Ou Isto ou Aquilo
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OU ISTO OU AQUILO
CECÍLIA MEIRELES
(Contra Capa) OU ISTO OU AQUILO é um dos mais belos e importantes livros de poesia para criança, nascida da extrema sensibilidade de Cecília Meireles.
Os poemas falam dos sonhos e fantasias que povoam o mundo infantil. A casa da avó, os jogos e brinquedos, os anjos, animais e flores ganham vida nos poemas suaves e musicais de Cecília Meireles. Em 1987, a Nova Fronteira lançou uma edição de luxo, com belas ilustrações de Fernando Correia Dias, neta de Cecília. Agora o livro aparece em uma nova edição destinada ao grande público e não menos bonita, com ilustrações de Beatriz Berman, artista plástica argentina radicada no Brasil e consagrada internacionalmente, tendo recebido, entre outros, o Prêmio de Desenho da Fundação Joan Miró, de Barcelona.
Este livro, publicado pela primeira vez em 1964, vem encantando sucessivas gerações e agrada não só às crianças, mas também aos jovens e adultos.
(Leitura de Orelha) Ao ler este livro, você vai sentir que os poemas falam, com um jeito muito especial, de coisas que você já viu, já pensou, já sentiu, já experimentou, ou principalmente, já imaginou. As palavras de Cecília Meireles parecem mágicas, cheias de música e idéias. O que torna o poeta diferente das outras pessoas é uma sensibilidade muito grande e um talento especial para lidar com as palavras: elas ficam mais emocionantes e agradáveis de se ouvir. Na verdade, o poeta brinca com as palavras, escolhendo-as como se perguntasse a si mesmo, a todo momento: "Esta ou aquela?" O poeta as escolhe até conseguir escrever um texto diferente, bonito, interessante.
Um bom exemplo do que é a arte da poesia está logo no primeiro poema deste livro, "Colar de Carolina". Além de procurar rimas -- como em menina e Carolina --, repare como Cecília Meireles escolheu palavras que não rimam, mas combinam muito bem. É o caso, por exemplo, de coral e colar que são formadas pelas mesmas letras. Em todo o poema parece que ela faz mágicas, principalmente com as consoantes, C, L, N, R, as mesmas encontradas nas palavras do título, colar e Carolina. Juntar palavras que as pessoas normalmente não juntam para formar uma idéia -
- como "prece de pelúcia" -- também faz parte da arte da poesia. Mas para o poeta, não basta apenas saber escolher bem as palavras: é preciso usá-las para comunicar alguma coisa, passar uma mensagem. Quando, por exemplo, Beatriz Berman fez os desenhos deste livro, suaves como a poesia de Cecília, ela precisou captar a mensagem de cada poema para poder fazer uma ilustração que também emocionasse.
Bem, você mesmo vai descobrir os encantos deste livro escrito por alguém que gostava de livros, histórias e palavras desde criança. "Quando eu ainda não sabia ler -- conta Cecília Meireles --, brincava com livros e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo." Como seus pais morreram muito cedo, Cecília foi criada pela avó, D. Jacinta, e pela Babá, Pedrinha. Eram elas que contavam histórias para a menina: a avó falava de fatos e lendas da terra de seus antepassados -- o arquipélago dos Açores --, e Pedrinha encantava a menina representando personagens, dançando e cantando, enquanto falava do Saci Pererê, de Mula-sem-cabeça e outras figuras do nosso folclore.
O amor de Cecília pela música fez com que ela estudasse conto, violão e violino. E, por gostar tanto de livros, acabou tornando-se uma professora dedicada às crianças, que ela amou muito especialmente.
E tudo o que ela escreveu é tão bom que vem passando de geração para geração, e ficamos na dúvida sobre o que é mais bonito: Será isto ou será aquilo?
Sumário
Introdução -
Colar de Carolina -
Pescaria -
Moda da menina trombuda -
O cavalinho branco -
Jogo de Bola -
Tanta tinta -
Bolhas -
Leilão de jardim -
Rio na sombra -
Os carneirinhos -
A bailarina -
O mosquito escreve -
A lua é do Raul -
Sonhos da menina -
O menino azul -
As meninas -
Rômulo rema -
As duas velhinhas -
O último andar -
Canção de Dulce -
A língua do nhem -
Cantiga da babá -
A avó do menino -
O vestido de Laura -
Enchente -
Roda na rua -
O eco -
Rola a chuva -
O menino dos FFe RR -
Uma palmada bem dada -
O tempo do temporal -
A flor amarela -
Canção da flor da pimenta -
Na sacada da casa -
O violão e o violão -
Procissão de pelúcia -
Sonhos de Olga -
Os pescadores e suas filhas -
Jardim da igreja -
Uma flor quebrada -
O sonho e a fronha -
A folha na festa -
O chão e o pão -
A égua e a água -
O passarinho no sapé -
A pombinha da mata -
Cantiga para adormecer Lulu -
Lua depois da chuva -
Pregão do vendedor de lima -
Figurinhas I -
Figurinhas II -
A chácara do Chico Bolacha -
Canção -
O lagarto medroso -
Para ir à lua -
O santo no monte -
Ou isto ou aquilo
INTRODUÇÃO
Você que vai ler este livro, não sei que idade terá. Não posso prever. Seja qual for, você terá uma surpresa, porque este é um livro mágico. Gostaria que você imaginasse a menina Cecília, sem pai nem mãe, apenas com sua avó Jacinta Garcia Benevides, debruçada sobre um tapete, descobrindo o mundo. Que tapete seria esse? Certamente parecido com esses que aparecem nas histórias orientais, com pássaros e flores, e muitos caminhos retorcidos onde ela imaginava o labirinto do sonho. As Solidão de menina, e da atenção sobre as coisas que passam, ou pelas quais passamos, se nutriu a poeta Cecília Meireles, que depois foi mãe, avó e mestra. Todas estas experiências estão neste livro, que é como aquele tapete povoado de mistérios. Cecília entendia as crianças. Transitou com leveza entre os netos que foram tão simples e curiosos como vocês. Foi colhendo uma coisa ali, outra acolá, um cachimbo dourado de cabelo, uma birra, até um pensamento triste, e transformou tudo em matéria de vida. Mas esta Cecília tinha um amor muito especial pela palavra. E resolveu brincar, fazer ciranda com os sons, entrelaçar os fatos com rimas ingênuas, musicar o pensamento. Leia em voz alta, sinta que está cantando. Estas coisas que hoje estão na boca de todo mundo, como medida de salvação, você pode encontrar neste livro. A paz, o amor, a solidariedade, até a solidão. Tudo é bom e bonito quando a gente acredita e pensa pra cima. Cecília também foi uma professora, mas sem regras fechadas.
Ensinar como abrir a cortina de um palco, onde a beleza paira na ponta do pé, e tudo tem razão de ser. Vocês não imaginam como era o sorriso de Cecília. Tinha uma doçura e uma tolerância que só a boa mestra pode ter. De tal forma que nem era preciso mostrar-se carrancuda ou severa. Ela sorria e a gente se iluminava, como se houvesse um sino perdido anunciando boas ovas. Então a gente aprendia sem muito esforço, valorizando o silêncio, aprendendo a ver, a jogar com as palavras, a descobrir um sentido novo em cada imagem. É com esta artimanha da inteligência ela ensinou coisas incríveis para crianças, como você que possivelmente me lê, e para adultos que um dia caíram na malha dourada do seu fascínio. Estou falando de poesia, estudando com aplicação a forma correta de colocar este livro em suas mãos, e de poder ajudar na descoberta de qualquer mínimo detalhe, desses que o respeito e o amor sempre conseguem revelar de forma nova. Tem um poema neste livro que me agrada sobremaneira. Ele se chama "O
Último Andar", e Cecília diz:
"No último andar é mais bonito: do último andar se vê o mar. É lá que eu quero morar."
Hoje Cecília mora prazerosamente no último andar, e deixou em suas mãos a música perfeita de sua canção.
Walmir Ayalaa Rio de Janeiro, 1990
Colar de Carolina
Com seu colar de coral, Carolina corre por entre as colunas da colina.
O colar de Carolina colore o colo de cal, torna corada a menina.
E o sol, vendo aquela cor do colar de Carolina, põe coroas de coral nas colunas da colina.