Ou Isto ou Aquilo

Cecília Meireles · Capítulo 15 de 15

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Ou Isto ou Aquilo

No claro jardim a menina chora pela…

Figurinhas I

No claro jardim a menina chora pela borboleta que se foi embora.

Ora, ora, ora, Não chore tanto!

Nossa Senhora!

A menina chora no claro jardim um choro sem fim.

Nem o céu azul é bonito, agora, pois a borboleta já se foi embora.

Não chore tanto!

Nossa Senhora!

Que choro sem fim a menina chora no claro jardim.

Ora, ora, ora!

 

Figurinhas II

Onde está meu quintal amarelo e encarnado, com meninos brincando de chicote-queimado, com cigarras nos troncos e formigas no chão, e muitas conchas brancas dentro da minha mão?

E Julia e Maria e Amélia onde estão?

Onde está meu anel e o banquinho quadrado e o sabiá na mangueira e o gato no telhado?

-- a moringa de barro, e o cheiro do alvo pão?

E a tua voz, Pedrina, sobre meu coração?

Em que altos balanços se balançarão?...

 

A chácara do Chico Bolacha

Na chácara do Chico Bolacha o que se procura nunca se acha!

Quando chove muito, O Chico brinca de barco, porque a chácara vira charco.

Quando não chove nada, Chico trabalha com a enxada e logo se machuca e fica de mão inchada.

Por isso, com Chico Bolacha, o que se procura nunca se acha.

Dizem que a chácara do Chico só tem mesmo chuchu e um cachorrinho coxo que se chama Caxambu.

Outras coisas, ninguém procura, porque não acha. Coitado do Chico Bolacha!

 

Canção

De borco no barco.

(De bruços no berço...)

O braço é o barco.

O barco é o berço.

Abarco e abraço o berço e o barco.

Com desembaraço embarco e desembarco.

De borco No berço...

(De bruços no barco...)

 

O lagarto medroso

O lagarto parece uma folha verde e amarela.

E reside entre as folhas, o tanque e a escada de pedra. De repente sai da folhagem, depressa, depressa olha o sol, mira as nuvens e corre por cima da pedra.

Bebe o sol, bebe o dia parado, sua forma tão quieta, não se sabe se é bicho, se é folha caída na pedra.

Quando alguém se aproxima,

-- oh! Que sombra é aquela? --

o lagarto logo se esconde entre folhas e pedra.

Mas, no abrigo, levanta a cabeça assustada e esperta: que gigantes são esses que passam pela escada de pedra?

Assim vive, cheio de medo, intimidado e alerta, o lagarto (de que todos gostam) entre as folhas, o tanque e a pedra.

Cuidadoso e curioso, o lagarto observa.

E não vê que os gigantes sorriem para ele, da pedra.

Assim vive, cheio de medo, intimidado e alerta, o lagarto (de que todos gostam) entre as folhas, o tanque e a pedra.

 

Para ir à Lua

Enquanto não têm foguetes para ir à Lua os meninos deslizam de patinete pelas calçadas da rua.

Vão cegos de velocidade: mesmo que quebrem o nariz, que grande felicidade!

Ser veloz é ser feliz.

Ah! se pudessem ser anjos de longas asas!

Mas são apenas marmanjos.

 

O santo no monte

No monte, o Santo em seu manto, sorria tanto!

Sorria para uma fonte que havia no alto do monte e também porque defronte se via o sol no horizonte.

No monte o Santo em seu manto chora tanto!

Chora – pois não há mais fonte, e agora há um moro defronte que já não deixa do monte ver o sol nem o horizonte.

No monte o Santo em seu manto chora tanto!

(Duro muro escuro!)

 

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo ...

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.

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Cecília Meireles

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