O Silêncio dos Inocentes
1 para ele.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Senadora Martin, precisamos saber quem é esse homem, entenda isso. Se for o namorado dela, muito bem. Eu posso descobrir em cinco minutos. Ninguém precisa ver essas fotos e Catherine nunca precisará saber que as vimos.
— Eu me encarrego disso. — A senadora Martin pôs o envelope na sua bolsa e Krendler não a impediu.
— Senadora: a senhora tirou as jóias do repolho de borracha na geladeira? — perguntou Starling.
O assistente da senadora Martin, Brian Gossage, enfiou a cabeça na porta.
— Desculpe-me, senadora, eles acabaram de montar o terminal. Nós poderemos vê-los pesquisando o no-me de William Rubin no FBI.
— Vá para lá, senadora Martin — aconselhou Krendler. Sigo-a em um segundo.
Ruth Martin saiu do quarto sem responder à pergunta de Starling.
Starling teve a oportunidade de examinar Krendler enquanto ele se ocupava em fechar a porta do quarto. Sua roupa era um triunfo de arte da costura masculina e ele não estava armado. O brilho desaparecera da metade infe-
rior dos saltos dos sapatos de tanto andar sobre tapetes de pêlo alto, e suas bordas eram bicudas.
Ele ficou por um momento com a mão na maçaneta da porta, a cabeça arriada.
— Bela pesquisa, a que você fez — admoestou, fitando-a.
Starling não podia deixar-se amesquinhar dessa forma. Encarou-o nos olhos, firme.
— Treinam o pessoal para buscas minuciosas em Quântico — reforçou Krendler.
— Não preparam ladrões.
— Eu sei disso.
— Custo a acreditar que saiba mesmo.
— Bem, esqueça!
— Vamos prosseguir investigando as fotos e o repolho de borracha, está de acordo? — perguntou ela.
— Sim.
— E que história é essa do nome Wil iam Rubin, Sr. Krendler?
— Lecter diz que é o nome de Buffalo Bil . Aqui está nossa transmissão para o departamento de identificação e para o CNIC, (Centro Nacional de Informações sobre Crimes). Dê uma olhada. — Entregou-lhe uma trans-crição da entrevista de Lecter com a senadora Martin, cópia meio confusa devido à impressão com uma matriz pontilhada.
— Algum comentário? — perguntou, assim que Starling acabou de ler.
— Não há nada aqui que ele jamais tenha que engolir de volta — comentou Starling. — ele diz que é um homem branco chamado Billy Rubin, que teve um antraz.
Ninguém poderia pegá-lo numa mentira, aconteça o que
acontecer. Na pior das hipóteses, ele se teria enganado.
Espero que seja verdade, mas ele pode estar se divertindo com a senadora, Sr. Krendler. Ele é perfeitamente capaz disso. O senhor alguma vez. . o viu?
Krendler sacudiu a cabeça negativamente e deu uma fungada pelo nariz.
— Ao que consta, o Dr. Lecter matou nove pessoas. Não tem nenhuma chance. Ele podaria ressuscitar os mortos e não o poriam em liberdade. Então, tudo o que lhe resta é divertir-se. Por isso é que nós o vínhamos explorando. .
— Sei como vocês o estavam trabalhando. Ouvi a fita gravada de Chilton. Não digo que era errado, mas agora acabou. A Ciência do Comportamento pode continuar investigando o que você desencavou — o ângulo transexual — para ver se vale algo. E você voltará para a escola em Quântico amanhã.
— Essa não!
— Eu descobri algo mais.
A folha de papel colorido ficara em cima da cama, despercebida. Apanhou-a e entregou-a a Krendler.
— O que é isto?
— Parece uma folha cheia de Plutos.
Ela o fez ficar ainda mais curioso. Ele agitou os dedos, exigindo a informação.
— Estou bastante segura de que é ácido de mata-borrão. LSD. Talvez da metade da década de 70 ou antes.
Agora é uma curiosidade. Valerá a pena descobrir onde ela o conseguiu. Devemos testá-lo para estar seguros.
— Você poderá levá-lo de volta para Washington e entregá-lo ao laboratório. Você vai partir dentro de alguns minutos.
— Se o senhor não quiser esperar poderemos testar agora com um aparelho de campo. Se a polícia tiver o kit padrão de identificação de narcóticos, é o tese J, leva dois segundos, e poderemos..
— De volta para Washington, de volta para a escola — exigiu ele, abrindo a porta.
— O Sr. Crawford instruiu-me...
— Suas instruções agora são o que estou lhe dizendo. Você não está mais sob as ordens de Jack Crawford.
Vai ficar sob a mesma supervisão que qualquer estagiário de agora em diante e sua obrigação vai ser cumprida em Quântico, está me entendendo? Há um avião às duas e vinte. Embarcará nele.
— Sr. Krendler, o Dr. Lecter falou comigo depois de haver-se recusado a falar com a polícia de Baltimore.
Ele poderá fazer isso de novo. O Sr. Crawford acredita..
Krendler fechou de novo a porta, agora com mais violência do que antes.
— Policial Starling, não tenho que dar-lhe explica-ções, mas escute-me. A Ciência do Comportamento é um serviço de aconselhamento, sempre foi e voltará a sê-lo.
Jack Crawford deveria, de qualquer maneira, estar de licença por doença em pessoa da família. Me surpreende que tenha sido tão eficiente, nessas circunstâncias. Ele as-sumiu um risco tolo agindo assim, escondendo tudo da senadora Martin e acabou queimando o rabo. Com a folha de serviços que tem, tão perto da aposentadoria, nem ela poderá prejudicá-lo muito. Portanto eu não me preocuparia com a pensão dele, se fosse você.
Starling ficou um pouco perturbada.
— O senhor tem mais alguém que pegou três assassinos em série? O senhor conhece alguém que tenha
apanhado um? O senhor não devia deixar a senadora cuidar disso, Sr. Krendler.
— Presumo que seja uma garota brilhante, ou Crawford não se ocuparia com você, de modo que vou dizer-lhe uma coisa: tome cuidado com essa sua língua ou ela acabará colocando-a na turma das datilógrafas. . Procure entender: a única razão pela qual você foi mandada para Lecter a princípio foi para conseguir algumas notícias para o seu diretor usar no Congresso. Coisas sem importância sobre crimes, algo de novo sobre o Dr. Lecter, ele manu-seia com essas coisas como quem distribui balas para crianças enquanto tenta fazer aprovar o orçamento do seu serviço. Os congressistas engolem isso, jantam uma coisa dessas. Você saiu da sua rota, policial Starling, e agora está fora deste caso. Eu sei que você tem uma identificação suplementar. Devolva-me.
— Eu preciso dessa ID para portar a arma no avião. Ela pertence a Quântico.
— Uma arma! Jesus Cristo! Entregue a ID tão logo estiver de volta.
A senadora Martin, Gossage, um técnico e vários policiais estavam reunidos em volta de um terminal de vídeo com um modem ligado ao telefone. O NCIC mantinha por uma linha reservada um relato contínuo do progresso à medida que as informações do Dr. Lecter eram processadas em Washington. Agora chegavam notícias dos centros nacionais de controle de doenças em Atlanta: o antraz devido a marfim de elefante é contraído quando se aspira o pó do polimento de marfim africano, usualmente para a confecção de cabos de talheres decorativos.
Nos Estados Unidos é uma doença dos cuteleiros.
Ao ouvir a palavra “cuteleiros” a senadora Martin fechou os olhos, que estavam vermelhos e secos; ao mesmo tempo apertou o lenço Kleenex em sua mão.
O jovem miliciano que deixara Starling entrar no apartamento vinha trazendo uma xícara de café para a senadora. Ainda mantinha o chapéu na cabeça.
Starling se danava mas não ia sair escondida. Parou diante da senadora Martin e disse:
— Boa sorte, senadora. Espero que Catherine esteja bem. A senadora Martin inclinou a cabeça sem olhar para ela. Krendler apressou Starling, instando-a a sair.
— Eu não sabia que não lhe era permitido estar aqui — disse o jovem miliciano quando ela saiu do quarto.
Krendler acompanhou-a até o lado de fora.
— Tenho muito respeito por Jack Crawford —
despediu-se ele. — Por favor, diga-lhe como todos nos sentimos acerca. . do problema de Bella, e tudo mais. Agora, de volta à escola e cuide de você, O.K.?
— Adeus, Sr. Krendler.
E então ela se viu sozinha no estacionamento, com a desesperadora sensação de que nada compreendia deste mundo.
Ficou observando um pombo que andava por baixo das casas rebocadas e dos barcos. O pombo pegou uma casca de amendoim e largou-a de novo. O vento úmido arrepiou-lhe as penas.
Starling desejava poder falar com Crawford. Desperdício e estupidez levam-lhe a melhor — fora o que ele dissera. Enfrente esta situação, isso a enrijecerá. Esse é o teste mais duro — não deixar que a raiva e a frustração
impeçam de pensar. Esta é a prova para saber se você po-de comandar ou não.
Ela pouco ligava agora para o comando. Descobrira que não valia uma merda, e não ligava porra nenhuma pa-ra a questão de ser a agente especial Starling. Não se as coisas funcionavam daquela maneira.
Pensou na pobre da pequena gorda, triste e morta que vira na mesa na Casa Funerária em Potter, West Virgínia. Fazia suas unhas brilharem como essa droga desses barcos vermelhos de esquiar.
Qual era o nome dela? Kimberly.
Que eu me dane se esses merdas vão me ver chorar. Jesus! Todo mundo se chama Kimberly, na classe dela havia quatro. Três camaradas chamados Sean. Kimberly, com seu nome de novela de rádio, tentava arrumar-se, fizera todos aqueles furos nas orelhas para se enfeitar, tentando ficar bonita. E Buffalo Bil dera uma olhada para seus peitos grandes e chatos, enfiara o cano de uma arma entre eles, deixando uma estrela-do-mar em seu tórax.
Kimberly, sua triste e gorda irmã que depilava as pernas com cera. Não era de espantar — julgando por suas pernas e braços, por seu rosto, a pele era seu melhor atributo.
Kimberly, você está em algum lugar, zangada? Não há nenhum senador procurando por ela. Não há aviões a jato carregando homens loucos para toda parte. Loucos era uma palavra que ninguém atribuiria a ela. Uma porção de coisas jamais atribuiriam a ela... Homens loucos.
Starling consultou seu relógio. Tinha uma hora e meia para o avião e havia ainda uma coisinha que ela podia fazer. Queria observar a cara do Dr. Lecter quando ele dissesse “Billy Rubin”. Se pudesse encarar aqueles estra-
nhos olhos por tempo bastante, se pudesse olhar para o fundo onde as negras pupilas absorvem os raios, conseguiria ver algo útil.
Graças a Deus ainda tenho minha identificação.
Quando saiu do estacionamento, deixou no chão um risco de borracha com três metros de comprimento.
CAPÍTULO 35
Clarice Starling dirigia depressa no perigoso tráfego de Memphis, levando duas lágrimas de raiva secas em seu rosto. Sentia-se estranhamente aérea e livre agora. Uma claridade que não era natural na sua visão advertia-a de que estava inclinada a lutar, de forma que precisava tomar cuidado consigo mesma.
Havia passado pelo velho foro mais cedo, quando viera do aeroporto, e não teve dificuldades para encontrá-lo de novo.
As autoridades de Tennessee não estavam se arriscando com Hannibal Lecter. Pretendiam mantê-lo seguro sem o sujeitar aos perigos da cadeia da cidade.
A resposta que encontraram foi a antiga corte de justiça e prisão, uma estrutura maciça em estilo gótico, construída com granito na época em que a mão-de-obra era grátis. Era agora um edifício de escritórios estatais no centro, de certa maneira super-restaurado nessa cidade próspera e consciente da sua história.
Hoje ela parecia uma fortificação medieval cercada pela polícia.
Uma mistura de carros de agentes da lei — patrulha rodoviária, departamento de xerife do condado de Shelby.
Escritório de Investigações do Tennessee, e Departamento Correcional — atulhavam o estacionamento. Havia um posto de polícia a atravessar antes que Starling pudesse entrar no estacionamento com seu carro alugado.
O Dr. Lecter impunha um problema adicional de segurança externa. Telefonemas ameaçadores continua-vam a chegar desde que o noticiário da manhã divulgara
sua localização; suas vítimas tinham muitos amigos e parentes que gostariam de vê-lo morto.
Starling torcia para que o agente do FBI não estivesse por ali. Ela não queria envolver Copley em dificuldades. Viu a nuca de Chilton rodeada por um batalhão de repórteres no gramado diante da escadaria principal. No meio da multidão havia duas minicâmaras de TV. Starling gostaria de ter qualquer coisa para cobrir a cabeça. Virou o rosto para o outro lado quando se aproximou da entrada.
Um miliciano estadual estacionado em frente à porta examinou sua ID antes de deixá-la entrar no vestíbulo, que parecia agora uma casa de guarda. Havia um policial da cidade parado em frente ao único elevador da torre e outro nas escadas. Milicianos estaduais, o pessoal que ia render as unidades de patrulha estacionadas em torno do prédio, liam o Commercial Appeal em poltronas onde o público não podia vê-los.
Um sargento guarnecia a mesa do lado oposto ao elevador. Sua placa dizia: TATE, C.L.
— Nada de imprensa — avisou ele quando viu Starling.
— Não sou da imprensa — respondeu ela.
— Está com o pessoal do Promotor Público? —
perguntou o sargento, olhando para o cartão dela.
— Com o assistente do Promotor Público Krendler
— respondeu. — Acabo de deixá-lo.
O sargento fez que sim com a cabeça.
— Temos tido toda espécie de tiras do oeste do Tennessee querendo dar uma olhada no Dr. Lecter. Não se vê uma coisa como essa muito comumente, graças a Deus. Você precisa falar com o Dr. Chilton antes de subir.
— Falei com ele ao chegar — assegurou Starling.
— Estivemos trabalhando neste caso em Baltimore hoje cedo. É aqui que eu me registro, sargento Tate?
O sargento correu a língua pelos dentes antes de responder.
— Aí mesmo — disse ele. — Regras de detenção, senhorita. Visitantes devem deixar as armas, policiais ou não. Starling anuiu com a cabeça. Despejou os cartuchos de sua arma, o sargento satisfeito ao ver como ela a mane-java. Entregou-a com a empunhadura para a frente e ele a guardou em sua gaveta.
— Vernon, leve-a para cima. — Discou três números e pronunciou o nome dela no fone.
O elevador, que fora adicionado depois da década de 20, gemeu até o andar do topo. Abria-se para um patamar de escadas e um curto corredor.
— Bem em frente do outro lado, madame — instruiu o miliciano.
Pintado no vidro fosco da porta lia-se: SOCIE-DADE HISTÓRICA DO CONDADO DE SHELBY.
Quase todo o andar superior da torre consistia em uma sala octogonal pintada de branco, com o piso e as molduras de carvalho polido. Cheirava a cera e cola de biblioteca. Com seus parcos móveis, a sala tinha o aspecto severo de uma igreja congregacional. Possuía agora uma aparência melhor do que quando fora o escritório do bai-lio. Dois homens com o uniforme do Departamento Correcional do Tennessee estavam de serviço. O menor levantou-se de sua mesa quando Starling entrou. O mais alto continuou sentado numa cadeira de dobrar no canto
mais afastado da sala, de frente para a porta de uma cela.
Era o guarda-suicida.
— A senhora está autorizada a falar com o prisioneiro, madame? — perguntou o policial à mesa. Sua placa dizia: PEMBRY, T.W., e na mesa viam-se um telefone, dois bastões de motim e um Mace químico. Uma comprida haste com um laço de corda estava de pé no canto atrás dele. — Sim, estou — garantiu Starling. — Já o interro-guei antes.
— Conhece as regras? Não ultrapasse a barreira.
— Certamente.
A única coisa colorida na sala era uma barreira de tráfego da polícia, um cavalete com faixas brilhantes em laranja e amarelo montado com luzes pisca-pisca amarelas, agora desligadas. O cavalete estava no chão, a um metro e meio da porta da cela. Num cabide próximo estavam as coisas do doutor — a máscara de hóquei e algo que Starling nunca vira antes, um colete de galés de Kansas. Feito de couro pesado, com algemas de dupla fechadura presas no peito e fivelas nas costas, talvez seja o mais infalível dispositivo de segurança do mundo. A máscara e o colete preto suspenso pela gola no cabide de pé formavam uma perturbadora composição de encontro à parede branca.
Starling pôde ver o Dr. Lecter quando se aproximou da cela. Ele estava lendo junto a uma pequena mesa aparafusada no chão, de costas para a porta. Ele tinha um certo número de livros e a cópia da pasta atualizada sobre Buffalo Bill que ela lhe havia entregado em Baltimore. Um pequeno gravador do tipo cassete estava acorrentado ao pé da mesa. Tão estranho vê-lo fora do asilo.
Starling tinha visto celas como essa antes, quando criança. Eram pré-fabricadas por uma companhia de St.
Louis por volta do inicio do século e ninguém mais as construíra melhor — uma gaiola modular de aço tempe-rado que transforma qualquer quarto numa cela. O chão era de chapas de aço e as paredes e o teto de barras de aço forjadas a frio cercavam a cela por completo. Não havia janelas, mas o recinto era totalmente branco e bem iluminado. Um leve biombo de papel ficava em frente ao toalete.
Essas barras brancas formavam costelas nas paredes. O Dr. Lecter tinha uma cabeça fina e escura.
Ele é um vison de cemitério. Vive numa gaiola de costelas nas folhas secas de um coração.
Ela afastou aquela idéia da cabeça.
— Bom dia, Clarice — saudou ele sem se voltar.
Terminou de ler a página, marcou-a e rodou na cadeira para encará-la, com os antebraços nas costas da cadeira e o queixo apoiado neles. — Dumas conta-nos que juntar um corvo à sopa no outono, quando o corvo está gordo de tanto comer as frutinhas do zimbro, melhora muito a cor e o gosto da beberagem. Você gostaria de um corvo na sua sopa, Clarice?
— Andei pensando que o senhor desejaria seus desenhos, as coisas que estavam na sua cela, até conseguir sua janela com uma vista.
— Como você é atenciosa. O Dr. Chilton está eufórico porque você e Jack Crawford foram afastados do caso. Ou será que eles a mandaram para um último esforço de engambelar-me?
O policial que estava no posto suicida tinha ido falar com o policial Pembry. Starling torcia para que não pudessem ouvi-los.
— Eles não me mandaram. Eu vim por conta própria. — As pessoas vão dizer que temos um romance.
Você não quer perguntar sobre Bil y Rubin, Clarice?
— Dr. Lecter, sem... de qualquer forma... pôr em dúvida o que o senhor disse à senadora Martin, o senhor me aconselharia a prosseguir na sua idéia acerca. .
— Pôr em dúvida... Adorei. Eu não aconselharia você de forma alguma. Você tentou enganar-me, Clarice.
Você pensa que estou brincando com essa gente?
— Acho que o senhor estava me dizendo a verdade. — É uma pena que vocês tenham tentado me enganar, não é? — A cabeça do Dr. Lecter mergulhou em seus braços até que somente seus olhos eram visíveis. —
E é uma pena que Catherine Martin jamais verá de novo a luz do sol. O sol é um colchão de fogo onde o Deus dela morreu, Clarice.
— É uma pena também que o senhor tenha agora que ser um alcoviteiro e lamber algumas lágrimas quando pode... — disse Starling. — É uma pena não termos acabado o que estávamos conversando. Sua idéia de uma imago, de sua estrutura, tinha uma espécie de. . elegância da qual é difícil livrar-se. Agora é como uma ruína, a metade de um arco ainda em pé.
— A metade de um arco não fica em pé. E por fa-larem arcos, eles ainda vão deixar você patrulhar, Clarice?
Tiraram seu distintivo?
— Não.
— O que é isso embaixo da sua jaqueta, um relógio de vigia como o do papai?
— Não, é um carregador rápido.
— Quer dizer que anda armada?
— Ando.
— Então você deveria alargar seu casaco. Você costura?
— Sim.
— Foi você quem fez esse costume?
— Não, Dr. Lecter: o senhor descobre tudo. O senhor não pode ter falado intimamente com esse Bil y Rubin e sair da entrevista sabendo tão pouco sobre ele.
— Você acha que não?
— Se o senhor o conheceu, então sabe tudo. Mas hoje o senhor pareceu lembrar apenas de um detalhe. Que ele teve um antraz devido a marfim de elefante. O senhor deveria tê-los visto pularem quando Atlanta informou que é uma doença de cuteleiros. Eles engoliram, exatamente como o senhor sabia que iriam fazer. O senhor deveria ter alugado uma suíte no Peabody para esse fim. Dr. Lecter, se o senhor o conheceu, sabe mais a respeito dele. Penso que o senhor não se encontrou com ele, só Raspail contou-lhe a seu respeito. Coisa de segunda mão não venderia tão bem para a senadora Martin, não é?
Starling olhou por sobre o ombro para os milicianos. Um deles mostrava ao outro algo na revista Guns & Ammo. — O senhor tinha algo mais para contar-me em Baltimore, Dr. Lecter. Acredito que o que me disse era válido. Diga-me o resto.
— Eu li os casos, Clarice; você leu? Tudo o que precisa para encontrá-lo está ali, se você prestar atenção.
Até Crawford o Inspetor Emérito deveria tê-lo descoberto. Incidentalmente, você leu o estupidificante discurso de Crawford no ano passado na Academia Nacional de Polícia? Falando pomposamente sobre Marco Aurélio acerca do dever, da honra e da fortaleza? Veremos que espécie de estóico Crawford é quando Bella bater as botas. Ele copia sua filosofia do Bartlett’s Familiar, segundo creio. Se ele tivesse entendido Marco Aurélio, poderia resolver este caso. — Diga-me como.
— Quando você mostra essa estranha inteligência contextual, eu perdôo sua geração por não saber ler, Clarice. O Imperador aconselha a simplicidade. Princípios pri-mários. Sobre cada coisa particular pergunte: o que ela é em si mesma, em sua própria constituição? Qual é sua natureza casual?
— Isso para mim nada significa.
— O que é que ele faz, o homem que você procura? — Ele mata...
— Ah!... — fez Lecter vivamente, virando de lado seu rosto por um momento, desgostoso pela cabeça dura dela. — Isso é incidental. Qual é a primeira e a principal coisa que ele faz, a que necessidade ele atende quando ma-ta? — Ódio, ressentimento social, frustração sexual..
— Não.
— O quê, então?
— Ele cobiça. Ele ambiciona, de fato, ser exatamente o que você é. É da natureza dele cobiçar. Como é que nós começamos a ter ambições, Clarice? Nós procu-
ramos as coisas para cobiçar? Faça um esforço para responder.
— Não. Nós apenas..
— Não. Precisamente isso. Nós começamos ambicionando aquilo que vemos diariamente. Você não sente olhares correndo sobre você todos os dias, Clarice, em encontros casuais? Dificilmente posso crer que você não os sinta. E seus olhos não correm sobre coisas?
— Muito bem. Diga-me como...
— É a sua vez de dizer para mim, Clarice. Você não tem mais férias na praia para me oferecer na Estação de Febre Aftosa. Daqui para diante é estritamente na base do quid pro quo. Tenho que ser cuidadoso tratando de negócios com você, Clarice. Conte-me, Clarice.
— Contar-lhe o quê?
— As duas coisas que você me deve de antes. O que aconteceu com você e o cavalo, e o que você faz com sua raiva.
— Dr. Lecter, quando tivermos tempo eu. .
— Nós não calculamos o tempo da mesma forma, Clarice. Isto é todo o tempo que você jamais terá.
— Mais tarde. Escute, eu. .
— Eu escutarei agora. Dois anos depois da morte de seu pai, sua mãe mandou-a viver com sua prima e o marido num rancho em Montava. Você tinha dez anos de idade. Você descobriu que eles alimentavam cavalos para vender a carne. Você fugiu com um cavalo que não podia enxergar muito bem. E...?
— Era verão e a gente podia dormir ao relento.
Chegamos até Bozeman por uma estrada interior.
— O cavalo tinha um nome?
— Provavelmente, mas eles não. . você não liga pa-ra essas coisas quando está alimentando cavalos para car-neá-los. Eu a chamava de Hannah, parecia-me um bom nome. — Você ia montada nela ou a puxava?
— Uma coisa e outra. Eu tinha que encostá-la nu-ma cerca para poder montá-la.
— Você cavalgou e andou até Bozeman.
— Havia uma estrebaria, um rancho de cavalos, uma espécie de academia de montaria nos arredores da cidade. Tentei ver se queriam ficar com ela. Custava 20
dólares por semana no curral. Mais ainda se fosse para uma cocheira. Logo descobriram que ela não podia enxergar. Eu disse O.K., eu a conduziria para dar umas voltas e as crianças pequenas podiam montá-la enquanto os pais estavam tomando lições de equitação. Eu poderia ficar por ali e limpar as cocheiras. Um dos dois, o homem, concordou com tudo o que eu dizia enquanto a mulher foi chamar o xerife.
— O xerife era um policial, como seu pai.
— Isso não impediu que eu, a princípio, ficasse com medo dele. Ele tinha o rosto vermelho, grande e redondo. Finalmente pagou 20 dólares para a estada minha e do cavalo enquanto resolvi as coisas. Disse que não valia a pena alugar uma cocheira enquanto o tempo estava quente. Os jornais souberam da história. Houve um fala-tório. A mulher de meu primo concordou em deixar-me ir embora. Acabei indo para a Casa Luterana em Bozeman.
— É um orfanato?
— Sim.
— E Hannah?
— Ela foi para lá também. Um grande fazendeiro luterano entrava com o feno. Eles já tinham um estábulo no orfanato. Arávamos a horta com ela. No entanto, você tinha que observar para onde ela ia. Atravessava as treliças de ervilha e pisava em qualquer espécie de planta baixa demais para ela senti-la contra suas pernas. E nós também a puxávamos passeando com uma porção de criança num carro. — Ela morreu, entretanto.
— Bem, sim.
— Conte-me sobre isto.
— Foi no ano passado, segundo me escreveram pa-ra a escola Achavam que ela tinha 22 anos. Puxou o carro cheio de criança até o último dia de sua vida e morreu dormindo.
O Dr. Lecter pareceu desapontado.
— Que comovente! — zombou ele. — Seu pai adotivo em Montana fodeu você?
— Não.
— Ele tentou?
— Não.
— O que fez você fugir com o cavalo?
— Eles iam matá-la.
— Você sabia quando?
— Não exatamente. Ficava preocupada com isso todo o tempo. Ela estava engordando muito.
— O que foi então que a fez tomar aquela decisão?
O que fez você decidir-se naquele dia em particular?
— Não sei.
— Penso que você sabe.
— Eu me preocupava todo o tempo.
— O que fez você resolver-se, Clarice? Você partiu a que horas?
— Cedo. Ainda estava escuro.
— Então alguma coisa acordou você. O que a acordou? Algum sonho? O que foi?
— Acordei e ouvi as ovelhas balindo. Acordei no escuro e as ovelhas estavam balindo.
— Eles estavam matando as ovelhas novas?
— Sim.
— O que você fez?
— Eu nada podia fazer por elas. Era apenas uma..
— O que você fez com o cavalo?
— Vesti-me sem acender a luz e saí. Hannah estava assustada. Todos os cavalos no curral estavam assustados e indóceis. Soprei no nariz dela e ela sabia que era eu. Finalmente colocou o focinho em minha mão. As luzes estavam acesas no galpão e na coberta junto ao cercado das ovelhas. Lâmpadas nuas projetavam grandes sombras. O
caminhão frigorífico viera e o motor roncava, funcionando. Eu levei-a para fora.
— Colocou-lhe uma sela?
— Não; não levei a sela deles. Apenas um cabresto e uma guia.
— E quando você partiu no escuro, podia ouvir as ovelhas onde as luzes estavam acesas?
— Não as ouvi mais. Eram apenas doze.
— Você ainda acorda algumas vezes, não? Acorda no escuro com as ovelhas balindo?
— Às vezes.
— Você pensa que se pegasse Buffalo Bil , se conseguisse salvar Catherine, poderia fazer as ovelhas para-rem de balir, você pensa que elas também seriam salvas e
você não acordaria de novo no escuro para ouvir seus lamentos, Clarice?
— Sim... Não sei... Talvez...
— Obrigado, Clarice. — O Dr. Lecter parecia estranhamente em paz.
— Diga-me o nome dele, Dr. Lecter — pediu Starling. — Dr. Chilton — disse subitamente Lecter —
,creio que vocês já se conhecem. .
Por um momento Starling não compreendeu que Chilton estava atrás dela. Então ele a segurou pelo cotovelo.
Ela soltou-se da mão dele. O policial Pembry e seu colega grandalhão estavam com Chilton.
— Para o elevador — comandou Chilton. Seu rosto estava cheio de manchas vermelhas.
— Você sabe que o Dr. Chilton não tem diploma de médico? — perguntou o Dr. Lecter. — Guarde isto na sua mente para mais tarde. .
— Vamos! — gritou Chilton.
— O senhor não é o encarregado aqui, Dr. Chilton
— protestou Starling.
O policial Pembry saiu de trás de Chilton.
— Não, madame, mas eu sou. Ele telefonou ao meu chefe e ao seu também. Desculpe-me, mas tenho ordens para levá-la daqui. Portanto, venha comigo.
— Adeus, Clarice. Você me comunicará se as ovelhas algum dia deixarem de gemer?
— Sim.
Pembry estava pegando o braço dela. Era ir ou lutar. — Sim — prometeu ela — , eu lhe avisarei.
— É uma promessa?
— Sim.
— Então por que não terminar o arco? Leve sua pasta sobre o caso com você, Clarice. Não preciso mais dela. — Estendeu-lhe a pasta por entre as barras com o braço esticado, o dedo indicador na lombada. Ela esticou-se por cima da barreira e agarrou-a. Por um instante a ponta do seu dedo tocou o do Dr. Lecter. Aquele toque refletiu-se nos olhos dele.
— Obrigado, Clarice.
— Obrigada, Dr. Lecter.
E assim ficou ele na memória de Clarice. Flagrado no instante em que não estava zombando. De pé em sua cela branca, dobrado para a frente como um bailarino, as mãos entrelaçadas à sua frente, a cabeça ligeiramente de lado. Ela passou por cima de um obstáculo no aeroporto com velocidade bastante para bater com a cabeça de encontro ao teto do carro e teve que correr para alcançar o avião que Krendler a mandara pegar.
CAPÍTULO 36
Os policiais Pembry e Boyle eram homens experientes, trazidos especialmente da Prisão Estadual de Brushy Mountain para serem os guardas do Dr. Lecter.Calmos e corajosos, não achavam que seu serviço precisava ser-lhes explicado pelo Dr. Chilton.
Haviam chegado a Memphis antes de Lecter e examinado a cela minuciosamente. Quando o Dr. Lecter foi trazido para o velho foro, examinaram-no da mesma forma. Ele foi submetido a uma pesquisa do corpo por um enfermeiro enquanto ainda estava imobilizado. Sua roupa foi examinada cuidadosamente e um detector de metal passado sobre as costuras.
Boyle e Pembry chegaram a um acordo com ele, falando em voz baixa e em tom educado junto a seus ouvidos enquanto era examinado.
— Dr. Lecter, poderemos dar-nos muito bem. Nós o trataremos tão bem quanto o senhor nos tratar. Aja co-mo um cavalheiro e o senhor será tratado a pão-de-ló.
Mas não pretendemos empregar luvas de pelica. Tente morder e deixaremos sua boca sem um dente. Parece que aqui estão lhe arranjando algo de bom. O senhor não deseja estragar tudo, não é?
O Dr. Lecter piscou os olhos para eles de um mo-do amável. Se estivesse inclinado a responder, não poderia tê-lo feito impedido por um toco de madeira injetado entre seus molares enquanto o enfermeiro lhe enfiava uma lanterna elétrica na boca e corria um dedo enluvado por suas bochechas.
O detector de metal deu um sinal ao passar por su-as bochechas.
— O que é isso? — perguntou o enfermeiro —
Obturações — contestou Pembry. — Puxe os lábios dele para trás. O senhor gastou bem os seus dentes de trás, não foi, doutor?
— Tenho a impressão de que ele é um cara muito acabado — confidenciou Boyle a Pembry depois que deixaram o Dr. Lecter seguro em sua cela. — Não irá causar-nos dificuldades se não perder a calma.
A cela, embora segura e resistente, não dispunha de um transportador deslizaste de comida. Na hora do almoço, na desagradável atmosfera que se seguiu à visita de Starling, o Dr. Chilton incomodou todo mundo, obrigan-do Pembry e Boyle ao longo processo de imobilizarem o Dr. Lecter na camisa-de-força e restrição das pernas. Ele não ofereceu resistência, voltado de costas para as barras, enquanto o Dr. Chilton fazia pose com a Mace antes de abrirem a porta para lhe entregarem a bandeja de comida.
Chilton recusava-se a pronunciar os nomes de Boyle e Pembry, embora eles tivessem etiquetas citando-os, e dirigia-se a eles indiscriminadamente como “você aí!”.
Da parte deles, depois que ouviram dizer que Chilton não era realmente um médico, Boyle observou a Pembry que “ele era um porra duma espécie de mestre-escola”.
Pembry tentou uma vez explicar a Chilton que a visita de Starling fora aprovada não por eles, mas pelo pessoal lá debaixo, mas verificou que, ante a raiva de Chilton, aquele detalhe não tinha importância.
O Dr. Chilton esteve ausente no jantar e, com a bem-humorada cooperação do Dr. Lecter, Boyle e Pem-
bry usaram seu próprio método para introduzir a bandeja dentro da cela. Funcionou muito bem, — Dr. Lecter, o senhor não vai precisar usar seu disser jackei — disse Pembry. — Vou pedir-lhe para sentar-se no chão e arrastar se para trás até que possa passar as mãos por entre as barras com os braços estendidos. Assim mesmo. Chegue-se um pouco mais para trás e endireite os braços mais um pouco, com os cotovelos retos — Pembry colocou as algemas apertadas do lado de fora das barra: com uma barra por entre os braços e uma barra transversal acima deles.
— Isso dói um pouquinho, não é? Sei que dói, mas elas não vão ficar aí mais do que um minuto e poupa-nos um bocado de dificuldade.
O Dr. Lecter não podia levantar-se, nem mesmo acocorar-se e, com as pernas esticadas à frente sobre o chão, não podia chutar.
Somente após o Dr. Lecter estar trancado, Pembry veio à mesa a fim de pegar a chave. Pembry enfiou o bastão de motim no cinturão, colocou uma lata de Mace no bolso e voltou para a cela.
— Abri Lecter. — Como sabem, estou tentando facilitar as coisas.
— Todos nós estamos, irmão — confirmou Pembry. O Dr. Lecter brincou com a comida enquanto escrevia, desenhava e fazia bonecos em sua prancheta com uma caneta de ponta de feltro. Ele enfiou o cassete no toca-fita preso à perna da mesa e fê-lo funcionar. Glenn Gould tocava as Variações Goldberg ao piano. A bonita música, acima dos problemas e da ocasião, enchia a cela iluminada e a sala onde estavam os guardas.
Para o Dr. Lecter, sentado quieto à sua mesa, o tempo passava devagar e alongava-se como acontece quando se está em ação. Para ele as notas da música se separavam em movimentos sem perder a cadência. Mesmo as vibrações prateadas de Bach eram notas discretas reverberando no aço que o rodeava. O Dr. Lecter levantou-se com uma expressão desligada e observou o guardanapo de papel deslizando de sua coxa para o chão. O
guardanapo ficou no ar certo tempo, roçou a perna da mesa, abriu-se, planou de lado, deu uma parada e virou antes de finalmente descansar no chão de aço. Ele não fez nenhum esforço para apanhá-lo, mas deu uma caminhada pela cela, passou para trás do biombo de papel e sentou-se na privada, seu único lugar privativo. Escutando a música, encostou-se de lado na pia, com o rosto na mão, os estranhos olhos castanhos meio cerrados. As Variações Goldberg interessavam-no estruturalmente. Aqui voltava de novo a progressão do violoncelo depois da sarabanda repetida e repetida. Acompanhava com a cabeça, sua língua movendo-se pelas pontas dos dentes. Toda a volta por cima, toda a volta por baixo. Foi uma longa e interessante viagem para sua língua, como uma boa caminhada pelos Alpes. Examinava agora as gengivas, correndo a língua na cavidade entre a bochecha e a gengiva, movendo-a vagarosamente em volta como alguns homens fazem quando estão ruminando. As gengivas eram mais frescas que a língua. Na cavidade inferior era ainda mais fresco. Quando sua língua tocou um pequeno cilindro de metal, ela parou. Acima dos sons da música ele ouviu quando o elevador gemeu e roncou, começando a subir. Muitas notas
musicais mais tarde, a porta do elevador abriu-se e uma voz que ele não conhecia disse:
— Abra a porta enquanto Boyle entrava com a bandeja. Quando a porta estava aferrolhada de novo, Boyle levou a chave de volta para a mesa antes de tirar as algemas do Dr. Lecter. Em nenhum momento ele ficou perto das barras com a chave enquanto o doutor esteve solto na cela.
— Isso agora foi muito fácil, não foi? — perguntou Pembry.
— Muito conveniente, policial, obrigado — agradeceu o Doutor.
— Vim buscar a bandeja.
O Dr. Lecter escutou quando o mais baixo dos guardas veio para perto da cela. Pembry. Ele podia enxergar por uma fresta entre os painéis de sua tela. Pembry estava junto às barras.
— Dr. Lecter, venha sentar-se no chão com as mãos nas costas, como fizemos antes.
— Policial Pembry, incomodar-se-ia se me deixasse termina o que estou fazendo aqui? Receio que a viagem tenha perturba a minha digestão. — Levou muito tempo para dizer isso.
— Muito bem — disse Pembry para alguém na sa-la. — Nó o chamaremos quando tivermos a bandeja.
— Posso dar uma olhada nele?
— Nós chamaremos você.
Ouviu-se de novo o ruído do elevador e depois somente a música.
O Dr. Lecter tirou o tubinho da boca e enxugou-o num pedaço de papel higiênico. Suas mãos estavam firmes, as palmas perfeitamente secas.
Durante os anos de detenção, com sua inesgotável curiosidade o Dr. Lecter tinha aprendido muitas das artes secretas das prisões. Em todos os anos depois que atacara brutalmente o enfermeiro em asilo de Baltimore, houvera apenas dois lapsos na segurança em volta dele, ambos em dias de folga de Barney. Certa vez um pesquisado psiquiá-trico emprestou-lhe uma caneta esferográfica e depois esqueceu-se dela. Antes que o homem houvesse saído da galeria, Dr. Lecter já havia quebrado a capa plástica da caneta, jogando na privada e dando uma descarga. Guardou o tubo metálico para tinta nas costuras espiraladas do seu colchão.
A única ponta afiada em sua cela no asilo era uma aresta na cabeça de um parafuso que segurava seu beliche na parede. Foi bastante. Durante dois meses, esfregando, o Dr. Lecter cortou duas incisões paralelas com 6 milímetros de comprimento ao longo do tubo de seu lado aberto.
Então seccionou o tubo de tinta em dois pedaços a uns três centímetros do lado aberto e jogou o lado maior com a ponta no toalete. Barney não notou os cacos em seus dedos resultado de muitas noites a esfregar.
Seis meses mais tarde um guarda deixou um grande clipe de papel em alguns documentos mandados para o Dr. Lecter por seu advogado. Três centímetros do clipe de aço foram enfiados dentro do tubo e o resto jogado fora na privada. O pequeno tubo, liso e curto, era fácil de esconder nas costuras das roupas, entre a bochecha e a gengiva, no reto.
Agora, atrás da sua cortina de papel, o Dr. Lecter bateu com o pequeno tubo na unha do polegar até que o arame saiu de dentro dele. O arame era uma ferramenta, e essa era a parte difícil. O Dr. Lecter meteu o arame até o meio no pequeno tubo e com infinito cuidado usou como uma alavanca para dobrar para baixo a tira de metal entre as duas incisões. Às vezes elas quebram. Cuidadosamente, com suas mãos poderosas ele dobrou o metal à medida que saía. Agora. A frágil tira de metal formava um ângulo reto com o tubo. Agora ele tinha uma chave para abrir algemas.
O Dr. Lecter pés as mãos atrás das costas e passou a chave de uma mão para a outra quinze vezes. Recolocou a chave na boca enquanto lavava as mãos e as secava me-ticulosamente. A seguir, com a língua, escondeu a chave entre os dedos da mão direita, sabendo que Pembry iria olhar para sua estranha mão esquerda quando ela estivesse atrás de suas costas.
— Estou pronto quando o senhor estiver, policial Pembry — disse o Dr. Lecter. Sentou-se no chão da cela e esticou os braços para trás, passando as mãos e os punhos por entre as barras. — Obrigado por haver-me esperado.
— Parecia uma longa frase, mas era temperada pela música. Agora ouvia Pembry atrás dele. O policial tocou-lhe o pulso para ver se fora ensaboado. Repetiu a operação no outro pulso. Pembry colocou-lhe as algemas bem apertadas. Voltou à mesa para pegar a chave da cela. Sobre os sons do piano, o Dr. Lecter ouviu o ruído metálico do chaveiro quando Pembry o tirou da gaveta. Agora ele voltava, caminhando por entre os acordes musicais, rompendo o ar que vibrava com as notas cristalinas. Desta vez Boyle veio junto com ele. O Dr. Lecter podia escutar os distúrbios que eles faziam nos ecos musicais.
Pembry verificou de novo as algemas. O Dr. Lecter podia sentir o hálito do policial atrás dele. Agora Pembry
abriu a fechadura da cela e escancarou a porta. Hoyle entrou. O Dr. Lecter virou a cabeça, a cela movimentando-se por sua visão numa velocidade que parecia vagarosa para ele, mas com detalhes maravilhosamente nítidos —
Boyle na mesa apanhando as coisas espalhadas do jantar na bandeja, reunindo-as aborrecido com a desordem. O
toca-fita com seus rolos girando, o guardanapo no chão ao lado das pernas aparafusadas da mesa. Através das barras, o Dr. Lecter via, com o canto dos olhos, a curva por trás do joelho de Pembry, a ponta do bastão pendurado em seu cinto quando ele estava do lado de fora segurando a porta. O Dr. Lecter encontrou o buraco da algema em seu punho esquerdo, inseriu a chave e virou-a. Sentiu quando a mola da algema soltou-se em seu pulso. Passou a chave para a mão esquerda, achou o outro buraco, inseriu a chave e deu uma volta.
Boyle abaixou-se para pegar o guardanapo no chão.
Rápido como o bote de uma cobra, a algema fechou-se no pulso de Boyle e quando ele voltou o olhar para Lecter, a outra algema fechou-se em torno da perna fixa da mesa.
Agora de pé, o Dr. Lecter atirou se contra a porta enquanto Pembry tentava sair de trás dela e o ombro do Dr. Lecter forçava a porta de ferro em cima dele. Pembry tentava pegar a Mace no cinto, mas seu braço estava prensado no corpo pela porta. Lecter agarrou a ponta do bastão e levantou-a Com essa alavanca torcendo o cinto de Pembry em volta dele, deu um golpe com o cotovelo e cravou os dentes no seu rosto. Pembry tentou agarrar Lecter com as mãos mas tinha o nariz e o lábio superior agarrados pelos dentes que os dilaceravam. Lecter sacudia sua cabeça co-mo faz um cão matando um rato e tirou o cassetete do
motim do cinto de Pembry. Dentro da cela Boyle agora berrava sentado no chão, tentando desesperadamente meter a mão no bolso para pegar as chaves da algema, atrapa-lhando-se, deixando-a caiu encontrando-a de novo. Lecter bateu com o cassetete no estômago e na garganta de Pembry, e este caiu de joelhos. Boyle enfiou a chave numa das algemas, ao mesmo tempo em que berrava vendo Lecter se dirigir para ele. Lecter fez Boyle calar-se com um jato de Mace e, enquanto ele se engasgava, quebrou-lhe o braço estendido com dois golpes do bastão. Boyle tentou enfiar-se embaixo da mesa, mas cego pelo gás Mace, enga-tinhou em sentido contrário e foi fácil, com cinco golpes bem aplicados, calá-lo para sempre.
Pembry conseguira sentar-se e gritava. O Dr. Lecter olhou para ele com seu sorriso mau e disse:
— Estou pronto se o senhor estiver. .
Girando num curto arco, o bastão apanhou Pembry em cheio na nuca e ele caiu espichado como um peixe, liquidado com uma cacetada.
O pulso do Dr. Lecter, com o exercício, tinha subi-do a mais de 100, mas rapidamente voltou ao normal. Então parou a música e prestou atenção.
Foi até as escadas e prestou atenção de novo. Virou dos avessos os bolsos de Pembry, tirou a chave da mesa e abriu todas as gavetas. Na gaveta de baixo estavam as armas de serviço de Pembry e Boyle, um par de revólveres 38 especiais. Melhor do que isso: no bolso de Boyle encontrou uma faca.
CAPÍTULO 37
O saguão estava cheio de policiais. Eram 6:30 e a polícia nos postos de guarda do lado de fora tinha acabado de ser rendida em seu turno regular de duas horas. Os homens que entravam no saguão vindos da noite fria es-quentavam as mãos em vários aquecedores elétricos. Alguns deles tinham apostado dinheiro no jogo de basquete do time da universidade e estavam ansiosos para saber como ia o jogo.
O sargento Tate não permitia ouvir rádio alto no saguão, mas um oficial tinha um walkman ligado ao ouvido. Ele anunciava o resultado da partida a intervalos, mas não o suficiente para contentar os apostadores.
Ao todo havia quinze policiais armados no saguão, mais dois homens da Correcional prontos para render Pembry e Boyle às sete horas. O próprio sargento Tate estava esperando para largar o serviço do turno de 11 às 7.
Todos os postos avisavam que tudo estava calmo.
Nenhum dos telefones malucos ameaçando Lecter tinha dado qualquer resultado.
As 6:45 Tate ouviu o elevador começando a subir.
Observou quando o ponteiro de bronze por cima da porta começou a rodar pelo mostrador e parou no 5.
Tate deu uma olhada pelo saguão e perguntou:
— Sweeney foi buscar a bandeja?
— Não, estou aqui, sargento. Incomoda-se de telefonar para ver se eles terminaram? Eu preciso ir andando.
O sargento Tate discou três números e escutou.
— O telefone está ocupado — disse. — Suba para ver. — E voltou ao relatório que estava fazendo sobre o
turno de 11 as 7. O patrulheiro Sweeney apertou o botão do elevador, mas esse não veio.
— Pediu costeletas de carneiro esta noite, malpas-sadas — disse Sweeney. — O que você pensa que ele vai pedir para o desjejum alguma porra de um bicho do zoológico? E quem você pensa que terá de procurá-la para ele? Sweeney.
A seta de bronze acima da porta permanecia no 5.
Sweeney esperou mais um minuto.
— Que merda é essa? — exclamou.
Os tiros da 38 estouraram em algum lugar acima deles, os e troados ecoando pelas escadas de pedra abaixo, dois em seqüência rápida e depois um terceiro.
O sargento Tate, já de pé ao terceiro tiro, com o microfone na mão gritou:
— Posto de Comando, foram disparados tiros lá em cima na torre. Postos externos, fiquem alerta. Estamos subindo.
Gritaria e balbúrdia no saguão.
Tate viu então a seta de bronze do elevador começando a se movimentar. Chegou ao 4.
— Parem aí! — gritou Tate acima da confusão. -—
Dobrei a guarda nos postos externos, a primeira esquadra fica comigo. Ben e Howard, cubram a porra do elevador se ele descer. . — A agulha parou no 3.
— Primeira esquadra, comigo! Não passem por uma porta sei verificá-la antes. Bobby, do lado de fora, pegue uma espingarda os coletes blindados e traga-os para cá. A cabeça de Tate trabalhava febrilmente no primeiro lance de escadas. A cautela lutava com a terrível necessidade de ajudar os policiais lá em cima. Deus não permita
que ele tenha se soltado ninguém está usando coletes blindados. Porras da Correcional. .
Supunha-se que os escritórios do segundo, terceiro e quarto andares estivessem vazios e fechados. Podia-se passar da torre para o edifício principal nesses andares, atravessando os escritórios. No quinto andar não era possível. Tate freqüentara a excelente escola da SWAT do Tennessee sabia fazer as coisas. Seguiu na frente e levou com ele os mais jovens. Rápida e cuidadosamente, galga-ram as escadas dando cobertura uns aos outros de patamar em patamar.
— Se vocês derem as costas para uma porta antes de verificá-la, eu lhes meto no rabo!
As portas que davam para o segundo andar estavam escuras e fechadas.
Subiram agora para o terceiro, onde o curto corredor permanecia na penumbra. Um retângulo de luz vinha da porta aberta do elevador. Tate esgueirou-se pela parede oposta à do elevador aberto, mas neste não havia espelhos que o ajudassem. Com duas libras de pressão num gatilho de nove libras, ele olhou para dentro do carro. Vazio.
— Boyle! Pembry! Merda! — gritou para cima das escadas. Deixou um homem de guarda no terceiro andar e subiu. O quarto andar estava inundado com a música de piano que vinha de cima. A porta para os escritórios abriu-se com um empurrão. Além dos escritórios o feixe de luz da comprida lanterna elétrica refletiu-se numa porta escancarada que dava para o grande edifício escuro do outro lado.
— Boyle! Pembry! — Deixou dois homens no patamar. — Cubram a porta. Os coletes estão chegando.
Não mostrem seus rabos naquela porta.
Tate subiu os degraus de pedra em direção à música. Estava agora no topo da torre, o patamar do quinto andar; a luz era baça no estreito corredor. Uma claridade forte aparecia por trás do vidro opaco onde se lia: SOCI-EDADE HISTÓRICA DO CONDADO DE SHELBY.
Abaixado, Tate atravessou a porta de vidro até o lado oposto às dobradiças. Fez um sinal com a cabeça pa-ra Jacobs, torceu a maçaneta e empurrou com toda força, de forma que a porta abriu-se com força suficiente para estourar o vidro. Tate jogou-se rápido para dentro, atravessando as ombreiras da porta e cobrindo o quarto com a mira do revólver.
Tate já vira muitas coisas. Acidentes sem conta, lutas, assassinatos. Durante seu tempo de serviço contara seis policiais mortos, mas pensou que o que estava a seus pés era a pior coisa que já vira acontecer a um policial. A carne acima do colarinho do uniforme não se parecia mais com um rosto. A frente e o alto da cabeça eram uma só mancha de sangue recoberta de carne estraçalhada e um olho único estava ao lado das narinas, a cavidade cheia de sangue. Jacobs passou por Tate, escorregando no chão en-sangüentado e correu para dentro da cela. Inclinou-se sobre Boyle, ainda algemado à mesa. Boyle, com as tripas em parte à mostra, o rosto cortado em pedaços parecia ter explodido na tela, as paredes e o colcha cobertos de gotas e listas de sangue.
Jacobs passou os dedos em seu pescoço:
— Está morto — disse, colocando a voz mais alta que os sons da música. — Sargento?
Tate, recuperado e com vergonha de um segundo deslize, berrava no rádio:
— Posto de Comando: dois policiais abatidos. Repito: dois policiais abatidos. Prisioneiro desaparecido. Lecter desaparecido. Postos externos, observem as janelas, o criminoso tirou os lençóis do leito, pode estar fazendo uma corda. Confirme se ambulâncias estão a caminho.
— Pembry está morto, sargento? — Jacobs desliga-ra a música.
Tate ajoelhou-se e quando foi tocar no pescoço pa-ra auscultar aquela coisa horrível no chão deu um gemido e soprou uma bolha de sangue.