Os Simples

Guerra Junqueiro · Capítulo 12 de 18

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Os Simples

Capítulo VII

 

 

*O CAVADOR*

 

O CAVADOR

 

Dezembro, noite, canta o galo…

Rouco na treva canta o galo…

—Oh, dor! oh, dor!—

Aldeão não durmas!… Vae chamal-o,

Miseria negra, vae chamal-o!…

—Oh, dor! oh, dor!—

Bate-lhe á porta, é teu vassalo,

Que traga a enxada, é teu vassalo,

Miseria negra, o cavador!

O vento ulula… Tremem ninhos…

Na noite aziaga tremem ninhos…

—Oh, dor! oh, dor!—

A neve cae, fria d'arminhos…

Na escuridão, fria d'arminhos…

—Oh, dor! oh, dor!—

Passa maldito nos caminhos,

D'enxada ao hombro nos caminhos,

Fantasma negro, o cavador!

Vem roxa a estrella d'alvorada…

Vem morta a estrella d'alvorada…

—Oh, dor! oh, dor!—

Montanhas nuas sob a geada!…

Hirtas, de bronze, sob a geada…

—Oh, dor! oh, dor!—

Torvo, inclinado sobre a enxada,

Rasga as montanhas com a enxada.

Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou desde que é dia…

Cavou, cavou… Bateu meio dia…

—Oh, dor! oh, dor!—

De pé na encosta erma e bravia,

Triste na encosta erma e bravia,

—Oh, dor! oh, dor!—

Largando a enxada, «Ave Maria!…»

Resa em silencio… «Ave Maria!…»

Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou na serra agreste,

D'alva á noitinha em serra agreste…

—Oh, dor! oh, dor!—

E um caldo em premio tu lhe deste,

Meu Deos!… seis filhos tu lhe deste…

—Oh, dor! oh, dor!—

Batem trindades… «Pae celeste!… Bemdito sejas, Pae celeste!…»

Resa, fantasma, o cavador!

Cavou cem montes… que é do trigo?!

Gerou seis bocas… que é do trigo?!

—Oh, dor! oh, dor!—

Bateu a Fome ao seu postigo…

Bateu a Morte ao seu postigo…

—Oh, dor! oh, dor!—

«Que a paz de Deos seja comigo!

Que a paz de Deos seja comigo!…»

Disse, expirando, o cavador!

Junho—91.