Os Simples

Guerra Junqueiro · Capítulo 4 de 18

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Os Simples

Capítulo II

O Mendigo

Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama, Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!…

 

A Estrella D'Alva

Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos,

Por infernos deixas tua paz, teu lar!…

 

O Peregrino

(desaparecendo ao longe)

Florirei as pedras pelos maus caminhos!

Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!…

 

II

DE VOLTA

(Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando, esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão.)

 

Um Lavrador

(de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre)

Mendigo d'olhos sem esp'rança,

Vaes-te perder na escuridão…

Entra em meu lar; dorme, descança…

 

O Pobresinho

(andando sempre)

Quem dera a paz divina e mansa,

Velho, que tens no coração!…

 

Uma Velhinha

(a resar à porta do moinho)

Mendigo d'olhos sem ventura,

Dentro da azenha ha um enxergão;

Terás lençoes, terás fartura…

 

O Pobresinho

(andando sempre)

Eu só quizera essa candura,

Irmã da Graça e da Ilusão!…

 

Uma Camponeza

(que vem da vindima)

Mendigo d'olhos d'engeitado,

Na nossa casa ha vinho e pão;

E ha leite fresco; e ha mel doirado…

 

O Pobresinho

(andando sempre)

Tua alegria sem cuidado,

Eis o que eu busco… em vão! em vão!…

 

Uma Pastorinha

Mendigo d'olhos de coveiro,

Trago a merenda no surrão;

O queijo é bom, mas é grosseiro…

 

O Pobresinho

(andando sempre)

Dá-me o teu riso feiticeiro,

Lirio do monte inda em botão!

 

Um Pedinte

Mendigo d'olhos na agonia,

Dou-te o meu manto e o meu bordão;

Nada mais levo… a noite é fria…

O Pobrezinho

(andando sempre)

Apenas ai! desejaria

Tua cristã resignação!…

 

A Estrella Vesper

Ó sonhador louco d'outrora,

Teus sonhos lindos onde estão?!

Ebrio da luz, rico d'aurora,

Vi-te partir… e vejo agora

Um morto erguido d'um caixão!

Teus olhos fulvos namorei-os

De dia e noite, da amplidão:

Vi-os sorrir entre gorgeios,

Vi-os cantar e vi-os cheios

De pranto e febre e indignação!

Regressa emfim, é teu destino,

Á paz obscura, á submissão…

E outra vez meigo e pequenino

Deixa dormir, como um menino,

Teu velho e exhausto coração!…

 

O Pobresinho

(chorando)

Só tu, estrella, me conheces

Em minha dor, minha aflição!…

Só tu não dormes, não esqueces…

Só tu ouviste as minhas preces…

Bemdito, estrella, o teu clarão!

Setembro—91.