Ou Isto ou Aquilo
No claro jardim a menina chora pela…
Figurinhas I
No claro jardim a menina chora pela borboleta que se foi embora.
Ora, ora, ora, Não chore tanto!
Nossa Senhora!
A menina chora no claro jardim um choro sem fim.
Nem o céu azul é bonito, agora, pois a borboleta já se foi embora.
Não chore tanto!
Nossa Senhora!
Que choro sem fim a menina chora no claro jardim.
Ora, ora, ora!
Figurinhas II
Onde está meu quintal amarelo e encarnado, com meninos brincando de chicote-queimado, com cigarras nos troncos e formigas no chão, e muitas conchas brancas dentro da minha mão?
E Julia e Maria e Amélia onde estão?
Onde está meu anel e o banquinho quadrado e o sabiá na mangueira e o gato no telhado?
-- a moringa de barro, e o cheiro do alvo pão?
E a tua voz, Pedrina, sobre meu coração?
Em que altos balanços se balançarão?...
A chácara do Chico Bolacha
Na chácara do Chico Bolacha o que se procura nunca se acha!
Quando chove muito, O Chico brinca de barco, porque a chácara vira charco.
Quando não chove nada, Chico trabalha com a enxada e logo se machuca e fica de mão inchada.
Por isso, com Chico Bolacha, o que se procura nunca se acha.
Dizem que a chácara do Chico só tem mesmo chuchu e um cachorrinho coxo que se chama Caxambu.
Outras coisas, ninguém procura, porque não acha. Coitado do Chico Bolacha!
Canção
De borco no barco.
(De bruços no berço...)
O braço é o barco.
O barco é o berço.
Abarco e abraço o berço e o barco.
Com desembaraço embarco e desembarco.
De borco No berço...
(De bruços no barco...)
O lagarto medroso
O lagarto parece uma folha verde e amarela.
E reside entre as folhas, o tanque e a escada de pedra. De repente sai da folhagem, depressa, depressa olha o sol, mira as nuvens e corre por cima da pedra.
Bebe o sol, bebe o dia parado, sua forma tão quieta, não se sabe se é bicho, se é folha caída na pedra.
Quando alguém se aproxima,
-- oh! Que sombra é aquela? --
o lagarto logo se esconde entre folhas e pedra.
Mas, no abrigo, levanta a cabeça assustada e esperta: que gigantes são esses que passam pela escada de pedra?
Assim vive, cheio de medo, intimidado e alerta, o lagarto (de que todos gostam) entre as folhas, o tanque e a pedra.
Cuidadoso e curioso, o lagarto observa.
E não vê que os gigantes sorriem para ele, da pedra.
Assim vive, cheio de medo, intimidado e alerta, o lagarto (de que todos gostam) entre as folhas, o tanque e a pedra.
Para ir à Lua
Enquanto não têm foguetes para ir à Lua os meninos deslizam de patinete pelas calçadas da rua.
Vão cegos de velocidade: mesmo que quebrem o nariz, que grande felicidade!
Ser veloz é ser feliz.
Ah! se pudessem ser anjos de longas asas!
Mas são apenas marmanjos.
O santo no monte
No monte, o Santo em seu manto, sorria tanto!
Sorria para uma fonte que havia no alto do monte e também porque defronte se via o sol no horizonte.
No monte o Santo em seu manto chora tanto!
Chora – pois não há mais fonte, e agora há um moro defronte que já não deixa do monte ver o sol nem o horizonte.
No monte o Santo em seu manto chora tanto!
(Duro muro escuro!)
Ou isto ou aquilo
Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo ...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Você terminou Ou Isto ou Aquilo
Cecília Meireles