O Silêncio dos Inocentes
Capítulo 2
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Pembry está vivo. — Tate não desejava colocar sua boca naquela porcaria ensangüentada. Sabia que teria que fazê-lo se quisesse ajudar Pembry a respirar, sabia que não devia mandar um dos patrulheiros fazer isso. Seria melhor que Pembry morresse, mas ele o ajudaria a respirar. Havia um pulsar no coração, ele descobriu e havia respiração. Era irregular e gorgolejante, mas aquilo estava respirando. Aquela ruína estava respirando por si mesma.
O rádio de Tate deu uns estalidos. Um tenente patrulheiro instalara-se no estacionamento de fora, assumira o comando e desejava notícias. Tate tinha que falar.
— Venha aqui, Murray — disse Tate a um jovem patrulheiro — Fique com Pembry e segure-o para que possa sentir as suas mão nele. Fale com ele.
— Qual é mesmo o nome dele, sargento? — Murray era novato — Pembry. Agora, fale com ele, porra! —
Tate voltou a falar no rádio: — Dois policiais atingidos, Boyle está morto e Pembry gravemente ferido. Lecter de-
sapareceu e está armado; ele pegou os revólveres deles. Os cinturões e os coldres estão na mesa.
A voz do tenente não era clara devido às grossas paredes.
— Pode confirmar que as escadarias estão limpas para passar as padiolas?
— Sim, senhor. Chame o quarto andar antes que eles passem. Tenho homens em todos os patamares.
— Roger, sargento. O Posto 8 aqui embaixo pensa que viu algum movimento atrás das janelas do edifício principal no quarta andar. Temos todas as saídas guarne-cidas, ele não poderá sair. Mantenham suas posições nos patamares. A SWAT está chegando. Vamos deixar a SWAT expulsá-lo. Confirme.
— Compreendo. A jogada é da SWAT.
— O que é que ele tem?
— Duas armas e uma faca, tenente. Jacobs, veja se há algum munição nos cinturões.
— Virei as cartucheiras — respondeu o patrulheiro.
— O de Pembry ainda está cheio, e o de Boyle também.
O porra desse merda não levou munição extra.
— Que espécie de munição é? — Trinta e oito plus, JHP2.
Tate voltou para o rádio.
— Tenente, parece que ele tem dois 38 de seis tiros. Nós ouvimos três disparos, e as cartucheiras nos cinturões ainda estão cheias, de forma que ele só deve ter nove cartuchos. Avise à SWAT que a munição é 38 plus de camisa com ponta oca. Esse camarada tem predileção pelo rosto.
2 acketed hollow point -encamisado com ponta oca. (N. do T.)
Munição plus era especial, mas não penetraria a blindagem de corpo da SWAT. Um tiro no rosto seria provavelmente fatal, e num membro aleijaria.
— Os padioleiros estão chegando, Tate.
As ambulâncias chegaram com surpreendente rapi-dez, mas para Tate não pareceu rápido o bastante, ouvindo os gemidos daquela coisa miserável a seus pés. O jovem Murray estava tentando segurar aquele corpo que gemia e se contorcia, tentando falar para reanimá-lo sem olhar para ele, a dizer:
— Você está bem, Pembry, com boa aparência — repetindo e repetindo as palavras no mesmo tom enjoado.
Tão logo viu os atendentes da ambulância no patamar, Tate gritou, como fizera durante a guerra:
— Padioleiros! Segurou Murray pelos ombros e afastou-o do caminho. Os atendentes da ambulância trabalharam depressa, com perícia, agarrando os punhos sujos de sangue por baixo do cinto, enfiando-lhe na boca uma sonda e desenrolando uma bandagem cirúrgica do tipo que não adere para tentar restabelecer alguma pressão no rosto e na cabeça ensangüentada. Um deles preparou um pacote de plasma endovenoso, mas o outro, tomando a pressão e o pulso do ferido, sacudiu a cabeça e disse:
— Vamos para baixo! Ouviam-se agora ordens pe-lo rádio.
— Tate, quero que esvazie os escritórios na torre e os feche. Guarneça as portas do edifício principal. Depois evacue os patamares. Estou mandando coletes blindados e espingardas. Nós o pegaremos vivo se ele se entregar, mas não vamos correr riscos maiores para preservar-lhe a vida.
Compreendeu?
— Entendi, tenente.
— Eu só quero a SWAT e mais ninguém a não ser a SWAT no edifício principal. Repita isso.
Tate repetiu a ordem.
Tate era um bom sargento e mostrou-o agora quando ele e Jacobs se enfiaram em seus coletes pesada-mente blindados e seguiram a maca que os padioleiros carregaram escadas abaixo até a ambulância. Uma segunda equipe seguia com Boyle. Os homens nos patamares ficaram com raiva quando viram passar as macas e Ta-te dirigiu-lhes uma palavra de prudência:
— Não deixem que a raiva venha a arriscar seu ra-bo! Enquanto as sirenes gemiam do lado de fora, Tate, auxiliado pelo veterano Jacobs, evacuou cuidadosamente os escritórios e isolou a torre.
Uma corrente de ar frio varria o saguão no quarto andar. Além da porta, nos vastos e sombrios espaços do edifício principal, os telefones tocavam. Nos escuros escritórios em todo o edifício, as luzes dos telefones piscavam como vaga-lumes e as campainhas não paravam de soar.
Corria a notícia de que o Dr. Lecter estava encurra-lado numa “barricada” no edifício, os repórteres do rádio e da televisão insistiam, discando rápido com seus modems, tentando obter entrevistas ao vivo com o monstro.
Para evitar isso, a SWAT em geral desliga os telefones, exceto um que é usado pelos negociadores. Mas aquele edifício era grande demais, os escritórios em número exagerado. Tate fechou e trancou as portas das salas cujos telefones retiriam. Seu peito e as costas estavam úmidos e co-çavam devido ao colete rígido.
— PC, aqui é Tate — anunciou ele tirando o rádio do cinto — A torre está limpa. Over.
— Roger, Tate. O capitão quer que você vá para o posto de comando.
— Dez-quatro. Saguão da torre: você está aí?
— Estou aqui, sargento.
— Sou eu no elevador. Estou levando-o para baixo.
— Entendi, sargento.
Jacobs e Tate estavam descendo no elevador para o saguão quando uma gota de sangue caiu no ombro de Ta-te; outra pingos no seu sapato.
Olhou para o teto do elevador, tocou a mão em Jacobs, e com um sinal pediu-lhe silêncio.
O sangue pingava da fresta em volta do alçapão no forro do carro. A viagem até o saguão parecia interminá-vel. Tate e Jacob: saíram do elevador de costas, os revólveres apontados para o forre do elevador. Tate meteu a mão no interior do carro e travou-o.
— Psiu! — fez Tate no saguão. E em voz baixa: —
Berry, Howard, ele está no teto do elevador. Mantenham-no sob cobertura.
Tate saiu. O furgão preto da SWAT estava no estacionamento. A SWAT sempre tinha um sortimento de chaves de elevadores.
Foram alertados num momento; dois homens da SWAT com armaduras negras e fones de ouvido subiram as escadas até o terceiro andar. Com Tate no saguão, embaixo, havia mais dois, mantendo os rifles de assalto apontados para o forro do elevador.
Parecem grandes formigas guerreiras, pensou Tate.
O comandante da SWAT falou em seu aparelho:
— O.K., Johnny.
No terceiro andar, acima do elevador, o homem da SWAT virou a chave na fechadura da porta, que deslizou e abriu-se. O poço estava escuro. Deitado de costas no corredor, ele tirou uma granada de imobilizar do colete e depositou-a no chão a seu lado.
— O.K. Vou dar uma olhada agora.
Tirou um espelho com o cabo muito comprido e colocou-o na beirada do poço enquanto seu companheiro ligava uma poderosa lanterna elétrica, apontando a luz para dentro do poço.
— Eu o estou vendo. Está em cima do elevador.
Vejo uma arma do lado dele. Mas ele não se move.
Peterson ouviu uma pergunta no seu fone de ouvido: — Você pode ver as mãos dele?
— Vejo uma das mãos, a outra está debaixo do corpo. Ele tem os lençóis em volta do corpo.
— Fale com ele.
— PONHA SUAS MÃOS SOBRE A CABEÇA E
NÃO SE MOVAI — gritou Peterson poço abaixo. — Ele não se moveu, tenente.. — E após uma pausa: — Certo.
— SE NÃO PUSER JÁ AS MÃOS NA CABEÇA,
JOGAREI UMA GRANADA DE IMOBILIZAÇÃO
EM VOCÊ; DOU-LHE TRÊS SEGUNDOS — berrou Peterson. Em seguida tirou do colete um dos calços de borracha que todo homem da SWAT carrega. O.K., CAMARADAS, OBSERVEM DM — LÁ VAI A GRANA-
DA. — Atirou o calço pela borda do poço e viu-o rico-chetear no corpo. — Ele não se mexe, tenente.
— O.K., Johnny, vamos levantar o alçapão do elevador com uma vara. Você pode mantê-lo em sua mira?
Peterson rolou até a borda do poço. Sua 45 pronta para disparar, apontada diretamente para a figura imóvel.
— Sob a mira — anunciou ele.
Olhando para baixo ao longo do poço do elevador, Peterson pode ver a réstia de luz aparecer quando os homens no saguão empurraram o alçapão com um croque da SWAT. A figura imóvel estava em parte sobre o alçapão e um dos braços moveu-se quando os homens empurraram de baixo.
O dedo de Peterson aumentou um pouco a pressão na segurança da Colt.
— O braço dele moveu-se, tenente, mas acho que foi o alçapão que o empurrou.
— Roger. Abram todo o alçapão.
O alçapão abriu-se todo para trás e ficou encostado na parede do poço. Peterson tinha dificuldade para enxergar contra a luz.
— Ele não se moveu. A mão dele não está segurando a arma.
A calma voz fez-se ouvir em seu fone:
— O.K., Johnny, agüente ai, vamos entrar no elevador. Observe com o espelho se há qualquer movimento.
Qualquer fogo partirá de nós. Positivo?
— Entendido.
No saguão, Tate observou quando eles entraram no carro do elevador. Um atirador armado com um rifle e capaz de perfurar couraça apontou a arma para o forro do elevador. Um segundo homem subiu numa escada. Estava armado com uma grande pistola automática e trazia uma lanterna elétrica presa por baixo dela. O espelho e a pistola com a lanterna passaram pelo alçapão, depois a cabeça
do homem e seus ombros. Ele passou para baixo um revólver 38.
— Este está morto — foi só o que disse.
Tate pensou imediatamente se a morte de Lecter significava que Catherine ia morrer também, todas as informações perdidas quando as luzes se apagaram naquela mente monstruosa.
Os homens agora puxavam o corpo, que descia de cabeça para baixo através do alçapão. Foi cuidadosamente arriado sobre muitas mãos, estranho enterro numa caixa iluminada. O saguão logo se encheu de policiais correndo para vê-lo.
Um guarda da Correcional adiantou-se, olhou para o braço estendido do morto, cheio de tatuagens e disse:
— Mas este é Pembry!
CAPÍTULO 38
Na traseira da ambulância com a sirene a toda altura, o jovem acadêmico se escorando contra o balanço, ligou o rádio para falar com seu supervisor na sala de emergências. Falou alto, por causa da sirene.
— Ele está em coma, mas os sinais vitais são bons.
A pressão está boa. Cento e trinta por noventa. Sim, noventa. Pulso, oitenta e cinco. Tem diversos cortes faciais com as bordas levantadas, e um dos olhos fora da órbita.
Apliquei pressão no rosto e uma cânula está em posição.
Possivelmente levou um tiro na cabeça. Não dá para ter certeza. Atrás dele, na maca, os punhos cerrados e ensan-güentados relaxam dentro da bandagem. A mão direita desliza para fora e acha a fivela da tira que o prende na maca em volta do peito.
— Estou com medo de colocar muita pressão na cabeça; ele mostrou alguns movimentos convulsivos antes de o colocarmos na maca. Sim, ele está na posição de Fo-wler. Atrás do jovem a mão agarrou a bandagem cirúrgica e limpou os olhos com ela. O acadêmico ouviu um assobio na cânula, virou-se e viu uma cara ensangüentada junto à dele, mas não o revólver que desceu com força e o pegou atrás da orelha.
A ambulância diminuiu a marcha, provocando agitação no tráfego da estrada de seis pistas. Os motoristas que vinham atrás, confusos e buzinando, hesitavam em ultrapassar um veículo de emergência. Ouviram-se dois tiros parecendo descargas de silencioso e a ambulância
partia de novo, fazendo curvas nas pistas, endireitando e encaminhando-se para a faixa da direita.
Apareceu a saída para o aeroporto. A ambulância reduziu a marcha, várias luzes de emergência piscando, os limpadores de pára brisas estranhamente funcionando, e logo a sirene diminuiu de volume, aumentou de novo, depois diminuiu até ficar em silêncio; e as luzes que piscavam foram se apagando. A ambulância prosseguiu agora tranqüila, enveredando para a saída do aeroporto internacional de Memphis, com seu belo edifício iluminado na noite de inverno. Tomou a pista curva até os portões au-tomáticos do enorme parqueamento. Uma mão ensangüentada projetou-se do carro para apanhar na máquina o bilhete de entrada e a ambulância desapareceu no túnel que levava ao estacionamento subterrâneo.
CAPÍTULO 39
Normalmente, Clarice Starling teria curiosidade de conhecer a casa de Crawford em Arlington, mas o boletim de notícias no rádio do carro, descrevendo a fuga do Dr.
Lecter, tirou-lhe toda a vontade.
Com os lábios meio dormentes e os cabelos arrepi-ados, ela dirigia quase por instinto e chegou à bonita casa tipo rancho da década de 50 sem olhá-la, apenas cismando se as janelas encortinadas e com luzes acesas à esquerda seriam as do quarto de Bel a. A campainha soou-lhe estridente demais.
Crawford abriu a porta quando ela tocou pela segunda vez. Usava um cardigã folgado e estava falando num telefone sem fio.
— Quero falar com Copley, em Memphis — dizia.
Fazendo-lhe um sinal para segui-lo, conduziu-a através da casa, falando baixo ao telefone.
Na cozinha, uma enfermeira tirou um pequeno frasco da geladeira e olhou-o contra a luz. Quando Crawford levantou as sobrancelhas para a enfermeira, ela sacudiu a cabeça dando a entender que não precisava dele.
Levou Starling para seu estúdio, descendo três degraus para o que claramente era uma garagem dupla con-vertida em escritório. Havia muito espaço ali, um sofá e cadeiras, e na mesa atulhada de coisas um terminal de computador brilhava com sua luz verde ao lado de um astrolábio antigo. O carpete dava a impressão de ter sido assentado sobre concreto. Crawford fez-lhe um sinal para sentar-se.
Colocando uma mão sobre o telefone, falou:
— Clarice, sei que a pergunta é tola, mas você passou qualquer coisa para Lecter em Memphis?
— Não.
— Nenhum objeto?
— Nada.
— Você lhe levou os desenhos e outros objetos da antiga cela?
— Não os entreguei; ainda estão na minha bolsa.
Ele é que me entregou a pasta. Foi a única coisa que mudou de mãos entre nós dois.
Crawford acomodou o telefone embaixo do queixo.
— Copley, isso é uma deslavada fofoca. Quero que você desmascare aquele filho da puta e faça isso agora mesmo. Vá logo ao chefe, no Bureau de Investigações do Tennessee. Providencie para que a linha direta seja informada do resto. Burroughs está nela. Sim.
Desligou o telefone e meteu-o no bolso do cardigã.
— Quer um café, Starling? Ou uma Coca?
— Que história é essa de passar coisas para o Dr.
Lecter? — Chilton está dizendo que você deve ter dado a Lecter alga que ele usou para destravar o fecho das algemas. Que você não a fez de propósito, diz ele, mas por pura ignorância. — Às vezes os olhos de Crawford pareciam os de uma tartaruga irritada. Ficou observando a reação dela. — Chilton alguma vez passou uma cantada em você, Starling? Será que é isso o que ele tem contra você?
— Talvez. Eu tomo café preto com açúcar, por favor. Enquanto Crawford ia para a cozinha ela respirou fundo e correu os olhos pelo aposento. Se você vive num dormitório ou num quartel, é confortável sentir-se numa
casa. Mesmo com todo o terremoto que a sacudia, a idéia de que os Crawfords viviam naquela casa animou-a.
Crawford vinha voltando, cuidadosamente, ao descer os degraus com suas lentes bifocais. Trazia as xícaras.
Calçado de mocassins ele era um pouco mais baixo; quando Starling se ergueu para pegar o café, seus olhos estavam mais ou menos no mesmo nível. Ele cheirava a sabonete e tinha solto o cabelo grisalho.
— Copley me disse que ainda não encontraram a ambulância. Os quartéis de polícia estão de olhos abertos por todo o sul.
Starling sacudiu a cabeça.
— Eu não conheço nenhum detalhe. O boletim do rádio disse apenas: o Dr. Lecter matou dois policiais e desapareceu.
— Dois policiais da Correcional. — Crawford digitou o computador para mostrar o texto da notícia na tela.
— Seus nomes eram Boyle e Pembry. Você tratou com eles? Ela fez que sim com a cabeça.
— Bem. . eles que me mandaram sair da torre. Mas foram legais comigo. — Recordava Pembry saindo de trás de Chilton, meio sem jeito mas decidido, demonstrando sua cortesia. “Venha comigo agora”, dissera ele. Tinha umas manchas de fígado ruim nas mãos e na testa. Agora estava morto, pálido sob as suas manchas..
Súbito Starling teve que descansar seu café. Encheu bem os pulmões e levantou a cabeça para o teto por um momento.
— Como ele conseguiu?
— Fugiu numa ambulância, me informou Copley.
Mais tarde lhe explico. Como se saiu você como ácido no mata-borrão?
Obedecendo às ordens de Krendler, Starling tinha passado parte da tarde e o início da noite submetendo as folhas com os Plutos ao analisador científico.
— Por enquanto, nada certo. Eles estão tentando os arquivos do DEA para uma comparação, mas o material tem dez anos de idade. A seção de documentos poderá sair-se melhor com a gravura do que o DEA com o tóxico. — Mas era ácido no mata-borrão.
— Era. Como foi que ele fez para fugir, Sr. Crawford? — Você quer saber?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça.
— Então vou lhe contar. Eles levaram Lecter para uma ambulância por engano. Pensaram que era Pembry,que ficara gravemente ferido.
— Ele vestia o uniforme de Pembry? De fato, eram mais ou menos do mesmo tamanho.
— Ele pôs o uniforme de Pembry e parte do rosto de Pembry em cima do dele. E mais ou menos meio quilo da carne de Boyle também. . Embrulhou o corpo de Pembry na coberta impermeável do colchão e nos lençóis da cela para impedir que o sangue pingasse e jogou-o em ci-ma do elevador. Vestiu o uniforme, preparou-se, deitou-se no chão e disparou vários tiros para o teto a fim de provocar um estouro da boiada. Não sei o que fez com o revólver, talvez o escondesse na parte de trás de suas calças.
Chegou a ambulância, policiais armados por toda parte. A equipe da ambulância veio rápida e fez o que costumam
fazer sob fogo — enfiaram-lhe uma cânula na boca para assegurar a respiração, passaram bandagem pela parte mais afetada do rosto, criando pressão para estancara he-morragia, e levaram-no para fora. Fizeram seu serviço. A ambulância nunca chegou ao hospital. A polícia ainda está procurando. Não vejo nada bom com respeito a esses pa-ramédicos. Copley diz que estão rodando as fitas do des-pachante das ambulâncias, houve várias chamadas. Eles acham que o próprio Lecter chamou a ambulância antes de disparar os tiros, de modo que não tivesse de ficar ali por muito tempo. O Dr. Lecter gosta de se divertir. .
Starling nunca percebera aquele tom de escárnio na voz de Crawford. Como ela associava amargura com fraqueza, aquilo assustou-a.
— Essa fuga não significa que o Dr. Lecter estava mentindo — disse Starling. — Sem dúvida ele mentiu pa-ra alguém: para nós ou para a senadora Martin, mas talvez não estivesse mentindo para ambos. Ele apontou para a senadora Martin o nome de Bil y Rubin e alegou que isso era tudo o que sabia. A mim, disse que foi alguém com delírios de transexualidade. A última coisa que me disse foi, mais ou menos: “Por que não completar o arco?” Ele falava sobre seguir a teoria da mudança de sexo que. .
— Eu sei, vi a sua súmula. Não podemos continuar com isso enquanto as clínicas não nos fornecem os nomes. Alan Bloom está indo pessoalmente aos chefes de departamentos. E eles dizem que estão procurando. Tenho que acreditar.
— Sr. Crawford, o senhor está tendo problemas?
— Estou sendo aconselhado a tirar uma licença pa-ra tratar de pessoa da família — respondeu Crawford. —
Há um novo grupo de trabalho saído do FBI, DEA e “e-
lementos adicionais” do escritório do Promotor Público, quer dizer, de Krendler.
— Quem é o chefe?
— Oficialmente, o assistente do diretor do FBI, John Golby. Digamos que ele e eu estamos em íntima colaboração. John é um bom sujeito. Que tal falarmos sobre você? Você está tendo problemas?
— Krendler me mandou entregar a ID e o revólver e apresentar-me de volta à escola.
— Isso foi o que ele fez antes da sua visita a Lecter.
Esta tarde ele mandou uma bomba ao Escritório de Responsabilidade Profissional. Era um pedido “sem opinião preconcebida” para que a Academia suspenda você e faça uma reavaliação da sua aptidão para o serviço. É uma merda duma retaliação. O instrutor-chefe de tiro, John Brigham, viu o pedido na reunião do corpo docente em Quântico há poucas horas. Ele protestou energicamente e pendurou-se ao telefone para falar comigo.
— Qual é a gravidade disso?
— Você tem o direito de ser ouvida. Tornarei-me fiador da sua aptidão e isso deverá ser o bastante. Contudo, se você passar mais tempo afastada, será definitivamente excluída, seja qual for o resultado da investigação.
Você sabe o que acontece quando uma pessoa é excluída?
— Claro. A pessoa é mandada para o escritório regional que a recrutou. Lá ela fica arquivando relatórios e fazendo café até surgir vaga numa classe.
— Posso prometer-lhe uma vaga numa classe mais tarde, mas não posso impedi-los de excluí-la se você continuar faltando.
— Então devo voltar para a escola e parar de trabalhar neste caso, ou. .
— É isso.
— O que deseja o senhor que eu faça?
— Sua tarefa era Lecter. Você a cumpriu. Não vou pedir-lhe para ser excluída. Poderia custar-lhe meio ano, talvez mais.
— E quanto a Catherine Martin?
— Bil já está com ela há quase 48 horas, serão 48
horas à meia noite. Se nós não o apanharmos, provavelmente vai fazer o serviço nela amanhã ou depois, se for como no último caso.
— Lecter não é tudo o que tínhamos.
— Eles pegaram seis Wil iam Rubin até agora, todos com antecedentes policiais de uma espécie ou outra.
Nenhum deles parece ser o procurado. Não há Bil y Rubin na lista de assinantes de jornais sobre insetos. O Sindicato dos Cuteleiros tem conhecimento de cinco casos de antraz de marfim nos últimos dez anos. Ainda temos uns dois homens para verificar. O que mais? Klaus ainda não foi identificado. . até agora. A Interpol acusa um edital de procura de um marinheiro norueguês fugitivo, um certo
“Klaus Bjetland”, ou como quer que se pronuncie.. A Noruega está procurando o registro dental dele para enviar. Se obtivermos qualquer coisa das clínicas, e você tiver tempo, você ainda poderá ajudar. Olhe, Starling...
— Sim, Sr. Crawford?
— Volte para a escola.
— Se o senhor não queria que eu o procurasse, não devia ter me levado àquela casa funerária, Sr. Crawford.
— Não — assentiu Crawford — , suponho que não. Mas nesse caso não teríamos encontrado o inseto.
Não entregue sua arma de fogo, Starling. Quântico é bem
seguro, mas você deve anda armada sempre que sair da sua base e até que Lecter seja preso ou morto.
— E quanto ao senhor? Ele o odeia. Sei, porque ele repete muito isso.
— Muita gente me odeia, Starling, numa porção de cadeias. Mais tarde ele poderá pensar em cuidar do assunto, mas por enquanto está ocupado demais. É doce permanecer em liberdade, e ele não deve estar disposto a desperdiçar seu tempo doutra forma. E este meu lugar é mais seguro do que parece.
O telefone no bolso de Crawford zumbiu. O que ficava na mesa também fez um ruído e uma lâmpada acendeu. Crawford escutou durante alguns minutos, disse
“O.K “ e desligou.
— Encontraram a ambulância na garagem subterrânea do aeroporto de Memphis — informou ele, balançando a cabeça. — Nada de bom. A equipe estava na parte de trás: ambos mortos. Crawford tirou os óculos e procurou um lenço nos bolsos para limpá-los. — Starling, o Smithsonian telefonou para Burroughs procurando você.
Aquele camarada, Pilcher. Eles estão muito próximos de terminar com o inseto. Quero que você escreva um pequeno 302 sobre o assunto e o assine para o arquivo per-manente. Você encontrou esse inseto e seguiu a pista, e eu quero que o arquivo o registre. Está disposta a isso?
Starling estava mais cansada do que nunca.
— Por certo — respondeu.
— Deixe seu carro na garagem. Jeff irá levar você para Quântico quando terminar.
Antes descer os degraus ela voltou o rosto para a janela iluminada e com cortinas onde a enfermeira estava de plantão e depois olhou para Crawford.
— Estou pensando no senhor e na sua mulher, Sr.
Crawford.
— Obrigado, Starling — agradeceu ele.
CAPÍTULO 40
— Sim, oficial Starling, o Dr. Pilcher disse que a encontraria no Zoológico de Insetos. Vou levá-la até lá — anunciou o guarda.
Para chegar ao Zoológico de Insetos vindo do lado da Constituition Avenue era preciso pegar o elevador um nível acima do grande elefante empalhado e cruzar um vasto andar dedicado ao estudo do homem.
Primeiro havia filas de caveiras, que aumentavam e se espalhavam, representando a explosão da população humana desde os tempos de Cristo.
Starling e o guarda moviam-se num panorama habi-tado por figuras ilustrando a origem humana e sua varia-ção. Aqui estavam as exposições de rituais — tatuagens, pés ligados, modificação dos dentes, cirurgia peruana, mumificação.
— A senhora alguma vez viu Wilhelm von Ellen-bogen? — indagou o guarda dirigindo a luz de sua lanterna para uma caixa.
— Acredito que não — respondeu Starling sem diminuir o passo.
— A senhora deveria vir aqui quando as luzes estão acesas e dar uma olhada nele. Foi enterrado em Filadélfia no século XVIII e virou sabão quando a água do subsolo o atingiu.
O Zoológico dos Insetos, uma grande sala, estava na penumbra, barulhento com os sons produzidos pelos insetos em sua movimentação. Gaiolas e gaiolas de insetos vivos povoam a sala. Crianças gostam particularmente deste zoológico e freqüentam-no durante todo o dia. À
noite, sozinhos, os insetos ficam mais ativos. Algumas das caixas eram iluminadas com luz encarnada e os sinais das saída de incêndio brilhavam com um vermelho forte na sala semi-escurecida.
— Dr. Pilcher? — chamou o guarda da porta.
— Aqui — disse Pilcher, levantando uma caneta-lanterna como se fosse um farol.
— Depois o senhor levará esta senhora para fora?
— Sim, obrigado, guarda.
Starling tirou sua pequena caneta-lanterna da bolsa e descobri que o interruptor estava ligado e as pilhas esgotadas. O acesso de raiva que sentiu fê-la lembrar-se do seu cansaço e que devia se controlar.
— Alô, policial Starling.
— Como vai, Dr. Pilcher?
— Que tal “professor Pilcher”
— O senhor é professor?
— Não, mas também não estou doutor. O que eu estou é contente de vê-la. Quer dar uma olhada em alguns insetos?
— Claro. Onde está o Dr. Roden?
— Ele fez um grande progresso nas últimas duas noites estudando as cerdas do inseto e finalmente teve que descansar. Você viu o bicho antes de começarmos com ele? — Não.
— Era só uma coisa úmida, nada mais.
— Mas vocês o estudaram e identificaram.
— Sim, ainda há pouco. — Ele parou numa gaiola de tela. Primeiro deixe-me mostrar-lhe uma mariposa co-mo aquela que você trouxe na segunda-feira. Esta não é exatamente a mesma que a sua, mas é da mesma família,
uma corujinha. — O feixe da lanterna elétrica descobriu a grande e brilhante mariposa azul pousado num pequeno galho, suas asas dobradas. Pilcher soprou em cima dela e instantaneamente a cara zangada de uma coruja aparece quando a mariposa abriu a parte interna de suas asas para eles, a manchas dos olhos nas asas brilhando como a última coisa que um rato vê. — Esta é Caligo beltrao, bastante comum. Mas com aquele exemplar de Klaus nós en-tramos no terreno de algumas mariposa grandes. Venha comigo.
No fim da sala havia uma caixa recuada dentro de um nicho com um corrimão à sua frente. A caixa estava fora do alcance da mãos de crianças e coberta com um pano. Um pequeno umidificador zumbia ao lado dela.
— Nós a mantemos atrás de um vidro para proteger os dedo; das pessoas, ela pode atacar. Ela também gosta de umidade e o vidro mantém a umidade interna. —
Pilcher levantou a gaiola cuidadosamente por suas alças para trazê-la à frente do nicho. Tirou a coberta e acendeu uma pequena lâmpada por cima da gaiola. — Esta é chamada Mariposa da Caveira — disse ele. — O arbusto on-de ela está pousada é uma dulcamara temos esperança de que ela ponha ovos.
A mariposa era maravilhosa e terrível de ver, com suas enormes asas marrom-escuras dobradas como um manto. Nas suas costas cobertas de cerdas via-se a assinatura que instilou medo nos homens desde quando deram com ela, subitamente, em seus felizes jardins. A abóbada de um crânio, um crânio que é ao mesmo tempo um rosto, olhando com olhos profundos, os malares, o arco zigomático caprichosamente traçado ao lado dos olhos.
— Acherontia styx — ensinou Pilcher. — É o no-me de dois rios do inferno. Seu homem, ele transporta sempre os cadáveres através do rio, não foi isso que eu li?
— Sim — disse Starling. — Ela é rara?
— Nesta parte do mundo, é. Por aqui não há nenhuma como ela na natureza.
— De onde é que ela vem? — Starling encostou o rosto perto do teto da gaiola. Sua respiração agitou as cerdas nas costas da mariposa. Starling recuou quando ela emitiu um som e bateu furiosamente as asas. Pôde sentir o fraco ventinho que ela produziu.
— Da Malásia. Há também um tipo europeu, chamado atropos, mas esta e aquela que estava na garganta de Maus são da Malásia.
— Então alguém a criou.
Pilcher fez que sim com a cabeça.
— Claro — achou melhor dizer, quando viu que Starling não estava olhando para ele. -Teve que ser enviada da Malásia como um ovo, mais provavelmente como uma pupa. Ninguém jamais conseguiu fazê-las desovar no cativeiro. Elas acasalam, mas não põem ovos. O difícil é achar a lagarta na floresta; encontrada, não é difícil de criar.
— Você disse que elas podem atacar.
— Sua probóscide é rígida e afiada, e ela pode gru-dar no seu dedo se você facilitar. É uma arma inusitada, e o álcool não afeta os exemplares conservados. Isso nos ajudou a diminuir o campo de pesquisa e permitiu identificá-la rapidamente. — Súbito, Pilcher pareceu ficar embaraçado, como se tivesse dito uma impropriedade. — Elas também são valentes — apressou-se a acrescentar. — A-tacam colméias e sugam o mel de Bogart. Certa vez está-
vamos coletando insetos em Sabah, Bornéu, e elas apareceram atraídas pela luz do alojamento dos jovens. Era a-pavorante ouvi-las, e nós..
— De onde veio esta?
— De uma troca com o governo da Malásia. Não sei pelo que a trocamos. Foi engraçado: lá estávamos nós no escuro, esperando com aquele balde de cianureto, quando. .
— Que espécie de manifesto alfandegário veio com esta? Vocês têm registros dessas coisas? É preciso conseguir uma licença de exportação da Malásia? Quem teria isso? — Você está muito apressada. Veja: registrei tudo o que temos e os lugares onde colocar anúncios se você deseja fazer essa espécie de importação. Vamos, eu a condu-zo para fora.
Cruzaram o vasto espaço em silêncio. A luz do elevador, pôde ver que Pilcher estava tão cansado quanto ela.
— Você ficou acordado trabalhando nisso — observou ela. Foi bom tê-lo feito. Eu não quis ser brusca, apenas..
— Espero que o apanhem. E que você se livre desse encargo em breve — desejou ele. — Eu listei algumas drogas que ele pode estar comprando, se cuida de espécimes moles... Policial Starling, eu gostaria de conhecê-la melhor.
— Talvez eu lhe telefone quando puder.
— Definitivamente deve fazer isso, sem falta. Eu apreciaria assegurou Pilcher.
O elevador fechou-se e Pilcher e Starling desapareceram. O andar dedicado ao homem estava em silêncio e
nenhuma figura humana se movia — nem os tatuados, nem as múmias, nem os pés ligados se mexiam.
As luzes de incêndio brilhavam, rubras, no Zoológico de Insetos, refletidos em mil olhos ativos. O umidificador zumbia. Debaixo da sua coberta, na gaiola negra, a Mariposa da Caveira desceu do galho de dulcamara. Cruzou pelo piso da gaiola, as asas arrastando-se como uma pelerine, e descobriu um fragmento de favo de mel no seu prato. Agarrando o favo com as poderosas patas dianteiras, desenrolou sua afiada probóscide e enfiou-a na tampa de cera de uma célula do favo. Ficou quieta, sugando, enquanto à volta dela os cricris e os movimentos dos insetos recomeçaram, e com eles iam surgindo pequenas novas vidas e mortes.
CAPÍTULO 41
Catherine Baker Martin jaz naquelas trevas horrorosas. As trevas acumulam-se por trás de suas pálpebras; nos agitados momentos de sono, ela sonha que as trevas a penetram. As trevas vêm, insidiosas, invadem seu nariz e seus ouvidos, os dedos úmidos das trevas tocam cada uma das aberturas de seu corpo. Põe a mão em frente à boca e ao nariz, põe a outra em cima da vagina, aperta as nádegas, vira um dos ouvidos contra o colchão e sacrifica o outro para a entrada das trevas. Junto com as trevas vem um som e ela acorda num pulo. O som familiar e ativo de uma máquina de costura. De velocidade variável. Vagarosa, depois rápida.
Lá em cima, no porão, as luzes estavam acesas —
ela podia ver um fraco disco de luz amarela onde, muito alto, o pequeno alçapão que dava para o poço estava aberto. A poodle latiu algumas vezes e a voz extraterrena falou com ela, meio abafada.
Costurando. Era uma coisa muito errada costurar naquele lugar. A costura é algo que demanda luz. O enso-larado quarto de costura na casa de Catherine quando criança trazia uma lembrança tão bem-vinda à sua mente.. A governanta, a querida Bea Love na máquina. . seu gatinho brincando com as cortinas que esvoaçam.
Aquela voz lá em cima, discutindo com o cão, fez toda a memória fugir.
— Queridinha, não pegue nisso. Você se está com um alfinete e então o que vamos fazer? Estou quase terminando. Sim, belezinha. Você ganha um Chew-wy quan-
do nós acabarmos... você ganha um Chew-wy, dudi-dudi-du. . Catherine não sabia há quanto tempo estava cativa.
Lembrava que se havia lavado duas vezes — da última vez ela ficara de pé, bem iluminada, desejando que ele visse seu corpo, sem estar certa de que, por trás da luz que a cegava, ele olhava para baixo. Nua, Catherine Baker era um espetáculo, um mulheraço visto de qualquer ângulo, e ela sabia disso. Queria que ele a visse. Queria sair do poço.
Perto o bastante para trepar é perto o bastante para lutar
— dissera para si mesma repetidas vezes enquanto se lavava. Ela recebia muito pouca coisa para comer e sabia que era melhor lutar enquanto tivesse forças. Sabia que ia lutar com ele; e sabia que era capaz disso. Seria melhor foder com ele primeiro, foder tantas vezes quantas ele pudesse agüentar até esgotá-lo? Sabia que se pudesse enrolar suas pernas em torno do pescoço, o mandaria para o inferno em um segundo e meio. Será que terei forças para fazer isso? Claro que tenho! Não ouvira, porém, nenhum som lá de cima quando acabou de se lavar e vestiu a malha limpa. Não houve resposta ao seu oferecimento quando o balde do banho subiu, balançando em sua frágil Gordinha, e foi substituído pelo balde de toalete.
Agora, horas mais tarde, continuava esperando, ouvindo a máquina de costura. Não o chamou aos gritos.
Depois de algum tempo, talvez umas mil respirações, escutou quando ele subiu as escadas a falar com o cão, dizendo qualquer coisa como “... o desjejum, quando eu voltar”. Deixou o porão com a luz acesa. Às vezes ele fazia isso.
Arranhar de unhas e pisadas na cozinha, no andar de cima. O cão choramingando. Imaginou que seu raptor saia da casa. Às vezes ele saía por longo tempo.
Continuou a contar as respirações. A pequena cadela continuava a se mover pela cozinha, ganindo, arrastando algo no chão, batendo com esse algo no soalho, talvez sua tigela de comida. A seguir arranhava e arranhava o chão. E novos latidos, latidos pequenos, curtos e agudos, agora não tão claros como fora quando o animal estava bem acima dela, na cozinha. Porque a poodle já não estava na cozinha, Tinha aberto a porta com o focinho e estava no porão caçando camundongos, como fizera da vez anterior quando o homem saíra.
No escuro, Catherine Martin apalpou embaixo do seu cobertor. Encontrou o pedaço de osso de galinha e cheirou-o. Era duro resistir e não comer os pequenos restos de carne e pele que havia nele. Colocou-o na boca para aquecer. A seguir de pé, um pouco tonta, na escuridão.
Além dela, no poço de paredes verticais, não havia mais nada a não ser o cobertor, o macacão que usava, o balde de plástico para toalete e aquela frágil Gordinha que se estendia para o alto em direção à pálida luz amarela.
Pensava nisso durante cada intervalo em que conseguia pensar. Catherine esticou-se quanto pôde e agarrou a Gordinha. Era melhor dar um arranco ou puxar com calma? Pensara nisso milhares de vezes enquanto contava a respiração. Melhor puxar com firmeza.
A corda de algodão esticou mais do que esperava.
Segurou-a de novo o mais alto que pôde, movendo o braço de um lado para o outro na esperança de que a cordinha estivesse roçando bem alto, na tampa de madeira do buraco lá em cima. Continuou a sacudi-la até seu braço
doer. Puxou: a corda agora não se alongava mais, não tinha mais o que ceder. Por favor, queira partir-se bem al-to!... Ouviu um estalido e a cordinha caiu, dando uma porção de voltas em cima do seu rosto.
Acocorada no chão, com a Gordinha sobre a cabeça e os ombros, sem luz bastante da fresta lá em cima para ver quanto da corda havia em cima dela. Não devo emba-raçá-la. Com todo cuidado, arrumou a cordinha no chão, medindo-a com o antebraço. Contou quatorze antebraços.
A cordinha se rompera na beirada do poço.
Amarrou o osso de galinha e seus restos de carne firmemente com a corda onde esta se prendia à asa do balde. Agora vinha a parte mais difícil.
Trabalhe cuidadosamente. Ela estava num estado de espírito que chamada de “tempo ruim”. Era como tomar conta de si mesma num pequeno barco durante
“tempo ruim”.
Amarrou a outra ponta da cordinha em seu pulso, apertando o nó com os dentes.
Afastou-se da cordinha tanto quanto possível. Segurando o balde pela alça, ela rodou com o braço todo estendido e jogou-o para cima, em direção ao fraco disco de luz. O balde de plástico não acertou no alçapão aberto, bateu no lado inferior da tampa do poço e caiu, acertan-do-a no rosto e no ombro. A cachorrinha latiu mais alto.
Arrumou novamente a corda com todo o cuidado e jogou o balde de novo, e de novo. No terceiro arremesso, o balde atingiu seu dedo quebrado e ela teve que encostar-se na parede inclinada e respirar fundo até a dor passar. O
arremesso número quatro voltou a bater nela, mas no de número cinco o balde não voltou. Ficara preso em algum
lugar sobre a tampa de madeira do poço, ao lado do alçapão aberto. A que distância da abertura? Fique firme agora! Puxou devagarinho. Sacudiu a cordinha para ouvir a alça do balde bater contra a madeira lá em cima.
O animal latiu mais alto.
Não devia puxar o balde até a abertura, mas devia puxá-lo até perto. Foi o que fez.
A cadelinha estava num quarto do porão ao lado, solta entre espelhos e manequins. Cheirava os fiapos e as aparas embaixo da máquina de costura. Encostou o nariz no grande armário negro. A seguir olhou para o lado do porão de onde vinham sons. Deu uma corridinha até o lado escuro, latiu e correu de volta para onde estava antes.
Agora ouviu uma voz que ecoava fracamente pelo porão: — Preciosa!
A cachorrinha latiu e deu uns pulinhos; seu corpo balofo tremia ao latir.
Ouviu-se um som estalado, como de um beijo.
O cão olhou para o piso da cozinha acima, mas não era de lá que viera o som.
A seguir um barulho como se alguém estivesse comendo. — Venha cá, Preciosa. Venha cá, belezinha!
Nas pontas dos pés, com as orelhas levantadas, o cão invadiu a parte escura.
De novo o ruído de alguém comendo.
— Venha cá, belezinha, venha cá, Preciosa.
A poodle podia sentir o cheiro do osso de galinha amarrada na alça do balde. Arranhou com as unhas ao lado da parede do poço e ganiu.
O barulho de alguém comendo continuava.
O pequeno animal pulou sobre a tampa do poço. O cheiro partia dali, entre o balde e a abertura do alçapão. A cadelinha latiu para o balde e ganiu, indecisa. O osso de galinha moveu-se um pouquinho.
O cão agachou-se com o nariz entre as patas dianteiras, sua cauda no ar se agitando furiosamente. Latiu du-as vezes e atirou-se em cima do osso agarrando-o com os dentes. O balde estava parecendo querer afastar aquele resto de alimento. O animal rosnou para o balde e segurou firme o osso, passando sobre a alça, os dentes bem crava-dos. De repente o balde derrubou a poodle, empurrou-a ela lutou para ficar de pé, tornou a cair, agarrou-se ao balde; uma da patas traseiras e seu quarto posterior caíram no buraco, suas unhas arranharam nervosamente a madeira.
O balde escorregou, meteu se no buraco junto com o quarto traseiro da poodle e ela livrou-se enquanto o balde escorregava pela borda e mergulhava na escuridão, levando o osso de galinha. O cão ficou latindo zangado, seus latidos que reverberavam pelo poço abaixo. Logo parou de latir e volto a cabeça para um som que só ele podia ouvir. Pulou de cima do poço e disparou escada acima ganindo de alegria quando ouviu porta se abrir.
As lágrimas de Catherine Baker Martin correram quentes pelo seu rosto e deslizaram pelo seu macacão, molhando-o, seu calor umedecendo-lhe os seios — e então ela acreditou que certamente iria morrer.
CAPÍTULO 42
Crawford estava sozinho no sei estúdio, com as mãos enfiada profundamente nos bolsos. Ficara ali doze horas seguidas, cozinhando uma idéia. Depois mando um telex para o Departamento de Veículos a Motor da Califórnia requisitando uma pista sobre o motor Nome que o Dr. Lecter dissera que Raspail tinha comprado na Califórnia, aquele que usara diante o seu romance com Klaus.
Crawford pediu ao DMV pai checar multas de trânsito aplicadas a quaisquer outros motorista donos do carro além de Benjamin Raspail.
A seguir sentou-se no sofá com uma prancheta e elaborou provocante anúncio pessoal para ser publicado nos principais diária
Moça apetitosa, corpo de Vênus, 21 anos de idade, modelo, procura homem que aprecie qualidade e quantidade. Modelo de roupas íntimas e cosméticos, você já me viu em anúncios de revistas, agora eu gostaria de ver você. Mande retratos com a primeira carta.
Crawford pensou por um momento, e tirou “corpo de Vênus substituindo-o por corpo espetacular”.
A cabeça pendeu-lhe e ele deu uma cochilada. A te-la verde d terminal do computador fazia pequenos quadrados nas lentes de sei óculos. Agora havia um movimento na tela, as linhas subindo movimentando-se nas lentes de Crawford. Em seu sono ele sacudiu a cabeça como se a imagem lhe fizesse cócegas.
A mensagem era a seguinte:
POLÍCIA DE MEMPHIS RECUPEROU DOIS
ITENS AO EXAMINAR CELA DE LECTER:
(I) — CHAVE DE ALGEMAS IMPROVISADA FEITA DE TUBO INTERNO DE CANETA ESFEROGRÁFICA; INCISÕES CORTADAS POR ABRA-
SÃO. BALTIMORE SOLICITADA A VERIFICAR
CELA DO HOSPITAL PARA TRAÇOS DA MANU-
FATURA AUTH COPLEY, SAC MEMPHIS.
(2) — FOLHA DE PAPEL DEIXADA FLUTU-
ANDO NA PRIVADA PELO FUGITIVO; ORIGINAL
A CAMINHO DO LAB. SEÇÃO DOCUMENTOS
WASHINGTON; GRÁFICO DO ESCRITO SEGUE;
GRÁFICO MANDADO TAMBÉM PARA LANGLEY,
ATTE BENSON — CRIPTOGRAFIA.
Quando o gráfico apareceu, subindo como uma corsa que estivesse espiando pela borda de baixo da tela, era o seguinte: C33H3e1 L T Og N4
O suave bipe duplo do terminal do computador não acordou Crawford, mas três minutos depois o telefone o acordou. Era Jerry Burroughs na linha privativa do Centro Nacional de Informações sobre Crimes.
— Já olhou a sua tela, Jack?
— Espere um momento — disse Crawford. —
Sim. — O laboratório descobriu, Jack; o desenho que Lecter deixou na privada. Os números entre as letras do nome de Chilton, são de bioquímica: C,H,N,08 — é a fórmula do pigmento que se encontra na bile humana chamado bilirrubina. O laboratório informa que é o agente principal de coloração das fezes.
— Bolas!
— Você tinha razão sobre Lecter, Jack. Estava apenas se divertindo com eles. Sinto pena da senadora Martin. O laboratório diz que a bilirrubina é quase exatamente
da cor do cabelo do Dr. Chilton. Humor de asilo de loucos, dizem eles.. Você viu o Dr. Chilton no jornal das seis? — Não.
Marilyn Sutter viu-o no andar de cima. Chilton estava se proseando acerca de “A Procura de Billy Rubin”.
Depois foi jantas com um repórter da televisão. Era o que ele estava fazendo quando Lecter resolveu dar uma volti-nha. Que supra-sumo de cretino!
— Lecter disse a Starling: “tenha em mente” que Chilton não é formado em medicina — explicou Crawford. — Sim, vi isso no sumário dela. Acho que Chilton tentou transar com ela, é o que penso, e ela o mandou cantar noutra freguesia, Ele pode ser burro, mas não é cego. . Como é que está a pequena?
— O.K., penso eu. Esgotada.
— Você acha que Lecter também a estava cantando? — Talvez. Vamos ficar em cima do assunto. Não sei o que os clínicos andam fazendo; fico pensando se não deveria ter requisita do os registros com uma ordem judicial. Odeio ter que depender deles. Amanhã pelo meio da manhã, se não tivermos ouvido nada, vamos recorrer à via judicial. — Diga-me, Jack.. você tem algumas pessoas aqui fora que conhecem Lecter de vista, certo?
— Certo.
— Ele deve estar rindo em algum lugar.
— Talvez não por muito tempo — disse Crawford.
CAPÍTULO 43
Dr. Hannibal Lecter estava no balcão de recepção do elegante Marcus Hotel em St. Louis. Usava um chapéu marrom e uma capa de chuva abotoada até o pescoço.
Uma atadura cirúrgica cobria-lhe o nariz e as faces.
Assinou no registro “Lloyd Wyman”, uma assinatura que ele havia praticado no carro de Wyman.
— Como vai pagar, Sr. Wyman?
— American Express. — O Dr. Lecter entregou-lhe o cartão de crédito de Lloyd Wyman.
Música suave de piano vinha do saguão. No bar o Dr. Lecter viu duas pessoas com ataduras a cobrir-lhes o nariz. Um casal de meia-idade cruzou para os elevadores, cantarolando uma melodia de Cole Porter. A mulher trazia uma venda de gaze sobre um olho.
O atendente acabou de fazer a impressão do cartão de crédito.
— O senhor deve saber, Sr. Wyman, que tem o direito de utilizar a garagem do hospital.
— Sim, obrigado — falou o Dr. Lecter. Ele já havia estacionado o carro de Wyman na garagem, com Wyman dentro do porta malas.
O porteiro que carregou as malas de Wyman para a pequena suste recebeu como gratificação uma das notas de cinco dólares de Wyman.
O Dr. Lecter pediu um drinque e um sanduíche e depois relaxou-se com um demorado banho de chuveiro.
Após seu longo confinamento, a suíte lhe parecia enorme. Ele se divertia andando de um lado para o outro, da porta às janelas e vice-versa.
Das janelas, podia ver, no lado oposto da rua, o Pa-vilhão Myro e Sadie Fleischer do St. Louis City Hospital, que abrigava um dos mais avançados centros mundiais de cirurgias craniofacial.
O rosto do Dr. Lecter era conhecido demais e ele não tinha como usar um daqueles cirurgiões plásticos, mas estava num lugar onde podia andar com uma atadura no rosto sem chamar a menor atenção. Ele já tinha estado ali antes, muitos anos atrás, quando fazia uma pesquisa psiquiátrica na soberba biblioteca cujo nome homenageava a memória de Robert J. Brockman.
Era gostoso ter uma janela, várias delas. Ficou por trás das janelas no escuro, vendo as luzes dos carros cruzando a MacArthu Bridge e saboreando seu drinque. Sentia-se agradavelmente fatiga do depois de dirigir cinco horas de Memphis até ali.
O único problema real da tarde ocorrera na garagem subterrânea do Aeroporto Internacional de Memphis.
Limpar-se com álcool, chumaço de algodão e água desti-lada na traseira da ambulância não fora nada conveniente.
Depois de se meter na roupa branca de um dos paramédi-cos, foi somente uma questão de surpreender um viajante solitário na ala deserta do estacionamento de longo prazo na imensa garagem. Cooperativamente, o homem inclinou-se para dentro da mala de seu carro a fim de apanhar sua maleta de amostra: Ele nem viu o Dr. Lecter chegar por trás.
O Dr. Lecter ficou cismando se a polícia acreditaria que ele era suficientemente estúpido para partir de avião daquele aeroporto. O único problema na viagem para St.
Louis foi descobrir os botões das luzes, o botão luz alta, luz baixa, e o dos limpadores de pára-brisas no carro de
fabricação estrangeira, pois o Dr. Lecter estava familiari-zado com os controles ao lado do volante.
No próximo dia ele iria comprar as coisas de que precisava: tintura para o cabelo, material para barbear-se, uma lâmpada infra-vermelha e itens que lhe serviriam para realizar algumas mudança imediatas na sua aparência.
Quando fosse conveniente, ele se movimentaria.
Não havia razão para apressar-se.
CAPÍTULO 44
Ardelia Mapp estava em sua posição habitual: re-costada na cama e com um livro. Ouvia uma estação noti-ciosa de rádio. Desligou o aparelho assim que Clarice Starling entrou. Olhando para aquele rosto abatido, pruden-temente nada lhe perguntou além de:
— Quer tomar um chá?
Quando estudava, Mapp tinha uma beberagem que preparava com folhas soltas diversas mandadas por sua avó, à qual dava nome de “chá das pessoas inteligentes”.
Das duas pessoas mais inteligentes que Starling conhecia, uma era também a mais equilibrada e a outra era a mais assustadora. Starling esperava que isso trouxesse um certo equilíbrio entre seus conhecimentos.