Os Demônios Descem do Norte
Capítulo III
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
EXORCIZANDO FANTASMAS
Quando Gunnar Vingran e Daniel Berg, dois suecos naturalizados americanos, chegaram a Belém do Pará, no dia 19 de novembro de 1910, a bordo de um navio de terceira classe e se alojaram no abafado e calorento porão da Igreja Batista da rua João Balby, dormindo numa só cama, estavam longe de supor que o acontecimento marcava o início do maior fenômeno religioso que um país experimentaria neste século. A viagem fora o cumprimento de uma visão tida em Chicago por outro crente fervoroso, Olof Uldim, segundo a qual, em sonho, aparecera-lhe o nome Pará e a voz do Senhor ordenando-lhe que passasse a Vingran e Berg, amigos inseparáveis, a idéia de pregar a Bíblia naquele remoto lugar. Depois, os próprios destinatários da mensagem divina, orando dias a fio, tiveram a confirmação da chamada sagrada. Arrumaram, então, as malas e, com o auxílio de irmãos de fé, zarparam para a aventura no Brasil. Eram crentes pentecostais. O surgimento do movimento pentecostal nos Estados Unidos começou no século passado. Por volta de 1890, o pastor batista Daniel Awrey, em Delaware, Ohio, já reunia fiéis em cultos caracterizadamente pentecostais. Sete anos mais tarde, um grupo de crentes realizava uma espécie de convenção na Nova Inglaterra, na mesma época em que se manifestava um avivamento na Carolina do Norte e outro em Minnesota. Em 1900, o Estado do Tennessee promovia uma concentração com centenas de adeptos, com desdobramentos, a seguir, no Kansas, Oklahoma e Texas. Um encontro com grande público teve lugar em Los Angeles em abril de 1906 e, a partir daí, o movimento espalhou-se pelos quatro cantos dos Estados Unidos. Ultrapassou fronteiras e atingiu a Inglaterra, Suécia, Noruega e chegou até à Índia distante. A mensagem pentecostal disseminou-se com tamanha velocidade que logo foi batizada como "Movimento Pentecostal” e sua divulgação assumida pela revista mensal "Word and Witness" (Palavra e Testemunho), editada em Malvern, no Arkansas, pelo reverendo E. N. Bell, publicação que, mais tarde, fundiu-se com o "Christian Evangel", dando origem ao semanário "The Pentecostal Evangel", de enorme tiragem. Ainda na mesma ocasião foi realizada na cidade de Hot Springs, também no Arkansas, o primeiro Concílio Pentecostal, com grande comparecimento de delegações de várias regiões dos Estados Unidos. Um documento de compromisso de unidade e de cooperação foi aprovado na oportunidade.
Enquanto Gunner Vingren e Daniel Berg permaneciam em Belém do Pará pregando a doutrina pentecostal, mas ainda ligados à Igreja Batista pois, somente a 11 de janeiro de 1918 a Assembléia de Deus foi reconhecida oficialmente como igreja, o pentecostalismo expandia-se cada vez mais nos Estados Unidos e mandava missionários para a China, Índia, África e América do Sul. Com efeito, no outono de 1916, o quarto Concílio Geral realizado na cidade de Saint Louis, no Missouri, aprovava uma declaração relativa às verdades fundamentais, pondo fim à liberdade que cada ministro tinha de interpretar individualmente as Escrituras. A iniciativa abriu caminho para que, no ano seguinte, assembléias independentes solicitassem admissão ao Concílio e um elevado número de congregações requereu e obteve o reconhecimento oficial, ficando institucionalizada, assim, a existência das Assembléias de Deus nos Estados Unidos.
Desde 1918, o cérebro de comando do pentecostalismo mundial funciona em Springfield, no Estado do Missouri, onde um Concílio Geral, com um Presbitério Executivo de 150 membros, decide todas as questões das Assembléias de Deus a nível internacional e exerce as funções de tribunal de apelação em assuntos de caráter ministerial e eclesiástico. O Departamento de Missões Estrangeiras orienta todo o esforço de evangelização do além mar e corrige as eventuais discrepâncias doutrinárias ocorridas no exterior. Sustenta aproximadamente 3 mil missionários em plena atividade em mais de uma centena de países, responsáveis pela conversão de milhões de pessoas nos 5 continentes. Para se ter uma idéia do vulto desse trabalho, basta dizer que somente a Assembléia de Deus de Seul, na Coréia do Sul, congrega mais de 500 mil crentes. As despesas financeiras com a catequese são astronômicas. Em Springfield, Missouri, está, também, o instituto bíblico superior das Assembléias de Deus, o "Central Bible Institute", estabelecimento que centraliza toda a preparação e ordenação de religiosos e fornece diretrizes para outros seminários instalados nos Estados da Pennsylvania, Massachusetts, Illinois, Washington, Flórida, Califórnia, Texas, Oregon e Nebraska. São esses institutos que recebem todos os anos milhares de estudantes e pastores em regime de pós-graduação de todas as partes do mundo, inclusive o Brasil, os quais contam com a facilidade de freqüentar cursos ministrados nos seus idiomas natais. A Assembléia de Deus dos Estados Unidos lidera, incontestavelmente, as congêneres estrangeiras. É certo, porém, que, ainda que seja mais antiga, tenha menor número de adeptos do que a do Brasil, por exemplo, não há como compará-Ias em termos estruturais e organizacionais. A americana funciona como uma empresa moderna e a brasileira, no caso, ainda se ressente de forte empirismo. Outro aspecto é o gabarito da elite dirigente de uma e de outra. Nos Estados Unidos, os ministros têm formação cultural e religiosa esmeradas, afora o fato de provirem de classes mais bem situadas na escala social, enquanto no Brasil a formação dos pastores, na média, não corresponde às exigências ideais e a grande maioria é originária das camadas mais humildes da população. Esses desníveis, não obstante não tenham maior influência no desempenho geral, estabelecem, todavia, as diferenças nos resultados da ação de proselitismo nos dois países.
O GRANDE APELO
O pentecostalismo que Gunnar Vingren e Daniel Berg professavam em Belém do Pará era rigorosamente idêntico ao dos Estados Unidos. Em síntese, pregavam a fé absoluta na Bíblia Sagrada, interpretada de acordo com as tendências do protestantismo fundamentalista, e a existência de um só Deus, eternamente subsistente em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, bem como o nascimento virginal de Jesus Cristo, sua morte redentora, a ressurreição e ascensão vitoriosa aos céus. Constituem também dogmas de fé da crença o batismo bíblico, efetuado por imersão do corpo inteiro de uma só vez na água, atualidade dos dons distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja, a segunda vinda pré-milenial de Jesus Cristo em duas fases distintas: a primeira, invisível ao mundo, para reconduzir Sua Igreja à fase que antecedeu à grande tribulação, e a segunda, visível e corporal, para reinar sobre o mundo durante mil anos. Os pentecostais acreditam ainda no Juízo Final, que justificará os fiéis e condenará os infiéis, na vida eterna de gozo e felicidade para os justos e de tristeza e tormento para os pecadores. O ponto alto da doutrina é o batismo com o Espírito Santo, com a evidência inicial de falar em outras línguas.
O batismo com o Espírito Santo é o âmago da experiência do crente. O verdadeiro pentecostal é a pessoa que foi batizada com o Espírito Santo e continua a transbordar da sua virtude. É difícil estabelecer-se com precisão o que é necessário para receber a graça. Isto porque ela ocorre nas mais diferentes circunstâncias, ou seja, quando o crente está orando, estudando a Bíblia ou cantando o hinário pentecostal. Pode, ainda, verificar-se durante o exercício das ocupações habituais diárias. São tantas as situações em que o crente pode estar envolvido no momento da recepção da bênção que se torna impossível mencioná-Ias, tendo respaldo bíblico, porém, as tentativas de busca para que aconteça o batismo com o Espírito Santo.
Para os pentecostais, todos os casos de batismo com o Espírito Santo dão sólida base para afirmar que o ato de falar em línguas. estranhas constitui uma evidência física inicial de que o crente obteve aquela graça. É que entendem que a experiência produz um impacto direto e poderoso sobre a pessoa, fazendo-a cair em êxtase e, naquele estado estático, é levada a proferir palavras em uma linguagem que jamais aprendeu ou ouviu anteriormente. Falar em línguas durante o batismo com o Espírito Santo não só representa um fato marcante para o crente mas, também, transforma-o em um novo cristão, mais realizado, plenamente consciente de sua espiritualidade. Contudo, se, a partir do batismo com o Espírito Santo, o crente continuar falando em línguas estranhas, o fenômeno passa a outra esfera, que é o dom das línguas propriamente dito, e pode manifestar-se de duas maneiras inteiramente diferentes: línguas interpretáveis e línguas não interpretáveis. Os pentecostais fazem questão de salientar, nesse particular, que o dom das línguas nada tem a ver com a capacidade de falar outros idiomas, ou seja, falar em línguas pela unção do Espírito Santo é "glossolalia", completamente diversa de "poliglotismo". O primeiro está no campo do sobrenatural e a segunda no simples terreno das habilidades humanas. Segundo os pentecostais, falar a Deus em outras línguas é orar com o espírito e no espírito, isto é, orar bem. Através das línguas estranhas, o crente fala e o Espírito Santo comunica a ele a alegria ou as angústias que lhe vão no coração, o que, de outro modo, ao crente não seria revelado. Os registros pentecostais apontam a senhora Celina Albuquerque, de Belém do Pará, como a primeira pessoa no Brasil a receber o batismo com o Espírito Santo e a falar em línguas sob a sua graça. Foi na madrugada de 8 de junho de 1911, quando estava recolhida a orações em sua residência, fato presenciado por vários crentes. A mesma experiência foi vivida por sua irmã, Maria de Nazaré, no dia seguinte. Por isso, as duas mulheres e mais 19 testemunhas do episódio foram excluídas da Igreja Batista local onde professavam o pentecostalismo, juntamente com Gunnar Vingren e Daniel Berg. Fundaram, então, dias depois, a 18 de junho, a "Missão de Fé Apostólica" que, mais tarde, veio a ser, transformada na primeira igreja da Assembléia de Deus no País. Gunner Vingren e Daniel Berg impuseram rapidamente aos primeiros convertidos de Belém do Pará o rígido modelo que caracteriza o pentecostalismo dos Estados Unidos. A austeridade, com a condenação dos padrões de tolerância usuais nas demais igrejas, foi o traço marcante da expectativa estabelecida para a conduta dos crentes, enfatizando-Ihes sempre a condição de pecadores e apontando-se-Ihes o caminho da santificação pela conversão completa através da fiel obediência aos princípios da Bíblia. A ordem era combater as tentações de Satanás, fosse qual fosse o sacrifício exigido, vivendo uma existência simples e ascética, despojada de todos os prazeres mundanos. Assim, proibiam-se aos crentes o uso de bebidas alcoólicas, o fumo, os bailes, o cinema, enfim, tudo que significasse futilidade e alienação à realidade a serviço de Deus. Esse comportamento de absoluta sobriedade estendia-se à postura social, como o modo de falar e vestir, inclusive proibição de maquiagem às mulheres. Era a submissão total do crente à religião. Nesse molde foi conduzido o agressivo pentecostalismo brasileiro até que, a 1.° de julho de 1931, por decisão da convenção nacional realizada no ano anterior em Natal, todas as igrejas da Assembléia de Deus no Norte e Nordeste foram entregues à responsabilidade de pastores brasileiros, enquanto os missionários estrangeiros incumbir-se-iam da expansão no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, bem como de dar maior colaboração ao trabalho no exterior, principalmente Argentina, Uruguai, Bolívia, Chile, Venezuela, Colômbia, Honduras e Equador. A Secretaria Nacional de Missões ficaria com a atribuição de orientar e providenciar a manutenção dos pregadores em terras estrangeiras.
FUROR EXPANSIONISTA
Portugal sempre foi alvo constante do expansionismo pentecostal brasileiro. Já em 1913, Gunnar Vingran despachou o português José Plácido da Costa e família de volta à terra para fazer um trabalho missionário entre os seus conterrâneos. A ele junta-se, mais tarde, Daniel Berg, ocorrendo, assim, o estabelecimento de várias unidades da Assembléia de Deus ao norte do país. Em 1921, outro português, José de Matos, também crente de Belém do Pará, prega por todo o território, fundando igrejas no Algarve e nas Beiras, chegando até aos Açores, Madeira e São Tomé. Estima-se em 50 mil o número de fiéis, agrupados em 300 congregações, hoje existentes em Portugal e nas antigas colônias lusas de Angola, Moçambique e Timor.
No Brasil, recente publicação da Assembléia de Deus divide o pentecostalismo em quatro ramos principais e atribui a cada um a seguinte participação percentual no grupo religioso: Assembléia de Deus - 62,6%; Congregação Cristã no Brasil - 22,3%; igrejas pentecostais independentes - 12,8%; igrejas pentecostais ligadas a missões - 2,3. A família pentecostal do país seria formada por cerca de 40 grupos diferentes.
É interessante observar a precisão de dados da composição percentual que caracteriza o quadro pentecostal do Brasil apresentado pela Assembléia de Deus, tendo em vista a precariedade de indicadores nesse campo, constantemente reclamada, aliás, pelos estudiosos da matéria. A própria fonte, ou seja, a Assembléia de Deus, não dispõe de dados confiáveis sobre a sua constituição, sendo certo, ainda, que é a igreja pentecostal que menos conhece a si mesma, sobretudo os termos reais de sua expansão. A estranheza, por idêntica razão, estende-se à afirmação, feita em dezembro de 1986, de que ela, a Assembléia de Deus, contaria com 13 milhões de adeptos e 52 mil casas de oração, assistidos por 10 mil e 500 pastores e assemelhados. Isto em números redondos.
Ora, não há como negar a vigorosa disseminação da Assembléia de Deus no País nos últimos 30 anos. Ela agigantou-se entre nós a altas taxas de crescimento, como, de resto, todo o pentecostalismo na América Latina. Mas vai uma distância enorme entre a aceitação dessa verdade e os números temerariamente aleatórios e duvidosos atribuídos ao seu contingente de crentes e à quantidade de suas casas de oração, ainda que estas, em grande parte, não sejam mais do que prédios acanhados, modestamente adaptados a fins religiosos. Pelo visto, é um pouco cedo para pretensões tão ambiciosas.
A Assembléia de Deus sempre gozou da merecida fama de expansionista, quer pela agressividade da ação missionária, quer pela propaganda insistente da doutrina. O trabalho da Casa Publicadora do Rio de Janeiro, um enorme prédio de quatro pavimentos na estrada Vicente de Carvalho, ilustra essa competência. Seus 300 funcionários, com efeito, colocam em circulação, mensalmente, 250 mil exemplares do "Mensageiro da Paz", um jornal denominacional, e mais as revistas "A Seara" (25 mil exemplares), "Jovem Cristão" (20 mil), "Círculo de Oração" (25 mil) e "O Obreiro" (20 mil), além de várias publicações trimestrais. São, no conjunto, cerca de um milhão de exemplares rodados todos os meses, simultaneamente à edição de uma média de Cinco livros, o que confere à Casa Publicadora a invejável situação de detentora de mais de 200 títulos. Tem filiais em São Paulo, Brasília, Recife, Joinville, Niterói e Nova Iguaçu.
Na verdade, os pentecostais lêem muito, obedientes a uma advertência feita pela própria igreja: "Nem os meios de comunicação, como o rádio e a televisão, podem substituir a leitura. Quem não quiser permanecer eternamente medíocre, quem desejar fugir da rotina das conversas em que todos procuram ser engraçados, deve ler pelo menos um livro por mês. Se não o fizer, estará condenado a um mundo mais estreito e mais vazio."
Nos últimos anos, a Assembléia de Deus está empenhada em modificar na opinião pública a imagem de que seja apenas a religião dos humildes, dos pobres. Não que pretenda deslocar a força de sua atuação para outros segmentos sociais. Absolutamente, não tem a intenção de elitizar-se. Contudo, vê com interesse a penetração de sua doutrina no meio mais burguês, especialmente no setor empresarial, entre a classe média alta, de forma a ir perdendo a característica de grupo religioso preferido apenas pelas pessoas de baixa renda. Com essa política, estimulou a organização da Associação de Homens de Negócio do Evangelho Pleno, entidade que já reúne grande número de empresários e promoveu, inclusive, uma grande convenção em Olinda. Do encontro, surgiu a idéia de patrocinar uma cruzada nacional em favor da elaboração da nova Carta, aprovando-se como peça de apoio da campanha um out-door com os dizeres: "A base da Constituinte está aqui: Bíblia".
Essa nova estratégia da Assembléia de Deus, resultante da necessidade de uma ascensão social da igreja, não significa nenhum corte nos laços financeiros que a unem ao Concílio Geral de Springfield, no Missouri, do qual depende doutrinariamente. Pode ser até que não venha a precisar mais de recursos dos irmãos de fé dos Estados Unidos, provendo-se exclusivamente da receita do dízimo, cuja cobrança não descuida, estribada nas Escrituras (Levítico, capítulo 27, versículo 30 a 32; e Malaquias, capítulo 3, versículo 7 a 10), como, aliás, manda a igreja: "O dízimo é o percentual fixo de 10 por cento de nossa renda entregue na casa do Senhor para o seu serviço. O dízimo é um dos meios do crente expressar o senhorio de Cristo sobre ele e sobre tudo o que temos. O dízimo pertence a Deus, por isso é chamado santo. Não sendo entregue ao Senhor é um roubo. Quando o dízimo não for pago na ocasião, a pessoa deverá acrescentar 20 por cento ao pagá-Io posteriormente."
UMA MULHER DETERMINADA
À época em que inaugurou o "Angelus Temple" , sua primeira igreja em Los Angeles, Estados Unidos, al.o de janeiro de 1923, Aimee Semple McPherson era, aos 33 anos, uma mulher temperada na áspera luta de conversão à Bíblia. Conquanto não fosse bonita, a extraordinária simpatia e a marcante presença emprestavam-lhe uma graça especial. Ainda muito jovem, seguiu com o marido como missionária para trabalhar na China, ali padecendo toda sorte de provações. Contraíram maleita. O esposo não resistiu à enfermidade, morreu e foi sepultado em Hong Kong. Com a filhinha do casal, uma garota de semanas, voltou à América e casou-se pela segunda vez, tendo um filho dessa união, Rof Kennedy McPherson, mais tarde presidente da Igreja Internacional do Evangelho Quadrangular.
Aimee, filha única de um casal metodista, nasceu a 9 de outubro de 1890, numa pequena fazenda próxima a Ingersoll, Ontário, no Canadá. Moça frívola até os 18 anos, certo dia, depois de uma noite de insônia e angústia buscando pensamentos que a ajudassem a encontrar um rumo na vida, sentiu-se fortemente arrebatada ao ouvir o pregador Robert Semple, que viria a tornar-se seu primeiro marido, dirigir um culto pentecostaI. Em determinado momento, ele falou em línguas estranhas para os fiéis, seguindo a pregação em inglês. Discorria com fluência sobre o pecado, o arrependimento e o dom recebido do Espírito Santo. Ela, maravilhada, comoveu-se às lágrimas.
Dias depois, Aimee foi batizada com o Espírito Santo, falou em línguas desconhecidas e igualmente recebeu o dom de interpretá-Ias. Casou-se em 22 de agosto de 1908, iniciando, a seguir, intensivo trabalho de evangelização, até que foi parar no Extremo Oriente e ficou viúva.
Aimee tentou sofregamente ser dona-de-casa. Procurou concentrar-se apenas no segundo marido e nos dois filhos menores e ter como lazer o aprofundamento no estudo da Bíblia. Nada a satisfazia. Adoeceu gravemente: cinco cirurgias complicadas. Mas, milagrosamente recuperada em quinze dias, considerou o seu restabelecimento obra de Deus e iniciou o que seria o seu ministério de dimensões mundiais. Foi em Mount Forest, em 1915, aos 25 anos de idade, sua arrancada para uma carreira de pregadora incansável, época em que realizava os cultos em tendas de lona armadas em terrenos baldios. Percorreu todo o litoral do Atlântico, promovendo milhares de conversões. Nessa ocasião, publicou pela primeira vez a revista trimestral pentecostal "Bridal Call", logo transformada na "The Foursquare World Advance", publicação mensal de grande tiragem, espécie de órgão oficial da Igreja do Evangelho Quadrangular a nível internacional. Até 1923, Aimee atravessou os Estados Unidos de costa a costa diversas vezes, pregando em tendas de lona, igrejas, auditórios e salas de conferências, e realizou, em 1922, vitoriosa campanha de evangelização na Austrália. Mesmo depois de inaugurar sua primeira igreja em Los Angeles, à qual se seguiram outras, a notável pregadora continuou ativando a evangelização pela América do Norte. Pregou até que a morte a surpreendeu em meio a uma campanha na Califórnia, a 27 de setembro de 1944. Deixou vários livros, quase 200 hinos e 13 óperas de exaltação e glorificação de Jesus Cristo, sendo também a pioneira na instalação de uma emissora de rádio de propriedade religiosa, a Rádio KFSG, inaugurada a 6 de fevereiro de 1924, em Los Angeles. É daquela data o "Life Bible College", instituto aberto naquela cidade para a preparação de missionários.
A Igreja do Evangelho Quadrangular, hoje em mais de 50 países, recebeu este nome em 1922, em Oakland, Califórnia, inspirado, segundo Aimee Semple McPherson, na visão que tivera durante uma pregação de Ezequiel de quatro querubins com quatro rostos simbolizando os quatro ângulos do ministério de Jesus Cristo: o salvador, o batizador com o Espírito Santo, o grande médico e o rei que há de voltar. Antes, chamava-se Igreja do Avivamento Contínuo.
A doutrina quadrangular tem nucleamento no Novo Testamento, nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, cada qual com sua visão particular de Jesus Cristo. A denominação Igreja do Evangelho Quadrangular está baseada, pois, nos quatro principais benefícios do Calvário: salvação, batismo com o Espírito Santo, cura divina e segunda vinda de Cristo. A concepção da bandeira da igreja, nas cores roxa, azul clara, amarela e vermelha em tiras horizontais, com o número quatro sobreposto a uma cruz num retângulo branco no canto superior esquerdo, aludem, também, a cada um dos quatro aspectos da mensagem cardinal. Todas as doutrinas da Igreja do Evangelho Quadrangular são inteiramente fundamentadas nas Sagradas Escrituras.
A história da igreja no Brasil começa a 27 de novembro de 1913 em Hollywood, a capital mundial do cinema, com o nascimento de Harold Edwin Williams, um fogoso protagonista de papéis secundários em filmes far-west violentos, que abandonou a carreira artística para cursar o seminário "Life", da Igreja Quadrangular Internacional. Mesmo antes de ordenar-se, em 1940, já estava casado com a pastora pentecostal Mary Elisabeth e, depois de formado ocupou, sucessivamente, os cargos de pastor auxiliar, pastor efetivo e supervisor da mocidade do Evangelho Quadrangular em onze Estados americanos. A vocação de missionário levou-o, entretanto, a abandonar a comodidade da função que exercia nos Estados Unidos ao ser designado diretor de uma escola na Bolívia. Na verdade, porém, permaneceu como pastor de uma pequena igreja em Trinidad, porque sua antecessora no posto recusara terminantemente deixar o lugar para o qual fora nomeado. Com Hermílio Vasquez, pastor peruano, Harold Williams acabou por dar vazão ao desejo reprimido de ser missionário e chegaram a Guajaramirim, no Brasil, em 1946. Pregaram a Bíblia a centenas de caboclos brasileiros. Depois, foram a Porto Velho e prosseguiram viagem por via fluvial até Belém do Pará. Embarcaram em um cargueiro, desembarcaram em Santos e, por terra, foram esbarrar em Poços de Caldas. Na cidade sul-mineira, fizeram cuidadoso aprendizado da língua portuguesa, o que Ihes deu condições, inclusive, de servirem de intérpretes de missionários americanos em visita ao Brasil. Harold Williams não se demoraria em Minas Gerais. Irrequieto e dinâmico, muda-se para São João da Boa Vista e, naquela cidade paulista, funda, em 1951, a "Igreja Evangélica do Brasil", corpo ração religiosa de doutrina quadrangular, nos moldes da "International Church of the Foursquare Gospel" de Los Angeles, a qual, a 11 de janeiro de 1958, passaria a chamar-se Igreja do Evangelho Quadrangular, com sede na cidade de São Paulo. Até transferir definitivamente o centro de atividades para a Capital, a igreja funcionou provisoriamente na sala de uma escola à rua Líbero Badaró, perto do Viaduto do Chá. Àquela altura, o pastor Williams já era bem visto e contava com o apoio aberto do comando da igreja em Los Angeles, que, reconhecendo sua luta, mandou o pastor Raymond Boatright para auxiliá-Io. Trabalhando juntos, conseguiram provocar grave cisão na Igreja Presbiteriana do Cambuci, bairro de São Paulo, e o movimento avivalista ganhou imediatamente a adesão das igrejas de Barra Funda e Água Branca. A seguir, a Cruzada Nacional de Evangelização, nome escolhido para designar a grande divulgação da Bíblia no País, envolveu então toda a cidade e começou a penetrar também no interior do Estado. Por todas as partes, eram armadas tendas de lona vindas dos Estados Unidos para os pregadores americanos e brasileiros que se empenhavam na catequese das massas. Era a vitória da campanha. Em 1959, uma inspeção do reverendo Loren Wood, supervisor mundial da Igreja do Evangelho Quadrangular, considerou a igreja definitivamente implantada no Brasil. Daí para a frente, seu crescimento não sofreria qualquer solução de continuidade.
DEPENDÊNCIA AMERICANA
A Igreja do Evangelho Quadrangular multiplica-se no País com incrível rapidez. Se a 8 de abril de 1968, data de inauguração do templo-sede na praça Olavo Bilac, em São Paulo, já mantinha em funcionamento várias igrejas na Capital e no interior paulista, a partir daquela época pôde, então, mostrar toda a sua espetacular desenvoltura. Em dezembro de 1968, com efeito, contava orgulhosamente com 2.238 locais de oração no território nacional, compreendendo 810 templos, 437 tabernáculos, 932 salões e 64 tendas móveis. Eram 4.317 congregações organizadas no Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe.
De outra parte, os assentamentos oficiais da igreja somavam, na ocasião, 243.208 adeptos fichados e contribuintes do dízimo (10% por cento dos rendimentos mensais da pessoa), o "que autorizava a afirmar com absoluta segurança que a comunidade quadrangular agrupava mais de um milhão de crentes, assistidos espiritualmente por 1.048 ministros, 925 aspirantes e 5.568 obreiros credenciados. Este notável desempenho, aliás, valia elogiosa referência ao pastor americano George Russel Faulkner, presidente da igreja no Brasil, pela sede mundial da "International Church of the Foursquare Gospel" de Los Angeles. O reverendo Faulkner está no cargo desde 1962 e é muito respeitado nos Estados Unidos pelo excelente trabalho realizado entre nós.
Muitas razões objetivas e subjetivas explicam a velocidade do crescimento da Igreja do Evangelho Quadrangular, mas a perseverança na ação missionária é, sem dúvida, a principal delas. Divulgar a Bíblia por todos os meios disponíveis assume, de fato, caráter obsessivo para os pastores e auxiliares. Para eles, todos devem ser convertidos ao menor espaço de tempo possível, representando, por isso, papel de extrema importância o proselitismo feito pelas tendas móveis e os programas de rádio e de televisão transmitidos permanentemente sob a responsabilidade da igreja, Outro forte apelo é o dom da cura de que se investe o pastor quadrangular, atraindo sempre numerosa clientela ávida de minorar os males físicos que a afligem. É uma prática que se arraigou na igreja desde o ministério de Aimee Semple McPherson e que seu sucessor na presidência do movimento, o filho Rolf McPherson, procura estimular em todos os pastores. Contribui, igualmente, para o fenômeno, a maior flexibilidade na postura social permitida aos crentes quadrangulares, ao contrário de outros segmentos pentecostais, por demais rigorosos em suas exigências nesse campo. Mesmo assim, os estatutos dizem que "qualquer obreiro credenciado, aspirante ou ministro, que vier a separar-se de seu cônjuge de fato ou de direito e divorciado que vier a manter união extra-conjugal ou contrair novo matrimônio será demitido do seu ministério, incluindo o seu novo cônjuge". A drástica proibição é reforçada com outra: "Não é permitido em nenhuma das categorias do ministério da Igreja do Evangelho Quadrangular o ingresso de pessoas em estado civil amasiado, divorciado ou que venha a contrair novo matrimônio e os que porventura vierem a fazê-Io deverão ser destituídos das suas funções".
A exagerada preocupação com que os quadrangulares perseguem a evangelização justifica, também, o número de institutos bíblicos para a formação de pastores, aspirantes e obreiros credenciados existentes no País. São 14 ao todo e localizam-se em São Paulo, Curitiba, Belém, Porto Alegre, Manaus, Campinas, FIorianópolis, Taubaté, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Joinville, Rio de Janeiro, Divinópolis e Poços de Caldas. O maior é o de Belo Horizonte, justamente para atender a demanda da região metropolitana da Capital mineira, que concentra mais igrejas e crentes no Brasil. A subordinação da Igreja do Evangelho Quadrangular do Brasil à "International Church of the Foursquare Gospel" é absoluta. A esfera de decisão das questões de relevância doutrinária ou administrativa está em Los Angeles. O artigo 26 do Estatuto, por exemplo, é expresso quando determina que o presidente da igreja aqui seja nomeado, formalmente, pela direção da igreja internacional. Essa hierarquia inflexível torna, assim, completa a dependência às rígidas normas estabelecidas nos Estados Unidos. A presença constante entre nós de numerosos missionários americanos empresta, por isso, à supervisão dos trabalhos de evangelização um inequívoco caráter de fiscalização permanente do que faz a igreja brasileira.
Fechando o círculo de subordinação, vem a questão financeira. O "Missionary Cabinet", órgão de gestão dos recursos das igrejas espalhadas pelo mundo, administra toda a movimentação de dinheiro no exterior, competência que acaba por constituir-se em poderoso instrumento de manipulação política. O sistema é restritivo no que concerne às igrejas estrangeiras e, em contrapartida, liberal quanto aos missionários americanos que podem até solicitar recursos financeiros dos Estados Unidos e aplicá-Ios no país onde exercem suas atividades sem qualquer interferência da direção local. A aquisição de avançado centro de computação para controlar a complexa engrenagem quadrangular no País, instalado na sede administrativa em São Paulo, incluiu-se nessa prerrogativa.
OBRA DE RESPEITO
Uma enorme surpresa está reservada, a quem chega à rua Visconde de Parnaíba, na Mooca, em São Paulo. Nada parece com o que foi imaginado. O templo-sede da Congregação Cristã no Brasil é imenso, imponente, mas sua capacidade para acomodar 4 mil pessoas torna-o pequeno nas noites de culto. Predomina ali gente da classe média, muitos descendentes de italianos, mas a grande maioria é de brasileiros genuínos. Aquela multidão, homens trajados com sobriedade e mulheres de véu, separados geometricamente, ora fervorosamente, só interrompidos peJa voz solene do pregador ou pelos cânticos dos fiéis, acompanhados pela banda de dezenas de músicos. O culto nunca termina antes das 11 da noite. Preces, hinos, testemunhos, pregação. Depois, fora da igreja, despedem-se fraternalmente. Os homens beijam os homens e as mulheres o fazem entre si. Homens e mulheres trocam apenas solenes apertos de mãos. Muito respeito. A felicidade, entretanto, está estampada na fisionomia de todos. O pátio de estacionamento defronte vai-se, então, esvaziando aos poucos, com a saída dos carros. Os que foram a pé caminham devagar e enchem a Visconde de Parnaíba e transversais. A saída é ordeira e demorada. Por fim, o silêncio da noite volta àquela parte da Mooca. A Congregação Cristã no Brasil é a segunda maior igreja pentecostal do País. Vem logo abaixo da Assembléia de Deus em número de crentes, embora seja cerca de um ano mais antiga do que aquela por aqui. É uma experiência religiosa que também veio dos Estados Unidos, trazida por Louis Francescon, um italiano naturalizado americano, nascido a 29 de março de 1866 em Cavasso Nuovo, que morava em Chicago desde 1890. Era um artífice especializado em mosaicos, filiado à Igreja Presbiteriana, na qual chegou a ancião. Casou-se com Rosina Balzano em 1895. Louis Francescon converteu-se ao pentecostalismo em fins de abril de 1907, passando a freqüentar a missão do reverendo W. H. Durham, na North Avenue, em Chicago, e lá, a 25 de agosto do mesmo ano, recebeu o batismo com o Espírito Santo, expressando-se pela primeira vez em línguas que jamais havia ouvido. A partir de março de 1908, obedecendo ao que chamou determinação divina, abandonou por completo os afazeres habituais para dedicar-se exclusivamente à religião, não obstante fosse pobre e ainda tivesse mulher e seis filhos menores para prover a subsistência. Mesmo assim, seguiu seu destino.
Toda a vida de Francescon voltou-se, então, para o que considerava obra de Jesus Cristo. Dirigiu inúmeras campanhas de evangelização, conseguindo centenas de conversões em Chicago, Saint Louis, Los Angeles e Philadelphia, principalmente. Os americanos de origem italiana tinham por ele especial respeito e consideração. Um homem de comportamento irrepreensível. Por todas as cidades onde pregou, seus seguidores abriram e mantiveram casas de oração.
Guiado pelo que chamou santa revelação, embarcou em Chicago a 4 de setembro de 1909 com destino a Buenos Aires, viajando em companhia de Guglielmo Lombardi e Lucia Menna, dois crentes amigos. Semanas depois, deixaram a Capital Argentina para visitar a família Michelangelo Menna, parente de Lucia, em San Caetano, também Província de Buenos Aires. Lá promoveram vários cultos, atraindo novos simpatizantes para a crença, com o registro de ocorrências sobrenaturais que Francescon considerou maravilhosas. Voltaram a Buenos Aires e abriram uma casa de orações num subúrbio denominado Tigre. Era a semente do pentecostalismo argentino.
A vocação missionária de Francescon levou-o, juntamente com Lombardi, até São Paulo, em março de 1910, onde permaneceram até o mês de abril. Lombardi retornou à Argentina para continuar o trabalho iniciado e Francescon, aceitando o desafio de um ateu italiano de nome Vicente Pievani, seguiu viagem rumo a Santo Antônio da Platina, no Norte do Paraná, para tentar a evangelização naquele lugar. Foi penoso alcançar o destino. Primeiro, a precaríssima estrada de ferro Sorocabana até Salto Grande. A seguir, um trecho de mais de 200 quilômetros por uma região inóspita, dos quais 70 a cavalo, conduzido por um guia índio. Mas valeu a pena. Mesmo implacavelmente perseguido por fanáticos católicos da cidade, lá instalou e deixou funcionando um núcleo da fé pentecostal.
A 20 de junho, Francescon estava novamente em São Paulo, abrindo no Brás, com o apoio de dissidentes presbiterianos e batistas, o que seria a primeira casa de oração pentecostal no País. Voltou aos Estados Unidos em fins de novembro, depois de breve permanência no Canal do Panamá, para continuar sua missão de incansável evangelizador. Esteve no Brasil mais oito vezes para supervisionar o gigantesco crescimento de sua obra, sendo a última em companhia da esposa, em outubro de 1947, quando aqui permaneceram durante um ano. Louis Francescon morreu em Oak Park, Illinois, em 7 de setembro de 1964. A Congregação Cristã no Brasil está organizada segundo o modelo congregacional americano. Como nos Estados Unidos, é avessa a qualquer tipo de publicidade, não possuindo jornais de propaganda doutrinária, nem literatura religiosa de nenhuma espécie. "Outras luzes não precisamos, nem queremos. O tempo muda sempre, porém, a palavra de Deus é imutável. Mudam os homens, porém, o Senhor é o mesmo, eterno e fiel" - é o ensinamento. A igreja, assim, só tem impresso o estatuto, que resume também sua doutrina, e a tradução de um testemunho de fé de Louis Francescon, editado em Chicago. No mais, tudo se preserva por transmissão oral. Ao contrário de outras igrejas pentecostais, cuja estrutura e funcionamento muito as tornam parecidas a modernas empresas, a Congregação Cristã no Brasil conta com uma organização singela, sem sofisticação. Tudo é descomplicado. Por exemplo, a ordenação de anciãos. os crentes que presidem os serviços de culto nas casas de oração, desempenhando funções equivalentes às dos pastores, faz-se em escolha colegiada, segundo acreditam, por consenso iluminado pelo Espírito Santo, não mantendo, pois, a igreja, seminários para prepará-Ios. Não dispõe, também, de escolas dominicais para ensinar a Bíblia, nem faz proselitismo em praça pública.
Outra diferença das outras igrejas pentecostais é que a Congregação Cristã no Brasil não adota o sistema de cobrança de dízimo. As ofertas de dinheiro são voluntárias e o crente não tem nenhuma, obrigação de natureza financeira para com a igreja. Em contrapartida, não remunera seus anciãos e colaboradores, norma diversa das demais, onde pastores e assemelhados têm vínculo empregatício, com Carteira de Trabalho assinada, inscrição no lAPAS e todos os direitos sociais inerentes à condição de assalariados.
A Congregação Cristã no Brasil é das igrejas pentecostais a que experimenta a mais dinâmica expansão, com dados de crescimento absolutamente confiáveis. A partir de 1966, com efeito, organiza um relatório anual de atividades contendo os registros de batismo, o que a capacita a conhecer o número exato de pessoas que ingressam formalmente nos seus quadros. Assim, computados ano a ano, até 1986, eles totalizavam 1.015.619 crentes. Não estão aí considerados, portanto, os batismos anteriores a 1966, ou seja, os crentes que receberam o sacramento desde 1910, data da fundação da igreja, a maioria ainda viva. Esse indicador permite, com cálculo bem-aproximado, estimar em, pelo menos, o dobro, isto é dois milhões, o universo de fiéis da Congregação. Nessa estimativa, contam-se, principalmente, pessoas que aderiram à crença pentecostal e que, como é comum acontecer, não convalidaram o batismo recebido na sua igreja de origem, não sendo, pois, registrados.
O relatório indica ainda que o número de casas de oração no País, que era de 2.435 em 1966, pulou para 7.559 em 1986, estando 2.735 em prédios próprios e 4.824 em imóveis alugados ou cedidos. A maioria encontra-se nos Estados de São Paulo (2.460), Paraná (1.095) e Minas Gerais (1.086), espalhando-se as restantes por todas as unidades federativas.
FANTASIA E REALIDADE
A Assembléia de Deus, a Congregação Cristã no Brasil e o Evangelho Quadrangular são as maiores igrejas pentecostais originárias dos Estados Unidos, mas, evidentemente, não são as únicas em funcionamento no País. Existem dezenas e dezenas de outras menores, quase todas fundadas por dissidentes daquelas, algumas até expressivas, como a Brasil para Cristo e a Deus é Amor. A primeira, organizada por Manoel de Meio, em 1955, e a segunda, surgida em 1962, liderada por David Miranda, cunhado de Meio, ambos com passagem pela Assembléia de Deus e Evangelho Quadrangular, das quais, com algumas variações, compilaram praticamente toda a doutrina. Há, ainda, o pentecostalismo ligado às igrejas protestantes tradicionais, os chamados movimentos de restauração e renovação, que envolvem batistas, metodistas, presbiterianos e congregacionais. Esses movimentos, embora permaneçam fiéis às igrejas de origem, agregam o estilo pentecostal às suas práticas religiosas, como o batismo com o Espírito Santo, as orações espontâneas, a permissão de pregação aos leigos, os testemunhos e os cânticos populares. Constituem uma situação melindrosa, que as igrejas protestantes tradicionais se recusam a encarar com determinação. O pentecostalismo já representa 75 por cento de todo o protestantismo no Brasil, num ímpeto de crescimento deveras impressionante. Estima-se que ele aumentaria a uma taxa superior a 25 por cento ao ano. As estatísticas, contudo, são imprecisas, a começar pelo IBGE, que não distingue o fundamental com a necessária clareza, ou seja, não diferencia o protestante histórico do pentecostal. As outras fontes também adotam critérios duvidosos, indicadores pouco seguros, como acontece com as informações fornecidas pelas igrejas. Acrescente-se a tudo a preocupação de exagerar. Há, de fato, muita fantasia no assunto. Assim, tomando-se a média das avaliações conhecidas, e para não incorrer em erros mais grosseiros, o mais prudente seria admitir que os pentecostais no Brasil, hoje, estariam entre 12 e 14 milhões de pessoas e que subiriam, pelas projeções feitas, a 40 milhões até o fim do século. Pode faltar rigor estatístico aos números, mas esta é a visão mais aproximada da realidade. Fora disso, teremos apenas especulações destituídas de maior valor. De qualquer modo, o número de pentecostais - 12 ou 14 milhões - não importa. Nem as próprias igrejas parecem tampouco interessadas em proclamar força e influência. Não perdem tempo com essas veleidades. O que conta é a ação. Vêem - isto sim, é relevante - o homem brasileiro, tanto da cidade quanto do campo, cada vez mais desorientado, perdido entre os apelos de uma sociedade essencialmente consumista, à busca de segurança, orientação e esperança, enfim, de alguma coisa que atenda às suas necessidades mais gritantes ou, quando nada, responda de maneira objetiva às suas indagações mais angustiantes. Nessa hora, cumpre resgatar o náufrago. É preciso então salvar a alma em perigo. Aí, exatamente nesse momento, entra a vasta experiência dos pentecostais em lidar com a massa aflita, a reconhecida prática de oferecer as devidas respostas àquelas questões, em satisfazer ou, pelo menos, acenar com a expectativa de satisfação aos anseios espirituais e físicos da multidão sofredora. A manipulação dos que buscam uma nova perspectiva de vida, via de regra, segue os padrões já testados como eficazes nos Estados Unidos e encontra sua principal arma nos meios de comunicação. A isso se convencionou chamar de evangelização eletrônica, hoje largamente utilizada, porém, com resultado discutível entre nós. Nos Estados Unidos, os pregadores eletrônicos, um incômodo para as igrejas protestantes históricas, representam um fabuloso negócio de centenas de milhões de dólares movimentados anualmente, predominantemente pelos evangelicals, a corrente fundamentalista, ou born-again (nascido outra vez), como se autodenominam, que abrangeria um universo de 70 milhões de americanos, a maioria de origem batista. Possuem mais de 30 estações de televisão independentes, 600 emissoras de rádio e uma centena de empresas produtoras de TV a cabo e discos. A princípio, os programas religiosos eram transmitidos pelo rádio, mas, desde 1979, a televisão é o veículo dominante, tanto assim que as grandes redes nacionais - CBS, NBC e ABC - tiveram que alterar sua programação para conciliá-Ia com os interesses dos pregadores. Calcula-se em 60 milhões a audiência diária dessa espécie de programa.
O mais destacado pregador da TV americana é Pat Robertson, veterano da Guerra da Coréia, advogado pela Universidade de Yale e graduado em Teologia. Sua apresentação, em rede nacional, é pela manhã, com hora e meia de duração, contando sempre com a participação das importantes personalidades da vida dos Estados Unidos. É um verdadeiro show-man.
Robertson começou em 1961, com uma só emissora em Virginia Beach, no Estado da Virgínia, e hoje a sua "Christian Broad casting Network" (CBN) compreende "The 700 Club", proprietário de várias estações de televisão e rádio, inclusive uma emissora de TV que opera no Sul do Líbano - na zona de ocupação judaica -, as produtoras de TV a cabo (CBN Cable) e de discos (CB N Continental) e a "Operation Blessing" , organização de caridade que manipula um orçamento de 50 milhões de dólares. Em 1977, a CBN fundou uma universidade de comunicação em Heritage, Carolina do Norte, onde forma todos os anos cerca de 800 profissionais de televisão e rádio altamente especializados. Com essa equipe sofisticada de técnicos em vídeo e áudio, Pat Robertson ganhou notoriedade e prestígio e já foi até mesmo cogitado pelo Partido Republicano para concorrer às eleições presidenciais. Ele gostou muito da lembrança do seu nome. Há grandes pregadores na TV americana. Pesquisa feita no final de 1986, a propósito, mostrou quem são, com as respectivas audiências: Pat Robertson (16,3 milhões de telespectadores), Jimmy Swaggart (9,3 milhões), Robert Schuller (7,6 milhões), Jim Baker (5,8 milhões), Oral Roberts (5,8 milhões) e Jerry Falwell (5,6 milhões). Igualmente populares são Billy Graham e Rex Humbard, os quais, juntamente com Jimmy Swaggart, tornaram-se bastante conhecidos no Brasil. Para se ter uma idéia da capacidade de mobilização daqueles programas religiosos, basta dizer que, no ano de 1985, de acordo com o Imposto de Renda, apenas Pat Robertson, Jerry Falwell e Jim Baker coletaram donativos em dinheiro no montante de 350 milhões de dólares. Atualmente, a "National Religious Broadcasting", associação que congrega os pregadores eletrônicos, está financiando um audacioso projeto orçado em mais de 50 milhões de dólares que tem a finalidade de colocar em órbita três satélites destinados a conectar seus programas a nível mundial.
No Brasil, os programas religiosos pelo rádio não são novidade. Começaram com a pregação filantrópica de caráter ecumênico de Alziro Zarur, a “Hora da Boa Vontade", iniciada por volta de 1949 na Rádio Globo do Rio de Janeiro e depois continuada em emissora própria, a Rádio Mundial, adquirida em 1956. A constatação da fácil penetração nas massas a custo relativamente baixo foi que despertou os grupos pentecostais para a utilização do veículo, o que tem aumentado assustadoramente de ano para ano. O fato de a Igreja Católica possuir várias emissoras de rádio - cerca de 140 em 1986 - pesou também na decisão de entrar nesse campo. As incursões na televisão, ao contrário do rádio, ainda são tímidas. Alguns programas levados ao ar no Rio de Janeiro e São Paulo, em canais de baixa audiência, pouco contribuíram ao esforço de evangelização dos crentes através desse meio de comunicação. De fato, ainda estamos muito atrasados e sem recursos para a utilização da TV na pregação eletrônica e a importação de tapes dos Estados Unidos, como o show de Jimmy Swaggart, rodado na Bandeirantes, não tem sido a melhor solução. O desnível cultural do telespectador americano em relação ao brasileiro torna os programas praticamente inaproveitáveis, mesmo para adaptações, afora o exagero da propaganda da ideologia capitalista agregada à evangelização.
O panorama do rádio é diferente. Embora tenha a mania de inflacionar os seus dados, diz a Assembléia de Deus que mantém cerca de 2 mil programas em todo o País, enquanto a Igreja do Evangelho Quadrangular comparece com 373 transmissões diárias ou semanais. A Igreja Brasil para Cristo, do pastor Manoel de Melo, faz programas através de 250 emissoras e a Deus é Amor, de David Miranda, comanda diariamente uma cadeia de 16 estações com "A Voz da Libertação", além da participação de três de sua propriedade: Rádio Universo, de Curitiba; Rádio Itaí, de Porto Alegre; e Rádio Auriverde, de Londrina. Ocupa, ainda, a faixa de 573 outras emissoras para a retransmissão de suas mensagens. A Congregação Cristã no Brasil é a única fora da mídia. Alega razões doutrinárias para não fazer evangelização pelo rádio. Conquanto olhemos com a melhor boa vontade os nossos pregadores eletrônicos, não se pode deixar de constatar com desalento que os resultados alcançados são insignificantes em relação à quantidade de programas veiculados. É que as apresentações são mal produzidas, sem os mínimos recursos técnicos reclamados pela moderna comunicação, limitando-se elas a uma caricatura, grosseira imitação do que os americanos fazem no gênero. Tirado o mau gosto do emocionalismo, pouco sobra. Sem infra-estrutura, sem pessoal especializado, os programas são de baixo nível e a ausência de pesquisas sérias para aferir sua audiência robustece a suspeita de que tenham menos ouvintes do que os programas sertanejos ou as radiofonizações policiais. Serviriam, portanto, tão-somente para satisfazer a vaidade das pessoas que deles participam, pois não cumprem sua finalidade, ou seja, não convertem, nem fortalecem a fé de ninguém. De outra parte, observações mais profundas de estudiosos da matéria permitiram concluir que o pentecostal brasileiro adota uma atitude curiosa diante da pregação eletrônica. Sem entender direito a abordagem dos temas sagrados, prefere o comparecimento ao culto, a participação pessoal no clima de poder do ato religioso, a presença na apropriação da fé, ainda que isso torne mais penosa a volta à realidade do cotidiano após os momentos de alheamento e elevação proporcionados pelo ofício na casa de oração. Como último reparo, não se pode deixar de registrar o espanto com que líderes pentecostais vêem o esbanjamento do dinheiro da contribuição dos fiéis, o dízimo, para a sustentação financeira das onerosas campanhas religiosas pelo rádio, cada vez faturando mais alto com o cliente cativo. Não excluem sérias desconfianças quanto à possibilidade de percepção de vultosas comissões por cúpidos intermediários. Não estaríamos - perguntam - sendo coniventes com alguma forma de corrupção?
REFORÇANDO O SISTEMA
À exceção da Congregação Cristã no Brasil, único grupo que obedece ao princípio de que "quem ocupa cargos no ministério não deve aceitar encargos políticos", todos os ramos da família pentecostal brasileira estão se enredando irreversivelmente na política partidária. Esse envolvimento começou com a revolução de março de 1964, quando alguns pastores foram encorajados por setores militares hostis à Igreja Católica a concorrer a cargos eletivos. Pretendia-se, com isso, neutralizar a influência do clero progressista e resistente à ditadura sobre o operariado e campesinato. Hoje, percorrendo caminho inverso ao da hierarquia católica, que determinou que os padres se mantivessem afastados das disputas eleitorais, parcela das lideranças crentes a cada dia mais se comprometem com os políticos e os partidos. Das umas de 15 de novembro de 1986, saíram até uma dúzia de pastores pentecostais com mandato de deputado federal e mais de duas dezenas chegaram a deputado estadual. Todavia, o grosso da militância pentecostal, excluídos os poucos pastores que vêm explorando os votos dos crentes, é completamente apolítico. Somente uma minoria de dirigentes daqueles grupos religiosos, exatamente os que controlam a mídia eletrônica, paga com o dinheiro dos fiéis, aproveitam-se da condição de privilégio do ministério religioso para tirar vantagem do imenso potencial eleitoral que eventualmente manipulam. Esse fisiologismo oportunista de transferência do prestígio da área religiosa para a política tem como principais beneficiários alguns líderes da Assembléia de Deus e da Igreja do Evangelho Quadrangular, cujo comportamento violenta as regras de conduta de seus dirigidos, habitualmente infensos à atividade política, a não ser por uma vigilante postura anticomunista. É correto admitir também que, eleitos para cargos políticos, aqueles pastores procurem reforçar na massa de crentes uma obediência conformista à situação dominante. A Igreja do Evangelho Quadrangular, inclusive, institucionaliza essa obediência em Estatuto, mandando que os governantes sejam respeitados em todos os tempos (artigo 17). Nada de rebeldias ou reivindicações temporais. A participação política é sistematicamente negada e, em contrapartida, valorizada a resignação, o sacrifício. O crente é um escolhido, um eleito de Deus, e, por isso, deve manter-se à margem das fricções sociais e da luta de classes. Importa-Ihes apenas a salvação da ,alma, o exercício de uma vida plena de dons espirituais enquanto aguardam a próxima vinda de Jesus Cristo. Os especialistas do Departamento de Estado americano têm dado, igualmente, reiteradas provas do seu particular interesse nessa alienação política dos pentecostais do Terceiro Mundo. No caso da América Latina, fomentam por todos os meios a passividade dos crentes, instruindo abertamente os missionários do Brasil no sentido de que o seu trabalho de evangelização seja sempre norteado pela, preocupação de manter o rebanho pentecostal longe da política, dedicado somente aos misteres espirituais. A mesma doutrinação é feita junto aos pastores brasileiros que vão aos Estados Unidos para cursos de pós-graduação ou programas de intercâmbio. As sociedades transconfessionais americanas, de sua parte, são rigorosas na concessão de recursos para programas filantrópicos, negando-se a apoiar iniciativas que possam ser desviadas para atividades que possibilitem a ação política. A estratégia, enfim, é não permitir qualquer tipo de militância que deságüe numa posição de antagonismo à situação dominante e possa evoluir para um estágio de vulnerabilidade à contaminação esquerdista. Colocando barreiras à participação política dos crentes, e com o rápido crescimento experimentado pelo pentecostalismo nos países pobres, os especialistas do Departamento de Estado americano acreditam, assim, retardar o avanço do comunismo na América Latina. Mas, quem tira proveito imediato dessa alienação são as ditaduras de direita estabelecidas nos países politicamente atrasados, as quais, desse modo, passam a enfrentar um inimigo a menos, representado por aquele contingente de pobres reivindicantes que seria presa fácil do jogo comunista. Esta a razão pela qual muitos encaram o pentecostalismo, se não um instrumento de sustentação, pelo menos poderoso aliado das formas selvagens de capitalismo praticadas no Terceiro Mundo. Na arrancada para a abertura de novos espaços, os pentecostais colecionam, com sentida mágoa, um vasto dossiê de conceitos emitidos pelas igrejas protestantes tradicionais, sobretudo a Batista, a respeito de suas crenças, com especial ressentimento por um livro editado sob a responsabilidade da Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira (JUERP), chamado "Movimento Moderno de Línguas", de autoria do batista americano Robert Gromacki, que considera o pentecostalismo "uma grosseira mistificação de origem satânica". Na mesma linha está "A Doutrina do Espírito Santo", obra publicada sob os auspícios da Convenção Batista Brasileira, que ironiza a espiritualidade dos rituais pentecostais. Outro autor batista, por sinal muito lido no Brasil, H. E. Alexander, diz que o movimento pentecostal nada mais é do que um dos ramos do espiritismo, do feiticismo ou da macumba. E Francisco Huling, também batista, ex-pentecostal, afirma em seu "É Bíblico o Pentecostalismo?" que "o contraste completo entre o que via e o que as Escrituras diziam ajudaram-me a pensar, e eu comecei a ver que o pentecostalismo não é de Deus, mas, sim, do Diabo".
Embora mais comedidos nos últimos tempos quanto à Igreja Católica, os pentecostais não a perdoam, mas a carga mais pesada de seus ataques é contra os protestantes tradicionais. A Convenção Geral das Assembléias de Deus, de 1963, declarou a propósito: “O ecumenismo, representado pelo Conselho Ecumênico das Igrejas e pelo Concílio Vaticano II, tem uma tendência à apostasia. Uma comunhão de igrejas que abertamente praticam o culto aos ídolos e que crêem na justificação pelas obras (igrejas católico-romanas), que negam a divindade de Jesus Cristo ou seu nascimento virginal. a necessidade do novo nascimento. a ressurreição e o retorno de Cristo (Conselho Mundial de Igrejas), é uma coisa impossível para os pentecostais. Os protestantes do Conselho Mundial de Igrejas traíram aqueles que morreram como mártires pela causa da fé."