O Velho e o Mar

Ernest Hemingway · Capítulo 2 de 2 · parte 2/3

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O Velho e o Mar

Texto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Quando o velho a agarrara com o croque e lhe dera uma marretada, segurando o estoque e batendo-lhe no alto da cabeça, até que a cor do peixe se tornara quase igual ao estanho dos espelhos, e depois, com o auxílio do rapaz, a içara para bordo, o macho ficara ao lado do barco. E então, enquanto o velho desenredava as linhas e preparava o arpão, o macho saltara muito alto fora de água, ao pé do barco, para ver onde estava a fêmea, e mergulhara profundamente, com as suas asas cor de alfazema, que eram as barbatanas peitorais, desfraldadas e todas as listras de alfazema a brilhar. Era belo, recordava o velho, e tinha ficado.

"Foi a coisa mais triste que já vi em peixes, pensou o velho. O rapaz também ficou triste, e então pedimos perdão à bicha e tratámos de a esquartejar logo".

-- Quem me dera aqui o rapaz! -- exclamou, e instalou-se nas pranchas recurvas da proa, a sentir a força do peixe na linha que lhe cruzava os ombros, do peixe que prosseguia firme o rumo que escolhera.

"Que uma vez, por traição minha, lhe foi necessário escolher, pensou o velho.

"Tinha escolhido permanecer nas águas fundas e sombrias, fora dos laços, das traições, dos engodos. E eu escolhi ir até lá ao encontro precisamente dele. Precisamente dele e de ninguém mais. E agora estamos unidos, e têmo-lo estado, desde o meio-dia. E ninguém pode ajudar-nos; a qualquer de nós".

"Talvez eu não devesse ser pescador, pensou. Mas foi para o que nasci. Não devo esquecer-me de comer a "tuna", antes de aclarar".

A certa altura, antes de romper o dia, alguém mordeu uma das iscas que estavam por trás dele.

Ouviu o pauzinho partir-se e a linha principiar a correr na amurada do esquife. Na treva, abriu a navalha e, aguentando o esforço do peixe com o ombro esquerdo, inclinou-se para trás e cortou a linha contra a madeira da borda. Cortou, depois, a outra linha mais próxima e, no escuro, ligou as duas pontas dos tambores sobrantes. Trabalhava habilmente com uma mão só, e pôs o pé nas linhas de reserva para as segurar ao apertar os nós.

Tinha seis reservas. Duas de cada uma das iscas que abandonara, duas do anzol que o peixe mordera, ligadas todas.

"Quando for dia, pensou, hei-de puxar o anzol das quarenta braças e cortá-lo, para ligar o resto. Terei perdido umas duzentas braças de bom cordel catalão, mais os anzóis e os chumbos. Isso pode ser substituído. Mas quem substitui este peixe, se apanho outro que me corte a linha? Não sei o que era este peixe que mesmo agora mordeu. Poderá ter sido um tubarão, um espadarte. Nem cheguei a senti-lo. Tinha de me ver livre dele".

E, alto, disse: -- Quem me dera o rapaz.

"Mas não tens cá o rapaz. Só te tens a ti, e o melhor é meteres dentro a última linha às escuras ou às claras, e cortar o resto, e juntar as pontas".

Assim fez. Era difícil no escuro, e, certa vez, o peixe deu um sacão que o atirou de bruços e o fez cortar-se na cara, abaixo dos olhos. O sangue correu pela face, mas coagulou e secou antes de chegar ao queixo, e o velho arrastou-se para a proa e repousou contra a madeira. Ajustou o saco, e cuidadosamente desviou a linha para outra parte dos ombros e, segurando-a contra estes, cautelosamente apreciou o esforço do peixe e, com a mão, a velocidade do esquife pelas águas.

"Porque terá dado ele este sacão, pensou. O fio deve ter escorregado na corcunda do dorso.

Por certo que as costas dele não lhe doem como as minhas. Mas não pode ficar eternamente a rebocar o barco, por grande que seja. Agora estou livre de tudo que poderia atrapalhar, e tenho muita linha de reserva: é tudo quanto um homem pode querer".

-- Peixe! -- disse a meia voz. -- Hei-de ficar contigo até morrer.

"Também ele há-de ficar", pensou, e esperou pela luz do dia. Fazia frio, na hora antes do amanhecer, e encostou-se com mais força à madeira, para aquecer-se. "Posso aguentar como ele pode", pensou. Ao primeiro clarão do dia, a linha afastou-se e afundou-se na água. O

barco seguia incessantemente, e a primeira fímbria do sol encontrou a linha no ombro direito do velho.

-- Vai de rumo ao norte -- disse o velho. "A corrente levar-nos-ia para leste, pensou. Quem me dera que ele se voltasse para ir na corrente. Isso mostraria que estava a cansar-se".

Quando o sol já ia mais alto, o velho verificou que o peixe se não cansara. Havia apenas um sinal favorável. A inclinação da linha mostrava que nadava a menor profundidade. O que não significava necessariamente que ele iria saltar. Mas podia.

-- Deus o faça saltar. Tenho linha de sobra para lhe dar.

"Talvez que, se eu aumentar só um poucochinho a tensão, o magoe e faça saltar, pensou. Agora, que é dia, que salte, para encher de ar os sacos ao longo da espinha e não poder ir ao fundo quando morrer".

Tentou aumentar a tensão, mas a linha fora esticada a ponto de rotura, desde que ele apanhara o peixe, e, ao encostar-se para a puxar, sentiu-lhe a dureza e viu que não podia tendê-la mais. "Nem devo mexer-me, pensou. De cada vez que me mexo, alargo o golpe que o anzol faz, e depois, quando ele saltar, atira com o anzol fora. Seja como for, com sol é melhor, e ao menos não preciso estar a ver o que acontece".

Havia na linha algas amarelas, mas o velho sabia que apenas eram como que uma fateixa suplementar, e até ficou contente.

Eram os sargaços do Golfo que tanta fosforescência haviam dado de noite.

-- Peixe -- disse. -- Amo-te e respeito-te muito. Mas hei-de matar-te, antes de o dia acabar.

"Esperemos que sim", pensou.

Um pequeno pássaro veio do norte em direcção ao esquife.

Era uma toutinegra e voava rente às águas. O velho bem via que estava muito cansada.

O pássaro veio à popa do barco, onde pousou. Depois, voou em torno da cabeça do velho, e pousou na linha, onde se sentia mais comodamente.

-- Que idade tens? -- perguntou-lhe o velho. -- É a tua primeira viagem?

O pássaro fitou-o, enquanto ele lhe falava. Estava tão cansado que nem examinava a linha, e tremia nas delicadas patas enclavinhadas nela.

-- Está tesa, tesa demais -- disse o velho. -- Não devias estar tão cansado, depois de uma noite sem vento. No que estarão dando os pássaros?

"Os falcões, pensou, que saem ao largo, ao encontro deles".

Mas nada disto disse ao pássaro, que de resto não sabia entendê-lo e não tardaria a aprender quem os falcões eram.

-- Repousa à vontade, passarito. E, depois, vai, e vive a tua vida, como os homens, os pássaros e os peixes.

Deu-lhe coragem a conversa,

porque as costas haviam ficado dormentes de noite e lhe doíam, agora, de verdade.

-- Fica em minha casa, se preferes, ó pássaro. Tenho pena de não poder içar a vela e levar-te com a aragem que se está levantando. Mas estou com um amigo.

Nesse momento, o peixe deu um puxão súbito, que atirou o velho para o fundo da proa, e tê-lo-ia levado pela borda fora, se não se houvesse agarrado e não tivesse largado mais linha.

O pássaro levantara voo ao estremecer a linha, e o velho nem o vira ir-se embora. Com a mão direita, apalpou cautelosamente a linha, e reparou que a mão tinha sangue.

-- Feriu-se nalguma coisa -- disse em voz alta, e puxou a linha, para ver se conseguia desviar o peixe. Mas, ao atingir o ponto de rotura, segurou-a firmemente e repôs-se aguentando a

tensão do fio.

-- Agora bem a sentes, peixe. E Deus bem sabe que eu também.

Olhou em volta, procurando o pássaro, pois lhe agradaria a companhia dele. O pássaro desaparecera.

"Não te demoraste muito, pensou o homem. Mas, para onde vais, mais perto da costa, é pior.

Como deixei eu que o peixe me cortasse, com este puxão súbito que deu? Estou a ficar muito estúpido. Ou talvez estivesse a olhar para o passarito e a pensar nele. Pois vou prestar atenção ao meu trabalho, e tenho de comer a "tuna", para que as forças me não faltem".

-- Quem me dera que o rapaz aqui estivesse, e que eu tivesse sal --exclamou.

Passando o peso da linha para o ombro esquerdo e ajoelhando cuidadosamente, lavou a mão no oceano e manteve-a mergulhada, vendo o sangue afastar-se em fios e o movimento regular das águas contra a mão, no deslizar do barco.

-- Vais mais devagar.

O velho teria gostado de conservar mais tempo a mão na água salgada, mas temia outro sacão brusco do peixe, e endireitou-se, passou os braços no banco, e pôs a mão ao sol. Era apenas uma esfoladela da linha, que o cortara até à carne. Mas era na parte útil da mão. E sabia que, antes do fim, precisaria das mãos, e não gostava de se ver cortado antes daquilo principiar.

-- E agora -- disse, quando a mão secou -- vou comer a "tuna". Posso puxá-la com o gancho e comê-la aqui recostado.

Ajoelhou e, com o gancho, puxou o peixe até ele, evitando as linhas arrumadas. E, segurando a linha outra vez com o ombro esquerdo, e firmando-se com a mão e o braço esquerdo, tirou o peixe do gancho e pôs o gancho no seu lugar.

Assentando um joelho no peixe, arrancou tiras de carne vermelha-escura, longitudinalmente, da base da cabeça até à cauda. Eram tiras em forma de cunha, e tirou-as de junto à espinha dorsal até ao pé da barriga. Depois de ter arrancado seis tiras, estendeu-as na madeira da popa, limpou a navalha nas calças e, pegando na carcaça do peixe pela cauda, atirou-a pela borda fora.-- Não me parece que consiga comer uma inteira -- disse, e cortou uma das tiras com a navalha. Sentia o permanente e forte impulso da linha e a mão esquerda dormente, tesa na pesada corda. Fitou-a com desprezo.

Que espécie de mão é esta?... Pois dorme, se te apraz.

Enclavinha-te. Não te serve de nada.

"Anda", pensou, e mergulhava o olhar na água escura, seguindo a inclinação da linha. "Come, que darás força à mão.

A culpa não é dela, e há muitas horas que seguras o peixe.

Mas isto não há-de durar sempre. Trata de comer".

Pegou num pedaço, que meteu na boca e mastigou devagar. Não era desagradável.

Mastiga bem, pensou, que não te escape um suco. Não seria mau, com um pouco de limão ou sal.

-- Como te sentes, mão? -- perguntou à mão dormente quase com uma rigidez como a da morte.

-- Vou comer mais, em tua intenção.

Comeu a outra parte do pedaço que cortara em duas.

Mastigou-a cuidadosamente e, no fim, cuspiu a pele.

-- Então que tal, mão? Ou ainda não se sabe nada?

Pegou noutro pedaço, inteiro, que mastigou.

"É peixe de sangue forte, pensou. Foi uma sorte ser este e não delfim. Delfim é carne fraca.

Este conserva a força toda".

"Não faz sentido não se ser prático. Quem me dera ter sal.

Como não sei se o sal secará ou tornará podre o que me resta, o melhor é comer tudo, apesar de não ter fome. O peixe está calmo e vai certo. Como tudo, e fico pronto para tudo".

Tem paciência, mão

-- disse. -- Faço isto por ti.

"Quem me dera dar de comer ao peixe, pensou. É meu irmão.

Mas tenho de o matar, e para isso preciso de forças". Devagar e conscienciosamente, comeu todas as tiras de peixe.

Endireitou-se, limpando a mão às calças.

-- E agora -- exclamou -- podes largar a corda, mão, que eu aguento isso só com o braço direito, até te deixares de asneiras. -- Pôs o pé esquerdo na linha, que a mão esquerda segurara, e fez força contra a tensão nas costas.

-- Deus permita que a cãibra passe, porque não sei o que o peixe vai fazer.

"Parece sossegado, pensou, e que segue o seu plano. Mas que plano será? E o meu, qual é? O

meu, tenho eu de o improvisar segundo o dele, porque ele é muito grande. Se saltar, posso matá-lo. Mas fica-se para sempre. Pois ficarei com ele para sempre".

Esfregou a mão dormente contra as calças, e tentou mexer os dedos. Mas a mão não se abria.

"Talvez abra com o sol, pensou. Talvez abra, quando estiver digerido o peixe cru e forte. Se eu tiver de a abrir, abro-a, custe o que custar. Mas não quero agora forçá-la a abrir-se. Que se abra por si, que volte a si à sua vontade.

Depois do que a usei e abusei durante a noite, quando foi preciso soltar e ligar as várias linhas". Alongou os olhos pelo mar, e notou como estava só.

Mas distinguia os prismas na água profunda e sombria e a linha estendendo-se adiante e a estranha ondulação da calmaria. As nuvens amontoavam-se ante os alísios, e, olhando em frente, viu um bando de patos bravos desenhando-se contra o céu, acima das águas, depois esborratando-se, desenhando-se outra vez, e reconheceu que o homem nunca está só no mar.

Pensou em como alguns homens temem perder a terra de vista, indo num pequeno barco, e sabia quanta razão eles tinham, nos meses de repentino mau tempo. Mas agora era o tempo dos furacões e, quando não há furacões, os meses de furacões são os melhores do ano.

"Se há furacão, a gente, andando no mar, vê os sinais dele no céu, muitos dias antes. Em terra ninguém vê, porque não se sabe que distinguir. A terra há-de também influir na forma das nuvens. Mas não está para vir nenhum furacão".

Olhou para o céu e viu os brancos cúmulos erguendo-se como simpáticos barquinhos de gelado e, altas por cima, estavam as finas penas dos cirros contra o vasto céu de Setembro.

-- Brisa ligeira -- disse. -- Tempo melhor para mim do que para ti, ó peixe.

A mão esquerda continuava adormecida, mas conseguia abri-la gradualmente.

"Detesto uma cãibra, pensou. É uma traição do nosso próprio corpo. É humilhante ter diarreia diante dos outros, envenenado pela ptomaína, ou vomitá-la. Mas uma cãibra -- e, ao pensar, dizia calambre -- humilha-nos particularmente quando estamos sós".

"Se o rapaz aqui estivesse, esfregava-me a mão por mim, e friccionaria desde o antebraço, pensou. Mas há-de abrir-se de todo".

Nisto, com a mão direita sentiu o esticão na linha, antes de ver na água a inclinação alterar-se.

Curvou-se contra a linha e bateu com a mão, depressa e forte, na anca, e viu a linha a elevar-se devagar.

-- Vem para cima! -- exclamou. -- Anda, mão. Por favor, anda.

A linha subia devagar e firme, e então a superfície do oceano arqueou à frente do barco, e o peixe apareceu.

Apareceu interminavelmente, e dos lombos lhe escorria água.

Brilhava ao sol, e a cabeça e o dorso eram púrpura escura, e ao sol as listras nos lados eram largas e cor de alfazema. O

dardo era do tamanho de uma pá de "Baseball" e em forma de florete. Saiu a todo o comprimento fora de água e voltou a ela, suavemente, como um nadador, e o velho viu a grande foice da cauda afundar-se e a linha começar a correr.

-- É dois pés mais comprido que o esquife -- disse o velho. A linha corria depressa, mas regularmente, e o peixe não estava assustado. O velho procurava com ambas as mãos manter a linha dentro da tensão de rotura. Sabia que, se não conseguia retardar o peixe com uma pressão firme, o peixe era capaz de levar a linha toda e rebentá-la.

"É um grande peixe, e tenho de o convencer, pensou. Não devo deixá-lo nunca tomar conhecimento da sua própria força, nem do que poderia fazer se corresse. Se eu estivesse no lugar dele, jogava o tudo por tudo, até que alguma coisa rebentasse. Mas, graças a Deus, não são tão inteligentes como nós, que os matamos, embora sejam mais nobres e mais capazes".

O velho vira muito peixe graúdo. Vira muitos que pesavam mais de quinhentos quilos, e pescara já dois dessa envergadura, mas nunca só. E agora, só, sem terra à vista, estava amarrado ao maior peixe que jamais vira, maior do que jamais ouvira, e a mão esquerda continuava enclavinhada como as garras de uma águia.

"Há-de abrir-se, pensou. Não há-de deixar de se abrir, para ajudar a mão direita. Há três coisas que são irmãs: o peixe e as minhas duas mãos.

Tem de abrir-se. É indecente estar assim". O peixe abrandara o andamento, voltara à velocidade habitual.

"Porque terá ele saltado?, pensou o velho. Saltou quase que para me mostrar como era grande.

Seja como for, já sei. Quem me dera poder mostrar-lhe que homem eu sou. Mas era capaz de ver a mão dormente. É melhor ele julgar que sou mais homem do que sou, e assim serei. Quem me dera ser o peixe, com tudo o que ele tem, só contra a minha vontade e a minha inteligência".

Instalou-se confortavelmente contra a madeira, e aceitou o sofrimento tal qual vinha, e o peixe nadava firmemente, e o barco ia devagar na água escura. Estava a levantar-se um pouco de mar, trazido pelo vento leste, e ao meio-dia a mão esquerda do velho voltara a si.

-- Más notícias, peixe -- disse, e acomodou a linha no saco que lhe cobria os ombros.

Sentia-se bem, mas sofria, embora não admitisse que sofria.

-- Não sou religioso. Mas vou dizer dez Padre-Nossos e dez Ave-Marias, para que apanhe este peixe, e prometo ir em peregrinação à Virgem de Cobre, se o apanhar. Isto é promessa.

Começou a dizer mecanicamente as orações.

Às vezes estava tão cansado que não se lembrava da oração, e tinha de as dizer depressa, para que saíssem automaticamente.

E pensou: as ave-marias são mais fáceis de dizer que os padre-nossos.

-- Avé Maria, cheia de Graça, o Senhor é convosco. Bendita sois Vós entre as mulheres, bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. ¦men. -- E, depois, acrescentou: -- Santa Virgem, roga pela morte deste peixe. Apesar de ele ser maravilhoso.

Ditas as orações, sentindo-se muito melhor, mas sofrendo exactamente na mesma, ou talvez um pouco mais, recostou-se na madeira da proa e começou, mecanicamente, a mexer os dedos da mão esquerda.

O sol estava quente, embora estivesse a levantar-se levemente uma brisa.

•

O melhor é eu iscar essa linhazita pendurada à popa.

Se o peixe decide passar mais outra noite, hei-de precisar de comer, e a água é pouca na garrafa. Não me parece que apanhe por aqui mais que um peixito. Mas, se o comer bem fresco, não cairá mal. Quem me dera que, esta noite, me saltasse para bordo um peixe-voador. Mas não tenho luz

para os atrair. Um peixe-voador cru é excelente, e não tinha de o arranjar, pois preciso poupar as forças. Deus meu, não supunha que ele fosse tão grande!

-- Mas hei-de matá-lo. Em toda a sua magnificência e glória.

"Embora seja injusto, pensou. Mas hei-de mostrar-lhe do que um homem é capaz e o que pode aguentar".

-- Eu disse ao rapaz que era um velho estranho. Agora, cumpre-me prová-lo.

O milhar de vezes em que o provara nada valia. Estava a prová-lo mais uma vez. De cada vez era a primeira, e, ao fazê-lo, nunca pensava no passado.

"Quem me dera que ele dormisse, para eu poder dormir e sonhar com os leões, pensou. Porque é que só me restam os leões? Não penses, velhote. Descansa, encostado agradavelmente à madeira, e em nada penses. Ele está a trabalhar. Trabalha tu o menos que puderes".

A tarde ia avançando, e o barco continuava a mover-se devagar e com firmeza. Mas havia um esforço a mais para o peixe, que era a brisa de leste, e o velho cavalgava suavemente a breve ondulação, e a dor da corda nas costas vinha aceitável, suportável.

Certa vez, à tarde, a linha principiou de novo a subir. Mas o peixe apenas continuou a nadar a um nível ligeiramente mais alto. O sol batia no ombro e no braço esquerdo do velho, e nas suas costas. E assim soube que o peixe virara de rumo a nordeste.

Agora que já o vira uma vez, era capaz de imaginar o peixe a nadar nas águas, com as purpúreas barbatanas peitorais abertas como asas, e a grande cauda erecta cortando a treva.

"Verá ele muito a essa profundidade?, pensou o velho. Os olhos dele são enormes, e um cavalo, com muito menos olho, é capaz de ver no escuro. Em tempos, era eu capaz de ver bem no escuro. Não na treva absoluta. Mas quase como um gato vê".

O sol e o movimento firme dos dedos haviam despertado agora por completo a mão esquerda; começou a transferir parte do esforço para ela, e contraiu os músculos das costas para mudar um pouco a dor da corda.

-- Se não estás cansado, peixe -- disse alto --, deves ser muito estranho.

Sentia-se ele muito cansado, e sabia que a noite já não tardava, e procurou pensar noutras coisas. Pensou no campeonato -- para ele as Gran Ligas -- e sabia que os Yankees de Nova York estavam a jogar com os Tigres de Detroit.

"É o segundo dia de que não sei o resultado dos juegos, pensou. Mas preciso de ter confiança e devo ser digno do grande DiMaggio que tudo faz perfeitamente, mesmo com a dor da espora de osso no calcanhar. O que será espora de osso?

Una espuela de hueso. Nós não temos disso. Será tão doloroso como a espora de um galo de combate no calcanhar?

Acho que eu não era capaz de suportar isso, ou a perda de um olho, ou dos dois olhos, e continuar a lutar como os galos de combate. O homem não vale muito ao pé dos grandes pássaros e animais. Mais me valia ser esse bicho na treva do mar".

-- A menos que apareçam tubarões -- disse alto. -- Se os tubarões aparecem, Deus se compadeça dele e de mim.

"Julgas que o grande DiMaggio seria capaz de ficar com um peixe tanto tempo como eu com este? Tenho a certeza de que seria, e mais, pois que é jovem e forte. O pai dele era pescador.

Mas a espora doer-lhe-ia muito?"

-- Não sei -- concluiu em voz alta. -- Foi coisa que nunca tive.

Ao pôr-se o sol recordou, para ganhar mais confiança, a vez em que, na taberna de Casablanca, jogara forças com o negralhão de Cienfuegos, que era o homem mais forte das docas. Tinham passado um dia euma noite, com os cotovelos na linha traçada a giz na mesa, os antebraços erguidos e as mãos apertadas uma na outra. Cada qual tentava forçar a mão do outro a chegar à mesa. Houvera muitas apostas, e a gente entrava e saía da sala, à luz do petróleo, e ele fitava o braço e a mão e a cara do negro. Mudavam os juízes de quatro em quatro horas, passadas as primeiras oito, para os juízes poderem dormir. O sangue rebentou das unhas das mãos do negro e das suas, e ambos se fitavam nos olhos e às mãos e aos antebraços, e os que apostavam entravam e saíam da sala, sentavam-se a ver, em cadeiras encostadas à parede. As paredes estavam pintadas de azul claro e eram de madeira, e os candeeiros projectavam nelas as sombras. A sombra do negro era imensa, e movia-se na parede, ao sopro da brisa nas chamas.

As apostas mudavam pela noite adiante; e ao negro davam "rum" e a ele acendiam cigarros. O

negro, depois do "rum", tentava um esforço tremendo, e uma vez ia levando o velho, que não era então um velho mas Santiago *El Campeón*, quase três polegadas para fora do equilíbrio.

Mas o velho levantara outra vez a mão. E tinha a certeza de que o negro, que era um belo homem, grande atleta, estava vencido. Ao romper do dia, quando os espectadores reclamavam que o desafio fosse anulado e o juiz abanava a cabeça, desencadeara um esforço que forçara a mão do negro, mais e mais, e mais, até pousar na madeira. O desafio começara num domingo de manhã e acabara na manhã de segunda-feira. Muitos dos que apostavam reclamavam a suspensão, porque tinham de ir para o trabalho nas docas, na estiva de sacos de açúcar ou na Havana Coal Company. De outro modo, todos teriam querido que fosse até ao fim. Mas ele tinha acabado, e antes de todos irem para o trabalho.

Por muito tempo depois disso todos lhe chamavam O Campião, e houvera uma desforra na Primavera. Mas não tinha sido apostado muito dinheiro, e ele ganhara sem dificuldade, uma vez que, no primeiro encontro, destruíra a confiança do negro de Cienfuegos. Depois, ainda tivera uns desafios; e depois, mais nenhum. Decidira que podia vencer a qualquer, se tal desejasse muito; e decidira que aquilo lhe avariava a mão direita para a pesca. Ainda tentara uns jogos de treino com a mão esquerda. Mas a mão esquerda tinha sido sempre traiçoeira e não fazia nunca o que ele lhe exigia, e não confiava nela.

"O sol há-de agora pô-la boa, pensou. Não há-de tornar a ficar assim, a menos que de noite faça muito frio. Sempre quero ver o que acontecerá esta noite".

Um aeroplano passou sobre ele, rumo a Miami, e o velho seguiu-lhe com os olhos a sombra, que assustava cardumes de peixes-voadores.

•

Com tanto peixe-voador, devia haver delfins -- disse, e apoiou-se na linha, a ver se era possível conseguirganhar sobre o seu peixe. Mas não conseguiu, e a linha foi só até ao retesado e à vibração gotejante que precede o rebentar. O barco avançava devagar, e o velho ficou-se a olhar o aeroplano até o perder de vista.

"De aeroplano, deve ser muito estranho, pensou. Que parece o mar, visto daquela altura?

Deviam poder ver o peixe, se não voassem tão alto. Gostaria de voar muito de vagar a duzentas braças de altura e ver o peixe de cima. Nos barcos que andam à tartaruga, eu ia nas vergas do mastro de vante, e já dessa altura via muito. Daí, os delfins parecem mais verdes, e vêem-se-lhes as listas e as malhas purpuríneas, e vê-se o cardume todo a nadar. Porque será que todos os peixes rápidos das águas profundas têm dorsos de púrpura, e em geral riscas ou malhas de púrpura? O delfim parece verde, é claro que por ser dourado. Mas, quando vem para comer, cheio de fome, a púrpura aparece nos costados, como ao peixe graúdo. Será fúria ou a velocidade maior, o que faz aquilo aparecer?"

Antes de escurecer, ao passarem por uma grande ilha de sargaços, que arfava e balouçava na ondulação, como se o mar estivesse possuindo alguém sob um cobertor amarelo, na linha pequena mordeu um delfim. Viu-o, quando ele pulou no ar, dourado de verdade ao sol que se sumia, e recurvando-se e espadanando desesperadamente o ar. Saltou e tornou a saltar na acrobacia do medo, e o velho arrastou-se para a popa e, segurando a grande linha com a mão e o braço direitos, alou o peixe com a mão esquerda, de cada vez pondo o pé descalço na linha recuperada. Quando o peixe estava junto da popa, espinoteando desenfreadamente, o velho debruçou-se e levantou sobre a popa o peixe dourado com as suas malhas purpuríneas.

As queixadas agitavam-se convulsivamente em dentadas precipitadas no anzol, e no fundo do esquife batiam o longo corpo achatado, a cauda e a cabeça, até que ele lhe deu na rebrilhante e dourada cabeça, e o peixe estremeceu e ficou quieto.

O velho tirou o anzol, pôs-lhe uma nova sardinha, e tornou a deitá-lo pela borda fora. Depois, arrastou-se devagar até ao fundo da proa outra vez. Lavou a mão esquerda e limpou-a nas calças. Mudou a pesada linha da mão direita para a esquerda, e lavou a mão direita no mar, enquanto fitava o sol a mergulhar no oceano e a inclinação da grande linha.

-- Não mudou nada -- disse. Mas, ao observar o movimento da água contra a mão, notou que era perceptivelmente mais lento.

-- Hei-de pôr os remos atravessados à popa, para o retardar durante a noite. Está bom para a noite, e eu também.

"Seria melhor abrir o delfim mais tarde, para não perder o sangue, pensou. Posso fazer isso um pouco depois e, nessa altura, pôr os remos de través para fazerem de âncora flutuante. É

melhor deixar o peixe sossegado por agora, e não o incomodar muito ao pôr do sol. O sol-posto é sempre uma hora difícil para os peixes todos".

Depois de seca a mão ao ar, agarrou na linha com ela e abandonou-se o mais que podia, permitindo que o seu corpo fosse puxado contra a madeira, para que o barco suportasse o esforço tanto ou mais do que ele.

"Já estou a aprender, pensou. Pelo menos esta parte. E

lembra-te de que ele não comeu, desde que engoliu a isca, e que é grande e de muito comer.

Comi o bonito inteiro. Amanhã, comerei este. -- Chamava-lhe dorado. -- Talvez que eu devesse comer um bocado, depois de o arranjar. Será mais difícil de comer que o bonito. Mas nada há que seja fácil".

-- Como vai a vida, peixe? -- perguntou alto. -- Eu sinto-me bem, a mão esquerda está melhor, e tenho comida para uma noite e um dia. Puxa o barco, peixe.

Não se sentia verdadeiramente bem, porque a dor da corda nas costas quase ultrapassara a dor e se transformara numa dormência que não o enganava. "Mas tenho passado por piores coisas, pensou. A minha mão tem só um pequeno golpe, e a cãibra largou a outra. As pernas estão bem. Também o ganhei na questão de aguentar".

Já estava escuro, porque, em Setembro, escurece depressa, depois do sol-pôr. Encostado à madeira gasta, repousava quanto podia. As primeiras estrelas surgiam. Não sabia o nome da Rígel, mas via-a, e sabia que não tardariam a aparecer todas e que teria em breve todas as suas amigas distantes.

-- Também o peixe é meu amigo -- disse em voz alta. --

Nunca vi nem ouvi falar de um peixe assim.

Mas tenho de o matar. Agrada-me pensar que não temos de matar as estrelas.

"Ora imagina, pensou, que um homem devia todos os dias ver se matava a lua. A lua foge. Mas imagina que um todos os dias teria de ver se matava o sol? Nascemos com muita sorte".

Sentiu depois pena do grande peixe, que nada tinha de comer, e a sua determinação em matá-lo não contrariava a pena que sentia. "A quantas pessoas dará de comer?, pensou. Mas são elas dignas de o comer? Não, claro que não. Não há ninguém digno de o comer tal é o seu comportamento, a sua grande dignidade".

"Não compreendo estas coisas, pensou. Mas é bom que a gente não tenha de ver se mata o sol, a lua ou as estrelas. Basta vivermos no mar e matarmos os nossos irmãos".

"Ora eu tenho de pensar na âncora. Tem os seus perigos e as suas vantagens. Posso perder tanta linha, que perca o peixe, se ele faz força e se os remos estão em posição e o barco perde a leveza. A leveza do barco é que prolonga o nosso sofrimento, mas é a minha salvação, uma vez que ele possui uma velocidade maior que ainda não usou. Aconteça o que acontecer, tenho de arranjar o dorado, para não se estragar, e de o comer, para ter forças".

"Agora vou descansar mais uma hora e ver se ele está firme, antes de ir à popa fazer o trabalho e decidir. Entretanto, verei como ele se comporta e se dá mostras de mudar de atitude. Os remos são uma boa ideia; mas trata-se de jogar pelo seguro! Ele ainda é peixe, e vi-lhe o anzol no canto da boca e ele tem andado de boca bem fechada. O castigo do anzol não é nada. Mas o da fome, e o de sentir-se contra o que não entende, isso é tudo. Repousa, meu

velhote, deixa-o trabalhar até que chegue a tua vez".

Repousou durante o que supôs duas horas. A lua agora não surgia senão mais tarde, e não tinha modo de avaliar o tempo.

Nem, em boa verdade, estava ele repousando. Continuava a aguentar com os ombros o puxão do peixe, mas pôs a mão esquerda na amurada e confiou da resistência ao peixe mais ao próprio esquife.

"Como seria simples, se eu pudesse prender a linha, pensou.

Mas um pequeno sacão podia rebentá-la. Tenho de amortecer o sacão com o meu corpo, e de estar sempre pronto a dar linha com ambas as mãos".

-- Mas tu ainda não dormiste, velho -- exclamou.

-- Passa de meio dia e uma noite e já outro dia, que não dormes. Tens de arranjar maneira de dormir um pouco, se ele vai seguro e calmo. Se não dormes, podes ficar sem ideias claras.

"Tenho as ideias claras, pensou. Claras demais. Tão claras como as estrelas que são minhas irmãs. Mas preciso de dormir.

Elas dormem, e a lua e o sol dormem, até o oceano dorme às vezes, em certos dias, quando não há corrente e a calma é estanhada".

"Mas lembra-te de dormir. Obriga-te a isso, e arranja uma maneira simples e segura de aguentar as linhas. E agora trata de preparar o dorado. É muito perigoso pôr os remos a servir de fateixa, se tens de dormir".

"Podia passar sem dormir, disse consigo. Mas seria muito perigoso".

Principiou a pôr-se em movimento para a popa, de gatas, com cuidado, para não sacudir o peixe. "Pode ele estar meio a dormir, pensou. Mas eu não quero que ele repouse. Tem de puxar até morrer".

De volta à popa, voltou-se por forma a que a mão esquerda mantivesse passada aos ombros a tensão da linha, e tirou a faca da bainha com a mão direita. As estrelas brilhavam, via o dorado claramente, e enfiou-lhe a lâmina na cabeça e puxou-o de debaixo da popa.

Pôs-lhe um pé em cima e abriu-o até à beira do maxilar inferior. Depois, levou abaixo a navalha e estripou-o com a mão direita, limpando-o e pondo a descoberto as guelras.

Sentiu nas mãos escorregadio e pesado papo, e abriu-o. Havia dentro dois peixes-voadores.

Estavam frescos e duros, e pô-

los lado a lado, e deitou pela borda fora as tripas e as guelras. Desceram na água, deixando um rasto fosforescente. O

peixe estava frio e de um branco cendrado à luz das estrelas, e o velho escamou-lhe um lado, enquanto mantinha o pé direito na cabeça dele. Depois, voltou-o e escamou o outro lado, e cortou cada um dos lados, desde a cabeça à cauda. Atirou a carcaça fora e ficou a ver se havia algum redemoinho na água.

Mas havia apenas o clarão da lenta descida. Virou-se, colocou os dois peixes-voadores entre os dois filetes do peixe e, guardando a navalha, regressou lentamente ao seu lugar. As costas curvavam-se ao peso da linha, e na mão direita trazia o peixe.

Regressando, pousou os dois filetes na madeira e os dois peixes-voadores ao lado. Depois, acomodou a linha em novo sítio das costas e segurou-a outra vez com a mão esquerda pousada na amurada. Debruçou-se na borda e lavou os peixes-voadores na água, notando a velocidade desta contra a mão. A mão estava fosforescente do escamar do peixe, e ele observava a corrente

de água contra ela. A corrente era menos forte e, ao esfregar o lado da mão contra o costado do esquife, partículas fosforescentes flutuavam à deriva, devagar, para a ré.

-- Está cansado ou a repousar -- disse o velho. -- Agora, toca a comer o peixe e a repousar também e dormir um pedaço.

Sob as estrelas, com a noite a arrefecer, comeu metade de um dos pedaços do dorado e um dos peixes-voadores, estripado e sem cabeça já.

-- Que excelente peixe é o dorado para comer cozinhado. E

que miserável comido cru. Nunca mais me meto num barco, sem sal ou sem limão.

"Se eu tivesse cabeça, teria durante o dia borrifado a popa, para a água secar e deixar o sal, pensou. Mas não apanhei o dorado senão quase ao pôr do sol. Em todo o caso, foi imprevidência. Mas mastiguei-o bem, e não estou agoniado".

O céu enevoava-se a leste, e uma após outra iam desaparecendo as estrelas que ele conhecia.

Era como se agora se movesse num grande desfiladeiro de nuvens, e o vento caíra.

-- Daqui a três ou quatro dias, vai haver mau tempo --

disse. -- Mas não esta noite, nem amanhã. Põe-te a dormir, meu velho, enquanto o peixe está sossegado.

Segurou com força a linha na mão direita, e depois encostou a anca à mão, lançando o peso do corpo contra a madeira da proa. Passou então a linha um pouco mais para baixo e retesou nela a mão esquerda.

"Enquanto tiver a linha em volta, a minha mão direita é capaz de a aguentar. Se se distrai a dormir, a mão esquerda acordar-me-á a tempo de agarrar a linha. Para a mão direita é duro.

Mas é questão de hábito. Mesmo que eu durma vinte minutos ou meia hora, já é bom". Deitou-se para diante, firmando-se com todo o corpo, e com todo o peso deste sobre a mão direita, e adormeceu. Não sonhou com os leões, mas com um imenso bando de porcos-marinhos, que se estendia por oito a dez milhas e estava na época do cio; davam altos pulos no ar e voltavam ao mesmo buraco que haviam aberto na água ao saltar.

Sonhou depois que estava na aldeia, na cama, e havia nortada, e tinha muito frio e o braço direito dormente porque pousara sobre ele a cabeça e não num travesseiro.

A seguir, começou a sonhar com a longa praia amarela, e viu o primeiro leão descer a ela ao cair do crepúsculo, e depois vieram os outros leões, e ele estava de queixo assente na madeira da proa, lá onde o navio estava ancorado, com a brisa da tarde, a vir de terra e ele à espera a ver se apareciam mais leões e sentiu-se feliz.

A lua nascera havia muito tempo mas ele continuava a dormir e o peixe a puxar regularmente e o barco prosseguindo pelo túnel de nuvens.

Acordou com o sacão do seu punho direito contra a cara e a linha a arder-lhe a mão. Não sentia a mão esquerda mas travou quanto pôde com a direita, e a linha corria. Por fim, a mão esquerda encontrou a linha, e ele fez força com o corpo para trás, e agora queimava-lhe as costas e a mão esquerda, e esta suportava o esforço todo, que violentamente a cortava. Olhou para trás para os tambores de linha, que se desenrolavam com ligeireza. Nesse momento o peixe saltou, espadanando o oceano, e caiu pesadamente. Saltou mais uma e outra vez, e o barco deslizava rápido, apesar de a linha continuar a correr, e o velho ia elevando a tensão até à rotura, e elevando novamente e uma vez mais. Havia sido atirado contra a proa, tinha a cara no filete de dorado e não podia mexer-se.

"Era por isto que esperávamos, pensou. Toca a aguentar".

"Que a linha lhe custe faz com que a linha lhe custe cara".

Não podia ver os saltos do peixe, apenas ouvia o estalar do oceano e o pesado espadanar da queda. A velocidade da linha cortava-lhe terrivelmente as mãos, mas sempre soubera que tal aconteceria, e tentava manter a linha nas partes calosas, não a deixar passar na palma ou nos dedos.

"Se o rapaz aqui estivesse, molharia as voltas da linha, pensou. Sim. Se o rapaz cá estivesse.

Se o rapaz cá estivesse".

A linha ia correndo sempre, abrandando já, e o velho fazia o peixe pagar cara cada polegada.

Levantou da madeira a cabeça, retirando-a do pedaço de peixe que a face esmagara. A seguir, estava de joelhos e, depois, lentamente, de pé. Cedia linha, mas de cada vez mais devagar.

Recuou até de onde podia com o pé sentir as reservas de linha, que não via. Havia ainda muita linha, e o peixe tinha de vencer também o atrito da muita linha dentro de água.

"Sim, pensou. E, agora, já ele saltou mais de uma dúzia de vezes e encheu de ar os sacos ao longo das costas, e não pode descer para morrer lá de onde não posso trazê-lo para cima.

Não tarda que comece a andar à volta, e então tenho de puxar por ele. O que o terá excitado tão subitamente? Seria a fome o que o desesperou, ou assustou-se com alguma coisa na noite?

Talvez, de repente, tenha sentido medo. Mas era um peixe tão forte e tão calmo, parecia tão destemido e tão seguro de si!

É estranho".

-- É melhor, meu velho, que sejas tu destemido e seguro de ti --disse. -- Estás outra vez a aguentá-lo, mas não recuperas linha. Mas não tarda que ele comece a andar à roda.

O velho segurava com a mão esquerda e os ombros, e debruçou-se e apanhou água na concha da mão direita para tirar da cara o peixe esmagado. Tinha medo de se agoniar, de vomitar e de perder a força. Depois de lavar a cara, meteu a mão na água e deixou-a ficar na água salgada, enquanto fitava o primeiro claror que antecede o nascer do sol. Vai de rumo quase a leste, pensou. O que significa que está cansado e vai com a corrente. Não tarda, terá que andar à volta. E então começa o nosso trabalho".

Quando lhe pareceu que a mão direita estivera tempo suficiente na água, retirou-a e olhou para ela.

Não está mal. E a dor não abate um homem.

Pegou na linha cuidadosamente, para que ela não calhasse em nenhum dos golpes recentes, e mudou a posição do esforço, para poder meter a mão esquerda na água, do outro lado do esquife.

-- Para uma coisa sem dignidade, não te portaste muito mal -- disse à mão esquerda. -- Mas um momento houve em que não te encontrava.

"Porque não nasci eu com duas mãos boas? Talvez seja minha a culpa, por não ter treinado esta devidamente. Mas Deus sabe que ela teve bastantes oportunidades de aprender. Não se portou muito mal de noite, apesar de tudo, e só uma vez teve cãibras. Se tornar a ter, que a corte a linha".

Quando pensou isto, viu que não estava a pensar claramente, e achou que devia mastigar um bocado mais do dorado. "Mas não posso, disse de si para si. É melhor andar com a cabeça no ar, do que enjoar e perder a força. E bem sei que não me aguentava, se o comesse, depois de ter tido a cara metida nele. Guardo-o para uma emergência, até que vá estragar-se.

Mas já é tarde demais para tratar das forças com comida. És estúpido, disse consigo. Come o outro peixe-voador".

Ali estava, arranjado e pronto, e pegou nele com a mão esquerda e comeu-o, chupando as espinhas e comendo tudo até à cauda.

"É mais alimentício que quase todos os peixes, pensou.

Pelo menos, a espécie de força de que eu preciso. Agora já fiz o que podia. Ele que comece às voltas, e vamos à luta".

O sol nascia pela terceira vez, desde que ele saíra para o mar, quando o peixe começou às voltas.

Não podia pela inclinação da linha ver que o peixe começara a andar em círculo. Ainda era cedo para isso. Apenas sentia uma ligeira relaxação na linha, e principiou a puxá-la devagar com a mão direita. A linha retesava-se, como sempre, mas, quando ele atingiu o ponto a partir do qual ela rebentaria, começou a vir. Tirou os ombros e a cabeça de sob a linha, e puxou devagar e com firmeza. Fazia uso de ambas as mãos, num movimento balanceado, e tentava puxar também com o corpo e as pernas, quanto podia. As suas velhas pernas e os ombros rodavam no balanço de puxar.

-- É uma volta muito grande -- disse. -- Mas anda à volta.

Depois, a linha não vinha mais, e esticou-a até ver as gotas saltarem ao sol. A linha então fugiu com força, e o velho até ajoelhou e de má vontade deixou-a regressar à água escura.

•

Está a percorrer a parte mais afastada do seu círculo.

E pensou: há que segurar com quanta força tenho. A tensão encurtará de cada vez o círculo.

Talvez daqui a uma hora eu o veja. Por agora, preciso de o convencer e, depois, de o matar.

Mas o peixe continuava a descrever vagarosamente o seu círculo, e o velho estava encharcado em suor e exausto até à medula dos ossos, duas horas mais tarde. Os círculos, porém, eram já mais curtos, e pela forma como a linha se inclinava, bem se via que o peixe, enquanto nadava, se elevava constantemente.

Durante uma hora estivera o velho a ver malhas negras diante dos olhos, e o suor ardia-lhe nos olhos e no golpe na testa. Das malhas negras não tinha ele medo. Eram normais, à tensão a que ele estava a puxar a linha. Duas vezes, porém, sentiu-se a desmaiar e a entontecer, e isso afligiu-o.

Continuar: parte 3 de 3