— A polícia já terminou por aqui?
— O apartamento foi liberado para a família. Estou aqui apenas por causa do telefone. Você pode tocar nas coisas, se é isso que quer saber.
— Bem, então vou dar uma olhadela.
— O.K. — O jovem policial apanhou o jornal que havia enfiado embaixo do sofá e sentou-se.
Starling queria concentrar-se. Preferiria estar sozinha no apartamento, mas sabia que tivera sorte em não o encontrar cheio de tiras.
Começou pela cozinha. Não estava equipada para uma boa cozinheira. Catherine viera buscar pipocas, o namorado informara polícia. Starling abriu o congelador.
Encontrou duas caixas de pipocas para forno de microondas. Da cozinha não se podia avistar o estacionamento.
— De onde você é?
Starling não deu atenção à pergunta da primeira vez. — De onde você é?
O miliciano estava a observá-la do sofá, por cima do jornal.
— Washington — foi a resposta.
Debaixo da pia — sim, arranhões na junta do cano, eles tinham tirado o sifão para examinar. Parabéns para o FBI. As facas não eram afiadas. O lavador de pratos funcionava, mas não fora esvaziado. O refrigerador continha apenas requeijão e salada de fruta do tipo delicatessen.
Catherine Martin abastecia-se de gêneros para refeições rápidas, provavelmente tinha um lugar certo, um drive-in próximo. Talvez alguém andasse circulando pela loja. Valia a pena investigar.
— Trabalha para o Promotor Público?
— Não; para o FBI.
— O Promotor Público está vindo para cá. Ouvi isso na mudança de turno. Há quanto tempo está no FBI?
Havia um repolho de borracha na gaveta de vegetais. Starling abriu-o; dentro encontrou uma caixa de jóias, absolutamente vazia.
— Há quanto tempo está no FBI?
Starling encarou o jovem policial.
— Olhe aqui, policial. Provavelmente precisarei fazer-lhe algumas perguntas depois que terminar de dar uma olhada por aqui. Talvez então você possa me ajudar.
— Está bem. Se eu puder. .
— O.K. Vamos esperar e depois conversaremos.
Por enquanto tenho que pensar no que estou fazendo.
— Problema nenhum. .
O quarto de dormir era claro, tinha uma qualidade ensolarada de que Starling gostava. Era decorado com tecidos melhores e móveis melhores do que a maioria das moças podia ter. Havia um biombo de Coromandel, duas peças em cloisonné nas prateleiras e uma boa secretária de nogueira cheia de nós. Camas gêmeas. Starling levantou as cobertas pelas bordas. As rodinhas estavam travadas na
cama da esquerda, mas não na da direita. Catherine deve juntá-las quando lhe convém. Talvez tenha um amante do qual o namorado não sabe. Ou talvez eles fiquem por aqui de vez em quando. Não há um beeper remoto na secretária eletrônica. Ela talvez precise estar aqui quando a mamãe chamar.
A secretária eletrônica era como a dela, uma Phone-Mate básica. Abriu o painel superior: tanto a fita de entrada quanto a de saída tinham sido removidas. No lugar delas havia uma nota: FITAS PROPRIEDADE FBI N° 6.
O quarto estava razoavelmente limpo, mas com a aparência deixada pelos que o haviam revistado com mãos grosseiras, homens que tentam recolocar as coisas no mesmo lugar, mas sempre erram um pouquinho... Starling teria sabido que o lugar fora revistado mesmo sem os ves-tígios do pó para impressões digitais em todas as superfícies polidas.
Concluiu que nenhuma parte do crime ocorrera no quarto de dormir. Crawford provavelmente estava certo, Catherine fora agarrada no estacionamento. Contudo, Starling queria conhecê-la e aquele era o lugar onde ela vivera. Vive. Starling corrigiu-se. Ela vivia aqui.
No armarinho do criado-mudo havia um catálogo telefônico, lenços Kleenex, uma caixa de artigos de toalete, e, atrás da caixa, uma máquina Polaroid SX-70 com um disparador de cabo e um curto tripa dobrado ao lado dela.
Hummm... Atenta como um lagarto, Starling olhou para a câmara. Piscou como um lagarto pisca e não a tocou. O
closet interessou-a mais que qualquer outra coisa. Catherine Baker Martin — marca de lavanderia CBM — tinha muita roupa e algumas eram muito boas. Starling reconheceu várias das etiquetas, incluindo Garfinkel, e Britches, de
Washington. Presente da mamãe, disse para si mesma.
Catherine tinha roupa fina e clássicas em dois tamanhos, próprios para lhe servirem com 65 e 75 quilos avaliou Starling, e havia alguns pares de calças para reduzir peso bem como pulôver da Statuesque Shop. Numa prateleira própria contou 23 pares de sapatos. Sete eram Ferragamos n° 10 e havia alguns Reeboks e mocassins bastante usados. Uma pequena mochila e uma raquete de tênis na prateleira superior.
Os pertences de uma garota privilegiada, estudante e praticante de professora, que vivia melhor que a maioria.
Uma porção de cartas na secretária. Notas ligeiras de antiga companheiras de classe no Leste. Selos, etiquetas de endereçar. Papel para embrulho de presentes na gaveta de baixo, um maço de diversos feitios e cores. Os dedos de Starling correram por eles. Ela pensava em interrogar os empregados do mercado drive-in próxima quando seus dedos encontraram na pilha de papel de presentes uma folha demasiado grossa e dura. Seus dedos deslizaram por ela e voltaram. Starling fora treinada para registrar anomalias e já a retirara pela metade quando olhou para a folha.
Era azul, de um material semelhante a mata-borrão, e a figura nele gravada era uma crua imitação do cão Pluto dos desenhos animados. As pequenas fiadas de cães pareciam-se com Pluto, tinham a cor amarela adequada, ma suas proporções não eram exatamente corretas.
— Catherine, Catherine! — resmungou Starling.
Apanhou um par de pinças na sua bolsa e usou-as para enfiar a folha de papel colorido num envelope plástico que deixou provisoriamente em cima da cama.
A caixa de jóias sobre a penteadeira era de couro lavrado, do tipo que se vê em todo dormitório de moças.
As duas gavetas em frente e a tampa articulada continham jóias de fantasia, nenhum peça de valor. Starling ficou pensando se as coisas melhores teriam estado alguma vez no repolho de borracha do refrigerador e, se assim fosse, quem as levara.
Enfiou um dedo debaixo da tampa e soltou a gaveta secreta na parte de trás da caixa de jóias. A gaveta secreta estava vazia. Ficou pensando se havia alguém para quem essas gavetas fossem mesmo um segredo — certamente não para os ladrões. Estava recolocando a peça na parte traseira da caixa quando seus dedos tocaram num envelope preso com fita adesiva debaixo da gaveta secreta.
Starling enfiou um par de luvas de algodão e virou a caixa de jóias; puxou a gaveta vazia e a inverteu. No fundo, com fita adesiva, estava preso um envelope marrom.
A aba do envelope estava apenas enfiada para dentro, não colada. Aproximou o envelope do nariz; não fora tratado com fumaça para detectar impressões digitais. Starling usou uma pinça para abri-lo e retirar o conteúdo. Havia cinco fotografias de Polaroid no envelope e Starling tirou-as uma a uma. As fotos eram de um homem e uma mulher copulando, mas não apareciam os rostos. Duas das fotos tinham sido tiradas pela mulher, duas pelo homem e uma parecia ter sido tirada com o tripé posto em cima da mesinha-de-cabeceira.
Era difícil julgar a escala numa fotografia, mas com aqueles espetaculares 65 quilos num corpo grande, a mulher devia ser Catherine Martin e o homem usava o que parecia ser um anel de marfim trabalhado em seu pênis. A granulação da fotografia não era bastante boa para revelar os detalhes do anel. O homem sofrera uma operação de apendicectomia. Starling colocou cada uma das fotos num
envelope de sanduíche e depois as reuniu em seu próprio envelope marrom. Devolveu a gaveta à caixa de jóias.
— As jóias boas estão na minha bolsa — disse uma voz atrás dela. — Penso que nada foi roubado.
Starling viu-a pelo espelho. A senadora Ruth Martin estava na porta do quarto. Parecia esgotada.
Starling virou-se.
— Alô, senadora Martin. Gostara de deitar-se para descansar? Estou quase terminando.
Mesmo exausta, a senadora Martin tinha um bocado de presença. Debaixo da sua aparência bem-cuidada Starling via uma lutadora.
— Quem é você, por favor? Pensei que a polícia tivesse terminado por aqui.
— Sou Clarice Starling, do FBI. A senhora falou com o Dr. Lecter, senadora Martin?
— Ele me deu um nome. — A senadora Martin acendeu um cigarro e examinou Starling dos pés à cabeça.
— Vamos ver o que isso vale. E o que foi que a senhora encontrou na caixa de jóias, policial Starling? Tem algum valor? — Alguns documentos que poderemos verificar dentro de alguns minutos — foi o melhor que Starling pôde responder.
— Na caixa de jóias da minha filha? Deixe-me vê-los. Starling ouviu vozes no quarto ao lado e teve a esperança de alguma interrupção.
— O Sr. Copley está com a senhora, o agente especial em Memphis do. .
— Não, não está, e você não me deu uma resposta.
Não se ofenda, policial Starling, mas quero ver o que tirou
da caixa de jóias da minha filha. — Virou a cabeça e chamou, sobre o ombro: Paul, Paul, quer vir aqui? Policial Starling, a senhora talvez conheça o Sr. Krendler do Ministério da Justiça. Paul, esta é a moça que Jack Crawford mandou falar com Lecter.
A meia calva de Krendler estava queimada de sol; aos 40 anos, era um tipo elegante.
— Sr. Krendler, sei quem o senhor é. Alô! — saudou Starling.
Divisão Criminal do Ministério da Justiça, ligação com o congresso, quebrador de galhos, pelo menos Assistente do Promotor Geral. Jesus Cristo, tende piedade de mim! — A policial Starling encontrou qualquer coisa na caixa de jóias de minha filha e a pôs em seu envelope.
Penso que é melhor examinarmos do que se trata, não acha? — Policial... — começou Krendler.
— Posso falar com o senhor, Sr. Krendler?
— Por certo que pode. Mais tarde. — E estendeu a mão. O rosto de Starling ardia. Ela sabia que a senadora Martin estava descontrolada, mas nunca perdoaria Krendler pela dúvida que viu em seu rosto. Nunca.
— Eis aí o que quer — disse Starling, e entregou-lhe o envelope.
Krendler olhou para a primeira das fotos e já tinha fechado a envelope quando a senadora Martin o tirou de suas mãos.
Foi doloroso vê-la examinar as fotos. Quando acabou, aproximou-se da janela e ficou com o rosto voltado
para o céu encoberto, os olhos fechados. Parecia velha à luz do dia e sua mão tremia quando tentou fumar.
— Senadora, eu... — ensaiou Krendler.
— A polícia vasculhou este quarto — disse a senadora Martin. — Estou certa de que encontraram estas fotos e tiveram senso bastante para pô-las de volta e calar a boca.
— Não, eles não as acharam — exclamou Starling. A mulher estava magoada, mas que diabo!