Ou Isto ou Aquilo
Seção 12
Enchente
Chama o Alexandre!
Chama!
Olha a chuva que chega!
É a enchente.
Olha o chão que foge com a chuva...
Olha a chuva que encharca a gente.
Põe a chave na fechadura.
Fecha a porta por causa da chuva, olha a rua como se enche!
Enquanto chove, bota a chaleira no fogo: olha a chama! Olha a chispa! Olha a chuva nos feixes de lenha!
Vamos tomar chá, pois a chuva é tanta que nem de galocha se pode andar na rua cheia!
Chama o Alexandre!
Chama!
Rola a chuva
O frio arrepia a moça arredia.
Arre que arrelia!
Na rua rola a roda...
Arreda!
A rola arrulha na torre.
A chuva sussurra.
Rola a chuva rega a terra rega o rio rega a rua.
E na rua a roda rola.
O menino dos FF e RR
O menino dos ff e rr é o Orfeu Orofilo Ferreira:
Ai com tantos rr, não erres!
Uma palmada bem dada
É a menina manhosa que não gosta da rosa,
que não quer a borboleta porque é amarela e preta, que não quer maçã nem pêra porque tem gosto de cera, que não toma leite porque lhe parece azeite,
que mingau não toma porque é mesmo goma,
que não almoça nem janta porque cansa a garganta, que tem medo do gato e também do rato,
e também do cão e também do ladrão,
que não calça meia porque dentro tem areia,
que não toma banho frio porque sente arrepio, que não quer banho quente porque calor sente, que a unha não corta porque sempre fica torta, que não escova os dentes porque ficam dormentes, que não quer dormir cedo porque sente imenso medo; que também tarde não dorme porque sente um medo enorme, que não quer festa nem beijo, nem doce nem queijo...
Ó menina levada, quer uma palmada?
Uma palmada bem dada para quem não quer nada!
O tempo do temporal
O tempo do temporal.
O tempo ao tempo ao ar e ao pó do temporal.
E o doente ao pé do templo.
E o temporal no poente.
E o pó no doente.
O tempo do doente.
O ar, o pó do poente.
O temporal do tempo.
A flor amarela
Olha a janela da bela Arabela.
Que flor é aquela que Arabela molha?
É uma flor amarela.
Canção da flor da pimenta
A flor da pimenta é uma pequena estrela, fina e branca, a flor da pimenta.
Frutinhas de fogo vêm depois da festa das estrelas. Frutinhas de fogo.
Uns coraçõezinhos roxas, áureos, rubras, muito ardentes. Uns coraçõezinhos.
E as pequenas flores tão sem firmamento jazem longe. As pequenas flores...
Mudaram-se em farpas, sementes de fogo tão pungentes! Mudaram-se em farpas.
Novas se abrirão, leves, brancas, puras, deste fogo, muitas estrelinhas...
Na sacada da casa
Na sacada a saca da caçada.
Na sacada da casa.
E a casada na calçada.
Quem se casa de casaca?
Na sacada da casa a saca.
Na saca, a asa.
Asa e alça.
A saca da caça.
Quem se alça da sacada para a calçada?
A menina descalça.
A menina calada.
E na calçada da casa, a casada.
O violão e o vilão
Havia a viola da vila.
A viola e o violão.
Do vilão era a viola.
E da Olívia o violão.
O violão da Olívia dava vida à vila, à vila dela.
O violão duvidava da vida, da viola e dela.
Não vive Olívia na vila.
Na vila nem na viola.
O vilão levou-lhe a vida, levando o violão dela.
No vale, a vila de Olívia vela a vida no seu violão vivida e por um vilão levada.
Vida de Olívia -- levada por um vilão violento. Violeta violada pela viola do vento.
Procissão de pelúcia
Aonde é que vai o praça
que passa de peliça, com pressa, na praça?
Ia pôr uma compressa depressa no rei da Prússia?
Mas o praça não sabe o preço para ir da praça à Prússia.
E não há Prússia nem praça nem peliça nem compressa nem praça nem preço nem pressa...
Há uma procissão que passa que passa na praça só com preces de pelúcia...
Sonho de Olga
A espuma escreve com letras de alga o sonho de Olga.
Olga é a menina que o céu cavalga em estrela breve.
Olga é a menina que o céu afaga e o seu cavalo em luz se afoga e em céu se apaga.
A espuma espera o sonho de Olga.
A estrela de Olga chama-se Alfa.
Alfa é o cavalo de estrela de Olga.
Quando amanhece, Olga desperta e a espuma espera o sonho de Olga, a espuma escreve com letras de alga a cavalgada da estrela Alfa.
A espuma escreve com algas na água o sonho de Olga...
Os pescadores e suas filhas
Os pescadores dormiam cansados, ao sol, nos barcos.
As filhinhas dos pescadores brincavam na praça, de mãos dadas.
As filhinhas dos pescadores cantavam cantigas de sol e de água.
Os pescadores sonhavam com seus barcos carregados.
Os pescadores dormiam cansados de seu trabalho.
As filhinhas dos pescadores falavam de beijos e abraços.
Em sonho, os pescadores sorriam.
As meninas cantavam tão alto,
que até no sonho dos pescadores boiavam as suas palavras. Jardim da igreja
Dalila e Lélia, e Júlia e Eulália cortavam dálias.
Dalila e Lélia, Eulália e Júlia cantavam dúlias.
Dálias e dúlias E harpas eólias...
E a alada lua -- alta camélia?
-- célia magnólia?
Uma flor quebrada
A raiz era escrava, descabelada negrinha que dia e noite ia e vinha e para a flor trabalhava.
E a árvore foi tão bela!
Como um palácio. E o vento pediu um casamento a grande flor amarela.
Mas a festa foi breve, pois era um vento tão forte que em vez de amor trouxe morte à airosa flor tão leve.
E a raiz suspirava com muito sentimento.
Seu trabalho onde estava?
Todo perdido com o vento.