Os Contos do Tio Joaquim

Rodrigo Paganino · Capítulo 23 de 28

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Os Contos do Tio Joaquim

Capítulo II

—Chora, tio Joaquim?...

—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como envergonhado, eu tambem não reparava.

—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito!

—Muito! Mas não tem duvida.

—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas; porque me não dá parte das suas tristezas?

—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão proprias; deixe as alheias.

—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim?

—Bem sei que não é, mas...

—Seria a maior prova de amisade que me podesse dar. Ha tanto tempo que desejo saber a sua vida!

—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é assim?

—Não. Essas servem para passar o tempo, esta outra para o conhecer bem, e para o poder consolar.

—Pois seja para me conhecer, que para me consolar não, porque não póde. Hoje tambem, parece-me que rebentava, se não repetisse alto o que tem sido a minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz ecco bem fundo na cabeça e no coração, repercute mais e soffre dobrado. Se não tivesse vindo comsigo parece-me que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja saber a minha vida.

E o tio Joaquim deu começo á sua historia.

 

II

Meus paes viviam n’uma das provincias do norte, e se não eram ricos tinham com que passar menos mal. Meu irmão Filippe e eu eramos os dois unicos filhos, e o que havia chegava bem para nós. Filippe, porque era o mais velho, devia ser lavrador como meu pae; eu, por ser o segundo, estava destinado para frade.

Admira-se, porque já lá vão os frades; mas se vivesse no tempo dos conventos conheceria então, que de ordinario se destinava para ordens sacras o filho segundo em quasi todas as familias.

Accrescia mais que o mestre dos noviços do convento proximo, sr. João da Soledade, era muito de nossa casa, e depois de ter convencido minha mãe de que me fazia feliz mettendo-me a frade, lhe promettera tomar-me sob sua protecção.

Pela minha parte, posto que ninguem me consultasse o querer, parecia me tambem que viveria contente n’aquelle socego do convento. Via os frades gordos, satisfeitos, córados e risonhos sempre. Traziam-me presentes e davam-me dôces, faziam-me festas, e contavam-me historias, não me queria pois com outra gente.

Em vendo habito approximava-me logo, e minha boa mãe, que a mais não alcançava, lia n’esta inclinação pueril uma verdadeira e pronunciada vocação.

Assim fui creando-me n’estas idéas, até que chegou a idade de começar a aprender. Fr. João convenceu minha mãe, de que para o meu estudo muito melhor seria viver no convento do que em casa, pois que ao passo que ia seguindo as disciplinas com maior regularidade, ia costumando-me tambem á regra conventual.

Frei João era para meus paes apostolo e propheta ao mesmo tempo. O que dizia seguia-se com reflexão. Despedi-me, chorei muito e partimos.

Não tinha tamanho desafogo em casa, que extranhasse muito a vida nova que encetava. A companhia dos outros noviços, aquelles costumes extranhos para mim, aquella novidade de estudos, e mesmo o bom modo, com que Fr. João me tratou sempre, conseguiram que dentro em pouco me afizesse de todo ao recolhimento claustral.

Não tinha por fóra coisa alguma, que me attraisse, e a affeição de meus paes e irmão, unicas de que a porta do convento me separava, não eram de ordem tal, que me fizesse lamentar muito o haver-me apartado do mundo.

N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi contar o seguinte caso a um veterano, que tinha ido na legião lusitana com os francezes fazer a guerra da Russia.

Nas noites frias e claras do norte em que a luz de umas auroras particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece nos gelos, começava a cair neve, e os pobres soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos. Alguns cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros caiam, não tinham forças para se mecher e ficavam por uma vez.

Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo ia succedendo este mesmo facto.

Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, que cada vez se enregellava mais, e que dentro em pouco, tinha d’isso a certeza, estaria de todo gellado.

Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle approximar da morte, queria evital-a mas não tinha forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida com aquelle prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez.

A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com os gelos do norte. Entristece-nos, mas encanta-nos com a sua tristeza, sentimos que lhe devemos fugir, e conservamo-nos entretanto, parece-nos que nos esmorece a alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer, como a morte após um desmaio, como o adormecer da creança nos braços maternos.

Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me a morte, e sem transicção alguma, arrefeciam-me os ardores dos dezoito annos, com os frios d’aquellas sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros e conventos.

Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber em quê, porquanto o mundo, que eu via pelas grades do meu quarto, e o que eu phantasiava pela leitura dos livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo real, que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos de madrugada, que nos accodem quando não dormimos de todo e quando não estamos acordados ainda, se distinguem da vida commum e dos acasos de todos os dias.

Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos, indefinidos, indeterminaveis, e evocando phantasmas de mundos que eu não conhecia, mas que adivinhava. Dentro em pouco de tal fórma me costumei á reflexão e ao apartamento, que fugia de todos nas horas que tinha livres, para ir sentar-me sósinho a sonhar e a scismar.

Apontavam-me no convento como modelo de bom porte, e diziam os frades aos meus companheiros que o amor do estudo e da reflexão me traziam assim embevecido.

Não lhe sei dizer, o que me preoccupava, mas não era de certo o amor do estudo, nem o desenvolver da vocação monastica, como a vaidade dos frades lhes fazia suppôr. Tão entranhado estava em mim o amor da solidão, que nas raras vezes, em que ia visitar os meus, pouco me demorava em casa. Debalde a sollicitude materna me procurava deter; em vão, meu pae mesmo, posto que pouco dado a ternuras, me dizia que era conveniente de quando em quando descançar algum tempo; trabalho perdido era o de meu irmão em convidar-me para os divertimentos dos outros rapazes; mal saia do meu convento, desejava logo recolher, e estava fóra da minha cella, como o peixe fóra d’agua. Porque dir-lhe-hei de passagem, a estima de Fr. João fizera com que eu residisse n’um quarto junto do seu, e não no dormitorio commum com os outros educandos e noviços.

Oxalá tivesse eu ficado por uma vez n’aquella sepultura!

Se não fossem as visitas a minha casa, talvez não tivesse experimentado na minha vida o que era amor; mas tambem não teria comprado á custa de tormentos indisiveis essas raras e amarguradas horas de sentir apaixonado.