Os parasitas de ovinos

Alessandro Francisco Talamini do Amarante · Capítulo 11 de 12

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Os parasitas de ovinos

Artrópodes

 

9 – Miíases 1

 

Entende-se por miíase “a infestação de vertebrados vivos por larvas de dípteros que, pelo menos durante certo período, se alimentam dos tecidos vivos ou mortos do hospedeiro, de suas substâncias corporais líquidas ou do alimento por ele ingerido” (Linhares, 2000). As principais espécies causadoras de miíases em ovinos criados no Brasil são Cochliomyia hominivorax (bicheira), Dermatobia hominis (berne) e Oestrus ovis (bicho da cabeça).

Cochliomyia hominivorax

Introdução

Cochliomyia hominivorax é uma espécie de mosca produtora de miíase primária, vulgarmente conhecida como bicheira. Suas larvas são parasitas obrigatórios e alimentam-se dos tecidos vivos de todos os animais de sangue quente, inclusive o homem (Guimarães et al., 1983).

A mosca de C. hominivorax possui coloração azul ou azul-esverdeado, é ovípara e, após a cópula, deposita seus ovos em massas compactas, com média de duzentos a trezentos ovos

(Figura 62), nas bordas de ferimentos da pele ou em mucosas. As larvas de primeiro estádio (L1) eclodem em menos de 24 horas e começam a alimentar-se dos tecidos vivos do hospedeiro parasitado, ficam agregadas e com as peças bucais voltadas para o interior da ferida, mantendo os espiráculos respiratórios voltados para o exterior. As larvas alimentam-se no hospedeiro por um período de aproximadamente sete dias, e, durante esse período, crescem e sofrem mais duas mudas, para larva de segundo e terceiro estádio (L2 e L3). A L3 madura abandona a ferida e cai no solo, onde se enterra e se transforma em pupa, e esta, após um período de pupação, que pode variar de uma semana até dois meses, dará origem à mosca, reiniciando o ciclo (ibidem). O desenvolvimento é fortemente influenciado pelas condições climáticas do ambiente, sendo mais lento sob baixas temperaturas, mas não foi registrada a ocorrência de diapausa (Hall, 1991). No geral, sob condições ótimas, o ciclo de vida pode se completar em menos de três semanas (Vargas-Terán et al., 2005).

Figura 62 – Postura de ovos de Cochliomyia hominivorax junto de

lesão localizada entre as unhas do casco de um ovino

 

A parte mais importante do ciclo de C. hominivorax e que requer identificação é a fase larval. Para realizar a identificação dos diferentes estádios larvais é necessário extrair as larvas da parte mais profunda da ferida infestada, evitando assim que sejam colhidas larvas de parasitas facultativos, como larvas de Cochliomyia macellaria, que são superficialmente muito similares às larvas de C. hominivorax e podem eventualmente colonizar as partes rasas da ferida.

A presença de pigmentação de cor escura nos troncos traqueais das larvas de C. hominivorax é a principal característica morfológica que a diferencia de outras espécies. Tal pigmentação é ausente nas larvas de C. macellaria, por exemplo (Guimarães et al., 1983).

Tanto na L2 quanto na L3, a pigmentação dos troncos traqueais é visualizada em três a quatro segmentos terminais do corpo, porém, na L2 é visualmente observado até um pouco além da metade do corpo da larva (Guimarães et al., 1983; Hall, 1991). Algumas outras características são utilizadas para identificar as larvas de C. hominivorax e diferenciá-las das larvas de C. macellaria, tais como a margem posterior do segmento 11 com anel completo de espinhos, espiráculos posteriores maiores, espiráculos anteriores com sete a nove dígitos e parede ventral da faringe lisa (Guimarães et al., 1983). Vale ressaltar que a identificação é mais fácil de ser realizada em espécimes vivos, pois nas larvas preservadas em álcool 70% faz-se necessário dissecá-las para remover o tecido opaco que cobre o tronco traqueal para realizar a identificação (Hall, 1991).

A L3 apresenta coloração branco/creme, possui corpo cilíndrico com 6 mm a 17 mm de comprimento por 1,6 mm a 3,5 mm de largura. Os espinhos que circundam o corpo da larva, com média máxima de 130 μm de comprimento, são bem mais longos quando comparados aos das larvas de moscas não varejeiras, e eles ajudam a manter a larva posicionada na ferida. Quando a L3 está madura, pronta para pupar, apresenta espiráculos posteriores com pigmentação castanho-escuro ou negra e comprimento de 15 mm a 16 mm (ibidem).

A mosca adulta é encontrada com muito menos frequência do que as larvas. As espécies de Cochliomyia apresentam coloração azul-metálico ou azul-esverdeado, com três faixas pretas longitudinais no tórax (ibidem). C. hominivorax distingue-se das demais espécies do gênero pela presença de pelos pretos na extremidade inferior da parafrontália, esclerito subcostal preto, ausência de pilosidade cinza-prateada na área laterodorsal e comprimento de 8 mm a 10 mm (Guimarães et al., 1983).

As fêmeas que emergem do pupário copulam uma única vez durante a vida, enquanto que os machos copulam de quatro a cinco vezes (Moya-Borja, 2003). A fêmea, após emergir do pupário, passa por uma sequência de fases de maturação, as quais apresentam diferentes características comportamentais, ecológicas e fisiológicas. Durante os dois primeiros dias após a eclosão da pupa, a mosca permanece em repouso sobre árvores, alimentando-se do néctar das flores, e não está receptiva aos machos; aos três ou quatro dias de idade, a mosca torna-se sexualmente madura e procura “sítios de reprodução”, locais onde há um grupo de machos, que irão copular com as fêmeas receptivas; e na última fase, as fêmeas, após a cópula, com quatro a cinco dias de idade, saem em busca de feridas em animais de sangue quente para depositar os ovos, com periodicidade de três dias, alternando entre oviposição e descanso. A fêmea é autógena, copula uma única vez e vive em média dez dias, período em que completa dois ciclos vitelogênicos, ou seja, dois ciclos de oviposição. Porém, algumas poucas fêmeas podem viver aproximadamente de três a cinco semanas na natureza, com ciclos contínuos de oviposição, o que exige uma fonte exógena de proteína, que a mosca adquire alimentando-se do exudato seroso das feridas onde realiza a oviposição (Thomas, 1993). A mosca adulta pode percorrer longas distâncias, em média 40 km a 55 km por semana, mas excepcionalmente pode percorrer até 290 km em menos de duas semanas (Hall, 1991).

Patogenia e sinais clínicos

A “mosca varejeira” ou “mosca da bicheira”, como a mosca C. hominivorax é popularmente conhecida, é considerada uma séria praga para os animais domésticos. Qualquer tipo de ferimento, desde um simples arranhão, pode ser infestado por larvas dessa espécie, dando origem à “bicheira”. Durante o parasitismo, as larvas invadem partes profundas do tecido do hospedeiro, e a extensa ferida, resultado da alimentação das larvas, pode causar a morte do animal (Hall; Wall, 1995). Além disso, as feridas infestadas apresentam um odor característico que é atrativo para outras fêmeas grávidas realizarem a oviposição, resultando em até três mil larvas em uma única ferida, o que também aumenta a susceptibilidade a infecções secundárias (Hall, 1991; Vargas-Terán et al., 2005).

Estudos demonstram que alguns fatores podem aumentar a predisposição ao ataque de bicheiras nos ovinos, tais como a amputação da cauda dos cordeiros, a ocorrência da enfermidade

pododermatite contagiosa (footrot) (Figura 63) e lesões decorrentes da tosquia (Amarante et al., 1992; Madeira et al., 1998). A vulva das ovelhas também é outro local comumente atacado pelas larvas, e foi observada prevalência elevada principalmente durante os períodos quentes do ano, coincidindo com o cio das ovelhas (Amarante et al., 1992). O tamanho do rebanho foi outro fator correlacionado com o parasitismo pelas larvas de C. hominivorax nos ovinos: quanto maior o rebanho (> quinhentos animais), maiores as chances de infestação, fato atribuído à dificuldade em realizar inspeção individual minuciosa para identificar e tratar os animais com ferimentos (Madeira et al., 1998).

Figura 63 – Larvas de Dermatobia hominis entre as unhas do casco

de um ovino

 

Foto gentilmente cedida pela Equipe CordeiroBiz.

Do mesmo modo, em bovinos, intervenções relacionadas ao manejo, tais como castração, descorna, marcação e até mesmo um simples arranhão ou feridas decorrentes do parasitismo por berne (larvas de Dermatobia hominis) e carrapatos predispõem o gado ao ataque de bicheiras (Lello et al., 1982; Grisi et al., 2002). A miíase umbilical em bezerros também é muito frequente (Guimarães et al., 1983; Hall, 1991; Grisi et al., 2002), assim como na vulva das parturientes, especialmente quando há retenção de anexos fetais após o trabalho de parto (Hall, 1991; Grisi et al., 2002).

A miíase em humanos se dá principalmente na população que vive em condições precárias de higiene, como indivíduos alcoolizados, sujos, que dormem ao ar livre ou que possuem feridas ou ulcerações na pele (Guimarães et al., 1983). A infestação pode se tornar rapidamente debilitante quando ocorre nas cavidades nasal, ocular, bucal e/ou auricular (Robinson et al., 2009).

Em animais infestados pelas larvas de C. hominivorax, são observadas lesões profundas de aspecto crateriforme e com liberação de fluídos sanguinolentos de odor pútrido, tornando-se mais evidente a partir do terceiro dia de infestação. A partir do sexto dia, quando as L3 começam a abandonar o hospedeiro, as lesões apresentam-se necróticas e com produção de secreção purulenta. Além disso, os animais apresentam inquietação, inapetência e febre durante o período de infestação (Morais et al., 2003). Se não tratado com urgência, o parasitismo por larvas de C. hominivorax pode levar o animal à morte.

C. hominivorax é responsável por significativas perdas econômicas não só devido à redução de produtividade, mutilação e mortalidade de animais, mas também aos gastos com mão de obra e antiparasitários, portanto, é considerada uma séria praga, especialmente em criações de bovinos, ovinos, caprinos e suínos, ocasionando sérios prejuízos econômicos (Guimarães et al., 1983; Madeira et al., 1998; Vargas-Terán et al., 2005). Só no Brasil, os prejuízos associados às bicheiras foram estimados em US$ 150 milhões anuais (Grisi et al., 2002), e infelizmente não há dados sobre os prejuízos causados por essa mosca nos outros países da América do Sul (Moya-Borja, 2003).

Epidemiologia

A mosca C. hominivorax é nativa das Américas (Lello et al., 1982; Moya-Borja, 2003) e é endêmica na maioria das regiões do Brasil (Madeira et al., 1998). Embora seja encontrada em regiões com clima tropical e subtropical, a mosca também desenvolve-se em regiões de clima temperado, quando as condições climáticas são favoráveis (Stuart et al., 1995).

Historicamente, sua distribuição estendia-se desde a região central e sul dos Estados Unidos da América até o México, América Central, Caribe e América do Sul (Hall, 1991). Como resultado de 45 anos de estudos sobre a biologia da C. hominivorax e participação ativa dos pecuaristas, a supressão e erradicação foram alcançadas nos Estados Unidos da América, no México, em Belize, na Guatemala, em Honduras, em El Salvador, na Nicarágua, na Costa Rica, no norte do Canal do Panamá, em algumas ilhas do Caribe e também da Líbia e no norte da África, utilizando insetos estéreis, por meio da técnica de esterilização dos machos com radiação gama

( 2 Sterile Insect Technique – SIT ) (Vargas-Terán et al., 2005). Porém, continua sendo causadora de sérios prejuízos no Brasil e em outros países da América do Sul (Grisi et al., 2002).

Condições locais, como a distribuição e densidade dos animais de produção e das populações de animais silvestres, as práticas de manejo, o movimento comercial de animais, a densidade de população humana, as condições socioeconômicas, os serviços públicos de saúde, a geografia e fatores climáticos ditam a gravidade das infestações e a magnitude do problema econômico (Vargas-Terán et al., 2005; Robinson et al., 2009). Porém, entre essas variáveis, as condições climáticas do ambiente constituem o principal fator com influência na epidemiologia de C. hominivorax (Rahn; Barger, 1973; Vargas-Terán et al., 2005).

A temperatura, por exemplo, tem grande influência, especialmente na fase de pupa. Quando a temperatura na superfície do solo atinge 40 °C ou mais, a sobrevivência da pupa é severamente reduzida (Rahn; Barger, 1973). A duração do período de pupação que ocorre no solo também é influenciada pela temperatura: dependendo da estação do ano, pode variar de uma semana até dois meses. No Rio Grande do Sul, por exemplo, em condições naturais de campo, durante o verão, quando a temperatura média foi de 24 °C, os adultos emergiram cerca de dez dias após a pupação, enquanto que durante os meses mais frios o período de pupação atingiu 43 dias, período em que a temperatura média foi de 13 °C (Oliveira, 1986a). Outro fator importante que tem influência na emergência das moscas da bicheira é a umidade do solo. Tanto a seca prolongada como a saturação de umidade do solo causam redução na emergência das moscas, enquanto que a umidade intermediária (67%) foi considerada adequada para o desenvolvimento da pupa e a emergência dos adultos (Stuart et al., 1995).

A população de mosca adulta também é variável durante o ano em função das condições climáticas, sendo observada maior abundância durante os meses quentes e úmidos do ano (Rahn; Barger, 1973; Hall, 1991; Vargas-Terán et al., 2005). Em Porto Alegre (RS), o ápice de recuperação da mosca ocorreu durante o final do verão até o outono, e a menor, durante os meses de inverno e o início da primavera (Oliveira, 1986b). Da mesma, forma em Botucatu (SP), em estudo realizado com ovinos, miíases devido ao parasitismo por larvas de C. hominivorax foram observadas durante

todo o ano (Figura 64), porém com alta incidência durante os meses de verão e início do outono (janeiro-abril), coincidindo com o período de elevadas temperaturas e alta incidência de chuvas (Amarante et al., 1992; Madeira et al., 1998), resultado semelhante ao observado em bovinos na mesma região (Lello et al., 1982).

Figura 64 – Variação sazonal no número de casos de miíases por

Cochliomyia hominivorax em um rebanho de ovinos ao longo de

doze meses em Botucatu (SP) (Amarante et al., 1992)

 

Profilaxia

É possível prevenir a instalação de bicheiras por meio de práticas adequadas de manejo, bem como com a utilização de antiparasitários, produtos repelentes e cicatrizantes. Recomenda-se programar intervenções relacionadas ao manejo de ovinos e bovinos, tais como castração, marcação, descorna, corte de cauda, tosquia, entre outras, para a época de baixo parasitismo (Madeira et al., 1998). Além disso, os animais devem ser examinados com frequência.

Em animais parasitados, as larvas devem ser removidas, e suas feridas devem ser tratadas com urgência. Neste caso, o uso de inseticidas é indispensável. Entre os antiparasitários utilizados para a prevenção/controle da bicheira está a doramectina (Moya-Borja et al., 1993; 1997; Muniz et al., 1995a; Muniz et al., 1995b; Sanavria et al., 1996; Caproni Jr et al., 1998; Anziani et al., 2000), ivermectina (Benitez et al., 1997), fipronil (Lima et al., 2004), dicyclanil (Anziani et al., 1998), nitenpyram (Correia et al., 2010) e também os organofosforados coumaphos, ronnel, chlorpyrifos, chlorfenvinfos e trichlorfon (Moya-Borja, 2003). Muitas vezes, faz-se necessária a aplicação de antibióticos sistêmicos para evitar a ocorrência de infecções bacterianas secundárias, o que também facilita a cicatrização.

Considerações finais

Cochliomyia hominivorax é um parasita que acomete todos os animais de sangue quente e é considerado uma séria praga para os animais de produção, sendo responsável por significativas perdas na pecuária brasileira.

Qualquer ferida, por menor que seja, é atrativo para a mosca depositar os ovos. Os animais podem ser acometidos pela bicheira durante qualquer época do ano, mas a prevalência é mais elevada durante os meses quentes e chuvosos.

Embora a prevalência dessa parasitose no Brasil seja elevada, os estudos sobre a biologia e epidemiologia desse parasita no país são ainda insuficientes, e apenas com tal conhecimento é possível realizar trabalhos preventivos mais eficazes e até mesmo considerar a possibilidade de erradicação, assim como foi realizado nos países da América do Norte e da América Central.

Dermatobia hominis

Introdução

Dermatobia hominis (Díptera: Cuterebridae) é mais uma espécie de mosca produtora de miíase primária. Suas larvas, parasitas obrigatórios, produzem miíase furuncular, vulgarmente denominada berne, em uma ampla variedade de hospedeiros vertebrados, inclusive no homem (Cogley; Cogley, 1989).

A mosca D. hominis possui coloração azul-metálico, é ovípara e, após a cópula, deposita seus ovos no corpo de outros dípteros (foréticos), especialmente moscas ou mosquitos zoófilos que geralmente são encontrados frequentando bovinos e equinos. Durante o voo, a Dermatobia captura e imobiliza, com o auxílio das pernas, o inseto forético e então deposita seus ovos, em número variável, na extremidade lateroventral do abdome. Estes permanecem fortemente aderidos por uma substância cimentante que impede que os ovos sejam removidos do abdome dos insetos

foréticos (Figura 65). Os ovos são ligados aos vetores pela extremidade caudal e em posição inclinada, de forma que a extremidade cefálica fique em contato com a pele do hospedeiro quando o vetor pousar sobre este. Os ovos permanecem incubados no abdome do inseto forético e, após aproximadamente sete dias, darão origem a uma larva de primeiro estádio (L1). Quando o inseto forético pousa sobre um hospedeiro, a L1, estimulada pelo calor natural emanado pelo corpo do hospedeiro, abandona o ovo através de uma abertura opercular localizada na região anterior do ovo. A larva penetra ativamente pela pele do hospedeiro e invade o tecido subcutâneo, onde permanecerá de 35 a 42 dias, em média, período em que cresce, desenvolve e sofre duas mudas para larva de segundo e terceiro estádio (L2 e L3). No mesmo local de penetração da larva, é mantido um pequeno orifício, local por onde esta respira durante o desenvolvimento mantendo os espiráculos respiratórios posteriores voltados para o exterior. Ao atingir a maturidade, a L3 abandona o hospedeiro, saindo pelo mesmo orifício por onde penetrou, cai no solo, enterra-se e transforma-se em pupa, e esta, após um período de pupação que varia de 34 a 78 dias, dependendo das condições climáticas do ambiente, dará origem à mosca, reiniciando o ciclo (Banegas et al., 1967; Guimarães et al., 1983; Hall; Wall, 1995). No geral, em condições ótimas de temperatura e umidade, o ciclo pode se completar em oitenta dias (Banegas et al., 1967).

Figura 65 – Ovos de D. hominis aderidos ao abdome de Musca

domestica

 

Fotos gentilmente cedidas por José Henrique das Neves.

O formato piriforme da larva de D. hominis é uma das características que a diferenciam dos demais cuterebrídeos (Catts, 1982), assim como a presença e a disposição dos espinhos ao longo dos

segmentos corporais (Figura 66), sendo que dos doze segmentos que compõem o corpo da larva, apenas os quatro últimos não apresentam espinhos (Koone; Banegas, 1959).

Figura 66 – Larvas de Dermatobia hominis

 

O aparelho bucal, equipado com um par de ganchos orais (Figura

67), localiza-se no primeiro segmento do corpo da larva (ibidem). A L1 apresenta cutícula esbranquiçada e mede de 1 mm a 1,6 mm de comprimento por 0,3 mm a 0,6 mm de largura, possui apenas uma abertura respiratória em cada espiráculo posterior, e a região cefálica é levemente mais larga. Já a L2 apresenta crescimento larval evidenciado pelo intumescimento do segundo e terceiro segmentos torácicos e dos quatro primeiros abdominais, enquanto que os posteriores continuam alongados. A L3 madura apresenta cutícula amarelada, corpo ovoide e tamanho por volta de 2 cm de comprimento por 1 cm de largura (Lello et al., 1984), e nessa fase os espiráculos respiratórios posteriores, localizados no último segmento do corpo da larva, são projetados para fora e tornam-se bastante proeminentes (Koone; Banegas, 1959).

Figura 67 – Exemplar adulto de Dermatobia hominis

 

Não existem características morfológicas externas que diferenciem a larva que dará origem a macho ou fêmea, mas é possível realizar a distinção anatômica entre testículo e ovário em L3 com peso a partir de 400 mg (Lello et al., 1984). O tempo de parasitismo e o peso das larvas de D. hominis determinam o sexo da mosca adulta, sendo que as larvas que originam machos têm média de peso e tempo de parasitismo inferior à daquelas que originam fêmeas. Neste estudo, as larvas que originaram machos permaneceram no hospedeiro em média 37 dias e pesaram entre 400 mg e 650 mg, enquanto que as larvas que deram origem a fêmeas pesaram entre 550 mg a 810 mg e apresentaram duração média da fase parasitária de 42 dias (Ribeiro; Oliveira, 1983). Em bovinos, foi observado que a fase parasitária varia entre quarenta e sessenta dias, dependendo da época do ano, sendo que durante a estação seca o desenvolvimento das larvas pode levar até 120 dias (Guimarães et al., 1983). Em suínos infestados artificialmente, a duração média da fase parasitária foi de 44 dias, e nenhuma larva se desenvolveu nas infestações artificiais realizadas em equinos (Brito et al., 2001).

A L3 madura geralmente abandona o hospedeiro durante a noite ou nas primeiras horas da madrugada, dessa forma evita a ação abrasiva dos raios solares ou a ação de predadores diurnos (Catts, 1982; Ribeiro; Oliveira, 1983; Moya-Borja, 2003). Logo após cair no solo, a larva procura enterrar-se para dar início à fase de pupa. Se o solo estiver úmido e solto, a L3 penetra em aproximadamente dez minutos a quinze minutos, enquanto levará duas horas ou mais, caso o solo esteja compactado. Se a larva não conseguir penetrar no solo, pupará sobre ele, mas dessas pupas não emergirão adultos (Guimarães et al., 1983).

A pupa tem o formato semelhante ao da L3 madura, porém a última cutícula da larva endurece e escurece com o tempo, tornando-se quase preta no momento em que os adultos estão prontos para emergir (Koone; Banegas, 1959). Nos últimos dias de desenvolvimento das pupas, os testículos do macho já possuem espermatozoides maduros, e no momento da eclosão, os ovos estão totalmente desenvolvidos no ovário das fêmeas (Banegas; Mourier, 1967). A maioria dos adultos emerge no período da manhã, e entre uma hora e meia e quatro horas após a emergência já estão sexualmente maduros, aptos ao acasalamento (ibidem).

A mosca adulta (Figura 67) raramente é vista na natureza e tem por habitat locais úmidos, onde os arbustos e árvores apresentam crescimento denso, portanto, geralmente são encontradas em abundância nas margens de matas, florestas-galeria e plantações de Eucalyptus (Koone; Banegas, 1959; Guimarães et al., 1983). A mosca adulta D. hominis tem tamanho médio, com cerca de 12 mm de comprimento, tórax azul-metálico revestido de pelos escuros e cabeça com coloração amarela, escurecida na parte superior (Guimarães et al., 1983). A fecundidade da fêmea varia entre oitocentos e mil ovos, e a partir do segundo dia de vida adulta esta já realiza a postura de ovos viáveis (Catts, 1982).

Em condições naturais de campo, a mosca D. hominis é totalmente dependente de outros insetos, que funcionam como foréticos ou carreadores de ovos. O número de ovos nos foréticos varia de acordo com a espécie e as característica dos insetos, que no geral apresentam hábitos zoófilos, tamanho moderado e atividade diurna (Bates, 1943). Mais de cinquenta espécies de dípteros pertencentes a diversas famílias, tais como Muscidae, Calliphoridae, Sarcophagidae, Fanniidae, Culicidae, Tabanidae, entre outras, foram listados como foréticos (Bates, 1943; Guimarães et al., 1983; Ribeiro et al., 1985; Gomes et al., 1998). D. hominis pode realizar várias posturas (Guimarães et al., 1983), e, no geral, são encontrados de dez a oitenta ovos nos insetos foréticos (Banegas et al., 1967).

Os adultos possuem o aparelho bucal atrofiado, portanto, não se alimentam na natureza e sobrevivem das reservas acumuladas durante a fase larval (Sancho, 1988), consequentemente, o período de vida da mosca é curto, varia entre um e dezenove dias (Ribeiro; Oliveira, 1987; Oliveira, 1991). Além disso, a sobrevivência da mosca também é influenciada pela temperatura, sendo significativamente reduzida em temperaturas abaixo de 18 °C ou acima de 30 °C (Sancho, 1988).

Patogenia e sinais clínicos

A mosca D. hominis ou “mosca do berne” é considerada um dos ectoparasitas mais importantes da América Latina. Embora os prejuízos mais sérios sejam observados na bovinocultura, o berne também infesta ovinos, cães, suínos, animais silvestres e outros mamíferos, inclusive o homem (Roncalli, 1984; Hall; Wall, 1995). No homem, as larvas causam miíases dérmicas, palpebrais, oftalmomiíases, entre outras (Guimarães et al., 1983).

Ao penetrar no tecido subcutâneo do hospedeiro, o “berne”, como a larva é popularmente conhecida, permanece enquistado no ponto de entrada, mantendo um pequeno orifício pelo qual realiza a respiração, local onde também é observada reação inflamatória com produção de pus e outros exudatos (Banegas et al., 1967; Roncalli, 1984). Cerca de sete dias após a penetração da larva no tecido subcutâneo, o furúnculo já é notável, apresenta cerca de 1 cm de diâmetro e continua crescendo até o fim do desenvolvimento, medindo de 2 cm a 3 cm de diâmetro quando a L3 completa seu desenvolvimento (Barbosa et al., 2002).

Porém, tal reação inflamatória no local de penetração da larva aparentemente não inibe o desenvolvimento larval e também não resulta em aquisição de imunidade pelo hospedeiro em reinfestações subsequentes (Sancho, 1988). Durante a infestação pelo berne, é observada presença de grande quantidade de eosinófilos, basófilos e mastócitos degranulados, assim como a presença de imunoglobulinas (Oliveira-Sequeira et al., 1996; Lello et al., 1999; Lello; De Rosis, 2003). Porém, embora a resposta inflamatória seja intensa, não foi observada a morte das larvas (Lello et al., 1999), pois estas apresentam mecanismos de escape que as protegem da resposta imune do hospedeiro (Oliveira-Sequeira et al., 1996).

Na realidade, as secreções purussanguinolentas excretadas através das aberturas dos furúnculos atraem um maior número de insetos que podem estar carreando ovos de D. hominis, e, portanto, aumenta a possibilidade de reinfestação pelas larvas do berne (Moya-Borja, 2003). Além disso, o orifício deixado pelo berne é atrativo para a “mosca da bicheira” (Cochliomyia hominivorax) realizar a oviposição, sendo que a associação entre as infestações por tais parasitas é muito comum nos rebanhos bovinos e ovinos (Lello et al., 1982; Amarante et al., 1992; Madeira et al., 1998; 2000; Grisi et al., 2002).

Embora os animais parasitados apresentem inquietação constante, não foram observadas alterações significativas nos valores de hemograma, na temperatura corporal e nas frequências cardíaca e respiratória em bovinos jovens infestados com cerca de sessenta larvas de D. hominis (Barbosa et al., 2002; 2003). No geral, a evolução do parasitismo é benigna, mas a dermatobiose seguida de infecção secundária (bacteriana e/ou por outras miíases) pode resultar em morte do hospedeiro, especialmente em animais jovens (Koone; Banegas, 1959).

No geral, a região anterior do corpo dos animais (paleta, costelas e flanco) é a área mais parasitada (Lello et al., 1982; Pinto et al., 2002; Mozzaquatro; Sanavria, 2003; Fernandes et al., 2008), pois esse é o local onde o díptero forético pode pousar tranquilamente sem ser prontamente espantado pelos movimentos da cauda ou da cabeça do animal (Lello et al., 1982; Fernandes et al., 2008). Além disso, animais de pelagem escura são mais atacados que os de pelagem clara (Sancho, 1988; Sanavria et al., 2002). Provavelmente por apresentar maior absorção de calor, os animais de pelagem escura passam mais tempo sob a sombra de árvores, local onde geralmente há um grande número de moscas e mosquitos, alguns dos quais podem estar portando ovos de D. hominis, favorecendo o parasitismo (Marsden et al., 1979).

A dermatobiose é responsável por significativas perdas econômicas, principalmente na criação de bovinos. Na maioria dos países latinos, as perdas econômicas causadas pelo berne são desconhecidas (Moya-Borja, 2003), mas só no Brasil, os prejuízos devido à redução na produção de carne e leite, à desvalorização do couro e também aos gastos com mão de obra e produtos bernicidas podem alcançar US$ 250 milhões por ano (Grisi et al., 2002).

Epidemiologia A mosca D. hominis é uma espécie endêmica na região Neotropical. É encontrada desde o sul do México (24°N – 26°N) até o norte da Argentina (30°S – 32°S), exceto Chile (Hall; Wall, 1995). A presença do berne está associada com regiões que têm temperaturas moderadamente altas durante o dia e relativamente frias durante a noite, precipitação de mediana a abundante, vegetação densa e um número razoável de animais (Moya-Borja, 2003). Portanto, as condições climáticas do ambiente têm grande influência na epidemiologia da D. hominis. O comportamento sexual das moscas, por exemplo, é reduzido em temperaturas abaixo de 23 °C e praticamente não ocorre em temperaturas abaixo de 17 °C. Temperaturas entre 27 °C e 30 °C, assim como a presença de luz forte, foram consideradas ótimas para o acasalamento, pois nessas condições foi observada grande proporção de fêmeas inseminadas (Banegas; Mourier, 1967; Banegas et al., 1967).

Assim como a temperatura influencia a atividade sexual dos adultos, a temperatura e a umidade têm influência especialmente no desenvolvimento das pupas. Durante os meses de primavera e verão, período que coincide com a época mais quente e úmida do ano, o desenvolvimento da pupa é mais rápido (média de 35 dias) (Oliveira, 1991), período que também coincide com elevada incidência de diversas outras espécies de dípteros, potenciais vetores de ovos de D. hominis (Gomes et al., 1998), colaborando com o aumento do parasitismo nos animais nessas épocas do ano, conforme observado em várias regiões do Brasil, como São Paulo (Lello et al., 1982), Santa Catarina (Bellato et al., 1986), Rio de Janeiro (Brito; Moya-Borja, 2000), Paraná (Pinto et al., 2002), Rio Grande do Sul (Mozzaquatro; Sanavria, 2003) e Mato Grosso do Sul (Fernandes et al., 2008). Nos meses frios, o desenvolvimento das pupas é lento (média de 65 dias), por consequência, o parasitismo é mais baixo. No geral, as pupas que se enterraram no solo no final do outono atravessam o inverno em desenvolvimento, eclodindo no final dessa estação ou no início da primavera (Oliveira, 1991).

Embora o parasitismo seja muito mais abundante em bovinos, no estado de São Paulo D. hominis foi considerado o segundo ectoparasita mais frequente nos rebanhos ovinos, perdendo apenas para o parasitismo por larvas de C. hominivorax, sendo que a associação entre as infestações por tais parasitas é muito comum nos rebanhos ovinos, uma vez que o orifício deixado pela larva de D. hominis é atrativo para as moscas C. hominivorax realizarem a oviposição (Amarante et al., 1992; Madeira et al., 1998, 2000).

Profilaxia

O controle de D. hominis é feito pela aplicação de inseticidas, a fim de matar a larva no furúnculo e prevenir a reinfestação. Entre os antiparasitários mais utilizados e que apresentam alta eficácia para o controle/prevenção da dermatobiose está a ivermectina + abamectina (Borges et al., 2008), ivermectina (Roncalli; Usher, 1988; Leite et al., 1999; Borges et al., 2008) e a doramectina (Moya-Borja et al., 1993; Muniz et al., 1995; Leite et al., 1996; 1999; Borges et al., 2008). Os organofosforados, como o trichlorfon, também apresentam eficácia para o controle do parasitismo pelas larvas de D. hominis, mas infelizmente apresentam um período residual curto, o que obriga o tratamento dos animais com mais frequência (Moya-Borja, 2003).

Considerações finais

Dermatobia hominis é considerado um dos ectoparasitas mais importantes da América Latina e é responsável por significativas perdas econômicas, principalmente na criação de bovinos, devido à desvalorização do couro e redução na produtividade.

O parasitismo pelo berne é observado durante o ano todo, mas a prevalência é mais elevada durante os meses de primavera e verão, período em que são observados temperaturas e índices pluviométricos elevados.

O único método eficaz de controle do parasitismo disponível até o momento é a utilização de inseticidas. Porém, são necessários mais estudos sobre a biologia e epidemiologia desse parasita no Brasil a fim de investigar métodos menos dependentes de produtos químicos para o controle da dermatobiose.

Oestrus ovis

Introdução

Oestrus ovis L. (Diptera: Oestridae) é um parasita cosmopolita causador de miíase cavitária, e suas larvas são parasitas obrigatórios da cavidade nasal e seios paranasais de ovinos e caprinos (Zumpt, 1965). Devido à localização das larvas, recebe o nome vulgar de bicho da cabeça.

A mosca de O. ovis é vivípara e deposita larvas de primeiro estádio (L1) diretamente nas fossas nasais dos ovinos e caprinos. Estas colonizam as cavidades nasais, o septo, as turbinas e o etmoide, e, em seguida, mudam para larva de segundo estádio (L2) e migram para os seios frontais, onde irão completar seu desenvolvimento em larva de terceiro estádio (L3). As L3 maduras serão expelidas para o ambiente para o período de pupação, que acontece no solo. A pupa dará origem à mosca, e, após o acasalamento, as fêmeas grávidas procuram os ovinos para depositar as larvas, reiniciando o ciclo (ibidem).

O desenvolvimento das larvas na cavidade nasal do hospedeiro, bem como a atividade da mosca no ambiente, é muito influenciado pelas condições climáticas (Cobbett; Mitchell, 1941). O desenvolvimento larval pode variar entre 25 dias e 35 dias, podendo estender-se até nove meses, dependendo da estação do ano e das condições climáticas da região (Hall; Wall, 1995). O comprimento da larva e a coloração/tamanho dos espiráculos, por onde as larvas respiram, são um dos parâmetros utilizados para classificar as fases

de desenvolvimento em L1, L2 ou L3 (Figura 68) (Cepeda-Palacios et al., 1999).

Figura 68 – Larvas de Oestrus ovis em diferentes fases de

desenvolvimento (vista dorsal)

 

As larvas de O. ovis não são hematófagas, elas alimentam-se de fluídos extracorporais, como o muco produzido devido ao processo inflamatório que o parasitismo causa (Frugère et al., 2000; Tabouret et al., 2003a). Embora seus ganchos e espinhos danifiquem as membranas nasais, a nutrição larval não é apenas mecânica, mas está relacionada principalmente a um processo bioquímico e grande liberação de óxido de nitrogênio. Proteases estão presentes nos produtos de excreção/secreção das larvas de O. ovis e participam da pré-digestão extracorporal de proteínas, as quais são utilizadas na alimentação das larvas (Angulo-Valadez et al., 2010).

A L1, ainda com cerca de 1mm de comprimento, é depositada na cavidade nasal dos ovinos, e possui ganchos orais relativamente

pequenos e espiráculos posteriores não pigmentados (Figura 69). A muda de L1 para L2 ocorre quando o parasita atinge cerca de 4 mm de comprimento. Nessa fase, os espiráculos começam a ficar visíveis na cutícula da L1.

Figura 69 – Vista ventral da larva de primeiro estádio (L1) de

Oestrus ovis

 

O comprimento da L2 varia entre 4 mm e 10 mm, e nessa fase os espiráculos posteriores são visíveis, inicialmente com coloração

variando entre o amarelo-alaranjado até o marrom-escuro (Figura

70).

Figura 70 – Detalhe da região posterior da larva de segundo estádio

(L2) de Oestrus ovis, onde estão localizados os espiráculos

respiratórios

A L3 possui comprimento entre 10 mm e 22 mm, e os espiráculos apresentam coloração marrom-escuro. Conforme a maturação, a L3 começa a apresentar listas dorsais pretas e muda de cor, do branco para a cor creme e depois marrom-claro, até ficar com o corpo totalmente escuro, e então estará pronta para ser expelida pelo

hospedeiro e pupar no solo (Figura 71).

Figura 71 – Larva de terceiro estádio (L3) de Oestrus ovis em

diferentes fases de desenvolvimento (A, B e C); espiráculos

respiratórios localizados na região posterior do corpo da larva (D)

 

A mosca adulta tem coloração acinzentada e possui cerdas e

manchas escuras pelo corpo, o que facilita a camuflagem (Figura

72). Além disso, voa rápido e possui olhos grandes, o que facilita a localização de seus hospedeiros, bem como de um parceiro para a reprodução. A vida dos adultos é curta, pois não possuem peças bucais funcionais, e, portanto, não se alimentam no ambiente e dispõem apenas das reservas energéticas acumuladas durante a fase larval, que acontece no aparelho nasal do hospedeiro (Angulo-Valadez et al., 2010). As fêmeas albergam cerca de quinhentas larvas e são capazes de infestar vários ovinos/caprinos durante seu curto período de vida (Cobbett; Mitchell, 1941). Além disso, machos e fêmeas emergem do pupário já sexualmente maduros, prontos para o acasalamento (Angulo-Valadez et al., 2010), adaptação que favorece na economia de energia.

Figura 72 – Vista dorsal da mosca adulta de Oestrus ovis

 

Patogenia e sinais clínicos

A oestrose ou “bicho da cabeça”, como a enfermidade é comumente conhecida, afeta o bem-estar e o desempenho produtivo dos animais parasitados, resultando em significativas perdas econômicas (Alcaide et al., 2003), como redução no ganho em peso (Horak; Snijders, 1974) e diminuição de até 9% na produção de leite (Dorchies et al., 2003). No Brasil inexistem estimativas sobre os prejuízos econômicos causados pela oestrose na ovinocultura.

Os distúrbios causados por esse parasita começam no momento da postura das larvas, pois a mosca irrita os animais, que deixam de se alimentar para tentar proteger-se de seus ataques, escondendo o focinho no solo ou entre a lã de outros carneiros, balançando a cabeça e espirrando (Zumpt, 1965). Por sua vez, as larvas, pelos seus ganchos e espinhos, irritam e causam danos à mucosa nasal, provocando inflamação, acompanhada de produção de exsudato

mucoso (Figura 73), que, além de dificultar a respiração, pode induzir infecções secundárias (Dorchies et al., 1998). O parasitismo pelas larvas de O. ovis causa rinite e sinusite nos animais, e o acúmulo de muco nasal e os espirros frequentes são os principais sinais clínicos da infestação pelas larvas desse parasita em ovinos e caprinos (Angulo-Valadez et al., 2011).

Figura 73 – Ovelhas da raça Bergamacia com corrimento nasal

mucopurulento, sinal clínico característico do parasitismo por larvas

de Oestrus ovis

Vale ressaltar que, ao longo de três anos de estudos sobre O. ovis, apesar da elevada prevalência e intensidade de infestação, não foram observados ovinos com sintomatologia nervosa, pneumonia ou mortalidade de animais devido a oestrose (Silva et al., 2012a; 2012c). Além disso, embora em muitos casos seja observado um grande número de larvas parasitando os animais, nem todos apresentam sinais clínicos de oestrose (Angulo-Valadez et al., 2011; Silva et al., 2012a). Em contraste, alguns animais apresentam sinais clínicos severos, mesmo quando parasitados por poucas e até mesmo nenhuma larva de O. ovis (Angulo-Valadez et al., 2011). Esse fato é atribuído à variabilidade genética entre os animais, que tem influência nas reações imunológicas de hipersensibilidade (idem, 2008). Como exemplo, em um rebanho ovino de uma propriedade em Botucatu (SP), a porcentagem máxima de animais que apresentaram sinais clínicos durante os três anos de estudo foi

de 20% (Figura 74). No geral, os animais apresentaram sinais clínicos leves, como dispneia e corrimento nasal seroso (Silva, 2012).

Figura 74 – Porcentagem média de ovinos que apresentaram sinais

clínicos de oestrose em uma propriedade localizada em Botucatu

(SP) (202 animais)

 

Médias obtida em três anos de estudo, adaptado de Silva (2012).

Casos de mortalidade muitas vezes são atribuídos de forma indevida ao parasitismo por larvas de O. ovis. No geral, a evolução do parasitismo é benigna. Como as larvas são facilmente visualizadas e podem ser encontradas em grande número nos seios nasais e frontais dos animais parasitados, induzem os ovinocultores a atribuir a esses parasitas a mortalidade de ovinos. A causa da morte de ovinos decorre principalmente das infecções por outros patógenos, como o parasitismo por nematódeos gastrintestinais, que, apesar de apresentarem dimensão reduzida, o que dificulta a visualização, são muito mais patogênicos.

Resposta imunológica

As infecções parasitárias caracterizam-se por estimular inúmeros mecanismos imunológicos de defesa, sejam eles mediados por anticorpos ou por células, e a eficiência da resposta imunológica depende do parasita em questão e do estágio da infecção.

A presença das larvas de O. ovis na cavidade nasal dos ovinos induz resposta imunológica celular, com recrutamento de leucócitos (linfócitos T e B, macrófagos) e granulócitos (eosinófilos, mastócitos e leucócitos globulares) na mucosa do trato nasal, e resposta imune humoral local e sistêmica com produção de imunoglobulina G (IgG), imunoglobulina A (IgA) e imunoglobulina E (IgE), as quais são encontradas no soro e/ou muco nasal dos ovinos parasitados (Tabouret et al., 2003b; Silva et al., 2012b; 2012c), o que sugere uma resposta imunológica tipo Th2 (Angulo-Valadez et al., 2011), similar ao que é observado na resposta imune contra o parasitismo por nematódeos gastrintestinais (Anthony et al., 2007; Rowe et al., 2008).

Em estudo realizado em Botucatu (SP), no período de setembro a dezembro de 2009, foi observado que os níveis séricos de IgG antiextrato bruto (Antígeno I) e produtos excretórios/secretórios (Antígeno II) de larvas de segundo estádio de O. ovis foram praticamente zero em cordeiros recém-desmamados, com dois meses de idade, provavelmente porque os animais não haviam tido contato prévio com o parasita. Porém, a partir do segundo mês de experimento, alguns cordeiros começaram a apresentar sinais clínicos de oestrose, coincidindo com o início do aumento gradativo dos níveis séricos de IgG, que se estendeu até o fim do estudo

(Figura 75). Na necropsia, larvas foram recuperadas de todos os animais, e foi observado que, paradoxalmente, quanto maior os níveis séricos de IgG anti-O. ovis, maior era o número de larvas recuperadas. Ou seja, a produção de imunoglobulinas aparentemente não conferiu proteção contra a infestação (Silva et al., 2012b).

Figura 75 – Níveis séricos médios de IgG antiextrato bruto de L2 de Oestrus ovis (Antígeno I) e antiprodutos excretórios e secretórios de L2 de O. ovis (Antígeno II) em cordeiros naturalmente infestados por

larvas de O. ovis, no período de 23 de setembro de 2009 a 2 de

dezembro de 2009

 

Barras = erro padrão.

Adaptado de Silva et al. (2012b).

Os principais sinais clínicos da infestação, tais como corrimento nasal e espirros frequentes, são imunologicamente mediados, ou seja, dependem da aquisição de imunidade do hospedeiro contra o parasita. Esses sintomas são mais intensos em alguns animais, o que é um indicativo de reação de hipersensibilidade, provocada provavelmente pelas moléculas excretadas e secretadas pelas larvas de O. ovis (Dorchies et al., 1998; Jacquiet et al., 2005). Em animais com esses sinais clínicos, as larvas, especialmente as L1 na cavidade nasal, podem ficar presas no muco, serem asfixiadas e expulsas do hospedeiro (Angulo-Valadez et al., 2011). Estudos sugerem que as larvas de O. ovis utilizam estratégias imunossupressoras, tais como inibição da proliferação de linfócitos específicos e degradação de imunoglobulinas, para evitar os mecanismos de defesa do hospedeiro (Tabouret et al., 2003a; Jacquiet et al., 2005; Duranton et al., 1999).

A resposta inflamatória causada pelas larvas de O. ovis parece estar relacionada com a regulação da carga parasitária, pois promove inibição no desenvolvimento larval (Frugère et al., 2000; Jacquiet et al., 2005). Como exemplo, a carga parasitária de O. ovis foi similar entre cordeiros Ile de France e Santa Inês, e todos os diferentes ínstares larvais foram recuperados de ambas as raças, porém, a proporção de L1 foi maior nos cordeiros da raça Santa Inês. Possivelmente, houve um retardo no desenvolvimento das larvas devido à resposta imunológica mais intensa dos animais Santa Inês, comparada aos Ile de France (Silva et al., 2012c). Além disso, foi observado que os linfócitos de ovinos previamente infestados não responderam à estimulação com antígenos específicos (produtos excretórios e secretórios de L2 e L3) após a terceira infestação. Ou seja, a capacidade de resposta dos linfócitos diminui de acordo com o número de exposições, sugerindo imunossupressão induzida pelo parasita (Jacquiet et al., 2005) ou, talvez, desenvolvimento de tolerância pelo hospedeiro.

Foi observado que em ovinos imunossuprimidos, que receberam tratamento com corticoide, o desenvolvimento larval foi mais rápido, comparado com o controle que não recebeu tratamento. Comparando o grupo imunossuprimido com o grupo de ovinos que haviam sido previamente parasitados pelas larvas, o estabelecimento larval foi similar, porém as larvas do grupo imunossuprimido tiveram peso mais elevado (ibidem). Vale ressaltar que O. ovis só se alimenta durante a fase de vida parasitária, enquanto larva, e, portanto, a redução do peso da larva madura pode comprometer a viabilidade da mosca (Cepeda-Palacios et al., 2000).

Portanto, esses estudos demonstram que, apesar de os ovinos sofrerem sucessivas infestações pelas larvas de O. ovis, a aquisição de resistência é pouco eficiente, oposto do que é observado no parasitismo por nematódeos gastrintestinais. Possivelmente, a interação parasita-hospedeiro é mais bem balanceada no caso de O. ovis, cuja infestação dos animais ocorre sem causar doença aguda, enquanto que é menos equilibrada nas infecções por nematódeos gastrintestinais, que frequentemente causam infecção aguda e morte em ovinos (Silva et al., 2012b). Porém, a resposta imunológica contra O. ovis pode ao menos manter o parasitismo sob relativo controle, regulando a carga parasitária ou afetando o crescimento das larvas, e, por consequência, a viabilidade das moscas.

Epidemiologia

Oestrus ovis é um parasita distribuído mundialmente, mas a atividade da mosca no ambiente, o desenvolvimento larval no aparelho nasal do hospedeiro, bem como o período de pupa, que ocorre no solo, sofrem grande influência das condições climáticas.

Os principais fatores climáticos que influenciam a atividade dos oestrídeos são a temperatura, luminosidade e velocidade do vento, mas no caso do O. ovis, a temperatura é fator determinante para a larviposição (Cepeda-Palacios; Scholl, 2000). Em Baja California Sur, México, onde a temperatura diurna durante a primavera varia entre 9 °C e 35 °C, foi observado que a atividade da mosca teve início quando a temperatura mínima ultrapassou os 20 °C, mas a “temperatura ótima” para a larviposição variou entre 26 °C e 28 °C. Porém, O. ovis, por um processo adaptativo, pode ajustar-se às características climáticas da região onde habita, e essa “temperatura ótima” pode ser diferente, dependendo da região estudada (ibidem). Mas, no geral, os ataques da mosca acontecem principalmente durante o período mais quente do dia.

Cobbett e Mitchell (1941) foram pioneiros em descrever a influência do clima na epidemiologia de O. ovis. Entre muitas descobertas, os pesquisadores observaram que durante o inverno o desenvolvimento larval na cavidade nasal dos animais é lento e que em locais onde o inverno é muito rigoroso, característico de regiões com clima temperado, a L1 cessa o desenvolvimento e entra em estado de hipobiose. Ou seja, não há desenvolvimento larval nesse período até que as condições climáticas voltem a ser favoráveis para o desenvolvimento. Da mesma forma, em países com clima muito quente, o desenvolvimento larval também é interrompido durante o período seco (Dorchies et al., 1998). Essa é uma das estratégias que podem assegurar a perpetuação do O. ovis em regiões em que as condições climáticas são extremas durante algum período do ano.

Devido a essa grande influência do clima no desenvolvimento das larvas de O. ovis, a prevalência e intensidade de infestação é variável de acordo com o país ou região estudada, como pode ser

observado na Tabela 21, bem como a prevalência dos diferentes ínstares larvais recuperados da cavidade nasal dos animais parasitados.

Tabela 21 – Prevalência e intensidade de infestação por larvas de

Oestrus ovis em ovinos

Local N* Prevalência Intensidade Referência

Canadá 698 50% 2,5 Fallis

(1940)

Estados 720 91,5% 25,6 Meleney et Unidos al. (1962)

Nova 1.083 65,8% 3,1 Kettle Zelândia (1973)

África do 542 73,4% 15,2 Horak Sul (1977)

Zimbábue 507 21,9% 1,1 Pandey

(1989)

França 555 65% 24,8 Yilma e (sudeste) Dorchies

(1991)

Itália 841 55,8% 9,4 Caracappa (Sicilia) et al.

(2000)

França 631 43,4% 10,8 Dorchies et (sul) al. (2000)

Etiópia 248 77,4% 12,7 Yilma e

Genet

(2000)

Itália 566 91% 19 Scala et al. (Sardenha (2001) )

Espanha 477 71,1% 18,5 Alcaide et (sudeste) al. (2003)

Nigéria 116 62,1% 9,2 Oniye et al. (norte) (2006)

Turquia 624 59% 23,9 Uslu e Dik (Konya) (2006)

Turquia 387 40,3% 4,5 Arslan et (Kars) al. (2009)

Irã 2.002 49,7% 6,3 Shoorijeh (Shiraz) et al.

(2009)

Espanha 120 84,2% 37,9 Gracia et (nordeste) al. (2010)

*N = número de cabeças de ovinos examinadas, provenientes de

abatedouros.

Em locais com clima temperado, como a região sul da França (idem, 2000) e região nordeste da Espanha (Gracia et al., 2010), as L1 foram predominantes durante o ano de estudo, constituindo respectivamente 85,1% e 78,4% da carga parasitária total. O oposto foi observado na Sicilia, Itália (Caracappa et al., 2000) e na região sudeste da Espanha (Alcaide et al., 2003), onde todos os diferentes ínstares larvais foram simultaneamente recuperados durante o ano de estudo e em proporções similares. Na Sicilia, por exemplo, a proporção de L1, L2 e L3 foi respectivamente, 41,4%, 29,1% e 29,6%, o que indica que as condições climáticas da região estudada foram favoráveis para o desenvolvimento larval. Porém, em ambos os estudos, durante os meses frios, foi observado um período de desenvolvimento lento, quando a proporção de L1 predominou sobre os demais estádios larvais.

No Brasil, apesar da crescente observação de animais com sinais clínicos de oestrose, há poucos estudos epidemiológicos sobre essa enfermidade. Na região Sul foi observado que as condições climáticas foram favoráveis para a atividade da mosca de O. ovis e desenvolvimento larval na cavidade nasal dos ovinos em praticamente todos os meses do ano (Ribeiro et al., 1990; Ramos et al., 2006).

Em Bagé (RS), das 144 cabeças de ovinos examinadas durante o período de um ano, 85,4% estavam parasitadas, e 1.639 larvas foram recuperadas, sendo que destas, 68,6% eram L1; 12,3%, L2; e 18,9%, L3 (Ribeiro et al., 1990). Em Encruzilhada do Sul (RS), a prevalência foi de 100% em animais abatidos com sinais clínicos de oestrose, com intensidade média de infestação de 23,8 larvas/animal, e a prevalência de L1, L2 e L3 foi respectivamente de 78,9%, 14,5% e 6,6% (Oliveira et al., 1999). Já em estudo realizado em Santa Catarina, quando as temperaturas médias foram inferiores a 9,8 ºC, não foram constatadas larvas de O. ovis em animais traçadores (Ramos et al., 2006).

Pesquisas recentes sobre a epidemiologia de O. ovis foram realizadas no estado de São Paulo. Em Botucatu, foi observado que a evolução e desenvolvimento de O. ovis ocorre praticamente durante o ano inteiro, mas a infestação é mais frequente nos meses

de primavera e verão (Figura 76). Nesse estudo, realizado durante três anos consecutivos, a intensidade média de infestação em cordeiros foi de 16,8 larvas/cabeça, com média de 7,8, L1; 5,3, L2; e 3,7, L3 (Silva et al., 2012a). Larvas de O. ovis também foram recuperadas de ovinos criados em Itápolis, Ibitinga, Borborema, Guarantã e Tapinas, municípios da região central do estado de São Paulo (idem, 2013). Na região norte do Mato Grosso também foi registrada a ocorrência de animais com sinais clínicos de oestrose, e larvas foram recuperadas dos ovinos necropsiados (Schenkel et al., 2012).

Figura 76 – Número médio de larvas de Oestrus ovis recuperadas

de cordeiros traçadores em Botucatu (SP)

 

Médias referentes a três anos de estudo, adaptado de Silva et al.

(2012a).

Soroprevalência

No geral, o diagnóstico de oestrose é baseado em sinais clínicos e na detecção das larvas post mortem, porém, estudos demonstram que o teste ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay) é sensível para detecção de anticorpos específicos anti-O. ovis, utilizando antígenos totais ou produtos excretórios e secretórios das larvas (Papadopoulos et al., 2001; Alcaide et al., 2005a; Angulo-Valadez et al., 2008).

Alguns estudos, além de avaliarem a prevalência por sorologia, também avaliaram fatores de risco associados com a oestrose. Em Yucatan, México, 30% dos ovinos avaliados estavam soropositivos para O. ovis, e o tamanho do rebanho (> 25 animais) e a cor do focinho do ovino (escuro) foram associados como fatores de risco para a ocorrência da enfermidade (Murguia et al., 2000). Já na região sudeste da Alemanha, a prevalência de anticorpos foi de 50% nos ovinos examinados, e o tamanho do rebanho (> 50 animais) foi o único fator de risco associado com a oestrose (Bauer et al., 2002).

De 551 fazendas estudadas na região sudeste da Espanha, apenas dezoito estavam livres de animais soropositivos, e em 115 todos os animais foram soropositivos para O. ovis. A prevalência média de animais soropositivos foi de 69,3%, e foi observado que o tamanho do rebanho (> 250 ovinos) e a densidade da população ovina (> 100 ovinos por km 2) foram importantes fatores de risco para a ocorrência desse parasita na região estudada (Alcaide et al., 2005b).

Ovino x Caprino

Tanto ovinos como caprinos são parasitados por O. ovis, mas a prevalência do parasitismo é menor nos caprinos do que em ovinos. Em Pézenas, região sul da França, a prevalência, os sinais clínicos da infestação e a carga parasitária de O. ovis foram menores em caprinos do que em ovinos (Dorchies et al., 2000). Da mesma forma, na Grécia, a prevalência de animais com anticorpos específicos anti-O. ovis foi menor em caprinos, comparada aos ovinos (Papadopoulos et al., 2001; 2006).

Há algumas hipóteses para essa diferença no parasitismo por O. ovis entre caprinos e ovinos. Supõe-se que os caprinos sejam mais sensíveis aos ataques da mosca e que consigam evitar o contato com esta de forma mais eficiente do que os ovinos (Dorchies et al., 1998; Angulo-Valadez et al., 2010). Acredita-se também que a relação parasita-hospedeiro seja mais antiga entre caprinos e O. ovis, em comparação com ovinos. Esse período mais longo de coevolução talvez tenha tornado os caprinos mais bem adaptados ao parasitismo (Angulo-Valadez et al., 2010).

Interação entre a infestação por O. ovis e a infecção por nematódeos gastrintestinais

Comumente os animais são parasitados por vários organismos simultaneamente. Esse é o caso dos ovinos, que usualmente são parasitados por nematódeos gastrintestinais e por larvas de O. ovis. Vários trabalhos foram realizados a fim de avaliar a interação entre a infestação por larvas de O. ovis e as infecções com nematódeos gastrintestinais, como a interação entre O. ovis e o parasita do intestino delgado Trichostrongylus colubriformis (Yacob et al., 2002; 2004; 2006) ou o parasita do abomaso Haemonchus contortus (Dorchies et al., 1997b; Terefe et al., 2005).

Nesses trabalhos, os ovinos foram divididos em quatro grupos de animais: infectados apenas com larvas de O. ovis; infectados apenas com nematódeo gastrintestinal (T. colubriformis ou H. contortus); ovinos infectados com ambos os parasitas; e grupo-controle, que permaneceu livre de infestações/infecções pelos referidos parasitas. Os pesquisadores observaram que a infecção no trato digestivo por nematódeos não modificou a biologia da população de Oestrus na cavidade nasal. Já a presença do O. ovis foi relacionada com significativa redução na eliminação de ovos pelos helmintos, redução no tamanho e fecundidade das fêmeas e na carga parasitária. Essas mudanças foram associadas com eosinofilia e significativas modificações na população tecidual de mastócitos, leucócitos e eosinófilos nos tratos respiratório e digestivo. Com base nesses resultados, foi observado que a infecção parasitária em uma determinada região anatômica provoca “a distância” reações inflamatórias em todo o sistema de mucosa, pois foram observadas mudanças na população celular tecidual em região anatômica que não estava parasitada.

Cordeiros das raças Ile de France e Santa Inês também apresentaram menor carga parasitária de vermes quando naturalmente infestados por larvas de O. ovis (Silva et al., 2012c). Porém, apesar de existir correlação negativa entre o parasitismo por O. ovis e nematódeos gastrintestinais, a regulação é de natureza transitória e desaparece quando as larvas de O. ovis são expelidas pelo hospedeiro ou após tratamento com antiparasitário. O mecanismo envolvido na regulação não é específico e está relacionado com forte ativação dos eosinófilos sanguíneos que agem de forma inespecífica sobre os vermes (Yacob et al., 2006).

Profilaxia

O controle do parasitismo por O. ovis é feito exclusivamente com o uso de antiparasitários, tais como os organofosforados (triclorfon), closantel e as lactonas macrocíclicas, como a ivermectina (Dorchies et al., 1997a; Lucientes et al., 1998), moxidectina (Dorchies et al., 1996), doramectina (Oliveira et al., 2000; Dorchies et al., 2001), eprinomectina (Hoste et al., 2004; Habela et al., 2006) e também rafoxanida (Sanyal et al., 1986) e nitroxinil.

Considerações finais

Apesar da elevada prevalência e intensidade de infestação observada mundialmente, a oestrose pode ser considerada uma enfermidade de caráter benigno. Porém, existe grande carência de estudos sobre o impacto da oestrose na produtividade dos ovinos parasitados. São poucos os estudos epidemiológicos sobre esse parasita no Brasil, e apenas com tal conhecimento é possível predizer quais os fatores climáticos que favorecem a infestação, bem como recomendar a melhor estratégia para a profilaxia da enfermidade.

 

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1 Capítulo de autoria de Bruna Fernanda da Silva. Bióloga, com mestrado (2007) e doutorado (2012) pelo curso de pós-graduação em Biologia Geral e Aplicada, área de concentração Biologia de Parasitas e Microrganismos, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus de Botucatu. Atualmente é docente e pesquisadora no programa de mestrado em Ambiente e Saúde da Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac). Tem experiência na área de Parasitologia, com ênfase em parasitas de ovinos.

2 A Técnica do Inseto Estéril, ou “Sterile Insect Technique – SIT”, consiste em produzir machos estéreis no laboratório e soltá-los na natureza. Esses machos devem se manter aptos a copular com as fêmeas férteis, que por consequência produzirão ovos inférteis. O sucesso dessa técnica se dá com a liberação contínua desses machos estéreis na natureza, bem como com a capacidade de estes acasalarem com a maior proporção possível de fêmeas férteis, levando a população de moscas à extinção.