Os Demônios Descem do Norte
Empresa Religiosa
A seita Moon, com cerca de três milhões de crentes em 140 países, concilia com invejável inteligência a implementação da Teologia da Unificação com a gestão paralela de uma empresa de porte incomum. Analistas econômicos atribuem-lhe a condição de uma das 50 maiores multinacionais e calculam que o seu patrimônio de cinco bilhões de dólares e um ativo quase do mesmo nível possa estar gerando uma renda anual aproximada a 500 milhões de dólares. O mérito por essa situação é, sem dúvida, do extraordinário talento mercantil do reverendo Moon, que administra suas empresas com admirável eficiência técnica, ora através de elementos de confiança, ora através de fundações, como a “Unification Church International", sediada nos Estados Unidos. Moon começou nos negócios em 1959, com a compra da fábrica de fuzis "Yehowa Shotgun", financiado por amigos japoneses, e cresceu rápido, graças ao baixo custo da mão-de-obra, na maioria de seus seguidores. Logo, entrou no ramo exportação de armas e de automóveis de fabricação coreana para o Japão. Ao mesmo tempo, passou a controlar toda a produção e comercialização de ginseng do Oriente e a industrialização de ervas farmacêuticas da Coréia. Ganhou rios de dinheiro. Nos Estados Unidos, Moon caracteriza suas atividades pela enorme diversificação de negócios, com presença nos mais diversos setores e participação acionária em grandes complexos industriais americanos. Os jornais "Washington Times" e "World Daily Press", mais o matutino "Notícias do Mundo", editado em espanhol, lideram uma cadeia de 19 outros veículos de comunicação da engrenagem moonista na América, Ásia e África, alguns operando em vermelho, como é o caso do "Washington Times", que acumula prejuízos de 150 milhões de dólares, mas continua a circular regularmente, amparado financeiramente pela seita. A produtora de filmes do grupo, a "One Way Productions", já fez vários longas-metragens para o mercado cinematográfico americano. O sucesso da seita Moon na América não foi sempre tranqüilo. Em 1984, embora já reconhecida há muito tempo como organização religiosa pela Corte Suprema dos Estados Unidos, intensificaram-se as pressões de setores protestantes fundamentalistas contra a Igreja da Unificação, urdindo-se, então, contra o seu chefe, uma trama em que tomaram parte ativa elementos ocupantes de posições de relevo no Ministério da Justiça, Departamento de Imigração e FBI. Moon foi processado por sonegação fiscal de 7 mil e 300 dólares, provenientes de operação financeira para o custeio, em 1972, de uma cruzada por 40 estados americanos, denominada "Day of Hope", inteiramente financiada pela igreja do Japão com doação de 1,7 milhão de dólares, os quais teriam rendido 25 mil dólares enquanto depositados no Chase Manhattan Bank. Naturalmente, uma importância irrisória para um grupo religioso que recolhia milhões de dólares anualmente aos cofres do Tesouro americano. Mas nada disso foi considerado, uma vez que o que se pretendia, realmente, era agarrar Moon, a fim de solucionar um problema de opinião pública, e o objetivo foi alcançado. O reverendo foi condenado a 18 meses de reclusão, sentença que cumpriu quase integralmente na prisão federal de Danbury, em Connecticut. Todavia, a cadeia só aumentou-lhe o prestígio. Fora dos Estados Unidos, no Uruguai, por exemplo, a seita Moon é proprietária do Banco de Crédito, do Hotel Victoria Plaza e do diário "Últimas Notícias", de Montevidéu. Aliás, era plano do mestre coreano, até bem pouco tempo, converter aquele país sul-americano na "primeira república unificacionista". A seita faz, também, investimentos no Brasil, onde possui uma empresa pesqueira, com 78 barcos, em Belém do Pará, exportadora de camarões e lagostas em larga escala. É dona, ainda, de uma construtora, gráficas, fábricas de confecção, lojas de importação, agência de viagem e 14 padarias na cidade de São Paulo, além de vários outros pequenos empreendimentos. Talvez prevendo os obstáculos que enfrentaria no futuro, a Igreja da Unificação aqui chegou muito cautelosa. A visita do reverendo Moon ao Brasil, em 1965, não significou, absolutamente, o início de atividade muito ostensiva. O missionário japonês Tatsuhiro Sassaki, deixado no Rio de Janeiro pelo mestre coreano, tinha como atribuição apenas o reconhecimento do terreno e a doutrinação em circuito fechado. Quem deu mesmo grande impulso à seita no País foi o reverendo coreano Hyung Tae Kim, que inaugurou, de 1975 até o quebra-quebra de agosto de 1981, vários templos no Estado de São Paulo e um em Passos, Minas Gerais. Sua gestão foi repleta de novas iniciativas, como a tradução para o português do livro "O Princípio Divino", de autoria do reverendo Moon, fundação das revistas "Mundo Unificado" e "Família Mundial", realização de diversos seminários internacionais, preparação de missionários para o proselitismo nas cidades do interior, incremento ao programa de viagem de noivos para serem casados pelo reverendo Moon nos Estados Unidos, excursões culturais de líderes comunitários à Coréia e aquisição da chácara para a instalação do antigo seminário central em São Bernardo do Campo. Depois do quebra-quebra de 1981, a Igreja da Unificação arrefeceu bastante seu ímpeto expansionista no Brasil, mas retomou-o aos poucos, já contando com 165 missões em diversas cidades, 3.500 militantes (missionários e assemelhados) em tempo integral e. segundo estimam, mais de 50 mil adeptos. Comprou, por 18 milhões de cruzados, em 1986, um enorme prédio de seis pavimentos na rua Cardeal Arcoverde, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, transformando-o em templo e sede administrativa central. Para o moderno edifício adquirido à rua Pires da Mota, na Aclimação, também na Capital paulista, fez a mudança da Faculdade de Teologia. O curso é de três anos, sendo os dois primeiros teóricos e o último de prática missionária, com pós-graduação em Barrytown, nos Estados Unidos. Estavam matriculados 132 alunos em 1986. A seita Moon mantém um organismo especial para cuidar dos problemas da juventude, chamado Colegiado Acadêmico para a Reflexão de Princípios (CARP), que atua a nível internacional, promovendo conferências e debates universitários, competições esportivas, certames culturais e, sobretudo, intensa doutrinação anticomunista. O CARP faz o intercâmbio entre jovens dos diversos países filiados à entidade, edita a revista política "CARP Magazine" e financia a impressão do jornal "Tribuna Universitária", do qual um dos articulistas permanentes é o senador Jarbas Passarinho.
O PAVOR COMUNISTA
A Igreja da Unificação é um império econômico a serviço da causa anticomunista. “Causa", aliás, é, originalmente, a sigla de uma instituição de nome extenso - Confederação de Associações para a Unidade das Sociedades Americanas, antiga Federação Internacional para a Vitória Sobre o Comunismo -, fundada pelo reverendo Moon. A CAUSA-Internacional, braço político da seita, estruturada em 1980, tem sede na Quinta Avenida, em Nova Iorque, e sucursais em 50 estados americanos. No âmbito internacional, está instalada em 21 países. A história da CAUSA é inseparável da vida e da experiência vivida pelo reverendo Moon, cujo passado e tradição no combate ao marxismo valeu-Ihe até um título que ostenta com muito orgulho: "O Campeão do Anti-Sovietismo", segundo o jornal russo “Izvestia", de 28 de janeiro de 1984. Ele preconiza na sua cosmovisão centrada em Deus, o " Deusismo" moonista, a única solução capaz de derrotar o comunismo. De um lado, a doutrina faz a exegese da ideologia marxista, apontando-lhe as mentiras e fraudes que conteria. De outro, apresenta uma contraproposta moderna de desenvolvimento intelectual e espiritual de transformação do indivíduo. baseada na concepção que a seita faz de Deus. O "deusismo", todavia, é uma faca de dois gumes. Se um corta o mal do comunismo, o outro se volta contra a corrupção do Ocidente, restaurando a filosofia cristã dessa parte do mundo. Entra aí um tempero de anti-semitismo, pois o moonismo culpa os judeus pela selvageria dos excessos do capitalismo. O presidente da CAUSA-Internacional é o mesmo coronel Bo Hi Pak, amigo fraterno de Moon desde os tempos em que participou do golpe militar na Coréia e promoveu sua transferência para os Estados Unidos. Bo Hi Pak não faz rodeios ao definir os objetivos da organização no seu manual de operações: "A CAUSA é um movimento educacional trabalhando em escala mundial. Fortemente opomo-nos ao comunismo, ainda que não nos consideremos meramente anticomunistas, simplesmente porque anticomunismo não é suficiente. "Anti" é uma expressão defensiva e passiva. Em qualquer batalha ou guerra, vocês nunca chegarão à vitória apenas na defensiva. Estamos praticando o anticomunismo há 67 anos, desde a revolução bolchevista e estamos continuamente perdendo terreno. Enquanto formos anticomunistas, o melhor que podemos fazer será adiar a derrota. Nunca teremos uma oportunidade para vencer. O que necessitamos é uma solução positiva para o comunismo ou uma estratégia vencedora. O que necessitamos é uma ofensiva ideológica. Nossa guerra contra o comunismo é primeiramente uma guerra de idéias. uma guerra de compromisso. O campo de batalha é a mente humana." A CAUSA-Internacional é extremamente eficiente na ação proselitista. Capitaliza tudo na luta contra o marxismo. Apesar dos poucos anos de existência. já realizou dezenas de seminários regionais e três maiores, de porte internacional. Destes, um para representantes do México e América Central; outro. para as Antilhas e nações do norte da América do Sul; o terceiro, em Montevidéu, para o bloco do Cone Sul. inclusive o Brasil. Nosso País se fez presente através do comparecimento de vários militares vinculados à Escola Superior de Guerra durante o período da ditadura e que, agora, encontraram na CAUSA o espaço ideal para exercitar sua geopolítica anticomunista. Outra preocupação da organização é com a chamada Conferência Mundial de Meios de Comunicação, série de simpósios destinados a conscientizar a imprensa para o perigo marxista e que, recentemente, levou cerca de 700 jornalistas, dos quais 34 brasileiros, para "conhecer o mal que os comunistas fizeram à Coréia e para treiná-Ios na resistência à ideologia fundamentada em princípios ateus e na defesa da democracia".
Considerando que o Brasil é um dos principais alvos da escalada do comunismo internacional pela sua posição estratégica no Atlântico Sul, a filial brasileira da CAUSA desenvolveu um planejamento especial para reverter aquela perspectiva. Acreditam seus dirigentes que o nosso povo, sendo apolitizado e de cultura muito diversificada, toma-se presa fácil da ideologização marxista e não tem condições de resistir sem o respaldo de quem tenha a experiência adquirida em um trabalho ordenado de anticomunismo, como a CAUSA. Foi por isso que, em caráter de emergência, financiou 40 candidatos à Assembléia Nacional Constituinte no pleito de 1986, esperançosa de que os eleitos pudessem, de alguma forma, contribuir para que a Carta Magna não fosse redigida ao sabor dos interesses da esquerda, a exemplo da situação narrada no livro" O Assalto ao Parlamento", do tcheco Jan Kozak, distribuído fartamente pela organização durante a campanha eleitoral.
Também a curto prazo, a CAUSA-Brasil articula um esquema de reunião de cerca de quatro mil professores universitários anticomunistas em tomo da Associação Internacional Cultural e cuida da preparação de líderes estudantis para concorrerem às eleições na UNE e UEE de todos os Estados. Por outro lado, até que executasse o projeto de lançamento do jornal "Folha do Brasil" , periódico de 50 mil exemplares de tiragem, inseriu semanalmente como matéria-paga, em “O Estado de S. Paulo", um informativo publicitário intitulado "Nicarágua" , com o objetivo de combater os sandinistas que tomaram o poder naquele país da América Central. Faz, ainda, com o engajamento de igrejas pentecostais, uma campanha sistemática de panfletagem anticomunista na periferia das grandes cidades, para contrabalançar a influências das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica naquelas áreas. Periodicamente, o coronel Bo Hi Pak, assessorado pelo argentino Antonio Rodrigues Carmona, percorre a América Latina a serviço da CAUSA. São freqüentes seus contatos com os presidentes Pinochet, do Chile, e Stroessner, do Paraguai, bem como com os grupos militares que sustentaram as ditaduras governantes da Argentina, Uruguai e Bolívia. Em todos aqueles países, a CAUSA conta com grande número de filiados e opera livremente, enquanto a Igreja da Unificação abre novos templos e conquista mais fiéis para a seita do reverendo Moon.
É interessante notar que o discurso político da CAUSA guarda perfeita sintonia com o das correntes de extrema direita nos Estados Unidos. Os pontos de vista são tão coincidentes e se confundem tanto que, às vezes, se torna impossível distinguir quem é o responsável por conceitos como este: Nos últimos anos, temos visto a nação americana perdendo constantemente a fé em Deus e o desejo de proteger o mundo livre. O bom samaritano, os Estados Unidos da América, agora está se tornando o levita que viu o homem ferido, citado na Bíblia. A Bíblia diz que 'o levita seguiu para o outro lado', porém, ironicamente, hoje os Estados Unidos não pode passar para o outro lado, ignorando os vizinhos sofredores para se livrar dos ladrões. Os ladrões estão em volta dos Estados Unidos. O mundo livre tem um único destino. Para que os Estados Unidos sobreviva, o mundo livre tem que sobreviver. Se o mundo cair, os Estados Unidos cairá. Se os Estados Unidos cair, naturalmente o mundo cairá. Unidos, venceremos; divididos, cairemos. Para preservar o mundo livre, os Estados Unidos deve ser como o bom samaritano. Já é tempo de renovar o espírito dos grandes patriotas americanos e o espírito de fundação da nação. (Coronel Bo Hi Pak, em "Notas de Abertura", CAUSA-Manual de Conferência, janeiro de 1985).
V
GEOPOLÍTICA DA FÉ
“A posição geográfica e o tamanho da cidade facilitaram muito a escolha. Nem muito grande, nem pequena, e bem no centro do País. O ideal para trabalhar em paz." Assim Darci Dusilek, 43 anos, simpático pastor batista nascido no Paraná, justificou a localização da sede da sociedade transconfessional dos Estados Unidos, da qual é diretor-executivo no Brasil.
O prédio fica no coração da Savassi, zona nobre do comércio de Belo Horizonte, São 5 pavimentos de escritórios, num edifício moderno e funcional. Locação exclusiva, nada de vizinhos ou condôminos.
A "World Vision International", como outras transconfessionais americanas que fincaram raízes no Brasil durante os governos militares, atua no País desde 1961. A princípio, participava de projetos conveniados com outras denominações e entidades evangélicas no amparo a crianças abrigadas em centros infantis, fornecia suprimentos de socorro e apoio financeiro para a impressão de Bíblias e realização de cursos bíblicos. Depois, patrocinou diversos retiros espirituais e três conferências de pastores, duas em Porto Alegre e uma em Valinhos, no Estado de São Paulo, numa ação descontinuada, esparsa, sem programa de trabalho metodizado, que só veio a estruturar-se em agosto de 1975, quando a "Visão Mundial" foi instalada na Capital mineira.
A “World Vison International" tem escritório central em Monrovia, Califórnia, e cerca de 3.500 funcionários ativos em 87 países, subsidiando aproximadamente 3 mil projetos de assistência a quase meio milhão de crianças, mas que envolvem e beneficiam a seus familiares, perto de 4 milhões de pessoas, a nível internacional. Seu fundador e animador entusiasta foi Bob Pierce, pastor batista e orador brilhante, morto em 1978, que arrebatou com suas palavras e converteu à Bíblia milhares de chineses. A organização, formalizada em 1950, tinha como objetivo inicial o amparo aos órfãos, crianças e vítimas do conflito da Coréia. Com o passar do tempo, contudo, transformou-se numa entidade assistencial de caráter mais amplo.
A história da "World Vision" registra páginas de grande arrojo, como o socorro às vítimas da guerra no Camboja e no Laos, em 1970; missões de salvamento e distribuição de provisões às populações atingidas pelo terremoto que sacudiu Manágua, na Nicarágua, em 1973; e a operation seasweep, ou operação varremar, em que as equipes de transconfessional vasculharam durante dias o mar do sul da China à busca de refugiados do conflito do Vietnam, os quais, fugindo em precárias embarcações, não teriam sobrevivido sem essa ajuda, em 1978. As mesmas páginas inscrevem também atos de grande ousadia política, como a realização de um congresso com 117 pastores na Polônia e a construção de 4 mil casas para desabrigados da guerra em Phnon Penh, no Camboja, sob ameaças constantes dos comunistas, que acabaram por fechar os escritórios da organização no país, em 1975. É objetivo da "World Vision" o atendimento das necessidades totais do ser humano, o que inclui o oferecimento a todos de uma oportunidade válida de aceitação de Jesus Cristo como salvador e senhor. Para tanto, age junto a pessoas e comunidades carentes, buscando contribuir para o desenvolvimento de todo o seu potencial, a fim de que consigam um controle cada vez maior sobre o ambiente e o destino, atuem sobre as causas e conseqüências da pobreza, alcancem certa autonomia econômica e integrem seus esforços para o crescimento mútuo, tendo como fundamento o amor e o serviço cristão. Sua filosofia considera prioritário servir aos mais carentes dentre os carentes, vítimas de desastres naturais e crianças, estas porque são as que mais sofrem por causa da pobreza e suas trágicas conseqüências. Entendendo, ainda, que apoiar a família sem envolver a comunidade é o mesmo que tentar ajudar a uma criança sem incluir seus pais no processo, a “World Vision" considera vital cuidar de todo o ambiente, trabalhar as causas no seu conjunto e promover o desenvolvimento comunitário integral e harmônico.
Assim, o ideal pregado pela "World Vision" é que todos os projetos tratem das necessidades do ser humano no seu conjunto e não apenas em alguns aspectos. Isso abrange as necessidades espirituais e é a razão pela qual as igrejas conveniadas são estimuladas a atuar nos projetos de forma a alcançar as pessoas visadas com toda a força e amplitude da sabedoria bíblica. A "World Vision" celebra convênios de cooperação para desenvolvimento de projetos com todas as denominações religiosas, exceto a Igreja Católica. A preferência é pelos batistas, seguidos pelos presbiterianos. No Nordeste do Brasil, são freqüentes, ultimamente, trabalhos com os pentecostais. A rede brasileira da "Visão Mundial" , como é conhecida entre nós, compreende, além da sede de Belo Horizonte, a sub-sede do Recife e mais 13 escritórios regionais de área, cobrindo Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Goiás e Mato Grosso do Sul. "Nosso dinheiro vem dos Estados Unidos e entra no País através do Banco Central, sem nenhum tipo de restrição. São doações que recebemos de corporações empresariais e pessoas de boa-vontade que conhecem e aplaudem nosso trabalho" explicou o pastor Darci Dusilek.
Até agora, esses recursos constituíram a única fonte de subsistência da transconfessional. Mas o entendimento de que o Brasil, sendo a oitava economia mundial, deveria bancar a cobertura dos projetos, levou a “Visão Mundial", a partir de outubro de 1986, a articular um esquema para angariar contribuições de pessoas físicas e jurídicas no País. Já estavam cadastrados, àquela época, cerca de 150 doadores mensais e uma campanha sistemática ampliaria a captação. Pela primeira vez, portanto, os brasileiros estariam assumindo progressivamente o financiamento dos projetos assistenciais de uma transconfessional, entretanto sob orientação e monitoramento da mesma, também responsável pelo controle do caixa.
A “Visão Mundial" não recebe qualquer ajuda financeira do governo brasileiro, embora possa obtê-Ia, uma vez que o seu reconhecimento como entidade de utilidade pública a credencia a beneficiar-se de subvenção. Dispôs, todavia, de apoio logístico, em 1986, quando recebeu leite para fornecimento a carentes, da Secretaria Especial de Assuntos Comunitários da Presidência da República, em 16 projetos, e assistência técnica ministrada pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER-MG), em alguns programas destinados ao campo.
EXPLORANDO A MISÉRIA
Até 1986, a “Visão Mundial" implementava no Brasil cerca de 420 projetos, a maioria voltados para as crianças, as quais, além de assistência médica e nutricional, participavam de atividades que Ihes possibilitavam um desenvolvimento psicomotor adequado. Aos pais, geralmente eram oferecidos cursos profissionalizantes, clubes de recreação e reuniões para noções básicas de saúde, higiene, nutrição e liderança comunitária. Mantinha convênios para sustentar orfanatos, casas-lares e creches, responsáveis por 35 mil crianças. Uma equipe técnica permanente dava consultoria e supervisão a todas as realizações da transconfessional. Os projetos comunitários da "Visão Mundial", todavia, são de natureza variada e estão subordinados às necessidades e condições locais. Dessa forma, tanto podem visar à integração social e econômica de uma comunidade isolada, como o povoado negro de Buriti Queimado, no norte de Minas, quanto prestar ajuda a um grupo de pescadores, como o de Piaçubuçu, em Alagoas, na estruturação econômica da atividade que representa a sua subsistência. Essa diversidade de planejamento vai até a execução de um projeto integrado de ação social, como o concebido para a população da favela do Matadouro, entre Nilópolis e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, aglomerado que vivia em condições sub-humanas.
Mas, foi familiarizando-se com a problemática brasileira que, a partir de 1980, a “Visão Mundial" concentrou sua atenção no Nordeste, reconhecido como o maior boi são de pobreza do Ocidente, onde 54 por cento da população economicamente ativa ganham até um salário mínimo e 11,3 por cento não percebem qualquer rendimento, enquanto 93 por cento dos trabalhadores da zona rural e 59 por cento da zona urbana não têm vínculo empregatício no mercado formal de trabalho. Outros dados chocantes são o consumo de leite das populações, 4 vezes menor do que o mínimo recomendado pela Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO), e a apresentação de sintomas de desnutrição grave em 66 por cento da população infantil. De outra parte, 4 milhões de pessoas são portadoras de esquistossomose e 3 milhões de doença de Chagas, com 17 mil casos anuais de tuberculose e as moléstias diarréicas elevando a 35,9 por cento a taxa de mortalidade infantil.
Pois bem. Naquele quadro de miséria e carência, a "Visão Mundial" jogou tudo, procurando dar provas de sua eficiência. Aumentou e aperfeiçoou, então, consideravelmente, o número de projetos para a região, alguns com requintes de sofisticação. É o caso da comunidade chamada Vietnam, uma das áreas faveladas mais pobres e desumanas do Recife, o maior centro urbano do Nordeste. Ali, a transconfessional desenvolveu um modelar trabalho de recuperação social integrada. Ao todo, são cerca de 2 mil pessoas que participam do projeto, beneficiadas com cursos profissionalizantes, cursos de alfabetização, cuidados médicos, esforços cooperativos e orientação religiosa. As crianças usufruem de assistência psicopedagógica e a comunidade ganhou uma infra-estrutura de serviços essenciais.
A "World Vison International" procura ser uma sociedade religiosa bastante descontraída, de forma a obter a simpatia popular e, especialmente, o apoio da juventude. Foi com essa política que formou, em 1967, o "Continental", coral de 40 vozes que, acompanhado de orquestra, já apresentou a série "Concertos da Esperança" em mais de 50 países de 5 continentes, inclusive o Brasil, tendo gravado 23 discos e participado de dois documentários de cinema. O conjunto, selecionado rigorosamente, além do talento dos componentes, agrega o compromisso de colocar suas aptidões a serviço dos princípios da organização, em benefício dos carentes. Em 1985, visitando todos os estados americanos, conseguiu espetaculares resultados na campanha de levantamento de fundos para aplicação nos projetos assistenciais. O esporte é outro meio utilizado pela transconfessional para atrair e facilitar seus contatos com os jovens, motivando-os a colaborar com seus planos. São os “Atletas de Cristo", que disputam várias modalidades de competições com o intuito de divulgar as mensagens da Bíblia. No Brasil, tem sido muito difundido esse programa, com boa receptividade entre a mocidade. Como todas as transconfessionais procedentes dos Estados Unidos, a "Visão Mundial" faz clara pregação anticomunista e procura evitar qualquer relacionamento com grupos que professam ideologias de esquerda. Nesse proselitismo e atitude de resguardo. tenta incutir, talvez até inadvertidamente, estereótipos culturais americanos implícitos no ideário do comportamento fundamentalista em voga nos Estados Unidos. Certos mecanismos de aculturação são mesmo admitidos tranqüilamente pelo setor de relações eclesiásticas. um dos mais atuantes da engrenagem de funcionamento daquela sociedade religiosa. Embora as evidências demonstrem o contrário, a "Visão Mundial" nega energicamente qualquer promiscuidade com os serviços de informação dos Estados Unidos, particularmente a CIA, e que agregue intenções políticas estranhas às suas finalidades. Todavia, não consegue, por exemplo, dar uma explicação aceitável aos brasileiros que estranham por que uma transconfessional americana não dirige seus programas assistenciais ao próprio Estados Unidos, sabido que lá existem 20 milhões de analfabetos e igual número de pessoas em situação de pobreza absoluta, antes de voltar sua atenção para a miséria de outros países do mundo, como o Brasil. Não seria mais patriótico e, no mínimo, mais prático - indagam - socorrer primeiros aqueles americanos? Postas de lado essas ilações. não deixa, contudo, de provocar espanto o fato de o governo brasileiro não exercer nenhum tipo de fiscalização sobre as atividades não só da “Visão Mundial", mas de todas as transconfessionais que operam livremente no País. A circunstância de as mesmas encaminharem anualmente um relatório ao Ministério da Justiça não significa nada, não satisfaz a ninguém. Representa, simplesmente, o cumprimento de uma formalidade legal, porque, na realidade, o governo não averigua as informações recebidas, não sabe se são verdadeiras ou não. Em resumo, nenhum órgão do governo conhece com precisão o que faz e o que não faz uma transconfessional, principalmente como o faz e quem seria o beneficiário real do que é feito. As próprias transconfessionais estranham essa omissão das autoridades brasileiras.
MISCELÂNEA DE CREDOS
Se considerarmos o elevado número de missões religiosas estrangeiras existentes no País, somos induzidos a supor que o Brasil constitui um imenso continente pagão à espera de evangelização e não uma nação majoritariamente católica. Com efeito, até dezembro de 1986, aquelas missões, ligadas ou não às diversas igrejas, chegavam a 127, na maioria procedentes dos Estados Unidos. Essa presença ganhou uma expressão de tal ordem que, em 1964, viram-se compelidas a estruturar o "Missionary Information Bureau" (Missão Informadora do Brasil) para prestar assistência permanente aos missionários, transformado depois num amplo organismo de apoio logístico aos mesmos, que são, atualmente, cerca de 2.500, dos quais 92 por cento americanos. Funciona no centro de São Paulo, à rua 24 de Maio.
O "Missionary Information Bureau" (MIB) é mantido por entidades religiosas dos Estados Unidos e, embora não controle doutrinariamente os missionários ou Ihes forneça recursos para obras, promove regularmente conferências e seminários para sua recicIagem e atualização quanto a problemas brasileiros. Edita uma revista em inglês e caracteriza sua atuação por cuidadosa discrição, não sendo nada amistoso o seu relacionamento com as pessoas que procuram conhecer sua intimidade. Os funcionários do MIB são afetadamente polidos, mas sempre evasivos. As transconfessionais, as faith missions (missões de fé), que agem com a maior liberdade no Brasil, sustentadas por farto dinheiro procedente de corporações empresariais e multinacionais dos Estados Unidos, alegadamente empenhadas em conter o esquerdismo na América Latina, são organizações, como já foi dito, dirigidas por instituições fundamentalistas, sem vinculação com qualquer igreja. Todas elas, a par do trabalho de evangelização, executam agressivos projetos de natureza cultural e social identificados com a ideologia conservadora do establishment americano. Diversas fundações e entidades civis diretamente comprometidas com o ideário político da ultra-direita daquele país também destinam polpudas subvenções ao desenvolvimento de tais programas entre nós.
Só em São Paulo existe um prédio, o mesmo que abriga o "Missionary Information Bureau" na rua 24 de Maio, quase inteiramente ocupado por sedes de organizações americanas que se dedicam a essa ampla ofensiva político-missionária. No Brasil, estão estabelecidos 59 grupos, transconfessionais dos Estados Unidos, com os nomes pelos quais são conhecidos dos brasileiros e as denominações originais, a saber: Missão Evangélica Amazônica (Acre Goldspell Mission), Missão Bereana do Brasil (Berean Mission, Inc.), Missão Evangélica Betânia (Bethany FelIowship Missions), Missão Betesda do Sul do Brasil (Bethesda Mission, Inc.), Memorizadores da Bíblia, Internacional (Bible Memory Association, International), Missão Brasileira de Evangelização (Brazil Christian Evangelism), Missão Cristã do Brasil (Brazil Christian Mission), Sociedade Evangelizadora Bíblica (Brazil Gospel Fellowship Mission), Serviço de Filmes Evangélicos Brasileiros (Brazil Gospel Film Service), Missão Evangélica do Brasil (Brazil Gospel Mission, Inc.), Missão Interior do Brasil (Brazil Inland Mission, Inc.), Comunicações Evangélicas (Brazil Evangelistic Association), Missão Brasil Central (Central Brazil Mission/Christian Church Mission), Aliança Pró-Evangelização das Crianças (Child Evangelism Fellowship, Inc), Sociedade Evangélica Missionária Educacional Inter-americana (Christian Jail Workers of Brazil), Aliança Cristã Missionária (Christian Missionary Alliance), Centro de Literatura Cristã (Christian Literature Crusade), Comunidade Cristã Missionária do Brasil (Christian Missionary Fellowsbip), Instituição Distribuidora Evangélica (Christian Mission in Many Lands), Missão Evangélica Hosana do Brasil (Christian Service Centers, Inc.), Editora Mundo Cristão (Christian World Publisher), Cristão em Ação (Christian in Action), Missão Hebraica de Cleveland (Cleveland Hebrew Mission), Colaboradores do Brasil (Co-Laborers of Brazil), Associação Brasileira de Ensino, Cultura, Assistência e Religião de Mogi das Cruzes (Evangelical Enterprises, Inc.), União Evangélica Sul-americana (Evangelical Union of South America), Instituto Bíblico de Evangelização (Fellowship of Independent Missions), União Evangélica de Sul América (Gospel Missionary Union), Comunicações da Fé (Gospel Recordings, Inc.), O Evangelho ao Brasil - Missão da Fé (Gospel to Brazil Faith Mission), A Voz Bíblica Brasileira (Independent Gospel Mission), Aliança Bíblica Universitária do Brasil (International Fellowship of Evangelical Students), União Médico-Hospitalar Evangélica (lnternational Hospital Christian Fellowship), Jam Team Associação Brasileira de Evangelização (Jam Team Ministries, Inc.), Missão da América Latina (Latin America Mission), Sociedade Missionária Unida do Brasil (Missionary Church, Inc.), Ministério Evangelístico Missionário (Missionary Evangelistic Ministries), Asas de Socorro (Missions Aviation Fellowship), Missão Órfãos do Brasil (Missions and Orphans Ministries, Inc.), Associação Missão dos Marinheiros (Missions to Seamen-FIying Angel), Navegantes (Navigators), União Missionária Neo-Testamentária (New Testament Missionary Union), Missão Novas Tribos do Brasil, Leste e Oeste (New Tribes Mission East and West), Serviço de Evangelização para a América Latina (O.C. Ministries), Sociedade Missionária Oriental (OMS International, Inc.), Missão Portas Abertas (Open Doors), Academia Cristã Pan-Americana (Pan American Christian Academy), Liga do Testamento de Bolso (Pocket Testament League), Missão Sul-Americana para os Índios (South America Indian Mission, Inc.), Instituto Lingüístico de Verão (Summer Institute of Linguistics/Wycliffe Bible Translator), Missão Transmundial (Trans World Missions), Rádio Transmundial do Brasil (Trans World Radio), Missão Evangélica da Amazônia - MEVA (Unevangelized Fields Mission), Missões Mundial para Crianças (World Mission, Fellowship), Missão Pan-Americana (Worldteam, Inc.), Visão Mundial do Brasil (World Vision International), Missão de Evangelização Mundial (Worldwide Evangelization Crusade), Mocidade para Cristo (Youth for Christ) e Jovens com uma Missão (Youth with a Mission).
ABUSO DE CONFIANÇA
Todas as transconfessionais americanas estabelecidas no Brasil adotam praticamente a mesma estratégia da “Visão Mundial", aqui tomada como exemplo. Desse modo, simultaneamente à execução de um projeto assistencial ou cultural qualquer, pontificam uma linha de proselitismo em que o modelo de sociedade perseguido surge inevitavelmente da conjugação de princípios conservadores com os ideais espirituais buscados pela evangelização. Os Estados Unidos são, então, mostrados como figurino daquela harmonização de fatores num mundo socialmente equilibrado à luz da doutrina cristã. Nesse contexto, não é difícil encaixar o comunismo como elemento de desagregação.
As transconfessionais americanas procuram, prioritariamente, fazer com que seu trabalho produza resultados satisfatórios entre a classe pobre e carente. Das classes média e alta, embora não sejam diretamente visadas, esperam que a boa repercussão de sua obra crie a atmosfera necessária à geração de imagem positiva, imprescindível à continuidade de sua presença no País. Por isso, cercam a sua ação de rigorosa discrição, evitando qualquer tipo de divulgação. Preferem capitalizar os efeitos multiplicadores de um bom conceito transmitido pela propaganda oral de terceiros, de preferência indivíduos de prestígio na comunidade. O universo-alvo é a classe de baixa renda, próxima da pobreza absoluta e da marginalidade. Seus programas sociais são dirigidos exclusivamente a ela, o mesmo ocorrendo com os de natureza cultural. Já o esforço de evangelização, temperado com a doutrinação política conservadora e anticomunista, estende-se indistintamente a todos os estratos da população. Assim, as transconfessionais concentram sua ação nas zonas urbanas periféricas às grandes cidades. Poucas direcionam seu trabalho para regiões mais distantes e menos atingidas pela civilização, no caso, os redutos indígenas. Mas, quando isso acontece, fazem-no com extrema competência, com rara eficiência. Registra, a propósito, recente informe confidencial do Museu do Índio dirigido ao ministro do Interior: "Cerca de 25 agências religiosas protestantes dedicam-se, no Brasil, à conversão de índios, destacando-se a "Wycliffe Bible Translators", mais conhecida como "Summer Institute of Linguistics" e a "New Tribles Mission". A crítica mais freqüente à atuação da Missão Novas Tribos do Brasil, assim como de outras entidades religiosas protestantes, se faz com relação a possíveis vínculos com empresas multinacionais ou com departamentos de espionagem, envolvendo contrabando de pedras preciosas, minerais estratégicos e outros atos ilegais." E, mais adiante:
A prática da maior parte das missões religiosas protestantes visa a levar "a palavra de Deus aos povos ainda não alcançados" e representa, na verdade, uma estratégia para introjetar no pensamento indígena valores característicos do american way of life. O campo de observação constituído pela ação missionária demonstra que tais agências apresentam padrões de integração diversificados, porém marcados pela aplicação de mecanismos de dominação ideológica profundamente conturbadores da ordem tribal.
A "Wycliffe Bible Translators" e o "Summer Institute of Linguistics" aos quais se refere o documento oficial, já nossos conhecidos, são o mesmo "Instituto Lingüístico de Verano" ou “Instituto Lingüístico de Verão", organização religiosa fundamentalista que tem sede em Huntington Beach, Califórnia, e que se apresenta como divulgadora da Bíblia em línguas e dialetos exóticos em várias partes do mundo. A entidade, como se recorda, teve sérios' problemas com os governos do Peru, México, Panamá, Equador, Honduras, Bolívia, Colômbia e Venezuela, em alguns desses países acusada de adulterar os textos bíblicos com o objetivo de facilitar a dominação ideológica e econômica dos aborígenes, bem como de cooperar com as autoridades militares na repressão à guerrilha existente naquelas nações.
O "Summer Institute of Linguistics" ou "Instituto Lingüístico de Verão" acumula experiência na tradução da Bíblia para centenas de línguas e dialetos, em mais de 40 países do mundo, desde 1934. Conta com mais de cinco mil missionários profissionais e, no Brasil, a partir de 1956, é responsável pela elaboração de vasto material lingüístico resultante das pesquisas de campo realizadas entre dezenas de tribos indígenas.
O "Summer" tem poucos problemas com a locomoção de suas equipes, baseadas em Brasília, onde estão seus escritórios centrais, até as áreas mais remotas e de difícil penetração. A frota de aviões da "Jungle Aviation and Radio Service" (JAARS), de sua propriedade, dá extraordinária mobilidade a seus missionários, permitindo-Ihes cobrir com facilidade todos os territórios indígenas e, ainda, prestar serviços preciosos, não só à FUN AI, como a outros órgãos do governo brasileiro. Os trinta anos de trabalho ininterrupto com os índios brasileiros possibilitaram ao "Summer" conhecer a intimidade, não só a língua, como também os costumes, dos seguintes grupos: Apalaí, Apinayé, Apurinã, Asurini, Atroari, Bakairi, Bororo; Canela, Cinta-Larga, Deni, Guajajara, Guarani, Hixkaryana, Hupda, Jamamali, Juma, Kadiwéu, Kaingang, Kaiwá, Karajá, Karipuna, Karitiana, Kavabi, Kavapó, Mamaindé, Maxakali, Munduruku, Mura-pirahã, Nadeb, Palikur, Nambikuara, Oiampi, Parecis, Paumari, Rikbaktsa, Sateré, Sukuí, Tenharim, Terena, UrubuKaapor, Waurá, Xavante, Xokleng, Yahup, Yanomani.
A "Novas Tribos do Brasil" opera junto aos grupos Kuripako, Yanomani, Maniteneri, Palikur, Oiampi, Pakaanova, Mbyá, Pankararu, Canela-Apaniekra e Apinayé, enquanto a "Missão Evangélica da Amazônia" (MEVA) envolve-se com os indígenas Makiritari, Makuxi, Kaxuyana e Yanomani. A médio prazo, prevê-se o surgimento de delicados problemas diplomáticos com os Estados Unidos, se o governo brasileiro decidir avançar o controvertido projeto "Calha Norte", programa que visa ao reforço militar e econômico de nossas fronteiras com a Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa, uma faixa de 6.500 quilômetros de comprimento por 160 quilômetros de largura de subsolo rico em minerais preciosos e estratégicos. A presença de geólogos, biólogos, engenheiros, topógrafos e técnicos, de modo geral. de transconfessionais americanas evidencia, certamente, a existência de outros interesses além dos missionários naquelas áreas, algumas já adquiridas por multinacionais e, outras, sob expectativa do direito de posse definitiva em função da ocupação continuada.
UMA SIGLA INTOCÁVEL
A Assessoria de Ecumenismo e Diálogo Religioso da CNBB enviou, em 30 de novembro de 1984, ao Secretariado para a Unidade dos Cristãos, no Vaticano, um longo relatório sobre a existência e atividades das seitas no Brasil, analisando as causas e circunstâncias que facilitavam a sua proliferação. O documento de 21 laudas também abordava os fatores econômicos ligados ao fenômeno e afirmava, em certo trecho, que "grupos fortes, especialmente dos Estados Unidos, enviam somas fabulosas para atividades de grupos religiosos independentes". A denúncia continuava:
"Na fase atual, haveria o apoio a grupos fundamentalistas e violentamente anticomunistas, tanto evangélicos quanto orientais, para dificultar a ação da Igreja 'progressista'. Há indicações de que este plano não é só de governos nacionais da direita ou militar mas faz parte também da geopolítica norte-americana. Haveria infiltração da CIA em certos grupos, ou estes estariam a serviço da mesma. O problema é seriíssimo e exige pesquisas mais aprofundadas.”
O informe do órgão subordinado à CNBB passou tranqüilamente pelo crivo do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), àquela época reunido em Brasília, e não provocaria maiores discussões se a imprensa não o tivesse divulgado com grande alarde. Vieram, então, os desmentidos da Embaixada dos Estados Unidos, inocentando a CIA, e alguns irados pronunciamentos de prelados conservadores revoltados com a insinuação do envolvimento da agência de informações americana. O assunto rendeu dias, tudo porque o documento do órgão da CNBB cometera a inabilidade ou ingenuidade de incluir a CIA entre as suas suspeitas, sem respaldá-Ias com fatos concretos. Poderia ser uma agência qualquer, menos a CIA... No mais, nada foi contestado, principalmente o apoio financeiro procedente dos Estados Unidos a seitas e grupos transconfessionais que sustentam missões no País. De qualquer forma, o relatório valeu como um primeiro alerta, como grave advertência. As denúncias de que os Estados Unidos estimulam a ação das seitas no Brasil não mereceram reparos, assim como a canalização de vultosa quantidade de dinheiro de corporações empresariais, fundações e doações de particulares destinadas a manter atividades religiosas entre nós. Também ficaram de pé as conclusões de que os Estados Unidos se aproveitam ideologicamente da pregação daqueles grupos religiosos, notadamente contra o comunismo. Conquanto mais cauteloso, o pormenorizado comunicado conjunto sobre as seitas elaborado pelo Secretariado para a União dos Cristãos, Secretariado para os Não-Cristãos, Secretariado para os Não-Crentes e Pontifício Conselho para a Cultura, publicado a 29 de junho de 1986, no Vaticano, referiu-se objetivamente àquele ponto polêmico do documento da CNBB: "Em alguns países podemos suspeitar, e em alguns casos estamos certos, de que uma poderosa força ideológica, bem como interesses econômicos e políticos, estão a trabalhar através das seitas, servindo-se do aspecto humano para fins desumanos, totalmente alheios a um interesse sincero pela humanidade. É necessário informar os fiéis, em particular os jovens, de que estejam atentos, proporcionar-Ihes uma ajuda profissional, aconselhá-Ios e assegurar-Ihes uma proteção legal. Às vezes deveríamos reconhecer, e até mesmo encorajar, medidas radicais do Estado no setor que lhe compete." Era a primeira manifestação da Santa Sé sobre a matéria. Dias depois, fazendo coro com aquelas censuras, Dom Ovídio Perez Moralez, da Venezuela, presidente da Comissão para as Comunicações Sociais do CELAM, ocupando a Rádio Vaticano, criticava duramente "os governos de países industrializados que dão apoio logístico às seitas para comprar espaço na imprensa escrita, televisão e rádio", numa clara alusão à mídia religiosa financiada pelos Estados Unidos.
Há muito tempo, o governo americano já não promove qualquer tipo de ajuda direta às igrejas protestantes históricas que funcionam no exterior. Essa ausência da cobertura, mais sentida após a Segunda Guerra Mundial, deveu-se à constatação, pelo Departamento de Estado, de que o protestantismo tradicional pouca coisa representa no jogo da "guerra fria" com a União Soviética e no levantamento de barreiras ao avanço do comunismo. Se é apenas burguês e conservador em todas as partes do mundo, no Brasil tem se mostrado, no entanto, propenso a aceitar e até a participar da discussão dos problemas sociais que empolgam a Igreja Católica. Com os católicos, chegou mesmo a constituir o CONIC, um verdadeiro foro de debates de todas as questões sociais que inquietam o País.
Por isso mesmo é que o reverendo Sérgio Marcus Pinto Lopes, 49 anos, metodista, secretário-regional para o Brasil do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), entende que o direcionamento de recursos financeiros para a evangelização através de sociedades transconfessionais (faith missions) e não das igrejas tradicionais envolve uma questão de confiança. Explicou ele em declarações feitas em Santo Amaro, São Paulo, que é preciso diferenciar entre o propósito dos doadores e o propósito das sociedades. Muitas são as pessoas que dão dinheiro às agências ou sociedades porque estas são muito mais agressivas em suas campanhas para levantar fundos e que, nos Estados Unidos, com um excelente serviço de mala-direta, coletam esses recursos com a promessa de isenção do imposto de renda, o que lá, como aqui, é permitido por lei. Além do mais, essas sociedades fazem uma intensa propaganda de que o dinheiro levantado será usado realmente em evangelização, deixando a entender que as igrejas o desviam para outras finalidades.
Segundo o reverendo Sérgio Marcus Pinto Lopes, aquele tipo de pregação está muito mesclado de ideais da religião civil dos Estados Unidos (Deus- Pátria- Família) e com apelos muito fortes ao espírito do povo americano. Exortam, igualmente, o cidadão a intensificar a luta anticomunista, recurso que praticamente abre a bolsa do povo, e acusam as igrejas de estarem envolvidas com uma teologia que nada mais é do que marxismo disfarçado. Lembra o pastor, então, um artigo publicado há algum tempo na revista "Reader's Digest", sob o título "Você sabe para onde vão as ofertas de sua Igreja" , no qual se declara abertamente que as dádivas dos membros da Igreja são usadas para patrocinar grupos guerrilheiros, para apoiar até o ayatolah Khomeini. Esse tipo de propaganda é negativo e cria uma atmosfera de desconfiança dentro das igrejas muito difícil de superar. Assim, o propósito dos doadores de recursos para tais agências acaba sendo honesto, pois é gerado por seu engano.
As chamadas sociedades transconfessionais - prossegue Q reverendo - possuem um objetivo bem definido, perceptível claramente no tipo de Evangelho que pregam. Este é nitidamente pró-Estados Unidos, anticomunista, voltado para um individualismo evidente, que promove uma religiosidade desvinculada de preocupações com o momento político-social presente. O reino de Deus é visto como uma realidade meramente futura, a ser implantado de maneira milagrosa pela intervenção direta do Senhor na História. Portanto, nada há a fazer aqui, a não ser pregar o Evangelho que ajuda a outros a escaparem das tentações do mundo atual e a preparar-se para a vida do outro lado da morte. Para isso, dá-se ênfase à existência de piedade (oração e leitura da Bíblia), quase que em contraste com a ação no meio da sociedade. Esta estrutura-se segundo as ações do diabo e Deus o tem permitido por enquanto, até que se manifeste sua intervenção no próprio momento. Ao cristão, cabe defender-se das artimanhas malignas, inclusive a pregação da transformação das estruturas sociais, em busca de uma eqüitatividade de oportunidade para todos e uma distribuição mais justa das riquezas da sociedade. E arremata o pastor Sérgio Marcus Pinto Lopes: "É verdade que muitos organismos procuram atacar a questão social dos países do Terceiro Mundo, através da educação, do socorro às enfermidades, do amparo à infância. Isto significa, no entanto, trabalhar dentro das estruturas existentes, sem procurar mudá-Ias. O problema é uma questão de ignorância e de inexistência de ponto de partida para subir na vida. Mas a questão tem sido muito problemática para algumas dessas sociedades. À medida em que seus funcionários começam a entrar de rijo no trato com a questão, acabam descobrindo que isso não adianta, pois o sistema vai produzindo mais necessitados do que todos aqueles a quem os seus milhões de dólares podem socorrer. Isso tem criado muitas crises internas e muitos funcionários acabam saindo dessas instituições e grupos ou acabam sendo dispensados."