Os Contos do Tio Joaquim
Capítulo IV
Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes, e como quem receia cair. A dôr tambem embriaga, e o marinheiro, que por tantas vezes resistira ao vinho e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro homem, as palavras da velha tinham no mudado de todo.
Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe n’uma janella um vulto, que o coração conheceu, antes que os olhos o podessem adivinhar. Era Martha, dizia-lhe o que sentia em si e os estremecimentos do seu amor.
Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito e correr para a que tanto amava, um outro vulto que parára debaixo da janella, depois de ter fallado para cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que lhe franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre elle.
Martha desapparecera da janella e em breve aquella casa ficára sepultada nas trevas, como o pobre Manoel no desalento e desconforto.
Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente accordado, os seus olhos não o enganavam; esperou entretanto, ora correndo como um perdido, ora parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras sem sentido, ora rugindo como uma fera, espumando como um possesso.
Perto da meia noite abriu se a janella, Martha appareceu de novo, o mesmo vulto saiu e encaminhou-se para onde estava Manoel, este como fóra de si, não vendo senão sangue partiu para elle, com a faca de marinheiro aberta: ouviram-se dois gritos, um corpo baquear no chão e uma voz de mulher, que pedia soccorro.
IV
Momentos depois já Manoel estava prezo: tinham acudido aos gritos de Martha, e tinham-no encontrado com a faca ainda aberta defronte de um corpo caido no chão, e a golphar sangue por duas feridas profundas.
Era mais do que o bastante.
O depoimento da visinhança, o proprio testemunho de Martha, tudo concorreu para que o condemnassem.
Levaram-lhe porém em conta o bom passado, os negociantes respeitaveis, donos do navio a attestarem o seu bom porte, uma tripulação em pezo de honrados e velhos marinheiros encanecidos pelo tempo, e crestados pelos soes da linha a dizerem: que elle tambem fôra honrado.
Os jurados, santas creaturas, commoveram-se com aquelle espectaculo; o advogado do réo, rapaz de esperanças, vociferou contra as leis de sangue, e discorreu como uma bocca de ouro sobre a alienação mental e as circumstancias attenuantes; o juiz sensibilisou-se tambem, e todos enternecidos condemnaram o réu... a dez annos de grilheta.
Para um homem como Manoel, similhante affronta seria peior do que a morte, se no estado em que se achava, elle a podesse apreciar.
Depois que commettera o assassinato tinha ficado como louco, ou peior ainda, porque parecia idiota.
Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade!
Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa e honrada nos braços da sua Martha, vêr-se de repente criminoso, assassino e deshonrado; toldarem-se-lhe na cerração as estrellas, que o guiavam n’esta vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações de sobra para deitarem por terra castellos mais fortes, e almas ainda mais valentes.
Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O mesmo d’outros tempos nunca mais tornou a ser. Nunca mais o viram rir, cantar não o ouvio mais ninguem: e as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe entalharam no coração.
O amigo da humanidade, que inventou as prisões em commum e a grilheta, foi de certo um grande perverso. Só a um requinte de malvadez se póde attribuir um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na mesma atmosphera de perversão, innocentes e criminosos, pois que assim comparados uns com outros se podem chamar: e que não contente com isso lhe accrescentou a grilheta, exposição ambulante, aperfeiçoamento da que, em tempos de barbaridade, se applicava as mais das vezes a victimas do que a réus.
A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos não alcançou todavia o antigo piloto: quasi que nem os percebeu, tudo era para elle extranho, inexplicavel, incomprehensivel; um pesadello que durava muito, e de que esperava accordar um dia.
Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario, eis toda a differença. Aquelles dez annos valiam-lhe por quarenta; e, mocidade, alegria, sentimento, coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que depozera.
Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as noites o perseguia, e que, salvo pequenas mudanças, era sempre o seguinte:
Navegava a bordo do Corsario. De repente o Oceano transformava-se em largo mar de sangue: debruçado na amurada via-se lá em baixo a braços com um homem, que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como os anjos, pura como a estrella da manhã, serena como o alvorecer de estio em alto mar, e que d’entre nuvens no céu lhe sorria amor. A lucta continuava encarniçada, elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario escorregava-se d’entre os braços escapando-se-lhe aos golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o todo, ia já a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe por cima da cabeça, o marulho das aguas, o sussurro do vento casavam-se com uma voz confusa, que lhe baqueava nos miolos, dizendo-lhe: não matarás.
Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças de voltar á vida antiga; mas todos, que procurava, se affastavam d’elle com terror. Desesperado, momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se de uma sociedade, que castigava n’elle um crime mais dos outros do que seu, e seguir a estrada do mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam todas as outras impraticaveis; mas o principio do bem e as idéas que recebera com a educação, predominaram sempre.
Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi, horas de amargura, em que chegou a desejar a vida da cadeia, occasiões em que a ideia da morte lhe trabalhou muito na cabeça.
Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do Sodré depois d’um dia passado em inuteis pesquizas de trabalho, e em repetidas e semelhantes recusas. O céo estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra, o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão negrejava em tudo. Debruçado sobre o caes, remontou-se pelo pensamento áquella tarde em que, onze annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como tudo tinha mudado. Que alegrias então, que tristezas hoje! A agua começou a namoral-o debaixo, o desalento a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um braço susteve-o, uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de um antigo companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro como elle; mas muito mais pobre, muito mais velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do caes.
Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar para sempre ao suicidio. Para não ser cobarde muitas vezes em temporal desfeito se resolvera a morrer, agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se a viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar estava a ideia de que podia ser util ao velho Estevam: e a companhia d’um amigo que lhe apparecia nas proximidades da sepultura.
E... porque não havia de concorrer tambem?
A esperança, que mesmo sem fundamento algum, ainda lhe dizia que vivesse, e o acompanhava, como sempre, nos mais atormentados lances?
No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho juntára na cadeia, comprava um velho barco de pesca, e ambos tomavam posse da propriedade commum não contentes, mas resignados, baptisando-a—Desgraça,—pelo muito que ambos haviam padecido.
Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas, nenhum modo de vida se creou melhor para o esquecimento do que a vida do pescador. A lida continua e a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia, o emprego de todos os sentidos, trazem o que n’ella se emprega sempre voltado para o seu trafego e sempre estranho ao mundo com o qual só de leve trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante ao de outros tempos, aquella vida, reflexo da outra, reflexo pallido em que o rio substitue o mar, em que o barco substitue o navio, mas que nos lances e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois d’aquelle inferno porque passára.
Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro, serviu-lhe de amigo e de auxilio durante tres annos, em que gradualmente se lhe foram esvaecendo da lembrança os desgostos e as desillusões.
Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi que aquelles tres annos se poderiam dizer felizes.
Desde a tarde em que saltára em terra, entre receios e esperanças, nunca mais encontrára alma onde derramasse as amarguras, que trasbordavam da sua, nunca tivera ninguem que o comprehendesse, nem que avaliasse a sua dôr. O companheiro de grilheta, que lhe haviam jungido, era um scelerado, com tantas mortes e tantos crimes, que horrorisava ouvil-o, e ainda mais vêl-o rir das maguas de amor. Ás queixas de Manoel, respondia com imprecações, e se elle insistia, dava-lhe para que o deixasse com semelhantes pieguices.
Depois que o soltaram, nunca nem um só, dos que d’antes o tratavam, lhe mostrou boa feição, todos fugiam do grilheta, alcunha que lhe tinham posto e que lhe recordava a antiga condemnação.
Porque, clamem embora os philosophos, a rehabilitação moral para o criminoso pobre é impossivel, para o rico é inutil, ninguem lhe toma contas nem do passado nem do presente: o miseravel, porém, traz a corrente presa toda a vida, todos lh’a notam, todos lhe apontam para ella, e embora elle diga: vejam o que hoje sou; todos lhe tornam: vemos o que foste hontem.
Por isso aquelle companheiro, que o comprehendia, aquella solidão que o não accusava, aquelle mar e aquelle ceu, que lhe lembravam o perdão e o infinito, foram como um calmante para a sua dôr, como uma estação de descanço na sua jornada de padecer.
Estação, que durou pouco e que uma borrasca desfez, n’uma tarde, em que já recolhiam da pesca, seguindo pelo Tejo acima, a procurar abrigo n’alguma d’aquellas enseadas naturaes, que o rio abre, nas proximidades de Sacavem.
A Desgraça, apezar do vento á popa, seguia pouco, e arfava muito porque havia força de corrente, e a vasante ia com grande rapidez.
Principiava a escurecer e o vento a carregar com a noite, alguns trovões ouviam-se ao longe, e um temporal rijo se apparelhava para em pouco. O barco já não dava pelo leme, e a cada momento se enchia d’agua;—ir para diante era quasi impossivel, e á primeira onda mais rija, o casco já velho, podia abrir-se de popa á prôa. Posto que não conhecessem a praia, em risco de bater n’alguma pedra, tentaram atravessar, e encalhar quanto antes, depois de esforços sobrehumanos para luctar com o temporal; mas quando aproavam para terra uma rajada mais forte lhes levou a vella, e uma onda apanhando o bote pelo costado, metteu-lhe a borda debaixo d’agua, e virou-o logo.
Só os que têem vivido parte da sua vida no mar é que avaliam bem quanto custa ao marinheiro deixar as taboas, em que tem navegado, sejam ellas de bote catraio ou de navio d’alto bordo. Para Manoel e para Estevam o barco era a fortuna, a familia, o mundo inteiro, que as aguas lhes queriam roubar.
Agarrados a elle, mal se via já, trabalharam quanto poderam para vêr se o salvavam; mas, baldados esforços, o que conseguiam n’um quarto de hora, perdia-lh’o n’um segundo uma onda mais valente. E as forças a faltarem-lhes, e a respiração a difficultar-se-lhes, e os braços a renderem-se-lhes.
—Já de noite—não podendo mais, tiveram de o largar, e por um instincto de conservação, que nos não deixa nunca, cuidaram de se salvar nadando para terra. Não era cedo: acontecia-lhes o que succedera ao barco, e quando mais cresciam para a praia, animando-se e clamando um pelo outro, porque não se podiam vêr, mais os affastava a corrente, que seguia com uma velocidade de espantar.
Estevam não luctou por muito tempo. Mais velho e mais cançado, uma onda abafou-lhe o ultimo grito, e galgou-lhe por cima da cabeça, entrando-lhe pela bocca aberta convulsivamente n’um extremo resfolegar. Manoel com o desespero de afogado, reuniu todas as forças, e n’um extremo alento enterrou um braço no lodo da praia, para que a agua o não levasse, procurando já por instincto conservar a cabeça ao cimo d’agua para gritar, e tomar a respiração.
Succeder-lhe-ia em pouco o mesmo que a Estevam se da terra o não ouvissem; correram em seu soccorro com luzes e cabos, nadaram para onde se ouviam os gritos, e agarraram-no pelos cabellos, quando exhausto de forças ia mergulhar tambem.
—Quasi que não respirava.
A Providencia velava por elle, era a segunda vez que o salvava.
De manhã quando Manoel deu accordo de si, viu-se deitado n’uma esteira perto da chaminé, onde ardia um bom fogo, e ao pé d’elle um rapazito de dez a doze annos a vigiar lhe o somno: já não sentia a fadiga da vespera, e tinha recuperado as forças com o descanço; ia para se levantar e agradecer aos que o tinham salvado, quando a creança, pondo-lhe a mão sobre o hombro lhe disse:
—Não se levante, faz-lhe mal, a mãe não quer; e como elle teimasse, gritou:—mãe, accuda cá, o homem quer levantar-se, quer ir-se embora.