Os Demônios Descem do Norte

Delcio Monteiro de Lima · Capítulo 4 de 4

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Os Demônios Descem do Norte

O Aproveitamento Inteligente

 

Aspecto muito delicado no exame do novo perfil religioso que se traça para o Brasil com as fissuras verificadas no arcabouço católico tradicional é o da identificação do aproveitamento político das mesmas, ou melhor, estabelecer se as alterações registradas são resultantes de um esquema intencionalmente montado fora do País ou se existe apenas a simples manipulação de suas conseqüências objetivas. Recorda-se que, no início deste estudo, ficou consignado que seria ingênuo, para não dizer absurdo, raciocinar com a hipótese da existência de um plano ordenado com objetivos políticos para conseguir uma modificação imediata no quadro religioso brasileiro. Apoiamos nossa assertiva na lembrança de que uma trama desse tipo não se enquadraria na temporalidade das coisas e que as ideologias não parecem interessadas em coordenadas de sedimentação tão futura que requeiram séculos para apresentar resultados práticos. Mas que não se desprezavam as oportunidades oferecidas pelos rumos naturais que possam assumir os movimentos sociais ou religiosos, nem deixavam de aproveitar as brechas ocasionalmente abertas nas estruturas para infiltrar as mesmas ideologias.

Pois bem. A análise das implicações da ação dos grupos, religiosos autônomos ou seitas no País, vista de todos os ângulos, só serviu para robustecer o acerto daquele entendimento e fortalecer a convicção de que apenas uma visão facciosa da realidade modificaria nosso ponto de vista. Estamos, de fato, persuadidos de que essa é a posição correta.

 

O teólogo Julio de Santa Ana, 50 anos, diretor do curso de pós-graduação do Instituto Metodista Superior, de São Bernardo do Campo, e pesquisador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEP), de São Paulo, também pensa como nós. Para ele, as sociedades latino-americanas, e a brasileira em particular, experimentam, há mais de três décadas, um processo de rápidas mudanças sociais. Gradualmente, de maneira quase imperceptível, vai se produzindo uma ruptura social que se manifesta de formas muito diferentes. Embora haja aspectos da existência social que demonstram uma grande resistência a essas mudanças (por exemplo, a estrutura econômica, as instituições políticas, etc.), existem outros que demonstram serem permeáveis a esse processo de transformações sociais. Entre eles merece uma atenção especial o campo que se relaciona com o pensamento e a prática religiosa. As religiões não podem ser desligadas do que acontece em outras esferas da vida social. As transformações que as diversas expressões religiosas manifestam não têm lugar a partir de si mesmas, na maioria dos casos. No geral, as mudanças nas religiões respondem a processos sociais, econômicos e, inclusive, ideológico-políticos. Na América Latina, o crescimento demográfico e as migrações internas incidiram e continuam influindo sobre as expressões religiosas, sobretudo a nível popular. Assim, para quem vê as coisas de acordo com a perspectiva dos estudos de sociologia da religião, é indubitável que o crescimento das igrejas pentecostais é notável, o surgimento e desenvolvimento das comunidades eclesiais de base, assim como a irrupção crescente de comunidades religiosas livres ou seitas não podem ser separadas das transformações sociais que estão se produzindo na América Latina no correr dos últimos 25 ou 30 anos. Quer dizer, essas rupturas sociais correspondem a rupturas religiosas. Outros tipos de rupturas poderão ocorrer no futuro. Quase se pode afirmar com certeza que a consciência social dos grupos que experimentam com maior força os processos de alteração histórica não podem deixar de manifestar essa consciência no plano religioso.

Embora a orientação da ação social não seja a mesma entre os membros das igrejas pentecostais (geralmente conservadores, aliados ao poder que administra a situação) e os membros das comunidades eclesiais de base (no geral, caracterizados por atitudes progressistas), ambos os grupos têm algo fundamental em comum: a necessidade de afirmar, de uma ou de outra maneira, diante de situações inéditas que afetam fortemente sua identidade, seu equilíbrio, sua segurança. Isso também vale para aqueles que aderem às comunidades religiosas livres ou seitas. Esses três grupos acompanham as rupturas sociais com posturas religiosas que também rompem com as formas dominantes no campo religioso, tanto com o catolicismo tradicional como com as denominações protestantes clássicas. É verdade que cada um desses grupos tem definições muito diferentes das dos outros dois. Contudo, isso não é .0 mais importante. Deve-se dar atenção aos três conjuntos sociais ao se engajarem - cada um à sua própria maneira - na busca de uma nova situação. O teólogo Julio de Santa Ana toca no ponto nevrálgico da questão: Parece importante insistir no que foi afirmado, sobretudo quando se ouve dizer tantas vezes por aí que o crescimento dos pentecostais e a irrupção dos grupos religiosos livres que hoje se apresentam em toda a América Latina, como também na África e um pouco menos na Ásia, são resultado de um complô urdido fora de nossos países, mais precisamente nos Estados Unidos. Dessa nação vêm as grandes somas de dólares que se destinam aos grupos religiosos livres e também subsidiam os programas de TV e rádio de grupos pentecostais, fundamentalistas e conservadores, para não dizer reacionários. Pessoalmente, estimo que não existe o tal complô. Se esses grupos religiosos avançam é porque as condições imperantes na situação de mudanças sociais assim o permitem e até trabalham em seu favor. Quer dizer, o processo social pode ser comparado a um caldo de cultura que permite a vida e o desenvolvimento dessas comunidades, como também das comunidades eclesiais da base. Sem esse contexto, não haveria tal crescimento. Deve ser dito, também, que, embora não acreditemos na existência desse complô religioso, isso não quer dizer que desconheçamos as intenções - que são bem claras de manipulação desses grupos, especialmente por setores conservadores, tanto latino-americanos como de fora da Ibero-América. Entre esses, merecem ser citados o Instituto para a Religião e Democracia, os programas de TV de evangelistas, como Jimmy Swaggart, etc. Portanto, embora não haja complô, pelo menos há manipulação.

 

DESCASO E CONIVÊNCIA

 

A Igreja Católica lamenta que, após quase cinco séculos de evangelização da América Latina, esteja vivendo hoje sob as ameaças de uma pressão secularista conseqüente de mudanças culturais, por força, principalmente, dos fenômenos de urbanização, migrações e desenvolvimento dos meios de comunicação. Acha que aquelas transformações acentuaram-se bastante nas últimas décadas, criando um vazio que, não sendo preenchido por uma nova reinterpretação do catolicismo para os latino-americanos, foi progressivamente ocupado pelos movimentos religiosos autônomos ou seitas. Formas religiosas ou pára-religiosas que ofereciam respostas mais concretas à busca espiritual do homem foram substituindo gradativamente a fé tradicional cristã e se firmando como credo novo para o povo. É uma situação de fato que, quer queiramos ou não, constitui o grande desafio pastoral para a Igreja Católica. De outra parte, a Igreja tem procurado entender que a condenação pura e simples das seitas não é a melhor saída para o impasse. Reconhece, portanto, que o povo quer mudanças religiosas e que a postura mais correta é procurar compreender as razões de tal desejo e não radicalizar atitudes de intolerância contra elas.

Naquela linha de raciocínio, não existe espaço no pensamento da Igreja Católica para ao menos cogitar de medidas mais extremas para reverter a situação ou promover um recuo aos tempos em que o catolicismo era a religião oficial no Brasil. O mundo mudou, a Igreja Católica é outra, mais aberta e receptiva ao pluralismo, espelhado, por exemplo, na excelente convivência em todos os campos com as igrejas protestantes históricas. Conquanto essa posição seja válida até para as seitas, depreende-se uma certa dose de desapontamento nas palavras de advertência do Vaticano para o incontido avanço dos movimentos religiosos livres, expresso no comunicado conjunto emitido pelo Secretariado para a União dos Cristãos, Secretariado para os Não-Cristãos, Secretariado para os Não-Crentes e Pontifício Conselho para a Cultura: “Às vezes deveríamos reconhecer, e até mesmo encorajar, medidas radicais do Estado no setor que lhe compete". Esse desapontamento, contudo, não tem maiores conseqüências, pois a Igreja não faz qualquer tipo de gestão junto ao Estado para usar mão pesada contra as seitas, pelo menos no Brasil. De fato, tem havido uma excessiva liberdade, para não dizer omissão e conivência, no caso das transformações religiosas experimentadas no País. O que acontece aqui é "que simplesmente ninguém é responsável por nada. Nenhum órgão do governo toma qualquer iniciativa para preservar nossos padrões culturais, permanentemente agredidos pelas mais estranhas ideologias que por cá surgem sob a capa de religião. Desconhecem-se por completo o nível e a intensidade desse processo de aculturação, exacerbado ao extremo pela invasão sistemática de valores morais e éticos" contrários à nossa índole, que ingressam no País na esteira das novas seitas. E ninguém faz nada. Aquele perigo avulta-se à medida em que a evangelização converte-se em proselitismo. Se, em várias partes do mundo, inclusive o Brasil, os cristãos são encarados com reserva devido à sofreguidão com que se lançam ao trabalho evangelizador, muito mais ainda se justifica essa desconfiança quando se substitui aquela ação por uma doutrinação que procura corromper e agredir os valores tradicionais do universo-alvo. Hoje, muitos missionários e assemelhados agem exatamente como os antigos religiosos espanhóis e portugueses do século XVI, que queriam impor uma cultura alienígena aos povos conquistados, a qualquer preço. É preciso deixar bem claro que a conduta das igrejas protestantes, nesse particular, não merece qualquer reparo. Sabidamente conservadores, os protestantes tradicionais não costumam, porém, colocar a sua fé a serviço de ideologias ou de grupos radicais que fazem da religião um instrumento da política. No enfoque de questões sociais, as igrejas protestantes históricas sabem, igualmente, corresponder às expectativas nacionais em relação a essa problemática. Seus missionários, por outro lado, adotam um comportamento caracterizado por uma linha de absoluta correção, não se imiscuindo em assuntos de política interna e, muito menos, se envolvendo em atividades de aculturação. Grande parte dos missionários procedentes dos Estados Unidos pertencentes a grupos fundamentalistas ou a seitas cometem, todavia, o grave erro de equiparar o americanismo ao cristianismo, forçando a absorção do american way of life, virtualmente obrigando as pessoas a adotarem os padrões institucionais em voga na América do Norte. É comum, assim, a identificação fácil de um paralelismo entre a pregação daqueles missionários e o discurso político americano, especialmente o anticomunismo, caracterizados o Oeste - o Ocidente - como o bem e o Leste - a União Soviética e satélites - como o mal. Omite-se a divisão do mundo entre nações desenvolvidas e subdesenvolvidas, isto é, ignora-se a existência do Terceiro Mundo. Em meio a toda essa manipulação político-ideológica, torna-se difícil, portanto, entender questão de tamanha complexidade sem que, antes; se explique satisfatoriamente o que, na realidade, fazem no País os 2.500 missionários catalogados pelo "Missionary Information Bureau", se é que são somente 2.500, e quais são as atividades desenvolvidas entre nós por 59 sociedades transconfessionais registradas no MIB. Quem as financia? Para quê? Qual o volume de recursos encaminhados ao Brasil pelos grupos pentecostais sediados nos Estados Unidos? Qual a quantidade de dinheiro, por exemplo, os mórmons, os adventistas, as testemunhas de Jeová e a seita Moon recebem dos americanos? Com que objetivo? A qual autoridade brasileira prestam contas? Estas, como dezenas de outras, são indagações que o povo gostaria fossem respondidas antes de acusar de desídia os órgãos de governo a quem competiria fiscalizar os atos desses grupos religiosos, sobretudo o Conselho de Segurança Nacional, Ministério da Justiça, Polícia Federal, FUNAI e Banco Central. São necessárias respostas urgentes e objetivas, porque as questões envolvem a movimentação de fabulosas somas de divisas estrangeiras, entrada ilegal de imigrantes no País, fraude de documentos, usurpação de terras indígenas, exploração ilegal do subsolo e ameaças à segurança nacional. É preciso conhecer toda a verdade, para ajuizar corretamente a situação e saber com exata precisão de que direção, que não do Norte, vêm os falsos profetas, os sedutores ou os demônios, como os denomina a Bíblia.

 

A propósito de demônios, contavam os antigos irlandeses que, assim que a fé cristã começou a se propagar por suas terras, os demônios adotaram uma atitude revanchista e intimidatória. Vindos do Norte, rondavam as casas durante as noites, arranhando portas e janelas, farfalhando suas asas enormes, gemendo com o choque de seus corpos peludos contra as paredes. Todos ficavam petrificados de medo, trancados a sete chaves. À força dos hábitos do passado, os ameaçados recorriam aos deuses pagãos, sacrificavam animais para aplacar a fúria das entidades malignas, queimavam ervas, protegiam-se com réstias de alho. Nada adiantava. Os demônios continuavam a amedrontá-Ios. Foi aí que os novos tementes a Deus, o Deus verdadeiro, se lembraram de que se afixassem a Cruz aos pórticos de entrada estariam livres das ameaças diabólicas. Assim fizeram e os demônios voltaram para o Norte. Mas provisoriamente, porque está escrito:

 

"Sede sóbrios e vigiai, porque o demônio, vosso adversário, anda

ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar"

(I. Pedro 5.8).

 

São Paulo, março de 1987.

 

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