Os Contos do Tio Joaquim

Rodrigo Paganino · Capítulo 27 de 28

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Os Contos do Tio Joaquim

Capítulo VI

Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam, juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do frade.—

Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.

Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos, que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.

Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas inauditas.

Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão celebrados inimigos.

Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte, até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular algumas palavras.

Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...

 

VI

Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro; a minha campanha estava concluida. Tinha corrido ás armas para vingar a morte de meus paes, e arrojava a espingarda homicida diante do cadaver de meu irmão.

Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas; e sepulturas dos meus mais proximos parentes!

A guerra estava a acabar.

Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por toda a parte os vencidos depunham as armas, e procuravam salvar-se das represalias pela fuga, ou pelo homisio.

Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir ao ensanguentado espectro de meu irmão, que parecia perseguir-me, trazendo apoz si as victimas de quantos haviam perecido aos nossos tiros; os meus companheiros tresmalharam-se em diversas direcções. Separámo-nos, como nos haviamos reunido, sem pena nem saudades. Apesar de termos vivido tanto tempo juntos, quasi que nem nos conheciamos.

Á noite entrei na povoação.

Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida, estava mais affastada das outras. Abriram-me a porta, soltaram um grito ao vêr-me: eu ia dando no chão. Reconheci Margarida.

—E Filippe?

Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor, quando bradou ao primeiro fratricida:

—Cain, que fizeste de teu irmão Abel?

Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta:

—Morto!

E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as mãos.

Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa lucidez, que dá o sentimento. Eu não podéra resistir á voz da consciencia, que parecia accusar-me pela bocca de Margarida.

A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou a si tinha enlouquecido.

Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes de tal fórma lhe haviam excitado o espirito, que um golpe tão profundo assim rapido, quasi inesperado, achou-a sem forças para o aguentar. Ao menos deixava de padecer.

Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então eu tinha experimentado, poderia dizer se brinco de creanças comparado aos tormentos que aturei durante esses mezes.

Não soube nunca onde meus paes tinham escondido os seus bens. Estavamos pobres, e Margarida, que se definhava a olhos vistos, reclamava cuidados e despezas que me obrigaram a vender quanto possuia, e a trabalhar de noite e de dia para acudir á pobre enferma.

Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro e ultimo amor. A paixão mais energica do homem, a que o arroja ás maiores emprezas, ou o precipita até ás acções mais vis, tinha rebentado em mim com toda a força ao vêr aquella santa e boa rapariga.

Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tanto mais, quanto via que era por outro que ella experimentava sentimento egual ao meu. Agora, porém, tinha-a a meu lado sempre; mas como morta ou peor ainda, porque horrorisavam e arrefeciam mais aquelles transportes de loucura, do que os gelos e o pavor da sepultura. Ouvi-a de noite e de dia chamar por um nome que não era o meu, e cada vez que lh’o ouvia, parecia que com elle, d’aquella bocca pela qual para que desabrochasse n’algumas palavras de amor, eu déra a vida, saía uma accusação, um anathema contra mim.

O nome do meu rival, de quem me não podia vingar porque estava morto, esse nome que ouvia a todos os momentos, era o de meu irmão, morto pelos meus, talvez por mim; e eu vivia para que Margarida me recordasse a todos os momentos: a mesma bala que commettera um fratricidio, enlouquecera a unica mulher que havia amado.