Os Simples

Guerra Junqueiro · Capítulo 5 de 18

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Os Simples

Capítulo I

 

 

*A MOLEIRINHA*

 

A MOLEIRINHA

 

Pela estrada plana, toc, toc, toc,

Guia o jumentinho uma velhinha errante.

Como vão ligeiros, ambos a reboque,

Antes que anoiteça, toc, toc, toc,

A velhinha atraz, o jumentito adiante!…

Toc, toc, a velha vae para o moinho,

Tem oitenta anos, bem bonito rol!…

E comtudo alegre como um passarinho,

Toc, toc, e fresca como o branco linho,

De manhã nas relvas a córar ao sol.

Vae sem cabeçada, em liberdade franca, O gerico russo d'uma linda côr;

Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,

Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca

Com o galho verde d'uma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta, Toc, toc, toc, que recordação!

Minha avó ceguinha se me representa…

Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,

Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

Toc, toc, toc, lindo burriquito,

Para as minhas filhas quem m'o dera a mim! Nada mais gracioso, nada mais bonito!

Quando a Virgem pura foi para o Egipto,

Com certeza ia n'um burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!

Nascem as estrellas, vivas, em cardume… Toc, toc, toc, e quando o galo canta,

Logo a moleirinha, toc, se levanta,

P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume…

Toc, toc, toc, como se espaneja,

Lindo o jumentinho pela estrada chan!

Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja, Dá-me até vontade de o levar á egreja,

Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,

Toda, toda branca, vae n'uma frescata…

Foi enfarinhada, sorridente amiga,

Pela mó da azenha com farinha triga,

Pelos anjos loiros com luar de prata!…

Toc, toc, como o burriquito avança!

Que prazer d'outrora para os olhos meus! Minha avó contou-me quando fui creança, Que era assim tal qual a jumentinha mansa Que adorou nas palhas o menino Deos…

Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos, Moleirinha branca, branca de luar!…

Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,

Como estremunhados cherubins divinos, Os olhitos meigos para a ver passar…

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,

Entre os milhões d'astros o luar sem veo, O burrico pensa: Quanto milho loiro!

Quem será que moe estas farinhas d'oiro Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!…

Novembro de 1888.