Os Simples

Guerra Junqueiro · Capítulo 10 de 18

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Os Simples

Capítulo V

 

*CANÇÃO PERDIDA*

 

CANÇÃO PERDIDA

 

Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,

Roxas macerações de dor e d'agonia,

O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…

Triste, canta uma voz na sincope do dia:

Alguem de mim se não lembra

Nas terras d'alem do mar…

Ó Morte, dava-te a vida,

Se tu lha fosses levar!…

Ó Morte, dava-te a vida,

Se tu lha fosses levar!…

Com o beijo do sol na face cadaverica,

Beijo que a morte esvae em palidez algente, Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…

Doce, canta uma voz melancolicamente:

O meu amor escondi-o

N'uma cova ao pé do mar…

Morre o amor, vive a saudade…

Morre o sol, olha o luar!…

Morre o amor, vive a saudade…

Morre o sol, olha o luar!…

Latescente a neblina opalica flutua,

Diluindo, evaporando os montes de granito Em colossos de sonho, extasiados de lua…

Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

Quem dá ais ó rouxinol,

Lá para as bandas do mar?…

É o meu amor que na cova

Leva as noites a chorar!…

É o meu amor que na cova

Leva as noites a chorar!…

A lua enorme, a lua argentea, a lua calma, Imponderalisou a natureza inteira,

Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…

Triste expira uma voz na canção derradeira:

Ó meu amor, dorme, dorme

Na areia fina do mar, Que em antes da estrella d'alva

Comtigo me irei deitar!…

Que em antes da estrella d'alva

Comtigo me irei deitar!…

Maio—91.