Os Contos do Tio Joaquim

Rodrigo Paganino · Capítulo 18 de 28

Páginas do PDF

Os Contos do Tio Joaquim

Capítulo VI

Acceitou, e seguiu o seu hospedeiro como por demais: e, sem dar fé do que fazia, comeu, deitou-se, e dormiu a noite de um somno.

Só nos romances é que os heroes não dormem depois de fortes abalos; na vida vulgar, na vida de todos e de todos os dias, depois dos grandes padecimentos, vem o cançasso mesmo da dôr, e depois o somno, ás vezes mais profundo, mais descançado, do que nas occasiões triviaes.

Na manhã do dia seguinte Manoel acordava tranquillo e quasi feliz. Ao cabo de tanta lucta, de tantos lances, e de tão grandes golpes, aquelle remanso, que o velho lhe offerecia, aquelle apartamento do mundo, aquelle mesquinho oasis, entre um cemiterio e um ancião que para elle se inclinava e se debruçava sobre a cova; entre dois tumulos, mas sempre oasis para o seu mundo deserto de affeições e de esperanças, era o socego, o esquecimento, quasi a felicidade, felicidade da morte, mas ainda assim agradavel para os que nada esperam da vida.

Diz um aphorismo, dictado talvez pela descrença, mas provado pela experiencia, que um dia de desgraça estreita mais amisades do que annos de ventura; contaram-se a sua vida, communicaram-se as suas infelicidades, e deram-se o nome de amigos.

Não eram interesseiros os protestos; e por isso, bem sinceros.

Até á morte do velho, Manoel viveu na sua companhia; enterrou-o, chorou sobre a sua sepultura, herdou-lhe a pobre habitação e o descubiçado emprego, e n’essa posse estava quando em companhia do tio Joaquim o encontrei.

 

VI

 

Haviam decorrido dois annos depois que viera do campo, e, com toda a sinceridade o confesso, nunca mais me lembrou em Lisboa, nem o guarda do cemiterio, nem a sua historia, que o bom do tio Joaquim me referira.

Tive de voltar áquelles sitios e seguindo o caminho por onde viera da feira, comecei a avivar recordações, a recontar de mim para mim aquellas horas tão felizes, tão descuidadas, tão folgazãs, que me tinham corrido por aquelles descampados, e a vêr por entre as moitas dos vallados, que a primavera perfumava de aromas e esmaltava de flôres, as saudades queridas d’aquelles encantados tempos.

Ao voltar da estrada quasi no mesmo ponto, em que os cavallos se haviam detido dois annos atraz, deteve-se tambem o que eu montava; obrigando-me a abandonar aquellas regiões do idealismo pela realidade de tempo e de logar.

Não conhecia os sitios, tive de me orientar, invocando reminescencias antigas, e confrontando paragens, para me certificar onde estava.

A egreja, a casa do guarda, o proprio cemiterio, pareciam remoçados pelo influxo de alguma divindade bemfazeja. Inspiravam ainda tristeza aquelles logares, mas uma doce e placida melancholia succedia-se agora ao desconforto e desalento, que ao attentar n’aquellas ruinas, nos arrefeciam a alma.

O musgo estendia por partes o seu luxuriante manto de verdura, contrastando com o negrejar das cantarias, e dando e ganhando esplendores com o realce. Bandos de pombos esvoaçavam em roda das escalavradas paredes, casando os arrulhos, beijando-se, perseguindo-se em revira-voltas graciosas, cortando os ares em todos os sentidos com elegantes curvas, affagando-se e brincando, espalhando sobre aquellas ruinas suaves perfumes de alegria e de amor. Perto a casa, alvejando por entre as latadas de jasmineiros e madresilvas, o velho poial limpo e rebocado sob um caramanchão de heliotropos, e até a nogueira velha parecia mais viçosa e risonha.

O cemiterio, que da pequena elevação, onde parára, se avistava todo, tinha as ruas limpas e orladas de alecrim e alfazema, as lapides mais desafogadas de matto, as cruzinhas mais negras, as arvores mais cuidadas, o chão recamado de flôres.

Tudo era novo para mim, mas tudo melhorára com a innovação, e despidas as rugas de uma velhice precoce ou de uma mocidade gasta e devassa, apresentava-se tudo agora com as louçanias de uma virilidade robusta, de uma existencia descançada, serena, quasi festiva.

Aquelle rejuvenescer estendera-se tambem ao antigo habitante, que havia visto outr’ora sujo, maltrapilho, alquebrado, velho até; e que via agora assomar á porta tão aceiado, tão esbelto, tão remoçado, que foi preciso que me cumprimentasse e que eu o ouvisse fallar, para perceber que era o mesmo.

Apeei-me e mais curioso de que uma mulher, ou do que qualquer homem dos que n’este vicio lhes levam as palmas, procurei indagar o porquê d’aquellas mudanças.

Talvez pelo respeito, que todos por aquelles logares me tinham, consegui de Manoel a confissão da sua vida na parte que não conhecia, e em que se operára aquella transformação.

Em resumo foi o seguinte:

Tempos depois da morte do seu antecessor, Manoel acordára uma noite ao bater-lhe á porta o acompanhamento de um enterro, que, como todos sabem, costumam no campo, ser fóra de horas.

Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do finado, e alguns visinhos, que os acompanhavam.

E... para que hei de torturar a curiosidade dos meus leitores, se é que a despertei em alguns, a viuva era Martha e o filho, aquella creança que vigiára o somno de Manoel.

Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente para não mais se apartarem senão no tempo consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o Miguel não morrêra das facadas, como se tinham casado depois, e como de Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver na companhia de um tio do marido, dono da fazenda onde foram depositar o nosso naufrago.

Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé de um cadaver, a vontade da Providencia que os reunia emfim depois de tantos azares. Esta conclusão, que nem por isso depunha muito a favor da sua logica, pois que o encontro mais naturalmente provinha da occupação de Manoel, recebeu sobejo apoio na mutua affeição, que nunca se sumira de todo e que renascia agora mais valente e duradoira.

Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de lagrimas rematou-lhe a peroração talvez artificial, mas de grande effeito para o seu auditorio. Manoel enterneceu-se, acreditou-a, e chorou tambem. E, regada com as lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr do hymeneu.

Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram mesmo nenhum, mas o Miguelsinho, a quem o padrasto estimava como a si proprio, foi cimento mais que bastante para aquelle templo modesto de felicidade conjugal.

Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia Martha á janella chamando-o e lançando uns punhados de milho a um rancho de gallinhas, que andavam pela estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas ovelhas, que recolhiam do pasto.

—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e com uns ares tão sentenciosos e profundos como se fizera uma grande descoberta.

—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio para me indicar uma cruz abraçada por uma corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que me perdoou o meu crime.

—Ainda pensa em semelhante coisa?

—Se penso, quiz matal-o!

Uma hora depois voltava para Lisboa, se não contricto ao menos pensativo. Aquelle espectaculo tinha-me valido por duzias de sermões.

É verdade que Manoel dizia o que sabia, por experiencia propria: e a maior parte dos nossos padres, não sabem o que dizem.