Os Demônios Descem do Norte

Delcio Monteiro de Lima · Capítulo 1 de 4 · parte 1/3

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Os Demônios Descem do Norte

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Delcio Monteiro de Lima

 

OS DEMÔNIOS DESCEM DO

 

NORTE

 

1987

 

Francisco Alves Para José Fermin Suarez Fernandez, um amigo.

 

SUMÁRIO

 

I - UMA DISPUTA DE ESPAÇO

 

A ingerência dos Estados Unidos na promoção de seitas na América Latina - Uma barreira para conter o comunismo - As suspeitas do Departamento de Estado americano em relação à Igreja Católica - Queixas das multinacionais contra os protestantes históricos - Desdobramentos da ruptura da Igreja com o poder - Apoio do Papa aos Bispos brasileiros - O comunismo e a direita contra as comunidades eclesiais de base - Inventariando a conjugação de forças religiosas no Brasil

 

II - A IDEOLOGIA DOS DEUSES

 

O cristianismo salvador na escalada fundamentalista nos Estados Unidos - Washington manobra para evitar a aproximação protestantes-católicos - Os relatórios Rockefeller e a Santa Fé: Igreja não é de confiança - Levantamento do CELAM mostra a origem dos financiamentos - A posição incômoda da "Opus Dei" no caso do Chile - Seitas: uma preocupação não só dos católicos - Particularidades do avanço dos grupos religiosos autônomos na América Latina

 

III - EXORCIZANDO FANTASMAS

 

O pentecostalismo importado dos Estados Unidos – Raízes americanas da Assembléia de Deus, Congregação Cristã e Igreja do Evangelho Quadrangular -14 milhões de crentes no Brasil - Revelando um império econômico a serviço da expansão religiosa - A sedução da política - Os pastores eletrônicos lá e aqui - Renovação carismática: os pentecostais católicos - A síndrome da Teologia da Libertação

 

IV - O ORIGINAL E O BIZARRO

 

Os mórmons, tão ricos quanto misteriosos - O problema racial na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias - Reviravolta americana no caso das testemunhas de Jeová - Seita Moon: uma religião coreana que mudou para os Estados Unidos - Negócios fabulosos sustentam o anticomunismo no mundo - No Brasil, aliciando jovens e atraindo militares - A articulação política das seitas

 

V - GEOPOLÍTICA DA FÉ

 

Proselitismo das transconfessionais dos Estados Unidos nas classes de baixa renda - A estratégia do “Missionary Information Bureau" - Uma Bíblia adulterada para os indígenas - Omissão do governo brasileiro - Interesses econômicos, aculturação e manipulação política das seitas - Uma advertência

 

I

UMA DISPUTA DE ESPAÇO

 

"Acho difícil conceber uma estrutura organizacional melhor que a nossa. Noto que muitas pessoas a quem visito - altos executivos, homens de negócios e industriais, mesmo chefes de Estado - ficam maravilhados pela eficiência da estrutura de nossa Igreja." A revelação é do pastor Neal C. Wilson, presidente, desde 1978, da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, sediada em Washington, em recente avaliação das atividades de quase 6 milhões de adventistas existentes em 190 países, que ajunta ao seu entusiasmo:

"Também fico impressionado com o número de adventistas que ocupam lugares de influência nacional e internacional ao redor do mundo. Quando eu era jovem, a Igreja não possuía muitos amigos nos altos postos e os adventistas eram quase desconhecidos no mundo dos negócios, das profissões e da política. Hoje, tudo mudou. Deus tem feito prosperar muitos dos nossos irmãos, dando-Ihes habilidade de liderança, força espiritual, uma variedade de talentos e êxito financeiro. Por isso, eles têm contribuído generosamente em todas essas áreas, permitindo que nossa Igreja seja vista sob nova luz."

A Igreja Adventista do Sétimo Dia é, na verdade, uma empresa religiosa moderna e extremamente eficiente, onde quer que tenha presença. Certamente a mais dinâmica de todas. No Brasil, aproximadamente 600 mil crentes, apoiados por uma vanguarda que compreende cerca de 7 mil pessoas, entre pastores, missionários e obreiros, desenvolvem um trabalho, notadamente no campo social, que está longe de ser seguido ou imitado por qualquer outra religião. É uma gama de atividades desproporcional, inclusive, ao número de fiéis ou tamanho daquela Igreja entre nós, envolvendo um elenco de ações só passíveis de controle mesmo por mecanismos de uma organização de feições multinacionais, tal o seu porte.

A desenvoltura que caracteriza a participação da Igreja Adventista do Sétimo Dia na solução dos problemas da Educação e da Saúde enfrentados pelos diversos países é realmente impressionante. Parece que os números esclarecem com suficiente clareza essa contribuição: 5.500 unidades educacionais primárias, secundárias e superiores, com mais de 30 mil professores ministrando ensinamentos a cerca de 1 milhão de estudantes. Opera, por outro lado, um complexo internacional integrado por 166 hospitais, 234 clínicas e dispensários e 54 lanchas e aviões, a serviço do que chama evangelho da Saúde. Um verdadeiro exército - 47 mil pessoas - se ocupa dessa imensa rede beneficente nos variados quadrantes do mundo. Mantém, ainda, 51 casas-editoras espalhadas em diversos países, incumbidas de publicações em 175 idiomas, onde se incluem jornais, revistas e livros, com enormes tiragens, sobre fumo, álcool, droga, alimentação e hábitos de vida. A obstinação dos adventistas em promover a Educação e cuidar da Saúde mereceu, a propósito, curiosa observação da revista "US Catholic", em artigo escrito por William J. Whiler, respeitado catedrático de História da Universidade Católica de Purdue, que diz que podemos esperar que uma Igreja que aguarda o fim do mundo a qualquer momento concentre sua atuação exclusivamente em assuntos religiosos. Mas que não são assim os adventistas. Sua crença na Segunda Vinda não arrefeceu seu empenho em favor da Educação, do cuidado médico ou do serviço em prol dos outros e que nenhuma Igreja pode apresentar mais impressionante relatório de serviço médico do que a Adventista do Sétimo Dia, levando-se em conta o número total de seus adeptos. A preocupação dos adventistas com a Saúde, com efeito, manifestou-se quando da institucionalização da sua Igreja, ocorrida em 1860. Num período de grande turbulência da vida americana, como a que sucedeu à Guerra Civil, já punham em funcionamento, em 1866, sua primeira instituição médica, o "Western Health Reform Institute", em Battle Creek. Construíram um hospital bastante avançado para uma época em que as péssimas condições sanitárias existentes, sustentadas por práticas médicas empíricas, eram responsáveis, por exemplo, por uma mortalidade infantil de 1 criança em cada grupo de 6 no primeiro ano de nascimento e a expectativa de vida dos americanos estava limitada a, apenas, 39,4 anos. Naquele tempo, a Associação Médica Americana, criada em 1847, não dispunha de instrumentos eficazes para proibir o exercício da Medicina por pessoas que soubessem os rudimentos da anatomia humana, possuíssem razoável estoque de drogas ou tivessem habilidade para fazer uma sangria. Os adventistas tiveram a ousadia de mudar tudo isso, de inovar, e preconizaram, antes de mais nada, uma estratégia de Saúde que respeitasse a força dos valores da natureza.

O entendimento de que o corpo humano é o templo de Deus e deve ser preservado nas melhores condições possíveis é um princípio evangélico seguido à risca pelos adventistas. Seus pregadores sempre tiveram a percepção da existência da íntima relação entre a Saúde física e a Saúde espiritual e enfatizaram a necessidade de manutenção desse equilíbrio para uma vida longa a serviço de Deus. Comprometer esse equilíbrio seria, pois, faltar ao Senhor, desertar à Sua causa. Por isso, atribuem excepcional importância à vida marcada pela ausência de excessos. Glorificam a temperança. São tradicionais suas campanhas contra o fumo, o álcool e o tóxico, sempre orquestradas com farta publicação de revistas e livros de doutrinação contra esses vícios.

A apologia da Saúde incorporada ao proselitismo religioso contou sempre com o reforço dos ensinamentos dos mais lúcidos ideólogos do adventismo. Exemplo é a sra. Ellen G. White (1827-1915), autora de vários livros, cujas visões são consideradas roteiro de fé para todos os crentes, que valorizou aquela relação em diversos trabalhos sobre emprego terapêutico dos agentes naturais, importância da alimentação, Medicina preventiva, Saúde mental e Saúde espiritual, até hoje fundamentos da ação adventista nesse campo. E de sua autoria a advertência segundo a qual “não é seguro e tampouco agradável a Deus que, após violar as leis da natureza, busquemos ao Senhor, pedindo que vele sobre a nossa Saúde e nos guarde de enfermidades, quando os nossos hábitos contradizem as nossas orações".

Recentemente, pesquisas feitas no Estado da Califórnia (Estados Unidos) e na Noruega, entre a população adulta, cobrindo um espaço de 5 anos, mostraram que os adventistas geralmente vivem em média mais 7 anos do que os outros cidadãos. O câncer e as doenças do aparelho respiratório, principalmente, incidem menos naquele grupo religioso, o que é explicado pelo estilo de vida ascético adotado pelo mesmo. A constatação tem incentivado então os adventistas a intensificar em todo o mundo a luta contra as formas de vida desregradas, desencadeando regularmente vigorosas campanhas contra o fumo, a disseminação dos tóxicos e do álcool e abrindo novos centros de tratamento e recuperação dos viciados.

 

UMA EFICIÊNCIA COMPROVADA

 

O adventismo é uma religião forjada e retocada ao modelo de vida da classe média americana, tipicamente conservadora e puritana. Nascido nos Estados Unidos no começo do século passado, é um movimento de dissidentes da Igreja Batista, então insatisfeitos com alguns dogmas de fé do protestantismo histórico. Prega obstinadamente a Segunda Vinda do Salvador, quando os justos falecidos ressuscitarão e, juntamente com os justos que estiverem vivos, serão glorificados e revestidos de imortalidade, enquanto os pecadores, os ímpios, só o farão mil anos mais tarde, para serem destruídos para sempre. É a teoria do milenarismo. O adventista é proibido de usar estimulantes, como álcool, fumo e café, devendo trajar-se sobriamente e abster-se de passatempos mundanos, tais como cinema, baile e jogos.

William Miller (1782-1849), de Pittsfield, Massachusetts, agricultor de origem humilde, depois militar, interpretando as Escrituras e as visões de Daniel e Apocalipse, conseguiu, a partir de 1812, empolgar alguns setores da comunidade batista para as suas conclusões em torno da Segunda Vinda. Nesses estudos, previa o evento para 1843. Corrigiu-as, depois, apontando o outono de 1844, mais exatamente o dia 22 de outubro, como a grande data. Mas nada de extraordinário aconteceu naquele dia, senão uma grande frustração dos crentes reunidos em orações em Battle Creek, Michigan. Em meio às súplicas, exaltação e choro, o dia clareou e a Segunda Vinda não se concretizou. A conseqüência foi um enorme racha no adventismo, com os fiéis, desapontados, voltando às igrejas de origem. Poucos líderes do movimento suportaram a execração pública, a gozação, e mantiveram-se leais à causa, tentando uma recomposição do que sobrou do adventismo após a debandada.

Entre os reorganizadores e reestruturadores do desarticulado movimento está Ellen G. Harmon, depois Ellen G. White (1827-1915), de Portland, no Maine, uma ex-metodista que veio a desempenhar papel importante no adventismo durante 70 anos. Liderou várias iniciativas, sobressaindo-se como teórica e ideóloga das mais respeitadas até hoje, com 53 livros e 4.500 artigos publicados, abrangendo vários aspectos da fé adventista. Teve destacada atuação na grande arregimentação que culminou na estruturação definitiva da Igreja em 1860. As crises de menor ou maior proporção enfrentadas pela Igreja Adventista durante a sua existência, desde a grande confrontação de 1888, em Minneapolis, até o cisma irrompido em 1979 na Austrália, não impediram seu vertiginoso crescimento a nível mundial, expandindo-se rápida pelos Estados Unidos, Canadá, Europa, África, Ásia e América Latina. O fato de os adventistas serem sabatistas, isto é, guardarem o sétimo dia, o sábado, consagrado ao descanso, adoração e ministério, não os impediu de ganhar adeptos entre as categorias profissionais que geralmente têm problema por não trabalhar naquele dia da semana. Nem mesmo em regiões onde as atividades jamais são interrompidas no sábado ou que nunca adotaram a "semana inglesa", hábito relativamente novo em países latinos, seu avanço foi prejudicado. Entre nós, a primeira Igreja Adventista do Sétimo Dia foi organizada em março de 1898, em Gaspar Alto, Santa Catarina. Eram, naquela época, apenas 23 crentes que se reuniam em torno da família Belz. Três anos antes, porém, em 1895, a família Riffel já havia estabelecido em Entre Rios, Argentina, a primeira Igreja da denominação na América do Sul. Hoje, após décadas de trabalho pertinaz, a ação adventista é observada praticamente em todos os Estados brasileiros, com maior vigor, entretanto, no sul do País. São 931 templos, desenvolvendo eficiente atividade pastoral, simultânea a uma movimentação nos campos assistencial e educacional verdadeiramente expressivo em termos de grandeza e abrangência.

Os adventistas mantêm em funcionamento permanente, no Brasil, 11 hospitais, sendo 2 em São Paulo, 2 no Rio de Janeiro, 1 em Belo Horizonte, Campo Grande, Manaus, Belém, Vitória, Londrina e Salvador; 1.300 centros de Assistência Social, incumbidos do preparo e distribuição de alimentos e roupas às famílias carentes e de ministrar cursos de culinária, corte e costura, e princípios de enfermagem; 8 grandes clínicas múltiplas; 18 lanchas-ambulatório equipadas com todos os recursos médicos e odontológicos, percorrendo os grandes rios da Amazônia, Mato Grosso e Pará; 1 avião médico-missionário; várias creches, patronatos, orfanatos, asilos de velhos e clínicas médicas-móveis. Também na área de Saúde, opera várias lojas de produtos naturais, restaurantes vegetarianos e centros de tratamento de alcoolismo. É conveniente esclarecer, a propósito, que a Igreja Adventista não é dona ou sócia da “Golden Cross", poderosa multinacional que explora o ramo da Saúde. Apenas administra alguns hospitais da empresa, porque seu dirigente no Brasil, o advogado Milton Soldani Afonso, é crente e conhece a experiência que a sua Igreja tem no setor. Dessa forma, os únicos empreendimentos de finalidades mercantis dos adventistas brasileiros, cujos lucros, entretanto, são aplicados em obras de benemerência, são a "Fábrica de Produtos Alimentícios Superbom" e a "Unibrás Corretora de Seguros Ltda.", ambas sediadas em São Paulo.

A contribuição adventista à Educação é, igualmente, significativa. Entram com quase 500 escolas fundamentais em diversas regiões do nosso território e 14 colégios secundários localizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, Pará e Goiás. Além desses, criaram e mantêm institutos agro-industriais no Amazonas, Pará e Rondônia. Duas faculdades de Teologia, uma em Itapecerica da Serra (São Paulo) e outra em Belém de Maria (Pernambuco), cuidam da formação religiosa em nível superior dos adventistas no País. Registro especial merece o Projeto de Integração e Serviço da Mocidade Adventista (PRISMA), uma espécie de Projeto Rondon do Ministério da Educação, só que com mais recursos, organizado com jovens universitários de Medicina, Enfermagem, Odontologia, Agronomia, Nutrição e Educação, destinado a legar assistência às populações distantes. Tais grupos percorrem de lancha os grandes rios da região amazônica, chegando também a Mato Grosso, Goiás, Pará e Maranhão. Já trabalham há mais de 50 anos na Amazônia. A divulgação adventista é centralizada na “Casa Publicadora Brasileira" de Tatuí, São Paulo, responsável pela tiragem das revistas "Vida e Saúde", “Mocidade", “Decisão", “Revista Adventista" e "Nosso Amiguinho", que atingem, somadas, cerca de 400 mil exemplares. Edita, também, livros e farto material gráfico de apoio às campanhas contra o álcool, o fumo e as drogas. Na área de rádio, o programa "A Voz da Profecia" é veiculado em aproximadamente 300 emissoras. Por outro lado, várias estações de televisão transmitem "Encontro com a Vida" e o serviço de aconselhamento telefônico - o Telepaz - é mantido regularmente em diversas capitais.

O cérebro de toda essa gigantesca estrutura religiosa que cobre o Brasil e tem jurisdição também sobre as atividades desenvolvidas em outros países da América do Sul é a Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia, organizada em 1916 e instalada em um amplo edifício de dois pavimentos na discreta avenida L-3 Sul em Brasília. Lá, numa tarde calorenta de março, um acolhedor chileno de origem alemã, o pastor Werner Mayr, 49 anos, casado, três filhos, diretor da Agência de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), enquanto coordenava providências de auxílio às vítimas das enchentes que assolavam as populações que vivem às margens do Lago Titicaca, justificou para o repórter: - O dízimo arrecadado (dez por cento da renda do crente) não é suficiente para pôr em funcionamento toda essa engrenagem. Cada vez estamos mais comprometidos em obras e campanhas de promoção humana. É evidente, pois, que temos que contar com ajuda externa.

 

INGERÊNCIA DE FORA

 

A ajuda externa, justamente, representa um dos pontos delicados de qualquer estudo com o propósito de redesenhar o panorama religioso brasileiro nos últimos decênios. Com efeito, não tem escapado ao observador mais avisado evidências seguras da interferência de estranhos mecanismos na sustentação do novo quadro que vai se delineando a partir do extraordinário impulso que ganharam os movimentos ou seitas modernas surgidas no País. Esse crescimento repentino não pode ser explicado somente pelo resultado da força de doutrinação proselitista dos novos pregadores ou pelo preenchimento dos anseios dos desiludidos com suas crenças originais. Razões puramente subjetivas podem até justificar grande parte das conversões ou substituições de valores espirituais. Mas não podem, evidentemente, ser subestimadas a velocidade e as características peculiares com que se operam as súbitas transformações em causa. Não há dúvida quanto à ingerência de um fator acelerador em todo o processo. Pelo menos, a se dar crédito aos números de adesões àquelas religiões anunciadas pelos porta-vozes dos interessados. Vista a questão dessa perspectiva de suspeita, é natural, então, que se ponham as indagações cabíveis no caso, ou seja, qual a procedência dessa ajuda e quem são os beneficiários da mesma? qual o seu montante e como se processa? quais os objetivos de quem a promove?

Seria ingênuo, para não dizer absurdo, raciocinar com a hipótese da existência de um plano ordenado com objetivos políticos para conseguir uma modificação imediata no quadro religioso brasileiro. Uma trama desse tipo não se enquadraria na temporalidade das coisas. As ideologias não parecem interessadas em coordenadas de sedimentação tão futura que requeira séculos para apresentar resultados práticos. Mas não desprezam as oportunidades oferecidas pelos rumos naturais que assumem os movimentos sociais ou religiosos, nem deixam de aproveitar as brechas ocasionais que se abrem nas estruturas para infiltrar as mesmas ideologias. É cômodo e fácil. O comprometimento é mínimo. Os investimentos são relativamente baixos nesses casos e os frutos compensadores à curto prazo.

Uma visão com esse enfoque da paisagem religiosa da América Latina, particularmente do Brasil, mostra exatamente a ocorrência do fenômeno favorecendo a capitalização de dividendos políticos para aquela ação oportunista. A proliferação de seitas novas, aliciando crentes com relativa facilidade, sobretudo nas camadas mais pobres das populações urbana e rural, vai alargando os flancos à consolidação de idéias defendidas pela situação dominante. Manter é menos complicado do que mudar. E os movimentos religiosos de grande apelo popular ajustam-se sob medida a essa estratégia, porque, na sofreguidão de engrossar as suas fileiras de adeptos, preocupam-se exclusivamente com o transcendental, deixando o temporal como sempre esteve. Conquanto a fé ostente uma pujança expressiva, competitiva mesmo, dados os termos em que foi colocada a disputa de crentes, o que conta nessa corrida é, pois, o número de ovelhas conquistadas.

A partir dos anos 60, a maioria dos estudos de avaliação do potencial das ideologias consideradas de esquerda na América Latina, promovidos pelo Departamento de Estado americano, tem nucleamento nas aberturas propiciadas pela miséria social e sua abordagem a nível religioso. Lentamente, os especialistas do órgão incumbido de gerir a política externa dos Estados Unidos foram se convencendo de que o cristianismo dos latino-americanos não constituía barreira suficientemente inibidora à penetração, se não do comunismo internacional, pelo menos de formas avançadas do socialismo moderno. Cuba representou um exemplo dos mais eloqüentes para a tese que advoga maior cuidado no encarar o papel das religiões nas transformações sociais desta parte do mundo. Era o primeiro alerta. Depois, o caso da Nicarágua vinha a confirmar o acerto do entendimento. Como conseqüência, todos aqueles estudos passaram a sugerir, então, a necessidade de adoção de uma linha de comportamento político que, no mínimo, significasse uma tentativa de arrefecer ou retardar a atuação daquela poderosa força auxiliar do esquema de ameaça ao que se convencionou chamar democracia ocidental. A preferência dos especialistas do Departamento de Estado americano nessa atmosfera de desconfiança é pela Igreja Católica, hoje, na América Latina, com irreversível compromisso com a causa dos pobres na busca de uma identificação mais íntima com os princípios sociais da sua fé. Nem cogitam das seitas novas, os movimentos religiosos mais contemporâneos, cuja ânsia de afirmação, como foi dito, afasta completamente qualquer ação pastoral estranha à sua preocupação exclusiva com o transcendental. Mas não estão absolutamente tranqüilos, todavia, quanto ao protestantismo histórico ou tradicional, notadamente no Brasil, onde alguns segmentos do cristianismo têm assumido posições consideradas excessivamente progressistas. É o caso da Igreja Evangélica de Confissão Luterana, que mantém um serviço pastoral junto a índios e lavradores pobres, trabalho feito em comum com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgãos da Igreja Católica. Mais recentemente, empresas multinacionais têm levado freqüentes queixas ao Departamento de Estado americano contra missões protestantes em atividade em regiões indígenas em cujo subsolo são exploradas enormes jazidas de minerais raros. Alegam aquelas corporações que tais missões, a pretexto de evangelizar, são peças fundamentais na engrenagem nacionalista de conscientização dos direitos dos índios sobre as terras. Veladamente insinuam, até, que as missões protestantes agem sob a inspiração de grupos extremistas interessados em prejudicar as atividades das mineradoras. Contudo, os órgãos de segurança brasileiros não detectaram ainda nenhuma articulação alegada nas denúncias, recebidas por via diplomática.

 

ABANDONANDO A PASSIVIDADE

 

Certamente habituado ao funcionamento pleno das instituições e não afeito às oscilações que caracterizam o exercício temporário da democracia na América Latina como simples liberalidade das forças armadas, o estrangeiro demonstra certa perplexidade ao constatar, entre nós, a atividade política deslocada da esfera própria das agremiações partidárias para gravitar em outros segmentos da sociedade. Os brasilianistas americanos do Norte, em particular, são incapazes de assimilar essa distorção, inadmissível aos seus padrões de cultura lapidados em exaustiva formação acadêmica. Ficam atônitos. E, mesmo sem capturar nossa realidade, produzem regularmente densos trabalhos de ciência política sobre o Brasil, pontificando teorias a respeito de uma conjuntura de complexa singularidade.

O papel da Igreja Católica no contexto da vida nacional é uma dessas singularidades. Não se tem notícia, com efeito, desde que, no ano 380 da nossa era, o Cristianismo foi oficializado como a religião do Império Romano e que o imperador Constantino, antes, começava a institucionalizá-Io como parte integrante do Estado, de uma ruptura da Igreja Católica com os governantes tão incisiva quanto a que se verificou no Brasil a partir de 1964. Largamente majoritária e tranqüilamente consolidada no País, a Igreja Católica contrariou, inclusive, a evidência sociológica de permanecer alinhada ao sistema de poder devido àquela condição. Mas amargou, com isso, duros reveses. Padeceu as mais iníquas perseguições e, até hoje, sofre toda sorte de incompreensão por assumir pastoralmente a causa dos perseguidos, oprimidos e explorados, por fazer a leitura do Evangelho através de uma nova ótica transformadora. Abandonando uma postura de cômoda passividade e mesmo de vantajosa conivência com o arbítrio, optou pelo caminho áspero da luta pela justiça com Cristo. A Igreja nunca teve a pretensão de que seu discurso religioso alcançasse dimensão política. Nem buscou, tampouco, representar o papel de único canal de expressão nacional quando os outros foram emudecidos pela repressão. Também não tem culpa de que a sociedade, de modo geral, e os partidos políticos, de forma especial, não tenham sabido, agora, se estruturar e se organizar devidamente para ocupar seu espaço na reconstrução democrática do País. Muito menos, de que os militares não tenham voltado completamente aos quartéis, cedendo à sociedade civil não o poder mas, apenas, o governo. Os acontecimentos precipitaram-se à revelia da Igreja durante o prolongado desastre institucional brasileiro, representado pelos 20 anos de ditadura militar e o grande vazio que se seguiu.

Rompida, como dissemos, com um passado de longa colaboração e estreita cumplicidade com a situação dominante, a Igreja viu consideravelmente aumentado o número de seus adversários depois da queda da ditadura. Os comunistas ressentiam-se da perda de espaço pela ação católica no meio operário, a burguesia rural temia que a força da Igreja no campo apressasse a reforma agrária. Entretanto, as alardeadas intenções de mudanças sociais eram mais peça de retórica do que aspiração sincera de muitos setores da vida brasileira. O equacionamento objetivo de alterações estruturais reclamadas pelo País esbarrou logo em interesses de grupos poderosos que se emaranhavam, por outro lado, no cipoal político que enleava as classes dirigentes. As profundas reformas exigidas pelas camadas mais sacrificadas da população de uma nação que ocupa, vergonhosamente, o antepenúltimo lugar no ranking mundial da má distribuição de renda teriam que esperar indefinidamente. Na verdade, não se pretendia modificar coisa alguma. Pior. Um furor de conservadorismo arcaico, cristalizado nas formas mais retrógradas do capitalismo perverso, parecia inspirar as transformações sofregamente esperadas pelo povo. A expectativa de muitos era de que a Igreja retomasse a antiga passividade com o sopro dos ventos da abertura política. Esperavam-na apenas celebrando Missa. Não faltaram até os mais nostálgicos que preferissem vê-Ia recuada ao tempo em que o velho cura da aldeia se assentava à mesa festiva do senhor da fazenda, enquanto capatazes truculentos açoitavam escravos no tronco ou os filhos garanhões sodomizavam as negras indefesas no fundo da senzala escura. Os comunistas, ainda ressaqueados da alegre temporada de confraternização entre os camaradas que foram corridos pelos esbirros e os que não puderam fugir, curtiam duro recalque. Refugiados, então, na grande imprensa, onde foram consentidos ou infiltrados pelos que procuravam manter privilégios, urdiam terríveis intrigas contra a Igreja, procurando agravar as incompatibilidades da Igreja com o governo no caso da reforma agrária. O espanto ante a atitude firme da Igreja na exigência de transformações sociais gerou, assim, uma situação inusitada na política brasileira. Era um elemento novo com o qual ninguém contava.

É, quando nada, suprema burrice supor que a Igreja esteja a serviço de alguma facção ou partido político. Sua eqüidistância, se outras razões mais consistentes não tivesse, encontra explicação na própria fragilidade das agremiações que compõem a constelação partidária brasileira, até hoje uma colcha de retalhos, sem programa, sem ideologia, sem objetivos, sem coisa alguma que justifique a sua existência, sujeita, portanto, a constantes reformulações. Além disso, se pretendesse assumir feição partidária, bastaria orientar sua imensa estrutura para essa finalidade e seria, com absoluta tranqüilidade, a maior agremiação política conhecida, inquestionavelmente a mais sólida e poderosa. O cuidado da Igreja em imiscuir-se em assuntos políticos não significa, contudo; uma atitude de fraqueza diante das questões de grande perigo para a fé católica. Nesses casos, a Igreja age e com uma determinação que a redime completamente da extrema tolerância com que se conduz e protela a interferência no assunto temporal que criou a situação de perigo. Foi assim no Haiti, para invocar exemplo recente. Lá, a sangrenta ditadura Duvalier (pai e filho), para hostilizar a Igreja, a qual vinha perseguindo implacavelmente durante anos, chegou mesmo a considerar o vudu a religião oficial da pequena república. O Episcopado haitiano enfrentou o regime e o apoio do Papa João Paulo II veio quando de sua visita ao País, ocasião em que aconselhou: "Tenham fé, mas também tenham coragem. Lutem por seus direitos." Foi o esperado sinal-verde para a insurreição nacional que provocou a fuga do "Baby" e as enormes matanças de líderes vudu que já começavam a invadir os templos católicos.

 

COESÃO TOTAL

 

Para evitar deformações costumeiras, verificadas nos despachos de agências noticiosas, o Papa João Paulo II decidiu mandar ao Brasil, como seu emissário especial, o prefeito da Sagrada Congregação dos Bispos do Vaticano, o cardeal Bernardin Gantin, em abril de 1986. Sua missão era entregar pessoalmente uma carta de Sua Santidade aos 261 participantes da 24ª. Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reunida em Itaici, correspondência de 400 linhas em que fixava o exato pensamento da Igreja sobre a atuação da CNBB e afastava, de uma vez por todas, quaisquer especulações quanto a pretensos antagonismos entre os prelados brasileiros e a Santa Sé. Era o dia 12 de abril de 1986.

O documento começava falando de dois desafios que enfrenta a Igreja no Brasil: um, de natureza eclesiástica, onde estão incluídos a escassez de sacerdotes, religiosos e agentes pastorais e as ameaças à fé por parte das seitas fundamentalistas ou não-cristãs; o outro, representado por problemas de natureza cultural, sócio-política ou econômica, ligados ao momento histórico que o País atravessa.

Afirmava que faz parte da missão da Igreja preocupar-se também com questões sociais e sócio-políticas. Condições de justeza no exercício dessa parte delicada da sua missão evangelizadora são, entre outras: uma nítida distinção entre o que é função dos leigos, comprometidos por específica vocação e carisma nas tarefas temporais, e o que é função dos pastores, formadores dos leigos para as suas tarefas, conscientes de que não cabe à Igreja, como tal, indicar soluções técnicas para os problemas temporais, mas iluminar a busca dessas soluções à luz da fé, uma praxis no campo sócio-político, que deve manter-se em indefectível coerência com o ensinamento constante do magistério. A seguir, assinala: "A Igreja conduzida pelos senhores bispos do Brasil dá mostra de estar com este povo, especialmente com os pobres e sofredores, com os pequenos e desassistidos, a quem ela consagra um amor não exclusivo nem excludente, mas preferencial." João Paulo II observa, aí, que a Santa Sé acompanha e aplaude aquela atitude e que "manifestação e prova da atenção com que compartilho esses esforços são os numerosos documentos publicados ultimamente, entre os quais as duas recentes Instruções emanadas da Congregação para a Doutrina da Fé, com a minha explícita aprovação: uma, sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação (Libertatis Nuntius, de 6 de agosto de 1984), outra, sobre a Liberdade Cristã e a Libertação (Libertatis Conscientia, de 22 de março de 1986). Estas últimas, endereçadas à Igreja universal, têm, para o Brasil, uma inegável relevância pastoral." Depois, a carta toca num ponto nevrálgico:

"Estamos convencidos, nós e os senhores, de que a Teologia da Libertação é não só oportuna, mas útil e necessária. Ela deve constituir uma nova etapa - em estreita conexão com as anteriores - daquela reflexão teológica iniciada com a tradição apostólica e continuada com os grandes padres e doutores, com o magistério ordinário e extraordinário, e, na época mais recente, com o rico patrimônio social da Igreja. Penso que neste campo a Igreja no Brasil possa desempenhar um papel importante e delicado ao mesmo tempo: o de criar espaço e condições para que se desenvolva, em perfeita sintonia com a fecunda doutrina contida nas duas citadas Instruções, uma reflexão teológica plenamente aderente ao constante ensinamento da Igreja em matéria social e, ao mesmo tempo, apta a inspirar uma praxis eficaz em favor da justiça social e da eqüidade, da salvaguarda dos direitos humanos, da construção de uma sociedade humana baseada na fraternidade e na concórdia, na verdade e na caridade." Continua a análise lembrando que, deste modo, poder-se-ia romper a pretensa fatalidade dos sistemas - incapazes, um e outro, de assegurar a libertação trazida por Jesus Cristo: o capitalismo desenfreado e o coletivismo ou capitalismo de Estado. Tal papel, se cumprido, será, certamente, um serviço que a Igreja prestará ao País e à América Latina, como também a muitas outras regiões do mundo onde os mesmos desafios se apresentam com análoga gravidade. Para cumprir esse papel é insubstituível a ação sábia e corajosa dos pastores. Pede a Deus que os ajude a velar incessantemente para que aquela correta e necessária Teologia da Libertação se desenvolva no Brasil e na América Latina de modo homogêneo e não heterogêneo com relação à Teologia de todos os tempos, em plena fidelidade à doutrina da Igreja, atenta a um amor preferencial não excludente nem exclusivo para com os pobres. O Santo Padre termina a carta com uma exortação: É dever dos pastores, portanto, anunciar a todos os homens, sem ambigüidades, o mistério da Iibertação que se encerra na Cruz e na Ressurreição de Cristo. A Igreja de Jesus, nos nossos dias, como em todos os tempos, no Brasil como em qualquer parte do mundo, conhece uma só sabedoria e uma só potência: a da Cruz que leva à ressurreição. Os pobres deste País, que têm nos senhores os seus pastores, os pobres deste continente, são os primeiros a sentir urgente necessidade deste evangelho da libertação radical e integral. Sonegá-Io seria enganá-Ios e desiludi-Ios. Permitam-me, irmãos no episcopado, que, com plena confiança, os convide a uma tarefa menos visível, mas de alta relevância, além de profundamente ligada a nossa função episcopal: a de educar para a libertação, educar para a liberdade. Educar para a liberdade é infundir os critérios sem os quais essa liberdade se tornaria uma quimera, se não uma perigosa simulação, e ajudar a reconquistar a liberdade perdida ou a curar a liberdade quando adulterada ou corrompida. Educadores na fé, como nos chama o Concílio Vaticano II, nossa tarefa consistirá também em educar para a liberdade.

A 27 de março de 1986, isto é, 16 dias antes de o cardeal Bernardin Gantin fazer a leitura da fraterna e encorajadora carta aos bispos do Brasil, o papa João Paulo II revogou a pena de “silêncio obsequioso" de 1 ano imposta ao frei Leonardo Boff pelos seus escritos a respeito da Teologia da Libertação. Doravante, o franciscano poderá prosseguir nas suas reflexões de teólogo com o aval da Santa Sé.

A Igreja aprendeu muito desde Martinho Lutero. Foram mais de 4 séculos de repetidas lições de tolerância para apurar a sua sabedoria de conviver com as divergências. Hoje, a Igreja sabe melhor amortecer os impactos das crises que a envolvem e absorver os golpes que sofre, neutralizando-os até a completa pulverização. Sabe, principalmente, capitalizar situações que são adversas. Mestra, portanto, em estratégia política, não seria ela que iria permitir a irrupção de um cisma em qualquer de seus domínios, muito menos na maior nação católica do mundo. Perdem sempre, assim, os que apostam em rachas na Igreja.

 

A LINHA DA IGREJA

 

A missão da Igreja no Brasil é a mesma da Igreja universal, reafirmada em documento aprovado pelo Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, órgão que coordena o trabalho das 6.838 paróquias existentes no País. É evangelizadora e de caráter eminentemente pastoral. Isso não significa, absolutamente, que deva omitir-se quanto a problemas sócio-econômicos, na medida em que esses problemas envolvam relevante dimensão moral e ética. A Igreja entende, também, que a ordem política está sujeita à ordem moral e, por isso mesmo, procura sempre definir com suficiente clareza as exigências de natureza moral decorrentes da ação política. Assim, considera seu dever proferir juízo moral sobre as questões que se relacionam com a ordem política sempre que afetarem os direitos fundamentais da pessoa humana ou a salvação das almas. Acha a Igreja que, na atualidade brasileira, o centro das preocupações pastorais diz respeito aos valores da liberdade e da justiça, da verdade e da honestidade, e, essencialmente, ao valor da participação de cada pessoa na evolução do processo de desenvolvimento do País. Condições peculiares e excepcionalmente difíceis em face da conjuntura sócio-econômica caracterizam a consolidação democrática do País, estando, pois, profundamente interessada no desenrolar dessa transição.

A Igreja nunca teve ambições ou foi animada por intenções políticas de quaisquer espécies. Da mesma forma, jamais pretendeu imiscuir-se em disputas ideológicas ou partidárias. O fato de ter consciência de que seu discurso encontra grande receptividade e tem enorme penetração no seio do povo não a estimula a desviar-se de sua missão, não admitindo, pela mesma razão, a militância partidária por religiosos. Sabe, entretanto, que um pretenso apoliticismo resulta, em termos práticos, numa atitude de concordância com os procedimentos que configuram determinado estilo de exercício do poder político. Daí sua missão também política, porém, na acepção maior do vocábulo. As mais lúcidas manifestações da Igreja sobre a matéria dizem que o testemunho do Evangelho não pode circunscrever-se ao juízo crítico em face das injustiças de ordem social e à denúncia da situação de pecado da parte dos responsáveis pelo estabelecimento da mesma situação. Mas, sim, agir solidariamente para a edificação de um mundo mais humano e mais digno. Esta a razão que compele a Igreja a proclamar a justiça social e a não aceitar a limitação de sua missão à formulação de princípios rigidamente atemporais.

Entre nós, especialmente, a Igreja participa ativamente como instância não-partidária que defende os requisitos éticos da nação brasileira, procurando estimular a todos os que aceitam o Evangelho e o cristianismo a que sigam retamente na direção da plena restauração da democracia. Exorta permanentemente os cidadãos, os partidos, os grupos, tanto os de governo como os de oposição, a olhar para horizontes mais amplos, sufocando interesses imediatos e mostrando-Ihes que, se agirem egoisticamente, as mais hábeis fórmulas não trarão a paz nem a verdadeira ordem política.

A Igreja considera que a redemocratização do País enfrenta, de um lado, a resistência de minorias inconformadas por perder privilégios e, de outro, o receio de muitos de possibilitar o acesso político de grupos sociais marginalizados às grandes decisões nacionais para reclamar seus direitos. O papa João Paulo II, aliás, advertiu para essa situação de desequilíbrio, na favela do Vidigal, quando em visita ao Rio de Janeiro:

"Fazei tudo a fim de que desapareça, ao menos gradativamente, aquele abismo que separa os excessivamente ricos, pouco numerosos, das grandes multidões dos pobres, daqueles que vivem na miséria, daqueles que vivem nas favelas. Fazei tudo para que esse abismo não aumente, mas diminua, para que se tenda à igualdade social." A mesma recomendação é encontrada na ata da assembléia extraordinária do Sínodo dos Bispos, realizado no Vaticano, aprovada na manhã de domingo, 24 de novembro de 1985:

"Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja tornou-se mais consciente da sua missão a serviço dos pobres, dos oprimidos, dos marginalizados. Nesta opção preferencial, que não deve ser entendida como exclusiva, resplandece o verdadeiro espírito do Evangelho. Jesus Cristo declarou bem-aventurados os pobres e Ele mesmo quis ser pobre por nós. Além da pobreza material, há a falta de liberdade e de bens materiais que, de algum modo, pode chamar-se uma forma de pobreza, e é especialmente grave quando a liberdade religiosa é suprimida pela força. A Igreja deve denunciar, de maneira profética, toda a forma de miséria e de opressão, e defender e fomentar em toda a parte os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa humana. Isto vale sobretudo quando se trata, de defender a vida humana desde o seu início, de a proteger em todas as circunstâncias contra os agressores e de a promover verdadeiramente em todos os seus aspectos." O Sínodo exprime a sua comunhão com os que sofrem perseguições por causa da sua fé e da promoção da justiça, e reza a Deus por eles. Fala que devemos entender como integral a missão salvífica da Igreja em relação ao mundo. A missão da Igreja, embora seja espiritual, implica a promoção também no campo material. Por isso, a missão da Igreja não se reduz a um monismo, de qualquer forma que ele possa ser entendido. Certamente, nessa missão há uma clara distinção, mas não separação, entre os aspectos naturais e os sobrenaturais. Esta dualidade não é um dualismo. É preciso, portanto, pôr de parte e superar as falsas e inúteis oposições, por exemplo, entre a missão espiritual e a diaconia em favor do mundo.

Retomando o caso brasileiro, na mesma linha de análise de Sua Santidade, a CNBB enxerga como merecedora de atenção especial a questão da espera indefinida dos pobres do País por uma situação menos aviltante, afirmando: Há anos, décadas e gerações inteiras, que os pobres aguardam o tempo de sua participação. Quando a nação está em crise, sempre são os pobres que têm que suportar os maiores sacrifícios. O fundo do problema político de hoje é a ascensão das massas pobres e marginalizadas, é a questão de saber se, graças às reformas anunciadas, os pobres terão mais oportunidade de levantar a voz e fazer prevalecer suas justas aspirações. Eles sabem que o atendimento dessas aspirações não depende tanto da falta de recursos quanto da falta de uma decisão política empenhada em libertá-los do estado de dependência e torná-los capazes de resistir às solicitações das mobilizações eleitoreiras. Nenhuma reforma logrará consolidar formas estáveis de democracia, se não tomar em consideração a necessidade de abrir espaços para que os trabalhadores e os sem-trabalho, os posseiros expulsos da terra e acusados de subversão, os índios, os subalimentados, as massas sem instrução, sem auxílios de saúde, sem habitação decente, sem emprego estável, sem salário suficiente, cheguem por fim a ser reconhecidos como cidadãos com plenos direitos. A Igreja julga, finalmente, como equacionamento político e ético corretos de nosso direcionamento para a democracia plena, a observância de aspectos: uma transformação estrutural que provoque a autêntica recuperação do desenvolvimento político e econômico, a nível nacional, como prioridade máxima, e razoabilidade dos meios para alcançar harmonicamente as metas desejadas, com justiça social e sem recursos traumatizantes. Acredita que, com obstinação de propósitos, de um lado, e moderação na execução, de outro, compatibilizaremos de forma ideal o desenvolvimento político e econômico com o desenvolvimento social, fazendo daquele um instrumento para a realização deste.

 

UNIÃO DOS EXTREMOS

 

"Pode estar certo de que as comunidades eclesiais de base, por colocarem em prática a doutrina social da Igreja, são o que existe de mais polêmico em toda essa discussão. Para mim, entretanto, é, quando nada, grave erro de estratégia dos companheiros fazer oposição a elas. Não faz sentido, mas os comunistas são muito ciosos de sua condição de vanguardeiros na luta pela libertação do homem do campo e não perdoam a Igreja por arrebatar-Ihes essa bandeira. Estão enciumados. Note você que, hoje em dia, ninguém fala mais em agitação comunista no campo. Isso é coisa do passado, quase folclore. O que está em moda é criticar a Igreja. Pelo menos, os padres são as maiores vítimas dos trabucos dos jagunços a serviço dos latifundiários. Sim, as coisas mudaram." Essas observações são de um velho dirigente do "Partidão", comunista histórico, com exílio forçado de 18 anos durante os governos militares. Falava do alto dos bem conservados 79 anos de idade, solidamente corpulento, cabeça enorme, cabelos ralos e um bigode de poucos fios brancos. Com os olhos semi-cerrados, semblante sereno, nem se importava com a ventania que levantava uma poeira alta do outro lado do calçadão, na praia deserta, naquela tarde de julho de inverno carioca. Em voz mansa e pausada, como que em transe. As mãos, metidas nos bolsos do blusão grosso, não se animavam sequer a pegar a xícara de café que estava à frente. Ponderou ainda:

Continuar: parte 2 de 3