O Velho e o Mar

Ernest Hemingway · Capítulo 2 de 2 · parte 3/3

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O Velho e o Mar

Texto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

-- Não podia ir-me abaixo e morrer com um peixe como este -

- disse. -- Agora que o tenho a vir tão lindamente, Deus permita que eu aguente. Hei-de dizer cem Padre-Nossos e cem Ave-Marias. Mas não os posso dizer agora.

"Considera-os como ditos, pensou. Eu digo-os depois".

Nesse momento, sentiu uma súbita pancada e um sacão na linha, que segurou com as mãos ambas. Sacão violento, áspero, pesado.

"Está a bater no chumbo com o dardo, pensou. Isto tinha de acontecer. Ele havia de fazer isto.

Pode é fazê-lo saltar, e eu antes queria que ele se ficasse por agora às voltas. Os saltos eram necessários para ele tomar ar. Mas, depois de cada um, a abertura da ferida feita pelo anzol alargará, e ele pode livrar-se".

-- Não saltes, peixe. Não saltes.

O peixe atacou o arame várias vezes, e, de cada vez que sacudia a cabeça, o velho dava-lhe um pouco de linha.

"Tenho de manter-lhe a dor no grau em que está, pensou. A minha não importa. A minha domino eu. Mas a dele pode enlouquecê-lo".

Tempo depois, o peixe parou de bater no arame, e começou de novo a descrever um círculo. O

velho recuperava agora constantemente linha. Mas sentiu-se outra vez a desmaiar.

Apanhou água com a mão esquerda e atirou-a à cabeça. Depois, com mais, friccionou a nuca.

-- Não tenho cãibras. Não tarda que ele venha ao cimo, e eu resisto. Tens de resistir. Nem sequer fales nisso.

Ajoelhou contra a proa e, por um momento, passou mais uma vez a linha pelas costas.

"Descanso, enquanto ele dá a volta por fora, e depois levanto-me e puxo-o, quando ele vier por dentro", decidiu.

Era uma grande tentação descansar na proa e deixar o peixe descrever por sua conta um círculo, sem recuperar linha. Mas, quando a tensão mostrou que o peixe ia na volta a passar de frente para o barco, o velho pôs-se de pé e iniciou o balancear e puxar de dobadoura que o fez recuperar a linha que o peixe ganhara.

"Estou mais cansado do que nunca, pensou, e levanta-se o vento. Mas é bom para o puxar.

Preciso imenso do vento".

"Descanso na próxima volta, quando ele for para fora - disse. --Sinto-me muito melhor.

Depois, mais duas ou três voltas, e tenho-o comigo.

O chapéu de palha estava caído para a nuca, e o velho abateu-se na proa com o sacão da linha, quando o peixe começou a voltar.

"Trabalha tu, peixe. Espero-te na volta".

O mar engrossara consideravelmente. Era, porém, uma brisa de bom tempo, e precisava dela para regressar.-- Farei rumo a sudoeste -- disse. -- Um homem nunca se perde no mar, e a ilha é muito comprida.

Foi na terceira volta que viu o peixe.

Viu-o primeiro como uma negra sombra que levou tanto tempo a passar sob o barco, que não pode crer no comprimento.

Não -- exclamou. -- Não pode ser tão grande.

Mas era assim grande; e, no fim dessa volta, veio à superfície a umas trinta jardas apenas, e o homem viu-lhe a cauda fora de água. Era mais alta do que uma grande foice e cor de alfazema pálida, acima de água azul-escura. Ao passar mesmo abaixo da superfície, o velho via-lhe o imenso bojo e as listras de púrpura que o enfaixavam. A barbatana dorsal estava retraída mas as peitorais, medonhas, abertas de par em par.

Nesta volta, o velho viu o olho do peixe e dois peixes-ventosas, cinzentos, que nadavam à sua volta. Às vezes, agarravam-se a ele. Outras, disparavam para longe. Outras ainda, nadavam serenamente na sombra do grande. Tinham mais de três pés de comprido e ao nadarem depressa, chicoteavam com o corpo todo, como enguias.

O velho suava, mas por outra causa além do sol. Em cada volta calma e plácida que o peixe dava, recuperava linha, e tinha a certeza de que, com mais duas voltas, teria oportunidade de se servir do arpão.

"Mas preciso dele bem perto, perto, perto, pensou. Não devo apontar à cabeça. Preciso de acertar no coração".

"Tem calma e força, velho" -- disse.

Na volta seguinte, o dorso do peixe estava de fora, mas ainda um pouco afastado do barco. Na outra volta, continuava demasiado afastado, mas mais fora de água, e o velho teve a certeza de que, ganhando mais linha, o conseguiria pôr ao lado do esquife.

Já muito antes preparara o arpão, cuja corda fina estava numa cesta redonda, com a ponta amarrada às abitas da proa.

O peixe aproximava-se na sua volta, calmo e belo à vista, apenas movendo a grande cauda. O

velho puxou-o quanto pôde, para o trazer para mais perto. Por um instante, o peixe deitou-se um pouco de lado. Logo se endireitou e principiou outra volta.

-- Fi-lo mexer! -- exclamou o velho. -- E é que fiz.

Sentiu-se de novo a desmaiar, mas segurou no grande peixe com quanta força pôde. "Mexi-o, pensou. Talvez que desta vez o apanhe. Puxem, mãos. Aguentem, pernas. Cabeça, não me falhes. Não me falhes. Nunca me falhaste. Desta vez, apanho-o".

Mas, quando empregou a fundo o seu esforço, começando muito antes de o peixe estar ao pé do barco, aquele voltou-se, endireitou-se, e nadou para longe.

-- Peixe! -- disse o velho. -- Peixe! Seja como for, tu vais morrer. Precisas também de me matar?

"Assim não se consegue nada", pensou. A boca, muito seca, não o deixava falar, mas não podia chegar à água. "Já não aguento muitas mais voltas. Sim, aguentas, disse consigo.

Aguentas como nunca".

Na volta seguinte, quase o apanhou. Mas mais uma vez o peixe se endireitou e nadou devagar para longe.

"Tu estás a matar-me, peixe, pensou o velho. Mas tens todo o direito. Nunca vi uma coisa maior, ou mais bela, ou mais serena ou mais nobre do que tu, meu irmão. Vem e mata-me. Não quero saber qual de nós mata".

"Agora estás tu a perder a cabeça, pensou. E não deves perder a cabeça. Não a percas, e aprende a sofrer como um homem. Ou como um peixe".

-- Reanima-te, cabeça -- disse numa voz que mal ouvia. --

Reanima-te.

Duas vezes mais aconteceu o mesmo.

"Não sei", pensou o velho. Estivera a ponto de sentir-se morrer, de cada vez. "Não sei. Mas torno a tentar".

Tornou a tentar, e sentiu-se esmorecer, quando voltou o peixe. O peixe endireitou-se, e afastou-se outra vez, lentamente, com a grande cauda balouçando no ar.

"Torno a tentar", prometeu o velho a si próprio, embora nem sentisse as mãos e apenas visse por lampejos.

Tentou de novo, e foi o mesmo. "Pois é", pensou, e sentia-se desfalecer, antes de principiar;

"hei-de tornar a tentar".

Convocou toda a sua dor, quanto lhe restava de forças, e o seu orgulho perdido, e tudo lançou

contra a agonia do peixe, e o peixe veio rente à borda e nadou mansamente junto à borda, com o nariz quase roçando o costado do barco, e começou a passar-lhe por baixo, longo, fundo, largo, prateado, listrado de púrpura, interminável nas águas.

O velho largou a linha, calcou-a com o pé, levantou o arpão ao alto e fê-lo descer, com toda a força que tinha e mais força que no momento invocou, pelo flanco do peixe adentro, mesmo por trás da grande barbatana peitoral que alta se erguia no ar à altura do peito do homem.

Sentiu o ferro entrar e debruçou-se sobre ele e fê-lo entrar mais e carregou depois com o seu peso em cima.

O peixe então reanimou-se, com a morte em si, e saltou bem fora de água, patenteando o seu grande comprimento, a sua envergadura, o seu poder inteiro, a sua beleza. Parecia pairar no ar, acima do velho no esquife. Depois, caiu na água com estrépito, lançando espuma ao velho e por todo o barco.

O velho sentiu-se a desmaiar, agoniado, não via claro. Mas desembaraçou a linha do arpão, e deixou-a correr devagar nas mãos esfoladas e, quando pôde voltar a ver, o peixe estava de costas, com a barriga prateada para cima. O cabo do arpão erguia-se, numa certa inclinação, do flanco do peixe, e o mar mudava de cor com o vermelho do sangue do seu coração.

Primeiro era escuro como um cardume na água azul e funda de mais de uma milha. Depois, espalhou-se como uma nuvem. O

peixe, estava prateado, quieto, flutuando ao sabor das ondas.

O velho olhou atentamente, no relance de visão que teve.

Passou então duas voltas da linha do arpão nas abitas da proa, e pousou a cabeça nas mãos.

-- Não me deixes perder a cabeça -- disse contra a madeira da proa.-- Sou um velho exausto.

Mas matei este peixe que é meu irmão, e tenho agora de fazer o trabalho vil.

"Devo tratar agora dos laços e do cabo para o amarrar ao barco, pensou. Mesmo que fôssemos dois e o inundássemos para embarcar o peixe, este esquife não o aguentaria. Tenho de preparar tudo, depois alá-lo, espiá-lo bem, pôr o mastro e largar a vela rumo a casa".

Começou a puxar o peixe para o ter junto do esquife e poder passar-lhe uma linha às guelras e a sair pela boca e amarrar assim a cabeça à proa. "Quero vê-lo, pensou, tocá-lo, senti-lo. É a minha fortuna. Mas não é por isso que quero apalpá-lo. Creio que lhe senti o coração. Quando empurrei o arpão pela segunda vez. Trá-lo para cá e prende-o bem e passa-lhe um nó corredio à cauda e outro pelo meio para o amarrar ao esquife".

-- Toca a trabalhar, velhote -- disse. Bebeu um muito pequeno gole de água. -- Agora que a

luta acabou, há trabalho de sobra.

Ergueu o olhar para o céu, e lançou-o depois ao seu peixe.

Observou o sol cuidadosamente. "Não é muito mais de meio-dia, pensou. E o vento está a levantar-se. As linhas não interessam nada agora. O rapaz e eu as emendaremos em casa".

-- Anda, peixe. -- Mas o peixe não veio. Balanceava-se nas águas, e o velho puxou o esquife até ele.

Quando ficaram lado a lado, com a cabeça do peixe encostada à proa, não queria crer no tamanho dele. Desamarrou, porém, das abitas o cabo do arpão, passou-o pelas guelras, fê-lo sair pelas maxilas, deu uma volta pela lança, meteu-o pelas outras guelras, deu outra volta pelo dardo, fez um nó do duplo cabo e prendeu-o às abitas da proa. Cortou então o cabo, e foi à popa para espiar a cauda. O peixe, de púrpura e prata, passara a prateado só, e as listras tinham a cor violeta clara da cauda. Eram mais largas que uma mão de homem com os dedos abertos, e o olho do peixe destacava-se tanto como os espelhos de um periscópio ou um santo numa procissão.

-- Era a única maneira de o matar -- disse o velho. Desde que bebera a água, estava a sentir-se melhor e certo de que não se iria abaixo, nem a cabeça se esvairia. -- Tem mais de setecentos quilos, assim como é. Talvez muito mais. Se dá dois terços limpos, a sessenta cêntimos o quilo?...

Precisava de um lápis. A cabeça não me chega a tanto. Mas acho que o grande DiMaggio se orgulharia hoje de mim. Eu não tinha "esporas de osso". Mas as mãos e as costas doem de verdade. --Que será uma "espora de osso"?, pensou.

Talvez seja coisa de ter-se sem se saber.

Amarrou o peixe à proa, à popa e a meia-nau. Era tãogrande que era quase como ter ao lado um barco muito maior. Cortou um pedaço de linha e prendeu a queixada inferior do peixe à lança, para que a boca se não abrisse, e navegassem o melhor possível. Enfiou depois o mastro e, com o pau que era a sua carangueja e o botaló bem espiado, a vela remendada desfraldou-se, o barco começou a mover-se e, com a borda na água à popa, foi de rumo a sudoeste.

Não precisava o velho de bússola para lhe dizer para onde ficava o sudoeste. Apenas precisava de sentir os ventos e o bater da vela. É melhor deitar uma linha com um engodo e ver se arranjo de comer, de que beba o suco. Mas não encontrou nada que pôr na linha e as sardinhas estavam podres. Por isso, com o croque apanhou à passagem um pedaço de sargaço amarelo, e sacudiu-o, fazendo com que os pequenos camarões que nele havia caíssem no fundo do barco. Havia mais de uma dúzia, a saltar como pulgas do mar. O velho atirava-lhes as cabeças fora com um piparote, e comia-os, mastigando cascas e rabos. Eram muito pequenos, mas alimentavam e sabiam bem.

O velho ainda tinha na garrafa umas duas goladas de água, e bebeu meia depois de comidos os camarões. O esquife navegava regularmente, tendo-se em conta a carga, e o velho pilotava-o com a cana do leme debaixo do braço. Tinha o peixe diante dos olhos, e bastava-lhe olhar para as mãos e sentir as costas contra a popa para saber que tudo acontecera de facto e não havia sido um sonho. A certa altura, quando próximo do fim estivera a sentir-se tão mal, pensara que talvez fosse um sonho. Depois, quando vira o peixe saltar da água e ficar suspenso no ar antes de cair, tivera a sensação de que algo havia de muito estranho, e não queria crer. É que então não via bem, e agora via como sempre vira.

Agora, sabia que o peixe existia e que as mãos e as costas não eram sonho. "As mãos curam-se depressa pensou. Deixei-as sangrar e a água salgada as sarará. A água escura da verdadeira corrente do Golfo é a melhor panaceia que há. O

que eu preciso é aguentar a cabeça. As mãos cumpriram o seu dever, e navegamos a preceito.

Com a boca fechada e a cauda a dar a dar, cá vamos como irmãos". Começou então a poder arrumar as ideias e pensou: "É ele quem me leva ou sou eu quem o leva a ele? Se eu o levasse a reboque, a questão não se punha. Nem se punha também, se o peixe viesse no barco, perdida a dignidade toda. Mas navegamos juntos, lado a lado".

E o velho pensou: "Pois que seja ele a levar-me, se isso lhe dá gosto. Eu só pela manha valho mais do que ele, que me não queria mal".

Navegavam bem, e o velho mergulhou as mãos na água salgada e fez por manter claras as ideias. Havia altos cúmulos e bastantes cirros por cima deles, e o velho sabia que assim a brisa duraria a noite inteira. Fitava constantemente o peixe, para ter a certeza de que era verdade. Não passara uma hora, quando o primeiro tubarão o mordeu.

O tubarão não era acidental. Viera de muito fundo, ao dispersar-se no mar a escura nuvem de sangue. Ascendera tão rapidamente e tão absolutamente sem cautelas, que abriu a superfície das águas azuis e apareceu ao sol. Caiu depois no mar e farejou e começou a nadar na esteira do esquife e do peixe.

Por vezes, perdia o cheiro. Tornava, porém, a dar com ele, ou a sentir apenas um vago rasto, e nadava rapidamente na esteira. Era um enorme "Mako", feito para nadar tão velozmente como o mais veloz peixe dos mares, e tudo nele era belo excepto as queixadas.

O dorso era azul como o de um espadarte, a barriga prateada, e os flancos macios e belos. Era tal qual um espadarte, com a diferença das medonhas queixadas que levava cerradas ao nadar veloz, logo abaixo da superfície, com a alta barbatana dorsal anavalhando as águas sem vacilar. Dentro dos lábios apertados, as oito ordens de dentes inclinavam-se para o interior da boca. Não eram os vulgares dentes piramidais da maior parte dos tubarões. Eram como os dedos de uma mão humana quando crispada em garra. Eram quase tão compridos como os dedos do velho e afiados como navalhas dos dois lados. Eis um peixe feito para comer todos os peixes do mar, mesmo os velozes e fortes e bem armados, que outro inimigo não têm. Aí vinha ele por ter cheirado melhor, e a barbatana dorsal azul cortava as águas.

Quando o velho o viu vir, reconheceu que era um tubarão que nada temia e havia de fazer exactamente o que lhe apetecia.

Preparou o arpão e amarrou a corda, enquanto observava a chegada do tubarão. A corda era curta, por lhe faltar o que ele cortara para prender o peixe.

O velho sentia-se bem da cabeça e resoluto, mas alimentava pouca esperança. "Não há tão grande bem que sempre dure --

pensou. E lançou um olhar ao grande peixe, ao ver o tubarão aproximar-se. -- Podia bem ter sido um sonho. Não posso impedi-lo de me atingir, mas talvez consiga apanhá-lo.

Dentuso, pensou. O diabo leve a tua mãe".

O tubarão veio pela popa e, quando chegou ao peixe, o velho viu-lhe a boca abrir-se e os olhos estranhos e o estalo --chope! -- dos dentes a fecharem-se na carne, logo acima da cauda. A cabeça do tubarão estava fora de água e o dorso vinha saindo, e o velho ouvia a pele e a carne a rasgarem-se no grande peixe, quando cravou o arpão na cabeça do tubarão, no ponto de intersecção da linha dos olhos com a linha do nariz. Tais linhas não existiam. Existiam apenas a possante cabeça de um azul ferrete e os grandes olhos e as queixadas investindo estralejantes e de engolir tudo. Mas era aquela a localização do cérebro, e o velho feriu. Feriu-o com as suas mãos ensanguentadas, que manejavam vigorosamente um bom arpão. Feriu sem esperança, mas com decisão e total malignidade.

O tubarão rebolou e o velho viu-lhe o olhar morto, e tornou a rebolar envolvendo-se em duas voltas de corda. O velho sabia-o morto, mas o tubarão é que não aceitava tal. Depois, de costas, com a cauda a bater e as queixadas a estralejar, o tubarão rasgou as águas como um barco de corrida. Onde a cauda batia, a água espumejava, e três quartos do corpo iam de fora, quando a corda se retesou, vibrou e rebentou. O

tubarão ficou por momentos quieto à superfície, o velho a observá-lo. E, depois, afundou-se muito devagar.

-- Levou-me uns vinte quilos -- disse alto o velho. "E

também o meu arpão e a corda toda, pensou, e o meu peixe está outra vez a sangrar e outros virão".

Não lhe agradava olhar já para o peixe, mutilado como ficara. O peixe ser atingido fora como se ele próprio o tivesse sido.

"Mas matei o tubarão que tocou no meu peixe. E era o maior dentuso que jamais vi. E sabe Deus que tenho visto dos grandes".

"Não há bem que sempre dure. Quem me dera que tivesse sido um sonho, que eu não tivesse pescado o peixe e estivesse sozinho na cama, em cima dos jornais".

-- Mas o homem não foi feito para a derrota -- disse. -- Um homem pode ser destruído, mas não derrotado. Tenho pena de ter morto o peixe. Agora vem o pior, e nem sequer me resta o arpão. O dentuso é feroz e hábil e forte e inteligente. Mas eu fui mais inteligente do que ele.

Talvez não. Talvez só estivesse mais bem armado.

-- Não penses, velho -- disse alto. -- Segue o teu rumo, e aceita o que vier.

"Preciso de pensar. Porque nada mais me resta. Isso e o "baseball". Gostava de saber se o grande DiMaggio gostaria da maneira como lhe acertei nos miolos. Não foi grande coisa.

Qualquer o faria. Mas não achas que o estado das minhas mãos equivale às "espuelas"? Não posso saber. Nunca sofri do calcanhar, a não ser daquela vez em que a nadar pus o pé na jamanta e ela me deu um choque que me paralisou a perna e provocou uma dor intolerável".

•

Pensa em coisas mais alegres, velhote -- comentou. --

Minuto a minuto, estás mais perto de casa. E vais mais leve, com vinte quilos a menos.

Sabia muito bem o que podia acontecer, quando atingisse o interior da corrente. Mas nada havia a fazer.

-- E há! -- exclamou. -- Posso atar a faca à ponta de um dos remos.

E assim fez, com a cana do leme debaixo do braço e o pé em cima do extremo da vela.

-- Agora sou ainda um velho. Mas não estou desarmado.

A brisa refrescara e singravam ligeiros. Contemplava apenas a parte anterior do peixe e alguma esperança lhe voltou.

"É tolice não ter esperança, pensou. Além de que suponho que é pecado. Não penses no pecado. Já sem ele há problemas de sobra. E do pecado não tenho entendimento".

"Não tenho dele entendimento, e até me parece que não acredito nele. Talvez fosse pecado matar o peixe. Julgo que terá sido, embora o tenha morto para viver e dar de comer a muita gente. Mas então tudo é pecado. Não penses no pecado. É

tarde demais para isso, e há gente paga para pensar nele.

Eles que pensem. Tu nasceste para pescador, como os peixes para ser pescados. S. Pedro era pescador, como o pai do grande DiMaggio".

Gostava, porém, de pensar em todas as coisas em que se implicava e, uma vez que não havia que ler e não tinha rádio, pensava muito, e continuou a pensar no pecado. "Não mataste o peixe só para viver e vendê-lo para ser comido. Mataste-o por amor-próprio e porque és um pescador. Amáva-lo quando estava vivo, e ama-lo depois de morto. Se o amas, não é pecado matá-lo. Ou será mais?"

-- Tu pensas demais, velhote -- disse em voz alta.

"Mas gozaste com a morte do dentuso, pensou. Vive de peixe como tu. Não é dos que andam aos restos, nem um apetite ambulante como alguns tubarões são. É belo e nobre e não conhece o medo".

-- Matei-o em legítima defesa -- exclamou. -- E matei-o muito bem.

"Além de que, pensou, tudo mata, de uma maneira ou de outra. Pescar mata-me, exactamente como me mantém vivo. O

rapaz mantém-me vivo. Não devo iludir-me demais".

Debruçou-se da borda e arrancou um pedaço de carne do peixe, de onde o tubarão o encetara.

Mastigou e notou a qualidade e o sabor. Era rija e suculenta como verdadeira carne, mas não era vermelha. Não era fibrosa; na lota valeria um preço dos mais altos. Não havia, porém, maneira de tirar da água o cheiro dela, e o velho sabia que o pior estava para vir.

A brisa era constante. Rondara um pouco para nordeste, o que significava que não cairia. O

velho perscrutava em frente, mas não enxergava vela ou o casco ou fumo de qualquer navio.

Havia apenas os peixes-voadores que saltavam para cada lado da proa e as massas amarelas do sargaço. Nem um pássaro enxergava.

Velejara duas horas, recostado na popa, manducando às vezes um bocadito do peixe, fazendo por repousar e criar forças, quando viu o primeiro de um par de tubarões.

-- Ay! -- exclamou. Não há tradução para o que é talvez apenas um ruído como o que um homem emitiria, involuntariamente, ao dar com as unhas em qualquer parte.

-- Galanos. -- Vira vir a segunda barbatana atrás da primeira, e identificara ambas como peixes-martelos, por serem castanhas e triangulares as barbatanas, e pelo varrer das caudas.

Haviam dado com o cheiro, estavam excitados e, na estupidez da grande fome que tinham, perdiam e achavam o cheiro na excitação em que vinham. Mas aproximavam-se sempre.

O velho prendeu a ponta da vela e segurou a cana do leme.

Pegou depois no remo com a navalha presa à extremidade.

Ergueu-o ao de leve porque as mãos doridas se recusavam. Abriu-as e fechou-as nele, levemente, para as reactivar. Apertou-as com firmeza, então, para que aceitassem a dor sem vacilar, e esperou pelos tubarões. Via-lhes as cabeças em forma de pá, achatadas, largas, e as grandes barbatanas peitorais ponteadas de branco. Eram tubarões nojentos, mal cheirosos, que tanto matavam como andavam aos restos e, com fome, até mordiam um remo ou o leme de um barco. Eram estes tubarões quem decepava as pernas e as mãos das tartarugas, quando elas dormiam à superfície, e que, com a fome, atacavam um homem dentro de água, mesmo que o homem não cheirasse a sangue de peixe nem tivesse nele os limos que os peixes trazem.

-- Ay! Galanos. Ora venham os galanos.

Vieram. Mas não como o "mako" tinha vindo. Um voltou-se e sumiu-se debaixo do esquife, e o velho sentia o esquife tremer com os puxões que ele dava ao peixe. O outro fitou o velho com os seus olhos amarelos e fendidos, e aproximou-se veloz, com o semicírculo das queixadas escancarado, para morder o peixe onde já fora mordido. Claramente se desenhava no alto da cabeça castanha e do dorso, o ponto onde os miolos se ligavam à espinha dorsal, e o velho cravou aí a faca, retirou-a, e tornou a cravá-la no olho amarelo, de gato. O

tubarão largou o peixe e deslizou para o fundo, engolindo na morte o que arrancara.

O esquife ainda tremia com a destruição que o outro estava fazendo no peixe, e o velho soltou a vela, para o barco dar uma guinada e descobrir o outro tubarão. Quando o viu, debruçou-se na borda e atacou-o.

Acertou na carne, e o flanco era duro e a faca mal penetrou.

A pancada magoou-lhe não só as mãos como o ombro. Mas o tubarão ascendeu outra vez muito lépido, de cabeça erguida, e o velho acertou-lhe em cheio no centro da cabeça achatada, quando o nariz saiu da água apontado ao peixe. O velho retirou a lâmina e tornou a ferir exactamente no mesmo ponto. O tubarão continuava de queixadas abocanhadas no peixe, e o velho esfaqueou-o no olho esquerdo. O tubarão não abriu a boca.

•

Não! -- exclamou o velho, e meteu-lhe a faca entre as vértebras e os miolos. Era um golpe fácil de dar, e sentiu a cartilagem rasgar-se. O

velho virou o remo e meteu a lâmina nas queixadas do tubarão, para lhas abrir. Torceu-a e, quando o tubarão se afundou, disse: -- Vai, galano! Vai para as profundas visitar o teu amigo, ou talvez ele seja a tua mãe.

O velho limpou a lâmina da faca e pousou o remo. Pegou então na ponta da vela, que se encheu, e repôs o esquife no rumo certo.

-- Devem ter-lhe levado um quarto, e da melhor carne. Quem me dera que tivesse sido um sonho, que eu nunca o tivesse pescado. Lamento muito, peixe. Assim, nada está bem. --

Calou-se, e nem queria olhar para o peixe. Este, exangue e lavado pelas águas, estava da cor do estanho dos espelhos, mas as listras ainda se viam.

-- Não devia ter saído tão para o largo, peixe. Nem por ti, nem por mim. Desculpa, peixe.

"E agora, disse de si para si, vê se a atadura da faca está em condições. E trata da tua mão, porque ainda está mais por vir".

"Quem me dera uma pedra para a faca, continuou, depois de ter verificado a amarração ao remo. Eu devia ter trazido uma pedra. Devias ter trazido muitas coisas. Mas não as trouxeste, meu velho. E agora já não é ocasião de pensar no que não tens. Pensa no que podes fazer com o que há".

-- Dás-me muito bons conselhos! -- exclamou. Estou farto de te ouvir.

Segurou a cana debaixo do braço, e meteu ambas as mãos na água, enquanto o esquife singrava.

-- Sabe Deus quanto levou este último. Mas vai agora muito mais ligeiro. -- Nem queria pensar na barriga mutilada do peixe. Bem sabia que cada um dos sacões do tubarão significara carne arrancada e que o peixe agora deixava um rasto aos tubarões, mais largo que uma estrada pelo mar fora.

"Era um peixe para manter um homem durante o Inverno todo, pensou. Não penses nisso.

Repousa e trata de pôr as mãos em estado de defender o que resta dele. O cheiro do sangue das minhas mãos nada é com todo o que vai pela água. Além de que não sangram muito.

Nenhum dos golpes vale alguma coisa. E o sangrar pode evitar as cãibras da mão esquerda".

"Em que posso eu pensar agora? Em nada. Pois não pensarei em nada, e esperarei os que hão-de vir. Quem me dera que tivesse sido um sonho. Quem sabe? Podia ter acabado bem".

O tubarão seguinte era um peixe-martelo. Veio como um porco à pia, se um porco tivesse uma bocarra tamanha que nos coubesse lá a cabeça. O velho deixou-o morder, e depois enfiou-lhe a faca nos miolos. Mas o tubarão pulou para trás ao rebolar, e a lâmina quebrou-se.

O velho instalou-se a governar o barco. Nem sequer se pôs a ver o grande tubarão a afundar-se lentamente nas águas, primeiro em tamanho natural, depois pequeno, a seguir, insignificante.

O que sempre fascinara o velho. Mas nem sequer se pôs a ver.-- Tenho o croque. Mas não serve. Tenho os dois remos, e a cana do leme, e o cacete.

"Agora, já me venceram, pensou. Estou velho para matar tubarões à pancada. Mas hei-de lutar, enquanto tiver remos e o cacete e a cana".

Meteu as mãos na água, para as amaciar. A tarde ia no fim, e só via mar e céu. Havia, porém, no céu mais vento do que antes, e esperava não tardar a enxergar terra.

-- Estás cansado, velho -- disse. -- Estás cansado de todo.

Os tubarões não voltaram a atacar antes do pôr do sol.

O velho viu as barbatanas castanhas avançando pelo largo rasto que o peixe devia deixar nas águas. Nem sequer vinham farejando. Vinham enfiados ao esquife, nadando lado a lado.

Prendeu a cana, amarrou a ponta da vela, e estendeu a mão para o cacete, debaixo da popa.

Era um remo partido e serrado depois, com quase um

metro. Só podia ser manejado eficazmente com uma das mãos, por causa do chanfro do punho, e segurou-o com a mão direita, bem fechada nele, ao ver chegar os tubarões. Ambos eram galanos.

"Devo deixar o primeiro morder bem, e dar-lhe depois uma pancada na ponta do nariz ou mesmo no alto da cabeça", pensou.

Os dois tubarões chegaram juntos, e, quando o mais próximo abriu a goela e enterrou as queixadas no flanco prateado do peixe, ele levantou o cacete ao alto e deixou-o cair pesadamente no cimo da larga cabeça do tubarão. No cair do cacete, sentiu a elástica solidez dela. Mas sentiu também a rigidez do osso, e tornou a bater com força, mas na ponta do nariz, quando o tubarão já se soltava do peixe.

O outro tubarão andara cá e lá, e aí vinha ele de goela escancarada. O velho bem via pedaços da carne do peixe a saltarem-lhe do canto da boca, ao atacar o peixe e fechar as queixadas.

Voltou-se a ele e acertou-lhe na cabeça, e o tubarão fitou-o e arrancou a carne. O velho deu-lhe outra vez, já ele se afastava para engolir, e acertou apenas na elasticidade sólida e maciça.

-- Vem, galano. Volta outra vez.

O tubarão veio de carreira, e o velho acertou-lhe, fechava ele a boca. Acertou-lhe em cheio e de tão alto quanto podia levantar o cacete. Desta vez, sentiu o osso na base do crânio e tornou a dar-lhe no mesmo sítio, enquanto o tubarão molemente arrancava a carne e se sumia do peixe.

O velho ficou a ver se ele voltava, mas nenhum voltou.

Tempo depois, um deles apareceu à superfície, nadando em círculo. Não viu mais a barbatana do outro.

"Não podia esperar matá-los, pensou. No meu tempo, sim. Mas magoei-os de verdade, e nenhum deles se deve sentir muito bem. Se tivesse um pau com duas pegas, matava de certeza o primeiro. Até agora".

Para o peixe não queria olhar. Sabia que metade dele fora destruída. O sol desaparecera, enquanto durara a luta com os tubarões.

Não tarda que seja noite

-- disse. -- Hei-de ver então o clarão de Havana. E, se estiver muito para leste, verei as luzes de uma das praias novas.

"Já não posso estar muito ao largo. Espero que ninguém se tenha afligido. Claro que o rapaz se aflige. Mas estou certo de que terá confiado. Muitos pescadores mais velhos se afligirão. E muitos outros também. Vivo numa boa terra".

Com o peixe não podia falar, porque o peixe estava todo estragado. Veio-lhe então uma ideia à cabeça.

-- Semipeixe! -- exclamou. -- α peixe que tu eras! Desculpa ter vindo tão para o largo. Dei cabo de nós ambos. Mas matámos muitos tubarões, tu e eu, e demos cabo de muitos outros.

Quantos mataste tu, meu velho peixe? Não tens para nada essa lança na cabeça.

Gostou de pensar no peixe e no que este faria a um tubarão, se nadasse em liberdade. "Devia ter-lhe cortado a lança para lutar com ele", pensou. Mas machado não havia, e agora nem sequer a faca.

"Se tivesse, e amarrasse a lança ao remo... que arma! E é que havíamos então lutado juntos.

Que farás, se eles voltam de noite? Que podes tu fazer?" Lutar --respondeu. -- Lutar até morrer.

Na treva, porém, sem clarão fulgindo, nem luzes, só com o vento e o firme impulso da vela, sentiu-se como se já estivesse morto. Juntou as mãos para sentir as palmas. Não estavam mortas, e era capaz de sentir a dor da vida, apenas com abri-las e fechá-las. Encostou as costas à popa, e reconheceu que não estava morto. Os ombros lho disseram.

"Tenho para rezar todas as orações que prometi, se apanhasse o peixe, pensou. Mas estou muito cansado para as rezar agora. É melhor pegar no saco e pô-lo pelos ombros".

Deitado na popa, governava o barco e esperava que a claridade surgisse no céu. "Talvez eu tenha a sorte de chegar com a metade dianteira. Devia caber-me alguma sorte. Não.

Violaste a sorte, quando saíste para o largo demais".-- Não sejas tolo! -- exclamou. -- E não adormeças e governa. Ainda podes ter muita sorte.

"Gostava de comprar alguma, se há sítio onde se venda".

"Com que havia de comprá-la? Perguntou a si próprio. Havia de comprá-la com um arpão perdido, uma faca partida e duas mãos desfeitas?"

-- E podias -- disse. -- Querias comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. E quase ta venderam.

"Não devo pensar em tolices. A sorte é coisa que vem de muitas formas. Quem sabe reconhecê-la? No entanto, eu aceitava alguma em qualquer forma, e pagava o que me pedissem. Quem me dera ver o clarão das luzes. Quem me dera tanta coisa! Mas é isto o que eu quero agora". Procurou instalar-se mais confortavelmente ao leme, e pela dor sabia que não estava morto.

Viu o reflexo das luzes da cidade, por volta do que seriam as dez horas da noite. Era perceptível apenas, a princípio, como a claridade no céu antes de a lua nascer. Depois, viu as luzes firmes no oceano que engrossava com o refrescar da brisa. Navegava dentro do clarão e pensou que não tardaria a passar a borda da corrente.

"Agora, acabou-se. Se calhar, atacam-me outra vez. Mas que pode um homem contra eles, no escuro, sem armas?"

Sentia-se dormente, dorido, e as feridas e as partes mais esforçadas do corpo doíam-lhe com o frio da noite. "Espero não ter de lutar mais, pensou. Tanto espero não ter de lutar outra vez!"

Mas, por volta da meia-noite, lutou e dessa vez sabia que era inútil. Vieram em massa, e apenas via as linhas que as barbatanas abriam na água e a fosforescência deles ao atirarem-se ao peixe. Batia-lhes na cabeça, ouvia o estalo das queixadas, sentia o tremer do esquife quando eles mordiam por baixo. Batia-lhes desesperadamente no que apenas sentia e ouvia, e sentiu que alguém lhe agarrava no cacete, que se sumiu.

Arrancou a cana do leme, e bateu e feriu com ela, segurando-a com ambas as mãos, abatendo-a vezes seguidas.

Mas vinham pela proa, um após outro, juntos, arrancando pedaços de carne, que brilhavam dentro do mar quando eles se voltavam para um novo ataque.

Veio, por fim, um, que se atirou à cabeça, e o velho viu que tudo acabara. Acertou com a cana na cabeça do tubarão, cujas maxilas estavam presas na dureza da cabeça do peixe, que se não rasgava. Vibrou a pancada uma, duas, três vezes.

Ouvia a cana partir-se, e espicaçou o tubarão com a ponta estilhaçada. Sentiu-a penetrar e, ciente de que era aguçada, enterrou-a mais. O tubarão soltou-se e rolou para longe. Era o último tubarão do bando que aparecera. Nada mais havia de comer.

O velho mal podia respirar, e sentia na boca um sabor estranho, adocicado, metálico, e por

instantes teve medo. Mas não durou muito.

Cuspiu para o oceano e disse: -- Comam isso, galanos. E

fiquem a julgar que mataram um homem.

Sabia-se irremediavelmente derrotado e voltou à popa e verificou que a ponta partida da cana encaixava no olhal do leme o suficiente para ele poder governar. Compôs o saco pelos ombros e repôs o esquife no rumo. Vogava ligeiro, e o velho não tinha pensamentos ou sentimentos nenhuns. Passara por tudo, e limitava-se a dirigir o barco para o porto, tão bem e tão inteligentemente quanto podia. Pela noite, tubarões atacaram a carcaça, como alguém pode apanhar migalhas da mesa. O velho não lhes prestou atenção e a nada prestava atenção senão ao leme. Apenas reparava em como o barco singrava bem, muito ligeiro, agora que não levava grande peso na borda.

"É muito bom. É sólido e nada sofreu, a não ser a cana, que facilmente se substitui".

Bem se sentia dentro da corrente, e distinguia as luzes das praias ao longo da costa. Sabia já onde estava, e nada era voltar.

"O vento é nosso amigo, lá isso é, pensou. E depois acrescentou, às vezes. E o mar largo com os nossos amigos e inimigos. E a cama. A cama é minha amiga. Só a cama. A cama há-de ser uma grande coisa. É fácil, agora que foste vencido.

Nunca supus como era tão fácil. E o que te derrotou!"

-- Nada -- exclamou. -- Saí muito para o largo.

Quando entrou no pequeno porto, as luzes do Terraço estavam apagadas, bem sabia que todos dormiam já. A brisa refrescara muito e soprava forte. O porto, porém, estava calmo, e navegou até à pequena praia de seixos abaixo das rochas. Não havia quem o ajudasse, e puxou o barco para cima até onde pôde. Depois, desembarcou, e amarrou-o a um rochedo.

Tirou o mastro, enrolou a vela e colheu-a. Pôs o mastro ao ombro e começou a subir. Foi então que soube a profundidade do seu cansaço. Parou um momento e olhou para trás e distinguiu ao clarão da luz da rua a grande cauda do peixe erguendo-se bem por cima da popa do esquife.

Viu a branca linha desnuda da espinha dorsal e a massa sombria da cabeça com a lança projectando-se e o total descarnado do corpo.

Recomeçou a subir e, no cimo, caiu e ficou algum tempo estendido, com o mastro sobre os ombros. Procurou levantar-se. Mas era muito difícil, e ali ficou sentado, com o mastro ao ombro, a olhar para a estrada. Um gato passou do outro lado, que ia à sua vida, e o velho esteve a segui-lo com os olhos. Depois, apenas fitava a estrada.

Por fim, pousou o mastro e levantou-se. Voltou a pegar no mastro, pô-lo ao ombro, e dirigiu-se para a estrada. Cinco vezes teve de sentar-se, antes de chegar à sua cabana.

Lá dentro, encostou o mastro à parede. No escuro, achou a garrafa da água e bebeu uma golada. Depois, estendeu-se na cama. Puxou para os ombros o cobertor e para as costas e as pernas, e adormeceu de bruços nos jornais, com os braços estendidos e as palmas viradas para cima.

Dormia, quando pela manhã o rapaz espreitou à porta.

Ventava com tanta violência, que os barcos de vela não saíram, e o rapaz dormira até mais tarde, e viera depois à cabana do velho, como vinha todas as manhãs. O rapaz viu que o velho respirava, e viu a seguir as mãos dele, e desatou a chorar. Saiu muito silenciosamente, para ir buscar café, e pelo caminho fora ia chorando.

Vários pescadores rodeavam o esquife, olhando para o que a ele estava amarrado, e um estava metido na água, de calças arregaçadas, a medir com uma linha o esqueleto.

O rapaz não desceu à praia. Já lá estivera, e um dos pescadores ficara por ele a guardar o barco.

-- Como está ele? -- berrou um dos pescadores.

-- A dormir -- gritou o rapaz. Não se importava de que o vissem a chorar. -- Que ninguém o incomode.

-- Tinha mais de seis metros do nariz à cauda -- exclamou o pescador que estava a medir.

-- Acredito -- respondeu o rapaz.

Entrou no Terraço e pediu uma caneca de café.

-- Quente, e com muito leite e açúcar.

-- Mais nada?

-- não. Hei-de ver depois o que ele pode comer.

-- Mas que peixe! -- disse o proprietário. -- Nunca se viu um peixe assim. Também eram bons os dois que pescaste ontem.

-- Que o diabo os leve -- praguejou o rapaz, desatando outra vez a chorar.

-- Queres beber alguma coisa? -- ofereceu o dono.

-- Não. Eles que não macem o Santiago. Eu volto já.

-- Diz-lhe que lamento muito.

-- Obrigado.

O rapaz levou o café quente até à cabana e sentou-se junto do velho, à espera de ele acordar. Certa vez, parecia que ele ia acordar. Mas recaíra no sono profundo, e o rapaz teve de atravessar o caminho, para pedir lenha e aquecer o café.

O velho acordou enfim.

-- Não te levantes para cima -- disse o rapaz. -- Bebe. --

E deitou café num copo.

O velho pegou no copo e bebeu.

-- Venceram-me, Manolin. A verdade é que me venceram.

-- Ele não te venceu. O peixe, não.-- Não. É verdade. Foi a seguir.

-- O Pedrico está a tomar conta do barco e da palamenta.

Que queres que se faça à cabeça?

-- O Pedrico que a leve para armadilhas.

-- E a lança?

Fica tu com ela, se quiseres.

-- Quero -- disse o rapaz. -- E agora temos de assentar as outras coisas.

-- Procuraram-me?

-- Claro que sim. Os guarda-costas e os aviões.

-- O oceano é muito grande e o esquife é pequeno e difícil de ver --comentou o velho. E notou como era agradável ter com quem falar, em vez de falar só consigo e com o mar. --

Senti a tua falta -- disse. -- Que apanhaste?

-- No primeiro dia, um. Outro no segundo, e dois no terceiro.

-- Foi muito bom.

-- Agora voltamos a pescar juntos.

-- Não. Eu não tenho sorte. Já não torno a ter sorte.

-- Para o diabo a sorte. Eu levo a sorte comigo.

-- E que dirá a tua família?

-- Quero lá saber! Pesquei ontem dois. Mas havemos de pescar juntos, que eu ainda tenho muito que aprender.-- Precisamos de arranjar uma boa lança e tê-la sempre a bordo. A lâmina pode fazer-se de uma folha de molas de um Ford velho. Amolamo-la em Guanabacoa. Tem de ficar afiada; e não temperada assim, parte-se. A minha faca partiu-se.

-- Eu arranjo outra faca e trato de afiar a mola. Quantos dias de brisa fresca ainda temos?

-- Talvez três. Talvez mais.

-- Porei tudo em ordem. Trata de curar as tuas mãos, meu velho.

Bem sei como sará-las.

De noite, cuspi uma coisa esquisita e senti rebentar-me qualquer coisa no peito.

-- Cura isso também. Deita-te, velho, que eu trago-te a camisa lavada. E de comer.

-- Traz-me jornais de quando andei por fora -- disse o velho.

-- Tens de te pôr bom depressa, porque ainda há muito para eu aprender e tu és capaz de me ensinar tudo. Sofreste muito?

-- Imenso.

-- Eu trago-te a comida e os jornais. Repousa, velho. Hei-de trazer da farmácia um remédio para as mãos.

-- Não te esqueças de dizer ao Pedrico que é dele a cabeça.

-- Não. Hei-de lembrar-me.

O rapaz, saída a porta e descendo o caminho aberto no coral gasto, chorava.

Nessa tarde, havia no Terraço um grupo de turistas e, olhando para a água, entre latas de cerveja vazias e barracudas mortas, uma mulher viu a enorme espinha branca com a portentosa cauda à ponta, que arfava e balouçava na maré, enquanto o vento leste levantava um mar picado e cadenciado, fora da entrada do porto.

-- Que é aquilo? -- perguntou ela a um criado, e apontava para a longa espinha dorsal do grande peixe, que era apenas lixo à espera de que o levasse a maré.

-- Tiburon -- respondeu o criado. -- Tubarão. -- Queria explicar-lhe o que acontecera.

-- Não supunha que os tubarões tivessem caudas tão belas, tão lindamente formadas.

-- Nem eu -- disse o companheiro dela.

Ao cimo da estrada, na sua cabana, o velho adormecera outra vez. Ainda dormia de bruços, e o rapaz estava sentado ao pé dele, a observá-lo. O velho estava a sonhar com os leões.

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Você terminou O Velho e o Mar

Ernest Hemingway

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